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Caldos e pipocas

No final de semana que passou entrei no videoclube e estava passando A Rosa Púrpura do Cairo, Woody Allen dos anos 1980, que é mais ou menos como um Di Cavalcanti dos Anos Dourados. A trilha sonora e a doçura da Mia Farrow já seriam suficientes para querer rever a fita, mas talvez a coincidência tenha falado mais alto: na noite de quinta-feira, sem mais por que, o Julinho Toledo Piza decretou que o então marido da Mia tinha chupado a ideia original de um poeta russo chamado Maiakoviski, e a partir disso me deixou boiando sem acrescentar nada. Hoje telefonei procurando entender o conceito e ele confirmou a acusação, botando mais um dado: na versão do russo é uma mulher e não um homem que troca a ficção pela realidade. Coisas do Bar da Dona Onça.

De qualquer maneira, tanto público quanto crítica concordam que é uma obra-prima do cinema sobre o cinema. É sempre divertido quando um diretor sabe nos contar sutilezas da técnica e dos bastidores sem  quebrar o encanto. São os bastidores, sempre atraentes, desde que sem indiscrição. O Guel Arraes fez um bonitinho aqui no Brasil: Lisbela e o Prisioneiro.

Outra coisa que me pegou no filme foi o tamanho do saco de pipocas, pequeno, simples, civilizado. E não tem nada a ver com a época da depressão americana em que o filme se passa. Era um costume, uma cultura, não um impedimento financeiro. Até porque se há duas coisas que não têm relação entre si é o preço da pipoca com a quantidade que vai no saco. Por dez, vinte pratas, tanto faz se você leva um punhado ou um balde de milho. Mas eu sinto aquilo que chamam de vergonha alheia quando vejo alguém com um saco gigante, mais refrigerante e outros bichos. E essas salas granfinas que oferecem pipoca trufada e harmonizada com vinhos? Tem uma que se diz 4D, porque a poltrona treme, sacode e até chove na plateia se o tempo virar na tela. Fico imaginando quantos D merecem aqueles cinemas da Rua Aurora, tidos como os mais interativos do mundo.

Mas enfim, o que eu ia dizendo é que a matéria prima da pipoca, e da comida em geral, guarda pouca ou nenhuma relação com o preço final do prato. Cem, duzentos, quinhentos gramas da melhor massa seca não podem custar mais do que dez reais. Igual ao ditado caipira, o molho invariavelmente sai mais caro que o frango, e por uma razão muito simples: dá mais trabalho.

Os caldos, por exemplo. Você pega do bicho o que geralmente é desprezado: ossos, pés, carcaça, cabeça e bota na água. De graça, não é? Mas e a mão de obra? É uma operação que leva horas e requer quase a mesma atenção de um ovo frito.

Me aproximei dos caldos desde que reduzi o estomago. No princípio quem me socorreu foi a Pat Feldman. Depois fui botando as asas de fora e os ossos para dentro e comecei fazer os meus próprios. A dica dela de cozinhar cravos da Índia para tirar da casa o cheiro do caldo de peixe foi providencial. O do caldo de carne ou de frango pode deixar no ar, que fazem ao ambiente tão bem quanto ao organismo.

E outras dicas vieram, curiosamente da mesma cozinha. O Luciano Nardelli, que trabalha no DOM, me convenceu que não dava tanto trabalho assim. Era verdade, mas só até a limpeza. Digo era porque não é mais. Seguindo as dicas que o patrão dele deu na aula do Paladar Cozinha do Brasil, melhorei meus caldos e aplaquei o problema da limpeza. Dica um: nunca deixe ferver. A fervura levanta as impurezas e deixam o caldo turvo, e devagarinho a carne solta todas suas propriedades, num processo exatamente inverso ao de selar um bife na chapa, quando o desejável é manter o suco na carne. Dica dois: com um pincel, molhe sempre as bordas da panela usando o próprio caldo, impedindo que os resíduos que ficam da redução sequem, queimem e amarguem – e de quebra você vai poupar meia hora de pia areando o caldeirão. Ao Luli e ao Alex Atala, obrigado pelos bastidores.

