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A vida inteira

Entre ontem e hoje a página do blog no facebook alcançou 900 curtidas, motivo de jubilo para o cronista. Não acho pouca coisa tanta gente seguindo alguém que não oferece outra coisa além de letras organizadas, notadamente hoje em dia, quando o pouco que se lê é cada vez mais pouco. (Se a forma está errada, a freguesa releve, porque fugi da escola.)

Para comemorar botei na foto de capa um trabalho da minha xará Leonora Fink. É uma cena com crianças negras sentadas à beira de uma fonte. Para nós, brasileiros, criminosamente acostumados ao abandono das fontes e das crianças (sendo as ricas com as babás e as pobres pelas ruas; e sendo pobre a maioria dos negros), remete ao centro decadente de qualquer cidade grande. Um segundo olhar enxerga que tantos as crianças quanto a fonte são bem cuidadas, e nos transporta imediatamente para o mundo civilizado.

Mas o que eu queria dizer é sobre o filme Dentro de Casa, que está nas melhores salas da cidade. Fala de um francês ideal, professor, casado com uma mulher interessante, sem filhos e com vida cultural gostosa, porém algo entediado com a mediocridade contemporânea, tanto entre seus alunos quanto na arte apresentada pela mulher galerista.

Até que qual uma flor da fenda no asfalto brota um talento entre seus alunos, que traga o professor para um jogo excitante, irresistível, que o leva a atuar, como diria o outro, “no limite da irresponsabilidade”, mas assim como o outro e todo apaixonado, sempre em busca de algo maior, mais forte e belo, sem se preocupar com as consequências em sua vida pessoal.

Fica o exemplo de que é preciso paixão. Sem querer me defender, tenho certeza que fugi da escola porque achava tudo aborrecido. O assunto era cansativo, o ambiente desconfortável, as matérias enferrujadas. Nem a comida salvava.  E “do lado de lá tanta aventura” que o portão de saída ficava muito mais atraente do que a lousa.

Outra fita que vem da Europa fala disso. O Homem desenvolveu a capacidade de se adaptar, mas ainda é bicho e a longo prazo a necessidade do habitat-natural torna-se orgânica. Ginger & Rosa fala da amizade de duas meninas adolescentes na Londres da Guerra Fria, naturalmente impetuosas, apaixonadas por um boêmio radical, que querem da vida a vida inteira e nem um tostão a menos, mesmo que isto signifique dor e sofrimento.

 
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30 mil milionários e mais da Rose

Antes tarde do que nunca, o BNDES parece estar de volta à realidade. Na sexta-feira o presidente Luciano Coutinho – não é parente – chamou a imprensa para dizer que abandonou a política de criar empresas “campeãs nacionais”.

A justificativa do abandono foi a da conclusão do ciclo. Como era previsível, o Luciano falou das limitações do Brasil para criar empresas líderes sem citar o gargalo da infraestrutura e da mão de obra preparada. Segundo ele o possível foi feito. Em números, isto significa ter emprestado em condições de mãe para filho cerca de 18 bilhões a empresas como JBS, Marfrig, Lácteos Brasil (LRB), Oi e Fibria. Destas cinco, duas (LRB e Marfrig) estão em recuperação judicial. E a conta não inclui o pindura de quase dez bilhões do Eike Batista. Sobre a periclitante situação do baluarte dos nossos bilionários, Luciano diz estar tranquilo. Bom, pelo menos ele.

Não sei onde eles pensavam em chegar desse jeito. Pelo que eu sei BNDES é a sigla para Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Me parece tão óbvio que de modo geral, mas principalmente para o desenvolvimento econômico e social, mil milionários valem mais do que um bilionário… Com a grana da política de criação de empresas “campeãs nacionais” a gente poderia ter feito diretamente mais trinta mil milionários, e proporcionariam um progresso social e econômico incalculavelmente maior por um risco muito mais baixo. Mas o BNDES de Lula e Dilma, como se vê, preferiu a concentração de renda.

Ainda Lula e Dilma: Segundo a reportagem de capa da Veja desta semana, o governo Dilma investigou internamente a atuação da ex-chefe de gabinete da Presidência da República, que serviu em SP durante o governo Lula. O que mais me chama a atenção é a foto do gabinete: um retrato gigante do Lula no meio de dois sofás fundos, tipo “cama marquesa”, nenhuma janela. Literalmente uma alcova. Chefe de gabinete?

 
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A pé e abandonado

A melhor página de humor na imprensa atual é o Diário da Dilma, publicado na revista Piauí. Se publicarem em livro no final do mandato servirá ao Brasil como registro histórico. Quero dizer, já serve, mas concentrado num volume único seria uma retrospectiva interessantíssima para o estudo futuro deste governo, além de garantir diversão imediata.

Sobre a mais nova estrela do Congresso Nacional ela anotou mais ou menos isto: “Quando pensei que titia falava muita bobagem, vem o tal Feliciano quebrar o paradigma”.

Entre os que dizem muita besteira a Presidenta poderia incluir alguns correligionários, como a petista e presidente da Petrobras Graça Foster. Na semana passada ela disse que acha congestionamento lindo. A freguesa desta página que duvidar da imparcialidade do bloguista esteja à vontade para checar o google. Entendo e não me magoo, porque foi exatamente o que fiz, e depois de ler o imparcialíssimo Ruy Castro numa croniqueta intitulada Azar do Brasil, que a Folha publicou.

O ponto de vista da Graça Foster é do negócio. Não importam os prejuízos sociais e ambientais: se estiverem comprando combustível e queimando energia, ainda que sem sair do lugar, tanto melhor. É a mesma coisa que a presidência do Mc Donalds festejar a epidemia de obesidade.

No mesmo congestionamento cívico está parado outro petista, o Chico Macena, secretário das subprefeituras do prefeito Fernando Haddad, que se recusa a entender o pedestre como parte do trânsito em São Paulo. Para ele, as calçadas e as pessoas que por elas trafegam que se danem, porque não são problema da prefeitura. O desdém deles por quem anda a pé fica claro no convite para o 5º Prêmio CET de Educação no Trânsito, “que tem por objetivo a reflexão, a criatividade e a produção de trabalhos voltados para a segurança no trânsito”. Segundo a companhia, poderão concorrer motoristas, motociclistas e ciclistas. Ponto. Os pedestres seguem abandonados.

 
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Maioridade penal

A presidente Dilma não surfou a onda demagógica que quer diminuir a maioridade penal. Em se tratando de uma política que não mede esforços para aumentar sua já exorbitante popularidade, chegando a cortar impostos do pão, dos remédios e da passagem de ônibus para maquiar o controle da inflação, a posição denota firmeza e coragem. Principalmente quando o apoio à medida consegue ser ainda mais popular (ou populista) do que ela. Em São Paulo é quase unanimidade: 93% das pessoas acreditam que prender um criminoso dois anos mais jovem pode resolver alguma coisa.

Eu me incluo entre os sete por cento de céticos-lunáticos que recusam a ideia. Duvido da cadeia como instituição transformadora. Aliás, não acredito em muros, não acredito em grades nem como elemento de proteção, seja nas cadeias ou nas nossas casas. No máximo eles enfeiam as nossas vidas. Proteger, não protegem – caso contrário os quartéis do Exército não seriam assaltados.

Os muros e as cadeias no Brasil valem a mesma coisa que as reduções de imposto: não passam de maquiagem. À primeira vista podem iludir, causar uma sensação, “mas na manhã seguinte não contam até vinte”. As grades e o pankake não nos livram dos criminosos nem das mulheres feias. O problema real da desorganização do Estado continua lá – e crescendo.

Falo por mim. Aprontei o diabo na adolescência. Mas garoto da classe média bem relacionada no Brasil não vai em cana. Sorte minha e do Estado e da sociedade também. Tenho certeza que a liberdade naquela fase tão permeável do espírito humano, tão importante e definitiva para a formação do homem, foi mais vantajosa para todos. O cárcere teria um custo social ou econômico muito mais alto,  e absolutamente não teria me encaminhado como fizeram os passeios, a família, os amigos, o amor.

 
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Reinações e palpites de Papito

E por falar no Pedro Paulo de Melo Saraiva (falei ontem), que delícia é conversar com ele. Um privilégio, literalmente, apesar de não ser para poucos, porque o Papito é de uma raça de gente ocupada de verdade, e que por isso não sente culpa em aproveitar o tempo livre, ser cortês com as pessoas, jogar conversa fora.

Ele anda preocupado com as novas estações de Metro na cidade. Eu também. São todas muito ruins. A impressão que dá é que nenhum dos arquitetos oficiais foi ver a estação Sé, aquela maravilha em concreto, ampla, arejada, fluida e… enterrada! As novas todas são umas casinhas cafonas, azulejadas, com o fluxo truncado, um horror. E para que as casinhas se a vocação do Metro é ser subterrâneo? Ao ar livre um buraco de acesso basta. E os projetos cada vez mais vêm com galerias comerciais, propõem entretenimento, como se a estação fosse um destino, não um meio. Incompreensível.

Outra coisa que ele não entende e nem eu é a razão do governo do Estado ter desapropriado a sede da Votorantim, o antigo hotel Esplanada, atrás do Teatro Municipal, para instalar a secretaria da Agricultura. Era uma das últimas empresas que se mantinham no Centro. 600 funcionários, que agora foram para a ponte Eusébio Matoso e estão sofrendo com a precariedade da região em transportes e serviços. Não seria melhor arranjar outro prédio para alocar os barnabés? Ali mesmo no Anhangabaú, ou na Luz, que tem infra pronta e o mesmo governo e a prefeitura têm interesse em revitalizar?

O próprio Papito, que é arquiteto, tem um projeto para a Luz. Na Tiradentes, mais ou menos em frente à Pinacoteca, um incorporador quer erguer três prédios de mais ou menos quinze andares cada, sendo um comercial, outro residencial e um hotel, com lojas e serviços no térreo e uma praça arborizada no centro. Em função do bairro ser tombado, requer aprovação do Conpresp e do Condephaat. No primeiro já passou, agora é torcer pela boa vontade do segundo.

Seja lá como for o Pedro Paulo vai continuar tentando um mundo melhor, uma cidade melhor. O bom de quem tem uma vida como a dele é isto, nivelar por cima tudo o que faz.

Uma vez ele foi a Europa com o Fabio Penteado e o Paulo Mendes da Rocha. Depois de gelar no frio russo os três desceram à Itália para esquentar. Fizeram breve escala em Roma para comprar roupas de linho e depois se deixaram ficar em Capri. Só que gastaram hotel à toa, porque passaram dois dias inteiros sem sair de um bar sobre o mar da Costa Amalfitana. Bebiam cervejotas e vinho da casa e comiam peixes pescados na hora, além dos polvos que davam bobeira na rocha logo abaixo da mesa deles. Alguém assim pode desejar uma cidade aquém de maravilhosa para se viver?

 
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Lista de casamento

E por falar no Drummond (falei anteontem), outra coisa que soube dele lendo A Bolsa e a Vida, uma seleta de crônicas publicada pela Cia das Letras, foi a origem do nome, que eu supunha francesa, mas é celta. Drum onde significa onda alta, e a família ganhou este nome em 1066, do rei Malcom III, da Escócia, quando o príncipe Maurício, da Hungria, salvou a pele de seus primos ingleses da fúria de Guilherme, o Conquistador, comandando o barco que em Perth aportou.

Não sei se a chegada foi exatamente neste porto seguro e muito querido por mim, porque de lá sai o Dewar’s, meu uísque favorito, enquanto a rapa toda sai de Glasgow, mas tenho motivos para crer que sim, posto que está lá o castelo medieval dos Drummond – ou pelo menos estava até 1960, ano em que o poeta se confessou frustrado por não ser lembrado pela casa real inglesa quando do casamento da princesa Margaret com o fotófrafo Anthony Armstrong-Jones. Em represália, não enviou telegrama e muito menos abriu um litro do uísque Drummond, segundo ele uma especialidade de the most noble and ancient House of Drummond – e que, se também sai de Perth, o faz muito discretamente, quiçá num passou parecido com o do nosso Drummond, porque nunca vi, nem bebi.

No lugar da Casa de Windsor eu teria escolhido o Carlos Drummond de Andrade para representar a Casa de Drummond. Mas se opinião de noivo conta pouco aqui no Brasil, imagina na Inglaterra. Noivo plebeu, então, importa menos do que o bem-casado. O costume, contudo, acho excelente: na impossibilidade de receber bem todos os membros de todas as casas para as bodas, convida-se a Casa e esta diz quem vai representa-la. O Fernando Bayeux de Araújo me disse que em Portugal a plebe adaptou a prática, e fazem festas de casamento sempre pequenas e refinadas, onde nunca mais do que um casal representa determinada família.

Mas vamos remando porque o que eu queria era falar do Pedro Paulo de Melo Saraiva, talvez o homem mais refinado das minhas relações. Sempre que me encontra bebendo Dewar’s ele fala de Perth. O Papito é velejador e já eu a volta ao mundo à vela. Quando eu casar farei só uma exigência: que ele seja convidado, porque não vejo ninguém melhor para representar os boêmios, os flaneurs, as pessoas inteligentes (e também um ou outro cafajeste) desta nossa cidade de São Paulo.

 
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A maratona de Boston

Não prestei atenção quando ouvi falar da maratona de Boston. Acho aborrecido esse assunto de competições e a audição seletiva funcionou. Mas quando cheguei à academia vi o Guga Chacra no Em Pauta noticiando os detalhes. Ele não estava no estúdio da Globo em Nova Iorque, mas não sei dizer se estava em Boston. Ele falava e eu não acreditava.

Conheci Boston em 1994. O Fernando Henrique estava começando seu mandato, o Plano Real, apesar de austero, mostrava um futuro animador para o Brasil, nossa moeda valia mais que o dólar e havia o clima da copa do mundo vencida, esta competição que mais une do que separa os povos.

E Boston, igual a toda cidade no mundo, tem suas características, sendo que a principal delas é a civilidade. Foi o que me marcou. Cada um toca a sua vida e não se mete com a alheia. Há respeito total pela individualidade e a preocupação com o próximo e restrita – ou seria abrangente? – ao coletivo.

Já confessei aqui que não soube aproveitar a oportunidade à altura. Legislando em causa própria eu diria que fiquei tão encantado com aquele clima que decidi enfrentar e provocar para ver até onde eles me aturariam. Me arrependo.

É claro que não existe justificativa para o terror. Mas tentando encontrar uma razão para a barbaridade pendi para o seguinte raciocínio: os atentados do 11/9 aconteceram em uma cidade agressiva, na capital do mundo. Mas em Boston? O que a aquela gente discreta e tão civilizada teria feito para atrair a ira desses covardes?

Não encontro motivo. Nunca há, seja onde for. O Guga contou que entre as vítimas fatais há um garoto de oito anos. E entre os feridos diversos de amputados, incluindo outras crianças. Mas se não há resposta para a motivação, há resposta para o que vem depois, e a minha sugestão é que Boston continue sendo Boston.

As cidades são as pessoas. Qual prédio, qual praça ou topografia. O que identifica uma cidade são as pessoas. E o maior crime possível contra Boston seria subtrair sua civilidade impondo o estado permanente de paranoia que se impregnou nos Estados Unidos desde 2001. Que eles tenham tranquilidade para continuar e manter a fleuma.

 
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PEC das Domésticas ou Lei Áurea fase 2 – da ama de leite à baby sitter

Quando surgiu a PEC 66/2012, chamada “das domésticas”, minha primeira impressão foi a de um avanço social tremendo, como de fato é (em que pese o adiantado da hora), mas no sentido de libertar os empregados domésticos dos abusos e da falta de noção dos empregadores. Veja você, freguesa estimada, só dia desses vim a perceber o óbvio: as maiores beneficiadas serão as próprias patroas, posto que são tanto quanto as empregadas vítimas de um atavismo nefasto, que identifico e proclamo como “Complexo de Sinhazinha”.

Aqui no Brasil aprendemos assim: tomar transporte coletivo é humilhante, mas viajar em avião é chiquérrimo. Escolher a lava-louças de último tipo também é fundamental aos noivos que preparam listas de presentes, mas usa-las é uma função subalterna. E fazer filhos? Hea quem goste mais e há quem goste menos. Creio que há até quem não goste – mesmo com a prevenção devida. Mas no criar que é bom é raríssimo encontrar que sinta prazer. A maioria esmagadora se contenta em espiar de longe, como se o crecei-vos e multiplicai-vos fosse uma obrigação social, não uma opção de vida. Assim como o uso do Airbus e a posse de eletrodomésticos sofisticados.

O Carlos Drummond de Andrade nos falou do tesão do esforço físico fundamentado. Arrumar o armário dá um prazer muito maior do que correr na esteira. A endorfina da alma é mil vezes mais gostosa do que a do corpo. Mas na verdade o poeta se refestelou ajudando na pintura da próprio casa. Sabe aqueles casais de filme americano entorpecidos de prazer durante o acabamento do lar, pintando um ao outro e depois se amando sobre os jornais que forram o chão? Foi isso que ele sentiu.

A valorização da mão de obra, do trabalho braçal no Brasil é transformadora. Vai proporcionar a recompensa econômica justa a gente talentosa que sabe o que faz e muito embora isto não seja pouca coisa, ainda não é toda a maravilha que temos pela frente.

Você, freguesa, mãe dessa menina linda de quatorze anos que só quer, só pensa em namorar, tem uma oportunidade de ouro para fazer dela uma pessoa melhor trabalhaando como baby-sitter na sexta-feira para ganhar o dinheiro da balada do sábado. Vai fazer muito bem à formação dela e, de quebra, garantir o seu próprio futuro, porque os enfermeiros vão ficar cada vez mais caros e ter uma filha acostumada a cuidar com carinho e atenção das crianças e dos velhinhos é uma atitude providencial.

 
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Calçadas em calamidade

Na terça-feira que passou fui à Câmara Municipal assistir pessoalmente a audiência pública sobre calçadas convocada pelo vereador Andrea Matarazzo. Pedestre e eleitor dele, queria ver pessoalmente as autoridades e a sociedade discutindo este tema que é urgente.

Abro parênteses para anotar uma má impressão sobre a o Palácio Anchieta: a meia-dúzia de redes de internet sem fio que está pelos corredores da “casa do povo” é protegida por senha. Não seria óbvio que pelo menos uma fosse aberta ao povo que lá vai assistir as sessões, participar de audiências, cobrar seus vereadores? Presidente José Américo, por favor.

Basicamente a ideia era contrapor as propostas do Haddad e do Andrea. O prefeito entende que a calçada é privada e portanto de responsabilidade do proprietário do imóvel adjacente. O vereador enxerga as calçadas exatamente como as ruas, corredores de ônibus e ciclovias, isto é, como vias públicas, e assim responsabiliza o poder público pela sua reforma e manutenção.

Aqui temos 35 mil km de calçadas. Dizer que fora dos três quilômetros da Avenida Paulista todas as outras estão entre ruins e péssimas não seria exagero. Posso falar do meu bairro, por onde ando diariamente: até as “boas” são ruins. O melhor exemplo é a Rua Cristovão Diniz, onde tudo é muito bonitinho, mas não funciona. Com canteiros bem cuidados dos dois lados, o espaço que sobra para quem passa a pé é insuficiente para mais de uma pessoa. Esses carrinhos para dois bebês perfilados também não passam. E o piso de paralelepípedo é lindo, mas irregular, e se maltrata os carros, imagine o pedestre, que não tem amortecedor. E os cadeirantes? Bom, para eles São Paulo é literalmente uma cidade proibida.

A deputada Mara Gabrilli também estava por lá. Ela é seguramente uma das pessoas que mais entende do assunto. Quando foi secretaria municipal para Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida fez um estudo sobre os deslocamentos a pé na cidade e chegou a uma conta animadora: adequar 10% das calçadas da cidade resolve o problema de 90% da mobilidade. É isso mesmo, porque a maioria das calçadas só é usada pontualmente, o grande fluxo de pessoas está concentrado em poucas delas. E o custo? Algo em torno de 120 milhões de reais. (O orçamento da prefeitura para 2013 é de R$ 42 bilhões.)

Ainda assim, o prefeito Haddad insistiu, articulou sua base parlamentar e fez valer o seu projeto, que mais do que deixar o problema como está, agrava, porque empurra com a barriga. Parece impossível faze-lo entender a lógica: em relação ao passeio público só o poder público têm as ferramentas necessárias para resolver o problema: poder, técnica e dinheiro. As estradas podem ser privatizadas. O Metrô pode ser privatizado. As calçadas devem ser públicas. Só na cabeça do Haddad as calcadas são privadas.

 
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O pior mudo é o que não quer falar

Não há virtude no silêncio. Os que pregam o calar no lugar de falar é porque se envergonham do que teriam ou não a dizer. Quem teme a palavra teme a verdade. Quem teme o debate teme a presença e a luz. O silêncio é o vácuo, é a treva, atraente e perfeito como valhacouto da ignorância, da antiética, da covardia.

O silêncio é a burca da alma. E a palavra sua nudez. A beleza dos corpos e das opiniões está na diferença: quanto mais ampla e diversa, melhor. Quão variadas são as formas da beleza física, e quão parecidas com o espírito das pessoas? Quanto mais inocente e despido, mais bonito e verdadeiro é o ser humano. A nudez das crianças, dos povos primitivos, dos miseráveis é sempre bela e comovente. Ridículo e abjeto só pode ser o general sem farda, o acadêmico sem fardão, o padre sem batina, o senador sem casaca e sobretudo o rei sem manto.

Qualquer opinião é melhor do que o silêncio. Tem toda razão o Martin Luther King quando fala que “o que preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. O verbo está no tempo certo, porque, ao contrário do homem, a palavra é viva. O silêncio, não. Pode até ser lembrado, mas sempre como um morto.

As razões para a boca calada são muitas. Há quem cale por medo, há quem cale por dinheiro, há quem cale por interesse, conveniência, inconsciência. E há quem cale por amizade, solidariedade, compaixão, por amor há quem se cale. Mas é mais raro. Por virtude, de modo geral, só se cala sob tortura.

O Homem afirma a própria existência quando rompe em um berro, pondo fim à paz uterina. Feito isto é orientado a calar novamente, ser um bom menino para a própria tranquilidade e para conforto dos que o cercam. Assim atravessamos a vida, associando o silêncio à paz, sem perceber que esta só será verdadeira quando todos puderem dizer o que bem entenderem. O pior mudo é o que não quer falar.

crônica publicada no fanzine Amarello

 
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