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Frescura urgente

Ontem, no Rio de Janeiro, os termômetros de rua iguais ao que a Fernandinha Abreu usou no clipe Rio 40 graus, marcavam “só” 28º. Em São Sebastião não tem termômetro público, mas conferi pelo iPhone que a máxima era a mesma: 28º. Quer dizer, aquilo que aqui de São Paulo a gente define como “a praia” e associa com sol e calor agora está a setecentos metros e seis graus abaixo de nós, porque 34º foi a nossa máxima.

Hoje as coisas já voltaram ao normal, com o Rio a 37º, São Sebastião a 39º e São Paulo a 34º. Quer dizer, normal na proporção, porque esse calor em pleno inverno de normal não tem nada. Aliás, nem no verão. Qualquer temperatura acima de 22º para mim é exótica. Normal é Porto Alegre, que ao meio dia marcava civilizados vinte graus à sombra.

Não digo que São Paulo está esquentando. Minha impressão é que já não esfria. Não tem por onde. É pedra pra todo lado, e não tem brisa, as árvores são poucas, assim como os lagos e as fontes – que por sinal seguem desligadas. E tem os motores dos carros, cada qual um forno, funcionando regularmente. O estado é de calamidade mesmo.

A gente precisa sair dessa olhando adiante. Não vale a pena apontar os culpados pelo caminho errado. O século vinte produziu desastres urbanísticos e ambientais no mundo inteiro: em nome do desenvolvimento desmatamos, poluímos, endireitamos, cobrimos e matamos rios e córregos, construímos avenidas, viadutos e outras aberrações para atender nãos aos carros, mas as pessoas que vão neles, e só recentemente percebemos que estávamos indo contra elas. Temos que arranjar uma maneira de sair dessa.

A notícia boa é que a natureza se recupera. Igual a gente quando volta a fazer exercício físico depois de anos de sedentarismo, ou para de fumar mesmo depois que a luz amarela já piscou, a natureza é um organismo que se regenera e responde positivamente. As fazendas que restauram a mata ciliar, por exemplo, voltam a ter as nascentes de rios nos mesmos lugares que elas vertiam originalmente.

Numa cidade igual São Paulo é difícil refazer a mata nas beiras dos rios, até porque as margens foram destruídas. Assim como de pouca coisa adiantaria botarmos no chão o Minhocão – como eu já defendi aqui. Quem me fez ver o melhor caminho foi o Andrea Matarazzo, que aponta o modelo novaiorquino: criar um parque suspenso para atender a população que já mora e está voltando a morar no entorno.

É um projeto premiado aqui e, onde foi realizado, como em Nova Iorque, levou qualidade de vida e desenvolvimento. O High Line, como eles chamam a antiga linha de trem transformada em parque linear suspenso, agrada tanto que já é tão falada quanto o icônico Central Park. Aqueles apartamentos pobres onde a garçonete, o estagiário e outros tipos de grana curta moravam nos filmes do século passado, e tinham a vida pontualmente infernizada pela passagem do trem, agora são valorizadíssimos vizinhos de bares, galerias, hotéis e até um albergue da juventude.

Não é o cenário perfeito para as margens do Minhocão? Há um projeto vencedor do prêmio Prestes Maia de urbanismo que propõe criar uma passarela acústica onde hoje passam os carros e sobre ela o parque. Eu acho mais bacana criar o parque direto, com prejuízo do trânsito de carros – sou um radical, reconheço – mantendo a ideia das passarelas ligando o elevado aos andares equivalentes dos prédios por onde ele passa, desde que se mostrem adequados para instalação de bares, galerias, hotéis e até um albergue para a juventude.

A vida de volta à região seria o equivalente a um olho d’água que volta a verter com a restauração da mata ciliar. Vida, aliás, já há: no período noturno, enquanto o Minhocão fecha para os carros e abre para as pessoas, não é de hoje que se vê muita gente malhando, crianças brincando, velhinhos passeando. O parque só tornaria o passeio atraente e mais gostoso e fresco, e aqui em amplo sentido: delicado, refinado, sensível, ventilado e com temperatura civilizada. É de frescura que precisamos.

 
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Aparências

Igual a mulher de Cesar em relação à honestidade, a aparência conta para todo mundo e em diversos aspectos, desde que na mesma ordem. Quer dizer, quando o ser vem antes do parecer. O inverso não adianta, digo, parecer honesto sem ser de fato. A verdade sempre acaba emergindo e o PT está sendo julgado como quadrilha no Supremo para confirmar.

Eu diria que a Soninha, candidata a prefeita aqui em São Paulo, é honesta tanto quanto parece. Mas lembrei dela por outra causa, relacionada à aparência. Quando ela era vereadora, propôs que a exigência de terno e gravata fosse abolida das sessões plenárias da Câmara Municipal. Segundo ela, o importante não é o que vai por dentro, não por fora do parlamentar. Não deixa de ter razão, mas para alguém que vem da televisão, onde a mensagem visual é tanto ou mais forte do que a falada, o conceito chega a espantar.

Lembro que na época perguntei a alguém que concordava com ela, provavelmente uma dessas pessoas que detesta gravata, se tudo bem o vereador é a plenário vestindo uma sunga, e a resposta foi que eu era radical. (O Suplicy ainda não tinha nos brindado com a performance de Super-Homem no Senado, encerrando a discussão para sempre).

A gravata está com o uso em baixa, mas continua emprestando alguma solenidade a quem usa. Tanto que para os momentos solenes da vida a turma ainda faz questão dela e usa de propósito e com prazer. Onde ela continua obrigatória, como mos parlamentos, creio que é mais pelo receio do que seria sem ela do que pela solenidade que traz. Devem olhar as roupas das mulheres, como a própria Soninha ou mais ainda a Heloisa Helena, e temer pelo festival que o fim da regra clara provocaria na indumentária.

Sou a favor de solenizar as coisas e creio no auxílio das roupas para tanto. Quando nasce alguém deve haver festa. E quando morre deve haver velório. É importante para pontuar, marcar, ajudar na compreensão, escrever os capítulos da vida. Digo mais: é importante que alguém discurse, ou minimamente diga algumas palavras. E não dá para ir colorido a velório, nem à praia de gravata.

Há de haver solenidades, com roupas, modos e palavras adequadas ao momento e ao ambiente. A solenidade pode não fazer ninguém mais inteligente, mas pelo menos nos protege da burrice. Diante de todos e falando, fica difícil parecer diferente do que se é de fato. Em mil conversas ao pé d’ouvido o imbecil pode se passar por inteligente, o ignorante simula sabedoria, o corrupto finge ser honesto. Na berlinda é diferente. E coincidência ou não, quanto mais a gravata cai de moda, mais os idiotas se sentem tranquilos para dar opinião.

 
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Salto alto em Paraty

Na época do acidente que vitimou o Andrea Carta a imprensa toda trouxe homenagens ao colega editor da Vogue Brasil. Uma delas, se não me engano do Ignácio de Loyola Brandão, falava do olho clínico do amigo. Naquele tempo em que era caro fazer revista, porque havia filme, papel fotográfico, fotolito, e não havia internet, corretor de texto, photoshop, o fator humano contava muito. Como não dava para revelar todas as fotos até escolher a melhor para botar na capa, o jeito era conferi-las pequeninas e arriscar a boa. A equipe eficiente fazia a triagem e levava para ele, que de bater o olho descartava as que não serviam, apesar de terem passado por diversos outros olhares competentes. De vez em quando, de birra, alguém bancava uma revelação ampliada para tirar a prova e invariavelmente ele tinha razão.

E as razões dele moravam nos detalhes. A deselegância na postura de uma modelo em plano secundário era suficiente para condenar uma foto à condição de prova definitivamente. O olhar hesitante de um rapaz que deveria parecer alguém decidido também ficava na peneira dele, e de lá ia para o lixo. Tudo muito delicado, subjetivo, mas que o leitor percebe quando diante do resultado final, mesmo sem saber dizer por que.

Hoje, em plena era digital, com a possibilidade de fazer mil testes, tratar e corrigir sem grande despesa qualquer imagem, a turma segue errando de maneira tosca. Para não citar os mais óbvios, que metem modelo de salto alto na areia, falo dos perfeccionistas, que em sua busca pelo 100% artificializam tudo, afastando o conceito ou o produto da realidade. Dentes brancos imaculados, por exemplo, sugerem alguém sem história ou personalidade, e este alguém não pode ser modelo, aqui no sentido original da palavra.

