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Três bêbados de verdade

O último 007 que esteve no cinema era ficção como sempre, só que mais perto da realidade. Ora, quem depois de tanta esbórnia não fica algo atrapalhado, ruim de pontaria, com o emocional confuso? Até o 007. O Paulo Francis uma vez viu o Truman Capote atravessando a rua com dificuldade em Nova Iorque e concluiu: “câimbra de bêbado”. Ela existe, é meio aparentada da tremedeira nas mãos, sua prima mais famosa cujo remédio mais eficiente e perigoso são os coquetéis matinais, como Bloody Mary, Bull Shot, Irish Coffee, Screwdriver. Este último, que pode ser traduzido para chave de fenda, é o que melhor explica a função de ajuste. O Ciso Marques da Costa chamava essas bebidas de Paramount.

Era charmoso o Ciso. Mas ele, o Capote e o Francis não estavam no trio original que pensei quando botei o título desta crônica. Além do 007, pensei no personagem que faz um aviador egresso da II Guerra num filme chamado Amor Profundo, e que rouba o coração da jovem senhora de um juiz. Mas não se segura. Ela é uma daquelas mulheres que sabem que o amor é tão importante que os abençoados por ele não precisam da recíproca. Igual dizia o Nelson Rodrigues – que apesar da aparência só bebia leite e água da bica -, para quem ama, basta amar. Esperar ser amado é egoísmo.

Enfim, depois da guerra e sem muito o que fazer em Londres, o nosso aviador se dedica ao etilismo com afinco – e evidentemente vai ficando confuso, cada vez mais. Mas o desequilíbrio tem seu charme. Uma das cenas mais lindas do casal torto é num pub, com os bêbados todos cantando You Belong To Me. É a canção do amor livre: just remember Darling: o que é do homem o bicho não come.

Um dia ele chega e avisa que vai partir. Foi contratado como aviador no Rio de Janeiro. O enredo não explica se seria aviador de receitas, como brincava o Stanislaw Ponte Preta. Nem essa piada cabe aqui. Ela sofre, mas antes preocupada com o estado psicológico dele depois de tanta cachaça – que não combina com o manche – do que com a solidão prevista. Ele explica que com três meses de abstinência terá sua genialidade aérea restabelecida. Tenta sair antes da alvorada, com os sapatos nas mãos para não acorda-la, em vão. Ela desperta e engraxa o par, num carinho derradeiro.

O terceiro bêbado apesar, de ator, é de verdade: bebia na pessoa física. Richard Burton, bonito, milionário, cachaceiro e talentosíssimo. Tinha tempo para beber que nem louco. Escreveu um diário para a posteridade, para quando todos os citados estivessem mortos. E este momento chegou. A Piauí deste mês trouxe um chorinho que sozinho vale a edição. Há intimidades profundas e confissões graves, que feitas sem nenhuma pose ficam leves. Sobre o nosso assunto aqui, ele anota que passou dezenas de horas seguidas bêbado, e depois que, seguindo o conselho do médico, deu um tempo – e a vida foi boa assim mesmo, apesar de tão mais clara.

 
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A mensagem vem da esquina do Prata com o Atlântico

A melhor mensagem política dos últimos tempos foi o discurso que o bom Pepe Mujica, presidente da República Oriental do Uruguai, fez na ONU. Foi um tapa na cara de todos, notadamente na orelha grampeada da nossa presidente Dilma, que irresponsavelmente vem estimulando o consumismo e maquiando índices para disfarçar a inflação que torna a nos ameaçar.

Basicamente ele fez um apelo por um mundo mais consistente, por uma vida menos ordinária, onde tudo é efêmero, descartável. Disse com todas as letras que é insano gastarmos dois milhões de dólares por minuto com guerras. Repetiu que se é uma economia globalizada, não há miseráveis na África ou na América Latina, mas no Planeta Terra.

Esta semana abri o jornal e vi a imagem de uma mulher desesperada. Era uma espanhola sendo despejada com sua família da casa onde viveram os últimos 25 anos. Com todos desempregados, não pagavam aluguel desde janeiro. Valor total da dívida: mil euros.

No Brasil, a União ofereceu a um agricultor do Piauí R$5,39 (cinco reais e trinta e nove centavos) como indenização pela desapropriação de sua terra, que está no caminho da Transnordestina, uma das principais obras do PAC, filho da Dilma. A ferrovia, promessa de governo do Lula, foi orçada em R$ 4,5 bilhões e com as obras ainda pela metade a previsão é de ser concluída a oito bilhões. As informações estão no artigo do Gaudêncio Torquato, no Estadão de domingo.

E no mesmo Estadão, só que no sábado, o Fernando Reinach trouxe um estudo definitivo sobre como a dureza financeira é corrosiva. Um grupo de cientistas pesquisou agricultores indianos que plantam cana. Lá as propriedades são pequenas para esta cultura, e cada um tira uma safra por ano de acordo com a encomenda da usina. O dinheiro entra uma vez a cada doze meses. E é claro que nos meses seguintes a venda eles tomam decisões melhores, não só em relação ao dinheiro, mas até sobre a própria saúde. Nos últimos meses estão tão aflitos pela falta de grana que só fazem bobagens, descuidam até da própria saúde.

Para quem não sabe o que é isso use como base ir ao supermercado com fome: a chance de você comprar o que não precisa e nem mesmo deseja é extremamente maior. E é aí que a pior face do capitalismo aparece. É disso que nos fala o bravo Mujica. Que pode haver um capitalismo mais saudável, menos escroto do que temos atualmente. Que gere riqueza consistente, não um consumismo desenfreado que explode a cada período e destrói o planeta. Todos merecemos ser confortavelmente ricos. A maioria não quer um iate, muito menos um avião, só não quer esta aflição de não saber se terá onde morar, o que vestir, o que comer. E isso é possível para todos, sim. Impossível é uma parte do mundo continuar obesa e outra parte morrendo de fome. E a pobreza é a fome do espírito, e esta te mata em vida, na riqueza ou na pobreza.

 
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Renascentistas, Lucian Freud e a nova geração figurativa

Pro meu gosto os melhores artistas que apareceram recentemente são figurativos. Artistas plásticos pintores, melhor dizendo. Por que os fotógrafos são na maioria figurativos e deveriam ser novos. Igual diz o Fre Zaragoza, décadas de fotografia artística cansa esgota qualquer um. Do lado dos escultores há muito poucos figurativos. Ninguém mais faz aquelas bundas lindas em bronze. A não ser os bustos de gente rica ou importante – sempre com cara de bunda.

Desde já assumindo o risco de ser injusto, vou lembrar de três pintores novos brilhantes: Andrea Rocco Chacra, Ana Elisa Egreja, Evandro Angerami. Todos figurativos. E as melhores exposições em cartaz na cidade também são: os renascentistas, no CCBB, eternos há 500 anos, e o Lucian Freud no MASP, um dos mais importantes do século passado.

Mas curiosamente nas galerias o que se vê é arte contemporânea e só. A única explicação que enxergo é o mercado. Botaram tanta pilha nesse pessoal que agora têm que sustentar. Não podem chamar decepcionar quem pagou milhões pela Beatriz Milhazes.

É evidente que as próximas décadas serão dos figurativos. Igual a tudo na vida, notadamente nos mercados, o de arte tem suas marés. E ela está virando.

Sobre os renascentistas receio dizer qualquer coisa. Sinto que estão além do meu alcance. É melhor lembrar do Edmundo Furtado dizendo a dica do Luis Lopes Coelho: – “Vá à Veneza ver o roxo do Tintoretto”. Pois por ora ele está aqui, ali na Álvares Penteado. Ao lado do Carpaccio, cujas cores deram origem ao nome prato, inventado no Harris Bar; e o Leonardo, o Michelangelo, o Rafael.

O Lucian Freud fica no MASP só até o dez de outubro. Convém ir logo, de preferencia na terça-feira, que é de graça e o público fica divertido. Na última tinha uma molecada curiosa, passeando de propósito, sem escola ou qualquer tutor. Peguei um metendo a mão numa tela, por fascínio, não vandalismo. Disse que ele não podia fazer aquilo e ele entendeu na boa.

A obra é de fato fascinante. O Freud pintor fez no ateliê o que seu avô cientista fez no consultório: processou o espírito humano. Todos seus retratados são nossos íntimos, porque tanto faz quem, o que está nas telas somo nós. Cada um deles.

O Nelson Rodrigues botou, acho que em Engraçadinha, uma ideia do Estado contratar alguém para seguir o Otto Lara Resende diariamente, anotando suas frases geniais. O Lucian Freud teve um paralelo plástico espontâneo: o fotografo David Dawson trabalhou como seu assistente e entre uma assistência e outra criou a própria obra, retratando a vida e o trabalho do chefe. Está tudo no MASP. Corram.

 
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Da praça João Mendes ao Ibirapuera

O próprio Messias, conhecido no mundo todo através do sebo que criou ali na Praça João Mendes, fez a revelação aparentemente contraditória: “se não fosse a internet eu não estaria onde estou”.

Constatar que o comércio de livros usados tenha sido tão beneficiado pela internet nos ajuda frear a noção de que a tecnologia vai matar o livro e outras teorias conspiratórias. O próprio livro, na forma como conhecemos hoje, foi uma evolução tecnológica. Não sei se nesta ordem, mas da pedra lascada ao Kindle, passando pelo pergaminho e pela prensa do Lutero, a experiência da leitura não foi alterada.

Supor que é diferente ler no papel de celulose ou de led (serão feitos disso os tabletes?) seria a mesma coisa que afirmar que faz diferença escrever à pena, bater a máquina, digitar, teclar. Me parece questão de gosto, possibilidade, e só.

Fiquei pensando nisso ao ler a declaração do Messias Antonio Coelho, dono do sebo, ao mesmo tempo que me preparo para assistir o fórum sobre urbanismo da Arq. Futuro que começa hoje no auditório do Ibirapuera. Ora, com o TED, o youtube e tudo o mais que temos como acesso ao que gente boa tem a dizer, para que juntar uma pequena multidão num auditório? Em quantidade e interatividade chega a ser ridículo perto dos números da rede. Mas em qualidade é diferente. Nada substitui a experiência de estar num espaço criado para tanto, com tanta gente na mesma sintonia. Pode soar cafona, mas deve haver algo de energético, cósmico ou coisa que o valha.

Daqui a pouco estou indo para lá. Vem gente muito boa, como os caras que mobilizaram Manhattan High-Line Park, também vem a paisagista responsável, além a secretaria de transportes de NY Janette Sadik-Kahn, e tem o pessoal da Midia Ninja, do Passe Livre, do Meu Rio, Baixo Centro, gente do Partido Novo, do Insper, o Guilherme Wisnik, curador da X Bienal, os vereadores Andrea Matarazzo e Nabil Bonduki, o secretario Fernando Mello Franco, Andre Lara Resende, Philip Yang, fabio Barbosa, Antônio Ermínio de Moraes Neto, enfim, seleção.

Agora é falar menos e escutar mais.

 
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O terroir, da Umbria a SP

Tem toda razão em receber como frescura quem ouve falar em terroir pela primeira vez. Sem qualquer tradução além do francês capaz de entregar o mesmo significado, já começa pedante. Logo em seguida melhora, bastando a quem explica lembrar que se há animais específicos para cada lugar, com os vegetais acontece a mesma coisa. Mas não dura muito. Num terceiro passo é necessário dizer que o terroir pode mudar completamente em distâncias alcançáveis a pé, então voltamos ao ponto de partida onde tudo não passa de frescura. 

Entendo quem pensa assim. Eu também desconfiava de conversa fiada. Mas com atenção e livre de preconceitos é fácil entender o conceito. Cresci morando no Jardim Paulista e depois de casar mudei para dois quilômetros dali, em Cerqueira Cesar. A rigor é o mesmo bairro da cidade, com as mesmas ruas limitando seu perímetro. Mas o clima é outro. Cerqueira César é muito mais seco e poluído. É claro que as circunstâncias determinantes não são naturais. Entra o trânsito, a densidade de construções, proximidade de áreas verdes. Mas muda completamente. A roupa no varal por aqui precisa de metade do tempo para secar e a prata menos ainda para oxidar.

Escrevo para fazer mea-culpa com amigos italianos que conheci recentemente. Il fratelli Regini são de Pesaro, uma cidade serrana na região da Umbria, meio da bota. Fica a dois quilômetros da Umbria, que é mais ou menos a distância entre a Augusta e a Brigadeiro Luiz Antônio, mas quem perguntar se eles são da Umbria vai ouvir: “não, não, somos de Pesaro”.

A família Regini tinha um moinho de trigo. Vendia a mesma farinha para os padeiros da Umbria e de Pesaro. Mas garantem que num teste cego reconhecem com facilidade qual pão foi feito em que lugar. A água, o ar, o terroir enfim, conta no resultado do pão. Quando perguntei se o humor da mulher do padeiro, qual o Nariz da Cleópatra, também contava, eles disseram: - “Ma che! Não entendeu nada!”

 
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Cidade Limpa, ainda

Justo na semana em que a arquitetura toma conta da cidade, com a X Bienal rolando e a chegada de gente destacada mundialmente para falar em urbanismno no Arq. Futuro, São Paulo mostra que vem retrocedendo onde melhor avançou nos últimos anos: a Lei Cidade Limpa.

Os números falam sozinhos: a quantidade de multas aplicadas a quem desrespeita a norma caiu 90%. De janeiro a julho deste ano, 230 mil anúncios irregulares foram removidos das ruas, contra 250 mil só em janeiro de 2012.

Quem anda por aí não precisa de números para ver que estamos retroagindo. O que talvez a turma não saiba é que o prefeito Haddad afrouxou a lei. Recentemente autorizou a veiculação em taxis e ônibus de uma campanha de trinta dias para incentivar o uso da bicicleta e, desde fevereiro, liberou cartazes esternos em cinemas e teatros.

Claro que ambas têm apelo. A bicicleta talvez seja mais querida que a Marina Silva e desde sempre se falou que os equipamentos culturais mereciam tratamento diferenciado por motivos diversos. Mas a verdade é que ainda não estamos prontos para dar este passo. E os avanços dos espertos serve como prova.

O edifício Dacon, por exemplo. É uma referencia de arquitetura, sequer precisa de endereço. A quem lá se estabelece basta dizer: estou em tal andar do Dacon. E teoricamente só empresas responsáveis e comprometidas com a cidade se instalam lá. Mas na prática o que acontece é malandragem. Quem passa é obrigado a ver os luminosos velhacos da XYZ e do HCor, instalados no interior para burlar a lei. E igual a eles há muitos mais.

Outro que eu incluiria mesmo sem saber com certeza se está irregular é uma loja de carros na Avenida Brasil. A arquitetura da casa é ousada, já nasceu como referencia na cidade. Foi concebida para estar no nível dos carros que vende: Ferrari e Maserati. E o que faz o empreendedor? Mete o telefone na fachada. Passo por lá e não creio. A rigor é a mesma coisa que imaginar um desses bólidos com uma plaquinha na janela: “VENDE-SE, ano tal, único dono”.

Por tão recente todos deveríamos lembrar como era pior a vida na cidade antes dela. Uma imagem que eu gosto muito é a do telemarketing, que todo mundo odeia: se o seu telefone toca na manhã de domingo e é alguém querendo vender qualquer coisa, você tem a alternativa de desligar simplesmente. Os outdoors, placas e faixas vendendo as mesmas coisas são obrigatórios.

Infelizmente, a Lei Cidade Limpa ainda depende de fiscalização rigorosa. Não estamos prontos para viver livres dela.

 
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Coletivo da madrugada

O governador Geraldo Alckmin lançou hoje ônibus 24h na Zona Oeste da cidade de São Paulo. Por Zona Oeste entende-se Vila Madalena, bairro que concentra muitos bares. O jornal Destak deu chamada de capa: Alckmin lança ônibus 24h para boêmios. Inevitável fazer uma piada com o Serra, notívago famoso e morador da região. É tucano com vocação de coruja.

Curiosamente, minha primeira vez de ônibus na madrugada foi por lá. Hoje eu ando de ônibus por convicção, acho mesmo melhor do que andar de carro. Mas a estreia foi por dureza. Provavelmente eu tinha batido o carro, que estava consertando, e estava sem dinheiro para o taxi. Não que esta falta de dinheiro tenha mudado muito. Mas hoje, com toda a gaita do mundo, não voltaria a usar carro próprio no dia-a-dia.

Mas embarcando de novo na primeira viagem noturna de ônibus, me lembro que ia comigo o Gabriel Gonçalves dos Reis, mais conhecido como Bochecha, ou Xexa simplesmente. Provavelmente estávamos pelo Itaim-Bibi fomos para a Vila Madalena pela linha da Faria Lima.

Achamos ótimo. Vazio, o coletivo era praticamente nosso. O cobrador era boa praça e a perspectiva da cidade era completamente nova. Um metro ou dois a mais mudam muito o ponto de vista. As ruas também estavam vazias e a sensação era a de uma limusine com chofer. Estávamos bêbados, mas a lembrança é exata, não leva exagero.

