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Vaidade e silêncio

Em 2012 fui ao iFHC ver uma mesa sobre as novas classes médias na Índia e na África do Sul. Ouvindo o Pratap Bhanu Metha, intelectual indiano e então presidente do Centro de Estudos Políticos de Nova Deli, tive um estalo: mil milionários valem mais do que um bilionário.

Mas foi só em 2013, quando enfim o BNDES avisou que encerraria a política de criação de campeões nacionais, que anotei a sentença como está acima. Nem precisava ter dado em tanta corrupção e prejuízo. Fazer mil milionários será melhor do que um bilionário em qualquer circunstância. Achei os textos, mas não trago os links porque incluem passagens erradas ou já fora de contexto, e hoje só quero me exibir.

O motivo do domingo empavonado é duplo, está no Estadão e na Folha, respectivamente na boca e na pena de dois intelectuais destacados.

Primeiro o que abre esta crônica: Scott Galloway, professor colocado entre os cinquenta melhores das escolas de negócios do mundo pela Poets & Quant e eleito pelo Fórum Econômico Mundial como um dos Líderes Globais do Amanhã, é o entrevistado de hoje do Luciano Huck, no Estadão. E já no subtítulo da entrevista estão as aspas que o editor entendeu merecedoras de destaque: “mais milionários e menos bilionários.”

Na Folha, o antropólogo Hermano Viana escreveu contando como foi testar o GPT-3, programa de inteligência artificial (IA) capaz de criar textos. Não sei se GPT tem a ver com Gepeto, mas suspeito que sim. E o robô, mentiroso bom como todo romancista, mesmo alfabetizado em inglês foi capaz de brincar com uma frase de Guimarães Rosa. Pois é. Aceita que dói menos.

Logo em seguida, Hermano anota o óbvio: com IA os empregos vão sumir e a renda universal será necessária. Isto eu falo desde 2017, quando me toquei que com as novas tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos; que o modelo chinês ou americano de produção e consumo, escalado de 1,5 bi de pessoas para 7 bi, explodiria o mundo antes do Natal; que a concentração de renda tende a colapsar o capitalismo.

Então me desculpe esta freguesia, mas acredito que tenho motivos para estar exibido. E é o que farei. Satisfação tem sido artigo raro e, se apareceu, vou dedicar o domingo ao onanismo intelectual.

Porém não sem antes explicar o por que da minha ausência nesta página. Um dos motivos vem disso, de me sentir repetitivo, e como não sou o Nelson, Flor de Obsessão, nem Franco Montoro, que “repetia, repetia e ainda deixava uma anotação”, cansei.

Some-se a distância das calçadas e dos bares que são meu combustível; a marmota no noticiário político, dando exatamente conforme o previsto, e cuja exaltação só faz entristecer os inteligentes e irar os cretinos; a miséria que é ver nossos problemas crônicos tornados agudos pela crise sanitária e econômica.

Tudo isso eu junto e multiplico pela preguiça de debater o que está no ar. Tas versus Adnet no Roda Viva, por exemplo. O primeiro fez uma pergunta impensada e o segundo devolveu resposta imprecisa: nem direita versus esquerda é um conceito, nem o comunismo chegou a ser praticado depois de formulado (quem chegou mais perto foi a Europa mediterrânea em suas comunas).

Direita versus esquerda é só um dado histórico. Estivesse eu naquele salão em 1789, provavelmente estaria do lado direito, ao lado dos girondinos, porque sempre desconfio das consequências das guilhotinas, preferidas dos jacobinos. Mas vale notar que meu lugar de fala é de homem branco, classe-média-pão-de-ló do século 20, que sabe como a história se desenrolou e que havia tempo para uma transição pacífica. Estivesse com fome, frio e sem horizonte naquele então, sei lá.

Hoje, diante do eminente colapso climático, da abjeta precarização do trabalho, da insustentável desigualdade financeira, da intolerável estrutura social racista, machista, homofóbica, demofóbica, me sinto do lado esquerdo do salão, porque é urgente fazer a transição.

Por fim, sinto que quem tem que falar agora não sou eu. É ridículo que todos os citados até aqui sejam meus pares, homens, brancos da classe-média do século 20. Agora é a vez das mulheres, dos pretos, dos indígenas, dos homossexuais e todos os excluídos do processo político histórico.

Quem tem que falar é Djamila Ribeiro, Rosana Pinheiro-Machado, Alexandra Ocasio-Cortez, Svetlana Tikhanovskaya, Sônia Guajajara, Jacinda Ardern, Monica de Bolle, Laura Carvalho, Tati Roque, Mariana Mazzucato, Emicida, Aldino Vilão, Greta Thunberg, George Floyd in memorian. E o Silvio Almeida. O filósofo Silvio Almeida tem que falar todo dia em todo lugar.

Imagine esta freguesia que a inteligência artificial que construímos reconhece pessoas pretas como gorilas, por ter sido acostumada com pessoas brancas. Está no artigo do Hermano Viana. É absurdo. É a consagração do racismo estrutural tão bem explicado pelo Silvio Almeida. Não podemos dar mais nenhum passo assim.

Concluo que cabe a mim ficar quieto, calado, só observando e sempre às ordens. De onde? De uma calçada de bar. Quem paga a despesa? A renda universal. Quem paga o espírito? A vaidade de ver dar certo. Tenho certeza que no fim das contas será melhor para todos.

 

 

 
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