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Idiotice

O Paulo Francis me ensinou o conceito da palavra idiota. Não foi pessoalmente, o que é uma pena, embora nem tanto, porque guardo registrado num livro delicioso que reúne um quinhão do que ele fez para a Folha. E também porque não convém conhecer de perto gente admirada: qualquer um, humanizado, perde relevância.

Talvez por lutar diuturnamente contra a idiotice crescente ele tenha ido buscar o significado original da palavra, ou também pode ter sido tara simples, porque de fato ele parecia meio tarado com esse negócio de estudar. Enfim, o que importa é a origem, grega, onde idiota é aquele voltado para si mesmo.

Uma curiosidade pessoal me levou a buscar uma entrevista que o Isay Weinfeld deu para a Trip, onde entre outras coisas ele fala da estupidez urbana. Este outro sinônimo para a idiotice também é a incivilidade, o tédio, e é isso o que os bairros exclusivamente residenciais ou comerciais provocam no pedestre: tédio, mesmice, preguiça. Segundo o arquiteto e cineasta, o passeio será tão mais divertido quanto for diverso, isto é, se quem anda passar por um açougue, depois por uma floricultura, a casa de um velhinho que do alpendre vigia a rua, a outra com um cachorrinho que late para quem passa, a atleta suada que vem correndo desde o parque, na esquina um botequim e depois dele crianças saindo da escola, com sorveteiro na calçada. Igual a uma festa: quanto mais novidade, melhor.

E não sei se é esse modelo de cidade que imbecilizou a turma ou se foi a colaboração incansável dos imbecis é que o constituiu assim. Mas a metástase é notória.

Aconteceu hoje, mas é coisa corriqueira: no meu caminho da roça encontrei um grupo de pessoas conversando em roda na calçada. Sempre acho bonito gente reunida na calçada. Mas fico impressionado com o nível de idiotice de alguns – agora no sentido primitivo da palavra – que transborda pela ausência de qualquer visão periférica. É como se estivessem usando aqueles arreios dos jumentos que proíbem uma noção mais ampla do espaço. E estando impedindo o fluxo, a aproximação de alguém não faz com que eles abram alas sem antes serem solicitados. Hoje foi uma babá que papeava com meia dúzia de colegas. Procurei a que estava sem carrinho de bebê e pedi passagem, no que fui atendido, mas não sem antes ter que parar ao lado dela.

De qualquer maneira a poesia resiste e fica muito mais acessível aos que estão fora dos carros. Principalmente nesta época de orquídeas em pencas, pitangas em profusão e uma garoinha eventual, que deixa tudo mais gostoso.

 
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Sobre quadrilhas

Confesso que sempre senti uma invejazinha dos petistas quando eles afirmavam que eram o único partido do Brasil. O PSDB chegou ao auge muito depressa e inchou antes de crescer, trazendo para as bases figuras que sequer procuraram entender o princípio da social-democracia e outros oportunistas muito piores. O exemplo mais infeliz é o desse Eduardo Tuma, vereador eleito em São Paulo, que para tanto usou em dez mil santinhos espalhados pelas calçadas dos colégios eleitorais na manhã da eleição a imagem e a declaração de voto do Ricardo Montoro, que sequer o conhecia. Fez a mesma coisa ou ainda pior com o Bruno Covas. Apoio de verdade só o daquele casal de bispos que foi preso com dólares na Bíblia.

Abro parênteses para encerrar o assunto: o Montoro, que agora teve o desprazer de conhecer o estelionatário, pediu providências à comissão de ética e disciplina do PSDB, que tem noventa dias para se posicionar. As penas previstas vão de advertência à expulsão – esta que, se acontecer, anula o mandato antes da posse. No momento em que o ex-presidente do PT é condenado pelo mesmo crime de falsidade ideológica, além de corrupção ativa e formação de quadrilha, temos o dever moral de tratar com rigor o caso desse nosso correligionário marginal.

Mas o que me trouxe aqui foram as condenações do PT. Se eles se gabavam de ser o único partido de fato, o único com unidade de pensamento e estrutura consistente no Brasil, agora com o voto dos ministros do Supremo Tribunal Federal ficou claro por que: trata-se de uma quadrilha, não de um partido.

Atualmente o membro mais destacado do PT não é petista da gema: a presidente Dilma era originalmente pedetista brizoleira. E agora, de acordo com a Dora Kramer, sempre genial, é quem tem o poder para livrar a cara do bando do Zé Dirceu.

Segundo o artigo 84 da Constituição é prerrogativa da presidência da República a figura jurídica do indulto, que pode desde reduzir até livrar os condenados da pena determinada pelo Supremo Tribunal Federal.

E a quem ficou assustado informo que não é tudo e ela pode ir mais longe, decretando anistia, o que além de livrar a quadrilha da pena ainda extinguiria o crime, tornando limpa a ficha de cada um dos criminosos.

Claro que ela só faz isso se quiser e ninguém tem poder para contesta-la judicialmente, nem o presidente do STF, Joquim Barbosa. Mas também nada impede que a turminha a assedie para tanto. Ou seja: a presidente da República está numa sinuca de bico: se indultar o bicho pega, se deixar o bicho come.

Sinceramente eu duvido que ela tome qualquer uma das atitudes citadas. Mas não por princípio e sim por cálculo. Safar esse bando seria suicídio político. E, guardadas as proporções devidas, para o PSDB, dar corda para um marginal como esse Tuma crescer impunemente nos quadros partidários pode não ser a suicídio, mas já é o nó da forca. 

 
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De férias com Danuza

Talvez eu não mereça, mas mesmo assim sonho em passar umas férias quais as que a Danuza Leão desfilou numa Folha de domingo recente. Diz que alugou uma casa em Salvador, e que esta casa tinha uma cozinheira que sabia tudo de peixes, frutos do mar , dendê e leite de coco, e que além disse tinha um primo que acordava ou ia dormir cedo, tanto faz, mas que estava sempre ao amanhecer diante da casa para pedir silêncio aos homens do mar que passavam apregoando suas mercadorias e, claro, escolher o melhor para o consumo da casa, que àquela hora dormia o sono dos justos.

Não tinham acesso a jornal, televisão ou telefone, só bebiam suco das frutas colhidas por ali, por vezes temperados com uma cachacinha, não vestiam nada além de maiôs e a única discussão era sobre a praia do dia – desde que esta tivesse águas dóceis, tanto na temperatura quando no movimento.

Apesar da maledicência dizer que só quem está cansado merece descansar, insisto em sonhar com essas minhas férias. Ou por outra: sonho mesmo sem querer. Afinal, sou humano, fraco, e o fato de ter uma atividade que me dá me dá mais prazer do que qualquer outra coisa não me torna um pulha. Mereço férias, sim senhor.

Pelo menos até ler a Danuza, sempre que pensei em férias recusei praias, especialmente as distantes daqui ou carentes de um bar. Ou por outra: nunca vi sentido em viajar além de Juquehy para entrar no mar, andar na areia, tomar um pouco de sol. Lá tem tudo isso e, de uns anos pra cá, infraestrutura que nunca aparece nos relatos de passeios nordestinos – a não ser nos resorts, desde sempre fora de cogitação.

Nossa casa da praia no Juqhehy ficou distante, ninguém mais vai. Só de imaginar o trânsito na estrada, depois o trabalho de manutenção básica que teremos quando chegarmos, surge a conclusão que é melhor descansar em São Paulo. Em Juquehy nem mistério existe mais. E quando é assim é melhor esfriar a relação, evitar qualquer tipo de emoção, boa ou ruim. A esterilidade das pousadas é o caminho.

Já num lugar distante, instigante, apaixonante ninguém pode querer a esterilidade de um hotel. O bom é se instalar numa casinha e viver o lugar, suas comidas, bebidas, a vida do dia-a-dia. Fazer supermercado, ir à padaria, saber as fofocas da vizinhança e, com sorte, ter que saber como é providenciar o conserto de um cano furado. Seja em Paris ou em São Miguel do Gostoso. Até esgotar a paixão. 

 
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É luxo só

Meu pai telefona avisando que o Matthew Shirts botou na Vejinha mais uma crônica deliciosa sobre o luxo de andar a pé. E é isso mesmo: um luxo. Um privilégio. Há quem diga que inveja da boca para fora, em função do politicamente correto, mas na prática, mesmo tendo toda possibilidade para cumprir a pé o cotidiano, insiste no comodismo do automóvel. Porém também existem aqueles que, qual a minha Neguinha, sofrem diariamente no trânsito e desejam consistentemente a vida de pedestre, chegando até a fazer promessa para São Tiago (descubro agora que a piada não cabe, porque o santo que empresta o nome ao caminho célebre o fez já desencarnado, e portanto não é andarilho como os peregrinos seus devotos). Ser pedestre é igual comer salada: todos concordam que faz bem, mas pouca gente sente prazer de fato. Nisto sou sortudo: sou pedestre e saladeiro apaixonado.

A primeira frase do mister Shirts é uma constatação: “quem anda a pé acaba desenvolvendo opiniões a respeito das calçadas”. E a freguesia que acompanha esta página sabe disso. Logo em seguida ele mete um dado alarmante: 450 pessoas por dia se machucam em acidentes causados pelo péssimo estado dos nossos passeios. Você não leu errado, freguesa: por ano são 170.000 pés torcidos, joelhos esfolados, escorregões. Outro dia fui eu, em frente ao MuBE: o mosaico português está se desfazendo e, sem notar uma das pedras, camuflada sobre outras da mesma cor, pisei em falso e me esborrachei.

Logo em seguida ele faz outra constatação: “andar a pé exige mais esforço do que de carro”. É claro que ele se refere ao esforço físico, por que emocionalmente motoristas e passageiros sofrem muito mais do que os pedestres. Mesmo em dia de chuva a regra permanece – questão de proporcionalidade.

Mais adiante ele encontra a palavra exata para explicar de quem é a responsabilidade pela conservação das calçadas: “do proprietário do imóvel adjacente”. Não é uma maravilha encontrar uma palavra bocó dessas, “adjacente”, encaixada com harmonia num texto? E ainda nos brinda com uma fina ironia: “as calçadas estão entre os poucos equipamentos públicos privatizados”, estatuto que, embora reconhecendo que seja gerador de tensões, ele defende e justifica pelo prazer de encontrar pequenas obras de arte no espaço metropolitano, como a do Instituto Tomie Ohtake, em Pinheiros.

Concordo em termos. Alguma especificação técnica dos materiais possíveis, se já não é, deveria ser obrigatória. Paralelepípedo e mármore, por exemplo, nem pensar. Enfeites também devem ter limitações. Aqueles postinhos simpáticos do Santo Grão na rua Rio Preto, por exemplo, roubam o já diminuto espaço e tornam impossível passar entre eles e a parede com o guarda-chuva aberto. Pela lei, a largura mínima é de 1,2 metro, mas deveria ampliada. Se faltar espaço, tomamos dos carros. Tudo para estar bonito quando a profecia shirtiana se cumprir: “As grandes metrópoles do século XXI serão definidas pela quantidade e qualidade dos seus pedestres”. Vamos reeditar o Ary Barroso numa paródia pedestre: “Olha, essa mulata quando anda, é luxo só”.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Boa vizinhança

A decadência começa quando a turma começa a transigir nos detalhes. Antes da Cidade Limpa era o caos, mas evidentemente aquelas placas que poluíam a paisagem urbana não nasceram de um dia para o outro. O primeiro estabelecimento da cidade deve ter botado uma placa caprichada e bonita na sua fachada e foi seguido pelos vivinhos, até que um esperto chegou e a fim de chamar mais atenção encomendou e instalou uma placa maior, no que também foi seguido e assim por diante até chegar naquele absurdo que ainda vemos nas cidades onde a lei não existe.

Se alguém tivesse ido até o esperto e, com jeito, pedido para ele se adequar ao padrão da rua, a lei seria uma convenção natural. Vá lá: ele poderia alegar muitas bobagens e basear todas elas no princípio dos direitos individuais, da livre concorrência, etc. Então a comunidade toda, uníssona, poderia insistir cantando o descontentamento. E mesmo assim ele poderia dar de ombros. Por isso a lei é boa.

Um dos melhores exemplos de sociedade organizada é a dos lojistas da Oscar Freire. Eles têm acordos sobre segurança, festas, decoração de fim de ano e até calçadas e equipamento urbano. Funciona que é uma beleza e o valor do ponto está aí para atestar. Isso não significa que eles estão livres dos espertos – apenas arranjaram uma maneira de controla-los. E mesmo assim a sanha da malandragem não descansa. A última é a discotecagem, que está causando uma poluição sonora que estraga o passeio.

Na tentativa de criar uma atração além da mercadoria alguma loja contratou um DJ e o deixou lá executando sua seleção musical. É bacana, música e moda são coisas unem as pessoas pelo estilo. E deu tão certo que o vizinho também fez e o outro da mesma maneira. Hoje saiu do controle e tem lojista esperto que já deixa o alto-falante na calçada, numa verdadeira guerra sonora onde as vítimas são os próprios fregueses. Perdeu a razão de ser e urge um acordão antes que a esculhambação abafe tudo de bom que eles alcançaram 

PS: outro que poderia colaborar é o Pão de Açúcar: carga e descarga de mercadoria e de lixo industrial em plena Oscar Freire é um esculacho com a vizinhança. A exemplo está logo ali na outra quadra, no Santa Luzia, que em termos empresariais ou financeiros sequer oscula o Pão de Açúcar e tem um verdadeiro porto de abastecimento interno, além de garagem subterrânea e outras medidas para minimizar transtornos, todas simpáticas à lei da boa vizinhança.

 
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Esperança no bar dos cachorros

Na escola me ensinaram que eclusa é aquele equipamento instalado nas barragens dos rios, que permite aos barcos seguirem viagem mesmo ante o desnível das águas, seja à montante ou à jusante, que é quando o rio sobe pro morro ou vaza pro mar, respectivamente. O nosso Tietê querido, por algum motivo que é só dele, corre sempre à montante, e graças a este fenômeno que facilitou o serviço dos bandeirantes na exploração do sertão é que temos São Paulo e o Brasil do tamanho que conhecemos.

A história, porém, mostra que cuspimos no prato em que comemos, ou nos rios em que navegamos, e da mesma maneira que os rios foram destruídos e perderam seu caráter lúdico nas cidades grandes, o transporte hidroviário foi desprezado e sua função prática se esvaiu, sobrevivendo só pontualmente em uma ou outra região, muito aquém do que poderia ser.

Daí que da mesma maneira que a geração dos meus pais perderam os rios que brincaram na verde idade, a minha perdeu as eclusas. Vá lá que graças ao Wilson Quintela o Tietê tenha uma para cada barragem, faltando só a mais cara e importante, que é a de Itaipu, sonho eterno de todo empreiteiro, que se um dia construída permitirá a navegação de São Paulo a Buenos Aires. Mas eclusa para a minha turma é aquele portão duplo que todo mundo quer para atender à própria paranoia – mas ninguém sabe usar.

Considero a hipótese que consulado americano e a segurança dos irmãos Safra façam o uso adequado delas, além de um ou outro prédio granfino aonde quem chega tem que mostrar até o que há no porta-malas do carro para a autoridade contratada. Mas a classe média em geral pegou a pressão sem poder sustentar, e com efeito só estragou as fachadas. Não é raro encontrar quem invista até naquelas rodas medievais, mas que no lugar de bebês abandonados recebem pequenos objetos e pizzas, mais ou menos como uma bebidinha no motel, só que em função da tal da segurança, não de poder beber pelado em privacidade.

A ideia da eclusa é proteger o prédio durante a identificação dos visitantes, sem expor estes aos terríveis perigos das calçadas. Mais ou menos como nas portas giratórias dos bancos. Mas o que acontece todo mundo sabe: o distinto espera do lado de fora e, quando o “pode subir!” finalmente vem pelo interfone, as duas portas são abertas simultaneamente.

O caso mais engraçado é o do consulado de Portugal, na rua Canadá. Diante da portentosa guarita que ergueram estragando a fachada do casarão fica uma placa ordenando que o visitante que chega apague os faróis e desça do carro para se identificar. Quero ver quando o coleguinha israelense resolver passar para um café.

Contudo, há esperança. Do outro lado da rua, na mesma Canadá, o vizinho é uma simpatia. Como gosto não se discute, vou só elogiar o Dog Bar, todo prosa num mosaico colorido erguido na calçada, para o cachorrinho que passa poder tomar um trago. Este mesmo vizinho, no Natal, arma uma decoração que já virou ponto turístico. Palmas para ele. 

 
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Política e nuvens

O erro mais vulgar em relação às pesquisas eleitorais, que inclusive leva à revolta quem não sabe que está vendo errado, é acreditar nos números como se eles fossem uma profecia, a própria antecipação do resultado. Ocorre que as pesquisas não funcionam como os relógios de rua que marcam a temperatura da cidade. Estes, quando muito, acertam o horário. Os números das pesquisas são na verdade aquele mapa das nuvens que a moça bonita do tempo mostra na televisão, presumindo que se há uma massa de frente fria subindo pelo Rio Grande do Sul, pela velocidade do vento ela deve encontrar a massa de ar quente que que está parada sobre o Sudeste e causar chuvas e trovoadas lá pela tarde de quinta-feira.

Quem assiste Fórmula 1 como o meu pai fica abismado com a capacidade dos alemães em prever a chuva. Segundo ele, na tela aparece uma ampulheta indicando quanto tempo falta para a primeira gota, e há dez segundos do primeiro pingo despontar na câmera que fica no capacete do piloto, a pista está completamente seca.

Aqui no Brasil não temos equipamentos tão precisos como os da Alemanha. Aliás, mesmo que tivéssemos, o clima tropical levaria à loucura qualquer analista germano. Em política acontece a mesma coisa. É como dizia o José Magalhães Pinto, unindo os dois temas: “Política é como nuvem. Você olha e está de um jeito. Olha de novo e já mudou”.  Quer dizer, para ler pesquisas eleitorais por aqui é necessário ter faro de político mineiro.

A sete dias da eleição escrevi no facebook que a chance de dar Serra e Haddad no segundo turno era relevante. Não era eu que estava dizendo, mas as tendências das pesquisas. Teve gente que chegou a debochar, dada a vantagem do Russomanno. Dito e feito: com 100% das urnas apuradas, o Serra tinha 30,75%, Haddad 28,98% e o Russomanno 21,57%.

Quatro dias depois saiu nova amostragem, com o petista marcando 48% ante 37% do tucano. Sinceramente, é possível que em quatro dias dois milhões de pessoas decidam mudar o voto para um nome novo pertencente a um partido que está com seus líderes históricos condenados pelo maior escândalo de corrupção já visto? Claro que não. A não ser em casos de encontro de massas de ar revoltosas, daquelas que causam raios e trovoadas. É isso o que está acontecendo. As pessoas não decidiram votar no Haddad – estão votando contra o Serra. É a tal da rejeição. A turma enjoou do Serra. Eu mesmo preferia ter votado no Andrea Matarazzo para prefeito (palpite? Já estaria eleito). Mas o que temos é o Serra, o Zé Gotinha, que literalmente é o remédio para evitar a paralisia do PT.

Para imaginar como pode ser o PT administrando São Paulo novamente é só olhar para Viracopos: o aeroporto que atende à região que movimenta 77 bilhões de reais por ano ficou três dias parado e teve 450 voos cancelados por causa de um pneu furado. Imagina essa turma aqui na Marginal (evitarei o trocadilho com os marginais mensaleiros).

Eu também rejeito o Serra, mas entendo que a minha rejeição é emocional. Com os olhos da razão qualquer um enxerga que ele fez com excelência tudo que se propôs, e as respostas que teve das urnas em São Paulo provam o que estou dizendo. Tanto no estado quanto na Capital o Serra venceu todas as eleições que participou, incluindo o Lula e a Dilma. Com os olhos da razão quem quer o melhor para São Paulo vai votar no Serra.

Ah, se ele vai ficar os quatro anos na prefeitura? Vai. Quatro e mais nenhum. Em 2016 é Andrea Matarazzo 45 e não se fala mais disso.

 
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Sinal aberto

Preguiça e ansiedade são dois dos meus inimigos mais constantes. Não largam do meu pé de modo algum. A segunda, que tolamente eu creio poder controlar com um uisquinho eventual, sempre volta no dia seguinte e ainda mais revoltada. É uma luta inglória. Igual disse o Mario Quintana, “só se deve beber por gosto: beber por desgosto é uma cretinice”. E a ansiedade é um desgosto tremendo.

Nota: mesmo bebendo por gosto deve-se ter limite. Depois de uma certa dose só há desgosto. Fecha parênteses.

Pode não parecer, mas a ansiedade está intimamente ligada à preguiça, seja física, sentimental ou intelectual. Uma boa sessão de exercícios aplacam a ansiedade. Tanto faz se na esteira, na sala de visitas ou na biblioteca. Quando os exercícios prazerosos, tanto melhor. Mas também valem se forem por esforço. Suar, visitar e pensar ajudam muito descansar, confortar, entender.

A esta altura esta freguesia já supõe que tomei um pileque no feriado e estou algo abalado. É verdade, mas não é o que me traz aqui. Muito pelo contrário. Venho aqui confessar um erro, alegremente confessar um erro descoberto no Estadão de ontem.

Na semana passada, tomado pela ansiedade escrevi que as autoridades só tratavam de túneis, avenidas e viadutos enquanto as calçadas eram negligenciadas, ressalvando o valoroso trabalho da deputada federal Mara Gabrilli e do Andrea Matarazzo, vereador eleito em SP. Não é toda a verdade: a lei de calçadas, proposta pelo vereador Domingos Dissei, completou um ano e sua alteração está sendo discutida na Câmara. Parece que ouvindo a população durante a campanha os edis identificaram o descontentamento da população com as multas e querem aliviar. Dizem que entre a autuação e a aplicação da dura deve haver um prazo para reforma, até porque a primeira impede a segunda. A solução intermediária deve ser a melhor: aplica-se a multa com prazo de vencimento adequado (um, dois meses, sei lá) à realizaçãoo da reforma. Se o proprietário cumprir, acontece o cancelamento.

Isso é o que temos para hoje. No futuro o ideal é que o passeio público seja de responsabilidade da prefeitura.

Outra que eu vivo dizendo aqui por ignorar que já está acontecendo é a beleza que seria se os empreendimentos imobiliários se preocupassem com o entorno, inclusive deixando confundir o público e o privado. Há anos nos jornais vemos lançamentos de condomínios com área verde própria, equipamentos esportivos, etc. Pura preguiça de procurar o novo: agora surgem na Barra Funda e na Chácara Santo Antônio duas maravilhas: Jardim das Perdizes e Parque da Cidade. O primeiro destinará um quinto do terreno de 250 mil metros quadrados a um parque municipal, e o segundo terá um parque linear de 62 mil metros quadrados aberto ao público, além se ciclovias, áreas de convivência, cinema e restaurantes. Nome aos bois: Tecnisa / PDG Realty e Odebrecht, respectivamente.

Os urbanistas do Parque da Cidade são do escritório Aflalo e Gasperini. O Felipe Aflalo falou à reportagem assumindo que há o problema de insegurança, mas que tem fé que áreas públicas atraentes, bonitas e bem iluminadas, tendem a ser ocupadas, afastando a marginalidade. Estou de pleno acordo e digo mais: neste momento o que é capaz de reunir as pessoas nos espaços públicos é a internet gratuita e sem fio. As pessoas estarão nas praças e parques onde estiverem as antenas gerando o sinal. E a presença delas promoverá a convivência e o cuidado, tanto com o espaço quanto entre as pessoas. Palpite: o auge das redes sociais será quando elas aproximarem as pessoas uma das outras pessoalmente. E isso não está longe de acontecer.

 
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Calçada neles!

Em São Paulo, na hora do rush, não se anda nem na calçada. Parece piada, mas é a verdade. O Metrô lota, os ônibus viram latas de sardinha e os carros estacionam no meio da rua, com um bocó sozinho sentado em cada um, provavelmente convivendo com o telefone esperto. E a quem quiser subir ou descer a Augusta andando, se estiver com pressa, convém preferir as paralelas. É muita gente, e gente curiosamente gosta de mais gente. Todo mundo junto, fazendo as coisas ao mesmo tempo, nos mesmos lugares.

Quando há um ponto de aglomeração, como ponto de ônibus, botequim, universidade,  teatro, enfim, o pedestre é obrigado ao meio da rua. Os carros estarem parados facilita, mas as motos sempre em louca disparada rodando entre eles são um perigo. Isso quando as motos não estão sobre as calçadas ou na contramão. Antes os motoqueiros desciam e empurravam as motos para cumprir um trecho proibido. Agora perderam a cerimônia.  Na hora da pizza, no domingo, parece que descobriram a nova Serra Pelada.

No trânsito dos carros, além da quantidade, a qualidade dos motoristas ajuda a atrapalhar. Com os pedestres acontece a mesma coisa e os motivos são os mesmos: aflição, competição, falta de educação ou o tô nem aí. Dirigindo tem a gente aflita que para sobre a faixa de pedestres; gente competitiva que não dá passagem; gente malcriada que estaciona em fila-dupla; e a chamada gente domingueira, que passeia distraidamente. Andando há os aflitinhos que esperam o sinal abrir já sobre a faixa de pedestres; os competidores que apertam o passo quando alguém emparelha (juro); os grupos malcriados que caminham perfilados em fila tripla, quadrupla até, e não descerram a fileira sob nenhuma hipótese; e os que não estão nem aí, que seguem flanando pelas calçadas, olhando as flores, as meninas, as vitrines mesmo se estar estiver na Pamplona às seis horas da tarde.

Tanto na rua quando na calçada o governo e a sociedade civil podem atrapalhar e não se furtam a faze-lo. Ambas vivem esburacadas e as segundas ainda são na maior parte de responsabilidade do dono do imóvel em frente, que faz ou não faz o que bem entende, indo do abandono à decoração esmerada, com granito polido e jardim cercadinho, passando por degraus para endireitar a entrada dos carros e equipamentos de segurança, sendo os mais escandalosos os dos endereços das sinagogas. No A prefeitura agora está cortando as calçadas para instalar lixeiras enormes, que razoavelmente deveriam ser enterradas. E os prédios residenciais também fixam as suas onde bem entendem, quando o razoável seria que elas ficassem num compartimento dentro do imóvel. Se nos semáforos mais disputados trabalham os marreteiros, nas calçadas mais disputadas ficam os camelôs.

Claro que não é fácil resolver tamanha confusão, mas curiosamente só ouço duas vozes políticas falando de calçadas, tanto da qualidade quanto da quantidade, que são as da Mara Gabrilli e do Andrea Maratazzo. O resto da turma só fala em túneis, viadutos, avenidas, ônibus e Metrô, que são ainda mais difíceis de resolver. Por quê será?

