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Mulher da vida

Se a primeira intenção foi pejorativa, creio que qualquer um que parar para pensar vai decidir que o tiro saiu pela culatra. Entre os tantos sinônimos que arranjaram para ofender as operárias do amor, “mulher da vida” é para mim o mais elogioso. Ora, quem não quer ser da vida, da alegria, da brisa, da alvorada e do poente, das frutas frestas e flores cheirosas, vivas na terra molhada? O inverso seria o quê, mulher de morte? Deus me livre dela!

Mulher da vida no dicionário informal da internet também é vadia ou vagabunda, sinônimos que a meu ver só vêm somar elogios. A palavra vagabundo, antes de qualquer coisa, me remete a duas coisas: o cachorro vira-latas e o Hugo Carvana dos filmes, e ambos são personagens absolutamente vivos, ou da vida, como queiram.

Uma personagem que me parece encarnar a mulher de morte é a Perpétua, de Tieta do Agreste do Jorge Amado, que conheci pela novela da TV Globo na pele da Joana Fomm, toda de preto, jazendo em vida, reprimindo com um cacete empalhado qualquer desejo que lhe viesse. Deus me livre e guarde!

Mulher da vida, vadia e vagabunda é a puta vocacional, que está na zona e nas esquinas. Pode até ter a ver com uma história triste ou, mais longe ainda, com dinheiro. Mas da primeira todo mundo tem pelo menos uma e do segundo todo mundo precisa. E a mulher da vida nunca dá por dinheiro. Ela aceita porque precisa, tanto do dinheiro quanto de uma desculpa para justificar o ato e aliviar a culpa inventada. Se fosse só por grana, por ganância, elas casariam com alguém financeiramente interessante, como fazem as mulheres de morte.

Igual a um cachorrinho vira-latas ela sabe ser fiel sem ser prisioneira. Isto fica muito claro com a Geni de Toda Nudez Será Castigada, do Nelson Rodrigues, que está no SESC Consolação sob direção do Antunes Filho. Dois gênios juntos ao alcance de todos nós.  A atriz é ótima, chama-se Ondina Cais Castilho, e faz a Geni com um sotaque do Bexiga divertidíssimo, num espírito muito leve, de uma pureza quase pueril. Lá pelas tantas o Herculano, viúvo morto em vida que renasce na Geni, sofre nova baixa emocional e ameaça manda-la embora. E ela: – “Nem adianta, porque eu volto. Não sou de abandonar homem que está por baixo”. Existe algo mais vira-latas, mais fiel?

Procure um exemplo dessa fidelidade entre as mulheres de morte. Não há. Então finalmente entenderemos quem merece o desdém da sociedade: a mulher da vida ou a mulher de morte. Para a mulher da vida a verdade mais dura e fria é ainda mais confortável do que a mentira protegida pela hipocrisia.

 
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Amor e ódio

26/10/2012

Diz o clichê que amor e ódio são como as pontas da ferradura: parecem distantes mas está muito próximos. Para continuar em termos siderúrgicos sem sair do lugar comum, pode-se dizer que são as duas faces da mesma moeda.

Os cientistas já provaram com estatísticas que a chance do ódio se transformar em amor e vice-versa é muito pequena. Me disse o Bahia na semana passada que, em se tratando de cerveja, é mais fácil alguém apaixonado pela Brahma mudar para a Antarctica do que convencer o nego que odeia a Antarctica a molhar o bico. Este só encara o pinguim se estiver morrendo de sede.

Nas relações sociais é a mesma coisa. Saiba o distinto freguês desta página que comer a mais apaixonada das mulheres alheias é menos difícil do que convencer aquela que te acha um tremendo escroto a dar para você.

Mas isso é tudo matemática, que como ciência exata só sobrevive ignorando as incertezas da alma humana. Bem sei eu que para comer mulher o homem é capaz de beber cosmopolitan e elogiar com sinceridade, ainda que momentânea. E o inverso é verdadeiro: mulher quando quer dar enfrenta com prazer até o hálito e o humor da quarta-feira de cinzas.

Mas botando  a volúpia de parte e tentando mergulhar nas profundezas do espírito humano, não é raro ver ódio se transformar em amor. Conheço bem o caso de um rapaz que na opinião das amigas de sua namorada era um pulha asqueroso. Muito bem. O namoro passou, o mundo rodou e uma dessas amigas, um dia, esbarrou com ele – que naturalmente tinha amadurecido, vale registrar a bem da verdade. E conversa vai, resistência cai, afinidades surgem e dá-se o enlace. Foi bom enquanto durou e com escala numa paixão gostosa hoje vivem uma amizade à distância.

Falo de tudo isso por causa da incrível rejeição alcançada pelo José Serra. 52% não é para qualquer um. Como ele conseguiu, não sei. Não há receita para tamanha façanha. Até amigos próximos perderam a paciência. Mas a esperança é a última que morre.

Tenho um palpite sobre como o Serra conseguiu ser rejeitado por mais de um dos dois possíveis tripulantes de uma lambreta: esforço continuado. Se ouvir o próprio nome repetidas vezes esgota qualquer espírito – lembra daquele amigo chato que conversa repetindo seu nome ao começo de cada frase? –, a avalanche que é o nome de alguém durante uma campanha eleitoral mata qualquer um. Por outra: arroz feijão e bife é uma delícia, mas se for todo dia na sexta-feira mais tardar você estará louco por um peixinho. E isso é prato trivial. Tente a intensidade de uma feijoada de segunda a sexta por três meses seguidos – como é o princípio das campanhas eleitorais – e nunca mais você vai querer ouvir falar no prato.

Isto somado às concessões eleitoreiras que ele fez, se distanciando do seu trajeto histórico de líder estudantil, intelectual exilado, o mais progressista dos ministros do FHC, enfim, se deixando levar pelo charla kassabista, o apoio barato dos reacionários evangélicos e usando o aborto ou o kit-gay nas eleições que participou fez transbordar o copo. Mais do que não entender, a gente não reconhece mais o Serra.

Do outro lado hoje tem o Fernando Haddad, que pessoalmente não parece ser ruim – e até pelo contrário. Acredito que se fosse candidato pelo PSB já estaria eleito. Muita gente usa o argumento que vai votar no homem, não no partido. Não se iludam. Com o PT não é assim. Seus fundadores estão condenados por formação de quadrilha, e certos da vitória nas urnas depois de amanhã, já estão se organizando para aparelhar a prefeitura. Foi assim com a Erundina, que é uma pessoa correta, mas não conseguiu controlar a petralha e levou a cidade para o buraco, revertendo numa guinada à direita que nos deu condenou a oito anos de Maluf e Pitta. E depois veio a Marta, que acabou de estragar tudo e praticamente quebrou São Paulo.

Se não é isso que você quer para São Paulo, trate de transformar seu ódio pelo Serra em amor. Lembre-se que não se casa só com a mulher ou com o marido. A família sempre vem junto.


 
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Notícias frescas que vêm do sul

Consta que a aristocracia inglesa contratava seus mordomos pelo formato do pé. Pela lógica, se o homem conseguiu passar pelo rigor da escola de formação de mordomos, no máximo poderia ser mais que perfeito, e sendo assim o único diferencial competitivo era poder amaciar os sapatos do patrão – salvo encontrar alguém que sinta prazer em descascar nêsperas, mas isto é impossível.

Na Inglaterra, para quem sabe das coisas e pode pagar por elas, ainda funciona assim. Quer dizer: o nego manda fazer o par de sapatos e atribui ao mordomo de pé idêntico os seis primeiros meses de uso. Já ouvi dizer de craques de futebol que fazem o mesmo com as chuteiras através dos colegas da segunda divisão.

O preambulo foi demorado para dizer o óbvio: tudo fica melhor com o uso, a prática, o costume. Não há exceção. Claro que existe o alumbramento inicial de algumas coisas – até a primeira espinha pode ser encantadora –  mas depois que passa só poderá melhorar através do exercício continuado, da atenção, da convivência.

Com o sexo é a mesma coisa. Só os imbecis podem crer que haja alguma virtude na virgindade. Não há. O cabaço é no máximo um troféu, tolo como todo troféu, e ainda por cima abjeto. Quem não sabe admirar o alce vivo o deseja exibido na sala de visitas. E por falar em chifre, nada é mais próprio dos cornos do que querer ser o primeiro. O homem que ama a sua mulher só deseja ser o último, “se possível um só defunto”.

E se por um lado ainda valorizam tanto a castidade, do outro condenam a prostituição, como se a mulher não tivesse o direito de fazer o que bem entender do próprio corpo. Nessa toada elas ainda morrem por falta do tal Papanicolau, o aborto continua sendo um tabu inclusive em caso de estupro ou risco de vida da mãe e o orgasmo permanece rara iguaria.

A confusão com a notícia dessa menina que leiloou a virgindade prova o nosso atraso social. Piadas à parte, como aminha própria de que ela investirá o milhão e meio do lanço final numa ong voltada à moradia popular chamada Minha Casa da Luz Vermelha Minha Vida, tanto faz se é ou não prostituição o que ela está fazendo. Seu ato serve, antes de tudo, como um manifesto pela libertação feminina. Nem um milhão e meio de sutiãs queimados fariam tanto por elas. Nem se a Sândi do período casto aderisse ao Femen. A mensagem que esta (ora) moça passa é a seguinte: o corpo é meu e ninguém têm nada com isso.

Claro que terá um ônus espiritual, mas a grandeza do gesto é maior. Que esta notícia, somada à legalização do aborto no Uruguai se espalhe pelo Brasil e pela América do Sul na corrente de ar polar mais forte que passar – até porque o calor também está insuportável.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Idiotice

O Paulo Francis me ensinou o conceito da palavra idiota. Não foi pessoalmente, o que é uma pena, embora nem tanto, porque guardo registrado num livro delicioso que reúne um quinhão do que ele fez para a Folha. E também porque não convém conhecer de perto gente admirada: qualquer um, humanizado, perde relevância.

Talvez por lutar diuturnamente contra a idiotice crescente ele tenha ido buscar o significado original da palavra, ou também pode ter sido tara simples, porque de fato ele parecia meio tarado com esse negócio de estudar. Enfim, o que importa é a origem, grega, onde idiota é aquele voltado para si mesmo.

Uma curiosidade pessoal me levou a buscar uma entrevista que o Isay Weinfeld deu para a Trip, onde entre outras coisas ele fala da estupidez urbana. Este outro sinônimo para a idiotice também é a incivilidade, o tédio, e é isso o que os bairros exclusivamente residenciais ou comerciais provocam no pedestre: tédio, mesmice, preguiça. Segundo o arquiteto e cineasta, o passeio será tão mais divertido quanto for diverso, isto é, se quem anda passar por um açougue, depois por uma floricultura, a casa de um velhinho que do alpendre vigia a rua, a outra com um cachorrinho que late para quem passa, a atleta suada que vem correndo desde o parque, na esquina um botequim e depois dele crianças saindo da escola, com sorveteiro na calçada. Igual a uma festa: quanto mais novidade, melhor.

E não sei se é esse modelo de cidade que imbecilizou a turma ou se foi a colaboração incansável dos imbecis é que o constituiu assim. Mas a metástase é notória.

Aconteceu hoje, mas é coisa corriqueira: no meu caminho da roça encontrei um grupo de pessoas conversando em roda na calçada. Sempre acho bonito gente reunida na calçada. Mas fico impressionado com o nível de idiotice de alguns – agora no sentido primitivo da palavra – que transborda pela ausência de qualquer visão periférica. É como se estivessem usando aqueles arreios dos jumentos que proíbem uma noção mais ampla do espaço. E estando impedindo o fluxo, a aproximação de alguém não faz com que eles abram alas sem antes serem solicitados. Hoje foi uma babá que papeava com meia dúzia de colegas. Procurei a que estava sem carrinho de bebê e pedi passagem, no que fui atendido, mas não sem antes ter que parar ao lado dela.

De qualquer maneira a poesia resiste e fica muito mais acessível aos que estão fora dos carros. Principalmente nesta época de orquídeas em pencas, pitangas em profusão e uma garoinha eventual, que deixa tudo mais gostoso.

 
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Sobre quadrilhas

Confesso que sempre senti uma invejazinha dos petistas quando eles afirmavam que eram o único partido do Brasil. O PSDB chegou ao auge muito depressa e inchou antes de crescer, trazendo para as bases figuras que sequer procuraram entender o princípio da social-democracia e outros oportunistas muito piores. O exemplo mais infeliz é o desse Eduardo Tuma, vereador eleito em São Paulo, que para tanto usou em dez mil santinhos espalhados pelas calçadas dos colégios eleitorais na manhã da eleição a imagem e a declaração de voto do Ricardo Montoro, que sequer o conhecia. Fez a mesma coisa ou ainda pior com o Bruno Covas. Apoio de verdade só o daquele casal de bispos que foi preso com dólares na Bíblia.

