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A lei de Gershon

Que alegria abrir o Estadão de domingo e encontrar no Aliás a história do Gershon Knispel, um artista plástico de vida riquíssima e sensibilidade rara, que resultam numa clareza de profeta. Ele nasceu na Alemanha e em 1932, contando três anos de idade, mudou com a família para a Palestina. Seu pai, antes mesmo do Churchill, sacou que o projeto nacional-socialista do Hiller era um câncer que se alastraria causando todo o mal que hoje sabemos. Sendo judeu e civil, preferiu não ficar para conferir e se pirulitou.

Em 1958, aquele que, segundo o Joaquim Ferreira dos Santos é o ano que deveria vigorar eternamente, uma ex-namorada do Gershon chamada Nina veio para o Brasil e escreveu avisando que por aqui havia um concurso para a execução do painel do prédio da então TV Tupi, hoje MTV. Ele já era artista, se inscreveu, venceu, veio e viu o trabalho que hoje é tombado pelo patrimônio histórico e artístico. Amizade entre ex-namorados, concursos, painéis em prédios bonitos… vai ver o Joaquim tem razão.

A obra que está lá no Sumaré, sobre o espigão da Paulista, um dos pontos mais altos de São Paulo, retrata uns índios de sete metros e meio de altura. Quem passa pode imaginar que são uma alusão ao Tupi da TV, mas depois de ler o Aliás vai perceber que a mensagem vai além. Ela é uma homenagem aos anfitriões, à arte de receber bem. Cinquenta anos depois de pronta a gente nota que ela ainda protesta, porque 500 anos depois da colonização ainda há quem negue a importância dos índios que nos receberam com flores, frutas e festa.

O Gershon  teve o mesmo tratamento na Palestina. As casas dos amigos árabes estavam sempre com portas e janelas abertas, tinham fontes nos quintais, azulejos coloridos nas paredes e almofadas e tapetes pelo chão, onde ele podiam se encostar e deitar. Quem tem um amigo árabe sabe do que ele está falando. Em matéria de hospitalidade eles são insuperáveis. Das lembranças mais doces da minha infância estão os finais de semana na casa da dona Ivone e do doutor Daher Cutait, avós do meu amigo Alexandre que me permitiam o mesmo tratamento: vovó e vovô.

Na própria casa o tratamento merecido era muito mais duro. O rigor alemão da mãe não perdoava sequer os pés das crianças sujos de barro. E nas casas dos judeus russos e poloneses era ainda pior. Feridos pela injustiça nazista eles reagiam com ferocidade e isolamento. Contaminados pela cultura do gueto subiram muros e torres de observação, compravam as fazendas dos árabes, que com a grana se mandavam para a Europa abandonando os camponeses que acabavam expulsos da terra onde nasceram, cresceram e trabalharam.

Criaram grupos e movimentos para fazer prevalecer sua cultura, de maneira que nem a língua local sobreviveu. O hebraico liquidou inclusive o íidiche. E a resposta árabe veio no mesmo tom, num bate-boca que dura até hoje. Prevendo a tragédia sem fim um grupo de intelectuais judeus fundou nos anos 1930 a Brit Shalom, uma organização para promover a coexistência e o controle político pelos povos que iriam viver ali, isto é, que palestinos, árabes e judeus, e não os arquitetos ingleses tivessem o controle de um Estado binacional, com direitos e deveres iguais.

Em 1964 ele voltou a Israel. Quem reconhece a data nota que mais uma vez ele fugia de uma ditadura, desta vez brasileira. Arranjou sinecura em Haifa e ficou até 1986. Um ano depois, para celebrar os vinte anos do fim da Guerra de Seis Dias, conta que participou de uma exposição coletiva para protestar contra a ocupação israelense em terras palestinas. Eram 67 artistas, metade árabes e metade judeus. Mais uma vez os atentos à severidade matemática vão se emocionar: duas partes iguais em um grupo ímpar de pessoas falam mais do que mil palavras de paz.

Tem muito mais lá no Aliás, mas para encerrar esta prosa que já se estende há quase vinte anos ele está de volta, vivendo em Higienópolis e trabalhando em Santana, ambos bairros de São Paulo. Continua sendo um “pintor de protesto, humanista e humanitário, cuja rotina é reagir”. E cumpre: no meio da organização de um livro sobre sua obra previsto para abril, ele reage e diz que odeia tudo o que o faz parar de pintar. Esta é a lei de Gershon, vantajosa para todos.

 
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Chame o ladrão!

Na sexta-feira passada a Dora Kramer, rainha do frevo e do maracatu da imprensa brasileira, estava brilhante, especialmente brilhante. Falava do desrespeito do cidadão Luís Inácio Lula da Silva pelo Congresso desde quando, há vinte anos, qualificou a Casa como reduto de 300 picaretas, ou antes, quando passeou por lá e desonrou os votos que recebeu cumprindo um mandato “displicente e inexpressivo”, inclusive durante a Constituinte.

Dora vai direto ao ponto e não demora a mostrar como e por que, além do desdém pelo Parlamento, que afinal não é outra coisa se não a indiferença em relação à própria Democracia, se o golpe não pôde ser dado através das armas, como tentaram seus amigos que ora retornarão ao xilindró, que acontecesse pela grana, enquadrando de vez as centenas de picaretas “ao molde da presumida vigarice”.

Vai na íntegra: “Não é conjectura, é fato: foi a partir de 2003 que o chamado baixo clero passou a assumir posição de destaque, a dominar os postos importantes, a assumir posições estratégicas.

“Era uma massa até então quase incógnita, em sua maioria bastante maleável às investidas do Executivo e disposta a fazer do mandato um negócio lucrativo.

Note-se que na época o encarregado de fazer a “ponte” entre o Parlamento e o Planalto era ninguém menos que Waldomiro Diniz, o braço direito de José Dirceu na Casa Civil, cujos métodos ficariam conhecidos quando apareceu um vídeo onde extorquia o bicheiro Carlos Cachoeira.”

Em seguida ela discorre sobre os efeitos dessa “inflexão ladeira abaixo” sobre os quadros do Congresso, notadamente “o isolamento gradativo e por vezes voluntário, de deputados e senadores de boa biografia, com nome a zelar e atuação legislativa relevante”, e o desequilíbrio entre os Três Poderes, cuja intenção mais uma vez ficou provada quando Lula se disse decepcionado com os ministros que nomeou para o Supremo.

Mas a tinta que imprimiu as palavras da Dora ainda estava úmida quando a Polícia Federal visitava mais uma chefe de gabinete da Presidência da República do governo petista. Depois dos já citados Waldomiro e Zé Dirceu, passando por Erenice Guerra e família, chegamos em Madame Rose – que é como prefere ser tratada a dona Rosemary Nóvoa (nódoa?) de Noronha. Ela recebeu os agentes na madrugada da sexta-feira por suspeita de envolvimento numa quadrilha que traficava influência e pareceres técnicos. Seu primeiro telefonema foi para o ex-chefe Zé Dirceu. O Segundo, para o próprio Lula. O terceiro foi o coroinha Gilberto Carvalho, não se sabe se para pedir ajuda ou orações.

E mais uma vez o Chico Buarque é pertinente: Acorda amor
/ Eu tive um pesadelo agora
/ Sonhei que tinha gente lá fora
/ Batendo no portão, que aflição
/ Era a dura, numa muito escura viatura
 / Minha nossa santa criatura
/ Chame, chame, chame lá
/ Chame, chame o ladrão, chame o ladrão!

 
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Ouro de tolo

Aproveitei a calmaria da cidade para rever os oitenta anos do cotidiano inglês expostos em fotografias no centro cultural Ruth Cardoso – FIESP. Claro que é um extrato, mas a impressão é que consegue o essencial, que para mim é a densidade do espírito britânico. Dizem que é melhor vergar do que resistir até quebrar. Mas não para os ingleses. Eles podem estar nus, sangrando e chorando, mas não vão se ajoelhar. Tanto faz se rico ou pobre, preto ou branco, nobre ou plebeu. Ser inglês é algo substantivo, não cabe adjetivo.

As criadas servindo o jantar são tão inglesas quanto seus patrões. O mineiro jantando imundo de carvão ao lado da mulher é um lorde. A pedra que testemunhou um assassinato e continua lá depois de anos impávida como o monumento na praça que sobreviveu à guerra sob sacos de areia e a mensagem que a internet vulgarizou: “Keep calm and carry on”. Assim seguem os ingleses. A granfina no sofá de veludo pode ser tão forte quanto a mãe que ampara os filhos depois de ter a casa destruída por um bombardeio aéreo.

Desci as escadas e aproveitei para passar pelo Nelson Rodrigues, que neste centenário mereceu exposições diversas e também da FIESP/CESI, além da montagem de duas peças no auditório: Boca de Ouro e A Falecida.

No mesmo dia voltamos para ver o Marco Ricca no papel do bicheiro múltiplo. É notável o fascínio pelo metal. Antigamente as pessoas tinham uma volúpia da morte, que hoje migrou para a juventude, ou até um frisson, como se quem não estiver em movimento contínuo, vivenciando ou apenas simulando sensações, estivesse morto ou, pior, ficando velho, essa coisa abjeta. Mas o ouro continua fascinando: se antes era a vontade de passar para a eternidade deitado num caixão maciço, agora é ser eternamente jovem e rico, não importa a que preço. A comunhão das loucuras está nesses sorrisos de um branco perfeito, total, virgem como um anjo, como se jamais tivesse vivido, e que por isso não poderá morrer jamais.

