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Lista de casamento

E por falar no Drummond (falei anteontem), outra coisa que soube dele lendo A Bolsa e a Vida, uma seleta de crônicas publicada pela Cia das Letras, foi a origem do nome, que eu supunha francesa, mas é celta. Drum onde significa onda alta, e a família ganhou este nome em 1066, do rei Malcom III, da Escócia, quando o príncipe Maurício, da Hungria, salvou a pele de seus primos ingleses da fúria de Guilherme, o Conquistador, comandando o barco que em Perth aportou.

Não sei se a chegada foi exatamente neste porto seguro e muito querido por mim, porque de lá sai o Dewar’s, meu uísque favorito, enquanto a rapa toda sai de Glasgow, mas tenho motivos para crer que sim, posto que está lá o castelo medieval dos Drummond – ou pelo menos estava até 1960, ano em que o poeta se confessou frustrado por não ser lembrado pela casa real inglesa quando do casamento da princesa Margaret com o fotófrafo Anthony Armstrong-Jones. Em represália, não enviou telegrama e muito menos abriu um litro do uísque Drummond, segundo ele uma especialidade de the most noble and ancient House of Drummond – e que, se também sai de Perth, o faz muito discretamente, quiçá num passou parecido com o do nosso Drummond, porque nunca vi, nem bebi.

No lugar da Casa de Windsor eu teria escolhido o Carlos Drummond de Andrade para representar a Casa de Drummond. Mas se opinião de noivo conta pouco aqui no Brasil, imagina na Inglaterra. Noivo plebeu, então, importa menos do que o bem-casado. O costume, contudo, acho excelente: na impossibilidade de receber bem todos os membros de todas as casas para as bodas, convida-se a Casa e esta diz quem vai representa-la. O Fernando Bayeux de Araújo me disse que em Portugal a plebe adaptou a prática, e fazem festas de casamento sempre pequenas e refinadas, onde nunca mais do que um casal representa determinada família.

Mas vamos remando porque o que eu queria era falar do Pedro Paulo de Melo Saraiva, talvez o homem mais refinado das minhas relações. Sempre que me encontra bebendo Dewar’s ele fala de Perth. O Papito é velejador e já eu a volta ao mundo à vela. Quando eu casar farei só uma exigência: que ele seja convidado, porque não vejo ninguém melhor para representar os boêmios, os flaneurs, as pessoas inteligentes (e também um ou outro cafajeste) desta nossa cidade de São Paulo.

 
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A maratona de Boston

Não prestei atenção quando ouvi falar da maratona de Boston. Acho aborrecido esse assunto de competições e a audição seletiva funcionou. Mas quando cheguei à academia vi o Guga Chacra no Em Pauta noticiando os detalhes. Ele não estava no estúdio da Globo em Nova Iorque, mas não sei dizer se estava em Boston. Ele falava e eu não acreditava.

Conheci Boston em 1994. O Fernando Henrique estava começando seu mandato, o Plano Real, apesar de austero, mostrava um futuro animador para o Brasil, nossa moeda valia mais que o dólar e havia o clima da copa do mundo vencida, esta competição que mais une do que separa os povos.

E Boston, igual a toda cidade no mundo, tem suas características, sendo que a principal delas é a civilidade. Foi o que me marcou. Cada um toca a sua vida e não se mete com a alheia. Há respeito total pela individualidade e a preocupação com o próximo e restrita – ou seria abrangente? – ao coletivo.

Já confessei aqui que não soube aproveitar a oportunidade à altura. Legislando em causa própria eu diria que fiquei tão encantado com aquele clima que decidi enfrentar e provocar para ver até onde eles me aturariam. Me arrependo.

É claro que não existe justificativa para o terror. Mas tentando encontrar uma razão para a barbaridade pendi para o seguinte raciocínio: os atentados do 11/9 aconteceram em uma cidade agressiva, na capital do mundo. Mas em Boston? O que a aquela gente discreta e tão civilizada teria feito para atrair a ira desses covardes?

Não encontro motivo. Nunca há, seja onde for. O Guga contou que entre as vítimas fatais há um garoto de oito anos. E entre os feridos diversos de amputados, incluindo outras crianças. Mas se não há resposta para a motivação, há resposta para o que vem depois, e a minha sugestão é que Boston continue sendo Boston.

As cidades são as pessoas. Qual prédio, qual praça ou topografia. O que identifica uma cidade são as pessoas. E o maior crime possível contra Boston seria subtrair sua civilidade impondo o estado permanente de paranoia que se impregnou nos Estados Unidos desde 2001. Que eles tenham tranquilidade para continuar e manter a fleuma.

 
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PEC das Domésticas ou Lei Áurea fase 2 – da ama de leite à baby sitter

Quando surgiu a PEC 66/2012, chamada “das domésticas”, minha primeira impressão foi a de um avanço social tremendo, como de fato é (em que pese o adiantado da hora), mas no sentido de libertar os empregados domésticos dos abusos e da falta de noção dos empregadores. Veja você, freguesa estimada, só dia desses vim a perceber o óbvio: as maiores beneficiadas serão as próprias patroas, posto que são tanto quanto as empregadas vítimas de um atavismo nefasto, que identifico e proclamo como “Complexo de Sinhazinha”.

Aqui no Brasil aprendemos assim: tomar transporte coletivo é humilhante, mas viajar em avião é chiquérrimo. Escolher a lava-louças de último tipo também é fundamental aos noivos que preparam listas de presentes, mas usa-las é uma função subalterna. E fazer filhos? Hea quem goste mais e há quem goste menos. Creio que há até quem não goste – mesmo com a prevenção devida. Mas no criar que é bom é raríssimo encontrar que sinta prazer. A maioria esmagadora se contenta em espiar de longe, como se o crecei-vos e multiplicai-vos fosse uma obrigação social, não uma opção de vida. Assim como o uso do Airbus e a posse de eletrodomésticos sofisticados.

O Carlos Drummond de Andrade nos falou do tesão do esforço físico fundamentado. Arrumar o armário dá um prazer muito maior do que correr na esteira. A endorfina da alma é mil vezes mais gostosa do que a do corpo. Mas na verdade o poeta se refestelou ajudando na pintura da próprio casa. Sabe aqueles casais de filme americano entorpecidos de prazer durante o acabamento do lar, pintando um ao outro e depois se amando sobre os jornais que forram o chão? Foi isso que ele sentiu.

A valorização da mão de obra, do trabalho braçal no Brasil é transformadora. Vai proporcionar a recompensa econômica justa a gente talentosa que sabe o que faz e muito embora isto não seja pouca coisa, ainda não é toda a maravilha que temos pela frente.

Você, freguesa, mãe dessa menina linda de quatorze anos que só quer, só pensa em namorar, tem uma oportunidade de ouro para fazer dela uma pessoa melhor trabalhaando como baby-sitter na sexta-feira para ganhar o dinheiro da balada do sábado. Vai fazer muito bem à formação dela e, de quebra, garantir o seu próprio futuro, porque os enfermeiros vão ficar cada vez mais caros e ter uma filha acostumada a cuidar com carinho e atenção das crianças e dos velhinhos é uma atitude providencial.

 
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Calçadas em calamidade

Na terça-feira que passou fui à Câmara Municipal assistir pessoalmente a audiência pública sobre calçadas convocada pelo vereador Andrea Matarazzo. Pedestre e eleitor dele, queria ver pessoalmente as autoridades e a sociedade discutindo este tema que é urgente.

Abro parênteses para anotar uma má impressão sobre a o Palácio Anchieta: a meia-dúzia de redes de internet sem fio que está pelos corredores da “casa do povo” é protegida por senha. Não seria óbvio que pelo menos uma fosse aberta ao povo que lá vai assistir as sessões, participar de audiências, cobrar seus vereadores? Presidente José Américo, por favor.

Basicamente a ideia era contrapor as propostas do Haddad e do Andrea. O prefeito entende que a calçada é privada e portanto de responsabilidade do proprietário do imóvel adjacente. O vereador enxerga as calçadas exatamente como as ruas, corredores de ônibus e ciclovias, isto é, como vias públicas, e assim responsabiliza o poder público pela sua reforma e manutenção.

Aqui temos 35 mil km de calçadas. Dizer que fora dos três quilômetros da Avenida Paulista todas as outras estão entre ruins e péssimas não seria exagero. Posso falar do meu bairro, por onde ando diariamente: até as “boas” são ruins. O melhor exemplo é a Rua Cristovão Diniz, onde tudo é muito bonitinho, mas não funciona. Com canteiros bem cuidados dos dois lados, o espaço que sobra para quem passa a pé é insuficiente para mais de uma pessoa. Esses carrinhos para dois bebês perfilados também não passam. E o piso de paralelepípedo é lindo, mas irregular, e se maltrata os carros, imagine o pedestre, que não tem amortecedor. E os cadeirantes? Bom, para eles São Paulo é literalmente uma cidade proibida.

A deputada Mara Gabrilli também estava por lá. Ela é seguramente uma das pessoas que mais entende do assunto. Quando foi secretaria municipal para Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida fez um estudo sobre os deslocamentos a pé na cidade e chegou a uma conta animadora: adequar 10% das calçadas da cidade resolve o problema de 90% da mobilidade. É isso mesmo, porque a maioria das calçadas só é usada pontualmente, o grande fluxo de pessoas está concentrado em poucas delas. E o custo? Algo em torno de 120 milhões de reais. (O orçamento da prefeitura para 2013 é de R$ 42 bilhões.)

Ainda assim, o prefeito Haddad insistiu, articulou sua base parlamentar e fez valer o seu projeto, que mais do que deixar o problema como está, agrava, porque empurra com a barriga. Parece impossível faze-lo entender a lógica: em relação ao passeio público só o poder público têm as ferramentas necessárias para resolver o problema: poder, técnica e dinheiro. As estradas podem ser privatizadas. O Metrô pode ser privatizado. As calçadas devem ser públicas. Só na cabeça do Haddad as calcadas são privadas.

 
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O pior mudo é o que não quer falar

Não há virtude no silêncio. Os que pregam o calar no lugar de falar é porque se envergonham do que teriam ou não a dizer. Quem teme a palavra teme a verdade. Quem teme o debate teme a presença e a luz. O silêncio é o vácuo, é a treva, atraente e perfeito como valhacouto da ignorância, da antiética, da covardia.

O silêncio é a burca da alma. E a palavra sua nudez. A beleza dos corpos e das opiniões está na diferença: quanto mais ampla e diversa, melhor. Quão variadas são as formas da beleza física, e quão parecidas com o espírito das pessoas? Quanto mais inocente e despido, mais bonito e verdadeiro é o ser humano. A nudez das crianças, dos povos primitivos, dos miseráveis é sempre bela e comovente. Ridículo e abjeto só pode ser o general sem farda, o acadêmico sem fardão, o padre sem batina, o senador sem casaca e sobretudo o rei sem manto.

Qualquer opinião é melhor do que o silêncio. Tem toda razão o Martin Luther King quando fala que “o que preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. O verbo está no tempo certo, porque, ao contrário do homem, a palavra é viva. O silêncio, não. Pode até ser lembrado, mas sempre como um morto.

As razões para a boca calada são muitas. Há quem cale por medo, há quem cale por dinheiro, há quem cale por interesse, conveniência, inconsciência. E há quem cale por amizade, solidariedade, compaixão, por amor há quem se cale. Mas é mais raro. Por virtude, de modo geral, só se cala sob tortura.

O Homem afirma a própria existência quando rompe em um berro, pondo fim à paz uterina. Feito isto é orientado a calar novamente, ser um bom menino para a própria tranquilidade e para conforto dos que o cercam. Assim atravessamos a vida, associando o silêncio à paz, sem perceber que esta só será verdadeira quando todos puderem dizer o que bem entenderem. O pior mudo é o que não quer falar.

crônica publicada no fanzine Amarello

 
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Pela memória do Mario Covas

No ano 2000 o Ricardo Montoro tomou posse como vereador em São Paulo. Marta Suplicy era a prefeita, e numa manobra contábil driblou a lei que obriga os governantes investirem no mínimo 20% da arrecadação em educação, juntando na mesma lancheira o pagamento de professores aposentados. Ora, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Então o Montoro propôs na Câmara uma moção de louvor ao petista Jorge Viana, então governador do Acre, que ampliara o investimento em educação para 25% – livres dos repasses a professores aposentados. Foi um lance de gênio que obrigou os vereadores da base festejarem o correligionário acreano pelo mesmo motivo que a oposição criticava a manobra da ex-prefeita.

Depois de tantos anos o PT voltou à base do governo e resolveu dar o troco, só que com um golpe baixo que invés de apelar para algo fundamental como a educação, quer debochar da cultura da cidade: propuseram transformar a obra viária mais importante da nossa história em Viaduto do Chá Mario Covas. É de amargar que usem seus mandatos para isso.

Para a empreitada sórdida escalaram o aliado Vadih Mutran, aquele que apareceu nos jardins do Maluf ao lado do Lula e do candidato Fernando Haddad, aquele que atribuiu sua evolução patrimonial milionária a consecutivos prêmios de loteria, e que saiu pela Câmara colhendo assinaturas dizendo assim: – “É uma homenagem ao Mario Covas”. É uma prática ruim, mas comum das casas legislativas, em que assuntos amenos recebem assinaturas sem a devida atenção.

Ora, o Mario Covas, na intimidade conhecido por Tio Zuza, é uma personalidade incontroversa. Merece ser homenageado em Santos, em São Paulo, no Brasil. Mas é claro que não gostaria de ver seu nome metido numa situação mesquinha dessas. E não é a primeira vez. O Kassab, quando disputou a prefeitura contra o Alckmin, que era do time do Covas, subtraiu mais um naco da nossa história batizando de Parque Mario Covas a casa do Renée Thiollier, que foi entre outras coisas patrono da Semana de Arte Moderna, tendo sediado naquele endereço na Avelina Paulista muitos dos saraus e reuniões que integraram o movimento modernista de 1922.

No lugar do secretário Bruno Covas, do vereador Mario Covas Neto e da família inteira eu não só recusava a homenagem absurda do Mutran, como pedia para devolver ao Thiollier o que é dele, para que o Tio Zuza descanse em paz.

 
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Pietá

Numa comparação à violência das guerras, a obra do Quentin Tarantino seria uma batalha greco-troiana, com corpos dilacerados, cabeças esmagadas a marteladas, animais degolados, montes de mortos espalhados pelo campo, açudes de sangue, num clima que oscula o deboche diante da carnificina.

Perto disso, qualquer guerra hoje parece fria. Homens matam uns aos outros a uma distância higiênica, e por isso muito mais cruel. Esta violência indiferente é a que mais me assusta. Estamos na iminência de uma guerra que pode ser nuclear por causa de um lunático que considera deflagra-la “por acidente”. É como se o outro não importasse. E este desdém pela vida refletido no cotidiano do homem comum está em Pietá, filme do diretor sul-coreano Kim Ki-duk.

Frio e muito forte, mereceu só uma ou duas janelas na programação paulistana. Mesmo sendo teimoso, ou acomodado, por duas ou três vezes pensei em deixar a sala. Mas a insistência compensou. É uma das melhores fitas de todos os tempos, um roteiro fantástico mas absolutamente crível, infelizmente, porque retrata a crueldade contemporânea, a banalização de tudo, a indignidade na vida.

É a história de um agiota literalmente inanimado, porque da vida não recebeu nada e por ela não tem respeito algum. É um selvagem urbano, a quem apenas a própria sobrevivência importa. Não há nele nenhuma emoção aparente, ou pelo menos não até o primeiro carinho, o primeiro cuidado, o primeiro cafuné.

O calor humano é transformador. Quem já pessoalmente viu a Pietá, do Michelangelo, garante que há no mármore pelo menos 36 graus centigrados. O amor da mãe brota no filho, seja ela a progenitora, uma ama de leite ou uma estátua de pedra. E é assim porque não quer nada em troca.

Talvez o que esteja faltando ao mundo seja esta noção, de que tudo está interligado, que sempre haverá recompensa, que somos todos frutos uns dos outros, pais, mães, filhos, irmãos.

 
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A revolucionária sp-arte

A sp-arte é um espetáculo consolidado na agenda da cidade. É uma vitória do mercado paulistano e brasileiro. Os galeristas trouxeram o que vende. E vendeu-se muito. Um estrangeiro que está entre os maiores do mundo confidenciava que vendeu tudo na semana anterior à da abertura. E por “tudo” entenda-se Picasso, Basquiat, Giacometti e outros da mesma estatura.

Outra coisa boa que se comentava é o grande número de doações. Pessoas físicas, empresas e fundações compraram e doaram para museus, com destaque para o MAC-SP e a Pinacoteca, de um lado, e Iguatemi, Oi e Fundação Edson Queiroz do outro.

O ambiente pretendido e alcançado é de feira. Ali a ideia é fazer negócios, não apresentar alguém novo. O investimento deve ser puxado e não sobra muito espaço para aventuras. As atenções estavam voltadas para os artistas consagrados, como os nossos modernistas Di Cavalcanti, Portinari e Pancetti, e também os contemporâneos, muitos deles circulando pelas galerias.

No fim das contas a técnica não varia muito. As telas e fotografias procurando formas diferentes de falar de cores e de luzes e as esculturas nos provocando com e relação entre forma, volume e peso. Ganha quem consegue emocionar.

A piada ficou por conta de um americano que enfiou numa boia infantil de cavalinho uma escada de pintor amarela, com o detalhe que a boia é feita de algum material maciço e pesadíssimo. Uma bobagem à venda por cinco milhões e meio de dólares. Terá alguém ralado esta gaita?

E quem eu gostei de conhecer foi um pintor cubano chamado Antonio Espinosa, representado pela galerista Jacqueline Shor. Ele pinta umas marinhas em preto e branco que parecem fotografias, e também faz arte política de protesto usando símbolos da glória e da miséria cubana, como remédios falsificados, anéis de charutos e o Che Guevara. Perguntei se abusando assim ele podia entrar e sair tranquilamente da ilha e soube que sim.

No final do século passado algum sargentinho resolveu endurecer contra os artistas e o efeito foi que ficaram primeiro sem arte e depois sem artistas, porque todo mundo que conseguia sair para uma exposição tratava de não voltar. Aí começa a maravilha. Como até entre os idiotas totalitários há seres pensantes, alguém observou que sem arte toda uma época ficaria carente de um registro histórico e decidiram aliviar. Assim, os artistas entram e saem à vontade e podem ganhar em dólar, exercendo um mercado próprio que o regime faz a gentileza de não regular.

Isto é: até o Fidel Castro sabe que sem arte não há revolução, não há evolução, não há história. E o que sustenta a arte é o mercado. Daí que a Fernanda Feitosa, criadora da sp-arte, talvez seja hoje a pessoa mais importante para as artes plásticas no Brasil. Mil parabéns para ela.

 
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O coreto e O quarteto

Meu sonho proibido é dar de presente um coreto para a minha Neguinha. Mas ainda que eu tivesse o dinheiro e o consentimento da cidade para ergue-lo num jardim – estou de olho na praça Desembargador Mario Pires, no Centro, cuidada pela banca de advogados Machado, Meyer, Sendacz e Opice –, a homenageada não aceitaria. Muito provavelmente eu ficaria com o coreto e sem a Neguinha, que considera isto mais um devaneio meu, coisa sem o menor cabimento.

