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Adeus, Armandinho

Entendedores, entenderão: ele comprou uma caixa de Noilly Prat. Uma caixa! Pergunto: mas o que você fez com doze litros? Ué, bebi no verão, primo.

Para quem não é do jogo, explico: o vermute branco francês que se tornou sinônimo de marca, ficou famoso por conta do Dry Martini. Alguns exagerados, conhecidos pelo consumo também exagerado do coquetel, chegavam a dizer que bastava a sombra da garrafa do vermute para temperar o gin que chegava à taça. Bartenders chefes de bares de hotéis centenários se orgulham de usar a mesma garrafa há décadas. E mesmo os puristas, como o especialista Edmundo Furtado, admitem, no máximo, uma parte de Noilly Prat para duas partes do gin da preferência do freguês. Façam as contas.

Armando de Arruda Camargo Filho era completamente exagerado. Em tudo. Principalmente em generosidade. Primo, quantas janelas tinha a casa do seu sítio? Não sei, primo; sei que quando da obra, tirei meia dúzia de marcenarias da concordata.

Em Paraty foi na mesma proporção. Chamou Mario Jurado e entregou as chaves, como naquele reclame dos anos 1980 que recomendava o mesmo ao Henri Matarazzo. Wall Paper daria na capa aquela casa que infelizmente só vi em fotos.

Quem conheceu a sede da corretora na rua Hungria até hoje se emociona de saudades. No final dos trabalhos, pouco antes das seis da tarde, os amigos começavam a se reunir. Primeiro na sala dele, então escalavam para a de reuniões, até que decidiam, entre garçons amigos e uma das melhores coleções de arte da cidade, se rolavam para Padock, Baiuca, Plano’s, Pandoro.

Sei lá quantas línguas Armandinho falava. Mas eram muitas. Em Busca do Tempo Perdido, leu e releu no original. Mas não se exibia. No bar, preferia reclamar do Silvio Santos quando o horário do Chaves mudava sem aviso prévio.

Havia algum tempo afastado do trabalho, mas seguia notado pela experiência. Um dia foi convidado para almoçar e ver se dava pé num cargo novo. Julinho de Toledo Piza e eu fomos esperar a notícia no São Pedro São Paulo. Armando chega e Julinho está ansioso. E o Armando: não deu, Julinho. Mas o que foi, Armando? Ora, há tantos anos afastado e querem levar meu passe assim, no bico? Recusei.

Craque de bola, jogou no lendário time do Pinheiros que reunia Mulata, Alemão, Esquerdinha etc. Quando a idade chegou, dedicou-se à sinuca. E com vigor. Poucos eram páreo para ele, que retribuía o dom incentivando o esporte. Talvez seja o único caso de alguém que foi manchete no Estadão em dois cadernos na mesma edição, esportes e economia.

Quando emagreci, me convidou para uma feijoada no Mercearia. Passamos a tarde toda. Então cruzamos a Nove de Julho até seu apartamento na Pedroso. Ele abre o guarda-roupas, tira três costumes de linho feitos sob medida e manda eu experimentar. Um cru, um azul e outro branco. Vestiram como se feitos para mim. E ele era a cara da alegria. Emendou: são seus. Foi um verão e tanto dentro das roupas do Armandinho.

Tinha algo de Roniquito de Chevallier. Educadíssimo mas achando piada em fingir que não. Nosso primeiro papo foi no Mulata, meu finado restaurante na Barra do Una. Me chamou para a mesa onde estava com Teca; conversa vai, conversa vem, e ele era pai da Fezuca e do Daniel, amigos de tantos anos. Depois conheci Mariana. E Loro, seu irmão tão querido. Também adorava contar as histórias do Bolão. E da tia ministra Esther de Figueiredo Ferraz, é claro.

Para explicar a história da educação profunda, que ele fingia não ter mas era mais forte do que ele, ainda nesse dia, lá no Mulata, alguém pediu a direção do banheiro e eu, displicente, apontei. E ele: não aponta! Não aponta! Armando acreditava que a Língua estava aí para que a gente pudesse prescindir de gestos, notadamente os vulgares.

Mais recentemente, já completamente pioso, arranjou uma provocação nova. Só queria saber do Itaim Bibi e fazia campanha para o Trump. Trocava e-mails com a campanha. Comprava decalques, camisetas, meias com a cara do louco estampada, broches. E montava banca nos botecos do Itaim, como se por lá eleitores houvessem.

De altos e baixos em tudo, inclusive ou principalmente no humor e nos modos, podia ser vários Armandos. Há mais ou menos um ano almoçamos num restaurante seu vizinho, com Helito Bastos e João Paulo Zumbi Arruda. Papo altíssimo, gostoso de acompanhar. Por outro lado, quando um bocó se juntava, Armando simplesmente latia. E com ferocidade.

Falei com ele pelo telefone na sexta-feira. Tristíssimo pela partida do Julinho, que ele fazia questão de presentear transmitindo velhos troféus recebidos em vida com o título “amigo dos amigos”.

Nesta manhã, Fezuca me ligou com a notícia: seu pai dormiu ontem e não acordou hoje. Descansou o Armandinho, em sono de criança, peralta, vá lá, mas criança como sempre foi, no melhor dos sentidos. Creio que deu tempo de pegar o mesmo voo do Julinho, para chegarem juntos à mesa de outros tantos amigos que estão lá em cima, brindando por nós. E no céu não há de faltar Noilly Prat jamais.

Valeu, Primo!

* Receita contra ressaca do Armando de Arruda Camargo: abacate e sorvete de creme batidos e cobertos, já na cumbuca, por uma dose de conhaque. Gordura, glicose e um chorinho para rebater. Sabia de tudo.

 
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