Facebook YouTube Contato

Sempre Julinho

Julinho era um pândego até quando seriamente preocupado. Um dia, já com o Dona Onça aberto, meteu um poncho e um lenço em volta do pescoço e furou o morro da Paulista para beber no São Pedro São Paulo. Pela Nove de Julho, é claro.
Ainda não eram seis da tarde e, por acaso, eu já estava lá. Horário dos profissionais. Ficamos só os dois, e ele aproveitou para me contar uma preocupação. Queria que eu tivesse uma renda permanente, independente de haver ou não freguês para o que eu sei e gosto de fazer, que é contar histórias.
A sugestão era abrir uma sapataria no Copan, carente do serviço. Você pega uma loja na galeria, equipa, contrata um sapateiro e ele fica lá, trocando saltinho de borracha, dando meia-sola, costurando bolsa, apertando cinto.
Achei curioso e fiquei de pensar no assunto. O apertar cinto era bem pontual. Eu estava emagrecendo com a redução de estomago e vivia cortando os cintos para manter a fivela no terceiro furo. E também ia muito ao Copan, na oficina do Armando, apertar as calças, as quais só abandonava quando os bolsos de trás estavam prestes a se encontrar.
Armando, seu Júlio veio com uma ideia de montar uma sapataria por aqui, o que você acha? Olha, sei não, a turma tem usado cada vez menos sapato, e ali na galeria entre a Dom José Gaspar e a Sete de Abril tem sapateiro; seu Júlio deve estar com preguiça de andar. Desisti.
Daquele banco na frente do Dona Onça, Julinho se divertia com as pratas da casa. Quanto mais cafajeste, melhor. Do Walério Araújo ele adorava repetir a história de quando uma freguesa perua, daquelas de turistar no Centro fantasiadas de onça, lhe tietou perguntando o que ele gostava de tomar: Gosto mesmo é de tomar no cu.
E o Peréio? Com este foi amizade instantânea. Equivalente fraterno do amor à primeira vista. Quando Jana o apresentou pessoalmente à Sabrina Sato, o grande ator se limitou a fazer bilu-bilu, sugerindo a piada tão século vinte, da japonesa escorregando pelo corrimão. Julinho se refestelava.
Nesta quinta-feira fui atrás de um #TBT. Achei um bem apropriado, de um Nove de Julho recente no banco do Julinho. Ele não está fisicamente, mas em espírito pelo próprio banco, a presença da Bandeira Paulista flamejando como os brises do Copan, dos amigos Luís Fernando Rangel, Josué Assumpção e o próprio Peréio. Tão Dona Onça celebrar um Nove de Julho no Copan com gaúcho à mesa.
As melhores conversas sobre 1932 aconteciam naquele banco com Julinho e Helito Bastos, paulistada empedernida. Falávamos dos nossos ancestrais que lutaram por São Paulo e pela Constituição. Helito contava dos aviões paulistas, que se escondiam do Getúlio em Campininha. Eram os vermelhinhos, orgulho bandeirante. Mas de vermelhinho, só os aviões. O Blood Mary ele prefere menos encarnado, e Julinho autorizava o garçom trazer “bem clarinho”.
Um dia, lá pelas 18h00, o almoço ia acabando e Helito pediu a conta. Quando chegou, reclamou: Júlio, este seu bar está muito caro! Onde já se viu uma conta dessa para almoçar? Mas o que você comeu, Hélio? O de sempre, meu PF com carne moída e purê. Mas não é possível, deixa eu ver… Hélio, olha aqui: um PF, 42, o mais são seis Stolichnayas, fora o choro. Ora, Júlio, e não é honesto o trabalhador tomar uma vodquinha para abrir o apetite?
Teve Copa na Onça, que abria de manhã para os jogos do Brasil. Cau Pimentel era o primeiro a chegar. Julinho chegava em seguida. No primeiro dia, às dez, Cau já estava com cachaça e cerveja. Julinho se assustou e perguntou se não era cedo. E o Cau: estou no fuso do jogo.
Na cachaça da Laje, Ismar Freitas conseguiu um feito: passe livre. Pode beber quantas quiser que a Jana não cobra. Julinho adorava o Ismar desde recém-formado, quando no Padock, levado pelo Flávio Mulata, combinou uma empreitada com o Zé do Pé: legalizar coreano. Humanistas.
Tenho que encerrar de novo. Mas como tudo isso sobre 1932 veio também pela audição do clarim do segundo Exército, às 8h00, tocando Paris-Belfort, tenho que emendar mais duas, uma musical e outra parisiense.
A primeira é o aniversário de quarenta anos da morte do Vinícius de Moraes. Julinho contava que, em turnê pelo interior paulista, o Poeta faturava bem, mas se aborrecia com as intermináveis serestas pós-show nas casas dos prefeitos e presidentes de clubes. Todos pediam o Soneto de Fidelidade. E do cansaço da repetição brotava a malcriação, levando o Vinícius a recitar assim: que eu possa dizer do amor, que tive / Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto duro.
A outra Julinho contava para amolar seu Otávio Junqueira Leite de Moraes. Dizia que um Junqueira tomou o vapor em Santos rumo a França. Na volta, num boteco em Orlândia, contava aos amigos suas impressões: olha, Marseille não presta não, areião danado, sô; já Paris, não, em Paris a terra é pretinha.
As duas juntas ainda falam do seu Otávio, que vinha a cada duas ou três semanas a São Paulo e pousava por três, quatro dias na casa do Julinho. No caminho, escalava em Campinas para as coisas do coração: namoro e cardiologista. Uma vez, já no dia seguinte, apareceu para o café carregando a mala. Julinho estranhou a pressa, ao que seu Otávio explicou: Seu Júlio, agora cedo o pau ameaçou ficar duro, então vou a Campinas passar no doutor, porque só pode ser pressão alta.
 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments