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Comida de rua

Sempre gostei de comida de rua. Ainda na escola, antes de voltar para casa era obrigatório passar pelo pipoqueiro ou sorveteiro. Os primeiros sempre têm muitas histórias para contar. O Arnaldo Jabor usou o personagem com perfeição no A Suprema Felicidade. Pipoqueiros falam sacanagens cândidas. Já os sorveteiros são curiosamente cândidos de verdade, geralmente um senhorzinho bom. Mas sobre a comida mesmo, um deleite meu foi descobrir aquela imensidão de piruás debaixo das pipocas. Esses milhos que que tostam mas não estouram, ou estouram pela metade, são para mim uma iguaria. E há tantos nos carrinhos de  pipoca.

Maçã do amor, churros e algodão-doce já eram raros quando eu crescia. Acho que foram definhando junto com a vida em espaços públicos, se restringindo a festas pontuais com grande concentração de gente. Ficaram os marreteiros, vendendo nos semáforos, bijus, amendoins.

Nas praias, onde a gente está, eles também estão. Que delícia o queijo coalho assado na hora. Que destreza no preparo. E outras guloseimas, raspadinhas, sanduíches. No Rio de Janeiro uma vez encontrei um vendedor de kibe e esfiha fantasiado de sheik árabe. Andava acompanhado de duas odaliscas que carregavam os isopores enquanto ele fazia o pregão: – “Kibe e esfiha quentinho!” Foi assim o dia todo e continuou ao por do sol. Não aguentei e perguntei como poderia estar quente até aquela hora, e ele: – “Merrmão, Rio 40 graus!”

Me lembro agora de um que fazia sanduíches na Praça Matriz em Paraty. Ele tinha uma forma para fazer o ovo frito na circunferência exata do pão. Na madrugada as filas na barraca eram enormes.

Eles fazem parte das nossas vidas, mas são ilegais. Pode? Comida de rua legalizada em São Paulo só pastel de feira e cachorro-quente. Todo o mais é proibido, das tapiocas ao yakssoba, passando pelas saladas de frutas e o milho – verde ou em pipoca. Mas até a policia consome, afinal estamos na América do Sul.

Atento em adequar a legislação aos costumes, o Andrea Matarazzo propôs à Câmara Municipal uma lei para regular o mercado. Dificilmente o texto final vai escapar dos vícios das nossas câmaras. Suas excelências vão botar exigências, limitações, tentar criar um órgão fiscalizador para empregar mais gente e atender aos anseios dos currais eleitorais, como quer a proibição de bebida alcoólica para atender os evangélicos, enfim, o preço de sempre para a aprovação do projeto. Mas o importante é que o conceito é incontroverso e os ajustes poderão ser feitos com o tempo e por quem é competente, isto é, a própria sociedade, os consumidores. Nesta quarta-feira 18 de setembro tem audiência pública na Câmara.

Tenho que fazer um viva para o Beto Lago, assessor do gabinete do Andrea. Economia criativa é com o Beto, e comida de rua é economia criativa. É a harmonização do lúdico com o prático, do útil e do agradável. Faz sentido um pipoqueiro ser proibido de trabalhar?  É claro que não. Tem coisa mais simpática que um pipoqueiro na calçada? Faz muito bem o Espaço Itaú de cinema na Augusta, que tendo pipoca dentro, incentiva a presença do pipoqueiro fora. Eles merecem estar dentro: dentro da lei.

 
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Inflação generalizada

O nosso costume é associar a inflação ao aumento do preço das coisas. Basta alguém dar uma gorjeta exagerada por um serviço para outrem dizer que assim o nego está “inflacionando” as coisas. Está correto, mas incompleto. Porque inflação é antes a perda do valor das coisas do que o aumento do preço. Ou ainda: é a distância entre o preço e o valor.

Agora que a sanha eleitoreira do PT ressuscitou o dragão o tema voltou à pauta, mas também incompletamente. Porque a inflação no Brasil não é só monetária. Estamos com quase tudo custando mais do que vale.

Educação, por exemplo. Vale o que custa? Não vale. A educação de base já é ruim, seja pública ou privada. E assim sendo, por melhor que fosse, o ensino superior seria inútil. Mas também é ruim. E o que ocorre é um monte de gente pelas ruas, com diploma e sem noção.

O PT governa sobre pesquisas, e sabe atender aos anseios da população. Quer trocar a geladeira, comprar um carro? O governo criou meios para tudo isso. Então estão certos? Não. Estão errados. Antes de dar o que o povo quer, o governo deve que dar o que o povo precisa.

O que é o Prouni, que levou milhões de pessoas às universidades? É uma atenção ao sonho do brasileiro de ter um filho doutor, até recentemente inimaginável. Parece lindo, e a resposta às urnas será a favor de quem fez, mas efetivamente não vale nada, é a mesma coisa que fazer um andar superior numa casa em que o térreo não está pronto.

A inflação é generalizada. O Brasil prosperou financeiramente, ficou mais caro, mas continua valendo pouco. Quem comprou uma mercedinha está pagando um IPVA mais alto pela mesma porcaria de rua. Tem graça?

Todos os preços estão correndo mais do que os valores, inclusive os cívicos. E o nome disso é inflação. Não há nada pior do que ela.

 
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Viva FHC!

Sinto que festejar um democrata do tamanho do Fernando Henrique é o melhor que posso fazer neste onze de setembro, aniversário de quarenta anos do golpe militar que instaurou a ditadura chilena e de doze anos dos ataques terroristas aos Estados Unidos.

O presidente FHC tomou posse ontem na Academia Brasileira de Letras. Ficou ótimo no fardão. Que vida invejável! Dizem que quando a gente escreve, deve preferir termos positivos. Mas é impossível não dizer invejável uma vida como a dele.

Foi amigo da mulher que amou, é amigo dos amigos. Viúvo, arranjou um broto com metade da sua idade que evidentemente o admira como homem. Tem netos e filhos bacanas, sendo pai afetivo inclusive de um que biologicamente falando não é seu.

Como intelectual cumpriu todas as possibilidades, teve bons professores e bons alunos no mundo inteiro, sendo reconhecido e respeitado por todos. Na vida pública foi incisivo, lutou pela democracia com palavras e clareza, foi senador, chanceler, ministro, presidente da República por duas vezes, disputadas e vencidas no primeiro turno. Seus feitos são muitos e vastos, com a estabilização econômica – que no Brasil parecia causa perdida – entre eles.

Daí ele deixa a Presidência, volta a dar aulas numa universidade importante nos Estados Unidos, palestras em palácios e favelas, é convidado a participar dos grupos mais seletos de homens públicos que há pelo mundo, monta um instituto / fundação sério, que funciona pra valer e em instalações fantásticas, recebe do Congresso americano um milhão de dólares por um prêmio de ciências humanas equivalente ao Nobel, tem coragem de emprestar toda sua história para a revisão de uma questão que é calamidade social mundial, a proibição das drogas.

E como se não bastasse, é eleito por unanimidade para a ABL, vende o sítio em Ibiúna, compra um apê no Leblon e vai namorar seu broto ao por do sol no Arpoador, tendo o jeton pro picolé ou um chopinho.

Neste momento, o Serra e o Lula estão se entendendo com a corda e o banquinho.

 
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Sobre algemas e josés

Há uma semana o José Genoíno entrou com pedido de aposentadoria por invalidez na Câmara Federal. A freguesia desta página pode achar, assim como eu acho, que de fato ele não vale nada. Mas a invalidez alegada é física. Intimamente o deputado deve pensar muito ao contrário e se julgar um brasileiro valoroso, credor da Nação pelos revolucionários serviços prestados e portanto com licença para agir sem quaisquer limite legal ou moral.

A aposentadoria por invalidez às vésperas do juízo derradeiro é uma fuga estratégica e inteligente, mas toda fuga dói em quem se leva a sério, como é o caso do distinto. Aposentado desta maneira ele terá muitas vantagens. Financeiramente vai continuar recebendo o salario integral de deputado, que hoje está em torno de 26 mil reais. Também terá direito ao plano de saúde do Congresso, que inclui o inexorável hospital Sírio Libanês. Mas principalmente vai lhe poupar de inaugurar no Brasil a incrível rotina do parlamentar preso em regime semi-aberto, em que todo dia, à luz do sol quadrado, tem que levantar e ir da Papuda ao Plenário fazer e debater as leis do País.

Astuto, Genoíno pode transferir a família para uma praia tranquila do seu Ceará natal e dar um jeito de ficar preso numa delegacia simpática, passar o dia na varanda de casa, quem sabe convidar o doutor delegado para um almoço de vez em quando. Longe de mim propor perdão para ele: sequer estatura tenho para tanto. Mas friamente posso calcular que mesmo assim suavemente esta condenação lhe será um fardo pesadíssimo e quiçá insuportável.

Muito diferente é o caso de outro José, o Zé Dirceu. O que mais me espanta é ele permitir o advogado insistir com esse embargos infringentes. Ainda friamente calculando, em seu lugar eu torceria pela condenação definitiva mais rápida – até para fortalecer a charla de perseguição política, complô da mídia, inveja das elites, julgamento de exceção. Quanto mais ele falar agora através do doutor Juca menos terá para falar depois.

Este José não foge da raia, nunca fugiu. Se muito, vai ficar um ano e meio em cana, na cela que já estão reformando para recebe-lo, e queiram ou não sairá mais forte, quites com a sociedade, restabelecido de seus direitos políticos e com um infernal discurso de vítima. No mínimo, será deputado federal. E vai dar trabalho.

 
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Sete de Setembro infeliz

São Pedro preparou um sábado de sol para o Sete de Setembro de 2013. Pode-se dizer que foi boicote: as manifestações cívicas previstas em mais de 100 cidades só contaram com os raríssimos brasileiros que não se emocionam com o sol. A parte boa é que sob o vão do MASP, ponto de encontro em São Paulo, havia sombra de sobra para todos os presentes.

Os grupos mobilizados que conseguiram se destacar eram basicamente dois: branco e preto. Os primeiros são entes queridos de vítimas da violência urbana. Protestavam contra uma calamidade coletiva, mas de maneira individual,  cada qual chorando o seu morto. Os de preto eram os famigerados Black Bocs, pobres diabos excluídos que desejam fazer parte de alguma coisa reconhecida. Juntos não encheriam meia-dúzia de ônibus, mas com bagunça e barulho produzem boas imagens, e assim contam com o apoio da imprensa tradicional e dos novos canais – estes organizadíssimos, transmitindo ao vivo pela internet.

Além deles havia os manifestantes performáticos, como uma senhorinha fantasiada de Bin Laden pedindo intervenção militar para explodir do Congresso Nacional, alguns pequenos grupos de partidos políticos ou movimentos sociais, policiais P2 mal-disfarçados (fantasiado de Blac Bloc mas com vinco no jeans) e os ambulantes faturando alto com cerveja a R$5,00, apitos e a máscara do anônimo. Este último chegou com dezenas de máscaras e usando a Bandeira Nacional como a capa do super-homem. Não demorou, vendeu a bandeira.

O cortejo saiu mais ou menos às 15h00. Acompanhamos do MASP até a Brigadeiro. Senti vergonha. Era um contingente enorme de policiais e jornalistas para cobrir uma panelinha barulhenta, mas rasa. Me arrisco a dizer que todo o prejuízo causado por eles não enche o tanque do helicóptero da polícia que sobrevoou o evento. Pela imprensa as imagens impressionam, mas de perto sequer foram capazes de atrapalhar quem aproveitava o sábado: na calçada posterior da avenida crianças continuaram brincando, a feijoada continuou rolando nas mesinhas e numa janela do Paulicéia um homem escovava os dentes espantado com a aeronave militar diante da sua janela.

O ponto alto foi o do menino que lançou um cone da ciclovia contra uma viatura policial, que sequer ficou arranhada. Deve ter garantido uma namoradinha na dispersão.

No final do dia o Black Bloc ainda tinha fôlego. Saí para ir à farmácia e encontrei o desfile descendo a Augusta. O grupo era ainda menor. Excetuando polícia e imprensa, na fila de espera diante do Paris 6 tinha muito mais gente.

 
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Sete de Setembro

A véspera deste Sete de Setembro teria sido mais alegre para o Brasil se julgamento do Mensalão estivesse encerrado e as ordens de prisão da quadrilha que se instalou aliada ao governo Lula expedidas. Quiçá os jornais de hoje trouxessem em suas capas as diligências policiais buscando os criminosos e enfeitando cada um deles com as pulseirinhas de aço. Mas como num processo tântrico, o clímax foi adiado.

Assumo o risco de ser apedrejado e aviso que gostei. O que é do homem o bicho não come e eu não tenho pressa. Quanto mais amplo o direito de defesa, melhor. Depois de tanto espernearem aos ouvidos mais do que tolerantes dos ministros, serão os únicos detentos que não poderão cantar a charla vulgar da inocência, da injustiça.

E o inverso é verdadeiro. No lugar de qualquer condenado eu estaria ansioso pelo fim do processo. A expectativa é torturante mesmo se positiva – vide os brasileiros que já não podem esperar pela imagem do Zé Dirceu no chiqueirinho do camburão. Quando é negativa, Deus me livre!

Mas hoje, mais do que sexta-feira, é a véspera de um Sete de Setembro que deve entrar para a história. Nós brasileiros nos acostumamos a enxergar a Data Nacional como um feriado, um dia de folga. Mais um efeito infeliz da ditadura militar. Este será diferente. Apesar de um monte de gente folgar e outro monte não estar nem aí, há manifestações cívicas sendo organizadas em mais de cem cidades, e isto é maravilhoso.

Alguém vai dizer que o povo não sabe o que quer. Pode ser. E tanto faz. Igual aquela piada, “o povo pode não saber por que está batendo, mas os governantes sabem porque estão apanhando”.

Vamos pra rua!

 
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Jorge Paulo, o Robin Wood do futuro

E o nosso bilionário número um, Jorge Paulo Lemann, foi apontado pela revista Bloomberg Markets como uma das cinquenta pessoas mais influentes do mundo dos negócios. E deve ser mesmo. Qualquer um que pega fama de rico arregimenta seguidores. Quem fica absolutamente rico como ele arregimenta muito mais.

Ocorre que as pessoas  seguem o dinheiro, não a pessoa. Se amanhã o Jorge Paulo vier a quebrar, como já aconteceu no passado, toda sua trajetória será esquecida por essa gente. E é no dia seguinte. Vide o Eike Batista.

O H.L. Mencken escreveu que basta um sujeito ficar rico para suas opiniões ganharem valor, mesmo se relacionadas a temas dos quais ele não entende nada. Arte, por exemplo. Um publicitário pagar milhões por um tubarão embalsamado é o suficiente para consagrar o artista.

O negócio do nosso Jorge Paulo é dinheiro. Parece que é cerveja, mas é dinheiro. Não precisa ser especialista para saber que a primeira atenção da AmBev é sobre o dinheiro, não sobre a cerveja. O truque é fazer parecer rico um produto pobre. E as pessoas, como sempre, compram –  e se esquecem do sabor original da Original e de outras marcas, assim como se esquecem das pessoas.

Na matéria a Bloomberg cita a compra do catchup Heinz pelo fundo 3G, do JPL e sócios. Falando financeiramente é formidável, vai dar dinheiro e muito. Mas em se tratando de catchup, ou mesmo de cultura popular, a piada triste é que os tapas no fundo do frasco, para ajudar o produto sair, serão dispensados, porque o grosso deve ficar ralo.

Infelizmente o mundo é assim e o Jorge Paulo sabe disso. Talvez venha daí sua dedicação a algo de fato bacana como a Fundação Lemann, que trata de educação. Ter botado o próprio nome revela como ele quer ser lembrado, a influência que espera legar. É como se dissesse assim: esta geração está perdida; vou tirar dela e dar para as próximas.

 
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Defuntos não comem Big Mac

Desde que comecei ler notícias – e isso não faz pouco tempo – as guerras só começam oficialmente depois que os Estados Unidos chegam. Isso descontando as guerras civis, é claro. Mas os americanos estão em todas. O orçamento deles para defesa é dez vezes maior do que o da China, que vem em segundo lugar.

São mais de 600 bilhões de dólares por ano. E eles são bons, é claro. Mas não na mesma proporção do investimento. O efeito dessa máquina tão grande e poderosa deveria ser apavorar qualquer um. Mas não acontece, e a turma continua causando por aí, como é o caso do Assad, déspota do momento, que matou milhares de pessoas com armas químicas. Que é um louco ninguém discute. Mas bobo a ponto de ignorar as consequências não deve ser. Logo, a conclusão é que os EUA gastam mais do que apavoram.

Os americanos da iniciativa provada são muito mais competentes. Tomam nações inteiras usando armas como cinema, propaganda, cultura e consumo de massa. Seria tolice de qualquer um negar que as guerras atendem antes aos desejos do capital do que o humanitário. O ponto é que o custo da guerra além do financeiro é muito alto.

