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Atenção

Vida social, para mim, implica atenção. Simples assim. Para haver uma relação entre duas ou mais pessoas, é fundamental que haja atenção recíproca. Caso contrário é bem melhor estar sozinho do que acompanhado. Sozinho o homem tem a possibilidade de pensar intensamente em alguém, ou em nada – isto que é impossível de se fazer em má companhia.

Não concebo gente que faz vida social na academia de ginástica. Ora, ou bem se faz uma coisa, ou bem se faz outra. Ficar de papo entre um aparelho e outro me parece um total contrassenso, mesmo para os tarados que sentem prazer em levantar peso. Por que não cumprir o dever de uma vez e depois sair para socializar em lugar adequado, onde seja possível prestar atenção recíproca? E vale para o trabalho, que também é pesado, ou para as coisas leves, como passeios, praça, bar. O Tancredo dizia que a gente não deve levar os amigos do trabalho para o bar nem os do bar para o trabalho, porque estraga o bar e estraga o trabalho. O vulgar diria: cada macaco no seu galho. Ficar de prosa atrasa o serviço e assuntos profissionais significam a ressaca antes do pileque.

Com arte também não se mistura conversa. Pode-se ir acompanhado ao cinema, teatro, museu, galeria, biblioteca. Mas a contemplação da obra é um momento único, individual, não cabe comentário de parte a parte. Depois, no café, na pizza, no banco da praça, é outra coisa e é uma delícia onde a troca de ideias só acrescenta.

Quando eu tinha quinze anos passei um mês num SPA em que estava a Leilah Assumpção. A gente não se deu bem, mas até hoje guardo um palpite dela que achei interessantíssimo: música se ouve em silêncio. Claro que o silêncio é de quem ouve, mas o contraste na imagem é lindo. Há uma palavra para definir esse tipo de impossível.  Dona Leilah é radical, mas não deixa de ter razão. Musica ambiente é igual enfeite em estante de livros ou acessório abaixo da cintura: vem para poluir. E no volume que é tocada hoje chega a sufocar.

No Bataclã do Julinho, que foi a versão 2013 da festa mais bacana da cidade, tinha de tudo: champanhe de verdade, damas de todas as classes e todos os sexos, uns dez tipos de bigode, strip-tease, flores, bexigas, comida quente, tudo lindo, elegante e sincero. E principalmente assunto, e tanto que ninguém sentiu falta da música – até porque esta também era de primeira qualidade. Estavam lá, para ficar em dois baluartes, Roberto Luna e Nanana da Mangueira. Segura? Piano de cauda, tantã, violão, pandeiro, metais. Só que era praticamente acústico, desplugado, quem queria dançar dançava, quem queria cantar cantava – e quem queria conversar, conversava – pasmem vocês! Amigos íntimos e/ou instantâneos podiam trocar atenção.

Conversa boa tive com o Peréio diante do mapa mundi que o Julinho mandou colar na parede para o João Pedro. Fiquei ali olhando o mundo político e tive certeza: o mundo deu certo onde a divisão de territórios é espontânea e detalhada. Europa, Japão, tudo pequeno, característico e dividido espontânea e naturalmente, por rios, colinas, costumes. Onde a régua totalitária decidiu onde começa um povo e acaba o outro deu tudo errado. Os Estados Unidos talvez sejam a exceção, porém não completamente, porque cada estado tem lá sua independência.

Mas o que eu queria dizer é isso: estar ao lado não significa estar junto, nem o inverso, onde os distantes estariam separados, é verdadeiro. Esse negócio de se reunir para fazer ginástica, ver o futebol ou ficar se esbarrando no escuro e com uma música ensurdecedora para mim não é vida social. Melhor encontrar os amigos no facebook. Ou, de preferencia, numa mesa por aí, com uísque, gelo e, fundamentalmente, atenção.

 
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Serra acima

O Andrea Matarazzo é o melhor candidato disputando estas eleições. Inclusive se comparado com os que estão concorrendo a prefeito. Aliás, nunca houve uma candidatura desta categoria. Em São Paulo o Montoro foi vereador, o Madeira foi vereador, o Suplicy, a Zulaiê, a Soninha e o Aldo Rebelo também foram. Mas é a primeira vez que um político com tanto serviço prestado, que já foi ministro, embaixador, secretario e prefeito de fato – até 2008, quando esteve à frente das subprefeituras, quem decidia era o Andrea, e a administração tinha 61% de ótimo e bom –, enfim, é a primeira vez que alguém desta envergadura se propõe a encarar a Câmara Municipal e modernizar as leis que emperram a cidade e hoje só atendem aos quem têm interesse pessoal, financeiro e escuso em dificultar a vida das pessoas.

O Andrea conhece a cidade no detalhe. Quem escuta ele falando conhece uma realidade que nem imaginava. Pode ser sobre o esquema de contrabando de DVDs piratas, a distribuição do crack na região da Luz, a retomada e entrega do Parque do Povo, a construção da acessibilidade na Paulista, a logística de coleta do lixo (em dias secos ou de chuva), a calamidade que é o transporte público, onde a maioria da população viaja três, quatro horas diárias em ônibus montados sobre chassis de caminhão, com câmbio mecânico, sem ar-condicionado, sujos, superlotados e rodando sobre asfalto esburacado, sendo que de alguns pontos da Zona Leste há setenta e duas paradas para embarque e desembarque. É desumano e a gente nem se dá conta. As pessoas não tem tempo sequer para cuidar dos filhos ou da própria saúde, e só suportam anestesiadas pelo açúcar das maria-mole de um real o quilo que vendem em cada terminal.

E ele aponta desde as soluções simples, como melhorar o asfalto; passa pelas de média complexidade, como instalar semáforos inteligentes nos corredores e modernizar a frota; e alcança as mais difíceis, mas importantíssimas, que são a legalização e urbanização das áreas irregulares na Zona Sul e na Zona Leste para as empresas poderem se estabelecer e o emprego estar perto de onde as pessoas moram.

Lei de Alvará, poda de árvores, serviço funerário mafioso, caçambas de entulho e outras aberrações paulistanas; facilitação de licenças para realização de eventos, locação de espaço público para produção de cinema e TV; economia criativa, notadamente serviços e entretenimento que hoje são a base da nossa geração de receita; preservação dos bairros – e para botar limite na lista enorme de ações que ele sabe como fazer para melhorar a nossa vida, uma que é até covardia: distribuição de conteúdo para os equipamentos culturais que já temos espalhados e que são subaproveitados.

O meu candidato a prefeito também é ótimo, foi o melhor ministro da Saúde do mundo, em 2004 salvou São Paulo do desgoverno petista e em 2006 deixou a prefeitura para se candidatar a governador e foi eleito no primeiro turno. Concluiu o mandato de governador se candidatando a presidente e em SP ganhou da Dilma e do Lula, tanto no estado quanto na capital. Apesar da experiência e da capacidade indiscutível, nesta eleição ele só não é melhor candidato do que o Andrea porque traz uma rejeição brutal, que segundo o Datafolha alcançou 45%.

Mas sejamos francos: um índice de rejeição desses sobre quem não está exercendo cargo algum é algo absolutamente emocional. Dizer que não vota no Serra porque ele saiu da prefeitura para ser governador é balela – e tanto que em 2006 ele teve na capital mais votos do que em 2004, sendo consagrado, repito, já no primeiro turno. Por isso é claro que agora, no segundo turno que começa na segunda-feira, e portanto uma nova eleição, a razão será contraposta à emoção e todos vamos entender a importância de não fazer birra ou brincar com coisa séria e eleger o José Serra prefeito.

Já o apelidei de Zé Gotinha e insisto: vamos votar no Serra igual a criança em campanha de vacinação: chorando, mas sabendo que é o melhor remédio. Afinal, não dói nada e garante um futuro melhor para todos nós.

A tendência indicada nas pesquisas é a queda vertiginosa do Russomanno, que deve embolar os três primeiros colocados. O risco de uma surpresa é grande e a história ensina que em SP tudo pode mudar na última hora. Por isso não convém voto de protesto, brincadeira com Soninha, Chalita ou nulo. Temos que concentrar no Serra.

Vamos lá: engula o choro e vote Serra 45 para prefeito. A recompensa é poder votar para vereador no Andrea Matarazzo 45.450 e ajudar no alinhamento dos trilhos que farão dele o nosso próximo prefeito. Porque não basta a SP ser locomotiva: temos que andar nos trilhos e depressa.

 
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Olhar científico

Por essa eu não esperava: tenho olhar de cientista. Foi o que descobriram recentemente uns colegas profissionais do ramo lá nos Estados Unidos. Eles estudaram a percepção dos bebês e concluíram que eles pensam cientificamente, isto é, com noções de estatística.

Foi assim: colocaram uma caixa com muitas bolas brancas e poucas bolas vermelhas diante dos filhotes, e ao lado uma segunda caixa, pequena, sugerindo a amostragem do que havia na grande. Quando o extrato acompanhava o todo, com as brancas predominando, os bebês não davam bola – sem trocadilho. Já quando a maioria era de bolas vermelhas, indicando uma desproporção, escasquetados eles ficavam vidrados na caixinha.

Eu sou igual aos bebês que são iguais aos cientistas. Algo que destoe do padrão toma completamente a minha atenção. Pode ser boa, como a flor que brota no cimento – obrigado, Rubem – e pode ser ruim, como gente miserável dormindo nos caixas eletrônicos dos bancos que lucram dezenas de bilhões por ano, e principalmente os maus modos das meninas bonitas, que me trouxeram aqui hoje.

Não é de hoje que acontece de eu ficar desagradado com a falta nas meninas do que a minha avó Hosmildinha chamaria de “maneiras”. Nos moços já perdi a esperança, porque há entre os nossos contemporâneos uma cultura da grossura, seja em forma de dinheirice (patologia que consiste em conversar sobre os preços, não sobre os valores das coisas e que também contaminou o mulherio), na preferencia por parecer sujo e cafajeste, usando jeans, tênis e camiseta surrados até em velório, e mesmo o básico do básico, que é dizer por favor, obrigado, pedir licença rareou. Desejar saúde a quem espirra já é praticamente um fetiche vintage, que provoca gargalhadas de quem escuta.

Mas as meninas me parecem apostar numa vida melhor, mais refinada. Não há uma, nem as rastafári ou as bicho-grilo, que prefira aparecer com o cabelo ensebado, unha por fazer, calcanhar rachado ou sovaco peludo. Todas elas, podendo, vão se cuidar. E na maneira de vestir é a mesma coisa. Até rippie é chique e as intelectuais não abrem mão daquele colarzão vermelho característico. Certas moças, por mais tatuagens que colecionem, continuam parecendo bonequinhas de louça. Louça de Monte Sião, mas louça mesmo assim. Pessoalmente elas são gentis com as pessoas, ainda que neste quesito, de tratamento, as exceções já comecem despontar.

O problema é que tudo isso é casca. Digo, lustrar as unhas, iluminar as madeixas, mergulhar numa banheira de creme de leite de cabra e comprar o que há de melhor para vestir são coisas que estão ao alcance do dinheiro. Assim, se não são propriamente fáceis de conseguir, são bem menos difíceis do que, por exemplo, mudar o hábito de comer como se a comida tivesse chance de fugir do prato.

E como elas gostam de valorizar coisas sofisticadas! Vinhos e acessórios absurdos são os prediletos na hora de disfarçar grossura. E tome taça que parece aquário, decantador inclusive para vinho novo, gente cheirando até rolha de borracha.  Como bem diz o Black Linhares, que está com tudo lá na Croácia, “quanto melhor a pessoa faz evoluções com a taça de vinho, pior ela maneja os talheres”.

É onde eu queria chegar. No sábado fui a uma churrascaria badalada com a minha Neguinha e numa mesa próxima tinha uma menina linda e bem vestida comendo como se o bife fosse seu inimigo. A figura destoava tanto dos gestos que quando ela arrematou o respasto bochechando com o suco de tangerina chegamos a pensar que tratava-se de uma pegadinha. Fiquei pensando a tristeza do Jeca que conhece uma cocota dessas numa festa e se apaixona antes de sair para jantar. Logo em seguida, depois da gatinha se retirar com a família, aconteceu o improvável: uma loirinha mais bonita ainda chegou com o namorado, bonito e bem tratado da mesma maneira. E pasmem vocês: ela mastigava de boca aberta. Não que faça um comentário assim pontual, discretamente. Parecia um caminhão de lixo engolindo os sacos, algo brutal, dantesco. E o gatinho ali na frente, cheirando a rolha com maestria.

Não sei o que será de mim, porque minha impressão é que não vou me acostumar.  Confesso que sou um chato e implico até com quem usa a faca com a mão esquerda, muito embora jamais me manifeste, até porque não chega a me agredir. Mas mastigar de boca aberta, bochechar, gesticular com o talher à mão me agridem – e são cada vez mais comuns.

Os bebês e os cientistas provavelmente têm a sorte de, uma vez notando que as bolas vermelhas já são a maioria, deixar de reparar na diminuição das brancas. Mas eu nem isso! Triste de mim.

 
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Complete o ciclo

O Luis Fernando Veríssimo está lendo alguma coisa do Einstein. Deve ser uma biografia, livro de memórias, confissões ou coisa que os valha. Na semana passada ele fez uma anotação interessante: ter ganhado uma bússola quando criança foi o que despertou no gênio a curiosidade sobre a força da Natureza, notadamente o magnetismo que puxa o ponteiro para o norte.

Esta semana ele voltou com uma tese deliciosa sobre o fogo de lenha, que, sabe-se, é uma das coisas que inebria o homem, ao lado da água corrente e de outra que não vou dizer aqui. O fogo crepitante nas lareiras, segundo o gaúcho, provoca nos povos do frio algo que nós aqui nos trópicos desprezamos, ou prezamos menos, por viver sempre com o sol na cabeça: a contemplação continuada do fogo, segundo ele capaz de expandir conceitos lenta, consistente e irreversivelmente, coisa impossível se realizada diretamente sobre o sol, que nos deixaria cegos.

A lenha, na teoria do Veríssimo, queimando controladamente depois de anos e anos absorvendo a luz do sol tem um simbolismo único, que faz pensar na existência de tudo que é vivo: a primeira vocação de qualquer vida é se transformar em energia combustível. O ciclo da vida só se completa com a queima. Animais ou vegetais, depois de mortos e decompostos, vão se transformar em petróleo. Há quem prefira ser cremado como lenha e abreviar a história, mas não ele, que quer ser enterrado e passar pelo processo todo, indispensável para ser iniciado na nobre irmandade dos inflamáveis.

Para mim tem a ver com fenômenos sociais atuais que estão espalhando ansiedade e frustração nas pessoas. A efemeridade se tornou uma constante, e no lugar de um curso lógico e continuado, a vida vai acontecendo aos soluços, de maneira que estamos todos nos exaurindo antes de sequer descobrir uma vocação, uma serventia para a vida. É como se antes de ter um tronco as árvores pretendessem dar frutos, flores ou sombra. Não podem.

Não há sina mais triste que a do carvalho que não encontra seu caminho e morre arbusto, feito batatinha, se espalhando em ramas pelo chão. Da mesma maneira a batata que quiser viver nas alturas jamais alimentará o vencedor, que é a sua vocação. E não há nada mais triste do que o talento desperdiçado. A gente é para o que nasce, como disseram naquele filme.

Por menor que seja o papel de alguém na vida, ele pode e deve ser exercido com grandeza. Aos dez anos de idade eu ganhei uma espingarda de chumbinho. Fiz muita bobagem com ela, algumas doloridas até hoje. Destaco três parecidas que se encerraram de maneira diferente no meu íntimo: atirar em passarinho.

Um eu matei em Juquehy. Ele estava pousado na vara mais alta de um bambuzal que ficava na minha casa e, da sacada de um vizinho mirei e acertei em cheio. À distância, há uma eternidade entre o disparo da arma e a conclusão do tiro. Você sabe que acertou quando o passarinho cai. E ele cai direto, sem sequer mexer as asas. Morto instantaneamente. Fui correndo conferir e ele estava lá. Não me lembro se simplesmente escondi o cadáver ou providenciei um enterro digno como gostaria de contar agora para tentar me redimir pelo menos um pouco 

O segundo acertei em Louveira, de perto, covardemente. Pior: não matei. Quando fui ver o corpo o bichinho estava puto, ferido, e teve a honra de se defender de mim, seu algoz, mesmo baleado e completamente vulnerável, mas com tamanha bravura que a besta aqui o deixou lá, sem a coragem para fazer o tiro de misericórdia.

Mas aqui em São Paulo, junto com o Cícero, que era um negrão simpático, a la Mussum, que trabalhava como porteiro no meu prédio, e o Reginaldo de Melo Lima, uma peça que trabalhava como motorista na minha família, acertei uma rolinha, que do poste veio morrer na grama do jardim. Quando a vi no chão fiquei com aquela sensação de bebê cagado, mas logo a movimentação de aprovação começou e meu espírito mudou: comeríamos a rolinha!

Eles depenaram, abriram e tiraram uma pamonhazinha que tinha na barriga dela. Temperamos com aquelas porcarias prontas de alho e sal e fritamos no azeite. O Cícero ficou com a parte escura de boreste, o Reginaldo com a de bombordo e eu, sendo o mais novo, tive que me contentar com o peito – que estava delicioso. Dourado, tenro e crocante.

O que me conforta é isso: ter digerido a rolinha que matei. A vida, naquele momento, foi boa para nós dois. E sempre será quando os ciclos forem cumpridos. Se forem coloridos, tanto melhor. Mas o importante é cumpri-los.


 
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Minha casa da luz vermelha, minha vida

Uma menina de Santa Catarina está leiloando a virgindade num site australiano. Aparentemente, para ela as questões morais estão superadas. Acertou-se com a família, diz que é maior de idade, vacinada e faz o que quiser com o próprio corpo. Muito bonito. Digo, tanto o gesto quanto o corpo – aos vinte anos, pouca coisa não presta. Mas o importante é criar exemplos diferentes para ajudar a sociedade na reflexão sobre temas fundamentais, como, de pronto, prostituição, virgindade, aborto e até doação de órgãos.

As questões legais também mereceram cuidados especiais: o defloramento será realizado a bordo de um avião em pleno voo, pare evitar a dura das leis daqui ou de acolá, medida inteligente e simbólica, porque universaliza o ato, levando o tema a países onde o debate continua ainda mais atrasado do que por aqui.

Mas voltando às questões morais, que envolvem a família como instituição, achei pra lá de bacana a postura da mãe da moça, que pessoalmente está contrariada, mas deixou claro seus princípios: não pode nem quer proibir a filha maior de idade a fazer o que quiser do próprio corpo.

No caso ela vai pegar a grana – os lanços já passam dos trezentos mil reais – e criar uma ONG, que deverá trabalhar no sentido de dar as pessoas um lar. É fantástica a noção artística dessa menina. Através dos contrastes está provocando um esclarecimento social imensurável: dar um teto às famílias fazendo aquilo que historicamente tem levado tantas meninas a serem expulsas do próprio lar. É um golpe e tanto no preconceito, na cretinice, na intolerância. A ONG deveria se chamar Minha Casa da Luz Vermelha, Minha Vida.

Os pelo menos quatro temas relacionados, repetindo, prostituição, virgindade, aborto e doação de órgãos, têm muito a ganhar. Ela está fazendo o que quer do próprio corpo, exatamente como deveria ser direito universal de qualquer mulher, inclusive em relação ao aborto e à prostituição continuada– se uma pessoa ser empresaria, empregada ou profissional liberal de massagem, por exemplo, que nada mais é do que troca entre dois corpos que geram prazer, por que raios a mesma coisa não vale para o sexo? –, e se uma menina vai trocar o hímen por dinheiro – enquanto tantas dão de graça – por que alguém que precisa mais de dinheiro do que de um dos rins não pode fazer o mesmo, enquanto tantos dão também de graça? Só vale e só é bonito se existir amor? Amor direto? Indireto não vale? E sem amor? Quem disse?

 
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A primavera da participação

Há quem viva fora de sintonia com a própria época. Pode ser para frente e pode ser para trás. Digo, os saudosistas, que vivem morrendo de saudades do passado – inclusive os que eles não conheceram, ao que chamam nostalgia – e os progressistas, que enxergam e por vezes até vivenciam uma situação que só vai se confirmar depois de muitos anos. É verdade que também temos há os que misturam as coisas e se acham na vanguarda do que já caducou. Mas aqui vamos falar de gente séria. Notadamente de alguém que poderia servir à sociedade e ao mundo em qualquer época, corrigindo erros do passado e apontando caminhos para o futuro sem descuidar de realizar o presente. O meu tio-avô André Franco Montoro foi um desses caras. É, por assim dizer, um clássico, adequado a qualquer época, mas com períodos de maior ou menor evidência.