Essas meninas blogueiras são um colosso. O cenário deste mercado que cresce junto, com estilistas, modelistas, costureiras, blogueiras criando e produzindo tanto, enquanto a geração anterior era absolutamente tacanha e submetida ao que vinha do hemisfério norte. Até por uma questão histórica é natural que elas continuem influenciadas, mas hoje há uma troca, que se não é e nem será franca jamais, incontestavelmente existe, e dá vazão à criatividade, sem qual ninguém tem identidade.

Se elas ainda erram muito? Claro. Só não erra quem não faz. Mas alguns erros, por evidentes, já poderiam estar corrigidos e continuam acontecendo muito e amiúde. O que mais vejo é a bolsa cara em destaque, ostensivamente exibida. Ora, coisa boa é igual piada: quem entende se diverte, mas se tiver que explicar perde toda a graça. Provoca risadas fingidas. Mas a turba insiste e faz questão de que a marca apareça. São as meninas carregando as bolsas feito estandartes e a rapaziada com uns bichos gigantes bordados no peito. Tem cavalo, pinguim, jacaré, pato. Quem adotar o elefante como marca vai ficar rico.

O clássico do bacana que fica horrível fora de lugar é o salto alto. Em cima de um salto alto a mulher fica muito melhor. Melhora a postura, melhora o olhar. Creio que até as ideias melhorem. Mas o freguês desta página sabe que a melhor sandalinha no pezinho mais lindo da menina mais bonita convidada para festa mais animada de Paraty será um desastre.

Outro que surge com intensidade brutal é a bicicleta como alternativa para o transporte individual nas cidades grandes. Mais ou menos como as coisas da moda e outras tantas, é influência européia. E de fato é algo fantástico: leve, limpo, saudável, silencioso, bonito, prático, sem custo fixo. Mas em São Paulo não dá. Nem falo dos maus ciclistas, que vão pelas calçadas, na contra-mão, ou das hordas que andam varando farol vermelho em ladeira como se fossem os donos do trânsito. Aqueles impecáveis, que usam capacete, luz e só andam na linha também estão fora de lugar. E da mesma maneira que a menina linda do salto alto que torce o pé em Paraty, os ciclistas já são a segunda causa de internação na Santa Casa. Só ficam atrás dos motoboys.

O ideal seria que São Paulo fosse equipada com cliclovias, mas não é. Digo e repito que por mim na Rebouças, Augusta, Nove de Julho e Brigadeiro só teríamos trólebus, calçadas e ciclovias, mas até lá a turma das magrelas estará tão deslocada quanto a menina do salto alto em Paraty. E o Andrea Carta não aprovaria.

 
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O tempo da vovó

A Veja desta semana trouxe uma matéria explicando o óbvio: para ter uma vida saudável a gente deve comer menos. Ou comer de tudo, um pouco. Notaram a vírgula? Parece aqueles testes onde a pontuação muda o sentido da frase. Comer de tudo um pouco, sem vírgula, pode significar um ágape bárbaro, com um bocado de cada vez numa degustação sem fim, quando na verdade a ideia é adotar a parcimônia para jamais ter que se privar de nada.

A parcimônia talvez seja a coisa mais difícil da vida. Tendemos ao exagero, às radicalizações em tudo: futebol, política, religião. Com parcimônia o homem poderia até fumar a vida toda. Duvido que dois cigarros por dia matem alguém. Devem até fazer bem. Mas vá brincar com isso para ver no que dá: na primeira marola emocional o consumo sobe para um maço diário, acabando inclusive com o prazer. Restituir o comedimento e o prazer do fumo é quase impossível. Ao contrário da comida, que é vital, fumo é vício, e para acabar com ele só radicalizando – e sofrendo as consequências. Mas de qualquer maneira, a taxa de êxito das pessoas que conseguem parar de fumar e emagrecer definitivamente devem ser parecidas.

Nas dietas radicais, igual a tudo que é radical, a reação provocada é sempre igual e contrária. A lei da física vale também para o físico. O nego fica sem beber uns meses (dias, em certos casos conhecidos) e quando volta parece que precisa tirar o atraso. Com comida é a mesma coisa, e a história pessoal de cada um de nós está aí para provar.

Então uns americanos revolucionários descobriram como ganhar dinheiro com uma nova dieta. A revolução, desta vez, não é química ou milagrosa, mas caseira: um jogo de medidores, iguais àqueles que as nossas avós usavam para receitas de doces, que exigem exatidão. Com aproximadamente uma colher de sopa não se faz bom bolo, assim como com mais ou menos uma concha de feijão não se faz dieta. E a proposta deles é esta: reduzir o consumo em um terço. Dá certo. Quer viver, verá. E quem obedecer viverá melhor.

Os americanos estão diante do maior problema de saúde publica já enfrentado. Quem pensa que é o sistema, ou o SUS deles que o Obama vem tentando a duras penas reformar, se engana. O caso é grave, de arrepiar. Quem me contou foi uma médica nutricionista que vai amiúde aos Estados Unidos se atualizar numa universidade que investe pesado em pesquisa.

Pela primeira vez na história as crianças de até doze anos estão desenvolvendo aquele tipo de diabetes que os adultos gordos desenvolvem, e que sabemos ser muito mais nociva do que aquela do tipo congênito, capaz de ser controlada por toda a vida. Esta é aquela que cega, gangrena e mata. E a expectativa tenebrosa é que pela primeira vez na história será comum ver pais enterrando os filhos.

Daí que me parece urgente voltar aos tempos da vovó, não só nas medidas, mas nas receitas, ingredientes, modo e principalmente tempo de preparo. Nossa pressa, a fim de ganhar tempo, só está tornando a vida mais curta.

 
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Vida boa e sem segredo

Resolvi dar um tempo da minha cara de pau e entrei no novo Mercadinho Dalva e Dito para comprar qualquer coisa. Desde que eles abriram o bar novo, por sinal equipado com cadeiras Paulistano do Paulo Mendes da Rocha, liberando o balcão do acesso original para funcionar uma mercearia de antigamente, eu só passava ali na frente, aproveitava a pipoca grátis e seguia o meu caminho da roça. Culpa ou mérito da Rose, a cicerone que já passou pelo Gardênia e pelo Dona Onça e agora sorri ali na Padre João Manuel.

Diante dos quitutes vibrei a ponto de confundir os sentidos todos. Olhando a rosca de calabresa pude sentir todas suas texturas, do miolo úmido e macio à crosta crocante e pipocada feito massa de pastel. O sabor das cebolinhas que não comi, douradas pela gordura que pinga do frango rebolando nos espetos da televisão, também estava ótimo. Fiquei no pão de queijo, quitute tão vulgar para nós brasileiros, e pasmei diante da constatação: era de queijo mesmo. Denso e macio, suave e ardido, irresistível. Arrematei a cesta toda e levei para a casa da minha sogra, que é mineira, a fim de descobrir se eu poderia estar exagerando ou sendo traído, quiçá pela fome, quiçá pela condescendência produto da vergonha depois de tanta pipoca grátis. Mas não. Tanto Donana, nascida e criada em Uberlândia, quanto a Cidinha e a minha Neguinha que tantas férias de infância passaram lá atestaram: é o legítimo.

Ao lado da venda, o Dom Pepe de Nápoli está em reforma. Na quadra anterior, depois do Piselli, algo novo está sendo inaugurado. Já quase na Oscar Freire há outras casas em obras. Curiosa esta onda. Há um mês eu andava encafifado com a quantidade de lugares fechando as portas, com aquelas tristíssimas faixas passando o ponto na fachada. Agora isso: lugares diversos novos em folha florescendo. Aqui diante do meu escritório, na Franca, mais um que já começou queimar as panelas. Deve ser a primavera.

Mas a novidade que merece ser comemorada tanto quanto ou até mais do que essa safra de novos lugares é o movimento no sentido de preparar as coisas sem segredo, as coisas de sempre feitas com matéria prima e técnica de primeira, ou fazer pão de queijo de com queijo de verdade como o Alex Atala sempre pregou e agora está entregando.

Hoje almocei no Tavares, ali na Consolação: filé acebolado, arroz com feijão, legumes grelhados. Sem frescura e sem segredo, e principalmente sem fondor, sazon ou caldo de cubinho. Este fenômeno delicioso também é possível pelo menos em outros dois lugares: o Dona Onça, que inclusive os caldos faz em casa, e o Mocotó. É o tal do óbvio que só os profetas enxergam, como diria o centenário e eterno Nelson Rodrigues.