Enquanto isso a Veja destaca o pensamento do filósofo Michael Sandel. O que o preferido de Harvard propõe é que deveríamos impor limites para a sanha do mercado, porque é degradante imaginar transações envolvendo órgãos, filhos, ventres, cidadania, lugares em filas. E a Veja envolve desde a capa a virgindade leiloada da menina se Santa Catarina.

Para mim ao balcão é tão estreito que sempre que começo a pensar no assunto me confundo, sem saber dizer onde nasce o vício, se na compra, na venda ou se é a conjunção de ambos. Porém, por mais delgado que seja, enxergo o balcão que separa o comprador do vendedor, e entendo que, se é verdade que se um não vender outro venderá, os compradores são limitados, e não é todo mundo que, tendo dinheiro, compraria. A linha é tênue demais, e as respostas definitivas variam muito. Quem pode antecipar a reação diante um momento de necessidade extrema? De qualquer maneira tendo a condenar antes o comprador, não pela transação, mas pela crença em que o vil metal prevalece sempre. E quem assim crê pode ser o tomador do capital. Quando dinheiro não se faz com adulação, bajulação, rufianismo assistencial, golpe do baú?

Sobre a virgindade da menina, que por sinal é maior de idade e vacinada, já disse que enxergo antes do dinheiro e do próprio hímen um gesto político, que liberta a mulher, sempre condenada, ora a dar, ora a não dar. E me parece que quem se escandaliza com o volume de dólares envolvido, mas tolera a prostituição comum, que por sinal é algo insignificante como uma sessão de massagem,  se importa antes com o dinheiro do que com a pessoa, donde ocorre no mesmo erro.

O dínamo do mundo pode ser o dinheiro e o sexo, mas nem um nem outro tem a ver com amor. A qualidade do amor é a inversa: fazer o mundo parar. Diante dele qualquer outra questão é perdoável, todo outro é de tolo. Dinheiro e sexo reluzem, instigam, e por isso tem preço. Amor é intangível, não pega etiqueta nem pode ter forma, seja de ouro, seja de barro, assim na terra como no céu.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Mocinho novo, enredo velho

E o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, trocou o secretario da Segurança. Sai Antonio Ferreira Pinto e entra Fernando Grella Vieira. O discurso de posse serviria para qualquer outra pasta. Trocando policiais por médicos ou professores o doutor Grella poderia assumir a saúde e a educação. Na falta da apresentação de um conceito novo a piada infame já está rolando.

A rigor, substituir a pessoa produz o mesmo efeito em qualquer um dos lados. Digo, substituir o mocinho vai resolver o problema tanto quanto prender o chefe dos bandidos: nada. Se o enredo do filme não mudar continuaremos assistindo diariamente a esta carnificina que só não é mais torpe do que a guerra das estatísticas: o Planalto diz que em São Paulo morre mais gente do que em Gaza, o Bandeirantes responde dizendo que proporcionalmente assassinamos menos do que no resto do Brasil.

A questão para mim é muito clara: o combate ao o crime organizado não é caso de Polícia Militar, mas de Polícia Federal. Enquanto a PM está com seiscentos homens em Paraisópolis, outras centenas no Capão Redondo, mais não sei quantos na Brasilândia,  o saldo da corporação que sobra para garantir a ordem opera desfalcado física e conceitualmente, primeiro porque já não há policiais e viaturas suficientes, depois porque com os colegas morrendo em atentados terroristas qualquer outro delito se torna irrelevante.

Relógio roubado, carteira batida, motoqueiro na contramão, ciclista sobre a calçada, carro avançando o sinal, cachorro brabo sem focinheira, contrabandista de CD pirata, flanelinha achacando quem estaciona para ir ao teatro ou futebol. Tudo pode esperar. Ora, as pessoas estão sendo assassinadas e a madame preocupada com uma bolsa? Compra outra e não amola. Outro dia dois vizinhos meus se pegaram de pau na porta da minha casa. Foi uma baixaria, um descendo o sarrafo no carro do outro e a mulherada aos berros. Quando alguém lembro de gritar pela polícia outro falou em cima: “Mas vai incomodar a PM com isso? Os dois que se fodam.”

Policial Militar é para ser conhecido das pessoas e prevenir crimes e contravenções espontâneas. A sensação de ordem já colabora muito. Mal-comparando, a PM é para não deixar os senadores aprovarem um 14º salario para eles mesmos. Quando aprovam o décimo-quinto ou a isenção fiscal para ambos, é crime organizado, é para chamar os federais e, se necessário, as Forças Armadas. Se o Salão Azul tivesse sido enquadrado na primeira investida, a segunda e a terceira não existiriam. Mas a PM, sobrecarregada, já não consegue cumprir sua função, e vai continuar enxugando gelo até alguém criar coragem para mudar o conceito.

Para concluir esse assunto que já é repetido, falo da outra vantagem da PM não se envolver com o crime organizado que tem dinheiro para corromper e poder para atacar: não adianta comprar os policiais corruptos nem mandar matar os honestos, porque nem uns, nem outros, tem qualquer coisa a ver com o assunto.

Ainda dá tempo. Pelas cartas apreendidas, pelas gravações de telefonemas interceptados, nota-se que eles não são tão organizados assim. Mas que evoluem a cada dia, faturando alto e corrompendo, ninguém duvida.

 
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A paz pela preguiça

Os feriados deixaram a cidade deliciosa. O Ibirapuera poderia estar menos cheio, mas assim mesmo estava um deleite. Três medidas básicas para melhorar a convivência no parque é fazer os ciclistas respeitarem o limite de velocidade de vinte quilômetros por hora e o espaço da ciclovia, estejam eles sobre duas, três, quatro, uma ou quantas rodas a imaginação permitir, isto é, skatistas e patinadores de todas as modalidades não podem brincar no meio dos pedestres. Carrinhos de bebê e cadeiras de roda liberados, é claro. Automóveis proibidos, notadamente o da Guarda-Civil, que também deveria usar bicicleta ou, no máximo, carro elétrico.

Outra medida boa seria a criação de mais parques. O Jockey Club em Cidade Jardim é uma área que deveria ser desapropriada. O clube fica com o espaço e os serviços da sede e o entorno vai para a cidade. Derrubam os muros, inclusive os da Marginal. Na Zona Norte também há muros demais. Passei por lá e fiquei espantado com o tamanho do Parque Aeronáutico na Braz Leme. A freguesia pode conferir pelo satélite do google. É imenso e, melhor, nem precisa ser desapropriado, porque se é da Aeronáutica, é do Brasil e de todos os brasileiros, militares ou civis. É só abrir a porta. Não sei se o comandante da Força Aérea ainda é o brigadeiro Saito mas, se for, tanto melhor, porque de jardim japonês manja muito. O freguês que estiver na rede visite no site novo do Lucas Lenci e confira a foto Domingo no Parque para ver como pode ser bom.

Fui à Zona Norte conhecer a Casa Garabed, um armênio que há cinquenta anos prepara uma esfiha de tirar o chapéu. Comi a de cordeiro com hortelã fresco e snoubar, que são aqueles pinhõezinhos que os italianos dizem pinoles. Que generosidade! E que sabor também. Provei a de carne bovina da minha Neguinha e também gostei muito. Depois experimentamos o quibe assado e o mudjectere, que é o arroz com lentilhas e ainda mais snoubars, e coalhada seca. Tudo feito da hora. Nunca vi coalhada seca tão fresca.

Esse negócio de diferenciar a comida árabe é para especialistas. O Dudu Kalili sabe a diferença entre o tempero sírio e o libanês. O Ronaldo Cury de Cápua também. Diz que sua cozinha predileta na cidade é a do Club Homs – que pelo nome deve ser síria. Uma coisa é certa: parecem todos iguais, mas são muito diferentes. Na véspera da Casa Garabed, que é armênia, almoçamos no Cedro do Líbano, na Pamplona, que também faz esfias na hora, e que no prato parecem iguais, mas na boca e na digestão são completamente distintas. A cozinha armênia é mais leve e perfumada, mas as duas são gostosas.

Se a gente atravessar o Mediterrâneo e for à Itália da na mesma. Outro dia, conversando com um amigo novo chamado Gerardo Landulfo, que sabe tudo de lá, ouvi uma interessante. Alguém lhe serviu uma massa à bolonhesa e enfeitou o prato com um ramo de manjericão, o que bastou para ele recusar: em Bolonha o clima proíbe ervas frescas. Estas, por sinal, só mais ao sul ou no litoral. Pode? Mas para falar a verdade nós também temos as nossas. Uma moqueca capixaba jamais seria servida com dendê. Botou dendê virou baiana. E com o feijão, que confusão? Os cariocas comem o preto e os paulistas o marronzinho, chamado carioquinha.

A humanidade é assim, simples e complexa ao mesmo tempo. Duas fitas ótimas que estão no cinema falam disso. Ontem fui ver Um alguém apaixonado. Saí babando: elenco, diálogos, roteiro, direção, trilha e até a locação. Eu moraria feliz na casa do velhinho. Os japoneses absorveram a influência ocidental sem perder a identidade, e há um diálogo sobre uma tela chamada A garota e o papagaio que é exatamente isto: técnica ocidental com espírito japonês.

O outro filme é o E agora, onde vamos?, da Nadine Labaki, que é a Sophia Coppola franco-libanesa. Lindíssima e com toda a sensualidade que só o pudor constrói ela dirige e atua brilhantemente. Faz um pout pourri onde cabe comédia, drama, romance, musical. E, por que não emendar, documentário, porque me mostrou em duas horas a realidade de uma vila libanesa igual a que os meus amigos Chacra vêm há anos tentando explicar. É um extrato social que na proporção serve à humanidade inteira.

Como diria o José Gregori, as brigas intermináveis às vezes acontecem entre vizinhos ou irmãos. E pelo motivos mais distantes e até insignificantes. Os bolonheses brigam entre si para definir a receita do molho que já foi violada e maltratada no mundo inteiro. Paulistas e cariocas já bateram boca por muita coisa, inclusive por feijão. Mas o clichê política, futebol e religião continua insuperável. E inexplicável, também. A freguesa ou o freguês que chegaram até aqui podem aproveitar para olhar o artigo de ontem no blog do Guga Chacra. Depois de passear por intermináveis tribos, grupos, governos, Estados, territórios, religiões no Oriente Médio, antes de visitar a Líbia e a Tunísia, para não complicar, ele arranja espaço para um cristão marxista que é líder exilado.

Se a paz entre essa turma toda, incluindo os ciclistas, tucanos, petistas, corintianos, palmeirenses, Pires e Camargos não for feita por princípio, que seja por preguiça. Ou por prazer.

 
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Batuque na cozinha

Aquele que é tido como o primeiro samba gravado no Brasil está em voga de novo. O Batuque na Cozinha, do João da Baiana em parceria com Donga e Pixinguinha profetizou que batuque na cozinha, sinhá não quer, e que muita gente na cozinha sempre dá alteração, mas parece que ninguém anotou.

Enquanto de um lado da casa, para aumentar a reserva nos banheiros, sobram pastilhas, metais e porcelanas, e os casais que podem instalam tudo em dobro, digo práticos gabinetes e românticos chuveiros, com os mais abastados se valendo até de do banheiro inteiro em dobro, um exclusivo para cada, a cozinha vem se tornando num ambiente de convivência familiar e até social.

Abro parênteses breves para lembrar da exceção: sei de um casal que mandou substituir o bidê por uma latrina extra, e assim desde cedo já começam a prosa conjugal, comentando as notícias do jornal. Fecha parênteses, porque tara se trata com discrição.

Os que viajam pra valer e invés do Hilton qualquer lugar vivem o cotidiano do local hospedados numa casa, dizem que na Europa e nos Estados Unidos o costume é absolutamente difundido. Não o das privadas conjugadas, que já estão superadas aqui, mas o da cozinha como ambiente social da classe média. O cinema e a arquitetura dizem a mesma coisa, e as “cozinhas americanas” estão aí derrubando fronteiras e paredes erguidas há décadas.

Atenção: é preciso não confundir as cozinhas americanas com a celebridade atual do mercado imobiliário, notadamente as “copas gourmet” instaladas nas varandas. Estas são a involução das churrasqueiras, que pelo menos tinham a vantagem de ser ao ar livre. Depois que o feliz proprietário pilotar o terceiro churrasco corporativo para o pessoal lá da empresa a fase exibicionista passa e ele volta a pedir pizza por telefone. O buraco da churrasqueira é condenado ao abandono ou, com sorte, vira bancada para orquídeas.

As cozinhas americanas são iguais a qualquer cozinha, só que mais bonitas, inteligentes e equipadas, tanto que falam de igual pra igual com a sala. O problema é que essas cozinhas são americanas do norte, e aqui somos a América do Sul, onde o complexo de sinhazinha permanece entranhado no povo. Então a parede cai, mas a separação continua, porque a sinhazinha na sala de jantar continua ocupada em nascer e morrer. Lavar louça nem pensar. E de ouvir o batuque ela também não gosta.

Aqui todo mundo quer ter uma mucama. Não é raro que a empregada doméstica ou babá da casa do rico tenha outra empregada doméstica ou babá na própria casa. É sempre alguém subjugado, uma prima distante que vem para a cidade e topa o serviço em troca do teto. Esta é a base da remuneração dos empregados domésticos no Brasil: o teto. Sem trocadilho ou jogo de palavras: a primeira recompensa que o empregador doméstico oferece é um lugar para morar. É a senzala que sobrevive em nós e faz parte do complexo de sinhazinha. Não é privilégio brasileiro. Qualquer população subdesenvolvida está sujeita.

