Facebook YouTube Contato

45 dias imprevisíveis – um olhar sobre a largada eleitoral

Inaugurada oficialmente no domingo 27 de setembro, a corrida pelas prefeituras deve ser turbulenta como todo o mais nos últimos tempos. Aqui trataremos de São Paulo, capital. São 45 dias imprevisíveis.

Celso Russomano colocou o bloco na rua. Antes receoso em função das duas últimas rodadas, quando começou isolado na frente e não chegou sequer ao segundo turno, feito que lhe rendeu a pecha de “cavalo paraguaio”, desta vez foi encorajado pelo apoio do presidente Bolsonaro.

Na leitura do capitão, que coincide com a de muitos analistas, a aliança paulistana entre PSDB, MDB e DEM (entre outros partidos) é o ensaio da candidatura do governador João Doria para a Presidência em 2022. E em se tratando de São Paulo, para além do que o significado da disputa BolsoDoria carrega, isto é, vitória ou derrota de seus candidatos, o tamanho do colégio eleitoral e do orçamento podem ter peso político-eleitoral numa eleição nacional.

Houve insistência por parte de Bolsonaro e Russomano acabou cedendo, com apoio do PTB do ora bolsonarista Roberto Jefferson, que desfez a pré-candidatura do ex-presidente da OAB-SP Marcos da Costa, ficando este com a vice na chapa encabeçada pelo Republicanos.

O apoio tem se confirmado, ao contrário do que até anteontem dizia o presidente sobre se afastar do primeiro turno em função da agenda de trabalho. Bolsonaro citou em live a possibilidade de apoiar candidatos em São Paulo, Santos e Manaus, posou para fotografia com Russomano quando este o visitou na convalescência da intervenção cirúrgica na bexiga, e nos bastidores afiançou que colocará suas tropas virtuais nas trincheiras “russas”.

A estratégia de Russomano, portanto, será deixar que os subterrâneos operem – e pelo histórico deve ser antes atacando adversários do que promovendo o próprio candidato –, enquanto se aproveita do isolamento social para tentar manter o isolamento nas intenções de voto, faltando a debates e evitando exposição desnecessária. É antes não perder do que ganhar.

Três destaques: Sabe-se do que é capaz a máquina virtual bolsonarista; em que pese 46% do eleitorado paulistano considerarem o governo Bolsonaro ruim ou péssimo (Datafolha 21-22/9), sobram apoiadores (29% de ótimo e bom) para fortalecer o passaporte de um indicado seu para o segundo turno; o apoio da Igreja Universal do bispo Macedo, cujo braço político é o Republicanos, e o midiático é a TV Record, respectivamente partido e emissora onde Russomano é filiado e apresenta um programa, não bastou para coloca-lo no segundo turno em outras eleições, mas obviamente tem peso.

Para concluir a novidade da largada, a entrada de Russomano no pleito já alterou e vai alterar ainda mais a chamada raia preferencial, que reúne os quatro primeiros colocados nas pesquisas, especialmente desidratando os “centristas” Bruno Covas e Márcio França, este último notadamente prejudicado inclusive nas interlocuções com empresários que, assediados pelo Planalto via FIESP, poderiam ajuda-lo na tentativa de desacelerar Doria – agora boa parte desse apoio migrará para Russomano.

Bruno Covas deve repetir a estratégia de evitar exposição e confronto, apelando primeiro para o exemplo de ter que evitar as aglomerações (já capenga pela reunião com candidatos à vereança num teatro fechado), depois por ter horário de campanha restrito pela agenda de prefeito (somente fora de horário comercial e finais de semana), e ainda porque ser prefeito já lhe garante agenda pública e notícia. De novo, é antes não perder do que ganhar. Seu vice, Ricardo Nunes (MDB), além de participar com o possível acordo entre PSDB e MDB em 2022, tem curral eleitoral na Zona Sul, única região em que Doria foi derrotado em 2016.

A dificuldade da prefeitura no controle social para o combate à pandemia é gritante. Estive num velório no cemitério São Paulo, em Pinheiros. Dos seis guardas municipais responsáveis pelo local, nenhum usava máscara. Não havia cartaz com orientações de protocolo e muito menos álcool em gel à disposição. Bebedouro liberado. No Parque do Ibirapuera o respeito às normas são uma escolha individual, não há qualquer interferência dos raros vigilantes e a GCM sumiu.

