Facebook YouTube Contato

Sem assunto, com afeto

Desde sempre ouço dizer que o homem inventou a roda, e a sentença soa mal aos meus ouvidos. Primeiro porque não pode ter inventado algo que está na natureza, nas plantas, nas frutas, na lua, no sol. No máximo, descobrimos ou adaptamos.

Depois porque provavelmente foi a mulher. Sei que homem, no caso, é no sentido de humanidade, mas aposto que a pessoa que notou a roda tem mais chance de ter sido mulher, que ficava na colheita, em convivência direta com as plantas.

O homem deve ter inventado a reta, que na natureza só existe no horizonte, inalcançável. Flechas e lanças para caçar. E dominar. Se impor à natureza. Tão masculino tudo isso.

Sim, é falta de assunto. Cansaço. Prestes a 140 dias de quarentena, o dobro dos mais ou menos setenta em que vivemos conforme o que nos acostumamos no começo do ano.

Também é tristeza por duvidar que vamos tirar algo de bom de todo esse sofrimento. Tantas vidas perdidas e os movimentos que vemos seguem pesando mais para o lado egoísta, entre os indivíduos e os governos e estados.

Pelo menos os dois maiores, China e Estados Unidos, seguem desprezando o óbvio, que seus modelos de produção e consumo são insustentáveis. Que sem entendimento internacional não haverá futuro.

A ressalva é a renda básica universal ter entrado na agenda do mundo todo. Se vigora, saberemos com o tempo. Está claro que não há alternativa. Há resistência, ideológica e cultural, ainda relacionamos renda a trabalho, mas não há outra opção – a não ser o deixar morrer.

Os empregos que sobreviverão às novas tecnologias serão precarizados. Salvo um ou outro, como enfermagem, só haverá trabalho enquanto a mão de obra humana valer menos do que um robô.

A esperança que me resta é poder estar de novo com as pessoas queridas jogando conversa fora em mesa de bar. E estudar, aprender por prazer. Ficar na minha e deixar o debate público para as mulheres, os negros, os indígenas, os gays, excluídos do processo histórico. Velhinho branco da classe média, impregnado de século vinte – meu caso – tem mais é que ficar quieto.

Por isso vou escrever menos, falar menos, evitar magoar as pessoas, trocar carinho com quem amo. Tentar ganhar algum para viver bem, mas com menos do que acreditei ser necessário até aqui. Acho que assim meu papel está de bom tamanho. Até.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments