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Sobre a CPI e a manifestação

Sem qualquer esperança de ser compreendido por quem ainda defende o governo atual, explícita ou veladamente, farei anotações sobre dois fatos atuais: CPI da Pandemia e manifestações.

Antes, insisto: se o possível freguês ou freguesa desta página não se escandaliza com a tragédia que o governo atual patrocina; se toma os remédios que o inominável oferece até para os bichos, seja o gado que o aplaude nos currais, sejam as emas dos jardins do Alvorada; se queria ver imunização de rebanho com um milhão de mortos; se ignora medidas de proteção como uso de máscara e distanciamento na pandemia, seguindo o comportamento do monstro; se propaga desconfiança contra vacinas e relativiza a recusa em compra-las e distribuí-las; se dorme em paz sobre 463 mil mortos; seu lugar não é aqui, com você não quero conversa: porque é inútil e porque me faz mal saber que gente que eu tinha como minimamente sensata procede assim.

Sobre a CPI: ao contrário do que aconteceu em outras comissões históricas, eu acreditava que esta, do genocídio, seria uma comissão parlamentar de simples documentação, não de inquérito, porque os crimes contra a humanidade todos vimos acontecer durante os últimos meses. Logo, bastaria aos senadores relatar e oficializar o desfile de horrores e encaminhar ao Ministério Público para iniciar os processos de responsabilização e penalização dos culpados.

Porém, já no depoimento do primeiro egresso do governo, que apareceu para mentir e dissimular os crimes cometidos, fatos novos surgiram, agravando uma situação que já era para lá de absurda. Por meses recusamos vacinas. Havia ou ainda há um gabinete paralelo para questões de saúde. Tentou-se alterar bula de remédio sem base científica, na canetada. Uma técnica do ministério da Saúde admitiu que enxerga pênis até na fachada da FIOCRUZ e por aí vai.

Daí que desse manancial de tarados ainda deve sair muita coisa. E a estratégia de deixa-los falar, ainda que sob o risco de reforçar as convicções da parte da população que segue o inominável, me parece acertada, melhor do que prender quem mente.

Ao cabo, teremos um relatório que será enviado ao Ministério Público, e o procurador-geral da República terá que trabalhar. Entendo quem duvide que seu comportamento mude, dado que passou os últimos meses lavando as mãos – e não por prevenção sanitária – e a consciência, sujando o currículo. Mas a instituição tem dado demonstrações que resiste ao aparelhamento e, se for otimismo demais da minha parte, ainda há os tribunais internacionais para processar quem cometeu crimes contra a humanidade.

Sobre as manifestações, as que o próprio governo convoca não merecem comentário. A regra histórica, em qualquer tempo ou lugar, é que governo só convoca manifestação popular quando sente que está no fim. Vide o Collor, não por acaso aliado fiel do governo Bolsonaro. Mas como toda regra tem sua exceção, outros governos que chamaram manifestações em benefício próprio foram os ditatoriais e totalitários, nazismo, fascismo, castrismo etc.

Vou falar do 29 de Maio que eu vi aqui em São Paulo. Do ponto de vista sanitário, sem dúvida é arriscado fazer manifestações. Mas mais arriscado é não protestar contra este governo. E o que eu vi na Paulista foi gente reunida com distanciamento e uso de máscaras de proteção, muitas delas PFF2, que é a mais eficiente. (Compre as suas, são muito mais baratas que as de pano.)

Nas redes, li considerações perigosas sobre as cores das bandeiras presentes em todos os estados do país. Os pragmáticos assumiram o risco de reclamar da presença de bandeiras vermelhas. E os dogmáticos se revelaram dizendo que, perto de bandeiras vermelhas, não marcham.

Isso é muito perigoso. Por pragmatismo ou crença, negar a legitimidade de toda e qualquer pessoa se manifestar é inaceitável. Geralmente começa com uma cor de bandeira, depois avança sobre uma cor de pele ou de um grupo social, então pega uma etnia, corta uma religião, e sabemos como acaba.

Nunca me preocupei com quem está numa manifestação, sempre com qual é a mensagem. Concordando com a mensagem, aliás, quanto mais cores vejo no entorno, mais contente eu fico. E sobretudo agora, que estamos diante deste horror, é bem-vinda toda e qualquer bandeira que se aliar contra o negacionismo, a necropolítica, o cotidiano do absurdo, a grosseria esportiva. É bem-vinda toda e qualquer bandeira a favor da democracia.

Se uma bandeira vermelha, uma folha verde, um arco-íris te incomoda mais do que quase meio milhão de mortos, você precisa fazer uma reflexão pela vida, pela sua própria, mas também pela vida em si.

Estarei ao lado de todos que querem o Brasil de volta ao racionalismo e à civilização. Isto é, estarei ao lado de todos que querem o fim deste governo. Nossa separação só tem um interessado: o genocida. Antes precisamos supera-lo, investir nossa energia na conciliação com divergentes racionais e não gastar tentando esclarecer delirantes. Voltar à realidade dos fatos é o que urge, depois voltamos a discordar ou concordar sobre fatos ou ideias.

 

 

 
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