Abro parênteses para encerrar o assunto: o Montoro, que agora teve o desprazer de conhecer o estelionatário, pediu providências à comissão de ética e disciplina do PSDB, que tem noventa dias para se posicionar. As penas previstas vão de advertência à expulsão – esta que, se acontecer, anula o mandato antes da posse. No momento em que o ex-presidente do PT é condenado pelo mesmo crime de falsidade ideológica, além de corrupção ativa e formação de quadrilha, temos o dever moral de tratar com rigor o caso desse nosso correligionário marginal.

Mas o que me trouxe aqui foram as condenações do PT. Se eles se gabavam de ser o único partido de fato, o único com unidade de pensamento e estrutura consistente no Brasil, agora com o voto dos ministros do Supremo Tribunal Federal ficou claro por que: trata-se de uma quadrilha, não de um partido.

Atualmente o membro mais destacado do PT não é petista da gema: a presidente Dilma era originalmente pedetista brizoleira. E agora, de acordo com a Dora Kramer, sempre genial, é quem tem o poder para livrar a cara do bando do Zé Dirceu.

Segundo o artigo 84 da Constituição é prerrogativa da presidência da República a figura jurídica do indulto, que pode desde reduzir até livrar os condenados da pena determinada pelo Supremo Tribunal Federal.

E a quem ficou assustado informo que não é tudo e ela pode ir mais longe, decretando anistia, o que além de livrar a quadrilha da pena ainda extinguiria o crime, tornando limpa a ficha de cada um dos criminosos.

Claro que ela só faz isso se quiser e ninguém tem poder para contesta-la judicialmente, nem o presidente do STF, Joquim Barbosa. Mas também nada impede que a turminha a assedie para tanto. Ou seja: a presidente da República está numa sinuca de bico: se indultar o bicho pega, se deixar o bicho come.

Sinceramente eu duvido que ela tome qualquer uma das atitudes citadas. Mas não por princípio e sim por cálculo. Safar esse bando seria suicídio político. E, guardadas as proporções devidas, para o PSDB, dar corda para um marginal como esse Tuma crescer impunemente nos quadros partidários pode não ser a suicídio, mas já é o nó da forca. 

 
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De férias com Danuza

Talvez eu não mereça, mas mesmo assim sonho em passar umas férias quais as que a Danuza Leão desfilou numa Folha de domingo recente. Diz que alugou uma casa em Salvador, e que esta casa tinha uma cozinheira que sabia tudo de peixes, frutos do mar , dendê e leite de coco, e que além disse tinha um primo que acordava ou ia dormir cedo, tanto faz, mas que estava sempre ao amanhecer diante da casa para pedir silêncio aos homens do mar que passavam apregoando suas mercadorias e, claro, escolher o melhor para o consumo da casa, que àquela hora dormia o sono dos justos.

Não tinham acesso a jornal, televisão ou telefone, só bebiam suco das frutas colhidas por ali, por vezes temperados com uma cachacinha, não vestiam nada além de maiôs e a única discussão era sobre a praia do dia – desde que esta tivesse águas dóceis, tanto na temperatura quando no movimento.

Apesar da maledicência dizer que só quem está cansado merece descansar, insisto em sonhar com essas minhas férias. Ou por outra: sonho mesmo sem querer. Afinal, sou humano, fraco, e o fato de ter uma atividade que me dá me dá mais prazer do que qualquer outra coisa não me torna um pulha. Mereço férias, sim senhor.

Pelo menos até ler a Danuza, sempre que pensei em férias recusei praias, especialmente as distantes daqui ou carentes de um bar. Ou por outra: nunca vi sentido em viajar além de Juquehy para entrar no mar, andar na areia, tomar um pouco de sol. Lá tem tudo isso e, de uns anos pra cá, infraestrutura que nunca aparece nos relatos de passeios nordestinos – a não ser nos resorts, desde sempre fora de cogitação.

Nossa casa da praia no Juqhehy ficou distante, ninguém mais vai. Só de imaginar o trânsito na estrada, depois o trabalho de manutenção básica que teremos quando chegarmos, surge a conclusão que é melhor descansar em São Paulo. Em Juquehy nem mistério existe mais. E quando é assim é melhor esfriar a relação, evitar qualquer tipo de emoção, boa ou ruim. A esterilidade das pousadas é o caminho.

Já num lugar distante, instigante, apaixonante ninguém pode querer a esterilidade de um hotel. O bom é se instalar numa casinha e viver o lugar, suas comidas, bebidas, a vida do dia-a-dia. Fazer supermercado, ir à padaria, saber as fofocas da vizinhança e, com sorte, ter que saber como é providenciar o conserto de um cano furado. Seja em Paris ou em São Miguel do Gostoso. Até esgotar a paixão. 

 
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É luxo só

Meu pai telefona avisando que o Matthew Shirts botou na Vejinha mais uma crônica deliciosa sobre o luxo de andar a pé. E é isso mesmo: um luxo. Um privilégio. Há quem diga que inveja da boca para fora, em função do politicamente correto, mas na prática, mesmo tendo toda possibilidade para cumprir a pé o cotidiano, insiste no comodismo do automóvel. Porém também existem aqueles que, qual a minha Neguinha, sofrem diariamente no trânsito e desejam consistentemente a vida de pedestre, chegando até a fazer promessa para São Tiago (descubro agora que a piada não cabe, porque o santo que empresta o nome ao caminho célebre o fez já desencarnado, e portanto não é andarilho como os peregrinos seus devotos). Ser pedestre é igual comer salada: todos concordam que faz bem, mas pouca gente sente prazer de fato. Nisto sou sortudo: sou pedestre e saladeiro apaixonado.

A primeira frase do mister Shirts é uma constatação: “quem anda a pé acaba desenvolvendo opiniões a respeito das calçadas”. E a freguesia que acompanha esta página sabe disso. Logo em seguida ele mete um dado alarmante: 450 pessoas por dia se machucam em acidentes causados pelo péssimo estado dos nossos passeios. Você não leu errado, freguesa: por ano são 170.000 pés torcidos, joelhos esfolados, escorregões. Outro dia fui eu, em frente ao MuBE: o mosaico português está se desfazendo e, sem notar uma das pedras, camuflada sobre outras da mesma cor, pisei em falso e me esborrachei.

Logo em seguida ele faz outra constatação: “andar a pé exige mais esforço do que de carro”. É claro que ele se refere ao esforço físico, por que emocionalmente motoristas e passageiros sofrem muito mais do que os pedestres. Mesmo em dia de chuva a regra permanece – questão de proporcionalidade.

Mais adiante ele encontra a palavra exata para explicar de quem é a responsabilidade pela conservação das calçadas: “do proprietário do imóvel adjacente”. Não é uma maravilha encontrar uma palavra bocó dessas, “adjacente”, encaixada com harmonia num texto? E ainda nos brinda com uma fina ironia: “as calçadas estão entre os poucos equipamentos públicos privatizados”, estatuto que, embora reconhecendo que seja gerador de tensões, ele defende e justifica pelo prazer de encontrar pequenas obras de arte no espaço metropolitano, como a do Instituto Tomie Ohtake, em Pinheiros.

Concordo em termos. Alguma especificação técnica dos materiais possíveis, se já não é, deveria ser obrigatória. Paralelepípedo e mármore, por exemplo, nem pensar. Enfeites também devem ter limitações. Aqueles postinhos simpáticos do Santo Grão na rua Rio Preto, por exemplo, roubam o já diminuto espaço e tornam impossível passar entre eles e a parede com o guarda-chuva aberto. Pela lei, a largura mínima é de 1,2 metro, mas deveria ampliada. Se faltar espaço, tomamos dos carros. Tudo para estar bonito quando a profecia shirtiana se cumprir: “As grandes metrópoles do século XXI serão definidas pela quantidade e qualidade dos seus pedestres”. Vamos reeditar o Ary Barroso numa paródia pedestre: “Olha, essa mulata quando anda, é luxo só”.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Boa vizinhança

A decadência começa quando a turma começa a transigir nos detalhes. Antes da Cidade Limpa era o caos, mas evidentemente aquelas placas que poluíam a paisagem urbana não nasceram de um dia para o outro. O primeiro estabelecimento da cidade deve ter botado uma placa caprichada e bonita na sua fachada e foi seguido pelos vivinhos, até que um esperto chegou e a fim de chamar mais atenção encomendou e instalou uma placa maior, no que também foi seguido e assim por diante até chegar naquele absurdo que ainda vemos nas cidades onde a lei não existe.

Se alguém tivesse ido até o esperto e, com jeito, pedido para ele se adequar ao padrão da rua, a lei seria uma convenção natural. Vá lá: ele poderia alegar muitas bobagens e basear todas elas no princípio dos direitos individuais, da livre concorrência, etc. Então a comunidade toda, uníssona, poderia insistir cantando o descontentamento. E mesmo assim ele poderia dar de ombros. Por isso a lei é boa.

Um dos melhores exemplos de sociedade organizada é a dos lojistas da Oscar Freire. Eles têm acordos sobre segurança, festas, decoração de fim de ano e até calçadas e equipamento urbano. Funciona que é uma beleza e o valor do ponto está aí para atestar. Isso não significa que eles estão livres dos espertos – apenas arranjaram uma maneira de controla-los. E mesmo assim a sanha da malandragem não descansa. A última é a discotecagem, que está causando uma poluição sonora que estraga o passeio.

Na tentativa de criar uma atração além da mercadoria alguma loja contratou um DJ e o deixou lá executando sua seleção musical. É bacana, música e moda são coisas unem as pessoas pelo estilo. E deu tão certo que o vizinho também fez e o outro da mesma maneira. Hoje saiu do controle e tem lojista esperto que já deixa o alto-falante na calçada, numa verdadeira guerra sonora onde as vítimas são os próprios fregueses. Perdeu a razão de ser e urge um acordão antes que a esculhambação abafe tudo de bom que eles alcançaram 

PS: outro que poderia colaborar é o Pão de Açúcar: carga e descarga de mercadoria e de lixo industrial em plena Oscar Freire é um esculacho com a vizinhança. A exemplo está logo ali na outra quadra, no Santa Luzia, que em termos empresariais ou financeiros sequer oscula o Pão de Açúcar e tem um verdadeiro porto de abastecimento interno, além de garagem subterrânea e outras medidas para minimizar transtornos, todas simpáticas à lei da boa vizinhança.

 
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Esperança no bar dos cachorros

Na escola me ensinaram que eclusa é aquele equipamento instalado nas barragens dos rios, que permite aos barcos seguirem viagem mesmo ante o desnível das águas, seja à montante ou à jusante, que é quando o rio sobe pro morro ou vaza pro mar, respectivamente. O nosso Tietê querido, por algum motivo que é só dele, corre sempre à montante, e graças a este fenômeno que facilitou o serviço dos bandeirantes na exploração do sertão é que temos São Paulo e o Brasil do tamanho que conhecemos.

A história, porém, mostra que cuspimos no prato em que comemos, ou nos rios em que navegamos, e da mesma maneira que os rios foram destruídos e perderam seu caráter lúdico nas cidades grandes, o transporte hidroviário foi desprezado e sua função prática se esvaiu, sobrevivendo só pontualmente em uma ou outra região, muito aquém do que poderia ser.

Daí que da mesma maneira que a geração dos meus pais perderam os rios que brincaram na verde idade, a minha perdeu as eclusas. Vá lá que graças ao Wilson Quintela o Tietê tenha uma para cada barragem, faltando só a mais cara e importante, que é a de Itaipu, sonho eterno de todo empreiteiro, que se um dia construída permitirá a navegação de São Paulo a Buenos Aires. Mas eclusa para a minha turma é aquele portão duplo que todo mundo quer para atender à própria paranoia – mas ninguém sabe usar.

Considero a hipótese que consulado americano e a segurança dos irmãos Safra façam o uso adequado delas, além de um ou outro prédio granfino aonde quem chega tem que mostrar até o que há no porta-malas do carro para a autoridade contratada. Mas a classe média em geral pegou a pressão sem poder sustentar, e com efeito só estragou as fachadas. Não é raro encontrar quem invista até naquelas rodas medievais, mas que no lugar de bebês abandonados recebem pequenos objetos e pizzas, mais ou menos como uma bebidinha no motel, só que em função da tal da segurança, não de poder beber pelado em privacidade.

A ideia da eclusa é proteger o prédio durante a identificação dos visitantes, sem expor estes aos terríveis perigos das calçadas. Mais ou menos como nas portas giratórias dos bancos. Mas o que acontece todo mundo sabe: o distinto espera do lado de fora e, quando o “pode subir!” finalmente vem pelo interfone, as duas portas são abertas simultaneamente.

O caso mais engraçado é o do consulado de Portugal, na rua Canadá. Diante da portentosa guarita que ergueram estragando a fachada do casarão fica uma placa ordenando que o visitante que chega apague os faróis e desça do carro para se identificar. Quero ver quando o coleguinha israelense resolver passar para um café.

Contudo, há esperança. Do outro lado da rua, na mesma Canadá, o vizinho é uma simpatia. Como gosto não se discute, vou só elogiar o Dog Bar, todo prosa num mosaico colorido erguido na calçada, para o cachorrinho que passa poder tomar um trago. Este mesmo vizinho, no Natal, arma uma decoração que já virou ponto turístico. Palmas para ele. 

 
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Política e nuvens

O erro mais vulgar em relação às pesquisas eleitorais, que inclusive leva à revolta quem não sabe que está vendo errado, é acreditar nos números como se eles fossem uma profecia, a própria antecipação do resultado. Ocorre que as pesquisas não funcionam como os relógios de rua que marcam a temperatura da cidade. Estes, quando muito, acertam o horário. Os números das pesquisas são na verdade aquele mapa das nuvens que a moça bonita do tempo mostra na televisão, presumindo que se há uma massa de frente fria subindo pelo Rio Grande do Sul, pela velocidade do vento ela deve encontrar a massa de ar quente que que está parada sobre o Sudeste e causar chuvas e trovoadas lá pela tarde de quinta-feira.

Quem assiste Fórmula 1 como o meu pai fica abismado com a capacidade dos alemães em prever a chuva. Segundo ele, na tela aparece uma ampulheta indicando quanto tempo falta para a primeira gota, e há dez segundos do primeiro pingo despontar na câmera que fica no capacete do piloto, a pista está completamente seca.

Aqui no Brasil não temos equipamentos tão precisos como os da Alemanha. Aliás, mesmo que tivéssemos, o clima tropical levaria à loucura qualquer analista germano. Em política acontece a mesma coisa. É como dizia o José Magalhães Pinto, unindo os dois temas: “Política é como nuvem. Você olha e está de um jeito. Olha de novo e já mudou”.  Quer dizer, para ler pesquisas eleitorais por aqui é necessário ter faro de político mineiro.

A sete dias da eleição escrevi no facebook que a chance de dar Serra e Haddad no segundo turno era relevante. Não era eu que estava dizendo, mas as tendências das pesquisas. Teve gente que chegou a debochar, dada a vantagem do Russomanno. Dito e feito: com 100% das urnas apuradas, o Serra tinha 30,75%, Haddad 28,98% e o Russomanno 21,57%.

Quatro dias depois saiu nova amostragem, com o petista marcando 48% ante 37% do tucano. Sinceramente, é possível que em quatro dias dois milhões de pessoas decidam mudar o voto para um nome novo pertencente a um partido que está com seus líderes históricos condenados pelo maior escândalo de corrupção já visto? Claro que não. A não ser em casos de encontro de massas de ar revoltosas, daquelas que causam raios e trovoadas. É isso o que está acontecendo. As pessoas não decidiram votar no Haddad – estão votando contra o Serra. É a tal da rejeição. A turma enjoou do Serra. Eu mesmo preferia ter votado no Andrea Matarazzo para prefeito (palpite? Já estaria eleito). Mas o que temos é o Serra, o Zé Gotinha, que literalmente é o remédio para evitar a paralisia do PT.

Para imaginar como pode ser o PT administrando São Paulo novamente é só olhar para Viracopos: o aeroporto que atende à região que movimenta 77 bilhões de reais por ano ficou três dias parado e teve 450 voos cancelados por causa de um pneu furado. Imagina essa turma aqui na Marginal (evitarei o trocadilho com os marginais mensaleiros).

Eu também rejeito o Serra, mas entendo que a minha rejeição é emocional. Com os olhos da razão qualquer um enxerga que ele fez com excelência tudo que se propôs, e as respostas que teve das urnas em São Paulo provam o que estou dizendo. Tanto no estado quanto na Capital o Serra venceu todas as eleições que participou, incluindo o Lula e a Dilma. Com os olhos da razão quem quer o melhor para São Paulo vai votar no Serra.

Ah, se ele vai ficar os quatro anos na prefeitura? Vai. Quatro e mais nenhum. Em 2016 é Andrea Matarazzo 45 e não se fala mais disso.

 
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