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Classe criativa

O Fernando Henrique toma a turma toda pela própria régua e não dá moleza. Acredita que somos todos poliglotas. Na quarta-feira, curioso para saber as impressões sobre a ascensão das pessoas à classe média em outras praças, notadamente Índia e África do Sul, fui a um seminário no iFHC. Já tinha ido a outro anterior, sobre democracia e liberdade de imprensa na América do Sul, onde os palestrantes, todos pesos pesados, ex-presidentes da República inclusive, falaram cada um em seu idioma, que apesar de constar como espanhol, variam muito entre um e outro. Mas eu achei que a ausência daqueles radinhos de tradução simultânea era devida a familiaridade das línguas, até porque o mediador, Sérgio Fausto, falava em português.

Dessa vez cheguei  lá e de proa já encontrei o Bolívar Lamounier palestrando em inglês. Olhei em volta e ninguém usava o radinho. O jeito foi enfrentar. Não tive grande dificuldade, porque inglês de brasileiro, por mais exercitado que seja, é fácil de entender. Do indiano, então, é mamão com mel. Mas a sul-africana, que falou por último, me deu uma mão de obra enorme. O cansaço pode ter ajudado, mas não registrei sequer uma impressão sua além da entonação sôfrega que às vezes lembrava um pranto. É uma vergonha, não é? Maior ainda porque ela parece interessantíssima. Chama-se Ann Bernstein, procurem o currículo na rede para conferir.

Das coisas que me preveniram que mais cedo ou mais tarde eu fatalmente me arrependeria estão, pela ordem, não ter feito viagens baratas pelo mundo na adolescência, estudado inglês com afinco e um curso universitário. O que acho que vai dar para salvar é o inglês. De repente tiro um ano sabático, mudo para Londres e fico lá de gravata de lã vendo a BBC, lendo o Times e o Shakespeare e o Dickens no original e aprendo. Tenho certeza que isso de dia e bar à noite durante quatro estações resolverá a questão. Apesar de brasileiro e portanto colonizado sou da opinião de que a língua deve ser forjada na sua terra natal. Não convém falar inglês com sotaque indiano, africano, australiano, americano. Uma menina brasileira linda e chique que participou do seminário, quando pediu para perguntar, falou com o sotaque do cinema americano, que vem com aquela entonação acafajestada onde as pessoas gemem no final das frases. Em português tenho certeza que ela é uma lady. Ah, faculdade e viagens baratas estão fora de questão

O que deu para pegar do seminário é que os judeus têm toda razão: o negócio é distribuir os ovos por cestas diversas. Para a economia, tanto melhor que o maior número de pessoas esteja fazendo o maior número de coisas possíveis. E mil milionários fazem muito melhor a uma nação do que um bilionário. Esta é a minha interpretação do que acho que falou o Pratap Bhanu Metha, intelectual indiano presidente do Centro de Estudos Políticos de Nova Delhi. Ele é um dos especialistas mais destacados no mundo da economia criativa, que em linguagem internacional chamam Think Tank.

Economia criativa é o que mais me encanta nessa nova realidade econômica. Do nada surge um negócio, uma empresa. Das meninas estilistas que com sua criatividade e talento hoje conseguem milhões de dólares a mais pelo algodão que no passado a gente exportava em fardos ao Marcelinho Tempo Livre que fatura prestando os serviços cotidianos que ninguém quer fazer, seja revisão do carro ou buscar crianças em festas, aplaudo todo mundo que tem uma ideia e é capaz de executa-la. E o pessoal que inventa aplicativos para telefones espertos e tabletes? É a nova classe C. C de criativa.

O Bolívar Lamounier, por ser sociólogo, foi o único que iluminou mais o aspecto social das classes emergentes. Uma frase  me marcou, talvez porque foi o que usei como justificativa para não fazer faculdade: não adianta estudar só pelo diploma; temos que estudar muito para sermos melhores efetivamente.

O maior problema do Brasil é este, a falta de educação, seja acadêmica ou social, pública ou privada. Dizer que o crescimento da economia e a distribuição de renda agravam esse problema não seria correto, mas é evidente que colaboram para evidencia-lo. Pode até haver dinheiro, muito, sobrando, mas sem educação nunca haverá riqueza. Sem educação seremos todos uns pobres diabos analfabetos funcionais como este que vos escreve.

 
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