A guerra não faz sentido. Não existem os territórios, o que existem são as pessoas. É delas que o mercado vai atrás. De que adianta o petróleo de não há quem precise de gasolina?De que adianta o Mc Donald’s se instalar numa terra arrasada? Defuntos não comem Big Mac.

A única justificativa para uma invasão militar é no caso de as pessoas já estarem morrendo ou abandonando seu território. E nesse caso os bilhões que os Estados Unidos devem gastar para pegar o Assad serão bem gastos.

 
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Capitão Cabral

O tema era vodca, que raramente me chama, mas eu queria fazer um bloody-mary para aproveitar o sol. E fiz. Os vegetais sólidos eram um talo de salsão e outro de nirá, aquela flor japonesa. Ganhei um maço do Reynaldo Smith de Vasconcellos e desde então todo domingo vou à feira apanhar mais. Fica ótimo com alho e molho de soja, com frutos do mar, macarrão, puro… e no bloody-mary.

O curioso em quem gosta de bloody-mary é o clima natureba. Fazem cara de quem está bebendo salada. Nessas horas é interessante levar um leigo ao balcão e mostrar o preparo: sal, Tabasco, pimenta do reino, molho inglês; então entra um limãozinho, o tomate, o salsão e faz-se a redenção. O único honesto é o Helito Bastos, que pede “bem clarinho”.

Mas de volta ao momento, apesar de ser vodca, o espírito era de rum. Ou talvez ele tenha baixado quando botei o Captain Bacardi do Tom Jobim para tocar. Capitain Bacardi é o Tom com rum. Ou com um Montecristo número um. E a marca famosa é o que menos importa. O Chico com rum é Mambembe.

Mas mudando de assunto, ou continuando, posto que é música, e brasileira, especialidade do Sérgio Cabral, que fazer com o Sérgio Cabral Filho? O distinto é governador do estado do Rio de Janeiro, famoso pelo carnaval, e proibiu usar máscaras na rua. Não é um gênio? O mais bonito será ver o bloco, o black bloc, os anônimos, indo em cana com as máscaras do próprio Cabral. E levados pelos mascarados do BOPE.

 
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A anulação do indivíduo

Dois dos filmes que estão em cartaz na cidade tratam do mesmo assunto em épocas e circunstâncias distintas. O primeiro é sobre a filósofa e cientista política Hannah Arendt, que empresta o nome à obra que aborda o período em que ela cobriu o julgamento do nazista Adolf Eichmann para a revista The New Yorker.

Cobriu é modo de dizer, porque o que ela escreveu foi muito além da reportagem. No tribunal, diante do nazista, a intelectual judia percebeu que ele não era mais do que um burocrata cumprindo a ordem de embarcar judeus nos trens que seguiam para os campos de concentração.

A reação foi apaixonada. Judeus do mundo inteiro e inclusive seus amigos receberam a ideia como uma afronta e em alguns casos mais extremos como se ela estivesse defendendo o nazismo.

Firme em seu propósito, ela não se esqueceu de lembrar da conivência de outros judeus e de cidadãos comuns diante da barbárie, sem a qual Hitler jamais teria ido tão longe.

Mas a ideia central é que o princípio do nazismo era a anulação do individuo – seja a dos soldados e os burocratas que cumpriam ordens sem pensar por que até os judeus nos campos de concentração, onde a pessoa não tinha valor.

Os métodos para tanto eram os de sempre. Para os aliados um discurso fanático onde a divergência é recebida como traição. Para as vítimas o desdém crescente que humilha e leva a crer que ser diferente é impossível ou mesmo crime.

A segunda fita é Bling Ring, da Sifia Coppola. Cinematograficamente não está no nível de outros trabalhos da diretora, mas vale pela mensagem de alerta sobre o que vivemos hoje: a mesma anulação do individuo, só que através do consumismo e da fama instantânea.

O culto à celebridade e às grifes criou uma gang sui-generis em Hollywood: adolescentes ricos invadiam casas de celebridades como Paris Hilton para furtar dinheiro, joias, bolsas, sapatos, roupas – e as paris hiltons tinham tanto tudo isso que sequer percebiam.

Se havia consciência do delito? Sim. Mas numa medida similar a de quem atravessa a rua fora da faixa de pedestres. Para eles o importante criar meios de pertencer a uma sociedade cujos valores são baseados em fama e dinheiro, seja lá como for.

 
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