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Mão no remo, Baraca!

Dos preconceitos que sofro e não tenho vergonha em admitir está um sobre a passionalidade dos gaúchos. Sei lá se é por causa do Getúlio, se influência das piadas vulgares, das notícias separatistas, pela leitura do Analista de Bagé ou de outros textos de seu criador. Seja lá como for, considero o gaúcho antes de tudo um louco apaixonado.

Analisemos a opinião política do criador do Analista de Bagé: com ele não tem conversa, é amor ou ódio. E é de se invejar a inesgotável capacidade da sua guaiaca, donde brotam sem parar argumentos cheios de razão para exaltar ou desancar suas paixões da maneira mais contundente: a sutil.

Quando o Dominique Strauss-Kahn se envolveu no rolo com aquela camareira em Nova Iorque ele escreveu que apesar do Sarkozy ser o principal interessado na armação, estava provado que a camareira tinha sido forçada a fazer o que não queria – pelo menos até o momento em que ele escrevia. Emendou até que a camareira tinha sofrido nos aposentos do grande Kahn igual aos países do terceiro mundo no FMI.

Estava errado o gaúcho, é claro. Ora, qualquer pessoas sabe da impossibilidade de um sexagenário ejacular no colarinho de uma mulher sem a colaboração, ou melhor, a profunda dedicação dela. Obviamente o DSK era vítima de uma armação. Mas gaúcho calcula como gaúcho, e macho que só eles não se lembrou dos detalhes fisiológicos.

Digo com orgulho que duvidei do golpe desde o início, mas confesso que muito mais por torcer a favor do adversário principal do Sarkozy do que por qualquer outro motivo. E por isso condeno o Dominique. Um nego na posição dele, nas condições dele, vivendo nesse mundo de hipocrisia, não pode permitir ser traído por um auto-golpe-baixo  – com trocadilho.

Outro Luiz Fernando, o Pacheco, meu amigo e advogado criminalistas dos melhores, concordou com a impossibilidade de um senhorzinho ejacular diante da adversidade, mas ficou espantado em me ver fazendo campanha a favor do Partido Socialista francês. Pura provocação. Se tem uma escola no Brasil que acredita na evolução da sociedade sem necessidade de revolução é que eu sigo, isto é, a do Franco Montoro, do Tancredo Neves, do Ulysses Guimarães.

Mas outro dia o Veríssimo festejou o Obama, que ele trata de Baraca, notadamente pelo discurso de posse onde o Presidente dos Estados Unidos defendeu o casamento gay e o meio-ambiente – questões fundamentais solenemente ignoradas durante os quatro anos do primeiro mandato. “Agora sim”, anotou, poderia ser o título do discurso.

Eu também não tenho motivo nenhum para aplaudir a gestão do Baraca. Muito pelo contrário, continuo achando que ante a boa vontade mundial foi um desperdício e com momentos inaceitáveis, como o do assassinato do Bin Laden. Questão de expectativa. Mas o pior é que igual ao gaúcho continuo torcendo muito pelo Obama. Mão no remo, Baraca!

 

 
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Assobiando no Jardim Paulista

O dia vinha correndo bem. Pela manhã consegui fazer todo o pretendido e sem sufoco. Na volta da Cidade para o Jardim Paulista tinha assento vago, meninas bonitas e o ar-condicionado do trem estava no ponto. Entre os rostos desconhecidos, os das meninas mais bonitas estão sempre pela Linha Verde do Metrô.

Mas eis que subindo a escada rolante da estação Consolação, qual o Paulo Vanzolini assobiando cumprido, um samba comovido, que Silvio Caldas cantasse, em vésperas de carnaval fui cantando a Jardineira ô, a Jardineira, ou mais exatamente assobiando a Camisa Amarela do Ary Barroso. De repente, a gritaria desatinada.

De distraído a atordoado num átimo, fiquei procurando a raiz do problema, sem poder imaginar que era eu mesmo, ou o Ary, ou eu assobiando a música dele. A crítica, evidentemente, não era pela afinação – até porque esta em mim não caberia. O  do sujeito a minha frente, um senhor de cabelos brancos e óculos escuros, pelo que entendi, era com o assobiar. Ensandecido ele se declarava transtornado, subia e descia os degraus livres e berrava palavrões inclusive sobre a intimidade da minha mãezinha, justamente aquela que todo mundo tem mas ninguém comenta, e propunha que eu fosse assobiar na orelha dela para saber se era bom. Diante do imponderável, achei melhor me mandar.

Na rua Augusta parei para almoçar no Galeto’s. Era o que faltava para estragar meu dia. É impressionante como de uma hora para outra a maré pode virar. Quarenta e nove reais por meio frango pequeno.  49! Sendo que não há a possibilidade de escolher só pela parte escura. Lá o peito é compulsório. Nunca mais volto.

Cada vez mais quero distância desses restaurantes inanimados e caríssimos. O Fernando Henrique disse que se pudesse aconselhar as pessoas, seria no sentido da consistência de princípios, porém com flexibilidade, porque o convencimento funciona muito melhor do que a imposição. Então flexivelmente eu diria que se for para ir a um restaurante de rede, vá a um Ráscal,  que tem raça e qualidade, mas sigo sonhando em convencer as pessoas que o modelo europeu combina muito bem com São Paulo.

O ponto e o aluguel comercial na região dos Jardins, somados ao custo da mão de obra e a carga tributária estão impraticáveis, condenando o público ao céu do Fasano ou ao inferno do Galeto’s. Para quem topa ser feliz no limbo, sem fazer questão de marca, badalação do público ou a benção constante da crítica, há o modelo europeu sendo divinamente praticado na Alameda Lorena: talento, mão na massa e pé no chão.

Seguindo meu pastor Don Gerardo Landulfo fui conhecer o Vinarium, do casal Martha e Ciro Sabella (ela brasileira, ele napolitano) uma joia rara encrustada num sobradinho da Lorena, quase na esquina com a Ministro. Igual acontece na Europa, a equipe toda são os dois: ele na cozinha e ela no salão –  inexplicavelmente vazio.

Por 53 reais comprei o menu executivo completo, que todo dia traz duas opções de entrada, duas de prato principal e duas de sobremesa. Escolhi uma polenta granulada recheada com abobrinhas em fatias grelhadas e fonduta de queijo brie; emendei numa tenra costeleta de porco com ervas frescas e feijões brancos, e finalizei com um tiramisu que era praticamente uma nuvem (quem disse que no limbo não tem?) coberto com calda de gianduia. Para beber pedi uma taça de vinho no escuro e gostei muito, mas teria reservado um gole para os biscoitos ótimos que vêm com o café. Saí assobiando a primavera do Vivaldi.

 
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Obrigado, Ruy. Obrigado, Humberto.

No dia 25 de janeiro o Ruy  Castro botou na Folha um artigo de aniversário de 25 anos de abstinência. Emocionado ele resumiu a dor e a alegria de interromper o afogamento alcoólico ao qual estava condenado, mas se negava a aceitar e pedir socorro. Dizia que gostava do que estava fazendo e provavelmente achava normal beber feito água quatro copos de vodca gelada logo pela manhã.

A confissão comemorativa do Ruy tinha me escapado, mas o Humberto Werneck tratou de reverberar, por sinal com uma imagem linda, dizendo que no lugar das trombetas meritórias o que se ouve é a surdina humilde de quem depois de um quarto de século não dá a fatura por liquidada.

Ambos os mineiros aniversariam no mesmo dia. O de Caratinga, já sabemos, fez 25 anos sóbrio. O da capital completou 32 sem fazer fumaça. Eram sessenta cigarros diários, que ele largou de uma hora para outra. Cigarros sem filtro, diga-se. E mesmo assim diz que não merece as trombetas que confere ao conterrâneo. Toca uma surdina ainda mais miúda, porém comprida, que só vai terminar na semana que vem, no Estadão. Mais mineiro impossível.

Apesar de gostar muito de fumar e de beber sei que os dois me prejudicam. O cigarro larguei faz tempo e gostaria de retomar, mas não devo. Às vezes me pego pensando num Camel americano, que leva fumo turco e é o meu predileto. Mas no Brasil não há e estamos bem assim distantes. Até porque mesmo as cigarrilhas, que fumo sem tragar, tem me judiado. Noite dessas me meti a acompanhar o Michael Corleone na segunda parte do Poderoso Chefão e no dia seguinte acordei péssimo. Uísque, gin e outras bebidas que me atraem com menos fervor também têm me atrapalhado. Quando exagero passo mal, não fisicamente, mas com uma sensação ruim, meio paranoica, como se tivesse feito algo condenável. Consumindo moderadamente acontece o inverso: me sinto cada vez melhor. Difícil é o equilíbrio.

Mas o que eu queria dizer sobre o aniversário dos dois é que o presente foi meu. Tenho esta sorte na vida: se algo me escapa na primeira, sempre aparece uma segunda oportunidade, às vezes melhorada. Acredito que com todo mundo é assim, ou pelo menos deveria. O que é do homem o bicho não come.

Sozinhos os textos se bastariam. O prazer de ver como esses mineiros juntam as palavras estava de bom tamanho. Mas neles têm mais. Chegaram como uma dose de esperança no homem e por consequência no mundo, esperança esta que vinha me fazendo uma tremenda falta, quase uma crise de abstinência, que eles curaram. Obrigado, Ruy. Obrigado, Humberto.

 
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Não tem remédio

O palhaço Tiririca sentiu o golpe. Não quer mais a vida de deputado. Desanimado e desiludido, quer deixar o Congresso e voltar ao circo. Ou, como fazem as crianças desesperadas por um horizonte mais amplo, ele quer fugir com o circo. A imagem do homem isolado em plenário é o retrato da inadequação invertida. Dois anos depois da eleição de um palhaço que envergonhou o país com seu slogan “pior do que está não fica”, o envergonhado maior é o próprio palhaço. É fato: ficou pior ainda.

Os dias que se passaram foram muito tristes para todos os brasileiros. A tragédia de Santa Maria, que não exagera quem chama de assassinato coletivo de jovens, 238 jovens, abalou cada um de nós. Não vamos nos recuperar tão cedo, talvez jamais. E ainda engasgados com o inacreditável tivemos que engolir mais duas.

Fala a deputada Mara Gabrilli: “O Congresso Nacional será comandado por uma tríade: Renan Calheiros, acusado de desviar dinheiro e falsificar documentos, foi eleito presidente do Senado; Henrique Eduardo Alves, que é alvo de denúncias por ter beneficiado a empresa de seu ex-assessor e, ainda, guardião dos mandatos de mensaleiros, é o novo presidente da Câmara. Em seu lugar, para liderar seu partido (PMDB) na Casa, assume o deputado Eduardo Cunha, investigado por fraude em licitação, evasão fiscal e superfaturamento. Enfim, o Brasil de sempre, mais do mesmo, chefiado por coronéis e acobertado pela antidemocracia do sistema de votação secreta.”

Se está ruim para o Tiririca, que aparentemente nunca se importou, e para a Mara Gabrilli, que não se deixou abater por coisa alguma, mal posso calcular o sentimento dos milhões de brasileiros que assistem a tudo cada vez mais indignados. Os jornais estão errando na cobertura. Publicam que os senadores e deputados fizeram vista grossa aos maus-feitos do trio. Mas é justamente o contrário. Escolheram os piores entre os piores, os mais cínicos, justamente para lhes servirem como esteio caso um dia seus falcatruas venham à tona.

Um amigo presidente de multinacional confessou esta semana que está disposto a abrir mão do emprego e se mudar de país. Ganha muito bem, gosta do que faz, mora num apartamento ótimo e próximo do seu trabalho e da escola do seu filho o suficiente para ir a pé, tem mulher, mãe, pai e amigos, quer dizer, leva uma vida invejável. Mas não está aguentando. Pensa no seu futuro e no do seu moleque e não quer mais ficar. Quer ver se aproveita a boa formação e a idade para se mandar daqui com sua família.

Roubaram nossos anéis e ficamos contentes porque restaram os dedos. Então sofremos a perda dos dedos e pensamos que apesar da dor a vida continua. Mas estão subtraindo o nosso espírito, e para isso não tem remédio.

 
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Lebron na lata

No almoço de domingo os avós Maria Eugênia e Paulo Caruso apareceram no Dona Onça para comemorar com costelas de tambaqui os dezenove anos de um neto simpático, porém calado. Durante a espera breve em que ficaram ao banco do Julinho Toledo Piza tentaram garimpar uma dica de comédia boa. A condição era ter gargalhado. A única que me veio a cabeça foi Quando Mais Quente Melhor, que também é a predileta da Maria Eugênia. O Paulo falou do Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar, e lembrou da cena do cinto de castidade, quando o herói retribui o elogio à performance dizendo que treinou muito sozinho.

O Julinho também é do Quanto Mais Quente, por isso no lugar de uma dica de cinema pingou uma piada: – “O urso polar gosta de frio. O urso bipolar às vezes gosta de frio, às vezes de calor”. Está igual aos paulistanos. Hoje nas ruas há meninas de colete recheado de plumas, jeans e botas e outras em sandalinhas, shorts e umbigo de fora, igual a garota de Saint-Tropez do Braguinha.

Deixei a Onça a caminho de outro aniversário, da minha querida sogra Donana, e no brevíssimo trajeto entre a Praça da República e a Avenida Paulista, cumprido no conforto da Linha Amarela, me ocorreu não um longa que me fez rir, mas os filmes curtos que a turma da Porta dos Fundos vem botando no You Tube. Tem um melhor que o outro, das coisas cotidianas à crítica política. O primeiro que eu vi foi a Dindin que mandou – inbox. Chama Sobre a Mesa. É uma maravilha.

Um dos campeões de audiência chama Na Lata. É o Fábio Porchat brincando com a promoção da Coca-Cola de botar nome de gente no alumínio. Uma menina chamada Kellen vai procurar uma para chamar de sua e não encontra. Kellen, segundo o Fábio, que no filme chama Welerson, é um nome merda, tanto quanto o dele, ou Sâmila, Cráudio, Grória, enfim. Mas muito melhor do que ler aqui é assistir lá. Não perca tempo comigo.

O que eu queria dizer é que outra coisa. A promoção agora vai se estender pelas cidades. Paris, Nova Iorque, Rio. Da mesma maneira, duvido que façam Itaquaquecetuba. Mas há um nome que pode atar as duas promoções e mostrar que no Brasil o dinheiro está rolando, mas a gente continua no terceiro mundo e sem perspectiva de melhora.

Lebron é o nome de um dos jogadores de basquete mais festejado da atualidade. Vi escrito na camiseta de um moleque outro dia e pensei que fosse piada, mas apurei e confirmei: Lebron James é o cara. Então faça o teste você, freguês desta página: vá ao Rio de Janeiro e alugue uma cadeira na praia do Leblon, o bairro mais caro do Brasil, onde o metro quadrado imobiliário custa mais de vinte mil reais; não vai demorar para passar alguém vendendo biscoitos Grobo e, provavelmente, Coca-Cola com homenagem ao Lebron.

 
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Memória – Beirutaço de resistência pelo Frevo

A Folha de hoje publicou uma nota alvissareira: o Frevo fica onde está desde 1956. O empresário que comprou o prédio, Alexandre Lafer Frankel, dono da Vitacon, provou que o valor das coisas está muito além do preço. Mil parabéns para ele. São Paulo saiu ganhando.

Abaixo, a íntegra da nota publicada na coluna da Mônica Bergamo, colhida pela repórter Ligia Mesquita. Aliás, o termo Beirutaço foi criado pela Thais Bilenky, então repórter da mesma coluna.

Depois na nota, as crônicas que fui buscar no arquivo do blog, aqui repetidas em ordem cronológica.

O FREVO VAI FICAR
A lanchonete Frevo, inaugurada em 1956 na rua Oscar Freire, continuará no mesmo lugar, segundo o proprietário, Roberto Frizzo. O prédio foi vendido no ano passado para a construtora Vitacon. Frizzo entrou com ação judicial renovatória de locação do imóvel. “Mas ela não será mais necessária. Conversei com o dono, Alexandre [Lafer Frankel], e ele garantiu que não mexerão com o Frevo.”

O FREVO VAI FICAR 2
Frankel, dono da construtora, diz que ainda não sabe o que fará no prédio. “Estudamos alguns projetos. Mas garanto que o Frevo estará em qualquer um deles.”

BEIRUTE HISTÓRICO
Segue no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de SP processo de tombamento do Frevo.

Salvem o Frevo! ATUALIZADO

Crônica originalmente publicada em 3 de maio de 2011

Na sexta-feira cheguei de Brasília e de mala e cuia rolei para o Mabella & Tom Tom, em busca do bife de tira inventado pelo Fuad Zegaib, que por sinal é avô das crianças que o nome do restaurante homenageia. Desde que a Varig original deixou de voar, pontuando a transição dos clubes aéreos para empresas que visam lucro, a comida ficou intragável até para quem a recusa. A TAM, por exemplo, inventou um festival de sanduíches que tinha tudo para dar certo se fosse frio: club sandwich, rosbife, mortadela, pastrami, salmão, atum, salpicão de frango. Mas não: o gênio do catering botou um americano. Pode? Tentei evitar a grosseria de olhar com desprezo para o vizinho que aceitou, mas como respeitar alguém que, apesar de estar longe de morrer de fome, aceita um pão murcho recheado com queijo endurecido, presunto e ovo? E o cheiro que toma a cabine, condenando mesmo quem recusa ao fenomenal odor da flatulência pré-digestiva?

Enfim, o voo atrasado somado à impossibilidade de beber sequer um cafezinho na sala de embarque brasiliense e multiplicado pela falta inclusive de um amendoim clássico a bordo potencializou minhas saudades da recém reinaugurada churrascaria do Paulo Zegaib. O bife de tira é de fato um primor, suculento e macio a ponto de dobrar até minha Neguinha, que aos poucos vai desistindo dos bifes bem passados, entendendo que para quem gosta de carne seca Deus teve o cuidado de inventar o peito de frango. Mas a farofa, que ninguém – e principalmente o meu médico, doutor Thales Galvão – nos ouça, merecia uma colherada extra de manteiga. O doutor Thales é fogo: baiano e não gosta de pimenta. Como dizer-lhe a verdade sobre meus gostos gastro-etílicos? Se mentindo um pouquinho ele já se escandaliza… Essa patrulha da vida saudável mira os alvos errados. Manteiga é leite melhorado e nunca matou nem vai matar ninguém, a ciência há de provar. Deveriam implicar com os arquitetos que insistem em fazer escadas escondidas nos prédios, priorizando os elevadores; deveriam procurar saber quanto tempo as cápsulas de Nespresso levam para sumir na natureza; deveriam proibir comida delivery no almoço de sexta-feira.

Deixa pra lá. O que eu queria dizer é que, uma vez acomodado, conversando com o metre Samuca descobri que o Frevo da Oscar Freire vai fechar. O quê? Tá maluco! Só pode ser boato – e de mau gosto. Pois não é. Estive lá hoje para apurar e a tristeza nas faces dos garçons que eu cresci vendo alegres foi a confirmação.

Quantos de nós não crescemos entre beirutes e canecas à moda, rabos de peixe e mini-pratos, caprichos e os laivos de caneta no summer jacket do Bastião, a paixão do Chuchu por aquela velha calculadora de manivela, a seriedade do Japonês? Como tirar isso tudo da cidade?

Alguns vão dizer: mercado é assim, e se o dono do prédio quer um shopping, um shopping será erguido. Mas nem tudo pode ser desse jeito. Há bens imateriais. Se a crueza do mercado já matou outros lugares históricos, a nossa Casa de Lanches de 1956 vai resistir, nem que seja sob fileiras cerradas por seus muitos fãs. Ora, se o Pandoro morreu por falta de freguesia, o Frevo nunca falha, vive lotado dia e noite, de segunda a domingo, inclusive feriados. Nada justifica que se finde.

Prometo que vou descobrir o nome do algoz e começar a campanha de resistência. Já tenho um suspeito, mas só vou revelar quando tiver a certeza. E nesse dia, ao contrário do Bin Laden, ele não terá a sorte da doçura de morrer no mar, como cantou o Dorival.

Atualização | 03 de abril de 2011 12h22: o prédio foi vendido por 34 milhões de reais, valor que, segundo um corretor de imóveis com muita janela, está em sintonia com o delírio imobiliário da cidade, mas que dificilmente, em se pensando em locação,  alcançará renda proporcional, o que de certa forma confirma a intenção de um projeto faraônico; por outro lado, as restrições do zoneamento precisam ser respeitadas, e pelo que apurei não permitem ampliação da área construída.

Atualização | 03 de abril de 2011 16h03: acabo de falar por telefone com um dos proprietários do prédio, Sr. João Antonio Pamplona de Andrade, figura querida e respeitada na cidade, ex-presidente do Jockey Club e mais conhecido como Zico, que com ironia negou ter vendido o imóvel: – “Isso não existe. Eu não vendi. Só se alguém vendeu. Procure saber.” Porém, um inquilino que mantém escritório no mesmo edifício, que goza o direito de ser notificado com os termos da transação, até para estudar contraproposta, confirma a notícia na forma original.

Atualização | 04 de abril de 2011 09h27: ainda não consegui falar com o proprietário do Frevo, mas já recebi a informação de que a família confirma a venda do prédio e, compreensivelmente atônita, prefere calar por ainda inda não saber como agir ou o que vai ser.

Atualização | 04 de abril de 2011 18h59: acabo de falar com o Roberto Frizzo, que apesar de ser reconhecido em toda a cidade na pessoa jurídica, na pessoa física mantém discrição quase total, tanto é que poucos sabem que ele é o dono do Frevo. Ele me disse que de fato houve a notificação da intenção de venda por parte do proprietário, conforme adiantei aqui, mas que a parte interessada na compra do imóvel ainda está incógnita. Emendou que os recursos de proteção do inquilino, como direito a luvas e preferência na compra estão sendo estudados, e que seja lá como for trabalha com a ideia de permanecer no local, servindo os beirutes que fazem a nossa delícia por mais cinquenta anos, um século. Quer dizer: fiquemos atentos e preparados para nos levantar e resistir na pior das hipóteses.

Atualização | 30 de maio de 2011 – 22h05: Boa nova! Quem comprou o prédio onde o Frevo está desde a inauguração em 1956 foi o Fernando Altério, que muito provavelmente é freguês da casa. Ainda não sabemos se foi na pessoa física ou na juríd…ica, esta mais conhecida por Palace, Credicard Hall, Teatro Abril. Quer dizer, o homem é amigo da cidade e não pode querer outra coisa se não o seu bem. De qualquer maneira, acho conveniente organizar um Beirutasso qualquer sábado desses, chamar os amigos e suas famílias, a banda de marchinhas Chupisco e o Bastião representando todos os funcionários, para dar as boas vindas ao novo proprietário e ao arquiteto que for designado para transformar o imóvel em hotel – vai que é estrangeiro, insensível e se esquece de preservar a nossa lanchonete… Vamos nessa?

Atualização | 31 de maio de 2011 – 17h31: O Fernando Altério, através de sua assessoria, negou a compra do prédio. Como principal executivo de entretenimento do país ele bem que poderia repetir em São Paulo o êxito de seus colegas de Las Vegas, que somam hotelaria ao show business, e de quebra atender a uma necessidade do bairro e de toda a cidade. Dinheiro há: este ano a T4F levantou mais de meio bilhão de reais com a abertura do capital na Bovespa. Enfim, paciência. Vamos guardar atentos para organizar o Beirutasso de boas vindas para a pessoa certa.

17/06/2011

#FICAFREVO

O meu pai comia de pé, no balcão de sobremesas, com o pé direito apoiado no degrau. Quando a família estava reunida ele se sentava à mesa, mas ficava estranho, fora de lugar. Mesmo em casa ele sempre comeu de pé os rosbifes que assava. Já no Beirute ele preferia filé mignon mal passado. Mas enfrentava outros pratos com a mesma disposição, indo da salada de palmito ao bife à parmegiana, passando pelo churrasco na canoa e a brotinho de mussarela. Só não sei por que estou tratando disso no passado, posto que tanto o meu pai quanto o Frevo estão aí, se encontrando muito e amiúde, e assim esperamos que continuem.

Minha mãe é monotemática. Na vez dela o Bastião nem entregava o cardápio, porque sabia décor o pedido: bauru na síria, coca à moda e de sobremesa capricho de chocolate sem marshmellow. Mesmo assim ela insiste em pedir o cardápio, fazer duas ou três perguntas soltas sobre outros pratos ou os pedidos alheios, quiçá para participar daquele momento delicioso, repleto de memórias, curiosidades, desejos, expectativas. As mães gostam de participar da vida dos filhos.

Os gostos dos meus pais se reproduziram em mim. Meu Beirute também é o especial de filé, com a carne mal-passada e o pão quase queimado e no meu capricho não entra marshmellow. A preferência da Piny, minha irmã do meio, acho exótica: Beirute à parmigiana, com molho e tudo. Nunca entendi nem discuti. Mas o bife no prato é o melhor de São Paulo, ganha de qualquer cantina. Aquela travessa com duas asas, com o queijo gratinado e o molho fervendo é um delírio. Quando peço o Beirute Especial tradicional, de rosbife, quero que este entre frio, só na hora da montagem. As batatas fritas descascadas, cortadas e fritas na casa, uma raridade hoje em dia, também quero moreninhas, e já que são francesas que venham com maionese para mergulhar. Tive um romance com o Mini-Prato Frevo, que me foi apresentado pelo Degas Queiroz Ferreira, e nos bons (maus) tempos de exagero cheguei a traçar um inteiro e mais um Beirute. Hoje o meu Beirute é que é mini e o Rabo de Peixe sorvido com calma, nunca mais aquela dose dupla pedida de primeira, um para virar e o outro para ficar, nem mais uma tarde toda na qual junto com Paulinho e Bochecha bebemos umas cento e cinquenta tulipas. O Beirute Double, com bacon, também ficou no meu passado. A idade e a cirurgia me deixaram parcimonioso nos pedidos, mas não diminuíram em nem um tostão o meu amor pelo Frevo.

Lembro dessas coisas porque, como a cidade sabe, o prédio onde o Frevo está desde 1956 foi vendido e há o risco de despejo geral dos inquilinos. Junto comigo um contingente enorme de pessoas está preocupado. Acho que todo mundo deve ter lembranças como as minhas. E o deve aqui tem duplo sentido, tanto de probabilidade quanto de merecimento. Ou seja, todo mundo deveria ter memórias relacionadas ao Frevo.

Sobre esse assunto há um mistério e uma torcida. O mistério é quem afinal representa o grupo comprador que, dizem, pretende fazer ali um hotel de luxo. A torcida é para que se confirme a informação de que o investidor é o Fernando Altério, presidente da T4F, sujeito elegante e cioso do patrimônio cultural da cidade. Dinheiro e afinidades com o suposto empreendimento não lhe faltam. Porém, através de sua assessoria, ele nega o envolvimento. Que seja então alguém à sua altura, porque o hotel será benvindo, desde que preserve o Frevo onde está.

Há quem chame carinhosamente de Frevinho a matriz da Oscar Freire. Mas Frevinho, na verdade, é a filial da rua Augusta, nascida em 1958, dois anos depois do original. É o caso de três parceiros desta nossa luta pela salvação do lugar: Thais Bilenky, Alexandre Pernet e Diego Badra. A primeira é a repórter da Folha de São Paulo que está nos apoiando desde que o Ricardo Braga telefonou para ela passando a pauta. Foi ela que, através da coluna da Mônica Bergamo, iniciou a contagem regressiva e inventou o nome Beirutaço para a manifestação que faremos amanhã, sábado 18 de junho, a partir das 14h30 na calçada do Frevo. Pelo facebook mais de 400 pessoas confirmaram presença.

O Alexandre e o Diego criaram, cada um uma, comunidades de apoio também no facebook. Na quarta-feira nos conhecemos pessoalmente num almoço – o Beirute do Pernet é de atum e o Diego gosta de ciabatta salada – e combinamos que vamos unir forças concentrando ambas numa só, pré-batizada #FICAFREVO. É com este headtag, vídeos e aplicativos que vamos atuar nas redes sociais.

Muitas personalidades já aderiram: Paulo Mendes da Rocha, Alex Atala, Carlos Augusto Calil, Antonio Prata, Beto Ranieri, Sérgio Kalil, Gustavo Chacra, Adriane Galisteu, Ricardo Montoro, Janaína e Jeferson Rueda, Ivald Granato e muitos outros. O vice-governador Guilherme Afif domingos deu uma entrevista à repórter Nara Alves, do iG, se dispondo a receber o grupo investidor para uma conversa.

Após o Beirutaço nós vamos buscar o apoio do ex-governador José Serra, que no caso do Belas Artes já se mostrou sensível à preservação do patrimônio histórico pedindo no twitter a atenção do Condephaat ao tombamento do cinema. E apelaremos também ao Iphan. O embaixador Marcos Azambuja, hoje membro do conselho do instituto, falou ao Jô Soares da importância de tombar singelezas da vida brasileira, como receitas de acarajé, caipirinha, queijo minas. E por que não incluir o Beirute do Frevo na lista? São Paulo é uma cidade de todos os povos, aqui todos se sentem em casa, mas não podemos deixar que as nossas originalidades sejam diluídas. O Beirute do Frevo, a pizza e o frango á passarinho do Camelo, o Filé do Moraes, o pernil do Estadão, o bauru do Ponto Chic: tudo coisa nossa, e devemos zelar por elas.

Há quem defenda o tombamento inclusive do aroma que sai do Frevo, e da mesma forma com o perfume que o Rodeio, restaurante vizinho e contemporâneo, esparrama pela atmosfera do bairro. Porém, como o vizinho de cima pode ser um hotel refinado, estamos dispostos a negociar este ponto – e mais nenhum.

Até amanhã!

Cronica publicada no www.cesargiobbi.com.br

Beirutaço de resistência #FICAFREVO

Os incorporadores que estão comprando o Center Augusta e Oscar Freire já decidiram: não vão mexer no Frevo. Uma freguesa mais atenta neste momento se pergunta: “como ele pode afirmar algo sobre a intenção se mesmo a identidade dos compradores ainda é ignorada?” Ora, esta freguesa pode ser muito atenta, mas evidentemente teve seus motivos e não compareceu ao Beirutaço que se formou pela preservação do Frevo no sábado 18 de junho.

Explico: quem compareceu viu que o santo da casa é forte. A banda Chupisco mal começou a bater o tambor – e rufar a caixa, chuchar o trombone, gritar o trompete e miar o saxofone – e a atmosfera se mostrou auto-defensiva pela própria alegria, indestrutível pela própria natureza. A fumaça que sai da cozinha é mágica, a água que sai da chopeira é benta, cada disco de pão sírio dourado é sagrado. Aos céticos, duas provas incontestes vieram como se aparições fossem: o Chuchu alegremente restabelecido, corado e contente, e o Clóvis ressuscitado, inclusive trabalhando, ora no caixa, ora no balcão de sobremesas. Faltou o Bastião, é verdade, mas quem sabe não era justamente ele, com aquela aura de entidade, o nosso Preto Velho atuando nos bastidores?

Devotos de todas as gerações estavam lá. Minha Neguinha teve e realizou a ideia de comprar um livro de ouro para colher assinaturas, mas como a nossa geração não tem prática no assunto, a composição contou com a inestimável experiência da Pituca, do Lua Costa Santos e de outros que se animaram.

Na semana que antecedeu o ato conheci lá no Frevo um londrino que mora em São Paulo há doze anos. Duncan Scott Lawrie é o seu nome. Inconformado com a ideia de ficar sem os Beirutes ele aderiu ao manifesto, colaborou trazendo fitas adesivas para colar cartazes e deu uma entrevista emocionada ao repórter Pedro Antunes, que cobria o ato para o Estadão e o JT. Sabemos quão comedidos e até frios podem ser os ingleses em suas considerações, mas diante da possibilidade de ver a morte prematura de uma criança, ou de um pub de apenas 56 anos, o nosso inglês admitiu que seria “Uma tragédia”. Desde Shakespeare não se via sangue tão quente correndo em veias anglicanas.

Os cartazes formaram um show à parte. A palavra de ordem trazida pelos manifestantes era #FICAFREVO, esta que está, como se diz, bombando no twitter. Mas também se viam homenagens à Caneca à Moda, ao Capricho, aos Beirutes e ao Rabo de Peixe que, por sinal, de tão homenageado fez secar em quatro horas o estoque de chope reservado para todo o final de semana de festa. A atenção dos órgãos de preservação do patrimônio também foi notada com reclamações ao Condephaat e ao Iphan. Entre os mais festejados estavam os desenhos feitos pelo estilista Walério Araújo e pelo Anderson Rodrigues, do Bar da Dona Onça, que colaborou com as célebres toalhas personalizadas com as pegadas da felina para levar no verso os recados.

Os próximos passos estão definidos: vamos evoluir com o livro de ouro para a internet, colhendo adesões num abaixo-assinado eletrônico para entrar no Condephaat com pedido de tombamento da loja onde está o Frevo, independente do resto do prédio, que assim poderá receber o hotel e até, quem sabe, conforme sugeriu o Fernando Nabuco, pegar carona na reputação da lanchonete e ser batizado de Frevotel. Também vamos tentar uma audiência com o embaixador Marcos Azambuja para incluir na lista de modos e costumes do Iphan o tombamento de todo o cardápio e suas receitas, a fim de garantir a preservação do Beirute e das outras delícias, da mesma maneira que se pretende com a Caipirinha, a Goiabada, o Queijo Minas, o Chimarrão e demais brasilidades merecedoras.

Mão no remo e #FICAFREVO!

 
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O porco e a lama

A melhor pergunta do Django Livre quem faz é o vilão do Leonardo Di Caprio. Ele questiona o por que de, mesmo tendo repetidas chances, como a do escravo que diariamente barbeava seu pai, mesmo sendo ampla maioria, os negros não matavam os brancos.

Outra frase boa é a do preto velho de confiança do vilão, malvado como ele e ainda por cima despeitado. Para mostrar como estava feliz em rever seu senhor que retornava de uma viagem, compara as suas saudades ao que  de um porco sente em relação à lama.

Aqui no Brasil as duas passagens são de grande serventia. Primeiro não dá para entender como a turma não se rebela. Me lembro de quando há alguns anos os franceses sitiaram Paris, incendiaram carros, quebraram tudo para reivindicar tratamento igualitário por parte da sociedade tanto para quem é francês desde sempre quanto para quem chegou há duas, três quatro (!) gerações. O moleque mais armado exibia uma pistola. O segundo mostrava o carregador com a munição. Os demais só tinham paus, pedras, garrafas, quiçá um canivete.

No Morro do Vidigal, além da pistola própria, há inúmeros moços com metralhadoras, escopetas, fuzis e até granadas à disposição. Mas eles não fazem nada perto do que poderiam. Olham a Delfim Moreira aos seus pés e acham muito natural tamanha discrepância social. A turma do asfalto por sua vez também parece não se incomodar com a realidade da favela. A sensação é que nos acostumamos.

E tanto o pessoal do asfalto quanto o da favela olha para Brasília e até fica indignado, mas não podemos dizer que façam alguma coisa para mudar. E o resultado é que de hora em hora a coisa piora. Quando achamos que o estoque de lama se esgotou a porcada se supera e aumenta o volume da pocilga produzindo vasto chorume.

O que dizer sobre a ideia da nova candidatura do Renan Calheiros à Presidência do Congresso? Ainda não é oficial, mas todo mundo que ouviu falar repete que ele só não será se não quiser. Até aí tudo bem. Ou até aí paciência: o homem foi eleito senador e representa uma parcela da população. Para mim mais escandalosa é a maneira como a campanha está sendo feita entre seus pares.

Quem nos conta é a Dora Kramer. Segundo ela o Michel Temer, vice-presidente da República e presidente de honra (!) do PMDB, depois de declarar publicamente que denúncias e suspeições não afetam a credibilidade do correligionário e falar de sua convicção sobre a lisura e adequação com as quais este realizará o mandato do qual deverá sair redimido e enaltecido, nos bastidores espalha outra tese, considerada infalível naqueles corredores.

Qual o porco cuja felicidade aumenta proporcionalmente à quantidade de lama, a crença do vice da Dilma na sagração do Renan no Salão Azul e do Henrique Eduardo Alves na Câmara é justamente na quantidade de denúncias que há contra ambos. A lógica é que a maioria dos congressistas sentir-se-á acalentada se presidida por gente que, tal qual ela, conhece de perto os desvios do poder e já sentiu na pele peso da adversidade. Literalmente, quanto pior, melhor.

E a gente aqui assistindo a tudo bovinamente, esperando pela próxima eleição, quando a porcada deve ser continuada. Fica a pergunta do Leo: “por que não nos rebelamos?”

 
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Lincoln e Django

Lincoln e Django Livre se completam. Não são inseparáveis, mas há entre eles uma colaboração mútua. O primeiro trata de política, da emenda constitucional da abolição, e o segundo é uma comédia bangue-bangue, ou um “Southern” sarcástico. Mas ambos são sobre o espírito humano e ambientados nos Estados Unidos escravagista.

O risco do Lincoln atualmente no Brasil é servir de argumento para a defesa dos mensaleiros. O presidente Abraão, determinado a acabar com a escravidão e com a guerra civil numa só cajadada, desconhece os limites republicanos e bota a máquina da Casa Branca para funcionar sem o menor pudor. Analisa o mapa dos congressistas da oposição que não se reelegeram, e portanto estarão desempregados no despontar do ano novo, e autoriza seu secretário de Estado a contratar gente hábil em aliciar esses homens com cargos e até dinheiro vivo. Coincidentemente a primeira oferta é a direção dos Correios.

Outras muitas coincidências se repetem. O partido Republicano pelo qual o seu Abraão se elegeu e que serve de base ao seu governo entra na lista como favas contadas, ou voto obrigatório, de cabresto, sem discussão. No máximo uma esmolinha igual a que por aqui o João Paulo Cunha mandou a própria mulher sacar na boca do caixa.  Os membros do partido Democrata é que vão se lambuzar no propinoduto, alguns contra a vontade de seus eleitores, notadamente latifundiários senhores de escravos do sul americano, exatamente como fizeram os filhotes da ARENA, que vão do PP do Maluf e do PL/PR do Valdemar da Costa Neto ao agora PSD do Kassab, todos outrora conservadores e apoiadores da Ditadura Militar se aliando aos governos petistas.

De um lado o Abraão Lincoln se viu disposto a ignorar os limites republicanos para fazer valer sua vontade e se eternizar, que é viver para sempre. Do outro lado alguns votos que faltavam vieram da vontade de sobreviver no prazo imediato. Sempre haverá esta disposição nos homens, e por isso os fins jamais deveriam justificar os meios. Por maior que fosse a importância de acabar com a escravidão e a guerra, a corrupção é condenável.

De qualquer maneira, a diferença entre a compra da emenda abolicionista no governo Lincoln e o mensalão no governo Lula é básica: nos pratos da balança uma é a favor da Humanidade e engrandece a Nação, a outra envergonha o povo e apodrece o país, simplesmente pela razão mesquinha de ser, porque não servia a mais nada além da anulação do Parlamento.

Para o Django roubar é moralmente inadmissível, mas se for preciso matar para fazer Justiça, tudo bem. Ou melhor: com prazer. Tarantino se supera. Sua fórmula de roteiro onde até a morte do mocinho no meio da fita é possível, diálogos infernais, trilha espertíssima, atenção aos mínimos detalhes, homenagens veladas aos clássicos e clichês do cinema continuam iguais e serão sempre diferentes. A munição sem fim dos caubóis? Está lá. A vontade de contar uma história desconexa? Também. Desenho animado? Várias vezes. O banho de sangue é simbólico, porque sendo negro ou branco tem a mesma cor. E o melhor brinde é o sarro que ele tira da origem da ku kux klan, que está no contexto, mas não faria falta à história. E tem o Christoph Waltz. O compromisso do Quentin Tarantino é com o cinema. Ele se eternizou fazendo o que quis, sem precisar corromper nem ser corrompido.

 
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Crônica da tragédia estabelecida ou Santa Maria!

Um amigo conta sua experiência de empreendedor. Estudou, planejou, investiu e inaugurou uma lanchonete. Na primeira semana recebeu a visita de um fiscal da Vigilância Sanitária. Há uma jabuticaba burocrática que se dá mais ou menos assim: para funcionar o restaurante precisa ter alvará, mas este alvará depende do aval da Vigilância Sanitária, que por sua vez só pode dizer se o estabelecimento tem condições de higiene se ele estiver funcionando. Quer dizer: qualquer lugar esteve ilegal por pelo menos um período. Não falha um.

Voltando ao dia da visita do fiscal, este chegou em horário de funcionamento, casa cheia, se identificou e começou sua investigação, que incluía farejar copos, pratos e talheres dispostos nas mesas desocupadas, vizinhas às ocupadas por gente que nítida e compreensivelmente ia perdendo o apetite. Apavorado, o empresário foi perguntar o que havia de errado, e ouviu que “nada”, mas que mesmo seria autuado, posto que cabia recurso e além disse não haveria risco de fechamento. Porém, a partir dessa autuação, seria conveniente contratar uma consultoria especializada em Vigilância Sanitária, que por uma taxa mensal daria toda orientação necessária para eliminar qualquer chance de enrosco. Muito gentil, o fiscal ofereceu o cartão de visita do consultor.

Na semana seguinte veio o fiscal do Meio Ambiente. Há uma árvore no lugar, pela qual o proprietário se apaixonou e fez questão de preservar com todo o cuidado. Isto o prestativo funcionário público reconheceu, mas sabe-se lá, falta de insolação, cupins e outros males urbanos poderiam trazer risco para a árvore, e portanto seria de extrema importância ter um especialista à disposição, inclusive para podas eventuais e, veja só a coincidência, tinha no bolso o cartão de visitas do consultor especializado em árvores, podas e botânica em geral.

Dias depois chegou alguém do Contru, que é um órgão da prefeitura que controla o uso  de imóveis. São suas atribuições: “Realizar análises de projetos de: Edificações que necessitem de adaptação; Edificações novas; Equipamentos de armazenamento de produtos combustíveis; Aparelhos de transporte vertical e horizontal; Adaptação de edificação para acesso de pessoas portadoras de deficiência física e necessidades especiais; Vistorias técnicas; Verificação da execução das obras de segurança nos projetos aceitos pelo Departamento; Verificação de atendimento de intimações emitidas por risco iminente; Verificação e encaminhamento das denúncias recebidas; Operações em toda a cidade, verificando condições de segurança em edificações destinadas a comércio, indústria, serviços, institucionais, eventos, postos de combustíveis, aparelhos e empresas conservadoras de transporte vertical e horizontal.” Juro que assim está descrito no site oficial.

Enfim, o representante do Contru entendeu que a árvore, apesar de ter tanta gente cuidando dela, inclusive especialistas, botava em risco a construção e a freguesia, e que por isso merecia acompanhamento de (adivinha!) um consultor, cujo cartão de visitas (bingo!) ele tinha à disposição.

Perseverante (teimoso, louco, insano), ele continuou investindo e foi buscar uma firma de manobristas. Eu não sabia, mas elas cobram um piso de três mil reais pelo serviço. É como uma consignação invertida, onde o contratante tem que garantir o faturamento mínimo. Fuça daqui, xereta de lá, orça, orça, arranjou uma molecada nova disposta a deixar o piso em mil reais. Tudo certinho, empregados habilitados e registrados, recibo verdinho da prefeitura. O primeiro carro que eles atenderam foi uma viatura da polícia. A tripulação desembarcou e foi logo avisando que estava tudo irregular com o serviço. Pasmado, o dono da lanchonete argumentou que não era possível, que verificou tudo pessoalmente. Sua Autoridade não fez rodeios: – “O meu, vai por mim que eu entendo das regras: contrata um dos três que já trabalham aqui no bairro que é mais negócio pra você.”

E quem acha que é só o governo nunca visitou um padre. A experiência é válida: vá a  igreja e diga que ser se casar, batizar o filho,  rezar missa de sétimo dia. A secretária do padre, numa dependência da Casa de Deus,  vai cobrar uma taxa e então meter na sua cara um livrinho de fornecedores exclusivos, que vão do florista ao bufê, passando pelo coral e o fotógrafo. Se não for com a turma deles você não casa, seu filho fica pagão e a alma do seu ente querido desamparada. Santa Maria!

Se Deus é brasileiro aprendeu direitinho a tirar sarro da cara alheia.

 
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Crônica da tragédia anunciada

Perplexo, eu deveria ficar quieto. Pelo menos esta é a recomendação dos manuais de boa conduta cada vez mais populares: não esquente a cabeça, releve, se não puder dizer algo bom simplesmente cale. Mas nasci com esse defeito e me envolvo, e me aborreço, e me desgasto. Esta é a minha natureza, não tenho como lutar contra ela.

Minha perplexidade, porém, não é simplesmente em relação ao número de vítimas do incêndio em Santa Maria. Acho que a de ninguém é. Infelizmente nos acostumamos à tragédia. Aqui em São Paulo mais de mil morreram assassinados a bala no ano passado, outros milhares foram moídos em acidentes de automóvel e aviões já caíram matando mais gente de uma só vez. O que barbariza neste caso é a suavidade que fica diante da barbárie. As vítimas serão veladas com os corpos e as faces intactas, como se estivessem dormindo, como se aquele ginásio fosse um dormitório de acampamento, absurdo, surreal, ou como se estivessem todos vivos, mas se fingindo de mortos num protesto para ver se o Brasil acorda.

A imagem descrita pelo poeta gaúcho Fabricio Carpinejar é desesperadora: “Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal”. Aquelas campainhas insanas insistindo contra o silêncio definitivo, clamando pela resposta impossível, são de levar qualquer um à loucura.

A maior dor é suave. Um curativo arrancado com violência machuca menos do que suavemente extraído. E a asfixia, o envenenamento por fumaça tóxica de cada adolescente encurralado é dilacerante. Resta crer que depois do susto eles não tenham sofrido. Que o efeito inebriante da fumaça tenha anestesiado cada um deles. Que a dor seja de quem fica, de cada um de nós, que vamos seguir adiante sabendo que há famílias olhando assim os seus filhos, amigos em dúvida sobre a alegria de viver, adolescentes viúvos do primeiro amor. Mas que, como escreveu outro gaúcho, o Luís Fernando Veríssimo, que a revolta tenha uma função prática.

Se fosse para apostar sem ver, botaria meu tesouro no palpite que a boate Kiss já é errada desde a calçada, tanto quanto à prefeitura que um dia autorizou sua operação. Mas pude ver num retrato a calçada, que confirmou meu palpite: feita para o entra e sai de mil pessoas, a faixa de calçada não comporta mais do que três perfiladas.

Da porta (única) para dentro a calamidade se espalha, tudo irregular, da capacidade ao equipamento, do treinamento da equipe à brincadeira com fogos de artifício, da falta de documentação à falta de seguro. Quantos lugares assim não frequentamos? É a crônica da tragédia anunciada. Boates, cinemas, shoppingns, estações de metrô. E mesmo assim têm alvará  e outras licenças de um, dois, três, infinitos órgãos oficiais que atuam em cada município brasileiro. Todos? Não sei, mas a maioria inúteis, que atendem ao interesse particular de mafiosos absolutamente alheios à coletividade.

Parece que os donos da boate e alguns músicos foram presos preventivamente. O prefeito Cezar Schirmer, no cargo desde 2009, e portanto cúmplice da tragédia, se limitou a agradecer a solidariedade e dizer que não está faltando leite nem medicamento. Prefeito, o que está faltando é vergonha na sua cara. O mínimo que você pode fazer é exonerar todos os fiscais que passaram pela rua dos Andradas nos últimos quatro anos e depois renunciar. O resto é com a Justiça.

 
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