Dois obstáculos fantásticos agora surgem e devem, se não resolver, melhorar muito a situação. Primeiro: a economia está crescendo e a fila está andando. Os bons empregados domésticos estão cada vez mais raros e merecidamente caros. O segundo vem na esteira: a legislação está mudando e agora eles terão os mesmos direitos de qualquer trabalhador, como limite de oito horas de carga horária diária e 44 semanais, hora-extra, adicional noturno, seguro desemprego e contra riscos de acidente de trabalho e outros tantos. É uma maravilha para toda a sociedade, mas é claro que a sinhazinha vai chiar antes de começar a se entender com a cozinha americana. Porque batuque na cozinha, sinhá não quer. O que ela quer é tudo na boquinha.

 
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Despertador

O despertador social funciona igual àqueles dos criados mudos. Há quem acorde no primeiro toque, quem peça mais cinco minutos de soneca, mais dez, quinze, há quem quebre o despertador e também aqueles que não estão nem aí com a hora do Brasil, como diria o meu amigo Reginaldo de Melo Lima. Aonde andará o Reginaldo?

Amanhã, na cidade de São Paulo, será celebrado, com feriado, o Dia da Consciência Negra. A ideia é que ele funcione como despertador social, que, diante de um dia para parar e refletir, a sociedade chegue mais perto do fim da discriminação racial, ou pelo menos em relação aos negros.

Enquanto isso na internet rola um vídeo com um jornalista americano entrevistando o Morgan Freeman, que perguntado sobre o que acha de uma data semelhante nos Estados Unidos responde: – “Ridículo”, e conclui que a melhor maneira de encerrar a questão da discriminação é supera-la, deixar de falar sobre isso, tratarmos uns aos outros como indivíduos, sem adjetivo.

Contra a opinião do ator não falta quem proteste. Há quem diga que fingir que o preconceito não existe não resolve nada. Ora, o preconceito é do homem, vai existir até o último estertor de vida humana. Temos que aceita-lo como uma realidade, inclusive lembrando que pode ser a favor. Nunca vi algum negro reclamando do preconceito sobre raça ser sexualmente bem-dotada. O que não pode ser tolerado, em hipótese alguma, é a discriminação. E ter um dia específico para a Consciência Negra é uma forma de discriminação. O Dia Internacional da Mulher também.

Minha impressão é que o nosso maior problema social é econômico. Estamos atravessando um período em que o dinheiro fala mais alto em qualquer circunstância. A simples posse da grana está sendo mais valorizada do que qualquer outra coisa. De modo que, quem não tem, não tem nenhum valor. Você pode ter educação, cultura, beleza, charme, talento, simpatia: sem dinheiro não terá valor. É como se, sem o porte de ouro, o arco-íris fosse dispensável – quando vale exatamente o inverso.

A sem importância com que os feriados são tratados traduzem esta situação onde a falta de cultura é agravada pela distorção de valores. O 15 de Novembro vale pela possibilidade de aproveitar a folga da maneira mais bacana possível. Sobre a República, nenhuma linha. Com o 20 de novembro é ainda pior. A situação sócioeconômica condena a maioria de negros pobres a passar o dia da Consciência Negra servindo aos brancos. Sobre como diminuir este abismo social, cultural e econômico só o Morgan Freeman falou alguma coisa.

Ele está adiantado no tempo? Sem dúvida. Mas não dá para a gente parar o relógio e esperar que todo mundo acorde no primeiro toque do despertador. Vamos ter que tocar o alarme repetidas vezes, infinitas talvez, e mesmo assim haverá quem se recuse a despertar para a nova realidade. Porém, alguém precisa garantir que os ponteiros continuem avançando, e neste papel o mister Freeman está perfeito.

 
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Fotografia do passeio

De passagem por São Paulo a família Fleming deixou a vida na cidade mais gostosa. O Ian ainda está por aqui nos melhores cinemas com o jubileu de ouro do 007, que é uma maravilha. A Renée fez um rasante a convite da Sociedade de Cultura Artística. Não sei se são parentes de sangue, mas são artistas gigantescos, cada um na sua.

O 007 Skyfall, assim como as canções da Renée, são um convite ao essencial. Na tela ele abandona as traquitanas e ela encheu a Sala São Paulo com sua voz e o piano do Gerald Martin Moore, nada mais, e sem prejuízo nenhum, muito pelo contrário. Não entendo nada de espionagem nem de música lírica,  mas me deleitei com os dois de uma maneira que só o refinamento sublime pode proporcionar:  livre de qualquer sofisticação atende a todo mundo, leigos ou especialistas.

