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A Cesar o que é de Cesar

Na sexta-feira saí para jantar fora e reconheci o senador Delcídio Amaral, do PT do Mato Grosso do Sul. Comentei com a minha Neguinha que a gente deveria ir lá cumprimenta-lo, porque sempre que festejamos os votos do ministro Joaquim Barbosa e de seus pares, que vêm condenando os mensaleiros, um quinhão dos aplausos deveria ser dedicado ao senador, pela isenção e firmeza com que conduziu a CPI dos Correios, que serviu de base ao processo.

E a Nega, que ao contrário de mim é serena e reservada, me pediu encarecidamente para desistir da ideia. Poderia, segundo ela, parecer antes provocação do que justa homenagem. Mas o Neguinho aqui, que já vinha da espera com dois Manhatans devidamente tragados e a convicção de que a Cesar se entrega o que é de Cesar, pediu licença para ir ao banheiro e se dirigiu à mesa onde o bom Delcídio jantava. Pedi licença e desculpas por interromper e perguntei se ele era o senador Delcídio Amaral, que respondendo afirmativamente se levantou para ouvir mais ou menos o que propus no primeiro parágrafo – e ficou muito agradecido.

Cada brasileiro pode imaginar a pressão que esse homem sofreu dos correligionários, alguns companheiros de toda a vida, para transformar a CPI numa pizza fantástica. Para se ter uma ideia, basta pegar o que o senador Osmar Serraglio, do PMDB do Paraná, que foi o relator da CPI, sofre até hoje com retaliações. Mas o Delcídio não cedeu. Foi firme, garantiu convocações, depoimentos, acareações. E ao cabo de alguns meses a investigação estava concluída, produzindo provas suficientes para garantir o trabalho da Polícia Federal, da Procuradoria Geral da República e outras instituições envolvidas.

A verdade é que da mesma maneira que toda a sociedade brasileira, exausta de tanta bandalheira, os mensaleiros e a turma que, sabendo ou não do esquema, se beneficiou dele enquanto foi governo, como os presidentes Lula e Dilma, todos acreditavam na impunidade. Os primeiros com desolação, os demais com aparente esperança. Primeiro a gente pensava que a CPI daria em pizza. Então que o processo ia caducar antes de chegar a ser julgado. Depois que alguma manobra melaria tudo. E até que o voto dos ministros seria parcial e obediente ao presidente que os nomeou. Mas a medida do bem que o funcionamento da Justiça está fazendo ao Brasil está no brilho dos olhos de cada cidadão que quer ver enfim esses gafanhotos na cadeia, e a mesma medida é o desespero de alguns deles, como o atual aspone José Genoíno, o acusado de ser o líder da quadrilha, Zé Dirceu, e até o Lula, que depois de ter sido apontado como chefe do mensalão pela matéria da Veja sobre os segredos do Marcos Valério não processou a revista nem o publicitário.

Ninguém poderia imaginar que a história corrigisse tão rápido o legado do Lula. De salvador da pátria o sujeito vai pra baixo de Maluf em coisa de dois ou três anos. E como não poderia ser diferente isso desnorteia qualquer um. Se disse decepcionado com os ministros do Supremo que fez o favor de nomear, espalhou que vai recorrer da decisão do STF aos organismos internacionais e consta que já fala até que o julgamento seria um golpe das elites. Pode ser tão patético?

Golpista é a turma dele. Digo e repito que quem pegou em armas para derrubar a ditadura no Brasil não queria a democracia, mas o próprio modelo totalitário – no caso de Dirceu e companhia, a la Fidel Castro. Mas democracia se faz com ideias, não chumbo. E assim foi feito pelo Montoro, pelo Tancredo, pelo Ulysses. E com o Fernando Henrique avançamos muito, tanto com o Plano Real, que simboliza a democracia econômica, quanto com o respeito, por exemplo, à liberdade de imprensa – lembrem-se que o Collor mandou invadir a Folha e o Lula queria expulsar o correspondente do New York Times e o “controle social da mídia”.

Como não deu certo com chumbo eles voltaram com a grana, e invés de fechar o parlamento, compraram os parlamentares com o mensalão, o que é golpe da mesma maneira. O dinheiro é capaz de subverter até a paixão, quanto mais a ideologia.

O último jogo do Brasil contra a Argentina assisti numa pizzaria, e aos poucos os garçons, manobristas e pizzaiolos foram se juntando no salão para acompanhar a partida na televisão. É impressionante como ficam apáticos. Por obediência ao salario, sublimam a paixão que têm pela Seleção. E isso é muito triste. Eu olhava para eles, olhava para a pizza, e pensava nos deputados comprados pelo PT em dia de votação. De um lado, trabalhadores honestos, querendo a alegria de um gol. De outro, políticos corruptos, apodrecidos, castrados da opinião própria. No meio, a pizza, que graças a Deus, ao Delcídio, ao Osmar, aos delegados, procuradores, ministros e a cada brasileiro vigilante me parece cada vez mais distante.

 
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A vida vai melhorar

Sobre os incêndios nas favelas de São Paulo,  além das hipóteses de acidente e de problemas criados pela seca, pairam ainda pelo menos mais três, todas criminosas: especulação imobiliária, negligência pública e terrorismo eleitoral. Ou tudo junto e horrorosamente misturado.

O de ontem, na favela do Moinho, segundo o Reinaldo Azevedo, foi crime passional: um rapaz brigou com o namorado e ateou fogo não às próprias vestes, como faziam os personagens do Nelson, mas às do “objeto de seu desejo e rancor”.

Que está muito seco todo mundo sabe e só fala disso. A garoa de ontem mal serviu para baixar a poeira. Pude notar os carros hoje pelas ruas imundos do ar sujo que grudou sobre a pouca água que caiu do céu. Que venha mais, muito mais, para lavar. Mas em períodos assim de estiagem o fogo pega mesmo. Por sinal li ontem no Estadão digital que no morro entre o Juquehy e a Barra do Una, em São Sebastião, houve uma queimada braba, mas não tenho outras noticias.

Se os incêndios foram acidentais, alguém há de argumentar que está acidental de mais para ser verdade, mas os números oficiais que o Reinaldo botou na página dele desfazem a nossa impressão de que agora tem mais do que antes: na gestão da dona Marta, entre 2001 e 2004 foram 778 incêndios; durante o Serra, que ficou entre 2005 e 2006, 307; e de então até agora, nesses seis anos sob o Kassab, são 558.

É pouco? Claro que não. É um absurdo, mesmo tendo caído tanto. Um só já é uma desgraça. As favelas, aliás, em paz já são uma desgraça. E canalha é o que não falta para faturar com a desgraça humana. A hipótese de terrorismo eleitoral surge daí. Um terrorista desses é capaz de meter fogo numa favela para sapatear sobre as cinzas e o governo atual, como se este não tivesse na figura do prefeito seu maior adversário. Ninguém pode ser mais prejudicial à gestão atual do que o próprio Kassab. De qualquer maneira, convém lembrar que tudo pode ficar pior, e as pesquisas de intenção de voto estão aí para anunciar como.

Em especulação imobiliária eu sinceramente não acredito, e vou dizer por que: mais do que terror, seria uma burrice tremenda. As maiores possibilidades para as construtoras estão justamente na legalização das favelas. São milhões de pessoas vivendo na ilegalidade, sem posse do terreno onde construíram, sem escritura da casa onde moram, sem endereço certo para receber uma carta sequer e sem direito a serviços públicos básicos, como água, esgoto, luz e asfalto; posto de saúde, creche e escola próximos, uma pracinha mais ou menos então, nem pensar. A esculhambação é tão grande que acaba tendo, mas tudo meia boca, e por interesse dos canalhas de sempre que faturam sobre a miséria. Vontade de resolver pouca gente tem.

Um que sei que tem vontade e meios para fazer eu conheço e aponto com prazer e sem medo de ser repetitivo: Andrea Matarazzo. É o meu candidato e do Reinaldo Azevedo também.  Quer ser vereador para desfazer os nós que impedem as pessoas de viverem melhor nesses lugares e explica como, lembrando que no ano que vem o novo Plano Diretor da cidade vai estar na pauta da Câmara.

Na Zona Leste são três milhões e meio de pessoas, e na Zona Sul mais dois milhões e meio, das quais a maior parte vivendo em áreas de ocupação irregular, portanto impedidas dos serviços e equipamentos essenciais, e inclusive de trabalhar perto de casa, porque salvo um ou outro comércio pequeno as empresas não topam mais a clandestinidade, o que as impede de migrar para onde está a mão de obra – o que seria muito melhor e mais inteligente.

Para isso acontecer, ao contrário do que diz certo candidato a prefeito, o Estado não precisa ajudar – basta que não atrapalhe. A iniciativa privada não precisa de incentivo fiscal ou qualquer outro, basta legalizar e facilitar a vida de quem quer investir, diminuindo a burocracia e modernizando leis ultrapassadas.

Na Zona Sul, por exemplo, as áreas invadidas são mananciais, ou beiras de represa. O ideal seria que ninguém morasse ali. A realidade é que são milhões de pessoas. Fotografando, congelando, anistiando e legalizando, o Estado pode entrar enfim com o saneamento básico e estancar o esgoto de toda essa população que diariamente acaba nas represas. Com a escritura definitiva em mãos, os proprietários vão tratar de não deixar ninguém mais invadir, exatamente igual alguém aqui do centro expandido fará se erguerem um barraco na porta da sua casa, e o que resta será preservado.

Feito isso muitas empresas poderão ir para lá, onde há tanta gente para trabalhar, melhorando a qualidade de vida na cidade toda só com a diminuição que isso representaria para o trânsito. Só em São Paulo mais de cinco milhões de pessoas perdem pelo menos quatro horas do dia no caminho da roça – no caso da Zona Sul, literalmente. É muito mais do que a população de todo o Uruguai.

Para o mercado imobiliário este cenário seria um deleite. Áreas mais baratas, com possibilidade de urbanizar e com a freguesia já morando no local, só esperando uma oportunidade para melhorar. Crédito para tanto não falta. Até automóvel, que estraga antes do carnê chegar ao meio, os bancos estão financiando pra todo lado. O problema é que, achacados por políticos e burocratas que mamam na tragédia, eles seguem fazendo o possível, que é construir onde já não cabe mais ninguém.

Depois disso, notícias como as que estamos vendo, de gente morrendo queimada ou atropelada por um trem em favelas vão parecer tão antigas, absurdas e distantes quanto as tragédias humanas que já superamos, como escravidão ou o holocausto.

Crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Utopia e pão

A obsessão tem uma versão benigna chamada utopia. Cada um tem a sua, inclusive quando não tem nenhuma. A não utopia já é uma busca infinita. A não utopia é a perfeição, e esta só no Paraíso, que o Homem recusou. Dom Helder Câmara disse que “a utopia partilhada é a mola da história”, naquela linha do “sonho que se sonha junto é realidade”. É basicamente isso. A existência é a nossa realidade, que vamos temperando com o passar do tempo, das gerações, buscando viver melhor, ou simplesmente viver.

Um mundo melhor é o que todos queremos. O pepino é que cada um gosta de um jeito – para não falar daqueles que nem de pepino gostam. Pátria, religião, cultura e, em alguns – muitos – casos, o futebol, estão entre os livros de receita. Política é a mão do cozinheiro. E por “sal e pimenta a gosto” é que a guerra, a solidão, a peste, a miséria, a paz, o amor, a saúde e a riqueza acontecem.

Na vida todos somos cozinheiros. Tem sempre alguém tomando as decisões na cozinha, é claro, mas todo mundo influencia o resultado do prato, inclusive aqueles que, por uma ou outra razão, não vão comer, até porque ninguém pode jantar satisfeito diante de um olhar faminto. Quem percebe e avisa que o pão está queimando pode desagradar o chefe, mas além de comer bem ainda será lembrado pela coragem e sabedoria. Aquele que nota o fogo alto demais e silencia vai comer queimado. São escolhas, cada qual tem seu preço.

A primeira utopia é fazer o pão chegar a todos. Pode ser em porções diferentes, desde que não falte. Quando isso acontecer as pessoas vão se acostumar e então, com a barriga cheia, a utopia será fazer um pão melhor, mais gostoso. É quando a turma pode se confundir e pensar que esse pão existe, transformando em utopia uma receita comum de pão. Bobagem. Nossa utopia tem que ser pelo pão para todos, seja preto, branco, doce, salgado, denso, fofo, quente, frio, redondo, comprido, chato, alto, puro, recheado e até recusado.

O pão, igual a utopia do Dom Helder, tem que ser partilhado. Só assim vira mola, bela viola, não enferruja, nem embolora. O pão individual é obsessão.

Crônica publicada no fanzine Amarello #9 – Obsessão

 
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Frescura urgente

Ontem, no Rio de Janeiro, os termômetros de rua iguais ao que a Fernandinha Abreu usou no clipe Rio 40 graus, marcavam “só” 28º. Em São Sebastião não tem termômetro público, mas conferi pelo iPhone que a máxima era a mesma: 28º. Quer dizer, aquilo que aqui de São Paulo a gente define como “a praia” e associa com sol e calor agora está a setecentos metros e seis graus abaixo de nós, porque 34º foi a nossa máxima.

Hoje as coisas já voltaram ao normal, com o Rio a 37º, São Sebastião a 39º e São Paulo a 34º. Quer dizer, normal na proporção, porque esse calor em pleno inverno de normal não tem nada. Aliás, nem no verão. Qualquer temperatura acima de 22º para mim é exótica. Normal é Porto Alegre, que ao meio dia marcava civilizados vinte graus à sombra.

Não digo que São Paulo está esquentando. Minha impressão é que já não esfria. Não tem por onde. É pedra pra todo lado, e não tem brisa, as árvores são poucas, assim como os lagos e as fontes – que por sinal seguem desligadas. E tem os motores dos carros, cada qual um forno, funcionando regularmente. O estado é de calamidade mesmo.

A gente precisa sair dessa olhando adiante. Não vale a pena apontar os culpados pelo caminho errado. O século vinte produziu desastres urbanísticos e ambientais no mundo inteiro: em nome do desenvolvimento desmatamos, poluímos, endireitamos, cobrimos e matamos rios e córregos, construímos avenidas, viadutos e outras aberrações para atender nãos aos carros, mas as pessoas que vão neles, e só recentemente percebemos que estávamos indo contra elas. Temos que arranjar uma maneira de sair dessa.

A notícia boa é que a natureza se recupera. Igual a gente quando volta a fazer exercício físico depois de anos de sedentarismo, ou para de fumar mesmo depois que a luz amarela já piscou, a natureza é um organismo que se regenera e responde positivamente. As fazendas que restauram a mata ciliar, por exemplo, voltam a ter as nascentes de rios nos mesmos lugares que elas vertiam originalmente.

Numa cidade igual São Paulo é difícil refazer a mata nas beiras dos rios, até porque as margens foram destruídas. Assim como de pouca coisa adiantaria botarmos no chão o Minhocão – como eu já defendi aqui. Quem me fez ver o melhor caminho foi o Andrea Matarazzo, que aponta o modelo novaiorquino: criar um parque suspenso para atender a população que já mora e está voltando a morar no entorno.

É um projeto premiado aqui e, onde foi realizado, como em Nova Iorque, levou qualidade de vida e desenvolvimento. O High Line, como eles chamam a antiga linha de trem transformada em parque linear suspenso, agrada tanto que já é tão falada quanto o icônico Central Park. Aqueles apartamentos pobres onde a garçonete, o estagiário e outros tipos de grana curta moravam nos filmes do século passado, e tinham a vida pontualmente infernizada pela passagem do trem, agora são valorizadíssimos vizinhos de bares, galerias, hotéis e até um albergue da juventude.

Não é o cenário perfeito para as margens do Minhocão? Há um projeto vencedor do prêmio Prestes Maia de urbanismo que propõe criar uma passarela acústica onde hoje passam os carros e sobre ela o parque. Eu acho mais bacana criar o parque direto, com prejuízo do trânsito de carros – sou um radical, reconheço – mantendo a ideia das passarelas ligando o elevado aos andares equivalentes dos prédios por onde ele passa, desde que se mostrem adequados para instalação de bares, galerias, hotéis e até um albergue para a juventude.

A vida de volta à região seria o equivalente a um olho d’água que volta a verter com a restauração da mata ciliar. Vida, aliás, já há: no período noturno, enquanto o Minhocão fecha para os carros e abre para as pessoas, não é de hoje que se vê muita gente malhando, crianças brincando, velhinhos passeando. O parque só tornaria o passeio atraente e mais gostoso e fresco, e aqui em amplo sentido: delicado, refinado, sensível, ventilado e com temperatura civilizada. É de frescura que precisamos.

 
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Aparências

Igual a mulher de Cesar em relação à honestidade, a aparência conta para todo mundo e em diversos aspectos, desde que na mesma ordem. Quer dizer, quando o ser vem antes do parecer. O inverso não adianta, digo, parecer honesto sem ser de fato. A verdade sempre acaba emergindo e o PT está sendo julgado como quadrilha no Supremo para confirmar.

Eu diria que a Soninha, candidata a prefeita aqui em São Paulo, é honesta tanto quanto parece. Mas lembrei dela por outra causa, relacionada à aparência. Quando ela era vereadora, propôs que a exigência de terno e gravata fosse abolida das sessões plenárias da Câmara Municipal. Segundo ela, o importante não é o que vai por dentro, não por fora do parlamentar. Não deixa de ter razão, mas para alguém que vem da televisão, onde a mensagem visual é tanto ou mais forte do que a falada, o conceito chega a espantar.

Lembro que na época perguntei a alguém que concordava com ela, provavelmente uma dessas pessoas que detesta gravata, se tudo bem o vereador é a plenário vestindo uma sunga, e a resposta foi que eu era radical. (O Suplicy ainda não tinha nos brindado com a performance de Super-Homem no Senado, encerrando a discussão para sempre).

A gravata está com o uso em baixa, mas continua emprestando alguma solenidade a quem usa. Tanto que para os momentos solenes da vida a turma ainda faz questão dela e usa de propósito e com prazer. Onde ela continua obrigatória, como mos parlamentos, creio que é mais pelo receio do que seria sem ela do que pela solenidade que traz. Devem olhar as roupas das mulheres, como a própria Soninha ou mais ainda a Heloisa Helena, e temer pelo festival que o fim da regra clara provocaria na indumentária.

Sou a favor de solenizar as coisas e creio no auxílio das roupas para tanto. Quando nasce alguém deve haver festa. E quando morre deve haver velório. É importante para pontuar, marcar, ajudar na compreensão, escrever os capítulos da vida. Digo mais: é importante que alguém discurse, ou minimamente diga algumas palavras. E não dá para ir colorido a velório, nem à praia de gravata.

Há de haver solenidades, com roupas, modos e palavras adequadas ao momento e ao ambiente. A solenidade pode não fazer ninguém mais inteligente, mas pelo menos nos protege da burrice. Diante de todos e falando, fica difícil parecer diferente do que se é de fato. Em mil conversas ao pé d’ouvido o imbecil pode se passar por inteligente, o ignorante simula sabedoria, o corrupto finge ser honesto. Na berlinda é diferente. E coincidência ou não, quanto mais a gravata cai de moda, mais os idiotas se sentem tranquilos para dar opinião.

 
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Salto alto em Paraty

Na época do acidente que vitimou o Andrea Carta a imprensa toda trouxe homenagens ao colega editor da Vogue Brasil. Uma delas, se não me engano do Ignácio de Loyola Brandão, falava do olho clínico do amigo. Naquele tempo em que era caro fazer revista, porque havia filme, papel fotográfico, fotolito, e não havia internet, corretor de texto, photoshop, o fator humano contava muito. Como não dava para revelar todas as fotos até escolher a melhor para botar na capa, o jeito era conferi-las pequeninas e arriscar a boa. A equipe eficiente fazia a triagem e levava para ele, que de bater o olho descartava as que não serviam, apesar de terem passado por diversos outros olhares competentes. De vez em quando, de birra, alguém bancava uma revelação ampliada para tirar a prova e invariavelmente ele tinha razão.

E as razões dele moravam nos detalhes. A deselegância na postura de uma modelo em plano secundário era suficiente para condenar uma foto à condição de prova definitivamente. O olhar hesitante de um rapaz que deveria parecer alguém decidido também ficava na peneira dele, e de lá ia para o lixo. Tudo muito delicado, subjetivo, mas que o leitor percebe quando diante do resultado final, mesmo sem saber dizer por que.

Hoje, em plena era digital, com a possibilidade de fazer mil testes, tratar e corrigir sem grande despesa qualquer imagem, a turma segue errando de maneira tosca. Para não citar os mais óbvios, que metem modelo de salto alto na areia, falo dos perfeccionistas, que em sua busca pelo 100% artificializam tudo, afastando o conceito ou o produto da realidade. Dentes brancos imaculados, por exemplo, sugerem alguém sem história ou personalidade, e este alguém não pode ser modelo, aqui no sentido original da palavra.

Essas meninas blogueiras são um colosso. O cenário deste mercado que cresce junto, com estilistas, modelistas, costureiras, blogueiras criando e produzindo tanto, enquanto a geração anterior era absolutamente tacanha e submetida ao que vinha do hemisfério norte. Até por uma questão histórica é natural que elas continuem influenciadas, mas hoje há uma troca, que se não é e nem será franca jamais, incontestavelmente existe, e dá vazão à criatividade, sem qual ninguém tem identidade.

Se elas ainda erram muito? Claro. Só não erra quem não faz. Mas alguns erros, por evidentes, já poderiam estar corrigidos e continuam acontecendo muito e amiúde. O que mais vejo é a bolsa cara em destaque, ostensivamente exibida. Ora, coisa boa é igual piada: quem entende se diverte, mas se tiver que explicar perde toda a graça. Provoca risadas fingidas. Mas a turba insiste e faz questão de que a marca apareça. São as meninas carregando as bolsas feito estandartes e a rapaziada com uns bichos gigantes bordados no peito. Tem cavalo, pinguim, jacaré, pato. Quem adotar o elefante como marca vai ficar rico.

O clássico do bacana que fica horrível fora de lugar é o salto alto. Em cima de um salto alto a mulher fica muito melhor. Melhora a postura, melhora o olhar. Creio que até as ideias melhorem. Mas o freguês desta página sabe que a melhor sandalinha no pezinho mais lindo da menina mais bonita convidada para festa mais animada de Paraty será um desastre.

Outro que surge com intensidade brutal é a bicicleta como alternativa para o transporte individual nas cidades grandes. Mais ou menos como as coisas da moda e outras tantas, é influência européia. E de fato é algo fantástico: leve, limpo, saudável, silencioso, bonito, prático, sem custo fixo. Mas em São Paulo não dá. Nem falo dos maus ciclistas, que vão pelas calçadas, na contra-mão, ou das hordas que andam varando farol vermelho em ladeira como se fossem os donos do trânsito. Aqueles impecáveis, que usam capacete, luz e só andam na linha também estão fora de lugar. E da mesma maneira que a menina linda do salto alto que torce o pé em Paraty, os ciclistas já são a segunda causa de internação na Santa Casa. Só ficam atrás dos motoboys.

O ideal seria que São Paulo fosse equipada com cliclovias, mas não é. Digo e repito que por mim na Rebouças, Augusta, Nove de Julho e Brigadeiro só teríamos trólebus, calçadas e ciclovias, mas até lá a turma das magrelas estará tão deslocada quanto a menina do salto alto em Paraty. E o Andrea Carta não aprovaria.

 
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O tempo da vovó

A Veja desta semana trouxe uma matéria explicando o óbvio: para ter uma vida saudável a gente deve comer menos. Ou comer de tudo, um pouco. Notaram a vírgula? Parece aqueles testes onde a pontuação muda o sentido da frase. Comer de tudo um pouco, sem vírgula, pode significar um ágape bárbaro, com um bocado de cada vez numa degustação sem fim, quando na verdade a ideia é adotar a parcimônia para jamais ter que se privar de nada.

A parcimônia talvez seja a coisa mais difícil da vida. Tendemos ao exagero, às radicalizações em tudo: futebol, política, religião. Com parcimônia o homem poderia até fumar a vida toda. Duvido que dois cigarros por dia matem alguém. Devem até fazer bem. Mas vá brincar com isso para ver no que dá: na primeira marola emocional o consumo sobe para um maço diário, acabando inclusive com o prazer. Restituir o comedimento e o prazer do fumo é quase impossível. Ao contrário da comida, que é vital, fumo é vício, e para acabar com ele só radicalizando – e sofrendo as consequências. Mas de qualquer maneira, a taxa de êxito das pessoas que conseguem parar de fumar e emagrecer definitivamente devem ser parecidas.

Nas dietas radicais, igual a tudo que é radical, a reação provocada é sempre igual e contrária. A lei da física vale também para o físico. O nego fica sem beber uns meses (dias, em certos casos conhecidos) e quando volta parece que precisa tirar o atraso. Com comida é a mesma coisa, e a história pessoal de cada um de nós está aí para provar.

Então uns americanos revolucionários descobriram como ganhar dinheiro com uma nova dieta. A revolução, desta vez, não é química ou milagrosa, mas caseira: um jogo de medidores, iguais àqueles que as nossas avós usavam para receitas de doces, que exigem exatidão. Com aproximadamente uma colher de sopa não se faz bom bolo, assim como com mais ou menos uma concha de feijão não se faz dieta. E a proposta deles é esta: reduzir o consumo em um terço. Dá certo. Quer viver, verá. E quem obedecer viverá melhor.

Os americanos estão diante do maior problema de saúde publica já enfrentado. Quem pensa que é o sistema, ou o SUS deles que o Obama vem tentando a duras penas reformar, se engana. O caso é grave, de arrepiar. Quem me contou foi uma médica nutricionista que vai amiúde aos Estados Unidos se atualizar numa universidade que investe pesado em pesquisa.

Pela primeira vez na história as crianças de até doze anos estão desenvolvendo aquele tipo de diabetes que os adultos gordos desenvolvem, e que sabemos ser muito mais nociva do que aquela do tipo congênito, capaz de ser controlada por toda a vida. Esta é aquela que cega, gangrena e mata. E a expectativa tenebrosa é que pela primeira vez na história será comum ver pais enterrando os filhos.

Daí que me parece urgente voltar aos tempos da vovó, não só nas medidas, mas nas receitas, ingredientes, modo e principalmente tempo de preparo. Nossa pressa, a fim de ganhar tempo, só está tornando a vida mais curta.

 
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Vida boa e sem segredo

Resolvi dar um tempo da minha cara de pau e entrei no novo Mercadinho Dalva e Dito para comprar qualquer coisa. Desde que eles abriram o bar novo, por sinal equipado com cadeiras Paulistano do Paulo Mendes da Rocha, liberando o balcão do acesso original para funcionar uma mercearia de antigamente, eu só passava ali na frente, aproveitava a pipoca grátis e seguia o meu caminho da roça. Culpa ou mérito da Rose, a cicerone que já passou pelo Gardênia e pelo Dona Onça e agora sorri ali na Padre João Manuel.

Diante dos quitutes vibrei a ponto de confundir os sentidos todos. Olhando a rosca de calabresa pude sentir todas suas texturas, do miolo úmido e macio à crosta crocante e pipocada feito massa de pastel. O sabor das cebolinhas que não comi, douradas pela gordura que pinga do frango rebolando nos espetos da televisão, também estava ótimo. Fiquei no pão de queijo, quitute tão vulgar para nós brasileiros, e pasmei diante da constatação: era de queijo mesmo. Denso e macio, suave e ardido, irresistível. Arrematei a cesta toda e levei para a casa da minha sogra, que é mineira, a fim de descobrir se eu poderia estar exagerando ou sendo traído, quiçá pela fome, quiçá pela condescendência produto da vergonha depois de tanta pipoca grátis. Mas não. Tanto Donana, nascida e criada em Uberlândia, quanto a Cidinha e a minha Neguinha que tantas férias de infância passaram lá atestaram: é o legítimo.

Ao lado da venda, o Dom Pepe de Nápoli está em reforma. Na quadra anterior, depois do Piselli, algo novo está sendo inaugurado. Já quase na Oscar Freire há outras casas em obras. Curiosa esta onda. Há um mês eu andava encafifado com a quantidade de lugares fechando as portas, com aquelas tristíssimas faixas passando o ponto na fachada. Agora isso: lugares diversos novos em folha florescendo. Aqui diante do meu escritório, na Franca, mais um que já começou queimar as panelas. Deve ser a primavera.

Mas a novidade que merece ser comemorada tanto quanto ou até mais do que essa safra de novos lugares é o movimento no sentido de preparar as coisas sem segredo, as coisas de sempre feitas com matéria prima e técnica de primeira, ou fazer pão de queijo de com queijo de verdade como o Alex Atala sempre pregou e agora está entregando.

Hoje almocei no Tavares, ali na Consolação: filé acebolado, arroz com feijão, legumes grelhados. Sem frescura e sem segredo, e principalmente sem fondor, sazon ou caldo de cubinho. Este fenômeno delicioso também é possível pelo menos em outros dois lugares: o Dona Onça, que inclusive os caldos faz em casa, e o Mocotó. É o tal do óbvio que só os profetas enxergam, como diria o centenário e eterno Nelson Rodrigues.

A profecia que mais desejo ser confirmada é essa: ver os botecos todos largando mão da química na cozinha, fazendo comida com carinho e cuidado, como se para os filhos fosse e principalmente para seus filhos, todos eles. Tudo o que falta num boteco como o Ministrão, por exemplo, ou o Brejinho, ali acima do Tavares, é parar de martelar o bife e voltar a botar alho de verdade na comida. E cebola, louro, uma cenourinha… Quem sabe até um talo de salsão? A vida boa é simples e não tem segredo, só tem carinho.

 
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Cidade fatiada

Por uma questão pessoal passei uma semana visitando a Vila Mariana diariamente. Aliás, duas questões pessoais: a primeira foi buscar um pratinho com o logotipo do Quintal do Braz, que eu vi numa das comemorações culinárias que o Panda publica no facebook. O negócio dele é esse: corre uma maratona pela manhã e à noite se entrega às redondas, sempre dividindo o roteiro na rede social. Faço coleção de pratinhos de restaurantes e bares e da Companhia Tradicional de Comércio, vulgarmente conhecida pelos bares Original, Pirajá, Astor e outros, também tem a pizzaria Braz, sendo que a da Vila Mariana, por ficar num casarão adaptado e equipado com um vasto e lindíssimo quintal, ganhou apelido especial. E pratinho também.

Curiosamente estive lá com a minha Neguinha no sábado em que meu pai também esteve. A curiosidade se deve ao fato de, apesar de morarmos a menos de dez quilômetros da Vila Mariana – percurso que o Panda faz como quem vai à cozinha buscar um copo d’água –, nem me lembro da última vez que passei por lá. E tenho sei que meu pai também não. É um fenômeno paulistano: de propósito a gente usa a paróquia, querer ir além é pedir para sofrer.

Abro parênteses para acrescentar que a curiosidade é também um privilégio. A estatística sobre a média de mobilidade diária de um paulistano comum menor de quinze anos não passa de três quilômetros. Foi o que me disse um estudioso, o Ricardo Kobashi. O moço vai à escola, busca pão para a mãe, descobre um campinho para bater bola e fazer besteira na rua de baixo, leva a namorada para os fundos da igreja. De vez em quando sai para um passeio mais longo com o pai, para ir ao médico ou sei lá, ver o futebol. Mas rodar para valer pela cidade só depois que começa a trabalhar. E sofrer: com o trânsito, com o transporte público, com o próprio trabalho.

Mas o que me levou além da minha freguesia foi a pizza, no sábado. E depois passei a semana toda voltando, porque meu pai ficou no HCor para fazer uns reparos, notadamente uma gambiarra médica notável, chamada stent. Os doutores enfiam uns troços desses nas veias e substituem uma cirurgia de ponte de safena ou outras obras. É uma maravilha. O velho já está novo.

A Vila Mariana é um bairro muito bonito, principalmente ali naquela praça onde fica o Pátio Paulista, o hospital Oswaldo Cruz e outros. A arquitetura é muito boa. Está judiada, mas os prédios antigos são lindos e um dos novos também, que é um enorme que se vê da 23 de Maio, com varandas de tamanhos diversos.

Indo e voltando das visitas, sempre de Metrô (minha prima Gabriela Duva até ofereceu carona de carro, mas tenho andado apressado), fiquei me perguntando o porquê do pessoal de Pinheiros ser mais parecido com o do Jardim Paulista do que o da Vila Mariana e do Paraíso ou o das Perdizes e Pompéia. Ora, esses quatro últimos são siameses, ficam todos no morro da Paulista, mas a turma de Pinheiros têm mais afinidade com a do Jardim Paulista e vice-versa. Ou pelo menos é esta a minha impressão.

E da impressão surge a delícia que é o palpite. O meu é que os vizinhos, assim como os familiares, cansam uns dos outros, até porque reconhecem características suas nos próximos, e o espelho social é quase sempre insuportável, tanto na vaia quanto no elogio. E quanto mais adensado o povo, mais difícil é a convivência. Daí que sempre que acontece um respiro a cidade agradece.

