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Opinião pública e opinião publicada

“Há uma opinião pública e uma opinião publicada”, sustentou  o advogado brilhante Luiz Fernando Pacheco na defesa de José Genoíno, réu no processo de mensalão. Que orgulho do meu amigo Pachecão. Porque apesar de dura e triste, esta é a realidade: a opinião pública absolveu os mensaleiros quando reelegeu o Lula presidente da República e mais meia dúzia de deputados notoriamente envolvidos no escândalo, ainda que como suplentes, caso do cliente dele.

Na lista de absolvições ainda podemos incluir outras tantas, porque escândalos não faltaram. A Casa Civil é emblemática. Todos os ministros do governo petista tiveram o seu, inclusive a presidente Dilma, que quando esteve à frente da pasta foi acusada de produzir um dossiê contra a Ruth Cardoso, de saudosa memória.

O primeiro da coleção foi o Waldomiro Diniz, assessor especial do então ministro Zé Dirceu, flagrado extorquindo o notório bicheiro Carlinhos Cachoeira. Depois o próprio Zé sucumbiu como chefe da quadrilha mensaleira. Então a Dilma com o dossiê e logo em seguida seu braço direito, Erenice Guerra, com o filho traficante de influência operando dentro do Palácio. Já desta gestão, é o Antonio Palocci que acabou varrido junto com outras tralhas da herança imoral deixada por Lula, que agora inclui a Rosemary no rol de bagunceiros de antecâmara.

De modo que duvido que a revelação dos detalhes do depoimento do Marcos Valério publicada pelo Estadão de hoje vá mudar alguma coisa na opinião pública. Digo mais: se fizessem um concurso nacional de redação, valendo mensalão vitalício a quem mais se aproximasse do conteúdo da delação, o Brasil inteiro teria que dividir o prêmio, porque o que ele falou é exatamente o  que a gente presume: Lula não só sabia de tudo como também se lambuzou com o esquema.

Porém, posto que todo mundo acredita nisso e mesmo assim a maioria mostrou que não se importa, reelegendo o Lula e elegendo a Dilma, nos resta a luta da opinião publicada e a da Justiça. Famigerado ou não, o Marcos Valério esteve junto com esse pessoal por muito tempo, e se ofereceu dados estes merecem ser investigados. Pelo menos um depósito citado no depoimento bate com o depoimento: 98 mil na conta da empresa do Freud Godoy, assessor faz-tudo do ex-presidente, que os teria usado para pagar despesas pessoais do chefe.

Outra coisa: o Paulo Okamoto, por sinal acusado de ter ameaçado de morte o Marcos Valério, ficou conhecido como “o doador universal” ao assumir o pagamento inexplicável de diversas despesas pessoais do Lula e de sua família. Quando? No mesmo período dos depósitos feitos na conta do Freud.

A denúncia do Roberto Jefferson, que deflagrou o escândalo todo, também sofreu e ainda sofre ironias e tentativas de descrédito. Porém foi investigada, julgada e se confirmou com a condenação dos réus no Supremo Tribunal Federal. E já no primeiro momento ele afirmou que avisou o Lula. Depois voltou atrás, mas agora tem companhia que, canalha ou não viu o bicho de perto e, se resolveu falar, deve ser considerado.

 
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Cinema bipolar

Clint Eastwood é bipolar. Deliciosamente bipolar. Não sei sobre sua saúde, mas ele é democrata no cinema e republicano na política. E vice-versa.

Na política fez campanha a favor do Nixon, do Reagan e foi duas vezes contra o Obama. Pelo partido Republicano disputou eleição para prefeito de Carmel, na Califórnia, e uma vez eleito tratou de contrapor o avanço do mercado imobiliário sobre áreas de preservação ambiental e defender o direito ao casamento para homossexuais, posições notadamente democratas.

Quando ator fazia o alter ego dos republicanos, Dirty Harry e outros justiceiros implacáveis. Mas agora que tem a caneta como diretor e produtor vem defendendo as classes menos favorecidas: a garçonete que tem um sonho, os imigrantes orientais, o legado do Nelson Mandela. Mas talvez nunca tenha sido tão democrata quanto no delicioso As Curvas da Vida, que está em cartaz.

Quem já teve o prazer de ver a fita pode argumentar que a meritocracia é um princípio republicano. Ora, ideologias políticas querem mais ou menos as mesmas coisas. O capitalismo perfeito é quase gêmeo do comunismo. Quer ver? Sabe qual é o apelido do Partido Republicano nos Estados Unidos? O Velho Partidão –o mesmo do Partido Comunista aqui no Brasil. A maior diferença entre uns e outros está no caminho preferido – e na estética. E, esteticamente, As Curvas da Vida é uma obra democrata.

O momento mais gostoso do bandido é uma crítica também bipolar: o vilão aparece tranquilo, num bar denso e refinado, bebendo um Dry Martini perto da lareira, enquanto os mocinhos sofrem num desses salões coloridos, com cerveja quente, sinuca e outros passatempos, música alta e gente se esbarrando.

Tudo o que acontece é o que o que o telespectador deseja que aconteça, e a graça está em descobrir a direção escolhida – e nisso o Robert Lorenz merece muitos aplausos. A expressão de quem está tentando controlar o desejo que ele consegue da Amy Adams na cena do namoro no lago faz do clichê um momento único. Assim é na política, na arte e na vida. Tudo vai dar certo no final, ainda que o caminho pareça definitivamente errado. Esta é a maravilha de viver.

Outro diretor que merece ser aplaudido de pé é o Benjamín Avila, por Infância Clandestina. É a história de uma família de guerrilheiros argentinos que imagina poder conciliar a luta armada contra a ditadura com a criação dos filhos. Com um sobressalto a cada corte ele mantém a plateia em permanente estado de alerta, assim como vive qualquer clandestino.

Mais uma vez a gente já sabe desde o começo o final da história, sobretudo porque essa é com H maiúsculo, infelizmente. E tocou a relação infinita do menino com o tio. Também tenho um tio assim e não me esqueço dele. É o meu tio Duva.

O elenco é ótimo e muito bonito, como só na Argentina poderia ser. Fazer um filme sobre guerrilheiros bonitos como os argentinos no Brasil só seria possível a partir da biografia do José Dirceu. Imagina uma fita sobre o Genoíno ou a Dilma, que tristeza. Mas fico por aqui antes que a minha bipolaridade espante a freguesia.

 
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Preços e valores

Estou disposto a me inscrever em qualquer programa de congelamento humano. E não faço questão da sobrevida prometida. Com esse calor africano que está fazendo em São Paulo vale a pena arriscar o embarque sem garantia de regresso. Mergulho no nitrogênio e fico lá, feliz e fresquinho eternamente.

E por falar em eternidade dois que não vão comer manga neste verão são os gênios Oscar Niemeyer e o Dave Brubeck. O modo vulgar de dizer é para registrar que eles simplesmente desencarnaram, porque eternos já eram. Como disse o Horácio Flávio e o Tom Jobim cantou, “longa é a arte, breve é a vida”. Esses caras não vão para o céu: sempre estiveram lá. As curvas de um e o swing do outro vivem num estado celestial de arte. Sobre o arquiteto, que se dizia ateu, arrisquei um jogo de palavras: : “O Oscar Niemeyer não acreditava em Deus. Mas Deus acredita no Oscar Niemeyer”.

A eternidade só tem sentido através da arte. O sujeito sonhar em viver no mesmo corpo para sempre é algo doentio. Até com as estátuas tem gente implicando. O Luís Fernando Veríssimo e o Humberto Werneck pelo menos já debocharam do bronze gasto para eternizar escritores em sua versão menos interessante: o corpo. O Dorian Gray do Oscar Wilde é isso: juventude e beleza potencializadas à máxima enfermidade, que é a eternidade. A morte é natural, saudável até eu diria.

O congelamento que signifique qualquer coisa além de uma fuga desse calor me parece mau negócio. Falo pensando nos alimentos. O congelamento é a pior técnica de conservação. Se valer para a gente a mesma coisa que vale para os animais que comemos, prefiro apodrecer do que ser congelado. Antes ser salgado, confitado, marinado, escabechado, cevichado, curtido, defumado, pasteurizado, compotado e até mexido por oito horas em tacho de cobre no fogão à lenha. O congelamento é a broxada culinária. Não funciona na comida e não pode funcionar na gente.

Muito embora a fruta no pé, a verdura fresquinha, o leite cru e o bicho recém abatido sejam insuperáveis, os métodos de conservação citados sempre melhoraram a comida. Era uma necessidade, mas não esfriava a relação: o inverno rigoroso impede a safra de marmelo? Faz marmelada e estoca. E se um dia o mar não estiver para peixe não tem problema: há um bacalhau pendurado na cozinha. E o porco, era muito grande? Confitamos as partes excedentes na banha derretida.

O problema hoje é que tudo isso dá muito trabalho e custa caro, de modo que quem ainda faz quer o gosto, não a conservação do alimento. E cobra por isso. Da mesma maneira, estando em São Paulo ou em qualquer lugar quem quiser comer morangos franceses, ostras de Santa Catarina, lagosta do Ceará pode, é só pagar. A celeridade dos transportes permite.

De modo que o custo final dos pratos já deixou de ter relação com a matéria prima faz tempo. Hoje é basicamente transporte e serviço. Talvez por isso tudo esteja tão caro no Brasil: não temos nem transporte nem serviço decente. E, para completar, a maravilha que é a estabilidade e o crescimento econômico acaba ofuscada pela carência de solidez cultural, porque as coisas tendem a ser avaliadas pelo preço, não pelo valor.

É por aí que merece aplausos o projeto Satisfeito, que abrange alguns restaurantes da cidade liderados pelo Grupo Egeu. A ideia é pagar pelo prato inteiro e comer só dois terços. O dinheiro da matéria prima economizada será doado para a caridade. Mas em números absolutos significa muito pouco. Qual é o preço de cinquenta gramas de espaguete? Um, dois reais? Mas o valor cultural é enorme porque fala da disparidade escandalosa: de um lado a subnutrição, de outro a epidemia da obesidade e das dietas. A cultura pode salvar todo o mundo: comendo bem e só o suficiente.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Permissão para a solidariedade

O Enrique Peñalosa passou por aqui e eu perdi. Infelizmente. Se foi em junho deve ter sido por conta do meu aniversário, sabe-se lá. Paciência. Ele veio para o Fronteiras do Pensamento para falar da experiência transformadora de governar Bogotá, antes dele considerada uma das capitais mais violentas da América Latina.

É, mais uma vez, um prazer e uma vaidade minha, vocês me perdoem. Sem querer estimular ninguém com o mau exemplo deste vaio que fugiu da escola, meus palpites sobre como melhorar os índices de violência em São Paulo combinam com o do Peñalosa, que estudou de fato o assunto, é economista e historiador formado em Duke e com P.h.D. pela Universidade de Paris. A chave é a qualidade de vida, e esta passa pelo urbanismo, que nada mais é do que a convivência entre as pessoas e as coisas no espaço urbano.

Para começar há que ser ter um espírito de ordem. As pessoas precisam se sentir protegidas pelo Estado. Saber que, se algo estiver fora da ordem, uma instância superior vai garantir. O primeiro exemplo deve vir de cima: a maior autoridade do país não pode ser tolerante com qualquer tipo de ilegalidade. Mas o exemplo imediato é tão ou mais importante, e ele está, ou deveria estar nas cidades, que afinal é onde as pessoas vivem.

O básico: calçadas boas, ruas iluminadas e limpas, tolerância zero com qualquer desvio. Vendedor ambulante? Não pode. Bicicleta na calçada? Também não. Churrasco? Idem. Motos na contramão? Nem pensar. Carro em fila-dupla? Apita e multa. É aquela máxima do banheiro: se está sujo você levanta a tampa e puxa a descarga com o pé; se está limpo você até enxuga a pia depois de lavar as mãos para não deixar rastro. A ordem é uma coisa contagiante, colaborativa.

O que acontece hoje em São Paulo é o desvio de responsabilidade da Polícia Militar. Feita para cuidar desses detalhes tão pequenos, acabou tragada por uma luta inglória contra o crime organizado, que é assunto de Polícia Federal.

O policial militar tem que ser conhecido e até amigo da comunidade. Assim como o professor, o médico e o vereador, assim como os equipamentos deles. Coisas e pessoas. A escola, a biblioteca, o hospital, a Câmara, as praças, parques, museus, ônibus, Metrô, têm que ser lindos, atraentes, convidativos, bem equipados. Quando as coisas agradam as pessoas, as pessoas cuidam das coisas.

Com as ruas e equipamentos públicos bonitos e em ordem as pessoas saem de casa e vão ocupa-los. Esta é a base da teoria do Peñalosa, o mais é adaptação de acordo com cada realidade.

Se a gente pegar Cidade Jardim por exemplo, a solução parece óbvia: eles têm casas fantásticas em ruas arborizadas , sinuosas, românticas e um parque gigantesco ao pé, que é o Jockey Club de São Paulo. Porém tudo está abandonado, as casas à venda por um preço muito abaixo de seu valor e o clube falindo, propondo vender a sede social da Rua Boa Vista para sanar a dívida com a prefeitura.

Ideia: a prefeitura troca a dívida pela área verde do hipódromo, mantendo a sede construída com o clube, onde os sócios poderiam continuar com acesso aos serviços, inclusive o de apostas. Parece que tem que acertar também com a Cia City, já que o terreno é um comodato, mas isso é o de menos. Esta área verde, salvo a pista, é transformada em um parque com acesso franco para todos. Então a turma começa sair de casa a pé, ocupar as calçadas, cobrar melhorias e através da convivência transformar o bairro. Ah, os muros do Jockey seriam trocados por grades (o Andrea Matarazzo fez uma foto ilustrativa, fica lindo) e, aos poucos, os das casas também, tenho certeza.

Pano rápido: ontem saí do Mercearia São Roque na rua Amauri e fui a pé para casa, que fica naquela primeira travessinha da Lorena entre a Brigadeiro e a Eugênio de Lima. É distante, as ruas são escuras e as calçadas tortuosas. Mas tinha acabado de chover e a noite estava uma delícia, cheirosa e fresca. Na rua Veneza, quase chegando na Estados Unidos um carro encosta lentamente. Assalto? Que nada: era o Ruy Nazarian que me viu, se assustou e preocupado com os perigos paulistanos, fez a volta no quarteirão. Não sossegou enquanto não aceitei carona para o trecho final. O que prova que a solidariedade está aí, só falta a gente permitir o encontro.

 
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Cinco notas soltas

Os tais Cinquenta Tons de Cinza são um fenômeno, todo mundo já sabe. Outro dia ouvi dizer que uma senhora refinada que oscula os noventa anos de idade comprou e leu de chofre a trilogia erótica. O curioso é que antes da terceira página a mulherada deixa escapar que o que faz mesmo pensar é o acesso ilimitado às bolsas, sapatos e joias que a autora ora milionária conquistou.  Eis os acessórios que importam. O pobre coitado do mister Grey só é lembrado na hora de perguntar se um combina com o outro.

Jorge Paulo Lemann ultrapassou o Eike Batista e é o brasileiro que mais juntou dinheiro no mundo. Coisa de trezentos milhões de dólares, que parece muito, mas no caso estão depois da vírgula. Como tem dupla cidadania, entre os suíços ele também é o campeão do cofrinho. De novo: grande coisa. Entro nas suas Lojas Americanas para comprar uma barra de chocolate amargo e sempre enfrento fila, porque dos vários caixas só um está funcionando. Um amigo que trabalha da AmBev, que hoje é maior do que a Petrobrás, conta que tem de levar papel e caneta de casa, artigos que a companhia considera vilões  na busca pelo aumento da margem de lucro, assim como a cevada, que eles substituíram por arroz ou coisa que o valha em todas a cervejas, incluindo marcas e receitas que deveriam ser tombadas pelo Iphan. Quem não tem saudades da Boêmia verdadeira, da Serra Malte genuína, da Original original? Francamente, seu Jorge? Você é pobre. Rico é o Eike Batista, que banca o melhor restaurante chinês do Rio, está restaurando a Marina e o Hotel da Glória e lançou um barco cor-de-rosa para incentivar o turismo e a vida boa na Cidade Maravilhosa que é o nosso cartão de visitas. Se tudo isso custou 300 milhões de dólares, saiu de graça.

Símbolo trágico da aflição contemporânea, os motoboys estão cada vez mais à margem da sociedade. Sempre correndo desesperadamente atrás do frete, banalizaram todas as regras de trânsito: primeiro rodando entre os carros, depois sobre as calçadas e agora na contramão. Antes era só na hora da pizza dominical, mas o costume se alastrou pela semana toda. Como eles nunca estão por conta própria, mas sempre às ordens de alguém, vale a pergunta: aonde queremos chegar?

Os boxers estão voltando. Na crista da onda estão os buldogues franceses. Se eu tivesse um batizava de Gigot em homenagem ao clássico da cozinha francesa, por sinal premiado pelo Paladar como um dos pratos mais queridos da cidade, notadamente o do La Casserole. Mas a vanguarda são os boxers. Depois de muitos anos eles estão pelas ruas de novo. Meu pai teve um chamado Sancho Pança há mais ou menos meio século. Acho que mais. É a maré da vida, sempre se reeditando.

O Governo Federal lançou uma campanha pelos seis anos da Lei Maria da Penha. A estatística, apesar de fria, é estarrecedora: a cada cinco minutos uma mulher apanha em casa. Não sei se inclui, por presunção, a que apanha e cala. Obrigado, Vinicius. Qualquer violência física é abjeta e escandalosa, igual a do rapaz que foi linchado ontem porque é gay. Mas dentro de casa penso que é ainda pior. A intimidade com o inimigo está além da questão física. Recusar com veemência qualquer violência é dever de todos. Por isso é lamentável que aqui em São Paulo o prefeito eleito Fernando Haddad tenha prometido uma secretaria para o notório covarde espancador vereador Netinho de Paula.

 
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Caldos e pipocas

No final de semana que passou entrei no videoclube e estava passando A Rosa Púrpura do Cairo, Woody Allen dos anos 1980, que é mais ou menos como um Di Cavalcanti dos Anos Dourados. A trilha sonora e a doçura da Mia Farrow já seriam suficientes para querer rever a fita, mas talvez a coincidência tenha falado mais alto: na noite de quinta-feira, sem mais por que, o Julinho Toledo Piza decretou que o então marido da Mia tinha chupado a ideia original de um poeta russo chamado Maiakoviski, e a partir disso me deixou boiando sem acrescentar nada. Hoje telefonei procurando entender o conceito e ele confirmou a acusação, botando mais um dado: na versão do russo é uma mulher e não um homem que troca a ficção pela realidade. Coisas do Bar da Dona Onça.

De qualquer maneira, tanto público quanto crítica concordam que é uma obra-prima do cinema sobre o cinema. É sempre divertido quando um diretor sabe nos contar sutilezas da técnica e dos bastidores sem  quebrar o encanto. São os bastidores, sempre atraentes, desde que sem indiscrição. O Guel Arraes fez um bonitinho aqui no Brasil: Lisbela e o Prisioneiro.

Outra coisa que me pegou no filme foi o tamanho do saco de pipocas, pequeno, simples, civilizado. E não tem nada a ver com a época da depressão americana em que o filme se passa. Era um costume, uma cultura, não um impedimento financeiro. Até porque se há duas coisas que não têm relação entre si é o preço da pipoca com a quantidade que vai no saco. Por dez, vinte pratas, tanto faz se você leva um punhado ou um balde de milho. Mas eu sinto aquilo que chamam de vergonha alheia quando vejo alguém com um saco gigante, mais refrigerante e outros bichos. E essas salas granfinas que oferecem pipoca trufada e harmonizada com vinhos? Tem uma que se diz 4D, porque a poltrona treme, sacode e até chove na plateia se o tempo virar na tela. Fico imaginando quantos D merecem aqueles cinemas da Rua Aurora, tidos como os mais interativos do mundo.

Mas enfim, o que eu ia dizendo é que a matéria prima da pipoca, e da comida em geral, guarda pouca ou nenhuma relação com o preço final do prato. Cem, duzentos, quinhentos gramas da melhor massa seca não podem custar mais do que dez reais. Igual ao ditado caipira, o molho invariavelmente sai mais caro que o frango, e por uma razão muito simples: dá mais trabalho.

Os caldos, por exemplo. Você pega do bicho o que geralmente é desprezado: ossos, pés, carcaça, cabeça e bota na água. De graça, não é? Mas e a mão de obra? É uma operação que leva horas e requer quase a mesma atenção de um ovo frito.

Me aproximei dos caldos desde que reduzi o estomago. No princípio quem me socorreu foi a Pat Feldman. Depois fui botando as asas de fora e os ossos para dentro e comecei fazer os meus próprios. A dica dela de cozinhar cravos da Índia para tirar da casa o cheiro do caldo de peixe foi providencial. O do caldo de carne ou de frango pode deixar no ar, que fazem ao ambiente tão bem quanto ao organismo.

E outras dicas vieram, curiosamente da mesma cozinha. O Luciano Nardelli, que trabalha no DOM, me convenceu que não dava tanto trabalho assim. Era verdade, mas só até a limpeza. Digo era porque não é mais. Seguindo as dicas que o patrão dele deu na aula do Paladar Cozinha do Brasil, melhorei meus caldos e aplaquei o problema da limpeza. Dica um: nunca deixe ferver. A fervura levanta as impurezas e deixam o caldo turvo, e devagarinho a carne solta todas suas propriedades, num processo exatamente inverso ao de selar um bife na chapa, quando o desejável é manter o suco na carne. Dica dois: com um pincel, molhe sempre as bordas da panela usando o próprio caldo, impedindo que os resíduos que ficam da redução sequem, queimem e amarguem – e de quebra você vai poupar meia hora de pia areando o caldeirão. Ao Luli e ao Alex Atala, obrigado pelos bastidores.

No caso do caldo de carne bovina o melhor é usar ossobuco. Tem o tutano, a gelatina, a creatina, que afinal é o primeiro segredo da boa forma física. Reparem nos povos que vivem distantes da proteína. Seus corpos lembram os tortuosos galhos da vegetação do cerrado. A carne que fica, sem suco, não tem graça, mas tem utilidade: desfiada e misturada a legumes e arroz integral cozidos, fazem a alegria e a nutrição dos cachorros que, convenhamos, não merecem o desgosto de comer ração e só. Esta dica é da doutora Jacy Braga Andrade, o que alegra tanto o buldogue Otto quanto o mestre Tuca, um porque almoça e janta feliz, o outro porque vai à cozinha.

 
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Roteiro gastronômico

Talvez seja mais fácil identificar o trecho da Alameda Franca onde eu trabalho dizendo que é a quadra do Ritz do que explicando que fica entre a Padre João Manuel e a Augusta. Simples assim, produto de um trabalho consistente que há trinta anos mantém o padrão de qualidade. Bar bom e equipado como poucos, atendimento simpático e sem servilismo, cozinha competente e com a qualidade rara de saber inovar sem perder a identidade. Tudo sem firulas. E sem manobrista.

E recentemente do outro lado da rua foi inaugurada a Bodega Franca, uma proposta ambiciosa que, como diz o nome, é loja de vinhos e restaurante no mesmo endereço. Pode ser anunciada na linha daquela loja da TAP na São Luiz: “Em frente à Varig, Varig, Varig!”. Saio para almoçar e vejo na lousa: cassoulet. O clima do dia era um desses presentes da natureza que, cada vez mais transtornada, nos oferece garoa e frio em pleno novembro. Não resisti e mergulhei.

Apesar de ser analfabeto funcional e mal falar o português, ando arriscando trocadilhos inclusive em línguas estrangeiras. Já aconteceu na adolescência, quando tentei convencer, em vão, a Andrea Calfat que o sobrenome dela era uma dica para me telefonar. Apesar de que hoje ela é a doceira não freira mais festejada de Portugal, e se não telefona para os gordos o inverso deve acontecer muito e amiúde. Outro trocadilho foi sobre os petistas quando estourou a operação Porto Seguro, já apelidada de O Bebum de Rosemary ou La Vie en Rose. Escrevi em algum lugar: They Steal Going. E o terceiro, que ata este parágrafo ao texto, foi o de me permitir ao cassou-let. Tudo muito fraco, não é? Perdão.

Enfim, entrei na Bodega e fui ao cassoulet. No piso térreo fica a loja de vinhos e apetrechos, e os salões do restaurante se desenrolam escada abaixo, entre espaços reservados e um quintalzão que em dias ensolarados deve ser mais agradável pela possibilidade retrátil da cobertura. O cassoulet veio com uma taça de Bordeaux, “porque é clássico”, justificou o enólogo. Estava bom, com os feijões se desmanchando em erosões individuais e delicadas, o caldo grosso e as carnes se soltando dos ossos. Deixei a saladinha do cardápio executivo para depois, para refrescar, porque é clássico.

Seguindo pela Franca se alcança a Melo Alves, que também ganhou uns endereços novos recentemente. A filial do Le Jazz chegou antes do Metrô que vai ligar a Oscar Freire à matriz na Rua dos Pinheiros, o Chacras vai virar hotel e parece que há uma doçaria alemã, além do Domenico, um italiano simpático.

Da loja de sorvetes não vou falar, assim como pretendo ignorar o bar da vodka ao lado do Frevo e gostaria de poder fazer o mesmo com os stands da Natura e o da Citroën, se não fosse o esforço ótico e auditivo que eles fazem para parecerem interessantes. Nada pessoal. Mas justamente por isso recuso esses avanços que as marcas fazem sobre os bairros. Para mim o estabelecimento tem que ser o mais próximo da pessoa física. Tem que ter o balconista. Tem que servir ao bairro, e não servir-se dele.

O Domenico Mira é assim: gordinho italiano típico, com lenço de seda no bolso da lapela do paletó de botões dourados, que faz questão de conversar com o freguês. Quando estive lá ele passou o jantar inteiro ao pé de uma família que parecia interessadíssima nos seus casos. Mas vai cansar. Por aqui a freguesia se acostuma e depois não abre mão da atenção exclusiva. E ai dele se um dia estiver ocupado ou, pior, a fim de ficar quieto pensando na morte da bezerra. Falo por experiência.

O salão é pequeno e confortável e o serviço impecável – muito embora fosse domingo de noite e de chuva e houvesse poucas mesas. O David, sommelier egresso do Grupo Fasano, percebendo que eu acho acintoso gastar mais que cem reais numa garrafa de vinho trouxe um italiano ótimo. Trocamos o couvert por uns bolinhos de risoto de açafrão e tomate recheados com queijo que estavam deliciosos. Eles chamam de arancini e trazem um pesto para acompanhar que é absolutamente dispensável.

O metre Ednaldo também é sensível e nos fez a gentileza de dividir o primeiro e o segundo prato. Aliás, a maioria dos restaurantes topa fazer isso: estando em duas pessoas, você escolhe dois pratos para compartilhar: se diverte em dobro gastando a mesma coisa. Começamos com um ravióli recheado com espinafre e queijo, que prometia ser ricota, mas literalmente puxava para um tipo mais cremoso – tanto melhor. O molho era um ragu de cordeiro desmanchado, não picado, e os pinoles arrematavam o crocante e o aroma na boca. O segundo prato foi um entrecote com salada de rúcula que estava equivocado, um pouco além do ponto e com purê de batatas que não havia no cardápio. De qualquer maneira qualquer cozinha tem direito de se confundir com menos de um mês de vida e eu quero voltar para ver os peixes e frutos do mar que são o mote do lugar.

A sobremesa nos foi vendida assim: se não for o melhor, é o segundo melhor tiramisú da cidade. E isso dito pelo David, que ex- Fasano, recém eleito o melhor de todos pelo Prêmio Paladar do Estadão. Fui um dos jurados convidados, e como lá não vale voto de lembrança, experimentei todos os pratos indicados. Não foi fácil decidir entre ele e o Romeu e Julieta da Saiko Izawa para o Attimo. Mas o David trabalhou lá antes do Luca Gozzani assumir a direção geral e instaurar sua receita. Agora deve voltar, provar e concordar que não há nenhum à sua altura.

Pelo apelo do Paladar também tomei vergonha e fui conhecer a BOS BBQ, churrascaria do Mozca, meu amigo que trouxe para o Brasil o estilo estadunidense de assar. Aqui pensamos que barbecue é uma opção de molho para aquela massinha de frango frita que o Mac Donalds vende para as crianças que estão em dieta. Mas não é. Assim como sushi não é só um bolinho de arroz com uma fatia de peixe cru por cima – o nome específico disto é niguiri –, barbecue é tudo o que envolve o churrasco dos americanos. E eu diria que é a própria fumaça, porque estive na cozinha por quinze minutos e saí a ponto de ser atacado por uma tribo gourmet de canibais.

A churrasqueira que eles desenvolveram e que é a primeira pit do Brasil é um armário de inox onde as carnes ficam estacionadas por até quatorze horas em prateleiras mais altas ou mais baixas onde a temperatura média é de cem graus, mas varia de acordo com a altura para atender à necessidade de cada corte, sempre controlado por um termômetro que espetado em seu interior sussurra por e-mail quando o clímax está chegando. Um forninho anexo faz fumaça de lenha sem parar, esta que é democrática e envolve todas as carnes de maneira uniforme.

Vale a pena experimentar a picanha, mais para entender a diferença do conceito do que pelo sabor. Porque a picanha é a nossa carne mais comum nos churrascos e dela todos têm uma referencia muito clara. Mas assim como não precisamos de picanha à milanesa ou ao poivre, não precisamos de picanha barbecue.

Vá direto ao que eles têm de melhor. Comecei ainda no balcão pela costelinha de porco, que como num crime perfeito descola do osso sem deixar vestígios. Evoluí para a coxa e sobrecoxa de frango, que depois do barbecue passa pela salamandra para pururucar a pele e vem com uma batatinha frita simples, bem passada e preparada no local. Chega fresca como tudo o mais. Das sobremesas irresistível é a torta de chocolate. Coisa incompreensível, consegue ser aerada e densa ao mesmo tempo. Só pode ser feitiço da dona Lynette.

E como nem só de Estadão vive o homem, aproveitei o roteiro bom e barato da Vejinha para ver o Empório Casa Portuguesa na Rua Cunha Gago. Foi o meu primeiro escolhido porque usa o emblema no serviço, tornando-se o centésimo-primeiro pratinho da coleção, logo depois do colossal A Bela Sintra, que é ótimo, mas não é barato. Fotos do acervo no facebook. Atendidos pelo garrido Juscelino, beliscamos bolinhos de bacalhau com uma cerveja portuguesa chamada Super Bock, comemos uma posta de bacalhau a Dom Gonçalo regada com uma garrafa de vinho e encerramos com os inevitáveis doces impiedosamente desfilados em conjunto ao final dos ágapes: pastel de Belém e queijadinha. Tudo a R$120,00. Ufa.

 
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Desaudio

Na terça-feira não pude ir à abertura da exposição Desaudio, do Lucas Lenci, na Fauna Galeria. Tinha meus motivos, outros compromissos. Mas no fim da tarde de quarta eu estava lá e assim que entrei percebi um motivo terceiro: ver as fotografias em silêncio. Alguém pode argumentar que o contraste do burburinho do coquetel seria interessante. Compreendo, respeito, mas mantenho a minha posição. O privilégio de estar ali sozinho provoca uma sensação ótima e irremediável, como se houvesse vida possível na paz do vácuo.

Minha Neguinha, ainda que envergonhadamente, vai concordar. Outro dia ela não resistiu e confessou que os museus no Brasil são mais gostosos de se visitar do que os da Europa, e por um motivo ruim: falta de público. É praticamente tudo nosso, um deleite contemplativo, sem prazo, sem pressa, sem as pessoas, que afinal são ou não são o inferno?

E logo na primeira parede estava lá a minha predileta: Domingo no Parque. É a cena de um jardim japonês onde até as sombras parecem estacionadas há milênios sob as árvores. Um relógio do sol ali estaria sempre atrasado.

A proposta dos fotógrafos, autor e curador, no caso o Cassio Vasconcelos, foi encontrar no baú do artista imagens silenciosas de tempos e espaços diversos que mesmo caladas se comunicassem entre si. Atrevidos? Talvez só no começo, porque depois de juntas elas se revelam gritantemente uníssonas, como se tivessem clamado para estar em grupo.

O ônibus até que enfim quebrado e mudo, o mar sem espuma, o navio fantasma em meio a neblina, perigosíssimo igual a cachorro que não late, morde, a velha sozinha pelo meio da rua deserta, outra que espera, o Metrô sem vivalma, Frank Sinatra afônico no cartaz e depois dele a ameaça de guerra, catatônico de medo, pontuando o último instante de paz, o limite que é o auge da sua preciosidade e que de novo só na terra arrasada.

O humor está na conversa de surfista, que afinal ninguém acredita ser possível. Depois da arrebentação é um dos lugares mais tranquilos que se pode estar. O silêncio se impõe. E as pessoas na areia ficam de fato insignificantes. Daí, talvez, o abandono das meninas na areia. Não há solidão maior do que a da namorada do surfista. E a solidão berra. Desaudio é a paz.

Crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Esperança na cidade

A lembrança é sempre uma coisa boa, tanto no sentido de ser agradável quanto como pode ser útil. Digo, uma má lembrança é positiva enquanto nos ensina o que não quereremos. Mas aqui vou falar das agradáveis, como só as memórias de infância podem ser.

Dizem que a imaginação é na verdade a interpretação da memória. Por isso o Napoleão falou que é mais criativo quem sabe mais. E também é por isso que ninguém supera as crianças: absolutamente tudo para elas pode ser realidade. Só depois, com os filtros, é que vamos distinguindo o joio do trigo. Mas se faz parte da infância, o joio agrada o homem.

