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General ladra e Centrão morde

É difícil falar em escalada de tensão quando estamos vivendo há dois anos e meio sob o governo do inominável e a maior pandemia em mais de cem anos. Mas o fato é que nos últimos dias dava para sentir algo ainda mais tenso no ar seco que vem de Brasília.

 

Seriam as manifestações cada vez maiores? O desemprego e a fome que massacram o país? As pesquisas que mostram o inominável definhando? A iminência da marca devastadora de 550 mil mortes pela pandemia? O avanço da CPI que – ao contrário do palpite que anotei aqui – revelou indícios de crimes ainda piores do que o negacionismo e a militância anticiência e contra a vida?

 

A matéria das repórteres Andreza Matais e Vera Rosa, no Estadão de hoje, mostrou que sim: há quatorze dias o ministro da Defesa general Braga Netto teve a audácia de mandar um recado para o presidente da Câmara Federal: sem voto auditável não terá eleição. Isto é: o ministro responsável pelas Forças Armadas, ele próprio general, ameaçou o presidente da Câmara com um golpe militar.

 

Coisas dispensáveis que em pleno 2021 somos obrigados a dizer: as eleições no Brasil são auditáveis e, ainda que houvesse alguma dúvida séria a respeito do sistema, não seria assunto para ministro da Defesa.

 

Importante aqui é a causa do delírio do general: a CPI avança sobre os militares envolvidos nas denúncias de corrupção em negociações de vacina e produção de cloroquina, e para além dos coronéis ou do general Pazuello, chegou no gabinete do capitão e agora vai circular pelo Palácio, inclusive pela Casa Civil, que até outro dia era ocupada por quem? General Braga Netto.

 

Imediatamente após ouvir o recado, Arthur Lira, presidente da Câmara, foi ao Palácio da Alvorada para um tête-à-tête com o inquilino, deixando bem claro que a aliança entre ambos tem um limite: em tentativa de golpe ele não entra.

 

De lá pra cá o presidente do Congresso Rodrigo Pacheco fez uma fala bastante acima do seu tom habitual, o presidente da República passou a soluçar, parou de evacuar (pelos fundos) e passou uns dias hospitalizado em São Paulo, a proposta do semipresidencialismo galopou, o presidente da Câmara foi viajar e passou o bastão para o vice Marcelo Ramos, que presidiu a sessão de aprovação da LDO, incluindo o fundão eleitoral de R$ 5,7 bilhões.

 

(Os parlamentares mais fiéis ao inominável votaram a favor, incluindo seus filhos, inclusive o ZeroUm, Senador Rachadinha, que exatamente igual fez no ano passado, em seguida foi às redes dizer que tinha se confundido.)

 

E a escalada continua: o vice-presidente da Câmara Marcelo Ramos se declara de oposição, desafia o inominável a vetar o fundão – o que desagradaria o Centrão – e diz que quer analisar alguns dos mais de cem pedidos de impeachment que dormem na gaveta de Arthur Lira.

 

Encurralado, o inominável praticamente entregou o governo ao Centrão: humilhou mais um militar, dessa vez o general Luiz Eduardo Ramos, e mais uma vez o ex-superministro Paulo Guedes, tudo para atender ao chefe do Centrão senador Ciro Nogueira – quem 2017 já dizia: Bolsonaro fascista. A quadrilha foi assim: Nogueira fica com a Casa Civil, que era de Ramos, que pega a Secretaria Geral, que era de Onyx Lorenzoni, que fica com a recriação do ministério do Trabalho, até então na mão de Guedes.

 

Tudo isso para que? Para nada. O apetite no Centrão nunca acaba. E, cada vez mais acuado, a tendência do inominável é apelar e dizer sempre uma barbaridade nova. Sossego só teremos quando o governo acabar.

 

Por sinal, neste sábado, 24 de julho, todos na Paulista: ato contra o governo genocida e golpista ainda mais amplo, com adesão oficial de vários partidos. Estarei lá.

 
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