No caso do caldo de carne bovina o melhor é usar ossobuco. Tem o tutano, a gelatina, a creatina, que afinal é o primeiro segredo da boa forma física. Reparem nos povos que vivem distantes da proteína. Seus corpos lembram os tortuosos galhos da vegetação do cerrado. A carne que fica, sem suco, não tem graça, mas tem utilidade: desfiada e misturada a legumes e arroz integral cozidos, fazem a alegria e a nutrição dos cachorros que, convenhamos, não merecem o desgosto de comer ração e só. Esta dica é da doutora Jacy Braga Andrade, o que alegra tanto o buldogue Otto quanto o mestre Tuca, um porque almoça e janta feliz, o outro porque vai à cozinha.

 
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Roteiro gastronômico

Talvez seja mais fácil identificar o trecho da Alameda Franca onde eu trabalho dizendo que é a quadra do Ritz do que explicando que fica entre a Padre João Manuel e a Augusta. Simples assim, produto de um trabalho consistente que há trinta anos mantém o padrão de qualidade. Bar bom e equipado como poucos, atendimento simpático e sem servilismo, cozinha competente e com a qualidade rara de saber inovar sem perder a identidade. Tudo sem firulas. E sem manobrista.

E recentemente do outro lado da rua foi inaugurada a Bodega Franca, uma proposta ambiciosa que, como diz o nome, é loja de vinhos e restaurante no mesmo endereço. Pode ser anunciada na linha daquela loja da TAP na São Luiz: “Em frente à Varig, Varig, Varig!”. Saio para almoçar e vejo na lousa: cassoulet. O clima do dia era um desses presentes da natureza que, cada vez mais transtornada, nos oferece garoa e frio em pleno novembro. Não resisti e mergulhei.

Apesar de ser analfabeto funcional e mal falar o português, ando arriscando trocadilhos inclusive em línguas estrangeiras. Já aconteceu na adolescência, quando tentei convencer, em vão, a Andrea Calfat que o sobrenome dela era uma dica para me telefonar. Apesar de que hoje ela é a doceira não freira mais festejada de Portugal, e se não telefona para os gordos o inverso deve acontecer muito e amiúde. Outro trocadilho foi sobre os petistas quando estourou a operação Porto Seguro, já apelidada de O Bebum de Rosemary ou La Vie en Rose. Escrevi em algum lugar: They Steal Going. E o terceiro, que ata este parágrafo ao texto, foi o de me permitir ao cassou-let. Tudo muito fraco, não é? Perdão.

Enfim, entrei na Bodega e fui ao cassoulet. No piso térreo fica a loja de vinhos e apetrechos, e os salões do restaurante se desenrolam escada abaixo, entre espaços reservados e um quintalzão que em dias ensolarados deve ser mais agradável pela possibilidade retrátil da cobertura. O cassoulet veio com uma taça de Bordeaux, “porque é clássico”, justificou o enólogo. Estava bom, com os feijões se desmanchando em erosões individuais e delicadas, o caldo grosso e as carnes se soltando dos ossos. Deixei a saladinha do cardápio executivo para depois, para refrescar, porque é clássico.

Seguindo pela Franca se alcança a Melo Alves, que também ganhou uns endereços novos recentemente. A filial do Le Jazz chegou antes do Metrô que vai ligar a Oscar Freire à matriz na Rua dos Pinheiros, o Chacras vai virar hotel e parece que há uma doçaria alemã, além do Domenico, um italiano simpático.

Da loja de sorvetes não vou falar, assim como pretendo ignorar o bar da vodka ao lado do Frevo e gostaria de poder fazer o mesmo com os stands da Natura e o da Citroën, se não fosse o esforço ótico e auditivo que eles fazem para parecerem interessantes. Nada pessoal. Mas justamente por isso recuso esses avanços que as marcas fazem sobre os bairros. Para mim o estabelecimento tem que ser o mais próximo da pessoa física. Tem que ter o balconista. Tem que servir ao bairro, e não servir-se dele.

O Domenico Mira é assim: gordinho italiano típico, com lenço de seda no bolso da lapela do paletó de botões dourados, que faz questão de conversar com o freguês. Quando estive lá ele passou o jantar inteiro ao pé de uma família que parecia interessadíssima nos seus casos. Mas vai cansar. Por aqui a freguesia se acostuma e depois não abre mão da atenção exclusiva. E ai dele se um dia estiver ocupado ou, pior, a fim de ficar quieto pensando na morte da bezerra. Falo por experiência.

O salão é pequeno e confortável e o serviço impecável – muito embora fosse domingo de noite e de chuva e houvesse poucas mesas. O David, sommelier egresso do Grupo Fasano, percebendo que eu acho acintoso gastar mais que cem reais numa garrafa de vinho trouxe um italiano ótimo. Trocamos o couvert por uns bolinhos de risoto de açafrão e tomate recheados com queijo que estavam deliciosos. Eles chamam de arancini e trazem um pesto para acompanhar que é absolutamente dispensável.

O metre Ednaldo também é sensível e nos fez a gentileza de dividir o primeiro e o segundo prato. Aliás, a maioria dos restaurantes topa fazer isso: estando em duas pessoas, você escolhe dois pratos para compartilhar: se diverte em dobro gastando a mesma coisa. Começamos com um ravióli recheado com espinafre e queijo, que prometia ser ricota, mas literalmente puxava para um tipo mais cremoso – tanto melhor. O molho era um ragu de cordeiro desmanchado, não picado, e os pinoles arrematavam o crocante e o aroma na boca. O segundo prato foi um entrecote com salada de rúcula que estava equivocado, um pouco além do ponto e com purê de batatas que não havia no cardápio. De qualquer maneira qualquer cozinha tem direito de se confundir com menos de um mês de vida e eu quero voltar para ver os peixes e frutos do mar que são o mote do lugar.

A sobremesa nos foi vendida assim: se não for o melhor, é o segundo melhor tiramisú da cidade. E isso dito pelo David, que ex- Fasano, recém eleito o melhor de todos pelo Prêmio Paladar do Estadão. Fui um dos jurados convidados, e como lá não vale voto de lembrança, experimentei todos os pratos indicados. Não foi fácil decidir entre ele e o Romeu e Julieta da Saiko Izawa para o Attimo. Mas o David trabalhou lá antes do Luca Gozzani assumir a direção geral e instaurar sua receita. Agora deve voltar, provar e concordar que não há nenhum à sua altura.

Pelo apelo do Paladar também tomei vergonha e fui conhecer a BOS BBQ, churrascaria do Mozca, meu amigo que trouxe para o Brasil o estilo estadunidense de assar. Aqui pensamos que barbecue é uma opção de molho para aquela massinha de frango frita que o Mac Donalds vende para as crianças que estão em dieta. Mas não é. Assim como sushi não é só um bolinho de arroz com uma fatia de peixe cru por cima – o nome específico disto é niguiri –, barbecue é tudo o que envolve o churrasco dos americanos. E eu diria que é a própria fumaça, porque estive na cozinha por quinze minutos e saí a ponto de ser atacado por uma tribo gourmet de canibais.

A churrasqueira que eles desenvolveram e que é a primeira pit do Brasil é um armário de inox onde as carnes ficam estacionadas por até quatorze horas em prateleiras mais altas ou mais baixas onde a temperatura média é de cem graus, mas varia de acordo com a altura para atender à necessidade de cada corte, sempre controlado por um termômetro que espetado em seu interior sussurra por e-mail quando o clímax está chegando. Um forninho anexo faz fumaça de lenha sem parar, esta que é democrática e envolve todas as carnes de maneira uniforme.

Vale a pena experimentar a picanha, mais para entender a diferença do conceito do que pelo sabor. Porque a picanha é a nossa carne mais comum nos churrascos e dela todos têm uma referencia muito clara. Mas assim como não precisamos de picanha à milanesa ou ao poivre, não precisamos de picanha barbecue.

Vá direto ao que eles têm de melhor. Comecei ainda no balcão pela costelinha de porco, que como num crime perfeito descola do osso sem deixar vestígios. Evoluí para a coxa e sobrecoxa de frango, que depois do barbecue passa pela salamandra para pururucar a pele e vem com uma batatinha frita simples, bem passada e preparada no local. Chega fresca como tudo o mais. Das sobremesas irresistível é a torta de chocolate. Coisa incompreensível, consegue ser aerada e densa ao mesmo tempo. Só pode ser feitiço da dona Lynette.

E como nem só de Estadão vive o homem, aproveitei o roteiro bom e barato da Vejinha para ver o Empório Casa Portuguesa na Rua Cunha Gago. Foi o meu primeiro escolhido porque usa o emblema no serviço, tornando-se o centésimo-primeiro pratinho da coleção, logo depois do colossal A Bela Sintra, que é ótimo, mas não é barato. Fotos do acervo no facebook. Atendidos pelo garrido Juscelino, beliscamos bolinhos de bacalhau com uma cerveja portuguesa chamada Super Bock, comemos uma posta de bacalhau a Dom Gonçalo regada com uma garrafa de vinho e encerramos com os inevitáveis doces impiedosamente desfilados em conjunto ao final dos ágapes: pastel de Belém e queijadinha. Tudo a R$120,00. Ufa.

 
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Desaudio

Na terça-feira não pude ir à abertura da exposição Desaudio, do Lucas Lenci, na Fauna Galeria. Tinha meus motivos, outros compromissos. Mas no fim da tarde de quarta eu estava lá e assim que entrei percebi um motivo terceiro: ver as fotografias em silêncio. Alguém pode argumentar que o contraste do burburinho do coquetel seria interessante. Compreendo, respeito, mas mantenho a minha posição. O privilégio de estar ali sozinho provoca uma sensação ótima e irremediável, como se houvesse vida possível na paz do vácuo.

Minha Neguinha, ainda que envergonhadamente, vai concordar. Outro dia ela não resistiu e confessou que os museus no Brasil são mais gostosos de se visitar do que os da Europa, e por um motivo ruim: falta de público. É praticamente tudo nosso, um deleite contemplativo, sem prazo, sem pressa, sem as pessoas, que afinal são ou não são o inferno?

E logo na primeira parede estava lá a minha predileta: Domingo no Parque. É a cena de um jardim japonês onde até as sombras parecem estacionadas há milênios sob as árvores. Um relógio do sol ali estaria sempre atrasado.

A proposta dos fotógrafos, autor e curador, no caso o Cassio Vasconcelos, foi encontrar no baú do artista imagens silenciosas de tempos e espaços diversos que mesmo caladas se comunicassem entre si. Atrevidos? Talvez só no começo, porque depois de juntas elas se revelam gritantemente uníssonas, como se tivessem clamado para estar em grupo.

O ônibus até que enfim quebrado e mudo, o mar sem espuma, o navio fantasma em meio a neblina, perigosíssimo igual a cachorro que não late, morde, a velha sozinha pelo meio da rua deserta, outra que espera, o Metrô sem vivalma, Frank Sinatra afônico no cartaz e depois dele a ameaça de guerra, catatônico de medo, pontuando o último instante de paz, o limite que é o auge da sua preciosidade e que de novo só na terra arrasada.

O humor está na conversa de surfista, que afinal ninguém acredita ser possível. Depois da arrebentação é um dos lugares mais tranquilos que se pode estar. O silêncio se impõe. E as pessoas na areia ficam de fato insignificantes. Daí, talvez, o abandono das meninas na areia. Não há solidão maior do que a da namorada do surfista. E a solidão berra. Desaudio é a paz.

Crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Esperança na cidade

A lembrança é sempre uma coisa boa, tanto no sentido de ser agradável quanto como pode ser útil. Digo, uma má lembrança é positiva enquanto nos ensina o que não quereremos. Mas aqui vou falar das agradáveis, como só as memórias de infância podem ser.

Dizem que a imaginação é na verdade a interpretação da memória. Por isso o Napoleão falou que é mais criativo quem sabe mais. E também é por isso que ninguém supera as crianças: absolutamente tudo para elas pode ser realidade. Só depois, com os filtros, é que vamos distinguindo o joio do trigo. Mas se faz parte da infância, o joio agrada o homem.

Entre outras do século XX, a minha geração aprendeu amar e sonhar com algo que não faz sentido: motores a explosão e tudo o que os envolve, desde o cheiro até os sons, passando pela forma. Crianças urbanas como eu fui até na praia ou no campo desejavam os motores acima de tudo. É compreensível, dada a sedução das máquinas, a sugestão de autonomia. Mas a rigor tudo isso só serviu para criar dependência, e tão bruta que hoje sequer nos imaginamos livres dos carros.

Pior: a memória é tão boa que até no que tem de nojento pode confortar. Cheio de óleo queimado, daquele vagabundo, de motor dois tempos, das motos e das lanchas, é algo que me atrai. Igual à gasolina a qual se mistura ele traz boas recordações porque se dilui no meu tempo de criança, quando tudo era possível e real na minha imaginação.

Lembro de uma menina, a Gabriela Travaglini, filha de piloto de corrida, que de tão aficionada se divertia até com WD-40, o spray anticorrosivo. Na volta dos passeios a gente tinha que lavar as bicicletas para tirar o sal e a areia e depois bater o WD para proteger, e ela lá, se divertindo com o aroma.

Dizem que em nas cidades mais evoluídas da Europa estão conseguindo reverter os danos. Calçadas boas, transporte público eficiente e confortável e as magrelas tomando o espaço dos carros no espírito das pessoas. Não sou mais criança, mas ainda assim esta doce realidade no meu sonho é absolutamente real.

Há alguns anos me tornei pedestre. Foi compulsório, não de propósito, mas o que de pronto me pesou como um fardo hoje considero tamanho privilégio que quase sinto pudor em publicar. E se aconteceu comigo, pode ser com todo mundo.

A minha cidade não ajuda muito. Em São Paulo as calçadas estão péssimas, os ônibus agressivos, o Metrô atrasado e os taxis vão rareando. Bicicleta nem pensar, apesar da boa vontade daquele banco. E mesmo assim a minha vida melhorou muito, inclusive na busca do tempo perdido.

Comecei andar a pé e venho descobrindo as singelezas da vida que a infância automotiva me subtraiu. Há, em São Paulo, uma fauna e principalmente uma flora urbana surpreendente, e a tendência é de melhora. Há a possibilidade de eu estar encantado como acontece com qualquer novidade, mas já são alguns anos de pedestrianismo e a sensação só aumenta.

Apesar da vida estar mais agressiva de modo geral há um renascimento da simpatia. Os clássicos das casas amigas que foram mortos pelas grades e muros, ou perderam relevância para os que ficaram dentro dos carros, como as flores na janela, as cadeiras no alpendre e os capachos desejando boas vindas, aos poucos estão voltando. As orquídeas, tão raras recentemente, já convivem tranquilamente no passeio público. A grosseria e a paranoia do arame farpado, das pontas de lança e cercas elétricas ainda predominam, mas acredito que chegaram ao auge e de onde estão só podem diminuir, minguar, morrer e deixar renascer uma cidade bonita e gostosa.

A esperança é onde o sonho encontra a realidade. Mas é algo sutil, que requer atenção para ser identificada. Por isso para encontrar esperança convém andar a pé e atento. Garanto: ela está por aí, basta querer encontrar.

crônica publicada no AMARELLO #10

 
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Pão e glória

Um advogado dos mais destacados que há por aí disse que uma causa tem que dar pão ou tem que dar glória; se der os dois, tanto melhor. É verdade. Todo mundo precisa de pão e de glória para viver. As expectativas podem variar tanto na quantidade bruta quanto na proporção entre quanto se quer de pão e quanto se espera de glória. Mas não salva ninguém, e sem o primeiro ou a segunda a vida perde o sentido.

Quem acha que não precisa se estrepa. Viver só de glória, com o perdão do jogo de palavras barato, é uma luta inglória. O espírito mais alto quer um corpo para viver, e o corpo precisa de pão. E o inverso é verdadeiro: o corpo que acreditar possível viver só de pão vai acabar inanimado, isto é, e sem ânimo o corpo estará morto. Um zumbi vagando pelas ruas. E gordo ainda por cima.

E alguém há de perguntar: e ao amor? Ora, o amor é o que dá sentido a vida, mas o movimento depende do pão e da glória. Sem pão, diria o Nelson, nem o ódio é possível. Segundo a definitiva escola rodrigueana, para odiar o sujeito precisa de pelo menos um sanduíche. E para amar também. Mas não muito, porque pão demais prejudica o amor, que de glórias excessivas também se cansa.

A receita é o tempero, o equilíbrio, inclusive entre as pessoas. A repartição exata do pão e da glória mataria de tédio a humanidade. A graça está em quem prefira o pão em contraponto aos que gostam mais da glória, e até os mártires da radicalidade que escolhem entre um e outra nos tem serventia – embora nenhuma graça.

E a paixão é o pão quente, saindo do forno, e a glória é aproveita-lo estalando, seco e crocante por fora, úmido e fumegante por dentro, perfumado, saboroso, atraente e irresistível a ponto de se esfolar a língua. Há fornadas diárias, mas a gente só pega de vez em quando.

 
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Olavo Setúbal foi o nosso Bloomberg

Naquela série onanista onde este bloguista não resiste e fica auto-festejando-se quando acerta um palpite, ou melhor ainda quando fica sabendo que alguém completamente distante acreditava na mesma coisa e a realizou com êxito, e sem mais poder, qual a motoquinha pentelha do desenho animado, repete sem parar “eu te disse!, eu te disse!”, quero incluir as alvissaras que chegaram pela entrevista da secretaria de transportes de Nova Iorque Janette Sadik-Kahn publicada na revista Serafina da Folha de São Paulo do último domingo, compartilhada pelo Hubert Alqueres no facebook.

24 horas depois do furacão Sandy atingir Nova Iorque o prefeito Michael Bloomberg participou à cidade o plano da Janette: sem semáforos ou metrô os ônibus circulariam pontualmente com a catraca livre e pelas ruas da ilha de Manhattan só poderiam rodar carros com pelo menos três passageiros.

Se engana quem pensa que ela dependeu da calamidade para enrijecer o tratamento com o uso irresponsável que as pessoas se habituaram a fazer dos carros. A evolução que ela conseguiu desde que assumiu a pasta há cinco anos é brutal e, sendo o chefe um financista obcecado por números, não há melhor maneira de traduzir: 50 Km de corredores de ônibus e 450 Km de ciclovias que reduziram em 40% os acidentes com cliclistas.

Mais números? Em três anos ela triplicou a freguesia e duplicou o faturamento do comércio nas praças que fechou para carros, como Times Square, dando exclusividade aos pedestres. O que no princípio era medo e protestos contrários se transformou em adesão, que acabou incentivando algo parecido na Broadway, que teve as calçadas duplicadas para privilegiar o pedestre. E é aqui que entro pentelhando feito a motoca, mas a pé, como prefiro: sou tratado como um lunático quando defendo a mesma coisa para Rebouças/Consolação, Augusta, Nove de Julho e Brigadeiro/São Gabriel/Santo Amaro, isto é, só bondes nesses corredores, e calçadas alargadas ao dobro para caber árvores, ciclovia e bancos. Carros só o do trânsito local e controlado pelo Sem Parar ou coisa que o valha

O próximo passo será abrir espaço para o programa de compartilhamento de bicicletas. Eles estão atrasados em relação a Paris, Barcelona, Rio e SP, mas a reação é ao estilo nova-iorquino: serão 420 postos e dez mil magrelas a partir de março.

Impossível encerrar sem traçar um paralelo entre Nova Iorque e São Paulo, até porque as coincidências são muitas. Nos anos 1970 também tivemos um prefeito financista que deixou vasto legado de humanismo: Olavo Setúbal, que este mês recebeu como justa homenagem a inclusão do seu nome ao do Parque do Carmo, entregue na sua gestão. Foi ele quem criou os calçadões do Triângulo Histórico e o banco que era dele é o que patrocina o programa de compartilhamento de bicicletas na cidade.

Se carecerem de números, os nossos também são de impressionar, pena que no mau sentido: o trânsito aqui mata 1.200 pessoas e causa 50 bilhões de reais em prejuízos anualmente. Acho que é suficiente para que a questão seja tratada com a urgência, a seriedade e a coragem que as calamidades exigem.

 
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A lei de Gershon

Que alegria abrir o Estadão de domingo e encontrar no Aliás a história do Gershon Knispel, um artista plástico de vida riquíssima e sensibilidade rara, que resultam numa clareza de profeta. Ele nasceu na Alemanha e em 1932, contando três anos de idade, mudou com a família para a Palestina. Seu pai, antes mesmo do Churchill, sacou que o projeto nacional-socialista do Hiller era um câncer que se alastraria causando todo o mal que hoje sabemos. Sendo judeu e civil, preferiu não ficar para conferir e se pirulitou.

Em 1958, aquele que, segundo o Joaquim Ferreira dos Santos é o ano que deveria vigorar eternamente, uma ex-namorada do Gershon chamada Nina veio para o Brasil e escreveu avisando que por aqui havia um concurso para a execução do painel do prédio da então TV Tupi, hoje MTV. Ele já era artista, se inscreveu, venceu, veio e viu o trabalho que hoje é tombado pelo patrimônio histórico e artístico. Amizade entre ex-namorados, concursos, painéis em prédios bonitos… vai ver o Joaquim tem razão.

A obra que está lá no Sumaré, sobre o espigão da Paulista, um dos pontos mais altos de São Paulo, retrata uns índios de sete metros e meio de altura. Quem passa pode imaginar que são uma alusão ao Tupi da TV, mas depois de ler o Aliás vai perceber que a mensagem vai além. Ela é uma homenagem aos anfitriões, à arte de receber bem. Cinquenta anos depois de pronta a gente nota que ela ainda protesta, porque 500 anos depois da colonização ainda há quem negue a importância dos índios que nos receberam com flores, frutas e festa.

O Gershon  teve o mesmo tratamento na Palestina. As casas dos amigos árabes estavam sempre com portas e janelas abertas, tinham fontes nos quintais, azulejos coloridos nas paredes e almofadas e tapetes pelo chão, onde ele podiam se encostar e deitar. Quem tem um amigo árabe sabe do que ele está falando. Em matéria de hospitalidade eles são insuperáveis. Das lembranças mais doces da minha infância estão os finais de semana na casa da dona Ivone e do doutor Daher Cutait, avós do meu amigo Alexandre que me permitiam o mesmo tratamento: vovó e vovô.

Na própria casa o tratamento merecido era muito mais duro. O rigor alemão da mãe não perdoava sequer os pés das crianças sujos de barro. E nas casas dos judeus russos e poloneses era ainda pior. Feridos pela injustiça nazista eles reagiam com ferocidade e isolamento. Contaminados pela cultura do gueto subiram muros e torres de observação, compravam as fazendas dos árabes, que com a grana se mandavam para a Europa abandonando os camponeses que acabavam expulsos da terra onde nasceram, cresceram e trabalharam.