Sair de ônibus para beber tem outras vantagens. Primeiro é mais barato. Depois há a Lei Seca. E também vai ajustar muitos problemas sentimentais. Um namoro da classe média pra cima que começar de ônibus tem mais chance de ser bonito. Está certo que, por ser público, o casal tem que se comportar com mais prudência do que se num carro particular. Mas a conversa pode ser com os olhos nos olhos. Posso antever a definição de maria-catraca: moças românticas que dão por amor. 

A parte ruim será esperar no ponto. Mas dependendo da adesão pode até virar uma coisa boa. Igual aos fumantes unidos pela marginalidade, os boêmios que embarcarem no coletivo poderão criar novas rodas desde o ponto, paquerar.

E até a música tem jeito. Com a facilidade de carregar suas prediletas hoje em dia, pode-se adaptar uma das melhores experiências que há – proibidíssima por tão perigosa. Explico: dirigir bêbado por ruas vazias ouvindo Cole Porter é um deleite. Mas não pode. Nem pensar. Mas ir sentado lá no fundão, sem se preocupar com o itinerário – posto que este não muda nunca – é uma alternativa formidável.

 
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Data inconveniente

A data é inconveniente, eu sei. Mas é preciso saber separar as coisas. Com paixão a opinião não funciona. Ou vira pregação. É preciso ser razoável.

Escrevo ouvindo o voto do ministro Celso de Melo e tudo indica que ele vá aceitar os embargos infringentes, que garantem um novo julgamento à quadrilha mensaleira que apoiou o primeiro mandato do presidente Lula, do PT.

Pior ainda, posto que a esmagadora maioria das pessoas das minhas relações quer ver o Zé Dirceu em cana antes do jantar – e eu também gostaria, é que de baixo da minha ignorância jurídica, apesar do desejo, sou favorável aos embargos. Meu princípio é que o direito de defesa deve ser amplo e usado em sua totalidade, seja lá como for.

Politicamente falando fica um gosto ruim. É uma vitória de gente má, que atuou contra a democracia. Estou fazendo um esforço para imaginar o remédio virando veneno, as nomeações dos dois novos ministros, Barroso e Teori Zavascki, que ousaram votar sobre a decisão do mesmo colégio, os outros dois famigerados Toffoli e Lewandowski, tudo pesando no colo de quem os pariu, notadamente Lula e Dilma.

Enfim, vamos adiante. Vim aqui elogiar justamente um petista. E pela segunda vez em menos de uma semana. Há poucos dias festejei no facebook a internet sem fio na praça Dom José Gaspar, patrocinada pela prefeitura de São Paulo. Agora volto à carga e faço vivas ao prefeito Haddad pela coragem na luta contra o colapso automotivo na cidade.

Neste domingo , em atenção ao Dia Mundial sem Carro, o Centro vai estar fechado para o trânsito de automóveis. É uma experiência, mas a expectative é que se amplie no mapa e no calendário.

Na semana que vem receberemos a secretária de transportes de Nova York, Janette Sadik-Khan, num seminário organizado pela Arq. Futuro, uma ong que trata de urbanismo. Foi ela quem fechou Times-Square para carros, não aos domingos, mas permanentemente. Resultado: um lugar muito melhor para todos: comerciantes, moradores, turistas.

Por aqui o prefeito poderia expandir a ação para a rua Augusta. Começando pelos finais de semana e então se ampliando. As duas faixas centrais ficam para os ônibus e as outras duas viram passeio. Carro nenhum. Se pode ciclofaixa para bicicletas, por que não faixa para pedestres? Isto sim é conveniente.

 
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Meu nome não é Maria

Quem vive por Cerqueira César conhece a Maria Louca. E até muita gente que nunca passou por aqui, porque ela já foi personagem do Fantástico ou coisa que o valha.

Moradora dessas ruas, ela passa o dia carregando a mudança para cima e para baixo, e entre uma parada e outra tenta explicar, aos berros, que seu nome não é Maria. É uma capacidade vocal incrível. Desse eu der um só daqueles gritos, passo uma semana rouco.

Mas a turma gosta de provocar e insiste em maltratar a pobre coitada tratando-a por Maria. Quem diz que sabe seu nome verdadeiro emenda que antes de enlouquecer ela vivia bem com o marido, que a traiu e abandonou, e por isso sofreu tanto que definhou e passou a sobreviver pelas ruas.

Recentemente a vi despertando sob a marquise de uma loja em frente à minha casa. Pontualmente às 8h30 ela acorda e recolhe o acampamento, porque a loja tem que abrir. E igual a todos nós segue um ritual matutino – porém público. As ditas necessidades faz agachada entre a calçada e o asfalto. Como geralmente há alguém desperdiçando água, a corrente funciona como descarga. Então ela volta à marquise e dá uma geral impecável, sem deixar vestígio do pernoite. Inclusive as folhas secas que se juntam aleatoriamente ela retira, como cortesia ao anfitrião.

Escrevo desta mulher bem educada para marcar a passagem do Dia Internacional de Prevenção ao Suicídio. Há quem provoque a própria morte de maneira sensata, como portadores de doenças degenerativas e incuráveis, mas a maioria acontece em função da insensatez. Só nos últimos dias o jornal trouxe três casos de amargar.

E o que isso tem a ver com a dona Maria que não é Maria? É claro: muito provavelmente todo o problema poderia ser resolvido com acompanhamento médico. Algumas bolinhas coloridas pela manhã devolveriam à vida milhões de pessoas, que nada obstando estarem por aí, já não estão vivendo. Quanta gente ao nosso alcance não recorre a elas para temperar o sangue?

 
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Comida de rua

Sempre gostei de comida de rua. Ainda na escola, antes de voltar para casa era obrigatório passar pelo pipoqueiro ou sorveteiro. Os primeiros sempre têm muitas histórias para contar. O Arnaldo Jabor usou o personagem com perfeição no A Suprema Felicidade. Pipoqueiros falam sacanagens cândidas. Já os sorveteiros são curiosamente cândidos de verdade, geralmente um senhorzinho bom. Mas sobre a comida mesmo, um deleite meu foi descobrir aquela imensidão de piruás debaixo das pipocas. Esses milhos que que tostam mas não estouram, ou estouram pela metade, são para mim uma iguaria. E há tantos nos carrinhos de  pipoca.

Maçã do amor, churros e algodão-doce já eram raros quando eu crescia. Acho que foram definhando junto com a vida em espaços públicos, se restringindo a festas pontuais com grande concentração de gente. Ficaram os marreteiros, vendendo nos semáforos, bijus, amendoins.

Nas praias, onde a gente está, eles também estão. Que delícia o queijo coalho assado na hora. Que destreza no preparo. E outras guloseimas, raspadinhas, sanduíches. No Rio de Janeiro uma vez encontrei um vendedor de kibe e esfiha fantasiado de sheik árabe. Andava acompanhado de duas odaliscas que carregavam os isopores enquanto ele fazia o pregão: – “Kibe e esfiha quentinho!” Foi assim o dia todo e continuou ao por do sol. Não aguentei e perguntei como poderia estar quente até aquela hora, e ele: – “Merrmão, Rio 40 graus!”

Me lembro agora de um que fazia sanduíches na Praça Matriz em Paraty. Ele tinha uma forma para fazer o ovo frito na circunferência exata do pão. Na madrugada as filas na barraca eram enormes.

Eles fazem parte das nossas vidas, mas são ilegais. Pode? Comida de rua legalizada em São Paulo só pastel de feira e cachorro-quente. Todo o mais é proibido, das tapiocas ao yakssoba, passando pelas saladas de frutas e o milho – verde ou em pipoca. Mas até a policia consome, afinal estamos na América do Sul.

Atento em adequar a legislação aos costumes, o Andrea Matarazzo propôs à Câmara Municipal uma lei para regular o mercado. Dificilmente o texto final vai escapar dos vícios das nossas câmaras. Suas excelências vão botar exigências, limitações, tentar criar um órgão fiscalizador para empregar mais gente e atender aos anseios dos currais eleitorais, como quer a proibição de bebida alcoólica para atender os evangélicos, enfim, o preço de sempre para a aprovação do projeto. Mas o importante é que o conceito é incontroverso e os ajustes poderão ser feitos com o tempo e por quem é competente, isto é, a própria sociedade, os consumidores. Nesta quarta-feira 18 de setembro tem audiência pública na Câmara.

Tenho que fazer um viva para o Beto Lago, assessor do gabinete do Andrea. Economia criativa é com o Beto, e comida de rua é economia criativa. É a harmonização do lúdico com o prático, do útil e do agradável. Faz sentido um pipoqueiro ser proibido de trabalhar?  É claro que não. Tem coisa mais simpática que um pipoqueiro na calçada? Faz muito bem o Espaço Itaú de cinema na Augusta, que tendo pipoca dentro, incentiva a presença do pipoqueiro fora. Eles merecem estar dentro: dentro da lei.

 
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