Vou tentar usar apenas os exemplos das coisas que ele falou e repetiu, e repetiu, e repetiu e que estão ultimamente todo dia no noticiário, na academia, nos governos, nos fóruns locais, regionais, nacionais, internacionais: hidrovias, hortas comunitárias, meio-ambiente, democracia – além da primavera árabe, não se pode deixar de considerar o mensalão, que foi a compra de votos no parlamento, como um golpe contra a democracia.

Mas o principal talvez seja a participação popular. Isto é, a internet botou a interação entre as pessoas, sejam cidadãos, marcas ou governos na ordem do dia. Está no artigo de ontem do Luiz Alberto Ferla no Estadão. Ele afirma que “interagir é o mais importante, porque na web não é permitido falar como se estivesse num comício tradicional (no que o Montoro também era ótimo, por sinal). Vale lembrar que nesse espaço democrático, antes de falar, é melhor escutar, compartilhar, trocar experiências, dividir e discutir pontos de vista.”

Isso o bom Ferla recomenda a quem queira ganhar simpatia e reverte-la em votos. Mas para o Montoro era antes o jeito de viver e governar. Descentralização e participação eram as chaves. E a razão é mais prática do que filosófica: quem sabe dos problemas dos lugares são as pessoas que moram neles, e as pessoas moram nas cidades, não na União. Daí que quem tem que decidir é o prefeito, ou o subprefeito, não o presidente da República.

Mas o artigo é basicamente sobre como a internet vem sendo desprezada pelas campanhas eleitorais no Brasil – e como se não bastasse deixar de ganhar o eleitor que está na rede, os candidatos estão bancando um custo financeiro absurdo de produção para televisão, sendo as mais ricas produzidas com qualidade técnica de cinema; e custo político para garantir mais tempo para exibir a obra, entregando a vice-candidatura e apodrecendo as coligações nas candidaturas proporcionais.

O caso que mais me aborreceu foi o do meu candidato, José Serra, já alcunhado Zé Gotinha, no qual votarei (votaremos) feito criança em campanha de vacinação: chorando, mas sabendo que é o melhor remédio para evitar a paralisia do PT ou a doença do Russomanno. Pelo tempo de TV do PSD, aquele partido que não é de centro, nem de direita, nem de esquerda, e que tem como líder (provisório) o Kassab, que vem contaminar a campanha com metade da cidade rejeitando a gestão realizada nos últimos quatro anos. Mas o Haddad fez ainda pior: foi com o Lula à casa do Maluf tirar retrato. Quer dizer: fez o que quis o doutor Paulo, embora considere degradante ser associado à sua figura, bem como a dos seus líderes petistas, os josés mensaleiros, Dirceu e Genoíno.

O caso mais triste, porém, jaz no passado recente, mas será eternamente constrangedor: Geraldo e Serra gravaram em 2010 mensagens reconhecendo o legado do famigerado Orestes Quércia em troca de uns minutinhos a mais na televisão. Lamentável. Só não digo mais porque sei que deve doer mais neles do que em mim.

A esperança de dias melhores vem na mensagem do Ferla, que deve acabar dobrando os coordenadores das campanhas. Fala o Ferla:

“O número de pessoas com acesso à internet no Brasil já soma mais de 82 milhões e essas pessoas passam cerca de cinco horas por dia nas mídias sociais.”

“Uma pesquisa mostrou que em 2010 mais da metade dos norte-americanos (mais ou menos 127 milhões de pessoas ou 73% dos adultos navegantes) obtiveram na internet informações sobre eleições.”

“32% dos usuários de internet adultos tiveram nela seu principal meio de informação ou de envolvimento com a campanha eleitoral. E 22% usaram as redes sociais para fins políticos.” No Brasil, 50% das pessoas ainda não assistiram pela televisão sequer um instante político.

“Obama começou a corrida com 17 milhões de seguidores. A grande inteligência da campanha foi usar as redes sociais para direcionar mensagens a grupos específicos, como hispânicos, mulheres e jovens.”

E antes de encerrar dizendo que mais de 40% do eleitorado brasileiro têm menos de 34 anos e que essa turma vive plugada nos telefones espertos, tabletes e computadores, notadamente quando começa o horário eleitoral gratuito, ele lembra que toda ação na internet pode e deve ser medida antes, durante e depois de realizada, com fidelidade e instantaneamente.

A partir disso podemos presumir o porque da televisão continuar tão importante na cabeça dos reacionários: envolve mais dinheiro e menos trabalho e dedicação. Mas eles estão com os dias contados. O jeito Montoro de fazer política está renascendo. É a primavera da participação.

 
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Forte é quem protege

Na semana que passou o BOPE ganhou um brinquedo novo. Desta vez um quadriciclo veio se somar à frota que já conta com jipes, motos, tratorzinhos, caminhões, caminhonetes e o célebre Caveirão – tanto o que vai no chão quanto um que voa igual a helicóptero, só que à prova de bala e com mil canhões assim,  tipo o zepelim da Geni.

E é tudo muito bonitinho, lúdico até, apesar da cor preferida: pretinho básico (o Léo Pinto Silva diria teflonado), como se a Coco Chanel estivesse desenhando para o Playmobil. E desenhando em parceria com o Alexandre Herchcovitch, já que eles não dispensam a caveira.

Fico olhando e imaginando a grana que vai nessa guerra às drogas. Nos Estados Unidos, onde tem mais grana, o gasto é proporcional: no Golfo do México, que os separa dos cucarachos, a patrulha fica por conta dos Marines, tropa que se não me engano inclui os Fuzileiros Navais, que são aqueles caras brabos que a gente vê nos filmes, mais machos que os nossos gaúchos. Lá tem navio, avião, satélite e milhares de soldados.

Uma coisa é igual: tanto lá como cá quando prendem alguém é sempre um pobre diabo, malnutrido e não raro bixiguento. Aqueles traficantes bonitos, em ternos de linho branco fumando charuto num solar tropical eles não pegam. E se não pegam, das duas uma: ou não querem ou esses tipos não existem.

A pergunta que deve ser feita sempre que alguma coisa não faz sentido é: Que vantagem Maria leva? Isto é: a quem interessa a insistência na proibição e na guerra contra as drogas? Dizem que a primeira interessada foi a aristocracia do algodão dos Estados Unidos, porque a fibra do cânhamo é superior à do algodão para fazer roupas. Mas isso tem jeito de ser teoria de maconheiro desenvolvida entre um e outro brownie. Vá saber. A mesma coisa falam dos laboratórios farmacêuticos e das fábricas de cigarro. Duvido. Com a legalização eles só acrescentariam mais drogas e fumo ao cardápio que já oferecem regularmente.

Mas tem um pessoal muito poderoso que evidentemente fatura com a guerra contra as drogas ou qualquer outra: o mercado bélico. Quando mais repressão, para eles, melhor. Vendem para os dois lados. E depois para o terceiro, que é o cidadão que não fuma nem cheira ou governa, mas tem medo da violência e procura se proteger como pode, seja com armas, blindagens, segurança particular, sistemas de vigilância.

O que eles mais fazem é alimentar a nossa paranoia para evitar que a gente perceba o óbvio: a sensação de força vem muito mais de quem protege do que de quem ataca. Quer dizer: um Estado forte é o que protege seus cidadãos, com educação e saúde, prevenção e tratamento no combate às drogas, e não repressão e guerra.

Quantas escolas poderiam ser construídas com o dinheiro do caveirão helicóptero? E quantos professores não poderiam ser bem pagos só com o que ele bebe de gasolina? No Golfo do México, os Marines fariam melhor serviço arranjando um jeito de vigiar o fundo do mar onde estão as bombas de puxar petróleo e evitar vazamento.

Hoje passei diante do Museu da Casa Brasileira, que finalmente trocou os muros por gradis que permitem a visão do quintal, lindíssimo, poético, muito mais lúdico e ao mesmo tempo eficiente para uma vida melhor do que exércitos armados.

Nós precisamos de soldados, é claro. Mas a vida boa não pode depender deles. Desse jeito nunca vai dar certo. Batalhões de professores, médicos e jardineiros é do que precisamos.

 
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Intimidade é cheiro

O elevador estava subindo, ou quem sabe descendo, não me lembro, até porque o que me marcou foi quando ele parou e um homem saltou, aparentemente porque tinha chegado em casa. Neste átimo pude sentir o cheiro da sua casa. Não era bom nem ruim. Era simplesmente outro, diferente. Era o cheiro da casa alheia.

Não era de sopa de mandioquinha nem de xixi de cachorro, lírios brancos ou incenso. Era o cheiro da casa alheia. Da outra casa. A casa do outro. Que eu não conheço e muito menos conheço. Por isso percebo.

Desci – ou subi – com a noção definitiva: intimidade é cheiro. Quando o homem deixa de perceber o cheiro de um lugar é porque já faz parte dele. O melhor cheiro da própria casa o homem só conhece na saudade, no retorno. Por outro lado, o pior dos fedores, se íntimo, sequer existe. Há sobre a flatulência um dito popular: cada um suporta a sua.

Nisso somos completamente animais. O bebê reconhece a mãe pelo cheiro. Quando cresce e aprende outros cheiros e outras coisas tantas ele acha que se esquece do cheiro da mãe, mas na verdade só não consegue descreve-lo ou racionaliza-lo, como se fosse alecrim. O cheiro da mãe fica no sub-consciente, aquela parte do cérebro que ninguém vai de propósito ou penetra – só entra convidado.

Os lugares coletivos não têm cheiro. Não tem personalidade. Aeroporto, por exemplo, ou loja do Mac Donalds: no mundo todo é igual. Mas a rodoviária mais erma e distante, aonde chega e sai pouca gente, guarda características próprias. Depois de trinta anos o homem volta e o café do bar, passado na hora do dia em que o ônibus estaciona, encontra uma festa na janela para saudar o filho que a casa torna.

Quando um cheiro muito íntimo passa a chamar atenção é sinal de que algo vai mal. Pode conferir que não falha. O próprio suor, a urina, se disserem alguma coisa, convém buscar interpretação especializada. É o famoso cheiro de queimado, que vem lembrar a torrada esquecida no fogo.

O cheiro da mulher é o mais delicado de todos, tanto nas características, quanto no trato. Não se pode acostumar com o cheiro da mulher. É muito mais gostoso e saudável encontra-la sempre cheirosa. O costume, neste caso, pode ser fatal. E é raro, mas se o cheiro da mulher chegar a incomodar, convém o tratamento drástico da comparação e, em último caso, da saudade. Se a falta do cheiro da mulher não te matar é porque para você ela já morreu.

 
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A Cesar o que é de Cesar

Na sexta-feira saí para jantar fora e reconheci o senador Delcídio Amaral, do PT do Mato Grosso do Sul. Comentei com a minha Neguinha que a gente deveria ir lá cumprimenta-lo, porque sempre que festejamos os votos do ministro Joaquim Barbosa e de seus pares, que vêm condenando os mensaleiros, um quinhão dos aplausos deveria ser dedicado ao senador, pela isenção e firmeza com que conduziu a CPI dos Correios, que serviu de base ao processo.

E a Nega, que ao contrário de mim é serena e reservada, me pediu encarecidamente para desistir da ideia. Poderia, segundo ela, parecer antes provocação do que justa homenagem. Mas o Neguinho aqui, que já vinha da espera com dois Manhatans devidamente tragados e a convicção de que a Cesar se entrega o que é de Cesar, pediu licença para ir ao banheiro e se dirigiu à mesa onde o bom Delcídio jantava. Pedi licença e desculpas por interromper e perguntei se ele era o senador Delcídio Amaral, que respondendo afirmativamente se levantou para ouvir mais ou menos o que propus no primeiro parágrafo – e ficou muito agradecido.

Cada brasileiro pode imaginar a pressão que esse homem sofreu dos correligionários, alguns companheiros de toda a vida, para transformar a CPI numa pizza fantástica. Para se ter uma ideia, basta pegar o que o senador Osmar Serraglio, do PMDB do Paraná, que foi o relator da CPI, sofre até hoje com retaliações. Mas o Delcídio não cedeu. Foi firme, garantiu convocações, depoimentos, acareações. E ao cabo de alguns meses a investigação estava concluída, produzindo provas suficientes para garantir o trabalho da Polícia Federal, da Procuradoria Geral da República e outras instituições envolvidas.

A verdade é que da mesma maneira que toda a sociedade brasileira, exausta de tanta bandalheira, os mensaleiros e a turma que, sabendo ou não do esquema, se beneficiou dele enquanto foi governo, como os presidentes Lula e Dilma, todos acreditavam na impunidade. Os primeiros com desolação, os demais com aparente esperança. Primeiro a gente pensava que a CPI daria em pizza. Então que o processo ia caducar antes de chegar a ser julgado. Depois que alguma manobra melaria tudo. E até que o voto dos ministros seria parcial e obediente ao presidente que os nomeou. Mas a medida do bem que o funcionamento da Justiça está fazendo ao Brasil está no brilho dos olhos de cada cidadão que quer ver enfim esses gafanhotos na cadeia, e a mesma medida é o desespero de alguns deles, como o atual aspone José Genoíno, o acusado de ser o líder da quadrilha, Zé Dirceu, e até o Lula, que depois de ter sido apontado como chefe do mensalão pela matéria da Veja sobre os segredos do Marcos Valério não processou a revista nem o publicitário.

Ninguém poderia imaginar que a história corrigisse tão rápido o legado do Lula. De salvador da pátria o sujeito vai pra baixo de Maluf em coisa de dois ou três anos. E como não poderia ser diferente isso desnorteia qualquer um. Se disse decepcionado com os ministros do Supremo que fez o favor de nomear, espalhou que vai recorrer da decisão do STF aos organismos internacionais e consta que já fala até que o julgamento seria um golpe das elites. Pode ser tão patético?

Golpista é a turma dele. Digo e repito que quem pegou em armas para derrubar a ditadura no Brasil não queria a democracia, mas o próprio modelo totalitário – no caso de Dirceu e companhia, a la Fidel Castro. Mas democracia se faz com ideias, não chumbo. E assim foi feito pelo Montoro, pelo Tancredo, pelo Ulysses. E com o Fernando Henrique avançamos muito, tanto com o Plano Real, que simboliza a democracia econômica, quanto com o respeito, por exemplo, à liberdade de imprensa – lembrem-se que o Collor mandou invadir a Folha e o Lula queria expulsar o correspondente do New York Times e o “controle social da mídia”.

Como não deu certo com chumbo eles voltaram com a grana, e invés de fechar o parlamento, compraram os parlamentares com o mensalão, o que é golpe da mesma maneira. O dinheiro é capaz de subverter até a paixão, quanto mais a ideologia.

O último jogo do Brasil contra a Argentina assisti numa pizzaria, e aos poucos os garçons, manobristas e pizzaiolos foram se juntando no salão para acompanhar a partida na televisão. É impressionante como ficam apáticos. Por obediência ao salario, sublimam a paixão que têm pela Seleção. E isso é muito triste. Eu olhava para eles, olhava para a pizza, e pensava nos deputados comprados pelo PT em dia de votação. De um lado, trabalhadores honestos, querendo a alegria de um gol. De outro, políticos corruptos, apodrecidos, castrados da opinião própria. No meio, a pizza, que graças a Deus, ao Delcídio, ao Osmar, aos delegados, procuradores, ministros e a cada brasileiro vigilante me parece cada vez mais distante.

 
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A vida vai melhorar

Sobre os incêndios nas favelas de São Paulo,  além das hipóteses de acidente e de problemas criados pela seca, pairam ainda pelo menos mais três, todas criminosas: especulação imobiliária, negligência pública e terrorismo eleitoral. Ou tudo junto e horrorosamente misturado.

