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Tatini

Não sei dizer a quanto tempo não ia ao Tatini, ali na rua Batatais, que por sinal é uma das nossas alamedas mais lindas, rivalizando em beleza com a Atlântica, a mais festejada delas, mas que curiosamente também se chama rua, e não alameda. Sou vizinho, adoro restaurantes clássicos, mas não ia ao Tatini. Taí outra curiosidade.

Ouvir os amigos de turmas distintas cada vez mais falando de lá e das suas delícias despertou minha vontade. Até que, na sexta-feira que passou, sob a chuva que caía torrencial, lembrei do toldo diante do Tatini e me mandei para lá com a minha Neguinha. Jantaríamos bem e sem o transtorno dos torós no Jardim Paulista, que atrapalham mais pela água que corre com violência pelas calçadas do que pela que cai do céu – esta que nunca incomoda, esta que é a Água Benta legítima.

Dizem que a lotação ideal de um restaurante é aquela que quando você chega há apenas uma mesa vazia: a sua. Foi assim com a gente. Chegamos e seguimos direto para a nossa mesa lá no fundo. O couvert chegou logo em seguida, maravilhoso: vôngoles nas conchas, salsão temperado, azeitonas pretas, pães, torradas, manteiga. Impossível dispensar.

Eu estava pendendo para um carbonara, mas como os porcos não animam o meu amor, decidimos dividir dois pratos que combinariam bem com o mesmo vinho: primeiro um fetuccine com alcachofras frescas (seria dispensável dizer-lhes frescas, mas diante da realidade em conserva da cidade mantenho o adjetivo), finalizado em rechaud ao lado da mesa; depois um linguado ao champanhe com batatas cozidas, ambos no ponto perfeito e ela com um sabor incomum à batata cozida, insossa por natureza; para sobremesa não resistimos aos papos de anjo que surgiram no carrinho, “daqueles que se a pessoa fosse honrada mesmo só deveria comer metida num banho morno e em trevas totais, pensando, no máximo, na mulher amada”. O Vinícius há de me perdoar. Os papos de anjo eram desses que ele cantou, mas ainda que eu não estivesse metido num banho morno nem em trevas totais, estava num restaurante clássico e confortável, cadeira estofada, três toalhas, serviço impecável, atendimento atencioso e, sobretudo, diante da mulher amada.

Durante o jantar pedi ao Silvio, que nos atendeu, um pratinho com a marca do Tatini para a nossa coleção (fotos no facebook). Eles já não usam, mas o Fabrizio Tatini foi ao escritório e encontrou um de antigamente, que já está junto com os outros 101. Quando postei a foto foi um colosso de memórias e festejos, muitos lembrando o tempo em que iam levados pelos pais. Pois o Tatini é para ir hoje. Está seguramente entre os melhores e não cobra a mais por isso. Para se ter uma ideia, na carta de vinhos encontra-se representantes europeus a partir de cinquenta reais. E, na saída, as namoradas ganham rosas.

 
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Sobre os pés

Tinha atração por pés, tanto de homem quanto de mulher. Era uma tara, um fetiche: os masculinos julgava que não deveriam aparecer nunca, e os femininos, sempre. Na praia ou na piscina era capaz de relevar, mas na cidade ou no campo um desconhecido que passando pelo outro lado da calçada em sandálias era o suficiente para despertar-lhe a atenção e então o desprezo. Considerava de uma cafajestada imperdoável o homem que sentia o espírito confortável tendo os pés desnudos. Em ocasiões sociais, formais ou descontraídas, mesmo as íntimas, perdia o humor a ponto de não poder dividir o mesmo ambiente com os que tratava literal e pejorativamente por “pés de chinelo”. E até dos próprios pés destestava a imagem. Usava podólogo para não ter que tratar das unhas e tendo uma vez o esquerdo engessado, tratou de providenciar um pé de meia especial para cobrir os dedos que escapavam pela ponta.

Já os femininos gostava de ver sempre e de qualquer maneira – inclusive cobertos. Mesmo as botas lhe fascinavam, instigando a imaginação: seriam eles lá dentro bem feitos ou com as feiurinhas capazes de identificar sua dona. Tinha isso nele: reconhecia as mulheres da sua vida e até algumas celebridades pela unha do dedinho, um calinho de corrida no calcanhar, a bochecha do fura-bolo maior de um lado do que do outro. Das desleixadas se compadecia e queria cuidar, levar ao especialista, mandar fazer, lixar, amaciar a pele, polir e pintar as unhas. Certa vez, num rompante, propôs bancar a cirurgia para extração do joanete de uma sobrinha –  que por sinal era assunto proibido na família. Foi um drama.

Das imperfeições moderadas gostava tanto quanto da beleza irretocável. Dedos encavalados, encolhidos, espalhados, tortos para um ou outro lado, machucados pelo balé, o peito alto ou delgado, os delicados, de pele diáfana revelando o azul das veias, ou os fortes, com elas saltadas. O calcanhar sujo da estagiária da PUC?  Tolerava, mas só até a formatura.

Mas sobretudo admirava o espírito dos pés femininos. O que a relação deles com a dona era capaz de revelar. Uma mulher pintando as unhas dos próprios pés para ele era uma imagem linda. Mas ai dela se decidisse tratar das mesmas unhas com lixa ou alicate em sua presença. Não sabia por qual razão, mas ao mesmo tempo que gostava de vê-las botando tinta, com o queixo apoiado no joelho e aqueles algodões entre os dedos, repudiava qualquer ato que deixasse resíduos tanto quanto tirar meleca do nariz.

Os modos de descansar os pés, estando a dona de pé ou não, também lhe diziam muito. Das bonequinhas que juntam os dois lado a lado, um recostado no outro, passando pelas tímidas, que os recolhem debaixo da cadeira, ou pelas molecas, com eles cruzados na perpendicular, e as aflitas sempre sacudindo sua impaciência. Ficava intrigado em como podiam ser tão sensíveis ao frio em casa e impávidos na rua, quando mesmo no inverno sem meias vão pro trabalho, desde a namorada do Noel.

Um dia arranjou uma assim. Dona de um par perfeito, macios e delicados como se recém nascidos, era elegantíssima, e altiva, passo de gazela, porte de princesa, só dispensava o salto alto quando o resto do mundo estava descalço. Ou na intimidade, e mesmo assim não absolutamente.

Um dia foram viajar para a praia. Ela surgiu numa sandalinha rasteira, descolada, linda e faceira. A viagem seguiu bem até o primeiro congestionamento, que de tão denso parecia definitivo. O tédio foi tomando conta, a sensação de ridículo crescendo, até que, provavelmente traída pela situação bovina, ela comete o desatino: descalça as sandálias e pousa os pés sobre o painel do carro.

Pasmado e sem saber o que fazer, ele duvidava da realidade: – “Como podem pés tão lindos e distintos se comportando dessa maneira tão baixa e ordinária?” Sem capacidade para perdoar encerrou o namoro e jurou para si mesmo: nunca mais entraria num automóvel. E daquele dia em diante só andou a pé.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Jura, Gilberto?

No advogado do Marcos Valério, doutor Marcelo Leonardo, podem caber vários adjetivos, mas creio que de bobo não lhe cabe a pecha, assim como não serve para nenhum dos criminalistas que atuaram na defesa da quadrilha mensaleira. É simples: com tanto advogado por aí, presume-se os que trabalharam no caso devem estar entre os melhores.

Igual a técnico de futebol, todo mundo se sente um pouco jurista. Se levarmos em consideração que Justiça, a grosso modo, é o bom senso, para imaginar uma sentença, acusação ou defesa, bastaria conhecimento dos fatos, das leis e imparcialidade. Mas se alguém topa pagar milhões pelo bom senso do próximo, é porque acredita que este é capaz de propor um senso ainda melhor – ou mais favorável para o freguês.

De qualquer maneira nenhum dinheiro do mundo chega para fazer um advogado criminalista se incriminar. Isto posto, quando o Marcelo Leonardo vai ao Ministério Público e assina embaixo o depoimento do seu cliente dizendo que quem lhe pagou os quatro milhões em honorários foi o PT, deve saber o que está fazendo e ter provas para tanto. E por que não pagaria, se fizeram o que fizeram juntos e assim permaneceram se dizendo injustiçados? Assim foi até que o Marcos Valério recebeu do Supremo uma pena quatro vezes maior do que a do Zé Dirceu, ficou desapontado e decidiu entregar detalhes e provas até então ignorados para diminuir sua pena através da chamada delação premiada.

Já disse e repito que duvidava do depoimento do Marcos Valério. Gente desesperada fala qualquer coisa. Mas quando ele diz que havia um chantagista pedindo dinheiro para ficar quieto sobre o caso Celso Daniel e o ministro Gilberto Carvalho responde que nunca ouviu falar em chantagem envolvendo o PT de Santo André, sendo que mais de dez pessoas relacionadas ao caso foram assassinadas, não duvido mais.

Aliás, quanto mais o Gilberto carvalho fala, menos dúvidas eu tenho sobre as denúncias do Valério. Primeiro quis desacreditar o delator dizendo que é impossível ele ter subido com o Zé Dirceu para o gabinete presidencial, uma vez que no Palácio do Planalto ambos despachavam no mesmo andar. Muito bem. Só que o que ele disse foi que de uma sala usada para reuniões e refeições é que eles subiram para buscar a autorização do Lula, donde ficamos com duas possibilidades: ou Gilbertinho não prestou atenção ao relato, ou está tentando nos confundir. O que será?

Outro erro primário do coroinha é afirmar que o presidente Lula “nunca avistou esse senhor”. Jura, Gilberto? Ora, esse chega a ser crasso. Como pode, se ele comprovadamente conviveu com a petralha toda? Não demora surge um retrato dos dois juntos. Vide dona Rose, que em uma semana já apareceu em reunião na África, servindo café na rua Augusta e tomando sol na Bahia com o amigo Zé. E é claro que tem mais

Se o Gilberto Carvalho lembrasse do primeiro caso Palocci, justamente durante a CPI do mensalão, não teria dito uma baboseira dessas. Quando no meio do rolo veio a tona a mansão conhecida como República de Ribeirão, templo de lobby usado como residência, escritório e clube pelos amigos conterrâneos do famigerado ex-ministro, ele é chamado a se explicar e diz que nunca esteve lá. Vá ser cretino assim no inferno! Como nunca esteve lá, se são os seus amigos mais diletos, fazendo churrasco, jogando tênis, confraternizando naquele sertão tão hostil onde o bom servidor brasileiro padece com a distância de casa e da família? Tinha que dizer que frequentava. Qual o problema? Uma verdade dessas encobriria cinquenta mentiras. Mas ele negou. Burro! Uma semana depois o Francenildo Santos Costa, caseiro da mansão, foi ao Congresso e falou a verdade, derrubando o ministro da Fazenda.

Alô, Gilbertinho, se prepara que a vassoura da Dona Dilma vai cantar na sua sala. E não demora.

 
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Pegar ou largar

Passeando pelo parque vi a cena rapaz segurando a face da moça com só uma das mãos. Pareceu um impulso irresistível. Sentada em um banco ela fazia charme enquanto ele fazia barra. Entre uma e outra série ele também fazia charme e se exibia feito um pombo orgulhoso. De repente ele avança, segura o rosto da menina com tesão, sacode de leve e solta. A investida e o tempo pareciam iguais a de um beijo roubado – mas talvez ele ainda não estivesse seguro para o primeiro beijo. Foi então que me veio a certeza: quando o homem segura a face da mulher com uma mão só, das duas uma: está querendo pegar ou largar.

Os orientais consideram de bom tom oferecer alguma coisa sempre com as duas mãos, para demonstrar zelo e atenção. Ou seja: quem assobia e chupa cana ao mesmo tempo não tira música nem caldo. A única chance de ficar harmônico é se a alegria com a doçura da cana for intensa a ponto de tornar irresistível o assobio. É mais ou menos a mesma coisa com o amor: explodindo de tesão vale tudo, até trombada é bom. Mas depois do carinho estabelecido todo cuidado é pouco. A mínima indelicadeza prejudica o amor.

Com os hábitos pessoais acontece a mesma coisa. Pela lógica animal, natural seria que os solteiros fossem mais atentos à toalete do que os casais que já estão com a conchinha garantida. O inverso, porém, é o que ocorre. O nego vai largado, enchendo a cara, mal fazendo a barba e babando na gravata até a hora que ela aparece. É o que basta para ele perceber que o elástico da cueca está vencido, que as unhas do pé também precisam de poda e que a flatulência é uma coisa íntima – salvo em casos crônicos.

Esses cuidados estéticos não são outra coisa que o reflexo da alma. Porque é gostando de alguém que se fica bonito. O sorriso, o olhar, a postura dos apaixonados é insuperável. Nem bronzeado ilumina mais um corpo. Aliás, aquelas senhoras à pururuca que se vê muito pelos clubes parecem tão vivas quanto um cinzeiro de bronze. Enquanto o casal mais feio, se amando, parece lindo. Amor de gente feia é igual festa de pobre: ruim de ver, mas parece tão bom.

Mas se o ânimo acaba da luz faz-se as trevas. O amor desleixado, de uma só mão, sem tesão nem atenção, é mais apagado do que o desamor. Este pelo menos grita, ainda que no escuro. Sem graça, é a morte em vida, o túmulo de qualquer pessoa. E com uma mão só nem um caixão se carrega. Tem que pegar ou largar. Este é o princípio e o fim de tudo.

 
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Opinião pública e opinião publicada

“Há uma opinião pública e uma opinião publicada”, sustentou  o advogado brilhante Luiz Fernando Pacheco na defesa de José Genoíno, réu no processo de mensalão. Que orgulho do meu amigo Pachecão. Porque apesar de dura e triste, esta é a realidade: a opinião pública absolveu os mensaleiros quando reelegeu o Lula presidente da República e mais meia dúzia de deputados notoriamente envolvidos no escândalo, ainda que como suplentes, caso do cliente dele.

Na lista de absolvições ainda podemos incluir outras tantas, porque escândalos não faltaram. A Casa Civil é emblemática. Todos os ministros do governo petista tiveram o seu, inclusive a presidente Dilma, que quando esteve à frente da pasta foi acusada de produzir um dossiê contra a Ruth Cardoso, de saudosa memória.

O primeiro da coleção foi o Waldomiro Diniz, assessor especial do então ministro Zé Dirceu, flagrado extorquindo o notório bicheiro Carlinhos Cachoeira. Depois o próprio Zé sucumbiu como chefe da quadrilha mensaleira. Então a Dilma com o dossiê e logo em seguida seu braço direito, Erenice Guerra, com o filho traficante de influência operando dentro do Palácio. Já desta gestão, é o Antonio Palocci que acabou varrido junto com outras tralhas da herança imoral deixada por Lula, que agora inclui a Rosemary no rol de bagunceiros de antecâmara.

De modo que duvido que a revelação dos detalhes do depoimento do Marcos Valério publicada pelo Estadão de hoje vá mudar alguma coisa na opinião pública. Digo mais: se fizessem um concurso nacional de redação, valendo mensalão vitalício a quem mais se aproximasse do conteúdo da delação, o Brasil inteiro teria que dividir o prêmio, porque o que ele falou é exatamente o  que a gente presume: Lula não só sabia de tudo como também se lambuzou com o esquema.

Porém, posto que todo mundo acredita nisso e mesmo assim a maioria mostrou que não se importa, reelegendo o Lula e elegendo a Dilma, nos resta a luta da opinião publicada e a da Justiça. Famigerado ou não, o Marcos Valério esteve junto com esse pessoal por muito tempo, e se ofereceu dados estes merecem ser investigados. Pelo menos um depósito citado no depoimento bate com o depoimento: 98 mil na conta da empresa do Freud Godoy, assessor faz-tudo do ex-presidente, que os teria usado para pagar despesas pessoais do chefe.

Outra coisa: o Paulo Okamoto, por sinal acusado de ter ameaçado de morte o Marcos Valério, ficou conhecido como “o doador universal” ao assumir o pagamento inexplicável de diversas despesas pessoais do Lula e de sua família. Quando? No mesmo período dos depósitos feitos na conta do Freud.

A denúncia do Roberto Jefferson, que deflagrou o escândalo todo, também sofreu e ainda sofre ironias e tentativas de descrédito. Porém foi investigada, julgada e se confirmou com a condenação dos réus no Supremo Tribunal Federal. E já no primeiro momento ele afirmou que avisou o Lula. Depois voltou atrás, mas agora tem companhia que, canalha ou não viu o bicho de perto e, se resolveu falar, deve ser considerado.

 
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Cinema bipolar

Clint Eastwood é bipolar. Deliciosamente bipolar. Não sei sobre sua saúde, mas ele é democrata no cinema e republicano na política. E vice-versa.

Na política fez campanha a favor do Nixon, do Reagan e foi duas vezes contra o Obama. Pelo partido Republicano disputou eleição para prefeito de Carmel, na Califórnia, e uma vez eleito tratou de contrapor o avanço do mercado imobiliário sobre áreas de preservação ambiental e defender o direito ao casamento para homossexuais, posições notadamente democratas.

Quando ator fazia o alter ego dos republicanos, Dirty Harry e outros justiceiros implacáveis. Mas agora que tem a caneta como diretor e produtor vem defendendo as classes menos favorecidas: a garçonete que tem um sonho, os imigrantes orientais, o legado do Nelson Mandela. Mas talvez nunca tenha sido tão democrata quanto no delicioso As Curvas da Vida, que está em cartaz.

Quem já teve o prazer de ver a fita pode argumentar que a meritocracia é um princípio republicano. Ora, ideologias políticas querem mais ou menos as mesmas coisas. O capitalismo perfeito é quase gêmeo do comunismo. Quer ver? Sabe qual é o apelido do Partido Republicano nos Estados Unidos? O Velho Partidão –o mesmo do Partido Comunista aqui no Brasil. A maior diferença entre uns e outros está no caminho preferido – e na estética. E, esteticamente, As Curvas da Vida é uma obra democrata.

O momento mais gostoso do bandido é uma crítica também bipolar: o vilão aparece tranquilo, num bar denso e refinado, bebendo um Dry Martini perto da lareira, enquanto os mocinhos sofrem num desses salões coloridos, com cerveja quente, sinuca e outros passatempos, música alta e gente se esbarrando.

Tudo o que acontece é o que o que o telespectador deseja que aconteça, e a graça está em descobrir a direção escolhida – e nisso o Robert Lorenz merece muitos aplausos. A expressão de quem está tentando controlar o desejo que ele consegue da Amy Adams na cena do namoro no lago faz do clichê um momento único. Assim é na política, na arte e na vida. Tudo vai dar certo no final, ainda que o caminho pareça definitivamente errado. Esta é a maravilha de viver.

Outro diretor que merece ser aplaudido de pé é o Benjamín Avila, por Infância Clandestina. É a história de uma família de guerrilheiros argentinos que imagina poder conciliar a luta armada contra a ditadura com a criação dos filhos. Com um sobressalto a cada corte ele mantém a plateia em permanente estado de alerta, assim como vive qualquer clandestino.

Mais uma vez a gente já sabe desde o começo o final da história, sobretudo porque essa é com H maiúsculo, infelizmente. E tocou a relação infinita do menino com o tio. Também tenho um tio assim e não me esqueço dele. É o meu tio Duva.

O elenco é ótimo e muito bonito, como só na Argentina poderia ser. Fazer um filme sobre guerrilheiros bonitos como os argentinos no Brasil só seria possível a partir da biografia do José Dirceu. Imagina uma fita sobre o Genoíno ou a Dilma, que tristeza. Mas fico por aqui antes que a minha bipolaridade espante a freguesia.

 
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Preços e valores

Estou disposto a me inscrever em qualquer programa de congelamento humano. E não faço questão da sobrevida prometida. Com esse calor africano que está fazendo em São Paulo vale a pena arriscar o embarque sem garantia de regresso. Mergulho no nitrogênio e fico lá, feliz e fresquinho eternamente.

E por falar em eternidade dois que não vão comer manga neste verão são os gênios Oscar Niemeyer e o Dave Brubeck. O modo vulgar de dizer é para registrar que eles simplesmente desencarnaram, porque eternos já eram. Como disse o Horácio Flávio e o Tom Jobim cantou, “longa é a arte, breve é a vida”. Esses caras não vão para o céu: sempre estiveram lá. As curvas de um e o swing do outro vivem num estado celestial de arte. Sobre o arquiteto, que se dizia ateu, arrisquei um jogo de palavras: : “O Oscar Niemeyer não acreditava em Deus. Mas Deus acredita no Oscar Niemeyer”.

A eternidade só tem sentido através da arte. O sujeito sonhar em viver no mesmo corpo para sempre é algo doentio. Até com as estátuas tem gente implicando. O Luís Fernando Veríssimo e o Humberto Werneck pelo menos já debocharam do bronze gasto para eternizar escritores em sua versão menos interessante: o corpo. O Dorian Gray do Oscar Wilde é isso: juventude e beleza potencializadas à máxima enfermidade, que é a eternidade. A morte é natural, saudável até eu diria.

O congelamento que signifique qualquer coisa além de uma fuga desse calor me parece mau negócio. Falo pensando nos alimentos. O congelamento é a pior técnica de conservação. Se valer para a gente a mesma coisa que vale para os animais que comemos, prefiro apodrecer do que ser congelado. Antes ser salgado, confitado, marinado, escabechado, cevichado, curtido, defumado, pasteurizado, compotado e até mexido por oito horas em tacho de cobre no fogão à lenha. O congelamento é a broxada culinária. Não funciona na comida e não pode funcionar na gente.

Muito embora a fruta no pé, a verdura fresquinha, o leite cru e o bicho recém abatido sejam insuperáveis, os métodos de conservação citados sempre melhoraram a comida. Era uma necessidade, mas não esfriava a relação: o inverno rigoroso impede a safra de marmelo? Faz marmelada e estoca. E se um dia o mar não estiver para peixe não tem problema: há um bacalhau pendurado na cozinha. E o porco, era muito grande? Confitamos as partes excedentes na banha derretida.

O problema hoje é que tudo isso dá muito trabalho e custa caro, de modo que quem ainda faz quer o gosto, não a conservação do alimento. E cobra por isso. Da mesma maneira, estando em São Paulo ou em qualquer lugar quem quiser comer morangos franceses, ostras de Santa Catarina, lagosta do Ceará pode, é só pagar. A celeridade dos transportes permite.

De modo que o custo final dos pratos já deixou de ter relação com a matéria prima faz tempo. Hoje é basicamente transporte e serviço. Talvez por isso tudo esteja tão caro no Brasil: não temos nem transporte nem serviço decente. E, para completar, a maravilha que é a estabilidade e o crescimento econômico acaba ofuscada pela carência de solidez cultural, porque as coisas tendem a ser avaliadas pelo preço, não pelo valor.

É por aí que merece aplausos o projeto Satisfeito, que abrange alguns restaurantes da cidade liderados pelo Grupo Egeu. A ideia é pagar pelo prato inteiro e comer só dois terços. O dinheiro da matéria prima economizada será doado para a caridade. Mas em números absolutos significa muito pouco. Qual é o preço de cinquenta gramas de espaguete? Um, dois reais? Mas o valor cultural é enorme porque fala da disparidade escandalosa: de um lado a subnutrição, de outro a epidemia da obesidade e das dietas. A cultura pode salvar todo o mundo: comendo bem e só o suficiente.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Permissão para a solidariedade

O Enrique Peñalosa passou por aqui e eu perdi. Infelizmente. Se foi em junho deve ter sido por conta do meu aniversário, sabe-se lá. Paciência. Ele veio para o Fronteiras do Pensamento para falar da experiência transformadora de governar Bogotá, antes dele considerada uma das capitais mais violentas da América Latina.

É, mais uma vez, um prazer e uma vaidade minha, vocês me perdoem. Sem querer estimular ninguém com o mau exemplo deste vaio que fugiu da escola, meus palpites sobre como melhorar os índices de violência em São Paulo combinam com o do Peñalosa, que estudou de fato o assunto, é economista e historiador formado em Duke e com P.h.D. pela Universidade de Paris. A chave é a qualidade de vida, e esta passa pelo urbanismo, que nada mais é do que a convivência entre as pessoas e as coisas no espaço urbano.

Para começar há que ser ter um espírito de ordem. As pessoas precisam se sentir protegidas pelo Estado. Saber que, se algo estiver fora da ordem, uma instância superior vai garantir. O primeiro exemplo deve vir de cima: a maior autoridade do país não pode ser tolerante com qualquer tipo de ilegalidade. Mas o exemplo imediato é tão ou mais importante, e ele está, ou deveria estar nas cidades, que afinal é onde as pessoas vivem.

O básico: calçadas boas, ruas iluminadas e limpas, tolerância zero com qualquer desvio. Vendedor ambulante? Não pode. Bicicleta na calçada? Também não. Churrasco? Idem. Motos na contramão? Nem pensar. Carro em fila-dupla? Apita e multa. É aquela máxima do banheiro: se está sujo você levanta a tampa e puxa a descarga com o pé; se está limpo você até enxuga a pia depois de lavar as mãos para não deixar rastro. A ordem é uma coisa contagiante, colaborativa.

O que acontece hoje em São Paulo é o desvio de responsabilidade da Polícia Militar. Feita para cuidar desses detalhes tão pequenos, acabou tragada por uma luta inglória contra o crime organizado, que é assunto de Polícia Federal.

O policial militar tem que ser conhecido e até amigo da comunidade. Assim como o professor, o médico e o vereador, assim como os equipamentos deles. Coisas e pessoas. A escola, a biblioteca, o hospital, a Câmara, as praças, parques, museus, ônibus, Metrô, têm que ser lindos, atraentes, convidativos, bem equipados. Quando as coisas agradam as pessoas, as pessoas cuidam das coisas.

Com as ruas e equipamentos públicos bonitos e em ordem as pessoas saem de casa e vão ocupa-los. Esta é a base da teoria do Peñalosa, o mais é adaptação de acordo com cada realidade.

Se a gente pegar Cidade Jardim por exemplo, a solução parece óbvia: eles têm casas fantásticas em ruas arborizadas , sinuosas, românticas e um parque gigantesco ao pé, que é o Jockey Club de São Paulo. Porém tudo está abandonado, as casas à venda por um preço muito abaixo de seu valor e o clube falindo, propondo vender a sede social da Rua Boa Vista para sanar a dívida com a prefeitura.

Ideia: a prefeitura troca a dívida pela área verde do hipódromo, mantendo a sede construída com o clube, onde os sócios poderiam continuar com acesso aos serviços, inclusive o de apostas. Parece que tem que acertar também com a Cia City, já que o terreno é um comodato, mas isso é o de menos. Esta área verde, salvo a pista, é transformada em um parque com acesso franco para todos. Então a turma começa sair de casa a pé, ocupar as calçadas, cobrar melhorias e através da convivência transformar o bairro. Ah, os muros do Jockey seriam trocados por grades (o Andrea Matarazzo fez uma foto ilustrativa, fica lindo) e, aos poucos, os das casas também, tenho certeza.

Pano rápido: ontem saí do Mercearia São Roque na rua Amauri e fui a pé para casa, que fica naquela primeira travessinha da Lorena entre a Brigadeiro e a Eugênio de Lima. É distante, as ruas são escuras e as calçadas tortuosas. Mas tinha acabado de chover e a noite estava uma delícia, cheirosa e fresca. Na rua Veneza, quase chegando na Estados Unidos um carro encosta lentamente. Assalto? Que nada: era o Ruy Nazarian que me viu, se assustou e preocupado com os perigos paulistanos, fez a volta no quarteirão. Não sossegou enquanto não aceitei carona para o trecho final. O que prova que a solidariedade está aí, só falta a gente permitir o encontro.

 
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Cinco notas soltas

Os tais Cinquenta Tons de Cinza são um fenômeno, todo mundo já sabe. Outro dia ouvi dizer que uma senhora refinada que oscula os noventa anos de idade comprou e leu de chofre a trilogia erótica. O curioso é que antes da terceira página a mulherada deixa escapar que o que faz mesmo pensar é o acesso ilimitado às bolsas, sapatos e joias que a autora ora milionária conquistou.  Eis os acessórios que importam. O pobre coitado do mister Grey só é lembrado na hora de perguntar se um combina com o outro.

Jorge Paulo Lemann ultrapassou o Eike Batista e é o brasileiro que mais juntou dinheiro no mundo. Coisa de trezentos milhões de dólares, que parece muito, mas no caso estão depois da vírgula. Como tem dupla cidadania, entre os suíços ele também é o campeão do cofrinho. De novo: grande coisa. Entro nas suas Lojas Americanas para comprar uma barra de chocolate amargo e sempre enfrento fila, porque dos vários caixas só um está funcionando. Um amigo que trabalha da AmBev, que hoje é maior do que a Petrobrás, conta que tem de levar papel e caneta de casa, artigos que a companhia considera vilões  na busca pelo aumento da margem de lucro, assim como a cevada, que eles substituíram por arroz ou coisa que o valha em todas a cervejas, incluindo marcas e receitas que deveriam ser tombadas pelo Iphan. Quem não tem saudades da Boêmia verdadeira, da Serra Malte genuína, da Original original? Francamente, seu Jorge? Você é pobre. Rico é o Eike Batista, que banca o melhor restaurante chinês do Rio, está restaurando a Marina e o Hotel da Glória e lançou um barco cor-de-rosa para incentivar o turismo e a vida boa na Cidade Maravilhosa que é o nosso cartão de visitas. Se tudo isso custou 300 milhões de dólares, saiu de graça.

Símbolo trágico da aflição contemporânea, os motoboys estão cada vez mais à margem da sociedade. Sempre correndo desesperadamente atrás do frete, banalizaram todas as regras de trânsito: primeiro rodando entre os carros, depois sobre as calçadas e agora na contramão. Antes era só na hora da pizza dominical, mas o costume se alastrou pela semana toda. Como eles nunca estão por conta própria, mas sempre às ordens de alguém, vale a pergunta: aonde queremos chegar?

Os boxers estão voltando. Na crista da onda estão os buldogues franceses. Se eu tivesse um batizava de Gigot em homenagem ao clássico da cozinha francesa, por sinal premiado pelo Paladar como um dos pratos mais queridos da cidade, notadamente o do La Casserole. Mas a vanguarda são os boxers. Depois de muitos anos eles estão pelas ruas de novo. Meu pai teve um chamado Sancho Pança há mais ou menos meio século. Acho que mais. É a maré da vida, sempre se reeditando.

O Governo Federal lançou uma campanha pelos seis anos da Lei Maria da Penha. A estatística, apesar de fria, é estarrecedora: a cada cinco minutos uma mulher apanha em casa. Não sei se inclui, por presunção, a que apanha e cala. Obrigado, Vinicius. Qualquer violência física é abjeta e escandalosa, igual a do rapaz que foi linchado ontem porque é gay. Mas dentro de casa penso que é ainda pior. A intimidade com o inimigo está além da questão física. Recusar com veemência qualquer violência é dever de todos. Por isso é lamentável que aqui em São Paulo o prefeito eleito Fernando Haddad tenha prometido uma secretaria para o notório covarde espancador vereador Netinho de Paula.

 
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Caldos e pipocas

No final de semana que passou entrei no videoclube e estava passando A Rosa Púrpura do Cairo, Woody Allen dos anos 1980, que é mais ou menos como um Di Cavalcanti dos Anos Dourados. A trilha sonora e a doçura da Mia Farrow já seriam suficientes para querer rever a fita, mas talvez a coincidência tenha falado mais alto: na noite de quinta-feira, sem mais por que, o Julinho Toledo Piza decretou que o então marido da Mia tinha chupado a ideia original de um poeta russo chamado Maiakoviski, e a partir disso me deixou boiando sem acrescentar nada. Hoje telefonei procurando entender o conceito e ele confirmou a acusação, botando mais um dado: na versão do russo é uma mulher e não um homem que troca a ficção pela realidade. Coisas do Bar da Dona Onça.

De qualquer maneira, tanto público quanto crítica concordam que é uma obra-prima do cinema sobre o cinema. É sempre divertido quando um diretor sabe nos contar sutilezas da técnica e dos bastidores sem  quebrar o encanto. São os bastidores, sempre atraentes, desde que sem indiscrição. O Guel Arraes fez um bonitinho aqui no Brasil: Lisbela e o Prisioneiro.

Outra coisa que me pegou no filme foi o tamanho do saco de pipocas, pequeno, simples, civilizado. E não tem nada a ver com a época da depressão americana em que o filme se passa. Era um costume, uma cultura, não um impedimento financeiro. Até porque se há duas coisas que não têm relação entre si é o preço da pipoca com a quantidade que vai no saco. Por dez, vinte pratas, tanto faz se você leva um punhado ou um balde de milho. Mas eu sinto aquilo que chamam de vergonha alheia quando vejo alguém com um saco gigante, mais refrigerante e outros bichos. E essas salas granfinas que oferecem pipoca trufada e harmonizada com vinhos? Tem uma que se diz 4D, porque a poltrona treme, sacode e até chove na plateia se o tempo virar na tela. Fico imaginando quantos D merecem aqueles cinemas da Rua Aurora, tidos como os mais interativos do mundo.

Mas enfim, o que eu ia dizendo é que a matéria prima da pipoca, e da comida em geral, guarda pouca ou nenhuma relação com o preço final do prato. Cem, duzentos, quinhentos gramas da melhor massa seca não podem custar mais do que dez reais. Igual ao ditado caipira, o molho invariavelmente sai mais caro que o frango, e por uma razão muito simples: dá mais trabalho.

Os caldos, por exemplo. Você pega do bicho o que geralmente é desprezado: ossos, pés, carcaça, cabeça e bota na água. De graça, não é? Mas e a mão de obra? É uma operação que leva horas e requer quase a mesma atenção de um ovo frito.

Me aproximei dos caldos desde que reduzi o estomago. No princípio quem me socorreu foi a Pat Feldman. Depois fui botando as asas de fora e os ossos para dentro e comecei fazer os meus próprios. A dica dela de cozinhar cravos da Índia para tirar da casa o cheiro do caldo de peixe foi providencial. O do caldo de carne ou de frango pode deixar no ar, que fazem ao ambiente tão bem quanto ao organismo.

E outras dicas vieram, curiosamente da mesma cozinha. O Luciano Nardelli, que trabalha no DOM, me convenceu que não dava tanto trabalho assim. Era verdade, mas só até a limpeza. Digo era porque não é mais. Seguindo as dicas que o patrão dele deu na aula do Paladar Cozinha do Brasil, melhorei meus caldos e aplaquei o problema da limpeza. Dica um: nunca deixe ferver. A fervura levanta as impurezas e deixam o caldo turvo, e devagarinho a carne solta todas suas propriedades, num processo exatamente inverso ao de selar um bife na chapa, quando o desejável é manter o suco na carne. Dica dois: com um pincel, molhe sempre as bordas da panela usando o próprio caldo, impedindo que os resíduos que ficam da redução sequem, queimem e amarguem – e de quebra você vai poupar meia hora de pia areando o caldeirão. Ao Luli e ao Alex Atala, obrigado pelos bastidores.

No caso do caldo de carne bovina o melhor é usar ossobuco. Tem o tutano, a gelatina, a creatina, que afinal é o primeiro segredo da boa forma física. Reparem nos povos que vivem distantes da proteína. Seus corpos lembram os tortuosos galhos da vegetação do cerrado. A carne que fica, sem suco, não tem graça, mas tem utilidade: desfiada e misturada a legumes e arroz integral cozidos, fazem a alegria e a nutrição dos cachorros que, convenhamos, não merecem o desgosto de comer ração e só. Esta dica é da doutora Jacy Braga Andrade, o que alegra tanto o buldogue Otto quanto o mestre Tuca, um porque almoça e janta feliz, o outro porque vai à cozinha.

 
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