As casas e as árvores todas dos jardins Europa e América servem, como diria o Marco Aurélio Mello, de algodão entre os cristais do Jardim Paulista e de Pinheiros. Sem esta suavidade intermediária o intercâmbio entre os bairros do espigão da Paulista fica prejudicado. Tanto é que mesmo dentro do Jardim Paulista a comunidade de divide da Augusta pra lá, da Augusta pra cá e a mesma coisa com a Nove de Julho. Há quem proponha renomear a Alameda Santos: entre a Nove de Julho e a Augusta fica como está. Da Nove de Julho para a Brigadeiro vira São Vicente, e da Augusta até a Rebouças, Guarujá.

 
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O homem e o boneco

Marketing político deveria ser assim: um líder dá sua opinião dizendo para aonde devemos ir, os estrategistas desenham o melhor mapa de acesso e os marqueteiros se reservam ao papel de tornar o caminho mais fácil de entender e bonito, através de sinalização e flores nos canteiros. Flores de verdade, naturais, de preferência.

Aqui no Brasil ocorre o inverso: o marqueteiro encomenda a pesquisa de opinião e dela extrai um norte, ao qual os estrategistas adaptarão os caminhos e o candidato, que deveria ser o líder, acaba submetido, na melhor das hipóteses temendo contrariar a vontade popular, mas na maioria delas é só pavor de perder a eleição.

As pessoas cada vez mais vêm confundindo o papel do líder com o de porta-voz da maioria. Líder não é aquele que repete a opinião que prevalece, mas aquele que faz o bom-senso prevalecer na opinião geral. Para tanto ele tem que ser mais preparado, mais culto, inteligente, mais sábio.

Um dos poucos caras assim que restam com disposição para disputar uma eleição no Brasil é o José Serra. Digam o que quiserem: ele é feio, amargo, desagradável, duro de roer. Estou de acordo. Mas o fato é que o nego estudou e se preparou a vida inteira para exercer cargos públicos, e sempre que teve oportunidade de ocupa-los, revelou-se um líder capaz de conduzir o Estado no sentido de melhorar a vida das pessoas.

Foi assim no ministério da Saúde, na prefeitura e no governo do estado de São Paulo. Elencar as realizações seria cansar o freguês, por isso fico em duas que me comovem: urbanização de Paraisópolis e do Cantinho do Céu. Eram favelas e agora podem ser considerados bairros. Ainda há por fazer, mas se inclusive bairros tidos como planejados acabam se desvirtuando, uma comunidade que brota do improviso, irregular e sem qualquer recurso, seja público ou privado, técnico ou material, se tornar em uma paróquia que orgulha seu morador ao declarar o endereço, é um sopro de esperança para todos nós.

Abro parênteses para falar da seca em São Paulo. Impressiona proliferação de insetos de solo e os incêndios nas favelas, mesmo em Paraisópolis, que já tem mais alvenaria do que tábuas nas casas. Não sei se eles estão relacionados com a estiagem, mas quero crer que sim. Moro no Jardim Paulista e em apartamento e tirei duas aranhas grandes de casa esses dias, e um concunhado que ainda não conheci ficou internado por causa de uma picada que levou na Vila Madalena. Carrapatos nos cachorros também estão grudando mais.

Voltando ao Serra, a despencada dele no Ibope me confunde mais do que os motivos do aumento dos incêndios e dos insetos. Há quem explique a rejeição dizendo que ele é antipático. Mas a verdade é que ele teve apoio popular sempre que fez o que lhe deu na telha, seja propor a Lei Cidade Limpa, a Lei Anti-fumo ou ter abandonado a prefeitura para concorrer ao governo do estado e impedir que o PT tomasse conta de São Paulo. Ganhou no primeiro turno aquela eleição, com mais votos na capital do que teve para prefeito.

Em contrapartida, quando decidiu ouvir o marqueteiro e parecer simpático rolou dez pontos abaixo no gráfico. Primeiro teve o gesto de grandeza bíblica embalar o Mateus que pariu, notadamente o Gilberto Kassab. Dizem que este é um gênio político. Não é. Com a prefeitura redondinha, equipe de primeira linha e dez bilhões em caixa, o distinto alcançar rejeição de 50%, tem que ser uma anta. A chance de encontrar alguém insatisfeito é brutal. Numa moto, pelo menos uma pessoa reprova o Kassab. E o Serra segurou o rojão.

Agora, para ficar em só mais um exemplo, lança esse adesivo da família simpática, com ele em bonequinho e mais uma tropa diversa como a população paulistana. É no mínimo ridículo. Para o Kassab isso funcionou em 2008 porque o bonequinho é e sempre será muito maior do que ele. Para o Serra, que tem um passado registrado na história, o bonequinho é uma redução pessoal lamentável e vexatória.

Por isso, quem tiver disposto a ajudar São Paulo a ter de volta um líder realizador a frente da prefeitura, pense no homem com todos os seus defeitos, e esqueça o boneco com todas as suas qualidades.

 
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