Entre outras do século XX, a minha geração aprendeu amar e sonhar com algo que não faz sentido: motores a explosão e tudo o que os envolve, desde o cheiro até os sons, passando pela forma. Crianças urbanas como eu fui até na praia ou no campo desejavam os motores acima de tudo. É compreensível, dada a sedução das máquinas, a sugestão de autonomia. Mas a rigor tudo isso só serviu para criar dependência, e tão bruta que hoje sequer nos imaginamos livres dos carros.

Pior: a memória é tão boa que até no que tem de nojento pode confortar. Cheio de óleo queimado, daquele vagabundo, de motor dois tempos, das motos e das lanchas, é algo que me atrai. Igual à gasolina a qual se mistura ele traz boas recordações porque se dilui no meu tempo de criança, quando tudo era possível e real na minha imaginação.

Lembro de uma menina, a Gabriela Travaglini, filha de piloto de corrida, que de tão aficionada se divertia até com WD-40, o spray anticorrosivo. Na volta dos passeios a gente tinha que lavar as bicicletas para tirar o sal e a areia e depois bater o WD para proteger, e ela lá, se divertindo com o aroma.

Dizem que em nas cidades mais evoluídas da Europa estão conseguindo reverter os danos. Calçadas boas, transporte público eficiente e confortável e as magrelas tomando o espaço dos carros no espírito das pessoas. Não sou mais criança, mas ainda assim esta doce realidade no meu sonho é absolutamente real.

Há alguns anos me tornei pedestre. Foi compulsório, não de propósito, mas o que de pronto me pesou como um fardo hoje considero tamanho privilégio que quase sinto pudor em publicar. E se aconteceu comigo, pode ser com todo mundo.

A minha cidade não ajuda muito. Em São Paulo as calçadas estão péssimas, os ônibus agressivos, o Metrô atrasado e os taxis vão rareando. Bicicleta nem pensar, apesar da boa vontade daquele banco. E mesmo assim a minha vida melhorou muito, inclusive na busca do tempo perdido.

Comecei andar a pé e venho descobrindo as singelezas da vida que a infância automotiva me subtraiu. Há, em São Paulo, uma fauna e principalmente uma flora urbana surpreendente, e a tendência é de melhora. Há a possibilidade de eu estar encantado como acontece com qualquer novidade, mas já são alguns anos de pedestrianismo e a sensação só aumenta.

Apesar da vida estar mais agressiva de modo geral há um renascimento da simpatia. Os clássicos das casas amigas que foram mortos pelas grades e muros, ou perderam relevância para os que ficaram dentro dos carros, como as flores na janela, as cadeiras no alpendre e os capachos desejando boas vindas, aos poucos estão voltando. As orquídeas, tão raras recentemente, já convivem tranquilamente no passeio público. A grosseria e a paranoia do arame farpado, das pontas de lança e cercas elétricas ainda predominam, mas acredito que chegaram ao auge e de onde estão só podem diminuir, minguar, morrer e deixar renascer uma cidade bonita e gostosa.

A esperança é onde o sonho encontra a realidade. Mas é algo sutil, que requer atenção para ser identificada. Por isso para encontrar esperança convém andar a pé e atento. Garanto: ela está por aí, basta querer encontrar.

crônica publicada no AMARELLO #10

 
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Pão e glória

Um advogado dos mais destacados que há por aí disse que uma causa tem que dar pão ou tem que dar glória; se der os dois, tanto melhor. É verdade. Todo mundo precisa de pão e de glória para viver. As expectativas podem variar tanto na quantidade bruta quanto na proporção entre quanto se quer de pão e quanto se espera de glória. Mas não salva ninguém, e sem o primeiro ou a segunda a vida perde o sentido.

Quem acha que não precisa se estrepa. Viver só de glória, com o perdão do jogo de palavras barato, é uma luta inglória. O espírito mais alto quer um corpo para viver, e o corpo precisa de pão. E o inverso é verdadeiro: o corpo que acreditar possível viver só de pão vai acabar inanimado, isto é, e sem ânimo o corpo estará morto. Um zumbi vagando pelas ruas. E gordo ainda por cima.

E alguém há de perguntar: e ao amor? Ora, o amor é o que dá sentido a vida, mas o movimento depende do pão e da glória. Sem pão, diria o Nelson, nem o ódio é possível. Segundo a definitiva escola rodrigueana, para odiar o sujeito precisa de pelo menos um sanduíche. E para amar também. Mas não muito, porque pão demais prejudica o amor, que de glórias excessivas também se cansa.

A receita é o tempero, o equilíbrio, inclusive entre as pessoas. A repartição exata do pão e da glória mataria de tédio a humanidade. A graça está em quem prefira o pão em contraponto aos que gostam mais da glória, e até os mártires da radicalidade que escolhem entre um e outra nos tem serventia – embora nenhuma graça.

E a paixão é o pão quente, saindo do forno, e a glória é aproveita-lo estalando, seco e crocante por fora, úmido e fumegante por dentro, perfumado, saboroso, atraente e irresistível a ponto de se esfolar a língua. Há fornadas diárias, mas a gente só pega de vez em quando.

 
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