Facebook YouTube Contato

Voto impresso ou a quem interessa a fumaça

Cabe comemorar a derrota da proposta de emenda constitucional (PEC) para a volta do voto impresso na Câmara Federal? Cabe. Mas com moderação.

Primeiro porque a proposta era no máximo uma das fumaças do almoxarifado bolsonarista, junto com mamadeira de piroca, fantasma comunista, cloroquina etc. Nunca foi pra valer. Tanto é que, nos EUA, o voto é em cédula, o bolsonarismo de lá contestou o resultado, e o bolsonarismo daqui fez do Brasil o último país do mundo a reconhecer a eleição de Biden.

Depois porque foi uma derrota sob medida, bem cortada e costurada pelo Centrão. A rigor teve mais voto (eletrônico e até on-line) pela volta do voto impresso, mas como emendar a Constituição exige pelo menos dois terços dos votos, a consagrada urna eletrônica seguirá.

Não sei como fazer para escapar do fumacê diário. Numa pandemia com 565 mil mortos, quinze milhões de desempregados, miséria pelas ruas, fome, inflação, retrocessos ambientais, culturais, sociais, fica ainda mais exaustivo passar os dias tossindo sob as fumaças provocadas pelo presidente da República. É desesperador.

Talvez seja o caso de perguntar a quem interessa a fumaça. O que acontece atrás da cortina? E por que, apesar das óbvias limitações cognitivas, o inominável do Planalto continua fumegando, alheio às consequências judiciais, aqui e alhures, que terá quando não for mais o Presidente?

Se a gente olhar as boiadas que estão passando enquanto a fumaça grassa, teremos indícios para a resposta. Na segunda-feira tivemos proposta de incentivo à prorrogação do uso de carvão ao mesmo tempo em que os cientistas alertavam para a irreversibilidade dos danos ao clima no planeta.

Ontem passou na Câmara o texto base da medida provisória do subemprego, que libera, entre outras coisas e por um prazo determinado, a contratação de trabalhadores de dezoito a 29 anos, ou acima de 55, praticamente sem vínculo trabalhista, sem salário mínimo, direito à férias, 13º, FGTS.

Carvão é energia barata, produção barata. Subemprego é mão de obra barata, produção barata. Bom para as finanças? Talvez. Mas para a economia, que é meio-ambiente + sociedade + finanças, é péssimo. A conta não fecha.

Se é ruim para a Nação, como essas aberrações passam, ainda que algo escondidas, entre parlamentares que dentro de um ano começarão a buscar votos para se reelegerem?

Bom, outra coisa que passou na comissão especial de reforma eleitoral foi o Distritão, delírio do Centrão, conhecido como pior sistema eleitoral do mundo. Na prática, a eleição para o Legislativo deixa de ser proporcional e passa a ser majoritária. Mas diferentemente do modelo distrital, que reduz a região de representação, segue valendo, por exemplo, o estado de São Paulo inteiro. Quer dizer: campanha para deputado custará caro como a de senador ou governador. Quem vai pagar a conta? Acho que está respondido acima.

E o inominável, por que topa tudo isso, se depende de votos? Ora, porque ele foi eleito para tanto. No campo conservador e/ou liberal havia outros candidatos em 2018. Havia Geraldo Alckmin, João Amoedo, Henrique Meirelles, Álvaro Dias. Todos do campo conservador ou liberal e até algum namoro com o laissez-faire. Mas nenhum bancaria a destruição atual.

Então o único que atendia aos anseios da classe dominante era Bolsonaro. E ele está entregando. Tanto que a turma assistiu e aproveitou calada até ele ameaçar as eleições, e então fez um abaixo assinado e combinou um freio honroso com o Centrão.

Classe dominante é muito pouca gente. Menos de 1% da população. Mas é quem paga a conta nas eleições.

Nosso problema é o distinto que tem uns centos de mil dólares na Bolsa acha que faz parte da chamada Faria Lima. E que muitos escravizados por aplicativos acreditem ser empresários, “empreendedores individuais”.

Boa parte do PSDB, do Novo, do PSD, do DEM, do MDB, Podemos, Cidadania e até do PSB e do PDT jogam para a torcida e para a boiada passar. E vão continuar. São marionetes do Centrão, que ganha bem para cortar e costurar sob medida as encomendas da Faria Lima.

Ontem o PP de Arthur Lira e o PL de Waldemar Boy da Costa Neto deram um baile de pragmatismo e precisão. De seus 81 deputados, 27 votaram a favor do voto impresso, 36 contra e 18 se abstiveram. Os partidos têm respectivamente os ministérios que controlam a conversa do Legislativo com o Executivo: Ciro Nogueira na Casa Civil e Flávia Arruda na Secretaria de Governo. São os donos, não a base do governo.

Darão sustentação ao governo Bolsonaro enquanto este topar fazer fumaça e tiver apoio popular (chuto 15-20% de músculo desde 2018, índice pré-facada, fora os enrustidos que podem ser muita gordura/volume). Não será fácil descarta-lo.

E para não dizer que não falei das fardas, que vexame… Internacional. Marinha, minha arma predileta, a mais antiga, a mais bonita. Quem não se emociona com o navio-escola Cisne Branco a plenos panos? Mas esses militares mostram que topam tudo, até criar marechal fora de tempo de guerra, incluindo torturador na lista, desde que seus soldos, extensivos às suas filhas “virgens”, estejam gordos e garantidos.

ATUALIZAÇÃO: No dia seguinte à derrota do voto impresso, de surpresa o presidente da Câmara Arthur Lira inverteu a pauta da Casa, e levou a plenário o texto de reforma eleitoral que trata, entre outras coisas, do Distritão.

Foi uma correria. Jornalistas, analistas e mesmo líderes partidários não esperavam tal manobra.

De repente, surge a notícia de um acordo: cai o Distritão mas voltam as coligações eleitorais, retrocesso equivalente, proibidas desde a reforma eleitoral de 2017, que gradualmente diminuiria a quantidade de partidos nanicos que dificultam os processos legislativos, a governabilidade, o exercício da Política saudável.

Analistas e políticos viram o caso como o do bode na sala: o Distritão teria entrado no texto para criar um incomodo, cujo alívio causado pela saída, relevaria a volta das coligações.

No fim das contas, distritão e a volta das coligações são equivalentemente ruins porque atendem a interesses particulares em detrimento do coletivo. Enquanto o primeiro favorece candidaturas com muito dinheiro ou de celebridades, a segunda atende a donos de partidos nanicos que pegam carona em chapas fortes, elegem alguns membros e mantém o acesso à benesses como fundo partidário, fundo eleitoral, tempo de televisão entre outras.

A tendência é que o Senado rejeite.

E na esteira da volta da coligação há outra possibilidade de atraso: o fim da clausula de desempenho, que também desde de 2017 criou um piso de votação para que um partido possa ter acesso às benesses citadas acima.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments