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O homem e o boneco

Marketing político deveria ser assim: um líder dá sua opinião dizendo para aonde devemos ir, os estrategistas desenham o melhor mapa de acesso e os marqueteiros se reservam ao papel de tornar o caminho mais fácil de entender e bonito, através de sinalização e flores nos canteiros. Flores de verdade, naturais, de preferência.

Aqui no Brasil ocorre o inverso: o marqueteiro encomenda a pesquisa de opinião e dela extrai um norte, ao qual os estrategistas adaptarão os caminhos e o candidato, que deveria ser o líder, acaba submetido, na melhor das hipóteses temendo contrariar a vontade popular, mas na maioria delas é só pavor de perder a eleição.

As pessoas cada vez mais vêm confundindo o papel do líder com o de porta-voz da maioria. Líder não é aquele que repete a opinião que prevalece, mas aquele que faz o bom-senso prevalecer na opinião geral. Para tanto ele tem que ser mais preparado, mais culto, inteligente, mais sábio.

Um dos poucos caras assim que restam com disposição para disputar uma eleição no Brasil é o José Serra. Digam o que quiserem: ele é feio, amargo, desagradável, duro de roer. Estou de acordo. Mas o fato é que o nego estudou e se preparou a vida inteira para exercer cargos públicos, e sempre que teve oportunidade de ocupa-los, revelou-se um líder capaz de conduzir o Estado no sentido de melhorar a vida das pessoas.

Foi assim no ministério da Saúde, na prefeitura e no governo do estado de São Paulo. Elencar as realizações seria cansar o freguês, por isso fico em duas que me comovem: urbanização de Paraisópolis e do Cantinho do Céu. Eram favelas e agora podem ser considerados bairros. Ainda há por fazer, mas se inclusive bairros tidos como planejados acabam se desvirtuando, uma comunidade que brota do improviso, irregular e sem qualquer recurso, seja público ou privado, técnico ou material, se tornar em uma paróquia que orgulha seu morador ao declarar o endereço, é um sopro de esperança para todos nós.

Abro parênteses para falar da seca em São Paulo. Impressiona proliferação de insetos de solo e os incêndios nas favelas, mesmo em Paraisópolis, que já tem mais alvenaria do que tábuas nas casas. Não sei se eles estão relacionados com a estiagem, mas quero crer que sim. Moro no Jardim Paulista e em apartamento e tirei duas aranhas grandes de casa esses dias, e um concunhado que ainda não conheci ficou internado por causa de uma picada que levou na Vila Madalena. Carrapatos nos cachorros também estão grudando mais.

Voltando ao Serra, a despencada dele no Ibope me confunde mais do que os motivos do aumento dos incêndios e dos insetos. Há quem explique a rejeição dizendo que ele é antipático. Mas a verdade é que ele teve apoio popular sempre que fez o que lhe deu na telha, seja propor a Lei Cidade Limpa, a Lei Anti-fumo ou ter abandonado a prefeitura para concorrer ao governo do estado e impedir que o PT tomasse conta de São Paulo. Ganhou no primeiro turno aquela eleição, com mais votos na capital do que teve para prefeito.

Em contrapartida, quando decidiu ouvir o marqueteiro e parecer simpático rolou dez pontos abaixo no gráfico. Primeiro teve o gesto de grandeza bíblica embalar o Mateus que pariu, notadamente o Gilberto Kassab. Dizem que este é um gênio político. Não é. Com a prefeitura redondinha, equipe de primeira linha e dez bilhões em caixa, o distinto alcançar rejeição de 50%, tem que ser uma anta. A chance de encontrar alguém insatisfeito é brutal. Numa moto, pelo menos uma pessoa reprova o Kassab. E o Serra segurou o rojão.

Agora, para ficar em só mais um exemplo, lança esse adesivo da família simpática, com ele em bonequinho e mais uma tropa diversa como a população paulistana. É no mínimo ridículo. Para o Kassab isso funcionou em 2008 porque o bonequinho é e sempre será muito maior do que ele. Para o Serra, que tem um passado registrado na história, o bonequinho é uma redução pessoal lamentável e vexatória.

Por isso, quem tiver disposto a ajudar São Paulo a ter de volta um líder realizador a frente da prefeitura, pense no homem com todos os seus defeitos, e esqueça o boneco com todas as suas qualidades.

 
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Independência ou morte

A convite da Jacy e do Tuca Andrade, minha Neguinha e eu fomos celebrar o Sete de Setembro na Casa da Paineira, em Alambari. Que delícia! A ideia era enforcar já a tarde da quinta-feira para fugir do trânsito, mas como a gente não podia deixamos para a manhã de sexta, com o firme propósito de acordar cedo e partir – plano que evidentemente não deu certo e quando saímos os ponteiros já iam se osculando ao norte do relógio.

Ainda antes do pedágio encontramos a Castelo Branco entupida, situação que permaneceu inalterada depois dele. Paramos até no Sem Parar. Tudo o que conseguimos foi mudar de pista por um acesso improvisado, mas que de nada adiantou, porque em feriado no Brasil estrada é igual nariz: entope dos dois lados. Duas horas depois ainda não havíamos vencido o quilometro 53, famoso pelo bacalhau, e a sede e a fome nos obrigaram a uma pequena e dupla traição: estacionar para fazer uma boquinha numa casa portuguesa em pleno aniversário de 190 anos da Independência do Brasil do domínio de Portugal, e forrar o estomago, antes todo reservado para as codornas do Tuquinha.

Não nos arrependemos porém de nenhuma das duas. Primeiro porque o afamado 53 é de fato excelente, depois porque quando as codornas finalmente pousaram à mesa na Casa da Paineira já havia apetite renovado, e as traçamos todas, sem pena e sem trocadilho, com purê de mandioquinha e pão para não deixar vestígio de caldo no prato.

Sair de São Paulo nos feriados pode ter seus contratempos, mas compensa, notadamente quando há mesa e prosa da melhor qualidade. E as flores? As orquídeas da Jacy parecem alimentadas pela cozinha do Tuca. E se aqueles ares fazem bem a elas, com a gente não pode ser diferente. Sem falar que uma vez em Alambari não pensamos mais em carro, estrada ou telefone. É nessas condições que as baterias se carregam.

Abro parênteses para confessar mais uma traição, agora em relação à freguesia desta página: não é toda a verdade dizer que não pensamos em carro, estrada ou telefone durante o feriado. Por conta da dupla de roteiristas Tuca Andrade e Paulo Saad, que pelo SMS criaram um Road Movie que misturou Jack Kerouac, John Candy e Sacha Baron Cohen. As férias frustradas envolvendo dois imigrantes árabes, o brimo rico e o brimo pobre, atravessa a Rio-Santos numa Kombi desde Bertioga, passando por Laranjeiras e terminando em Ramos, na zona norte do Rio. A dose de Kerouac fica por conta do Zé Gonzaga, que embarca em Boissucanga e vai tomando todas até o piscinão.

O Piscinão de Ramos é daquelas coisas do Brasil que espantam quem resolve fuçar além do seu quintal. Daqui da região dos Jardins, em São Paulo, imaginamos uma poça d’água do tamanho do Lago do Ibirapuera. E qual não é a nossa surpresa quando ficamos sabendo que, na verdade, a área da piscina é quase duas vezes maior, não que a do lago, mas a do parque inteiro!

Outra coisa que choca tantos de nós, bocós, que ficamos escandalizados em passar uma hora a mais no trânsito do feriado ou do final de semana, sendo que sentados em bancos estofados e individuais, com ar-condicionado, musiquinha leve, água fresca e a marcha suave dos carros automáticos, é que duas horas de congestionamento – duas de ida, duas de volta – faz parte do dia-a-dia da maioria da população, sendo que eles viajam sentados em bancos duros ou de pé, espremidos uns nos outros, em ônibus velhos, mecânicos e sujos, pilotados por motoristas que passam oito horas com um motor gigante que produz temperatura e ruídos proporcionais.

Se há cento e noventa anos, a bordo de uma mula e às margens do Ipiranga, um Pedro corajoso se levantou e proclamou a Independência do Brasil, está na hora de a gente fazer o mesmo e declarar independência do automóvel e começar uma cruzada pelo transporte público de qualidade. Ônibus, bonde, metrô nas cidades; trens nas estradas.  Por que do jeito que está não pode haver vida. Do jeito que está já é a morte.

 
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