A profecia que mais desejo ser confirmada é essa: ver os botecos todos largando mão da química na cozinha, fazendo comida com carinho e cuidado, como se para os filhos fosse e principalmente para seus filhos, todos eles. Tudo o que falta num boteco como o Ministrão, por exemplo, ou o Brejinho, ali acima do Tavares, é parar de martelar o bife e voltar a botar alho de verdade na comida. E cebola, louro, uma cenourinha… Quem sabe até um talo de salsão? A vida boa é simples e não tem segredo, só tem carinho.

 
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Cidade fatiada

Por uma questão pessoal passei uma semana visitando a Vila Mariana diariamente. Aliás, duas questões pessoais: a primeira foi buscar um pratinho com o logotipo do Quintal do Braz, que eu vi numa das comemorações culinárias que o Panda publica no facebook. O negócio dele é esse: corre uma maratona pela manhã e à noite se entrega às redondas, sempre dividindo o roteiro na rede social. Faço coleção de pratinhos de restaurantes e bares e da Companhia Tradicional de Comércio, vulgarmente conhecida pelos bares Original, Pirajá, Astor e outros, também tem a pizzaria Braz, sendo que a da Vila Mariana, por ficar num casarão adaptado e equipado com um vasto e lindíssimo quintal, ganhou apelido especial. E pratinho também.

Curiosamente estive lá com a minha Neguinha no sábado em que meu pai também esteve. A curiosidade se deve ao fato de, apesar de morarmos a menos de dez quilômetros da Vila Mariana – percurso que o Panda faz como quem vai à cozinha buscar um copo d’água –, nem me lembro da última vez que passei por lá. E tenho sei que meu pai também não. É um fenômeno paulistano: de propósito a gente usa a paróquia, querer ir além é pedir para sofrer.

Abro parênteses para acrescentar que a curiosidade é também um privilégio. A estatística sobre a média de mobilidade diária de um paulistano comum menor de quinze anos não passa de três quilômetros. Foi o que me disse um estudioso, o Ricardo Kobashi. O moço vai à escola, busca pão para a mãe, descobre um campinho para bater bola e fazer besteira na rua de baixo, leva a namorada para os fundos da igreja. De vez em quando sai para um passeio mais longo com o pai, para ir ao médico ou sei lá, ver o futebol. Mas rodar para valer pela cidade só depois que começa a trabalhar. E sofrer: com o trânsito, com o transporte público, com o próprio trabalho.

Mas o que me levou além da minha freguesia foi a pizza, no sábado. E depois passei a semana toda voltando, porque meu pai ficou no HCor para fazer uns reparos, notadamente uma gambiarra médica notável, chamada stent. Os doutores enfiam uns troços desses nas veias e substituem uma cirurgia de ponte de safena ou outras obras. É uma maravilha. O velho já está novo.

A Vila Mariana é um bairro muito bonito, principalmente ali naquela praça onde fica o Pátio Paulista, o hospital Oswaldo Cruz e outros. A arquitetura é muito boa. Está judiada, mas os prédios antigos são lindos e um dos novos também, que é um enorme que se vê da 23 de Maio, com varandas de tamanhos diversos.

Indo e voltando das visitas, sempre de Metrô (minha prima Gabriela Duva até ofereceu carona de carro, mas tenho andado apressado), fiquei me perguntando o porquê do pessoal de Pinheiros ser mais parecido com o do Jardim Paulista do que o da Vila Mariana e do Paraíso ou o das Perdizes e Pompéia. Ora, esses quatro últimos são siameses, ficam todos no morro da Paulista, mas a turma de Pinheiros têm mais afinidade com a do Jardim Paulista e vice-versa. Ou pelo menos é esta a minha impressão.

E da impressão surge a delícia que é o palpite. O meu é que os vizinhos, assim como os familiares, cansam uns dos outros, até porque reconhecem características suas nos próximos, e o espelho social é quase sempre insuportável, tanto na vaia quanto no elogio. E quanto mais adensado o povo, mais difícil é a convivência. Daí que sempre que acontece um respiro a cidade agradece.

As casas e as árvores todas dos jardins Europa e América servem, como diria o Marco Aurélio Mello, de algodão entre os cristais do Jardim Paulista e de Pinheiros. Sem esta suavidade intermediária o intercâmbio entre os bairros do espigão da Paulista fica prejudicado. Tanto é que mesmo dentro do Jardim Paulista a comunidade de divide da Augusta pra lá, da Augusta pra cá e a mesma coisa com a Nove de Julho. Há quem proponha renomear a Alameda Santos: entre a Nove de Julho e a Augusta fica como está. Da Nove de Julho para a Brigadeiro vira São Vicente, e da Augusta até a Rebouças, Guarujá.