O de ontem, na favela do Moinho, segundo o Reinaldo Azevedo, foi crime passional: um rapaz brigou com o namorado e ateou fogo não às próprias vestes, como faziam os personagens do Nelson, mas às do “objeto de seu desejo e rancor”.

Que está muito seco todo mundo sabe e só fala disso. A garoa de ontem mal serviu para baixar a poeira. Pude notar os carros hoje pelas ruas imundos do ar sujo que grudou sobre a pouca água que caiu do céu. Que venha mais, muito mais, para lavar. Mas em períodos assim de estiagem o fogo pega mesmo. Por sinal li ontem no Estadão digital que no morro entre o Juquehy e a Barra do Una, em São Sebastião, houve uma queimada braba, mas não tenho outras noticias.

Se os incêndios foram acidentais, alguém há de argumentar que está acidental de mais para ser verdade, mas os números oficiais que o Reinaldo botou na página dele desfazem a nossa impressão de que agora tem mais do que antes: na gestão da dona Marta, entre 2001 e 2004 foram 778 incêndios; durante o Serra, que ficou entre 2005 e 2006, 307; e de então até agora, nesses seis anos sob o Kassab, são 558.

É pouco? Claro que não. É um absurdo, mesmo tendo caído tanto. Um só já é uma desgraça. As favelas, aliás, em paz já são uma desgraça. E canalha é o que não falta para faturar com a desgraça humana. A hipótese de terrorismo eleitoral surge daí. Um terrorista desses é capaz de meter fogo numa favela para sapatear sobre as cinzas e o governo atual, como se este não tivesse na figura do prefeito seu maior adversário. Ninguém pode ser mais prejudicial à gestão atual do que o próprio Kassab. De qualquer maneira, convém lembrar que tudo pode ficar pior, e as pesquisas de intenção de voto estão aí para anunciar como.

Em especulação imobiliária eu sinceramente não acredito, e vou dizer por que: mais do que terror, seria uma burrice tremenda. As maiores possibilidades para as construtoras estão justamente na legalização das favelas. São milhões de pessoas vivendo na ilegalidade, sem posse do terreno onde construíram, sem escritura da casa onde moram, sem endereço certo para receber uma carta sequer e sem direito a serviços públicos básicos, como água, esgoto, luz e asfalto; posto de saúde, creche e escola próximos, uma pracinha mais ou menos então, nem pensar. A esculhambação é tão grande que acaba tendo, mas tudo meia boca, e por interesse dos canalhas de sempre que faturam sobre a miséria. Vontade de resolver pouca gente tem.

Um que sei que tem vontade e meios para fazer eu conheço e aponto com prazer e sem medo de ser repetitivo: Andrea Matarazzo. É o meu candidato e do Reinaldo Azevedo também.  Quer ser vereador para desfazer os nós que impedem as pessoas de viverem melhor nesses lugares e explica como, lembrando que no ano que vem o novo Plano Diretor da cidade vai estar na pauta da Câmara.

Na Zona Leste são três milhões e meio de pessoas, e na Zona Sul mais dois milhões e meio, das quais a maior parte vivendo em áreas de ocupação irregular, portanto impedidas dos serviços e equipamentos essenciais, e inclusive de trabalhar perto de casa, porque salvo um ou outro comércio pequeno as empresas não topam mais a clandestinidade, o que as impede de migrar para onde está a mão de obra – o que seria muito melhor e mais inteligente.

Para isso acontecer, ao contrário do que diz certo candidato a prefeito, o Estado não precisa ajudar – basta que não atrapalhe. A iniciativa privada não precisa de incentivo fiscal ou qualquer outro, basta legalizar e facilitar a vida de quem quer investir, diminuindo a burocracia e modernizando leis ultrapassadas.

Na Zona Sul, por exemplo, as áreas invadidas são mananciais, ou beiras de represa. O ideal seria que ninguém morasse ali. A realidade é que são milhões de pessoas. Fotografando, congelando, anistiando e legalizando, o Estado pode entrar enfim com o saneamento básico e estancar o esgoto de toda essa população que diariamente acaba nas represas. Com a escritura definitiva em mãos, os proprietários vão tratar de não deixar ninguém mais invadir, exatamente igual alguém aqui do centro expandido fará se erguerem um barraco na porta da sua casa, e o que resta será preservado.

Feito isso muitas empresas poderão ir para lá, onde há tanta gente para trabalhar, melhorando a qualidade de vida na cidade toda só com a diminuição que isso representaria para o trânsito. Só em São Paulo mais de cinco milhões de pessoas perdem pelo menos quatro horas do dia no caminho da roça – no caso da Zona Sul, literalmente. É muito mais do que a população de todo o Uruguai.

Para o mercado imobiliário este cenário seria um deleite. Áreas mais baratas, com possibilidade de urbanizar e com a freguesia já morando no local, só esperando uma oportunidade para melhorar. Crédito para tanto não falta. Até automóvel, que estraga antes do carnê chegar ao meio, os bancos estão financiando pra todo lado. O problema é que, achacados por políticos e burocratas que mamam na tragédia, eles seguem fazendo o possível, que é construir onde já não cabe mais ninguém.

Depois disso, notícias como as que estamos vendo, de gente morrendo queimada ou atropelada por um trem em favelas vão parecer tão antigas, absurdas e distantes quanto as tragédias humanas que já superamos, como escravidão ou o holocausto.

Crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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