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Primavera gastronômica

Há alguns anos chegou o boato: Júlio Cesar de Toledo Piza Júnior abriria um bar. Como? O Julinho, dono de bar? Duvido, deve ser confusão. Vá lá que no Brasil valha a velha máxima cafajeste, segundo a qual traficante cheira, bicheiro joga e cafetão se apaixona, podendo ser estendida para boêmios e botequins (frequentemente é, eu mesmo já fui vítima). Mas o Julinho não ia querer essa dor de cabeça.

O tempo passava e o boato não. Ao contrário, aumentava: a Janaína Rueda, então na Pernod-Ricard, seria sócia, e de quebra traria o apoio do Jefferson Rueda, uma estrela da gastronomia paulistana. Fazia mais sentido, mas ainda assim soava estranho. O Julinho, aos sessenta e tantos anos, boiada na sombra, se meter com riscos fiscais, trabalhistas, clientes mimados. Não…

Até que o Helito Bastos chegou com uma prova mais densa: um cartão de visitas em forma de pegada de onça, com o Copan desenhado na frente pelo Paulo Caruso e no verso os dados para contato: Bar da Dona Onça – Av. Ipiranga, 200 – Julio Cesar Toledo Piza – Presidente.

Fui à cidade para ter com ele. Desde a decadência do Clubinho ele se tornara figura rara na minha vida. De vez em quando aparecia no São Pedro São Paulo, esticava para o Piove, organizava em casa a audiência para um jogo de copa de mundo. Certo mesmo era pega-lo indo ou voltando do almoço pela calçada da São Luiz. Perguntei direto: – “É verdade que você vai abrir um bar?” Ele confirmou e passou aos detalhes: “A comida vai ser PF, os petiscos todos de bocado, a decoração é a onça pelas cidades que gostam dos bêbados bons – SP, Rio, Londres, Nova Iorque. Nada de Washington.” Mas principalmente o Bar da Dona Onça nascia porque o Julinho queria um lugar acessível a pé de sua casa e a Janaína sabia como fazer.

Então há cinco anos, durante uma tarde inteira, em dia “de semana”, era inaugurado o Dona Onça. A primeira coisa que comi ainda é possível no cardápio: polenta com ragu de linguiça calabresa. É um espetáculo, assim como outras delícias diversas, em grande maioria clássicos reeditados e executados com cuidados de alta gastronomia, autêntico no espírito, mas sem frescura ou invencionices. Molhos de grudar os beiços, assados que se desmancham em flancos, sobremesas que evocam a infância atendendo ao paladar adulto, massas de enfrentar qualquer italiano fino, enfim, uma variedade improvável hoje em dia, mas que lá funciona, seja no cardápio, seja na frequência. A única coisa que se repete sempre é a opinião da freguesia: o bar é ótimo.

A festa dos cinco anos aconteceu na segunda-feira. O chef espanhol Carles Abellan veio da Espanha para cozinhar com a Janaína e o Jeffinho. Fizeram umas maluquices contemporâneas, como azeite molecular, cuja aparência lembra a de ovas graúdas de tainha. Mas o espírito do clássico bem executado prevaleceu: cuscuz de porco com frutos do mar, pelo Jeffinho; um hamburguinho bem feito e engordado com foie gras, pelo Carles; e o arroz de suã com repolho e abóbora da Janaína. Na sobremesa, o bar sintetizado na união incomum do que todo mundo gosta: pão, chocolate, sal e azeite: divino.

A fórmula feliz atrai gente da cidade e do mundo inteiro, que voltam aos seus lugares de todo dia polinizando o mesmo, comida de verdade bem feita, como numa primavera gastronômica. Obrigado, Jana. Obrigado, Julinho.

 
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O Bolsa Família contra o PT

Coisa boa no levante do 17 de junho é a pluralidade da participação. Tinha todo tipo de gente indignada. Basta dizer que começou com o Passe Livre, que luta por transporte público livre (grátis é impossível), mas segundo pesquisa Datafolha a ampla maioria das pessoas que foram para as ruas, da Praça da Sé à dos Três Poderes, passando pela Cinelândia e outras paróquias, era declaradamente “liberal”. E a variedade dos protestos também emociona. Um dos mais bem-humorados foi a dos que querem suas tomadas elétricas de volta. Parece chiste, mas a essa altura do campeonato o Brasil adotar um padrão exclusivo para tomadas é mais um tapa na cara da sociedade.

Enfim, nas pontas sempre há quem se exceda. Há os vândalos que depredam o patrimônio público e o privado. Há quem peça a volta da ditadura militar. Há proposta de impeachment da presidenta. Há quem queira cassar os direitos eleitorais de quem recebe o Bolsa Família. Pode?

Sobre esse último em particular, me chama a atenção a falta de entendimento. Ora, se alguém um dia planejou o Bolsa Família com a intenção de controlar o povo, pensou errado. Em primeiro lugar a gente não entende o governo pontualmente. Governo, notadamente aqui no Brasil, é como uma entidade, tanto faz quem está no poder. Se a economia vai bem, a popularidade do governo a acompanha. E vice-versa.  Não importa diretamente quem paga a mesada. A esta altura, aliás, ela já é entendida como a luz do sol, que acende todo santo dia. Se algum dia o Bolsa Família teve efeito eleitoral – e eu acredito que sim –, foi pelo bem que fez ao todo da economia, aliado aos bom momento global entre 2002 e 2010.

Então, se feiticeiro houve, o feitiço agora lhe deu as costas. A economia brasileira foi tratada igual à ressaca de alcoólatra: ante a rebordosa mundial, no lugar de caldo de galinha o Brasil optou por tomar um chope e continuar a bebedeira. Baixamos impostos e aumentamos o crédito para eletrodomésticos e sobretudo automóveis. E o colapso chegou. Não temos infraestrutura para tanto, a conta vai crescendo e a inflação volta a ser uma ameaça. O povo sentiu e não gostou. Mais uma vez, tanto faz de quem é a responsabilidade pessoal. O governo é a entidade que vai responder pelo pileque. E o governo hoje é o PT.

Outra coisa que o Bolsa Família fez foi botar dinheiro circulando e formar uma classe média ainda baixa e carente, mas minimamente alimentada, muito curiosa, que quer saber as coisas da vida, consumir tudo, inclusive informação. Grande parte desses milhões conectados à internet combinando passeatas compraram o primeiro computador recentemente.

Escrevi há anos neste blog que se o PSDB quiser aproveitar os efeitos do crescimento econômico, ainda que sob a crise que se anuncia, terá que olhar  para essas pessoas e explicar como começou, há dezenove anos com o lançamento do Plano Real, o processo de estabilização econômica. Me parece que o Aécio está fazendo isso, defendendo o legado do FHC. Tem tudo para dar certo.

 
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O levante e o pendulo

O levante do 17 e junho provocou um paradoxo: os governantes e parlamentares correram para atender às reinvindicações do povo e mesmo assim a popularidade de cada um deles despencou. No poder Executivo os que mais perderam foram a presidente Dilma, os governadores Sergio Cabral, do Rio, e Geraldo Alckmin, de SP, além dos prefeitos das capitais respectivas, Eduardo Paes e Fernando Haddad. Este último, apanhou mais do que vaca na horta. Segundo o Datafolha, sua rejeição chegou a 75%.

Não é curioso? Tomemos o Haddad e o transporte urbano como exemplo. Bem ou mal ele voltou atrás no aumento da tarifa de ônibus conforme a turma pediu. Também não assinou a prorrogação do contrato que previa o desembolso R$46 bilhões nos próximos quinze anos para as atuais empresas viárias, prestadoras desse serviço abaixo de qualquer crítica. Recebeu na sede do governo os movimentos organizados. E permitiu que na Câmara fosse criada uma CPI para investigar a máfia do setor (Vá lá que uma CPI chapa branca, mas se não teve meios para abafar, quem garante que os terá para controlar? A CPMI dos Correios, que revelou o Mensalão, era presidida pelo senador Delcidio Amaral, PT-MS.)

Enfim, se não chegou a melhorar a gestão nos últimos dias, os fatos provam que poderia ter sido bem pior, tão ruim ou mais do que vinha sendo. E mesmo assim a popularidade despencou. Quer dizer, melhorou para o povo e piorou para os governantes. A cada demanda conquistada, cresce a vontade popular de buscar novas melhorias.

Me parece a revolta do marido sofredor. O nego se casa com uma megera e vai aturando maus-tratos e grosseria, cara amarrada dia após dia. Meio que se acostuma com aquilo, sente que a vida é assim e se conforma. Até que um dia implica com uma pitada a mais de sal no feijão e vira a mesa, mas com uma força brutal, inclusive desproporcional. E tanta que a megera afina. Eis que surge um mundo novo, onde nem um biquinho será tolerado. Dali em diante tudo deve ser ao gosto dele, e ela atende automaticamente, sem se perguntar por quê. Por que não é o sal, o feijão, nem os vinte centavos. São anos de tolerância injustificada. É o movimento do pendulo da história, inexorável.

Agora o jeito é conseguir o máximo de coisas no mínimo de tempo. O pêndulo não aguenta muito tempo tão puxado para um lado só. Precisamos de equilíbrio. Políticos devem ser líderes, com ideias, personalidade e convicção para implementa-las. A nossa parte é conhecer as ideias de cada um e votar de acordo para não chegar a necessidade de parar o país para resolver os problemas. Mais vale manter a vigilância e a cobrança sempre.

 
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João e Maria nos protestos de 17 de junho

O Diário de São Paulo trouxe hoje em matéria de capa uma reportagem intitulada Vida de gado no M’Boi Mirim, bairro que fica vinte quilômetros a sudoeste da Praça da Sé. Quer dizer, o percurso de ida e volta equivale ao de uma maratona.

O recorde mundial de maratona é de pouco mais de duas horas, justamente o tempo necessário para ir de ônibus do M’Boi Mirim ao Centro. Para voltar são pelo menos outras duas horas. Isto é: o cidadão a pé leva metade do tempo do ônibus! E sem contar a espera no ponto, a situação precária das vias e dos carros, o aperto.

Os tarados que se dedicam à maratona fazem de propósito e de vez em quando. Do M’Boi Mirim ao Centro milhares de pessoas vão e voltam diariamente para trabalhar. Uma passageira de 32 anos chamada Maricélia Ferreira Guimarães disse que cansa mais no ir e vir do que trabalhando como empregada doméstica. Já o Manoel Pereira Silva, outro passageiro da mesma linha, saiu com essa pérola: – “De graça é caro; R$ 3,00 então é um assalto.”

Não foi à toa que a faísca do levante brasileiro no 17 de junho se deu em torno do aumento da passagem de ônibus. Todos os outros serviços públicos são de qualidade semelhante e estão mantendo acesa indignação popular.

Pode-se dizer que o governo engordou João e Maria. A história é conhecida: o casal de filhos de um homem pobre é abandonado na floresta e passa a sofrer com o deslocamento diário, tendo que marcar o caminho com migalhas de pão. Um dia encontram uma casa de doces e se deleitam, até que uma bruxa aparece e revela o plano de abusar de ambos depois que estiverem gordos e obedientes.

A realidade do povo é a mesma. Em todo terminal ou ponto de ônibus concorrido há uma bomboniere vendendo toneladas de açúcar. Maria-mole à setenta centavos, chocolate de quinta, isopor cor-de-rosa e outras porcarias letárgicas que amansam e engordam pessoas como se gado fossem.

Acontece que João e Maria enjoaram. Não querem mais os doces nem o maltrato  da bruxa. Têm energia de maratonista para queimar e não vão sossegar até que a bruxa seja queimada no próprio forno.

 
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Portugal e a crise – o pior já passou

Andei em Portugal por cidades grandes, pequenas, médias. Em todas tive a mesma impressão: a parte ruim da crise por lá já passou. Todas elas estão sendo bem cuidadas, funcionando e ativas economicamente. Nas conversas com os portugueses e nos jornais naturalmente ainda há pessimismo e insatisfação, mas aparentemente é a mesma infelicidade do gordo em dieta: seus índices estão melhorando, mas ele está triste (obrigado, Nizan).

A infraestrutura é ótima. O transporte público funciona bem em todas as possibilidades: terra, ar e água. Calçadas, ruas, estradas, trens, ônibus, aeroportos, portos, hidrovias. Estas, por sinal, estão um colosso à parte. O Douro hoje é tido como o melhor destino fluvial da Europa, e quem por ele navega vê produção e vida digna em ambas as margens, até nos vilarejos mais pobres: vinhedos e vinícolas e entre eles muitos hotéis, bares, restaurantes, equipamentos turísticos de todo tipo, de barcos pequenos à navios, passando por teleféricos, lugares históricos preservados e cultuados, todo e qualquer pedacinho de terra plantado e cultivado.

