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A ralé saiu do armário

Todo santo dia, todo dia santo, chega um vídeo de um representante da ralé ensandecida. Pode ser vigia de supermercado, segurança de metrô, passageiro de ônibus, policial que pisa em pescoço, engenheiro que virou uber, desembargador, dançarina do Faustão, presidente da República. Aqui e alhures. A praga é mundial.

Antes que me acusem de elitismo, ralé é um conceito da filósofa política Hannah Arendt para definir todos os complexados que se sentem injustiçados pela falta do reconhecimento que julgam merecer. Como não conseguem no trato social pactuado, pregam quebrar o pau, romper com “tudo que está aí”.

Quer dizer, para a ralé não basta poder opinar, dialogar, participar da vida pública como todos os demais. A ralé quer prevalecer, anular o contraditório, calar o adversário. E para tanto vale qualquer tipo de força ou trapaça. Vale mentir, abusar de pode econômico, agredir fisicamente. Vale negar que ao meio-dia está de dia no Brasil “argumentando” que no Japão é meia-noite, e quem se espanta é acusado de ser radical e não aceitar a opinião alheia.

O curioso desse vale-tudo que rompe com o contrato social é que ele não escala em linha reta, mas gira em círculo. Historicamente é assim. Fora dos parâmetros que combinamos evoluindo ao longo dos anos, tudo pode ser, até que os últimos marginais se juntam para cortar a cabeça dos protagonistas que chegaram aos palcos pelo vale-tudo e, sem base, não convencem, não merecem, não representam.

Não é nada de novo nem é só brasileiro. Para citar três escolhidos recentemente, Doria é ralé, Bolsonaro é ralé, Trump é ralé. E é bastante antigo, especialmente em sociedades frágeis e mal estruturadas como a brasileira, que o “sabe com quem está falando?” prevaleça sobre o “quem você pensa que é?”, como definiu há quarenta anos o antropólogo Roberto da Matta.

Quando o círculo se fecha é a selva, a barbárie. E o instinto de sobrevivência leva mesmo os que estavam dispostos e convencidos de que é melhor seguir dentro dos parâmetros a abandona-los e topar o vale-tudo.

O trágico é que a roda parece começar a se formar quando a sociedade melhora. Quando a busca pela igualdade perante às leis e às oportunidades avança. E a ralé não suporta a igualdade. A ralé até consegue conviver com o sentimento de mediocridade e insignificância quando acredita haver pessoas inferiores. Se é nítido que a vida poderia ser pior, que há quem sofra mais, a ralé se segura. Caso contrário, se sente a “ameaça” do fortalecimento dos direitos universais, a ralé estoura, sai do armário.

No Roda Viva com o filósofo Silvio Almeida há um trecho em que ele explica bem a ideia. Recomendo. Lá nos Estados Unidos, onde ele vive e leciona, também há um estudo econômico que mostra como funciona. O cidadão que ganha cinquenta mil por ano e pertence a um grupo que ganha em média quarenta mil, se dá por satisfeito. Já o que ganha oitenta mil, mas vive entre quem ganha em média cem mil, tende à frustração.

Na prática o caso pode parecer complicado e arriscado. Mas conceitualmente é inequívoco: a sociedade não pode temer a histeria e se curvar a ela, deixando de avançar e muito menos retrocedendo. O risco da omissão conveniente não pode ser desprezado. É como naquela trova que mostra como começam perseguindo “diferentes”, pobres, pretos, indígenas, imigrantes, gays, mulheres, judeus, muçulmanos, até que acabamos todos engolidos ou sufocados.

O antídoto é dar consequência imediata a qualquer berro dos histéricos. É básico. Cortar o mal pela raiz. Consequência ou morte.

Respirem fundo. E avante. A ralé não vai passar.

 
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