O essencial está ao alcance de todos, não precisa ir ao teatro ou ao cinema. Um dos passeios mais gostosos da vida urbana é cumprir o caminho da roça na manhã fresca depois de uma noite de chuva. Não temos o cheiro rural da terra molhada, mas a diminuição da temperatura e da poluição na atmosfera lavada já contentam. E ainda tem o som que escapa do conservatório musical Sousa Lima, que nome lindo!, a golden-retriever que na saída do pet-shop, com o pelo ainda estufado, rola na calçada molhada e levanta cor-de-rosa com as flores do ipê, a criança que se diverte com os jatos grosseiros dos pneus sobre a poças d’água.

A garoa e a distância da poluição melhoram o passeio em qualquer hora do dia, desde que você esteja a pé. Na sexta passada andei do Iguatemi JK até o clube Paulistano. Com o trafego entupido nas ruas, a calçada fica ainda mais atraente.

Fui ao JK ver a SP/Arte Foto. O melhor, além da arquitetura do próprio shopping, que talvez seja o nosso mais bonito, foi a visita dos cariocas. Comecei pela laje e de cara parei diante do olhar da Cláudia Jaguaribe sobre Rocinha, Vidigal, Leblon e Ipanema. Um retrato vertiginoso por tão amplo, em todos os sentidos. O céu está nublado, mas o sol ilumina o morro e brilha no mar. E a favela, o que é? A Costa Amalfitana hoje é o morro do Vidigal amanhã. Só falta acabamento. A linha que separa as classes sociais no Rio é quase subjetiva, igual a Vieira Souto vista de cima. Morro e asfalto se confundem. A obra está na H.A.P., ou Heloísa Amaral Peixoto. Quer mais aristocrata? Mas para o Wagner, motorista da galeria que sabe de tudo, mostra o livro da artista e avisa ao freguês interessado no preço: – “Segura aí que a dona Lolô está chegando.” Tudo suave e natural. E então, está sol aqui e nublado lá ou vice-versa?

Outros trabalhos que vieram do Rio e me animaram foram os véus do Thales Leite, também na H.A.P., e que parecem uma versão urbana das dunas do Cristan Cravo, que está na DAN de SP, as espumas do Bruno Veiga na Galeria da Gávea, tão leves e concretas como as dunas e os véus, além dos pátios de aviões do Cassio Vasconcelos, direto da Pequena Galeria 18.

Nesse caminho de volta entre a Vila Olímpia e o Jardim América uma quadra faz toda a diferença. Fui avançando aos poucos pelo Parque do Povo, depois Cidade Jardim e quando notei tinha superado a Faria Lima. Então entrei pela Rússia e fiz aquele caminho de rato até chegar na Espanha. Uma quadra! Uma mísera quadra para o ar perder o ardido da fumaça, a temperatura cair dois graus e se ter de volta o pio dos pássaros.

Outra SP/Arte Foto só no ano que vem, quando esperamos que as galerias paulistanas honrem o nome da feira e tragam coisas novas. Antes disso, já para este feriadíssimo de clima inglês, na galeria do centro cultural Ruth Cardoso – FIESP, fotos da cena londrina desde 1930. A ilha toda junta e misturada, numa curadoria que parece não ter deixado escapar nada dos últimos oitenta anos.

Crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Luana S/A

Esse pôster que está nas bancas já deve ter causado acidente. A Luana Piovani cobrindo a peteca só com uma das mãos quer enlouquecer qualquer cristão. E o olhar de ressaca? Capitu é uma lagoa.

Dela posso falar tranquilo. Primeiro porque a minha Neguinha garante que não sente ciúme. E justifica, com requintes de crueldade: – “Ela não daria para você”. Depois porque ela é casada e em mulher alheia eu não reparo. O sortudo é um certo Vianna, aristrocrata, carioca, surfista e pai do Dom. Algum cínico há de lembrar que ela já botou chifre em um. Ora, chifre da Luana é troféu de se exibir na sala. Um mérito antes de qualquer coisa.

Tragado pelo poster comprei um exemplar da GQ que nos fez o favor de traze-la. Fazia tempo que não levava para casa uma revista. Tirando a Piauí e o Amarello, para o qual humildemente colaboro, não há outra que me atraia a ponto de valer a compra. Os clássicos da LP&M custam menos e valem infinitamente mais. Mas quando a Luana está na capa eu compro por princípio. Explico.

No miolo, onde contam como foi a prosa, ela fala que ainda não posou completamente nua, ou até a peteca, que é como ela prefere chamar a dita cuja, por uma questão de mercado: sente que a imagem da própria vale muito mais do que as que vêm nas capas da Playboy. E tem toda razão. Mas ainda não é por isso que eu comprarei qualquer revista com ela na capa.

