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João e Maria nos protestos de 17 de junho

O Diário de São Paulo trouxe hoje em matéria de capa uma reportagem intitulada Vida de gado no M’Boi Mirim, bairro que fica vinte quilômetros a sudoeste da Praça da Sé. Quer dizer, o percurso de ida e volta equivale ao de uma maratona.

O recorde mundial de maratona é de pouco mais de duas horas, justamente o tempo necessário para ir de ônibus do M’Boi Mirim ao Centro. Para voltar são pelo menos outras duas horas. Isto é: o cidadão a pé leva metade do tempo do ônibus! E sem contar a espera no ponto, a situação precária das vias e dos carros, o aperto.

Os tarados que se dedicam à maratona fazem de propósito e de vez em quando. Do M’Boi Mirim ao Centro milhares de pessoas vão e voltam diariamente para trabalhar. Uma passageira de 32 anos chamada Maricélia Ferreira Guimarães disse que cansa mais no ir e vir do que trabalhando como empregada doméstica. Já o Manoel Pereira Silva, outro passageiro da mesma linha, saiu com essa pérola: – “De graça é caro; R$ 3,00 então é um assalto.”

Não foi à toa que a faísca do levante brasileiro no 17 de junho se deu em torno do aumento da passagem de ônibus. Todos os outros serviços públicos são de qualidade semelhante e estão mantendo acesa indignação popular.

Pode-se dizer que o governo engordou João e Maria. A história é conhecida: o casal de filhos de um homem pobre é abandonado na floresta e passa a sofrer com o deslocamento diário, tendo que marcar o caminho com migalhas de pão. Um dia encontram uma casa de doces e se deleitam, até que uma bruxa aparece e revela o plano de abusar de ambos depois que estiverem gordos e obedientes.

A realidade do povo é a mesma. Em todo terminal ou ponto de ônibus concorrido há uma bomboniere vendendo toneladas de açúcar. Maria-mole à setenta centavos, chocolate de quinta, isopor cor-de-rosa e outras porcarias letárgicas que amansam e engordam pessoas como se gado fossem.

Acontece que João e Maria enjoaram. Não querem mais os doces nem o maltrato  da bruxa. Têm energia de maratonista para queimar e não vão sossegar até que a bruxa seja queimada no próprio forno.

 
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Portugal e a crise – o pior já passou

Andei em Portugal por cidades grandes, pequenas, médias. Em todas tive a mesma impressão: a parte ruim da crise por lá já passou. Todas elas estão sendo bem cuidadas, funcionando e ativas economicamente. Nas conversas com os portugueses e nos jornais naturalmente ainda há pessimismo e insatisfação, mas aparentemente é a mesma infelicidade do gordo em dieta: seus índices estão melhorando, mas ele está triste (obrigado, Nizan).

A infraestrutura é ótima. O transporte público funciona bem em todas as possibilidades: terra, ar e água. Calçadas, ruas, estradas, trens, ônibus, aeroportos, portos, hidrovias. Estas, por sinal, estão um colosso à parte. O Douro hoje é tido como o melhor destino fluvial da Europa, e quem por ele navega vê produção e vida digna em ambas as margens, até nos vilarejos mais pobres: vinhedos e vinícolas e entre eles muitos hotéis, bares, restaurantes, equipamentos turísticos de todo tipo, de barcos pequenos à navios, passando por teleféricos, lugares históricos preservados e cultuados, todo e qualquer pedacinho de terra plantado e cultivado.

O que não está sendo reformado é muito bem cuidado. Parques, praças, fontes, canteiros sempre floridos. Os turistas vão e vêm em grande número e tem o privilégio de andarem misturados à população residente, melhorando a experiência. Digo, são raros os lugares tidos como “para turistas”. Os portugueses amam e usam as suas cidades, vão à bares, restaurantes e até às igrejas históricas, para rezar, assistir a um concerto ou simplesmente passear. E tudo é permeável ao novo, sejam tecnologias de comunicação, comida, arte, arquitetura, mas com profundo respeito ao antigo.

Os pontos altos de insatisfação são em relação à gastança desmedida – por parte do governo, mas também das empresas e das pessoas –  partir da União Européia, o desemprego em alta e a má fase do sistema de educação.

O primeiro, que é a gastança que como sempre acabou em endividamento, tem pontos pertinentes. Fizeram, por exemplo, estádios que há mais de um ano não recebe vivalma. Mas as estradas, portos e aeroportos estão ajudando muito o turismo e a produção, que tem espaço para crescer ainda mais sem causar transtorno algum.

O desemprego deriva disso. Como gastaram mais do que podiam, agora têm que se submeter ao que chamam de troika, que é o trio fiscalizador formado pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI. E como demolir estádio não traz dinheiro de volta, o jeito é apelar para demissões. Foi o que fizeram: demitiram todos os “de mais” e mais um pouco, elevando o índice a 17%. Mas aqui no Brasil, se fizéssemos o mesmo do balcão de padaria aos ministros da presidenta Dilma, teríamos pelo menos 30% de desempregados. E note que lá muito empregos comuns por cá já se extinguiram faz anos. Empregada doméstica, ascensorista, segurança, manobrista existem. Aqui para servir café expresso e pão de queijo às vezes há cinco funcionários no balcão – e mesmo assim demora. Ministros são 39. Quantos poderiam ser demitidos?

Sobre a educação eles têm razão em estarem insatisfeitos. Um país como Portugal, que de uma península avançou pelos mares e espalhou sua Língua e cultura por centenas de milhões de pessoas no mundo, não pode se contentar com menos do que a excelência. Estão acostumados assim e entendem como responsabilidade histórica. E esta noção, tão densa e tão cara a eles, garante que o quadro não demora a ser revertido.

 
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SP, Terra de Marlboro

Igual faço quase que diariamente, ontem fui almoçar no Itaim-Bibi, a pé. Quem é de São Paulo sabe que o este bairro é tido como bacana, porque concentra comércio sofisticado, além de escritórios de empresas poderosas e apartamentos caros.

No caminho de não mais do que quatro quadras o cenário era caótico: as calçadas todas esburacadas ainda juntavam água nas guias impedindo o atravessar. Os semáforos em pane e um trecho longo completamente sem energia. Bairro de bacana?

A civilidade entre os que iam e vinham, gente a pé, de carro, moto ou ônibus desceu para baixo de zero. A impressão que dá é que na falta da regra, como por exemplo a dos semáforos, as pessoas entendem que a prioridade é delas.

No nosso grupo havia uma patrícia que viveu os últimos quinze anos nos Estados Unidos. Diante do cenário ela comentou perplexa: – “Terra de Marlboro”.

É exatamente esta a sensação que toma qualquer brasileiro quando vai até ali e volta. Quinze anos ou quinze dias, e nem precisa ser o primeiro mundo. A Argentina serve. Estados Unidos e Europa chegam a humilhar. Nossa infraestrutura é tão precária quanto a nossa estrutura social. Não temos metrô decente e tão indecente quanto o que temos são os usuários, que sequer aguardam quem está dentro sair antes de tentar entrar.

Moro com a mulher que amo no bairro que escolhi; vou e volto a pé do trabalho num caminho da roça que é praticamente atravessar um parque, porque passa pelo Jardim América, que de manhã só conhece operários e passarinhos que limpam as calçadas de folhas e frutos; durante a semana consigo ir ao clube fazer ginástica, passar no botequim para beber com os amigos, ir ao cinema, jantar fora.  Duvido que haja em São Paulo vida melhor do que a minha, mas lamento que esse quadro, teoricamente básico para a vida na cidade, na prática seja o retrato de um privilegiado e que mesmo assim ele esteja insatisfeito e indignado.

Nos habituamos à hostilidade urbana, à péssima mobilidade, à falta de educação, saúde, segurança, parques e praças, poluição, um custo absurdamente alto por qualquer serviço ou produto. Mas não podemos nos conformar. É inaceitável que uma cidade rica como São Paulo continue sendo tão ruim para as pessoas e vice-versa, isto é, que as pessoas continuem sendo tão ruins para São Paulo. Precisamos cuidar da cidade que escolhemos, cobrando a prefeitura e fazendo a nossa parte, afinal vivemos aqui, não somos forasteiros na Terra de Marlboro.

 
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Os 19 anos do Plano Real e os 20 centavos

Igual a toda ideia genial, a do Plano Real é óbvia: ante à inflação galopante que enfrentávamos, nós brasileiros perdemos a noção do valor e principalmente do preço das coisas, que já não oscilavam mais exclusivamente por fatores econômicos, mas principalmente por questões psicológicas.

Até então, as maneiras de lutar contra a inflação eram autoritárias e burras: corte de zeros, congelamento de preços, troca do nome da moeda e até confisco. O Plano Real respeitou o inconsciente coletivo. Criou um indexador e deixou a moeda antiga correr à deriva, publicando diariamente sua cotação, o que atendia ao costume das pessoas ao mesmo tempo que ensinava o valor de cada coisa através da URV (Unidade Real de Valor).

Mesmo sendo um povo acostumado à mudanças drásticas na economia, não fosse esse período de adaptação da URV talvez o plano fosse mais um fracasso.

Já a consolidação e a manutenção dependeram da economia. Para ganhar credibilidade a moeda contou com a atuação responsável do governo, cujo tripé básico é meta de inflação, câmbio flutuante e superávit primário.

Hoje em dia, infelizmente, a responsabilidade já não é tanta. O governo Dilma gasta mais do que pode e muito mal, sendo obrigado a no final do ano fazer macaquices para conseguir aprovar as contas, o que tira valor da moeda provocando a volta da inflação.

O povo brasileiro se levantou no embalo do Movimento Passe Livre, formado por jovens indignados em pagar 20 centavos a mais pelo transporte público. Esses jovens são só um pouco mais velhos do que o Plano Real e, portanto, não viveram a inflação. Daí que não custa lembrar: a inflação causa prejuízos muito maiores ao trabalhador assalariado do que R$0,20 a mais por passe de ônibus.

Neste 1º de Julho, aniversário do Real, os protestos deveriam ser contra a irresponsabilidade do governo Dilma no trato com a economia e o perigo da volta da inflação.

 
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Onde está o Lula e os verdadeiros oportunistas?

Há alguns anos perguntei aqui o nome de um político que depois de ter perdido sucessivas eleições foi eleito para um cargo executivo e, apesar de passar o mandato metido em escândalos de corrupção, conseguiu eleger um até então completo desconhecido seu sucessor.

Todos respondiam: Lula! Era então a fase mais alta da popularidade do ex-presidente. Tão grandiosa que parecia inabalável, universal, eterna. Mas eu falava do Maluf, que igual ao Lula se encaixa perfeitamente na descrição.

Outra comparação que fiz com o Lula, mas dessa vez diretamente, foi com o Vasco Moscoso de Aragão, personagem do Jorge Amado. Trata-se de um sujeito sem vontade para estudar ou trabalhar, malandro e boa-praça, que passa a vida dizendo ser o capitão de longo curso que nunca foi. O destino o coloca diante do timão de um navio em cruzeiro. Muito vivo ele continua fingindo comandar e enganando a todos. Até que um dia a coisa agrava e a máscara cai.

Na novela do Jorge Amado o malandro acaba salvo pela sorte. A quem quiser saber como, recomendo a leitura, que é deliciosa. Na vida real aposto o que puder no meu palpite: fatalmente Lula terá o mesmo fim do Paulo Maluf. E já começou.

Tido como gênio, mito e até santo, neste junho em que o Brasil se mostrou esgotado de tanta safadeza e inoperância Lula está completamente calado, culpado e acovardado, espiando das trevas a luz que explode nas ruas.

Ante aos protestos, o  único movimento que lhe atribuem é uma reunião com líderes em seu instituto no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Não custa lembrar: o endereço é provisório. A ideia é mudar de mala (preta) e cuia para o bairro da Luz, no terreno de cinco mil metros quadrados que era da cidade (seu, meu, nosso), mas o Gilberto Kassab lhe deu de presente.

Segundo um dos presentes à reunião, a mensagem do Lula é a seguinte: “Se a direita quer fazer luta de massas, vamos fazer luta de massas”. Quer dizer, não entendeu nada. O estopim do levante foi aceso pelo Movimento Passe Livre, que deseja transporte público grátis, mais “de esquerda”, impossível. Mas quem está nas ruas são todos os brasileiros, conservadores e progressistas, liberais e reacionários, jovens, velhos, mulheres, homens, todo mundo enfim. Escondidos só os vândalos de verdade como o Lula.

Daqui a um tempo, quando a limpeza entrar na fase de manutenção, será bom lembrar de quem ajudou varrer, esfregar, desinfetar, mas nunca esquecer dos ratos que se confirmaram exercendo sua vocação de se esconder nas trevas. Lula é um deles. Sarney, outro. E o Kassab, já citado, também.

 
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O canhão do Cabral – o governador do Rio não entendeu o recado

No dia 17 de junho, assistindo de seu gabinete no Palácio das Laranjeiras à manifestação que reuniu 100 mil pessoas na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio, o governador teve uma ideia: comprar um Brucutu para a PM.

Brucutu é como ficou conhecido durante a ditadura militar o caminhão pipa com canhão d’água para apagar o fogo da multidão. Ultimamente só aparece nas imagens que chegam da Turquia, onde tenta afogar os gritos de quem protesta contra o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoga.

Apesar de estar pintado todo de preto como se fosse o mais novo orgulho da temida coleção do BOPE, o Brucutu precisou de escolta para chegar ao pátio do Batalhão de Choque, onde posou para fotos de divulgação. É uma gracinha, de fazer inveja a caminhão de bombeiro do Playmobil.

A aquisição revela o compromisso da PM com a preservação do patrimônio do Rio de Janeiro e a determinação em protege-lo a ação dos vândalos que estão nas ruas. Ainda assim, a assessoria da polícia não divulgou os detalhes do modelo de compra, total de dinheiro gasto ou dados sobre o fornecedor.

Se foi mesmo ideia do Sergio Cabral ou de algum seu subordinado tanto faz. O importante é que está claro que eles não entenderam o recado. O que a gente na Avenida Rio Branco, na Candelária ou no acampamento diante da casa dele no Leblon quer é para a educação, saúde, mobilidade o mesmo prestígio e equipamentos que a polícia e o futebol merecem do governador: um professor Nascimento, uma escola Maracanã. E uma coisa fundamental: que os investimentos sejam transparentes como a água.

 
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Siga o líder – se às massas falta um líder, ao governo também falta

As primeiras reações dos governantes ante às manifestações foram de fuga. Uns fugiram pela direita, tratando o levante como coisa de baderneiros. Outros, pela esquerda, insistindo na que é fundamental haver um líder das massas.

Tanto uns quanto outros são uns infelizes. Tentar generalizar as manifestações como baderna como se todos entre as centenas de milhares que estão nas ruas fossem vândalos depredando o patrimônio público é a mesma coisa que dizer que todo político é ladrão, e isso absolutamente não é verdade.

Um pouco mais branda, mas na mesma linha, segue a opinião de quem só enxerga prejuízos causados pelos congestionamentos, pelos atrasos nos voos, no arrefecimento do consumo. Ora, antes devagar assim, com um propósito, com um ideal enfim, do que quase parando como estamos há muitos anos caminhando, sem educação, saúde, Justiça ou infraestrutura sequer razoável.

Hoje por exemplo a cidade de São Paulo parou antes de começar o horário comercial. E parou por que? Por causa de uma árvore caída na avenida Nove de Julho. Caiu, diga-se, por falta de manutenção. E continuou caída por muito tempo falta de quem a removesse. É o símbolo de tudo o que já não funciona há muito tempo, e na maior cidade do Brasil, uma das maiores do mundo.

Agora o mais absurdo foi ouvir alguns políticos dizendo que faltam líderes e temas específicos às massas, e que sem eles é impossível debater qualquer coisa. Mas vamos supor que emergisse da multidão alguém personificando a indignação geral. Muito bem: com quem este líder deveria negociar? Quem é o líder político no Brasil?

A presidente da República é que não é. Cada vez mais se confirma como um poste ou coisa pior, porque os postes tradicionalmente sinalizam, iluminam, conduzem energia, transmitem informação. Dilma chegou até aqui com apoio parlamentar e popular maior que 80%, mais do que suficientes para liderar o país no sentido das reformas urgentes. E o que fez? Nada. Mostra que não sabe o que quer e muito menos como conseguir. Deu no que deu. Se às massas falta um líder, ao governo e ao Estado também falta.

 
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Por um 17 de junho permanente – sobre as manifestações no Brasil e o que pode ser feito delas

No dia nove de junho peguei um avião rumo a Portugal. Não há por que omitir o motivo: lua de mel. Casei no sábado 8 e viajei no domingo. O clima parecia mais do mesmo: aumento nas tarifas de transporte público e as manifestações de sempre, que agravam o congestionamento cotidiano para em seguida se diluírem.

Na sexta-feira 21 embarquei de volta e o que encontrei na chegada ao Montoro, mais conhecido por Cumbica, foi o caos: manifestações nas rodovias tornavam o acesso impossível, e o maior aeroporto do Brasil ficou fechado por horas seguidas, tendo voos atrasados e suspensos, filas para tudo e gente dormindo pelas tabelas.

Para mim não foi surpresa nem novidade, apenas a imagem in loco do que acompanhei pela imprensa internacional e pela internet desde o 17 de junho, quando o país literalmente parou em manifestações consecutivas e a cada dia mais abrangentes, tanto na razão de ser como no endereço.

Hoje percebemos que o motivo do levante não foi o aumento nas tarifas. Os vinte centavos acenderam o pavio, mas o que mantém a chama acesa é a lenha que o povo levou e estocou por tantos anos sem dizer palavra. Igual a todo pendulo puxado muito para um lado, este voltou com muita força. As redes sociais como que proíbem a omissão individual e fazem do trombone de cada um uma orquestra ensurdecedora.

SP e Rio aumentarem tarifas ao mesmo tempo antes era o que diluía o prejuízo de imagem dos políticos, concentrando a exposição negativa no local; hoje todo mundo se fala e a revolta acontece em rede nacional. A presidente exposta à grande concentração popular, mesmo se vaiada, antes podia ser editada; hoje cada um dos setenta mil presentes no Mané Garrincha a vaiaram pessoalmente e na internet, a rede internacional. Uma passeata precisava de quinze dias para ser organizada; hoje precisa de quinze horas.

Agora queremos mudar tudo o que consideramos errado de uma vez, o que evidentemente não é possível. Se pudéssemos nos organizar em torno de um grito efetivo, este seria a reforma política, que por sinal é o único ponto que vai além da demagogia no pacto proposto pelo governo federal. Responsabilidade fiscal, tolerância zero com corrupção, investimento em educação, saúde, mobilidade, segurança são coisa óbvias. A reforma política, começando pelo voto distrital e chegando ao parlamentarismo, é a melhor maneira para aproximar representantes de representados, e a partir disso mudar o Brasil.

Por que não há sistema político mais perfeito do que a democracia representativa. A prova? Da maneira torta que existe hoje, um mês antes da população o Congresso se levantou contra o Governo Federal. A própria base da Dilma, sustentada com cargos infinitos, votou contra ela em temas fundamentais para o desenvolvimento do Brasil, como modernização dos portos e dos tributos. Foi um sinal da onda que estourou no 17 de junho, mas ninguém previu.

A verdade amarga é que o Congresso é o espelho fiel do povo. Não gostamos do que vemos, detestamos enxergar o que somos, é claro, mas seria ingênuo negar que essencialmente somos como eles: gostamos de privilégios, não respeitamos as leis, sofremos de uma falta de civilidade crônica. Encarar isto causa desconforto e vontade de mudar. Se quisermos melhorar a nossa própria imagem, estas manifestações cívicas terão que nos acompanhar até as próximas eleições, ou já no plebiscito se for possível, mas principalmente para sempre, a cada dia, cada momento da vida.

 
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O que Geraldo Alckmin não aprendeu com Winston Churchill

O Winston Churchill definiu assim a personalidade do conciliador: “aquele que alimenta a fera na esperança de ser devorado por último”. Quando topa passivamente ser refém desta situação esdruxula em que seu vice é simultaneamente ministro de Estado, Geraldo Alckmin se presta rigorosamente ao mesmo papel.

Alguém há de argumentar: mas o que ele poderia fazer, se o governador não tem poder para destituir o vice? Ora, não tem e é bom para a democracia que não tenha. Mas minimamente o que se espera de um líder político é que ele tenha posição clara. Pode até, como cantou o Vinicius de Moraes, ser doce conciliador – mas sem covardia.