O que não está sendo reformado é muito bem cuidado. Parques, praças, fontes, canteiros sempre floridos. Os turistas vão e vêm em grande número e tem o privilégio de andarem misturados à população residente, melhorando a experiência. Digo, são raros os lugares tidos como “para turistas”. Os portugueses amam e usam as suas cidades, vão à bares, restaurantes e até às igrejas históricas, para rezar, assistir a um concerto ou simplesmente passear. E tudo é permeável ao novo, sejam tecnologias de comunicação, comida, arte, arquitetura, mas com profundo respeito ao antigo.

Os pontos altos de insatisfação são em relação à gastança desmedida – por parte do governo, mas também das empresas e das pessoas –  partir da União Européia, o desemprego em alta e a má fase do sistema de educação.

O primeiro, que é a gastança que como sempre acabou em endividamento, tem pontos pertinentes. Fizeram, por exemplo, estádios que há mais de um ano não recebe vivalma. Mas as estradas, portos e aeroportos estão ajudando muito o turismo e a produção, que tem espaço para crescer ainda mais sem causar transtorno algum.

O desemprego deriva disso. Como gastaram mais do que podiam, agora têm que se submeter ao que chamam de troika, que é o trio fiscalizador formado pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI. E como demolir estádio não traz dinheiro de volta, o jeito é apelar para demissões. Foi o que fizeram: demitiram todos os “de mais” e mais um pouco, elevando o índice a 17%. Mas aqui no Brasil, se fizéssemos o mesmo do balcão de padaria aos ministros da presidenta Dilma, teríamos pelo menos 30% de desempregados. E note que lá muito empregos comuns por cá já se extinguiram faz anos. Empregada doméstica, ascensorista, segurança, manobrista existem. Aqui para servir café expresso e pão de queijo às vezes há cinco funcionários no balcão – e mesmo assim demora. Ministros são 39. Quantos poderiam ser demitidos?

Sobre a educação eles têm razão em estarem insatisfeitos. Um país como Portugal, que de uma península avançou pelos mares e espalhou sua Língua e cultura por centenas de milhões de pessoas no mundo, não pode se contentar com menos do que a excelência. Estão acostumados assim e entendem como responsabilidade histórica. E esta noção, tão densa e tão cara a eles, garante que o quadro não demora a ser revertido.

 
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SP, Terra de Marlboro

Igual faço quase que diariamente, ontem fui almoçar no Itaim-Bibi, a pé. Quem é de São Paulo sabe que o este bairro é tido como bacana, porque concentra comércio sofisticado, além de escritórios de empresas poderosas e apartamentos caros.

No caminho de não mais do que quatro quadras o cenário era caótico: as calçadas todas esburacadas ainda juntavam água nas guias impedindo o atravessar. Os semáforos em pane e um trecho longo completamente sem energia. Bairro de bacana?

A civilidade entre os que iam e vinham, gente a pé, de carro, moto ou ônibus desceu para baixo de zero. A impressão que dá é que na falta da regra, como por exemplo a dos semáforos, as pessoas entendem que a prioridade é delas.

No nosso grupo havia uma patrícia que viveu os últimos quinze anos nos Estados Unidos. Diante do cenário ela comentou perplexa: – “Terra de Marlboro”.

É exatamente esta a sensação que toma qualquer brasileiro quando vai até ali e volta. Quinze anos ou quinze dias, e nem precisa ser o primeiro mundo. A Argentina serve. Estados Unidos e Europa chegam a humilhar. Nossa infraestrutura é tão precária quanto a nossa estrutura social. Não temos metrô decente e tão indecente quanto o que temos são os usuários, que sequer aguardam quem está dentro sair antes de tentar entrar.

Moro com a mulher que amo no bairro que escolhi; vou e volto a pé do trabalho num caminho da roça que é praticamente atravessar um parque, porque passa pelo Jardim América, que de manhã só conhece operários e passarinhos que limpam as calçadas de folhas e frutos; durante a semana consigo ir ao clube fazer ginástica, passar no botequim para beber com os amigos, ir ao cinema, jantar fora.  Duvido que haja em São Paulo vida melhor do que a minha, mas lamento que esse quadro, teoricamente básico para a vida na cidade, na prática seja o retrato de um privilegiado e que mesmo assim ele esteja insatisfeito e indignado.

Nos habituamos à hostilidade urbana, à péssima mobilidade, à falta de educação, saúde, segurança, parques e praças, poluição, um custo absurdamente alto por qualquer serviço ou produto. Mas não podemos nos conformar. É inaceitável que uma cidade rica como São Paulo continue sendo tão ruim para as pessoas e vice-versa, isto é, que as pessoas continuem sendo tão ruins para São Paulo. Precisamos cuidar da cidade que escolhemos, cobrando a prefeitura e fazendo a nossa parte, afinal vivemos aqui, não somos forasteiros na Terra de Marlboro.

 
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Os 19 anos do Plano Real e os 20 centavos

Igual a toda ideia genial, a do Plano Real é óbvia: ante à inflação galopante que enfrentávamos, nós brasileiros perdemos a noção do valor e principalmente do preço das coisas, que já não oscilavam mais exclusivamente por fatores econômicos, mas principalmente por questões psicológicas.

Até então, as maneiras de lutar contra a inflação eram autoritárias e burras: corte de zeros, congelamento de preços, troca do nome da moeda e até confisco. O Plano Real respeitou o inconsciente coletivo. Criou um indexador e deixou a moeda antiga correr à deriva, publicando diariamente sua cotação, o que atendia ao costume das pessoas ao mesmo tempo que ensinava o valor de cada coisa através da URV (Unidade Real de Valor).

Mesmo sendo um povo acostumado à mudanças drásticas na economia, não fosse esse período de adaptação da URV talvez o plano fosse mais um fracasso.

Já a consolidação e a manutenção dependeram da economia. Para ganhar credibilidade a moeda contou com a atuação responsável do governo, cujo tripé básico é meta de inflação, câmbio flutuante e superávit primário.

Hoje em dia, infelizmente, a responsabilidade já não é tanta. O governo Dilma gasta mais do que pode e muito mal, sendo obrigado a no final do ano fazer macaquices para conseguir aprovar as contas, o que tira valor da moeda provocando a volta da inflação.

O povo brasileiro se levantou no embalo do Movimento Passe Livre, formado por jovens indignados em pagar 20 centavos a mais pelo transporte público. Esses jovens são só um pouco mais velhos do que o Plano Real e, portanto, não viveram a inflação. Daí que não custa lembrar: a inflação causa prejuízos muito maiores ao trabalhador assalariado do que R$0,20 a mais por passe de ônibus.

Neste 1º de Julho, aniversário do Real, os protestos deveriam ser contra a irresponsabilidade do governo Dilma no trato com a economia e o perigo da volta da inflação.

 
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Onde está o Lula e os verdadeiros oportunistas?

Há alguns anos perguntei aqui o nome de um político que depois de ter perdido sucessivas eleições foi eleito para um cargo executivo e, apesar de passar o mandato metido em escândalos de corrupção, conseguiu eleger um até então completo desconhecido seu sucessor.

Todos respondiam: Lula! Era então a fase mais alta da popularidade do ex-presidente. Tão grandiosa que parecia inabalável, universal, eterna. Mas eu falava do Maluf, que igual ao Lula se encaixa perfeitamente na descrição.

Outra comparação que fiz com o Lula, mas dessa vez diretamente, foi com o Vasco Moscoso de Aragão, personagem do Jorge Amado. Trata-se de um sujeito sem vontade para estudar ou trabalhar, malandro e boa-praça, que passa a vida dizendo ser o capitão de longo curso que nunca foi. O destino o coloca diante do timão de um navio em cruzeiro. Muito vivo ele continua fingindo comandar e enganando a todos. Até que um dia a coisa agrava e a máscara cai.

Na novela do Jorge Amado o malandro acaba salvo pela sorte. A quem quiser saber como, recomendo a leitura, que é deliciosa. Na vida real aposto o que puder no meu palpite: fatalmente Lula terá o mesmo fim do Paulo Maluf. E já começou.

Tido como gênio, mito e até santo, neste junho em que o Brasil se mostrou esgotado de tanta safadeza e inoperância Lula está completamente calado, culpado e acovardado, espiando das trevas a luz que explode nas ruas.

Ante aos protestos, o  único movimento que lhe atribuem é uma reunião com líderes em seu instituto no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Não custa lembrar: o endereço é provisório. A ideia é mudar de mala (preta) e cuia para o bairro da Luz, no terreno de cinco mil metros quadrados que era da cidade (seu, meu, nosso), mas o Gilberto Kassab lhe deu de presente.