 
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O homem e o boneco

Marketing político deveria ser assim: um líder dá sua opinião dizendo para aonde devemos ir, os estrategistas desenham o melhor mapa de acesso e os marqueteiros se reservam ao papel de tornar o caminho mais fácil de entender e bonito, através de sinalização e flores nos canteiros. Flores de verdade, naturais, de preferência.

Aqui no Brasil ocorre o inverso: o marqueteiro encomenda a pesquisa de opinião e dela extrai um norte, ao qual os estrategistas adaptarão os caminhos e o candidato, que deveria ser o líder, acaba submetido, na melhor das hipóteses temendo contrariar a vontade popular, mas na maioria delas é só pavor de perder a eleição.

As pessoas cada vez mais vêm confundindo o papel do líder com o de porta-voz da maioria. Líder não é aquele que repete a opinião que prevalece, mas aquele que faz o bom-senso prevalecer na opinião geral. Para tanto ele tem que ser mais preparado, mais culto, inteligente, mais sábio.

Um dos poucos caras assim que restam com disposição para disputar uma eleição no Brasil é o José Serra. Digam o que quiserem: ele é feio, amargo, desagradável, duro de roer. Estou de acordo. Mas o fato é que o nego estudou e se preparou a vida inteira para exercer cargos públicos, e sempre que teve oportunidade de ocupa-los, revelou-se um líder capaz de conduzir o Estado no sentido de melhorar a vida das pessoas.

Foi assim no ministério da Saúde, na prefeitura e no governo do estado de São Paulo. Elencar as realizações seria cansar o freguês, por isso fico em duas que me comovem: urbanização de Paraisópolis e do Cantinho do Céu. Eram favelas e agora podem ser considerados bairros. Ainda há por fazer, mas se inclusive bairros tidos como planejados acabam se desvirtuando, uma comunidade que brota do improviso, irregular e sem qualquer recurso, seja público ou privado, técnico ou material, se tornar em uma paróquia que orgulha seu morador ao declarar o endereço, é um sopro de esperança para todos nós.

Abro parênteses para falar da seca em São Paulo. Impressiona proliferação de insetos de solo e os incêndios nas favelas, mesmo em Paraisópolis, que já tem mais alvenaria do que tábuas nas casas. Não sei se eles estão relacionados com a estiagem, mas quero crer que sim. Moro no Jardim Paulista e em apartamento e tirei duas aranhas grandes de casa esses dias, e um concunhado que ainda não conheci ficou internado por causa de uma picada que levou na Vila Madalena. Carrapatos nos cachorros também estão grudando mais.

Voltando ao Serra, a despencada dele no Ibope me confunde mais do que os motivos do aumento dos incêndios e dos insetos. Há quem explique a rejeição dizendo que ele é antipático. Mas a verdade é que ele teve apoio popular sempre que fez o que lhe deu na telha, seja propor a Lei Cidade Limpa, a Lei Anti-fumo ou ter abandonado a prefeitura para concorrer ao governo do estado e impedir que o PT tomasse conta de São Paulo. Ganhou no primeiro turno aquela eleição, com mais votos na capital do que teve para prefeito.

Em contrapartida, quando decidiu ouvir o marqueteiro e parecer simpático rolou dez pontos abaixo no gráfico. Primeiro teve o gesto de grandeza bíblica embalar o Mateus que pariu, notadamente o Gilberto Kassab. Dizem que este é um gênio político. Não é. Com a prefeitura redondinha, equipe de primeira linha e dez bilhões em caixa, o distinto alcançar rejeição de 50%, tem que ser uma anta. A chance de encontrar alguém insatisfeito é brutal. Numa moto, pelo menos uma pessoa reprova o Kassab. E o Serra segurou o rojão.

Agora, para ficar em só mais um exemplo, lança esse adesivo da família simpática, com ele em bonequinho e mais uma tropa diversa como a população paulistana. É no mínimo ridículo. Para o Kassab isso funcionou em 2008 porque o bonequinho é e sempre será muito maior do que ele. Para o Serra, que tem um passado registrado na história, o bonequinho é uma redução pessoal lamentável e vexatória.