A capital paulista é candidata a sede da World Expo 2020. A apresentação da candidatura deve acontecer em Paris até o dia 12 de junho. O prefeito vai. O governador faria bem em ir também. Mas se sair do país, quem assume o governo do estado durante sua ausência é o ministro Guilherme Afif, o que agravaria o constrangimento institucional.

Qual a solução imaginada pelo governador? Não ir. Mandar representante e ficar por aqui, submetido à sinuca armada pela traquinagem do vice.

Hoje três dos cinco membros da Comissão de Ética do Estado de São Paulo consideraram a situação inconveniente. Um pediu vista do parecer e o outro prefere votar por último. O relator Eduardo Muylaert anotou que o acúmulo das duas funções é indevido e inconveniente. “Não só do ponto de vista jurídico, mas especialmente do ponto de vista da ética pública, a conclusão que a meu ver se impõe é a de que a acumulação de funções de vice-governador de um estado da federação com a de ministro de Estado é indevida e altamente inconveniente.” E emendou: “Entendemos que é um desrespeito ao eleitor”. Fui eleitor do Afif e estou de acordo.

O vice e ministro se destemperou e bateu boca através de nota: “a Comissão Geral de Ética, como órgão subordinado ao Governador do Estado, não tem competência para julgar o governador ou o vice-governador.” O governador, por sua vez, não tempera nem destempera.

Seus motivos seriam pelo menos três: a própria natureza; a “estratégia” de não arriscar transformar o vilão em vítima; não destruir pontes na esperança de uma aliança para a reeleição no ano que vem.

A natureza das pessoas é impossível de ser mudada. O risco de transformer vilão em vítima deve ser enfrentado com coragem. Mas a chance de uma aliança entre Alckmin e o PSD é zero. Aparentemente, a única pessoa capaz de afastar o Kassab do pragmatismo é o Alckmin. Gilberto odeia Geraldo. Não é politico, é pessoal.

E enquanto isso, o Palácio dos Bandeirantes continua vulnerável.

 
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Restaurante 171, vinho de tolo e outras malandragens

João Pereira Coutinho avisa que o governo francês estuda criar normas para o uso da palavra restaurante. A ideia é determinar um padrão para que um estabelecimento possa dizer que é restaurante, isto é, lugar capaz de restaurar a freguesia alimentando seus corpos – e espíritos.

Muito embora o parente discorde, a importância da medida vem da desvalorização do patrimônio cultural da França por meio da vulgarização da gastronomia a partir de espertos que servem comida industrializada, muitas das vezes aquecida em microondas, como se tivessem preparado com o cuidado e a competência atribuídas pelo público a todo chef de cozinha francês. A BBC Brasil publicou o escândalo: parece que 31% dos 150 mil restaurantes franceses se valem da malandragem. Os ingleses da matriz devem estar se deliciando.

Na opinião do João o problema é o público: se o freguês médio não sabe distinguir ingredientes frescos preparados com lume e panelas do tipo de comida que ele chama de lixo, o governo não tem nada com isso. Mais: diz que se o cliente não percebe é porque tal lixo faz parte de seu cardápio cotidiano. E desafia quem possa diferenciar no prato o pescado fresco do congelado.

Não que ele considere impossível. Seu ponto de vista é que os que ignoram a diferença merecem comer plástico e não a preocupação das autoridades.

Vá lá que você não volte a um restaurante que não cumpriu seu papel. O problema é submeter os turistas a uma experiência desagradável – para não chamar de estelionato. E nisso a medida pode ser útil.

De qualquer maneira, não será novidade. Selos de procedência não faltam: vinho bordô só de Bordeaux, Champanhe só de Champagne, assim como conhaque só em Cognac, e entre eles os VO, VSOP, XO. O diabo é que qual no Brasil a turma – incluindo o governo – sempre dá um jeitinho. A região de Champanhe, por exemplo, ante o aumento da demanda mundial, foi expandida. Há quem suspeite até que os espumantes produzidos aqui na América Latina viagem para lá para “ajudar” na produção. Com tantos russos, chineses, brasileiros e outros novos ricos bebendo tanto, eu também suspeito.

No fundo tem razão o João Pereira Coutinho: como disse o Jorge Ben Jor, “pra acabar com a malandragem, tem que prender todos otários – numa escola.

 
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