Guilherme Boulos enfrenta uma dificuldade. Segundo o DataFolha, é o predileto para 18% dos moradores da rica Zona Oeste, enquanto só 2% dos estratos mais vulneráveis o querem prefeito. Nítida dificuldade de comunicação com tais camadas, para as quais se dedica pessoalmente bem como seu partido, o PSOL. Por tão baixo, o índice deve aumentar com o desenrolar da campanha, mas se a base petista trabalhar por Jilmar Tatto vai lhe atrapalhar, e Covas pode absorver algo do apoio de Marta Suplicy, popular na periferia.

Na raia retardatária, os estridentes conseguem chamar atenção cutucando feridas já bastante inflamadas da cidade, como as cracolândias matriz e filiais, pancadões, assistência social do padre Júlio Lancelotti. É o caso de Arthur Mamãe Falei, do Patriota. Também o de Joice Hasselmann (PSL), que dispara contra tudo e contra todos alternando a comunicação com conteúdos que lembram a de uma blogueira juvenil.

A deputada estadual Janaina Paschoal (PSL), parlamentar mais votada da história do país com mais de dois milhões de sufrágios, participa da campanha, porém com um pé em cada canoa, ambas retardatárias. Acena a Mamãe Falei e a Andrea Matarazzo (PSD).

A candidatura de Filipe Sabará, do Novo, foi suspensa pelo próprio partido. O processo é interno e sigiloso, mas a declaração sobre Paulo Maluf ter sido o melhor prefeito da história, a declaração de bens revista de R$ 15 mil para R$ 5 milhões e a falsificação sobre formação acadêmica pesaram e ganharam as redes. O constrangimento interno é alto, causou cisões e o exaltado processo seletivo de candidatos, encomendado a uma empresa que seleciona executivos para a iniciativa privada, vem sendo questionado por dentro e motivo de deboche por fora.

Se a apatia vinha num crescente entre os eleitorados do mundo todo, derivando em continuados recordes de abstenção alhures e aqui, desta vez temos a pandemia, que tanto pode agravar o não comparecimento como estimular as falanges que ideologizaram a crise sanitária. A ver. O que temos para hoje é 20% de eleitores declaradamente inseguros em comparecer para votar contrastando com recorde de mesários voluntários inscritos. Ainda há o risco de uma segunda onda provocar uma autorização para voto facultativo, o que tende a prejudicar sobretudo os candidatos “centristas”, de eleitorado menos apaixonado.

A nacionalização da campanha vai se confirmando inevitável não só pelo comportamento dos candidatos ou a preocupação dos caciques com 2022, mas também pela pauta da imprensa. A Folha de S. Paulo montou praticamente uma sucursal em Jaboticabal (SP), cidade com 75 mil habitantes. Motivo: um primo de Bolsonaro concorre a prefeito.

Os debates já estão com datas marcadas nas principais emissoras, exceto a líder TV Globo, que pela quantidade de candidatos propôs um acordo para poder convidar só os líderes nas pesquisas – algo difícil de cravar quem serão. Mesmo assim, como aposta que poderia ser bancada por qualquer candidato que acredite de fato poder crescer durante a campanha, é improvável que o acordo vingue. Já os demais debates perdem pela dificuldade de embates e aprofundamento dos temas abordados entre tantos debatedores.

Enquanto isso a população sofre. Não há supermercado sem uma família na porta pedindo por qualquer tipo de ajuda. O setor de serviços que sobreviveu, com ou sem ajuda dos governos, ainda assim sofre. O comércio viveu verdadeira revolução em seis meses. O imobiliário residencial está aquecido, mas ninguém sabe o que será dos escritórios. Serviços de entrega por aplicativo estão em alta, mas a precarização do trabalho é insustentável. Taxistas e ubers, que já vinham penando, não conseguem manter o padrão de vida. Quem vier a ocupar o Edifício Matarazzo em 2021 terá um abacaxi e tanto para descascar.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments