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Drogas, FHC, Napoleão e Dom João

Começa hoje em São Paulo o programa de internação compulsória para dependentes de crack. A ideia consiste em abordar as pessoas nas ruas e internar para tratamento com ou sem consentimento. Alguns terão prioridade, entre eles  grávidas e contaminados por doenças graves como hepatite, tuberculose ou AIDS. Parece que serão tratados até a cura ou o parto e depois perguntados se querem estender o processo até o abandono da dependência. Confuso, para dizer o mínimo.

Mais do que uma opinião formada sobre o assunto, tenho medo das consequências. Questão de princípio. Receio qualquer interferência do Estado na vida pessoal do cidadão, sobretudo quando os limites não estão claros o bastante. Pela mesma teoria defendida pelos entusiastas da proposta, os alcoólatras que logo pela manhã passam pelo botequim para beber um “Paramount” – como são chamados os coquetéis que fazem parar a tremedeira das mãos do sujeito –, poderiam vir a ser internados de acordo com a vontade daqueles tidos como “autoridades competentes”.

A parte boa – porque tudo na vida tem uma parte boa – é que as drogas começam a ser encaradas como questão de saúde e não de segurança pública. Este sim me parece um passo enorme, ainda que diminuído por uma política que oscula o totalitarismo.

Assisti com prazer a entrevista que o Doutor Dráuzio Varella fez com o presidente Fernando Henrique Cardoso. Logo no primeiro bloco da conversa dividida em três partes ele fala da origem e dos desdobramentos da cruzada mundial contra os entorpecentes que hoje identificamos como drogas ilegais.

Eu não sabia, mas esse devaneio de propor extinguir completamente as drogas  do planeta foi plantado no governo do Richard Nixon e colhido como fruto sagrado pela ONU, que o mantém até hoje, independentemente do fracasso consagrado.

Meu palpite é que o Nixon, ante a corajosa decisão de sair do Vietnã, precisou oferecer algo mais amplo e duradouro aos fabricantes de armas, e para eles nada poderia ser melhor do que a proibição irrestrita das drogas, posto que a história ensina que sempre que uma lei é impossível quem prospera é o crime organizado, obrigando o Estado a se armar para combate-lo, criando um círculo vicioso delicioso para os escroques do mercado bélico. Vide Lei Seca e o lendário Al Capone.

Voltando à parte boa, que é começar a entender o drama das drogas como questão de saúde pública, a chave para a solução passa pela experiência do próprio FHC e do Doutor Dráuzio quando lembram da elaboração da política para tratamento da AIDS no Brasil. Fosse entregue ao pessoal que defende a proibição e a repressão das drogas, os portadores do HIV seriam presos, fichados e impedidos definitivamente de qualquer prática que permitisse a transmissão do vírus, bem como qualquer pessoa que trepasse sem camisinha ou compartilhasse uma seringa.

Graças a Deus a imbecilidade humana não chegou a esse ponto, muito até pelo contrário. A epidemia de AIDS foi controlada no Brasil com campanhas educativas, distribuição grátis de preservativos (ante protestos religiosos) e de medicamentos  para o tratamento da doença, que para tanto tiveram as patentes internacionais quebradas, servindo de modelo para o mundo inteiro. Quer dizer: esforços e investimentos concentrados em educação e saúde.

Em Portugal fizeram a mais ou menos a mesma coisa, só que com as drogas. Lá o gosto popular é mais a heroína do que a cocaína ou crack, e o que o governo fez foi descriminalizar o uso de todas as drogas, sem restrição, e oferecer aos usuários tratamento gratuito e desestigmatizado, uma vez que a pessoa não tem que se identificar para ser tratada.

O mundo ainda vai reconhecer a inteligência estratégica portuguesa, cuja base é a lógica e a resiliência. Eles são capazes de vergar ao extremo e por isso não quebram nem machucam ninguém. Quanto antes a gente aprender com eles, melhor.

Dom João VI quando mudou seu reino para além mar, notadamente para o Brasil, deixou o Napoleão feito bobo e de pires na mão. Pela lógica, Portugal era aqui, impossível de conquistar sem perder a Europa. Com a queda do tirano tudo voltou a ser como dantes. O golpe foi tão severo que as biografias dedicadas ao estrategista militar genial fazem a gentileza de esquecer o drible joanino.

O imperador despótico de hoje é o crime organizado, imperando mundo afora, corrompendo Estados, apodrecendo instituições, cada vez mais rico pelo tráfico de drogas, crianças, mulheres, órgãos e armas, muito poderoso e alheio ao sofrimento das pessoas. Temos duas opções: enfrentar nos termos deles, que são pólvora, chumbo e brutalidade, ou nos nossos, que são educação, saúde e inteligência.

 
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O Centro é a nossa praia

Dos dez lugares preferidos pelos turistas que visitam São Paulo, quatro estão na Luz e só dois não estão no Centro. Mas o endereço e a predileção não são os únicos laços que unem esses lugares. A chave é a mesma no mundo inteiro, não falha: arte, cultura, urbanismo e arquitetura. Vida boa nas cidades só pode ser assim.

A lista foi criada democraticamente pelos navegantes de um dos maiores sites dedicados ao turismo no mundo, o Trip Advisor. Começa com a Sala São Paulo, que se confirma como o legado maior do governador Mario Covas. Foram mais ou menos 50 milhões de reais investidos na reforma e adaptação da estação Júlio Prestes e criação da Orquestra Sinfônica do estado de São Paulo. Comparados aos tantos bilhões do orçamento estadual é dinheiro de “bolso de colete”, diriam os barões do café que por ali passeavam há cem anos.

O José Serra quando assumiu o governo paulista mostrou que fez a lição de casa e tratou fazer acontecer algo na mesma linha para entrar para a história: a SP Companhia de Dança que ele inventou ficará ali na frente, dentro do Centro Cultural da Luz, um prédio lindo projetado pelo escritório suíço Herzog & De Meuron, que está nascendo e cujo ultrassom pode ser conferido no youtube.

Quem tocou a concepção foi o Andrea Matarazzo quando ocupou a secretaria da Cultura, que por sinal também fica na Júlio Prestes. Além do Covas, do Serra e do Geraldo Alckmin que continuou e garantiu ambos os projetos – isto é fato, não tucanice –, outro homem que entrou para a história através do mecenato teve influencia no trabalho do nosso hoje vereador: Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccillo, que nos legou o MAM, o MAC, a Bienal, o TBC, a Cia. Vera Cruz.

Mas o melhor de tudo é que esse esforço não foi em vão, como prova o ranking de quem usa. Os bocós que acreditam na rivalidade entre Rio e São Paulo repetem que “praia de paulista é o shopping”. Não é. Ficou ainda mais claro que a nossa praia são os bares e os restaurantes, e antes deles as praças, parques e equipamentos culturais.

E se em Santos a restauração dos prédios em frente à praia está rendendo ao investidores lucros de até 100%, por que seria diferente com as pessoas físicas ou jurídicas que voltarem à Luz e ao Centro todo de São Paulo? Enfim, é lá que estão as melhores praças e museus, nosso passado e nosso futuro. O Centro é a nossa praia.

crônica publicada no Portal TASTE/Cesar Giobbi

 
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Mundo ervilha

Fui buscar nos guardados de família um pedaço da Folha de São Paulo do domingo 10 de setembro de 1978, notadamente a página 51 do quinto caderno, já desde então chamado Ilustrada. O fim era encontrar a nota que o colunista social Tavares de Miranda publicou sobre o meu batizado e da minha prima Gabriella Montoro, mas encontrei muito mais, contrariando e efemeridade da letra impressa em jornal.

O cenário sócio-cultural da cidade não mudou muito, como poderá conferir esta freguesia. A crítica literária destaca antologias sobre as obras de Jorge Luis Borges e Augusto Frederico Schimidt, e da viagem do Ignácio de Loyola Brandão à “ilha proibida”, depois de dezessete anos de bloqueio econômico e cultural entre Brasil e Cuba. Quem então apostou no fim da nossa ditadura teve que esperar mais quase dez anos – e na do Fidel ainda está esperando.

A coluna Panorama, assinada por T Monteiro, traz uma dica do por que da aura de breguice e preconceito enfrentada pelo Miss Universo nas últimas décadas: “protesto dos vários grupos de feministas do mundo inteiro”. Como é sabido, essas pobres diabas tiveram muita influência na imprensa (do mundo inteiro). O bom-senso porém venceu, o feminismo morreu e o concurso está aí, glorioso de novo.  Deixemos para lá. Como diria o Rubem Braga, a simples visão de uma mulher bonita perdoa toda a estupidez da vida. (Sobre o centenário do Sabiá neste 2013 só falo depois da Danuza Leão.)

Outra curiosidade anotada por T Monteiro é a façanha do rapaz francês Michael Lottito, que “comeu uma bicicleta em quinze dias e no 31 de agosto começou a comer outra”. Com três centímetros diários de “ferro ciclístico” ele chegou ao Guiness afirmando que o “prato forte” das magrelas é o quadro. E o Carlos Naggar aí dizendo que gosta de pedal. Gosta nada. Se gostasse almoçava uma.

No teatro gostei de ver o meu querido Paulo Cesar Pereio estrelando ao lado da Ruth Escobar a Revista do Henfil, escrita pelo próprio cartunista a quatro mãos com Oswaldo Mendes. No elenco também esteve a Sonia Mamede, que segundo o Julinho Toledo Piza era boa pra chuchu.

E a música? Como era bom ser flaneur em 1978. Na estação São Bento do Metrô o Marco Rezende e o grupo Index faziam a abertura oficial do I Festival Internacional de Jazz de São Paulo. O tecladista, nascido no Cachoeiro do Itapemirim, e portanto conterrâneo do Rubem, começou a carreira na Europa e participou de concertos com Art Blakey, Dizzie Gillespie, Stan Getz e Ronnie Scott. Isso mudou. Hoje pela São Bento só se escuta o pregão das óticas.

De volta à página 51, noto no alto as fotos do nonagésimo aniversário do “eminente” Luiz Piza Sobrinho, comemorado com missa na Igreja da Consolação e almoço “no seu” Automóvel Clube. “Diziam presente centenas de amigos (“a direita empedernida” segundo outro Piza já citado aqui), entre os quais o prefeito de São Paulo, um ministro do Supremo e altas personalidades”, como confirma a presença do sorridente Bastião do Amor, bivô do meu afilhado Frederico Ribeiro.

A página seguinte, além do anúncio de lançamento da coleção Primavera Verão Vigotex fala de dois jantares (um íntimo, outro dançante) e de um Coc-souper (cuja tradução do google me parece obscena, por isso não vou repetir). Mas seja lá o que for só pode ser coisa fina, porque aconteceu no flat da “grande dama paulista” Yolanda Penteado e foi oferecido ao Alberto Cavalcanti, um dos percussores do cinema no mundo. O jantar íntimo foi para um pequeno grupo em casa de Filly (Matarazzo) e Pierpaolo Gembrini e contou com a presença do decorador Hugo Di Pace, que hoje parece mais jovem do que há 34 anos. O interessante aqui é o sobrenome de solteira da anfitriã entre parênteses. Quando era notável o colunista destacava; quando não, metia um Sra. Fulano de tal e ponto. O jantar dançante se deu no Paulistano em torno do cantor italiano Sergio Endrigo, em noite comandada pelo então presidente Luis Ferraz do Amaral e do seu diretor social Raul Simone Pereira, que foi paciente do meu avô Coutinho em Campos do Jordão, onde presenciou o amigo Hugo de Barros salvar meu pai menino do afogamento num riacho. Tirei uma cópia  enviei para ele, que aos 89 anos completos no sábado passado acaba de me telefonar do escritório para agradecer a lembrança e retribuir com estas e outras histórias.

Enfim, a nota sobre o meu batizado começa com o retrato dos meus avós Olga e Francisco Coutinho, estando eu no colo dela. Logo abaixo meus padrinhos Regina Coutinho (pessoalmente e num óleo na parede) e Ricardo Montoro, tia Helena Carvalhaes, meu pai com a Bibi no colo, minha mãe com a Piny choupando o dedo, e os pais da Bibi, tia Beth e tio Beto Montoro. Mas a melhor foto é a última, do padre Palácios que nos batizou, ladeado pelo então senador Franco Montoro e a tia Lucy, metido num terno de seda e camisa preta com o colarinho aberto e os braços sobre os ombros do casal. Era muito divertido esse padre.

Para lembrar mais uma vez do Julinho e encerrar a conversa, emendo uma das suas histórias. Numa bebedeira o padre perdeu o crucifixo que carregava no peito, ficando numa aflição irremediável. Mesmo assim, porém, um amigo tentou ajudar: – “Não esquenta, padre, cruz de bêbado não tem dono”. Êta mundo pequeno e redondo.

 
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Uma longa e duas rapidinhas

O Tim Maia é que brincava com isso. Sempre que comparecia aos próprios shows regia a plateia qual a um coral. Vulgar, mas coral. O Wilson Simonal também fazia isso e de maneira impressionante. No filme documentário sobre a vida dele está o Maracanãzinho inteiro fazendo o que ele quer, tom abaixo, tom acima, com e sem champignon, salsinha e cebolinha, meu limão, meu limoeiro. E igual ao Tim a velocidade ele também regia.

Naturalmente que Síndico era mais cafajeste e interagia com o público fazendo piadas idem, apontando “só as virgens” ou na clássica Eu e você, você e eu, propondo uma longa e duas rapidinhas: – “Raau; rau,rau”. E ainda dizia que é bom pra celulite, coração, fazia gestos, tudo enfim. Sobrava até pro japonês da técnica, o Gilberto da produção, as gatinhas do vocal. Só peguei em gravação e acho um delírio.

Mas o que me traz aqui é outro Maia, o do calendário. No dia do fim do mundo programado para o ano passado o Marco Renzetti propôs à freguesia da sua Osteria del Pettirosso uma degustação italiana completa. Entrada, primeiro e segundo prato, e sobremesa. Peguei minha Neguinha e rolei para lá.

A bem da verdade furei a fila. Quem me convidou para comer o cacio e pepe na Pettirosso foi o Gerardo Landulfo, mas na falta dele e iminência do fim do mundo preferi não esperar. E de qualquer maneira o prato proposto continua em aberto.

O que ata o Tim ao calendário Maia do Marco Renzetti é a velocidade da sua cozinha: longa. Ir à Pettirosso é para quem está disposto a se entregar incondicionalmente ao chef, feito um coral ao maestro. Tempo, tom, tempero, repertório: quem decide é ele, o freguês só obedece.

Vale a pena. Entre as duas opções para cada ato fiquei com tartar de salmão e mini-alcachofras, fettuccine ao ragu de linguiça toscana e funghi porcini, paleta de cordeiro assada à baixa temperatura com cebolinhas ao balsâmico e de sobremesa sorvete de creme com calda de frutas vermelhas. Alguma novidade? Não. Ou não aparentemente. A maior novidade, ou qualidade do Pettirosso é ir na contramão da invencionice contemporânea e preparar tudo na hora, o que torna a refeição longa, mas faz toda a diferença. Não tem esse esquema de massa ou arroz pré-preparado. O risoto demora o tempo todo do seu preparo, sem truque, sem playback. É o famoso “quem sabe faz ao vivo”. Meti o garfo no da minha Neguinha, que era a segunda opção de primeiro prato, com camarões e aspargos, e senti vontade de aplaudir o chef.

As duas rapidinhas foram divididas entre este e o ano passado. Aproveitando a tranquilidade paulistana desse período fui conhecer o Italy, que na Oscar Freire só não é mais concorrido do que o Frevo. Eles têm lá um garçom ótimo e honestíssimo, cujo nome sofro por não lembrar. Diante da confusão entre as três cartas de vinhos (velha, nova e no tablete), com preços diferentes para a mesma garrafa, com simpatia e sinceridade ele contornou a falha enquanto o metre e o vendedor de vinhos nem se coçaram. Dividimos uma massa fresca recheada que estava boa, mas impressionou mesmo pela velocidade com que chega à mesa. Nem o McDonalds pode ser mais rápido. E o santo também desconfia quando a rapidez é demais. De sobremesa escolhi os cannoli, que vieram acompanhados de uma calda qualquer, ainda bem que à parte. Meu problema com eles é que sempre acho aqueles com os quais a Connie Corleone matou o padrinho na ópera em Palermo  mais apetitosos.

A segunda, nem tão rápida assim, foi no Dinner 210. Queria experimentar o sanduíche de pastrami morno do Benny Novak. E é ótimo, rústico, imperfeito. Só achei que podiam ser mais generosos com o picles. Pedi mais e o garçom teve coragem de me dizer que estava esgotado. Uma pena, mas o cardápio judeu-novaiorquino é instigante  e eu vou voltar. Rapidinho.

 
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Toca aqui

No Almanaque da Revista de História da Biblioteca Nacional, que a mim chega por graça do Jean-Louis Lacerda Soares, amigo gentil que ainda não conheço pessoalmente, e que este mês conta a passagem do nazismo pelo Brasil, encontro a origem do cumprimento romano, que não é outro senão esse que a gente usa diariamente.

A curiosidade entra na conta do amigo italiano do nazismo, Benito Mussolini. O Almanaque nos ensina que entre as imposições do fascismo havia a “saudação romana”, que com o braço direito erguido na diagonal queria substituir o aperto de mãos. Ignorava o Duce que a mão desarmada estendida à troca franca já na Roma do período clássico era o hábito popular. É incrível como as ditaduras conseguem ser cretinas em todos os sentidos ou, como anota a revista, erradas até nos pequenos gestos.

Meu primeiro encontro com a beleza simbólica do aperto de mãos foi em Juquehy, uma praia bonita que existiu no Litoral Norte de São Paulo. Éramos uma turma de moleques criados sob o fascínio dos motores de explosão, e mais do que nadar, surfar, esquiar, jogar pelada, taco ou frescobol na maré baixa, explorar a Mata Atlântica tão rica logo acima das nossas casas, enfim, a gente queria queimar óleo: moto, mobilete, monareta, bugue, o carro do pai. Qualquer lata motorizada emocionava. Mas é claro que sendo todos menos de idade ninguém tinha habilitação, de modo que a brincadeira só era permitida debaixo da vista grossa da polícia – e de alguns pais.

Até que um dia chegou um sargento aflitinho decidido a cumprir a lei com rigor. A notícia se espalhou depressa e todos (ou pelo menos este menino de curiosidade irrefreável) fomos tomados por  uma sensação mista: continuar brincando livremente e enfrentar a repressão da autoridade. Diziam que ele berrava, apitava, batia o coturno (impossível conciliar bom-humor e coturno na praia) e abordava a molecada de arma em punho. Ora, a liberdade é uma delícia, mas nada como um limite para prova-la.

Fui levado para a delegacia algumas vezes, mas nunca pelo sargento caxias. Minha experiência com ele se limitou à lição do apeto de mão, que redundantemente foi dada pelo professor Geraldo Pinheiro Franco. O Gê era então juiz corregedor da polícia, e na impertinência íntima dos caráteres pouco calejados todo nosso desejo era ver o juiz “da gente” metendo uma carteirada e calando a boca do algoz oficial.

Quando enfim nos encontramos ele tinha abordado se não me engano o Ferzinho Cardoso empinando em frente à Casa Rosa. Mas como deu tempo de botar a moto para dentro da garagem o guarda ficou na calçada com o revolver em punho. Então correram para chamar o Gê, que com toda calma chegou e estendeu a mão ao policial, que não teve outra saída senão devolver a arma ao coldre para retribuir o cumprimento. E então para o nosso desgosto levamos um puxão de orelha tanto do sargento quanto do juiz, ou melhor, do Geraldo, do pai da Fafá e da Juju, que frustrando a nossa expectativa sequer mencionou o posto que ocupava.

 
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A esperança através do gelo

Não faz tempo, quando o freguês pedia um refrigerante com gelo num desses botecos chamados “pé sujo”, invariavelmente o copo chegava vazio e a garçonete argumentava cheia de razão: – “Está gelado”. Não era questão de má vontade, mas de cultura. Gelo no copo era algo que simplesmente não existia naquele universo.

O por que disso eu não sei, mas imagino. O gelo já foi visto como vilão. Acreditava-se que as gripes e resfriados tinham origem no “tomar gelado”. Quem nunca foi repreendido, ou pelo menos tido como excêntrico por querer chupar um picolé no inverno? Outra possibilidade é a do serviço. Por menor que seja vai alguma mão de obra em botar gelo no copo, sobretudo quando não se está acostumado. O custo também pode ter sido levado em conta, ainda que por menor que seja, igual ao serviço. E tanto que me lembro de ter recebido algumas notas de despesa com um GL rabiscado, que significava “gelo e limão”, em referencia a alguns centavos extra na conta. E quando o negócio é uísque a coisa piorava. Por ser raro e caro antes da importação, alguns tinham como heresia misturar tanto gelo e um splash de água ou soda com ele. A notícia boa é que esse tempo ficou para trás.

Claro que ainda há um caminho longo pela frente, mas o progresso é consistente. Hoje no caminho da roça parei para almoçar ao meio-dia no boteco que fica na esquina da Zé Maria Lisboa com a Ministro. Pé sujo total, muito embora limpinho e organizado. Porteiros, pedreiros, pintores de parede, a turma da firma, molecada do cursinho: todos aqueles que, como dizia o Nelson, suam muito e ganham pouco estavam lá reunidos – e eu não poderia faltar.

Os pratos do dia eram primeiro o tradicional Virado à Paulista, muito bonito, com a couve exibindo um verde de Serra do Mar depois da chuva, e a bisteca, o torresmo e a banana frita dourados e com cara de tenros por dentro e crocantes por fora; depois uma costela da qual só vi os ossos completamente limpos na outra mesa, que me fizeram crer que fosse cozida, ou atolada.

Escapei da tentação do Virado pelo histórico do final de semana. A convite dos meus brimos Dindin, Angelina e Ronaldo Cury, no domingo fui às Tripas  à Moda Árabe no Clube Atlético Monte Líbano e me esbaldei com elas e outras delícias super-condimentadas da cozinha sírio-libanesa, com especial atenção ao charuto de acelga, daí que hoje preferi aliviar.

Fiquei no trivial contra-filé com arroz, feijão e fritas. Estava bom? Arroz, feijão e batata sim, mas o bife ainda não. A turma continua batendo a carne com martelo, o que entre outros prejuízos torna impossível prepara-la “ao ponto” ou antes dele, porque ao menor contato com o calor o suco que resiste se esvai. A carne com as fibras arrebentadas, no calor perde o sangue igual a um barranco sem raízes perde a terra quando chove. Além disso a cor e o falso brilhante não negam o óleo e o tempero químico usados no preparo, ainda que, oh graças!, o sal refinado e ardido tenha sido substituído pelo sal grosso, suave e surpreendente.

Enfim, a alvíssara que me trouxe aqui é a seguinte: cumprindo a quaresma de ano-novo (inspirado na regra do IPVA que dá desconto a quem paga adiantado, me penitencio logo no começo do ano e deixo por vinte dias a restrição, exclusiva ao álcool), pedi guaraná magro com gelo e, voilá!, veio gelo. Duas pedras, mas não se pode negar a transformação, ainda que embrionária.

A vitória definitiva dos pés-sujos virá quando eles começarem a fazer exatamente o que sempre fizeram, só que de um jeito mais cuidadoso e refinado, principalmente na cozinha. Parar de bater o bife, temperar o feijão só com alho, louro e porco defumado, botar gelo no copo com generosidade e quem sabe trocar os talheres de alumínio pelos de inox. O Mocotó está aí (ou melhor, lá na Vila Medeiros), lotadíssimo, para confirmar.

 
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A satisfação do ridículo

A única coisa boa desses dias de sol escaldante é poder escapar logo cedo para um passeio no parque do Ibirapuera. Digo, a única que posso publicar, porque a outra, que é o aumento da generosidade feminina em mostrar a pele também conta, mas não fica bem se dita por um rapaz comprometido como este bloguista.

Parte do programa é algo há pouco tempo inimaginável: passar protetor solar. Esse tipo de creme era para mim como que uma extensão do maiô, absolutamente associado a praia ou piscina, impossível e estranho em qualquer outro lugar, mais ou menos como uma vara de pescar à margem do rio Pinheiros. Mas eis que a indústria venceu e hoje não só eu passo diariamente protetor nas faces como ele escorrega pelo pescoço, ombros e braços quando saio para um passeio estendido ao sol. O apavorante histórico genético colabora na prevenção.

Não sei dizer do que gosto mais nesse parque que é um xodó paulistano. O lago é lindo, a arquitetura um colosso, o arvoredo um brinquedo de Noel, esculturas, passeios que depois de décadas se revelam surpreendentes. Mas talvez o melhor sejam as pessoas. Só não bato o martelo porque o excesso me aborrece muito, mas durante a semana elas são um barato, figuras diversas, conversas improváveis.

Uma turma que me intriga é a do basquete. Parece que igual aos meninos brincando de caubói de filme americano, de bota, chapéu e revolver na cintura, eles ficam brincando de negros da periferia de filme americano: usam as mesmas roupas, tênis, expressões, enfeites e também são na ampla maioria negros, muito embora não tão grandes ou escuros quanto os americanos. São tantos os tipos humanos… querer limitar a meia dúzia de raças é tão burro quanto o preconceito.

Mas o que eu queria dizer é que achava engraçada a cultura deles quase que infantil de tão copiada do que sai da lata. Praticamente não há interferência nenhuma, zero de tempero brasileiro. Mas é claro que esta é uma burrice minha, um preconceito de quem vê de longe e nunca parou para conversar. É impossível que não haja transformação, que a cultura penetre na integra sem a mínima troca com quem a absorve.

O tonto aqui ficou muito evidente quando se viu em ágape recente bancando o italiano com a maior seriedade. No lugar de comer a salada como sempre fiz, deixei-a para depois do segundo prato que raramente comi,  e este foi de carne, porque o primeiro deve ser o carboidrato, massa ou risoto, mas não muito, até porque antes já houvera sopa de entrada e convinha guardar um espaço para o queijo taleggio que veio depois da salada e ajudou terminar o vinho feito de uma uva chamada Nebbiolo – mas que também pode ser a região ou o produtor, sei lá eu.

Me senti ridículo e satisfeitíssimo, tal qual um garoto apaixonado que prepara um cartão para a namorada, a turma do basquete do parque, ou ainda o Guido Mantega planejando a política econômica.

Crônica publicada no http://www.taste.com.br/cesar-giobbi/item/9971-blogueiro-maneiro.html

 
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Likeaholic

Dia desses a Caro Ouro botou no facebook uma charge retratando um novo tipo de dependente químico: o likeaholic. Nada mais é do que o nego viciado em curtidas, que a todo momento abre a rede social para saber se alguém gostou do que ele disse. Eles estão – ou estamos, admito – em todos os lugares cutucando o telefone esperto. Para amenizar um muxoxo cotidiano qualquer, como se ver condenado ao congestionamento ou mesmo num bar agradável, porém esperando alguém, sacamos do aparelho e procuramos o alívio daquele polegar ereto que o Mark Zuckerberg adaptou.

No mesmo dia em que a charge apareceu coincidiu de eu ler a explicação científica da dependência. A Susan Greenfield, neurologista britânica, revelou às páginas amarelas da Veja um palpite: o cérebro humano produz uma substância relacionada ao estímulo e à recompensa chamada dopamina, que é liberada quando se toma uma droga chamada ritalina, quando se atinge o orgasmo, quando se come chocolate e também quando se joga videogame. Parece que a cada pequena vitória alcançada no jogo nosso organismo auto se laureia com a dopamina, incentivando seguir adiante e cada vez mais sem limites por uma nova dose – e não precisa ser cientista para entender as redes como videogames sociais.

Outro doutor já disse que fazer graça vicia. O prazer de ver gente gargalhando com uma piada sua é inebriante. Daí que, como sabe a voz do povo, tem gente que perde o amigo mas não perde a piada. É quando rola uma bad-trip. E também há casos de ressaca, quando depois de tanto macaquear por horas, dias a fio o palhaço prefere dar um tempo, ficar na sua, mas a turma estranha da mesma maneira que faz com os abstêmios, trocando o “como assim não vai beber?” pelo “você está muito quieto hoje, que é que foi?, se abre comigo”.

Muito parecido mas segundo a Baronesa de Campo Verde completamente diferente, e basicamente porque uma é real e a outra virtual. Ela enxerga que as redes sociais estão transformando a identidade das pessoas, e com efeito os relacionamentos, e que isso pode levar a transtornos sociais proporcionais a uma sociedade inteira formada por autistas ou enfermos do mal de Alzheimer, isto é, indivíduos restritos a um universo particular, sem história e sem memória, que não sabem de onde vieram nem para onde vão, como tampouco podem discernir entre o que é informação do que é conhecimento. O vulgar diria que seria como não poder distinguir masturbação de sexo com amor.

O melhor exemplo que ela oferece é o da princesa encastelada na torre. Quem conheceu a Rapunzel através das histórias contadas pelos pais antes do sono e depois nos livros criou uma relação de afeto com ela, tem ódio da bruxa e fecha o livro convencido que vale a pena perder a visão pelo grande amor e pela justiça. Já quem cresceu com o Mario Bros só quer ganhar o jogo e comer muitos cogumelos

Reza a lenda das redes sociais que um executivo da Nintendo defendeu o Pac Man dizendo que se ele influenciasse as crianças hoje elas seriam jovens trancados em ambientes escuros, comendo pastilhas e ouvindo música eletrônica. Profeta! A turma do Mario Bros cresceu e as rondas do Luiz Américo Camargo para o Paladar confirmam que nos bares e restaurantes da moda tudo é trufado.

Para mim o maior perigo está na cultura da ação e reação imediata. Há uma legião de pessoas defendendo o aqui e agora como solução para a vida. As mensagens estão em todo lugar: “Só há um dia em que você pode fazer alguma coisa: hoje”; ou relógios que no lugar de números marcam todas as horas com a palavra de ordem: “agora”. Ninguém quer ter passado nem imaginar o futuro. É tudo para já, ou como diz a doutora Susan “a percepção da vida como uma sucessão de tarefas desconectadas”, o que nos transformaria em um bando de nômades, forasteiros, alienígenas do próprio cotidiano.

O mais creio que seja aflição. Espero que a turma tire logo o rancão e toque a vida em frente usando as maravilhas das tecnologia com moderação, exatamente como fizeram, ou fizemos todos, depois de tantas horas trancados no banheiro com a descoberta do orgasmo. Caso contrário o jeito vai ser dizer aos meninos que ficar muito tempo segurando o mouse faz crescer pelo na mão.

 
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O elogio da incerteza

Quando o nego fica completamente à vontade no papel que exerce é porque está na hora de parar. A acomodação no posto é o sintoma infalível de que chegou a hora de ceder a vez ao próximo. O conforto é uma dádiva da vida, e quem alcança deve saber usar para continuar ajudando de uma instância superior, caso contrário vai atrapalhar a evolução ou no mínimo tirar a graça que está nas coisas.

A regra vale para tudo na vida: pessoal, profissional, intelectual, arte, esporte, lazer. O marido relaxado não deseja mais a própria mulher e vice-versa, digo, a mulher que não está nem aí para o marido também não quer saber dela própria. Longe de mim propor que o sexo seja vitalício – se é que assim parece. Estou dizendo que as fases da vida devem ser observadas e que para cada uma delas há uma lembrança, um carinho, uma preocupação, ainda que esta seja com o perigo do outro escorregar no banho.

O intelectual quando descansa está pronto para rever o que fez e escrever suas memórias. Produzindo ele precisa do desconforto, da aflição, da curiosidade. Com os artistas é a mesma coisa. A inquietude é tão importante para o pintor quanto a tinta e o poeta só é grande se sofrer, não é, Vinicius de Moraes?

Quer coisa mais enfadonha do que sentar para beber um uísque e saber como será a partir do terceiro? Pode-se ir ao mesmo lugar, no mesmo horário, com as mesmas pessoas, sentar-se na mesma cadeira e pedir a mesma marca todo dia, mas sem o infinito de possibilidades que o terceiro uísque desvela é melhor pedir um Dry Martini.

Esportista consagrado engorda. Taí o nosso Ronaldão que não me deixa mentir. O cara broxou do futebol e entediado só fez bobagem. Quando tomou a decisão acertada de pendurar as chuteiras se encontrou e voltou a ser fenomenal.

Fiquei pensando nisso ontem com tristeza ao saber da notícia de que o José Serra está tramando para concorrer mais uma vez ao Palácio do Planalto. Neste ponto a vontade de realizar já não é mais virtude, é vício. Já escrevi aqui que ele está quites com a vida: foi bom intelectual, político, deputado constituinte, senador, prefeito, governador e o melhor ministro da Saúde do mundo. Tive o prazer de assisti-lo discursando como prefeito e governador e o que acontecia era um anti-discurso, um monólogo manso, bem-humorado, equilibrado e correto mas sem emoção.

O Serra (digamos que) discursa assim porque para ele não há mais novidade. Ele já sabe de tudo, tem todas as certezas e soluções e dúvida nenhuma. Um homem  assim pode parecer ideal para cuidar da coisa pública mas não é. Neste ponto ele funciona bem como senador, como conselheiro, se quiser podemos dizer oráculo, mas o dia-a-dia precisa da incerteza, da fremência do sangue errante disparado pelas veias, porque é dele que a vida se alimenta.

Se ao modelo do Ronaldo o nosso José Serra não souber dar um passo adiante e abandonar essa volúpia presidencial vai acabar abafando o muito que construiu e realizou para as pessoas e pelo Brasil.

 
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Picolé na piscina

No arquivo da Cia City o cacique Tony Godoy Pinheiro foi buscar uma foto panorâmica dos Jardins América e Paulista dos anos 1950. Chega a ser incrível como São Paulo cresceu de lá pra cá. O paliteiro de concreto atual naquela época só contava com meia-dúzia de representantes no alto da imagem. Era o Hospital das Clínicas, um baluarte no topo do morro mais alto tendo abaixo um véu de casas e prédios baixinhos que de esparrama até o Harmonia, passando antes pelo Paulistano.

A turma daquele tempo tem uma dimensão diferente da cidade. A Paulista para eles era um morro identificável. E por sinal, cidade para eles é o Centro. Falam por aí que nos bairros mais afastados até as crianças continuam falando assim. Acho normal e bonitinho apesar de revelar o drama da mobilidade urbana. Mas gosto de dizer: – “Hoje fui à cidade e aproveitei para almoçar no Paribar”.

Também daqueles anos vem o apelido de Terra da Garoa. Por aqui garoava sem parar e fazia frio – o que anda especialmente raro ultimamente e, quando acontece, é seco. Há quem desgoste e admito até que eu mesmo não goste. Uma vez alguém que disse que gosto é de poder usar paletó. É uma verdade dupla: detesto nos bolsos dianteiros das calças outra coisa que não seja lenço e as diversas possibilidades de algibeiras que se espalham pelos paletós são para mim um conforto. Mas de qualquer maneira duvido que alguém goste do calor como está. Este nem nu vale a pena.

Aproveitando a temperatura elevada vamos enfim às diversões de verão que estão no título. Quero contar a história do Picolé, assim mesmo, com P grande porque nome próprio do cachorrinho do João Paulo Meirelles menino.

Tenho dois amigos JPM. Um gosta tanto de calor que se mudou para o Mato Grosso. Só de imaginar o termômetro começo a suar. Mas este João é do Harmonia, e o de hoje é do Paulistano. Fecha parênteses.

Amigo mais recente embora um pouco mais antigo, este João Paulo é o dono do Picolé e será o próximo diretor de Patrimônio do Paulistano. A freguesia desta página que não frequenta o nosso onírico quadrilátero por favor releve. Garanto que o tema é concentrado só na aparência. O que aconteceu entre o cachorro e o clube ultrapassa as catracas, os ponteiros, o calendário. É o retrato falado de uma cidade igual a da fotografia encontrada pelo Tony.

O João Paulo tinha seus oito anos de idade e estava em férias de verão. Então logo após o café da manhã metia uma sunguinha, calçava as Legítimas e desse jeito deixava sua casa na Alameda Tietê a caminho do CAP para aproveitar a manhã na piscina. Detalhe: fazia isso sozinho. Não é uma maravilha? Quem imagina uma criança indo ao clube sozinha hoje em dia, sem os pais ou as babás?

A bem da verdade preciso acrescentar que livre leve e solto ele só era capaz de ir, porque seus primos afirmam que na hora do almoço tinham que pesca-lo praticamente a picaré dentro da piscina recém entregue pelo Gregori Warchavchick, donde debaixo do trampolim, com os cotovelos feito mãos-francesas apoiando o corpo na borda molhada ele se deslumbrava com a sede nova e quiçá com a conclusão do Ginásio Antonio Prado Júnior, do nosso Pritzker Paulo Mendes da Rocha. Com estas referencias amadurecidas depois de alguns anos o moço tirou diploma de arquiteto e urbanista pela USP e a partir do ano que vem terá a oportunidade de devolver tudo isso ao seu clube querido.

Mas e o Picolé? Era o outro motivo que obrigava o João Paulo sair de dentro d’água. Naquele tempo os portões das casas só eram fechados para prender cachorro brabo, e como o fox paulistinha dos Meirelles era um doce, não conhecia tranca. Por assim acostumado e apesar de não ter carteirinha ele também não as reconhecia no clube, daí que à menor distração do porteiro ele entrava para se refrescar, obrigando o dono a captura-lo e recolhe-lo de volta à Tietê.

É claro que esses invejáveis verdes anos dourados tiveram muita influência na vida do João Paulo Meirelles. A infância é determinante para todo mundo. Sorte dele? Sem dúvida. E nossa também, porque no lugar do menino ao Picolé foram os sócios que capturaram seu diretor, que colocando sua história e talento em benefício do patrimônio do clube atenderá ao patrimônio histórico de toda a cidade. Trarei para cá as alvíssaras sempre que brotarem. Boa sorte, JPM!

 
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