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Luto e luta contra o genocida

Hoje o inominável esteve no Rio Grande do Norte e conseguiu se superar. Haja esforço para alguém como ele conseguir se superar. Mas conseguiu: a uma menina de dez anos que subiu ao palco, mantendo o distanciamento e usando máscara, ele pediu que tirasse a máscara e então chegou a uma distância não recomendada. Depois, tendo com sua claque, pegou um menino no colo, que também usava máscara, e tirou a máscara do menino. É inacreditável. E é ele em estado puro.

O pior é que vai piorar. Não duvidem: ele consegue, conforme demonstra diariamente. Porém vai piorar à medida em que ele e seu governo perdem força. Popularidade em baixa, desconfiança em alta, CPI descobrindo o que ele tentou esconder, aliados de anteontem apresentando novas denúncias de corrupção, mais pessoas vacinadas tomando coragem para ir às ruas protestar. Centenas de milhares estiveram no último ato, no dia 19 de junho, e assim, com mais vacinas, a próxima, no dia 24 de julho, vai ser muito maior.

É para estarmos juntos que eu gostaria de chamar cada um de vocês que tem a bondade de ler o que escrevo. Como já anotei aqui, sei que entre os ausentes há três grupos principais.

Primeiro, os que prudentemente temem o vírus e evitam aglomerações. Estou entre eles. Mas fui às duas manifestações e, usando máscara PFF2 e mantendo distanciamento, é seguro estar lá. Minimamente é bem menos perigoso do que ser governado por Bolsonaro.

Depois temos os que veem nas manifestações algo além de luto por quinhentas mil mortes e luta contra o genocida. E o algo além é principalmente uma bandeira vermelha – que de fato estiveram e estarão lá, mas que não significam que quem também está tomou algum partido. Aliás, entre a primeira e a segunda manifestação, novas cores foram aparecendo. Roxo, laranja, preto, preto e branco, verde, amarelo, verde e amarelo. Esta última foi uma alegria especial, depois da subtração causada pelo discurso “meu partido é o Brasil”, cujo significado é “quem discorda de mim, é contra o Brasil”. O nome disso é fascismo. Na próxima muitas novas cores virão. Precisamos de todas juntas, como foi nas Diretas contra a ditadura militar, e é sobre isso que vou falar depois de destacar o terceiro grupo.

No terceiro grupo evidentemente estão os apoiadores do inominável. Com estes não quero perder tempo. Votou nele? Paciência. Eu também já errei voto, sei como é. Mas seguir apoiando, depois de tudo, é intolerável. A estes, me limito a perguntar se entregariam seus filhos ou netos no colo dele para ele fazer o que fez hoje com as crianças potiguares. Porque é exatamente o que vocês estão fazendo com o país onde eles vão crescer.

De volta ao segundo grupo e ao que interessa aqui: energia para convergência. Precisamos estar juntos nas ruas no dia 24 de julho. Mostrar nossa indignação com as barbaridades diárias, transformar nossa dor em solidariedade. O que fazemos quando perdemos um ente querido e aparece um desafeto na despedida? Armistício. Nos despedimos juntos. Ora, perdemos mais de 500 mil. Temos que nos unir.

A gente tem que parar de atacar uns aos outros. Debater ideias, sempre. Mas a urgente é como vamos fazer para nos livrar do inominável. Exemplo: se alguém me convidar para falar sobre como somos maltratados pelos grandes bancos, vou adorar. Juros absurdos, taxas inexplicáveis, atendimento tosco. Mas se tem um agiota miliciano ameaçando moer meus joelhos, tirar minha vida ou de quem eu amo, antes vou morrer de saudade do Itaú.

Notem a convergência internacional. Há quem considere a relação entre EUA e China uma nova guerra fria. E o que aconteceu esta semana, depois das manifestações de sábado? Biden mandou entregar três milhões de doses de vacinas, daquela que basta uma dose, portanto suficientes para imunizar três milhões de brasileiros. É o maior lote diretamente doado para qualquer país. E o Butantã receberá da China depois de amanhã mais seis milhões de litros de insumos, para produzir mais dez milhões de doses.

Insisto: Biden até hoje sequer falou ao telefone com Bolsonaro. E a China já demonstrou de inúmeras maneiras sua insatisfação com as malcriações do atual governo brasileiro. Por que estariam sintonizados em nos ajudar com a vacinação? Palpite: querem os brasileiros nas ruas protestando contra o inominável.

Se EUA e China, que não se entendem, concordam que é absurdo e inaceitável um país como o Brasil ser governado por um tipo como Bolsonaro, o mínimo que podemos fazer é buscar entendimento interno. Igual a tomar injeção, não é gostoso, mas é necessário e é urgente.

Só mais um para encerrar: quem não estranha o fato de Bolsonaro ter passado três meses e 101 e-mails ignorando ofertas de vacinas da Pfeizer? Em dezembro ele disse aquela cretinice sobre virar jacaré. Ora, em 2020 seu ídolo Trump ainda era presidente e a farmacêutica americana fazia a America Great. Implicar com a vacina do Butantã, com a China, com o João Doria, era esperado. Mas com os EUA? Não fazia sentido. Agora, com a denúncia de corrupção envolvendo outra vacina, começa a fazer.

 

 

 
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