O coreto seria público, é claro. Os coretos, assim como as fontes, praias e pés de fruta jamais poderiam ser privados. Mas ainda assim seria da minha Neguinha, mesmo a contragosto. Na única vez que topou discutir o assunto com a seriedade merecida procurou defender algo em relação à prioridade, como se um coreto não precedesse qualquer outro equipamento, como se um coreto não fosse fundamental.

Da minha parte só há um receio, que é em relação ao custeio. Se para o investimento já me falta a grana, nem imagino como seria manter os músicos tocando nos fins de tarde, ou pelo menos todo domingo, como propôs o Braguinha. Nossos músicos são tão raros. Ontem anotei que seria lindo se todo brasileiro pudesse estudar música. Menos o meu vizinho flautista. Este poderia atacar de marronzinho.

Mas enquanto não resolvo tudo isso me contento com a lembrança d’O Quarteto, filme de estreia do Dustin Hoffman como diretor. O elenco e a locação ele foi encontrar na Inglaterra: Beecham House, um palacete cercado de jardins que funciona como retiro de artistas, todos cantores líricos ou músicos que estão lá para ter cuidados especiais e descansar. O clima é outonal, próprio dos mais entrados nos anos, com piadas sobre esta parte da vida e sobre a arte. A melhor de todas junta as duas, com um velhinho provocando o outro: – “Nunca me esqueci daquela sua interpretação. Mas vou continuar tentando.”

E eu dessa fita não quero me esquecer jamais. Sabe o que é que tem? Mais do que um, dois coretos no jardim, que eles mantém com a renda de um espetáculo anual onde todos os velhinhos trabalham, produzindo, dirigindo, atuando, e que se encerra com o Rigoletto do Verdi tocando os nossos corações, com o perdão do amante magoado pelo espírito volúvel da mulher.

 
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Dois gols do PT

Mil parabéns para o prefeito Fernando Haddad que proibiu o trânsito de carros no Largo Treze de Maio, em Santo Amaro, durante o horário de pico, restringindo o trânsito aos ônibus, taxis e motocicletas (eu proibiria também as motos). Numa canetada óbvia melhorou em 30% a fluidez no local. Gol de placa! Finalmente a prioridade passa a ser do transporte coletivo. É de aplaudir de pé.

Claro que deu muita chiadeira. Do dono do estacionamento à madama que não sabe a arte de andar de salto nem de escada rolante e muito menos pelas nossas péssimas calçadas estão contrariados. E é bom que estejam. Tomara que o primeiro ceda logo o lugar a um negócio menos cretino do que estacionar carros. (Até o posto na esquina da Faria Lima com a Cidade Jardim, a mais cara da cidade, virou estacionamento. É alarmante!) E a segunda que reclame por calçadas melhores e deixe de andar só em esteiras de academia.

O bom agora seria se a proposta se espalhasse, pegando a Santo Amaro, subindo pela Brigadeiro Luiz Antonio, sem se esquecer da São Gabriel, que segue pela Nove de Julho, e também a Rua Augusta, Rebouças, Consolação. Só sem aquele monte de carros poderemos desfrutar da reabertura do bar Riviera, que o Facundo Guerra e o Alex Atala estão preparando de presente para São Paulo. Dizem que até o Juvenal, garçom eternizado no traço do Angeli, foi resgatado.

E por falar em ônibus, os novos pontos que estão se espalhando pela cidade mais parecem mandacarus de espinho, aqueles que segundo o Helito Bastos “não oferecem sombra nem encosto”. Onde já se viu um troço tão mal planejado? Feios não chegam a ser, mas a forma está longe de atender à função. Usar vidro em equipamento público foi a pior ideia de todos os tempos. E o desconforto de esperar sob o sol? Gol contra.

 
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