Meu interesse, creiam, é antes na personalidade do que na peteca da marquesa de Jabuticabal. Acho maravilhoso que exista alguém como ela, disposta a perder contratos de publicidade para não ter que maneirar opiniões ou assinar contrato de exclusividade com a TV Globo. É a liberdade vingadora. Uma franqueza total e tão convicta que acovarda certas marcas ao mesmo tempo que recusa qualquer falsidade. Sandália cafona ela não calça nem para o comercial. Sopa para emagrecer? Não toma e não recomenda.

De qualquer maneira ninguém há de negar a importância da independência financeira. Dinheiro é igual uísque: não faz ninguém diferente, mas acentua as características. Isto é, melhora os bons e piora os ruins.  Imagina a Luana milionária. É isso o que todos nós podemos fazer através de uma revista. Como numa S/A, cada brasileiro pinga dez, vinte reais, para deixa-la cada vez mais linda, franca e, porque não?, nua.

 
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Coitada da cabra

Para minha surpresa as pessoas mais sintonizadas com o progresso social são as que estão atirando pedras no artigo do J.R. Guzzo publicado na última Veja, intitulado Parada gay, cabra e espinafre. Me parece que a turma só leu o destaque, sem se dar ao trabalho de conferir a dua frase que introduz a ideia: “Já deveria ter ficado para trás no Brasil a época em que ser homossexual era um problema.”

É claro que ele está sendo agressivo quando propõe virar a página enquanto grande parte das pessoas ainda não conseguiu entender o que está escrito na atual (com os analfabetos vocacionais não vamos perder tempo). Mas do que afinal é feito o progresso se não de atitudes corajosas que no presente parecem fora de sintonia, e que só no futuro recebem o reconhecimento devido? Tratar como assunto pessoal qualquer orientação sexual é tudo o que deveríamos desejar.

Na guerra é também assim. Primeiro é o bombardeio aéreo, que sendo o auge da brutalidade fere a todos sem distinção, matando soldados e civis, homens, mulheres e crianças. Em seguida vem a invasão por terra, mais seletiva, mas ainda bruta. O restabelecimento da liberdade e da justiça é o último e quiçá infinito estágio, porque há de sempre ser ajustado.

Para quem usa arte invés de guerra o cenário é o mesmo. No facebook vi o Pedro Machado Granato e uma atriz que prefere não ser citada atacando o artigo do Guzzo. Como para mim os dois são referências no teatro, vou continuar na ribalta para tentar expor meu ponto de vista. 

O nosso dramaturgo maior era um bombardeiro. As peças do Nelson Rodrigues abalavam a todos indiscriminadamente. Os conservadores diziam que ele era progressista, e estes o chamavam de reacionário. Quando houve liberdade para se fazer justiça, todos reconheceram que o alvo dele era um só: os idiotas da objetividade – que por sua vez ainda não entenderam nada e continuam babando na gravata.

Outro dramaturgo, o Edward Albee, também usou uma cabra para chacoalhar a sociedade. No texto A Cabra ou Quem é Sylvia ele toma do bicho para discutir os limites do amor, preconceito e tolerância. Quando ele bota uma cabra no lugar de uma mulher como amante do marido infiel, bombardeia o método de raciocínio impregnado nas pessoas, também conhecido como pré-conceito. E dessa confusão proporciona novas perspectivas. Isto é arte.

Modestamente a mesma coisa aconteceu comigo. Sou sócio e conselheiro do clube Paulistano, e como tal participei da audiência que deliberou sobre a questão homoafetiva. Folgo em dizer que contribuí para a decisão final do Conselho, que foi no sentido de acompanhar a interpretação do Supremo Tribunal Federal e desconsiderar qualquer significado do Código Civil que impeça o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. Tendo a oportunidade de falar na penúltima reunião do Conselho, disse mais ou menos o seguinte:

“Não se pode deixar herança para o gato, botar sobrenome em cachorro, incluir o papagaio como dependente aqui no clube. Porque a Justiça não reconhece a relação de afeto entre espécies distintas como unidade familiar. Entre os da mesma espécie, porém, a Justiça reconhece. E recentemente o STF reconheceu inclusive a união entre os iguais de gênero.

O Supremo está em voga. Um dos melhores advogados criminalistas que conhecemos disse algo exemplar sobre as decisões daquela corte: são como a bala de prata que mata até lobisomem, definitivas, inapeláveis.

As crianças, que acreditam em saci-pererê, mula sem cabeça e outras assombrações, aprendem que mulher com mulher dá jacaré e homem com homem dá lobisomem. É mentira. É ignorância. Lobisomem não existe. E se não existe não precisamos esperar a bala de prata do Supremo para aceitar que dois irmãos nossos se amam e constituíram família.”

 
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