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SP está com Aécio

Ninguém precisa revirar o fundo do baú para encontrar uma lembrança assim. Acontece mais amiúde do que se percebe, basta prestar atenção. É quando a presença de alguém de fora aproxima os que são de dentro, que em função das voltas que são da vida andavam algo desencontrados.

A primeira audição de uma música pode ser encantadora. Então você compra o disco, fica com a letra na cabeça, toca para quem gosta, cantarola para quem ama, eventualmente dança acompanhando o ritmo. E então com as voltas da vitrola ela vai para um lugar secreto. Até que um dia um amigo distante aparece e traz a boa lembrança, que te faz perceber como é importante aquela canção, que brota imediatamente na ponta da língua, inteira no seu arranjo íntimo.

Com as comidas também é assim. A rigor o bolo de fubá preparado pela avó deveria acompanhar o Homem até o último momento. Mas na prática é diferente. Pior: às vezes há a avó e há o fubá. Erva-doce inclusive. E a gente se maltrata com a distância, esta erva-daninha. Até que um primo vem de longe determinado: “Vamos até a casa da vovó pedir para ela fazer um bolo”. E quando é assim pode ser que não haja nem mais a avó, tampouco o fubá, mas a presença do primo e a lembrança serão deliciosas.

Ontem no ninho paulista dos tucanos aconteceu isso. O diretório estadual do PSDB está passando por um congresso que vai trazendo um novo ânimo ao partido em São Paulo, que vinha meio murcho desde que a mobilização na eleição prévia foi interrompida e então piorada com a derrota nas urnas na maior capital do país.

A programação do congresso inclui palestras e muita gente boa já passou por lá: Andrea Matarazzo, Bruno Covas, Sergio Guerra. E ontem foi a vez do senador Aécio Neves. Os mais assíduos garantiam: ninguém juntou tanta gente na plateia. Eu estive lá e posso confirmar que a presença da militância foi maciça, além de deputados, senadores e prefeitos do Brasil inteiro.

E o que fez o Aécio? Preencheu o ambiente com uma alegria que só pode ser proporcionada por uma vasta e generosa fornada de pães de queijo. Saudado pelo Fernando Henrique, pelo governador Geraldo Alckmin e pelo senador Aloysio Nunes Ferreira como o próximo presidente do PSDB, ele despertou nos tucanos as melhores memórias afetivas, que mostraram a dimensão da responsabilidade histórica do partido e a obrigação que temos com o futuro do país.

Lembrou da grandeza do governador Montoro quando este cedeu a vez para o governador Tancredo Neves concorrer a Presidência da República, por entender que o mineiro reunia as melhores condições para unir o colégio eleitoral e fazer avançar o projeto de redemocratização. O cenário era tão nebuloso que a notícia não pôde ser dada pessoalmente nem por telefone, e o Roberto Gusmão voou quase que secretamente de à Belo Horizonte para levar o recado.

Anos depois o próprio Aécio, vendo que a conclusão do mandato do presidente FHC merecia um esforço do Legislativo, se candidatou a Presidente da Câmara. Para tanto veio ao Palácio dos Bandeirantes buscar o apoio do governador Mario Covas, que mesmo abatido pela doença fez questão de ir a Brasília dizer pessoalmente à bancada que o Aécio “não tinha o direito de não disputar a eleição.” Acabou sendo eleito com mais votos do que a soma de todos os adversários e entre outras coisas acabou com a imunidade parlamentar para crimes comuns, criou o Conselho de Ética e promoveu a transparência do processo legislativo abrindo na internet as votações da Casa.

Agora ele será presidente do PSDB e vai voar pelo Brasil ecoando o pio dos tucanos. Se para acompanhar os pães de queijo faltava café na xícara de leite, já não falta. São Paulo está com Aécio Neves.

 
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Painho trinta anos depois

O Chico Anysio tinha um personagem inspirada na família Gil. Não sei com certeza se era Painho, mas o que importa é que vivia cercado de empregadas domésticas. Pois quando o Gilberto Gil voltou do exílio, sua mulher fez as contas e notou que pelo preço de uma empregada inglesa, em Salvador eles poderiam contratar um séquito. E assim foi feito.

A maioria não tinha o que fazer, e a piada surgia das ordens mais tolas, inventadas para justificar o salario. Painho prostrado numa cadeira de palha enorme perguntava se as horas do relógio da sala combinavam com as que batiam na cozinha. Me lembro agora de uma tia viúva que dizia dormir tão profundamente a ponto de não desarrumar a cama. Mas pela manhã, depois de tomar o café (na cama) ela tratava de revirar os lençóis, afinal, alguma coisa a empregada tinha que fazer.

Mais ou menos trinta anos depois o quadro nacional começa mudar. Mereceu chamada de capa no Estadão o levantamento da Pesquisa Mensal de Emprego, feita pelo IBGE, que verificou o índice mais baixo de empregados domésticos desde 2003: 6,6% da população. E a tendência é continuar reduzindo. Segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor, o custo deste tipo de mão de obra aumentou 12% nos últimos doze meses. E isso antes da PEC das Domésticas, que enfim equipara os direitos destes ao de quaisquer outros trabalhadores no Brasil, como, por exemplo, hora-extra e FGTS – pasmem sinhazinhas…

A lei trabalhista brasileira é boa? Não, não é, isto é incontroverso. O problema é que o complexo de sinhazinha impregnado na sociedade é ainda pior, e o remédio é sempre amargo. O quadro é crônico, e tanto que não é raro encontrar empregados ofendidos com a nova lei, como se profissionalizar a relação de trabalho esfriasse o relacionamento ou subvertesse a ordem “natural” das coisas.

Outro dia ouvi de um advogado especialista em direito trabalhista: “Essa PEC vai botar muita gente na rua, vai jogar as empregadas nas favelas”.  Pode? É o mesmo raciocínio do senhor de escravos que dizia: – “Se não eu, quem mais vai dar casa e comida a esses negros?” É horrível, mas é do Homem.

Eu era muito criança quando veio a abertura e os brasileiros perseguidos pela Ditadura puderam igual ao Gilberto Gil voltar ao país. E desde então a referência do valor do trabalho da empregada  doméstica era a que virou caricatura do Chico Anysio. Diziam que na Europa e nos Estados Unidos “as empregadas vêm trabalhar de carro”. Hoje em dia, mesmo o carro sendo uma algo banal, uma empregada ir trabalhar com o próprio carro é inusitado a ponto de merecer notícia no jornal. Fantástico mesmo é a mesma empregada morar na Vila Madalena e trabalhar nas Perdizes. Que cada vez mais seja assim.

 
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O mesmo filme

E o presidente da Câmara Federal, Henrique Eduardo Alves, que não é dos mais preocupados com a opinião pública, prometeu uma solução para o caso do colega Marco Feliciano, declarando que diante da situação insustentável a responsabilidade passa a ser da Presidência da Casa.

Desde que o pastor tomou posse como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, todo tipo de protesto rolou. Da moderna petição eletrônica até os tradicionais piquetes, fizeram de tudo, até beijaço. A mais divertida delas foi a charge do Angeli hoje na Folha, com Jesus Cristo na ordem do dia das minorias. Mas sua excelência dá de ombros e garante que não renuncia “de maneira alguma”.

Eu também dou de ombros. Sinceramente, para mim este infeliz na Presidência Comissão de Direitos Humanos é absurdo demais para ser verdade. Digo, creio numa segunda intenção, qual seja tirar os holofotes das outras comissões, notadamente a de Constituição e Justiça. Poderia falar da de Educação, esta a mais importante de todas porque a tudo precede, que será presidida pelo deputado Gabriel Chalita, investigado em São Paulo por denúncias de outro tipo de comissão – com o perdão do trocadilho. Né, Vanderlei?

Mas lá dentro da Câmara os deputados consideram que a mais importante das comissões é a de Constituição e Justiça, que como diz o nome analisa questões constitucionais e legais, por exemplo se os deputados condenados pelo Supremo Tribunal Federal devem ou não perder o mandato. E quais deles integram justamente esta comissão? Os mensaleiros José Genoíno e João Paulo Cunha. Antes deles assumirem o debate é se poderiam continuar deputados. Agora vão ajudar a decidir. E sabe quem mais? O Paulo Maluf. Pode?

Olhando o quadro pelo que sabemos das figuras, isto é, pelo que a imprensa mostrou e o Supremo entendeu que eles fizeram, Genoíno condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha, e o Cunha por peculato, lavagem de dinheiro e corrupção passiva, não pode ser condenado o cristão que, para desvendar a motivação verdadeira do pastor Marco Feliciano, imagine estar assistindo o mesmo filme da compra de apoio.

 
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Serra, o Pelé dos tucanos

Por pelo menos dois motivos, José Serra pode ser considerado o Pelé dos tucanos. Foi o que me ocorreu hoje lendo a coluna da Dora Kramer, numa análise sobre o quadro atual do PSDB, com atenção especial ao grupo serrista, que inclui o senador Aloysio Nunes Ferreira, o vice-presidente tucano Alberto Goldman e o deputado Jutahy Magalhães, que segundo a colunista estariam sufocados pelo protagonismo dos mais jovens e numa reação extrema poderiam até deixar o partido em busca de ar.

Apesar de a imprensa toda precisar de tramas eletrizantes para manter a freguesia consumindo o noticiário, a própria Dora avisa que antes do que uma probabilidade essa debandada “não chega a ser uma impossibilidade”. Ora, na vida tudo é possível, e notadamente em política. Ou não vimos o Lula ir aos jardins  do Maluf pedir aval para o Haddad no ano passado?

Mas de qualquer maneira imaginar 2014 com o José Serra, fundador do PSDB, tocando vuvuzela numa arquibancada adversaria à do neto do Tancredo Neves, me parece tão incrível quanto supor o Pelé implicado com o Neymar a ponto de usar um cachecol azul e branco saudando o Messi e a seleçãoo argentina em pleno Maracanã.

Igual ao Pelé, o Serra foi o melhor do mundo. Quem não se lembra do Rei dos Ministros da Saúde, coroado em solenidade na ONU pelos golaços que fez contra a indústria dos cigarros proibindo a propaganda nefasta, contra a ganância dos laboratórios criando a lei dos genéricos e quebrando a patente dos remédios para tratamento da AIDS, contra a maldita catarata que cegava os brasileiros, num mutirão nacional? E também foi campeão constituinte, municipal, estadual.

O problema do Serra e também do Pelé é quando ambos desrespeitam o próprio legado e se deixam levar pelo ciúme que só favorece os times adversários, fazendo declarações não construtivas e tomando posições defensivas, quando deveriam estar colaborando no ataque, claro que não na infantaria, porque para tudo tem seu tempo, mas na estratégia.

Edson, José, o que vocês fizeram pelo Brasil está feito, é sólido, denso, lindo, ninguém poderá jamais lhes subtrair. Mas agora é hora de deixar o Neymar e o Aécio mostrarem o que sabem. Vamos, juntos, pelo bem de todos e felicidade geral da Nação.

 
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O instante definitivo

O Evandro Angerami anotou no facebook que nasceu em 1911. Se foi distração, confissão, ou se está errado não tem importância. Todo artista é infinito através de sua obra, e a do Evandro, assim como ele, não tem tempo nem idade.

Mas se engana quem pensa que ele está preocupado com a eternidade. Vive cada momento com intensidade, com tanta força, que parece manso e até ausente, assim como a rocha eterna ante o mar sempre mutante. Ele está ali, convivendo, sofrendo a influência das marés, do vento, da chuva, da vida em seu entorno, certo de que é rocha, mas só aparentemente inabalável.

Na segunda-feira que passou o Black Linhares organizou uma pequena mostra do que o Angerami é capaz. Eram poucas telas e relativamente pequenas, mas que prendiam a atenção de quem chegava como raramente acontece. Imagens que ele foi buscar na Bahia, no litoral e no sertão. Todas lindas e de uma densidade levíssima. Para seguir em termos rochosos, igual à expressão usada para identificar os extremamente hábeis e talentosos, dizendo que eles tiram leite de pedra, este artista consegue tirar luz da tinta, como se cada elemento da natureza emanasse luz própria.

Fique ali, olhando e pensando quanta riqueza há no mundo. Artística, natural, monetária, tanto faz. Aqueles preciosos fragmentos de vida pendurados na parede tornaram definitivas paisagens milenares que mudam a todo instante, porque a luz muda sem parar, assim o vento, a mata, o mercado, a vida.

O Evandro Angerami vai continuar, assim como o Black Linhares, este cronista e o freguês desta página. O que fica é o instante, que é sempre definitivo.

 
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Com Francisco pro que der e vier

“O que se pede a São José, nenhum outro santo resolve”. É este o conselho que o papa Francisco dá a seus amigos. Alguém há de dizer: – “Pudera! Se pediu a José, Antonio é que não irá tomar as providências.” No que outro cético talvez emende: – “É propaganda. Ora se não foi ele quem nasceu, cresceu e trabalhou na paróquia de São José de Flores.”

Digam o que quiserem. Não ligo. Estou alinhadíssimo ao novo papa e não abro. Confesso que vinha cultivando uma preguiça danada do catolicismo. Meu último gesto a favor do Vaticano tinha sido comprar um Superga vermelho, ao gosto do Bento XVI. E só. Mas agora voltei, estou com o Francisco pro que der e vier. Aderi mesmo.

O papa é um romântico. A repórter Adriana Carranca foi a Buenos Aires xeretar a vida dele para o Estadão e descobriu D. Amália Delmonte, que foi namorada do então menino Jorge Mario. Ocorre que, aos doze anos e perdidamente apaixonado, sendo proibido pelo sogro de continuar o namoro, ele foi catedrático: – “Ou você se casa comigo ou vou ser padre”. É ou não é o nosso Romeu? No lugar do veneno, tomou aulas no seminário. Eu faria a mesma coisa sem a minha Neguinha.

Outra coisa que gostei no papa é a aversão à pompa e às regalias. Há quem diga que é demagogia, claro, assim como há quem considere ultrajante lavar meia-dúzia de pratos, fazer a própria mala, usar transporte coletivo. Antes que um gesto vejo neste hábito uma inteligência: se o bom de ser padre é levar uma vida mais tranquila, qual é o sentido de viver criando necessidades?

O papa Francisco disse que seu ministério será cuidar das pessoas, principalmente dos mais pobres, e com seu desprendimento já começa mostrando o lado bom da vida aos que, de tão miseráveis, só têm dinheiro.

Acredito em tudo isso, na libertação através do amor, do trabalho, da vida simples. E vou às 19 horas deste 19 de março, depois de alguns anos, ver a missa de São José na rua Dinamarca, e depois comer uma zeppola com meu pai no Vinarium. Gostoso e simples assim.

 
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E disse o papa: “É a economia, estúpido!”

Entre os tantos palpites que ouvi sobre a decadência da Igreja Católica um me pareceu mais pertinente do que os outros, talvez porque localizado, num retrato mais fácil de enxergar e compreender: a América Latina.

Há um filósofo atual que fala da eterna busca pela sintonia entre segurança e liberdade, no que seria o pêndulo da Justiça. Quando há segurança demais é a ditadura; já quando demais é a liberdade vira anarquia, e o desequilíbrio é ruim tanto para um lado quando para o outro. O progresso e a ordem devem ser antagonistas cordiais.

Eis o palpite: com o fim das tantas ditaduras na América do Sul, o que tivemos foi um período de liberdade superficial, onde a sociedade se vingou negando tudo o que de alguma maneira identificava o totalitarismo: governo, polícia, forças armadas, família e a Igreja Católica. Sobrou até para a Coca-Cola.

Superficial por que negar é a parte mais fácil. Transformador seria o envolvimento com todas essas e outras instituições e o fortalecimento das partes saudáveis para a democracia: um governo que funcione e entregue educação, saúde, segurança e infraestrutura, garantia de liberdade de imprensa, de ter fé e de amar. Mas isto exige esforço, tolerância. Enfim, dá mais trabalho.

Surfando nessa onda a turma do “é proibido proibir” foi batendo o tambor cada vez mais alto, e mais alto, até que surdos com a própria toada “se esqueceram” do que disseram por tantos anos e deixaram de cochichar o que realmente acreditam: só é proibido proibir, perseguir, prender, retalhar, roubar, corromper quem for contra o que eles acreditam. O resto pode.

Seus representantes e aspirantes estão aí, uns mais outros menos vivos: Fidel Castro, Raul Castro, Evo Morales, Hugo Chavez, Lula, Dilma, Zé Dirceu, Cristina e Nestor Kirchner, Rafael Corrêa. Não sei se o José Mujica se enquadra na lista. Mas para eles, quanto mais frágeis as instituições, melhor.

E então surge na Igreja Católica um líder diferente, pastor genuíno porque afinado com seu rebanho, e diz o óbvio no Conclave: – “As pessoas já entenderam que essa turma não serve para governar, mas eles continuarão no poder se baseando no discurso de erradicação da pobreza; só será capaz de reverter esse quadro quem tiver, além das palavras, uma imagem e uma conduta verdadeira, isto é, eu, que nunca liguei para dinheiro, usando o nome do pobre mais sábio e comunicativo da História, São Francisco de Assis. E, por uma coincidência incomum, a mensagem serve para a Europa, os Estados Unidos e até ao Oriente Médio.”

E foi glorificado o papa Francisco. Só faltou repetir a frase do James Carville: – “É a economia, estúpido!”

 
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Filé de melancia

Todos confiamos no que os frigoríficos dizem do boi: “dele só não se aproveita o suspiro”. O couro vira sapato, os chifres serão botões, do sebo fazem sabão. E inclusive com as carnes tidas como de segunda categoria não nos preocupamos. Levamos o filé para casa certos de que alguém vai traçar o peito, comer o rabo, chupar o tutano. Ninguém pensa nos miolos, ninguém fala da língua, ninguém soluça pelos bofes.

É claro que há honrosas exceções. O Andrea Matarazzo disse ao Charlô Whately que seu prato predileto é miolo à milanesa, e na mesma edição da revista do bistrô elogiou a língua do Bar da Dona Onça. Desde a tenra idade a Maria Fernanda Galvão, entre uma rabada e um cachorro-quente, escolhe a rabada. E com agrião. O ICI Brasserie está com tudo vendendo tutano assado e há lugares distintos onde as bochechas do boi são atração especial. Quem quiser homenagear o Paulinho de Tarso Silveira e servir as faces do zebu vai acertar em cheio.

Nas coisas que vêm da horta a negligência aumenta. Os talos mais grossos dos brócolis não raramente encontram o lixo. O mesmo destino merecem suas folhas, em que pese os nutricionistas repetirem que nelas há vitaminas concentradas e sabor. Mas o caso mais grave talvez seja o das batatas: sob qualquer quesito a melhor parte está nas casas. Praticamente toda a virtude é delas: sabor, nutrientes, fibras, proteção na hora de cozinhar. Mas só de uns tempos para cá começaram a servi-las, chamando de “batatas rústicas”. Me lembro da Backed Potato, que assava as inglesas, grandes, cujas cascas no forno endureciam sem perder a ternura. Tinha vontade de pedir a minha “na canoa”.

Quando chegamos ao pomar sobram preocupações de todo tipo. Das jabuticabas comemos até as miúdas, azedas e sem polpa para evitar remorso. Esprememos as laranjas até amargar, avançamos com cuidado ante a hostilidade dos abacaxis, realizando o prejuízo dos olhos espinhudos que ficam, encaramos o branco insosso dos morangos para compensar a despesa.

Por tudo isso fiquei espantado em ver na prateleira do Santa Luzia o filé de melancia. Bingo! Aquela parte central, densa, carnuda, suculenta e livre de sementes é extraída e vendida separadamente. Igual a todo filé, custa os olhos da cara. Mas não há desperdício, porque o resto da polpa eles processam e vendem como suco. Na ponta do lápis sai mais barato comprar uma inteira da feira, comer toda a carne e desprezar o osso. Só que o filé é mais chique, não dá trabalho para carregar, fazer suco, nem tampouco dor no coração quando começa a fazer água na geladeira.

 
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O papa é pobre

Francisco, na verdade, é a versão formal do apelido que já era usado pelos cardeais do mundo inteiro para tratar o colega Jorge Mario Bergoglio: Il Poverello, ou O Pobre Homem, mesma alcunha de São Francisco de Assis.

O novo papa é argentino, mas não é argentário. Pertence a um seletíssimo grupo de cardeais que  recusa mordomias, cozinha sua própria comida, usa transporte público, lê e relê Dostoievsky. A cruz antiga e simples que usou na ordenação, que começou com ele pedindo ao povo que rezasse a Deus para que o abençoasse, foi simbólica.

A fumaça branca se espalhou pela Praça de São Pedro e com ela anedotas diversas pelas redes sociais. Eu mesmo fiz uma quando soube a origem do novo pontífice. Olhando a chaminé fumegante, quis saber se era ancho, chorizo ou ojo de bife. E simultaneamente outras tantas surgiram, estando entre as melhores a que condena o articulador, que teria convencido a bancada dos Estados Unidos a votar no Brasileiro; e a turma: “claro, aquele de Buenos Aires!”

Mas antes que a fumaça toda se dissipasse começaram os ataques. Disseram que enquanto padre Jorge Mario foi conivente com a ditatura argentina. Os mais radicais o acusam de ser torturador. É grave, principalmente com os relatos que surgem toda vez que investigam um período de autoritarismo. Não fosse a parcialidade das fontes, seria fácil acreditar, porque num grau mais leve todo padre é torturador. Ajoelhar no milho e dar a mão à palmatória fazem parte da vida de todo católico com mais de cinquenta anos. Isto para ficar no corpo – o nosso espírito eles aterrorizam até hoje.

A outra parte, porém, nos leva a crer que ele atuava numa terceira via, sem se opor diretamente contra os ditadores, nem tampouco compactuando com os guerrilheiros de esquerda, maneira pela qual dizem ter conseguido muitas vitórias a favor da vida e da paz, inclusive a libertação dos padres que o acusam – sem nunca ter feito publicidade do êxito.

O que muita gente gostaria é de ver um papa que já no sermão de ordenação aceitasse camisinha, aborto, eutanásia, casamento gay, num cenário tão bom quanto impossível neste momento. Tenho fé no papa Francisco  e acho por ora é o bastante ter um papa empenhado em olhar com seriedade para o terror da miséria no mundo sem fazer distinção.

 
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Súbita intimidade

A intimidade é um poço. Sempre tive esta impressão. Poço vivo, que se aprofunda naturalmente e de forma concentrada, imperfeita, linda. É diferente do poço artesiano, correto, concreto, funcional. E também é diferente das poças da galinhagem, por vezes amplas e até espalhadas pelo terreiro, e sempre rasas, superficiais.

Mas semana passada descobri a possibilidade da intimidade ampla. Digo, na verdade não descobri, foi o Thomas Farkas que me mostrou. O fotógrafo e documentarista húngaro que emigrou ainda menino com sua família para o Brasil ganhou uma exposição no Club Athletico Paulistano. Além de imagens consagradas expostas recentemente pelo Instituto Moreira Salles, há nesta mostra registros acredito até então inéditos do acervo do artista, guardado pelo IMS, sobre as primeiras décadas da cultura de piscina no país – por sinal inaugurada no mesmo clube.

A primeira piscina brasileira o presidente da República Washington Luiz batizou com champanhe em 1926, no Paulistano. Em 1930 os Farkas desembarcaram por aqui. Talento inato, produto do meio (seu pai foi um dos fundadores da Fototica) ou as duas coisas, em 1942 o Thomas, que já contava uma década de carreira amadora, torna-se adulto e profissional, ingressando no Foto Clube Bandeirante e participando do Salão Paulista de Arte Moderna. Nas horas vagas se diverte fotografando o seu clube, notadamente a piscina.

Na galeria há uma parede inteira só de imagens do CAP, cuja piscina aos vinte anos permaneceria uma novidade. O ambiente é descontraído, mas aparentemente ainda não se permitia um móvel libertino como a espreguiçadeira. Apesar do maiô e dos corpos expostos ao sol, criar e dispor mobília para deitar, se espreguiçar e ficar entregue em público podia não ser de bom tom, e as nossas avós se bronzeavam sentadas na pedra da borda. O clima proporcionado pelo ambiente era porém o mesmo de hoje, o mesmo de qualquer piscina, onde a descontração é incontrolável e marmanjos e garotos buscam as mesmas brincadeiras, numa súbita intimidade, profunda e ampla.

 
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