Segundo um dos presentes à reunião, a mensagem do Lula é a seguinte: “Se a direita quer fazer luta de massas, vamos fazer luta de massas”. Quer dizer, não entendeu nada. O estopim do levante foi aceso pelo Movimento Passe Livre, que deseja transporte público grátis, mais “de esquerda”, impossível. Mas quem está nas ruas são todos os brasileiros, conservadores e progressistas, liberais e reacionários, jovens, velhos, mulheres, homens, todo mundo enfim. Escondidos só os vândalos de verdade como o Lula.

Daqui a um tempo, quando a limpeza entrar na fase de manutenção, será bom lembrar de quem ajudou varrer, esfregar, desinfetar, mas nunca esquecer dos ratos que se confirmaram exercendo sua vocação de se esconder nas trevas. Lula é um deles. Sarney, outro. E o Kassab, já citado, também.

 
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O canhão do Cabral – o governador do Rio não entendeu o recado

No dia 17 de junho, assistindo de seu gabinete no Palácio das Laranjeiras à manifestação que reuniu 100 mil pessoas na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio, o governador teve uma ideia: comprar um Brucutu para a PM.

Brucutu é como ficou conhecido durante a ditadura militar o caminhão pipa com canhão d’água para apagar o fogo da multidão. Ultimamente só aparece nas imagens que chegam da Turquia, onde tenta afogar os gritos de quem protesta contra o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoga.

Apesar de estar pintado todo de preto como se fosse o mais novo orgulho da temida coleção do BOPE, o Brucutu precisou de escolta para chegar ao pátio do Batalhão de Choque, onde posou para fotos de divulgação. É uma gracinha, de fazer inveja a caminhão de bombeiro do Playmobil.

A aquisição revela o compromisso da PM com a preservação do patrimônio do Rio de Janeiro e a determinação em protege-lo a ação dos vândalos que estão nas ruas. Ainda assim, a assessoria da polícia não divulgou os detalhes do modelo de compra, total de dinheiro gasto ou dados sobre o fornecedor.

Se foi mesmo ideia do Sergio Cabral ou de algum seu subordinado tanto faz. O importante é que está claro que eles não entenderam o recado. O que a gente na Avenida Rio Branco, na Candelária ou no acampamento diante da casa dele no Leblon quer é para a educação, saúde, mobilidade o mesmo prestígio e equipamentos que a polícia e o futebol merecem do governador: um professor Nascimento, uma escola Maracanã. E uma coisa fundamental: que os investimentos sejam transparentes como a água.

 
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Siga o líder – se às massas falta um líder, ao governo também falta

As primeiras reações dos governantes ante às manifestações foram de fuga. Uns fugiram pela direita, tratando o levante como coisa de baderneiros. Outros, pela esquerda, insistindo na que é fundamental haver um líder das massas.

Tanto uns quanto outros são uns infelizes. Tentar generalizar as manifestações como baderna como se todos entre as centenas de milhares que estão nas ruas fossem vândalos depredando o patrimônio público é a mesma coisa que dizer que todo político é ladrão, e isso absolutamente não é verdade.

Um pouco mais branda, mas na mesma linha, segue a opinião de quem só enxerga prejuízos causados pelos congestionamentos, pelos atrasos nos voos, no arrefecimento do consumo. Ora, antes devagar assim, com um propósito, com um ideal enfim, do que quase parando como estamos há muitos anos caminhando, sem educação, saúde, Justiça ou infraestrutura sequer razoável.

Hoje por exemplo a cidade de São Paulo parou antes de começar o horário comercial. E parou por que? Por causa de uma árvore caída na avenida Nove de Julho. Caiu, diga-se, por falta de manutenção. E continuou caída por muito tempo falta de quem a removesse. É o símbolo de tudo o que já não funciona há muito tempo, e na maior cidade do Brasil, uma das maiores do mundo.

Agora o mais absurdo foi ouvir alguns políticos dizendo que faltam líderes e temas específicos às massas, e que sem eles é impossível debater qualquer coisa. Mas vamos supor que emergisse da multidão alguém personificando a indignação geral. Muito bem: com quem este líder deveria negociar? Quem é o líder político no Brasil?

A presidente da República é que não é. Cada vez mais se confirma como um poste ou coisa pior, porque os postes tradicionalmente sinalizam, iluminam, conduzem energia, transmitem informação. Dilma chegou até aqui com apoio parlamentar e popular maior que 80%, mais do que suficientes para liderar o país no sentido das reformas urgentes. E o que fez? Nada. Mostra que não sabe o que quer e muito menos como conseguir. Deu no que deu. Se às massas falta um líder, ao governo e ao Estado também falta.

 
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