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Você nunca, Moninha

Um dos próceres da geração dela disse que os bons morrem cedo. Verdade absoluta. E não tem a ver com idade, que é dado banal. Tem a ver com ser bom, que é o que importa. Sempre que alguém bom se vai é cedo para quem fica.

A máxima é do Renato Russo. Ou talvez Cazuza. Tanto faz. Ambos combinam com a Moninha, poeta de mão cheia, coração transbordante e apaixonada pela vida.

Monica Montoro nos deixou. De memória, me arrisco a reproduzir um verso dela: “Se insistes e provas, que nunca te amei / Então rasga as provas, que um dia te dei.” Pelo que me consta, ninguém rasgou. E note: foi um monte de gente.

Moninha amou completamente. A tudo, a todos, a si mesma – e como. Usou e abusou. Dela, de tudo, da vida. E teve reciprocidade. Em tudo.

Viveu a dor e a delícia de ser a caçula temporona de um casal público gigantesco, sua querida mãe Lucy e André Franco Montoro. A dor e a delícia da sombra que refresca e limita. A dor e a delícia das portas abertas e da exposição da vida privada. A dor e a delícia de ser fruto de um casal preocupado com o coletivo tanto quanto com o particular.

Era querida e requisitada em todos os lugares. Botecos de machos do século vinte, galerias clássicas e contemporâneas, cabarés progressistas de qualquer tempo, saraus dos mais refinados. Telefonava de madrugada para perguntar por quem os sinos dobram e, logo em seguida, de olho no fuso horário do Vaticano, chamava Dom Geraldo (que enviou uma mensagem linda pela Páscoa da Moninha desde Roma) para uma prosa e em seguida dormir em paz.

Trabalhou na era dourada da DPZ. Foi das primeiras integrantes da redação estrelada que criou o Jornal da Tarde. Se divertiu até trabalhando. E levava a turma da firma, a turma toda, para onde podia. Ou até mais do que podia.

Fui criado como seu sobrinho. Depois desconfiamos que éramos irmãos. Pela regra, fomos primos. Mas de vez em quando ela reclamava maternidade, porque nascemos no mesmo 17 de junho. Eterno quiproquó geminiano.

Dizia que eu era o pior tipo de cafajeste, porque amável e atencioso. Galinha genuíno, que cisca e choca. Gêmeos de novo. Espelho.

Pode parecer que tudo isso é mais sobre mim do que sobre ela. E pode ser. Aliás, deve. Ela dizia que os romances são sempre sobre quem escreve.

Todo seu trabalho artístico foi dedicado ao Brasil. Fez muito. Cantou o Vale do Ribeira como se criada por lá. Cantou a beleza do Varal, que é nosso quintal. As araucárias da Mantiqueira. A Política Poética de Franco Montoro, filme lindo que ela produziu e narrou sobre o pai, fala dele, é claro, mas é sobre o Brasil possível que ela viveu.

Pelo que acreditamos, Moninha partiu simultânea à live do Caetano. A dor e a delícia acima entraram também por causa dele. Pela internet, tenho certeza, ela não viu. Talvez já do céu ou da fila de embarque. Ela adorava comparar a vida pública do pai com a arte do Caetano: para muitos incompreensível pela vanguarda. De novo, era também sobre ela.

Mas dos tantos poetas seus colegas, o que nos une é o Chico. Por Maninha, moda de festas juninas que ela adorava e casavam com nosso aniversário. Ela cantava Luar do Sertão, e eu devolvia: Se lembra do futuro, que a gente combinou / Eu era tão criança e ainda sou / Querendo acreditar, que o dia vai raiar / Só porque uma cantiga anunciou / Mas não me deixe assim tão sozinho a me torturar / Que um dia ele vai embora, Moninha, pra nunca mais voltar.

Ele vai embora, Moninha. Ah, vai. Você, nunca.

(Ah, fez um pôr do sol lindo enquanto choviam pétalas de rosas em sua homenagem. Rico, seu irmão que contrariou a família escolhendo o Corinthians, time que você escolheu em solidariedade a ele, puxou aplausos. A vizinhança estava em festa e soltava um foguetório firme, como nas festas juninas. E o final não importa, vale o jogo, Moninha artilheira.)

 
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