Por isso, quem tiver disposto a ajudar São Paulo a ter de volta um líder realizador a frente da prefeitura, pense no homem com todos os seus defeitos, e esqueça o boneco com todas as suas qualidades.

 
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Independência ou morte

A convite da Jacy e do Tuca Andrade, minha Neguinha e eu fomos celebrar o Sete de Setembro na Casa da Paineira, em Alambari. Que delícia! A ideia era enforcar já a tarde da quinta-feira para fugir do trânsito, mas como a gente não podia deixamos para a manhã de sexta, com o firme propósito de acordar cedo e partir – plano que evidentemente não deu certo e quando saímos os ponteiros já iam se osculando ao norte do relógio.

Ainda antes do pedágio encontramos a Castelo Branco entupida, situação que permaneceu inalterada depois dele. Paramos até no Sem Parar. Tudo o que conseguimos foi mudar de pista por um acesso improvisado, mas que de nada adiantou, porque em feriado no Brasil estrada é igual nariz: entope dos dois lados. Duas horas depois ainda não havíamos vencido o quilometro 53, famoso pelo bacalhau, e a sede e a fome nos obrigaram a uma pequena e dupla traição: estacionar para fazer uma boquinha numa casa portuguesa em pleno aniversário de 190 anos da Independência do Brasil do domínio de Portugal, e forrar o estomago, antes todo reservado para as codornas do Tuquinha.

Não nos arrependemos porém de nenhuma das duas. Primeiro porque o afamado 53 é de fato excelente, depois porque quando as codornas finalmente pousaram à mesa na Casa da Paineira já havia apetite renovado, e as traçamos todas, sem pena e sem trocadilho, com purê de mandioquinha e pão para não deixar vestígio de caldo no prato.

Sair de São Paulo nos feriados pode ter seus contratempos, mas compensa, notadamente quando há mesa e prosa da melhor qualidade. E as flores? As orquídeas da Jacy parecem alimentadas pela cozinha do Tuca. E se aqueles ares fazem bem a elas, com a gente não pode ser diferente. Sem falar que uma vez em Alambari não pensamos mais em carro, estrada ou telefone. É nessas condições que as baterias se carregam.

Abro parênteses para confessar mais uma traição, agora em relação à freguesia desta página: não é toda a verdade dizer que não pensamos em carro, estrada ou telefone durante o feriado. Por conta da dupla de roteiristas Tuca Andrade e Paulo Saad, que pelo SMS criaram um Road Movie que misturou Jack Kerouac, John Candy e Sacha Baron Cohen. As férias frustradas envolvendo dois imigrantes árabes, o brimo rico e o brimo pobre, atravessa a Rio-Santos numa Kombi desde Bertioga, passando por Laranjeiras e terminando em Ramos, na zona norte do Rio. A dose de Kerouac fica por conta do Zé Gonzaga, que embarca em Boissucanga e vai tomando todas até o piscinão.

O Piscinão de Ramos é daquelas coisas do Brasil que espantam quem resolve fuçar além do seu quintal. Daqui da região dos Jardins, em São Paulo, imaginamos uma poça d’água do tamanho do Lago do Ibirapuera. E qual não é a nossa surpresa quando ficamos sabendo que, na verdade, a área da piscina é quase duas vezes maior, não que a do lago, mas a do parque inteiro!

Outra coisa que choca tantos de nós, bocós, que ficamos escandalizados em passar uma hora a mais no trânsito do feriado ou do final de semana, sendo que sentados em bancos estofados e individuais, com ar-condicionado, musiquinha leve, água fresca e a marcha suave dos carros automáticos, é que duas horas de congestionamento – duas de ida, duas de volta – faz parte do dia-a-dia da maioria da população, sendo que eles viajam sentados em bancos duros ou de pé, espremidos uns nos outros, em ônibus velhos, mecânicos e sujos, pilotados por motoristas que passam oito horas com um motor gigante que produz temperatura e ruídos proporcionais.

Se há cento e noventa anos, a bordo de uma mula e às margens do Ipiranga, um Pedro corajoso se levantou e proclamou a Independência do Brasil, está na hora de a gente fazer o mesmo e declarar independência do automóvel e começar uma cruzada pelo transporte público de qualidade. Ônibus, bonde, metrô nas cidades; trens nas estradas.  Por que do jeito que está não pode haver vida. Do jeito que está já é a morte.

 
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