Criaram grupos e movimentos para fazer prevalecer sua cultura, de maneira que nem a língua local sobreviveu. O hebraico liquidou inclusive o íidiche. E a resposta árabe veio no mesmo tom, num bate-boca que dura até hoje. Prevendo a tragédia sem fim um grupo de intelectuais judeus fundou nos anos 1930 a Brit Shalom, uma organização para promover a coexistência e o controle político pelos povos que iriam viver ali, isto é, que palestinos, árabes e judeus, e não os arquitetos ingleses tivessem o controle de um Estado binacional, com direitos e deveres iguais.

Em 1964 ele voltou a Israel. Quem reconhece a data nota que mais uma vez ele fugia de uma ditadura, desta vez brasileira. Arranjou sinecura em Haifa e ficou até 1986. Um ano depois, para celebrar os vinte anos do fim da Guerra de Seis Dias, conta que participou de uma exposição coletiva para protestar contra a ocupação israelense em terras palestinas. Eram 67 artistas, metade árabes e metade judeus. Mais uma vez os atentos à severidade matemática vão se emocionar: duas partes iguais em um grupo ímpar de pessoas falam mais do que mil palavras de paz.

Tem muito mais lá no Aliás, mas para encerrar esta prosa que já se estende há quase vinte anos ele está de volta, vivendo em Higienópolis e trabalhando em Santana, ambos bairros de São Paulo. Continua sendo um “pintor de protesto, humanista e humanitário, cuja rotina é reagir”. E cumpre: no meio da organização de um livro sobre sua obra previsto para abril, ele reage e diz que odeia tudo o que o faz parar de pintar. Esta é a lei de Gershon, vantajosa para todos.

 
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Chame o ladrão!

Na sexta-feira passada a Dora Kramer, rainha do frevo e do maracatu da imprensa brasileira, estava brilhante, especialmente brilhante. Falava do desrespeito do cidadão Luís Inácio Lula da Silva pelo Congresso desde quando, há vinte anos, qualificou a Casa como reduto de 300 picaretas, ou antes, quando passeou por lá e desonrou os votos que recebeu cumprindo um mandato “displicente e inexpressivo”, inclusive durante a Constituinte.

Dora vai direto ao ponto e não demora a mostrar como e por que, além do desdém pelo Parlamento, que afinal não é outra coisa se não a indiferença em relação à própria Democracia, se o golpe não pôde ser dado através das armas, como tentaram seus amigos que ora retornarão ao xilindró, que acontecesse pela grana, enquadrando de vez as centenas de picaretas “ao molde da presumida vigarice”.

Vai na íntegra: “Não é conjectura, é fato: foi a partir de 2003 que o chamado baixo clero passou a assumir posição de destaque, a dominar os postos importantes, a assumir posições estratégicas.

“Era uma massa até então quase incógnita, em sua maioria bastante maleável às investidas do Executivo e disposta a fazer do mandato um negócio lucrativo.

Note-se que na época o encarregado de fazer a “ponte” entre o Parlamento e o Planalto era ninguém menos que Waldomiro Diniz, o braço direito de José Dirceu na Casa Civil, cujos métodos ficariam conhecidos quando apareceu um vídeo onde extorquia o bicheiro Carlos Cachoeira.”

Em seguida ela discorre sobre os efeitos dessa “inflexão ladeira abaixo” sobre os quadros do Congresso, notadamente “o isolamento gradativo e por vezes voluntário, de deputados e senadores de boa biografia, com nome a zelar e atuação legislativa relevante”, e o desequilíbrio entre os Três Poderes, cuja intenção mais uma vez ficou provada quando Lula se disse decepcionado com os ministros que nomeou para o Supremo.

Mas a tinta que imprimiu as palavras da Dora ainda estava úmida quando a Polícia Federal visitava mais uma chefe de gabinete da Presidência da República do governo petista. Depois dos já citados Waldomiro e Zé Dirceu, passando por Erenice Guerra e família, chegamos em Madame Rose – que é como prefere ser tratada a dona Rosemary Nóvoa (nódoa?) de Noronha. Ela recebeu os agentes na madrugada da sexta-feira por suspeita de envolvimento numa quadrilha que traficava influência e pareceres técnicos. Seu primeiro telefonema foi para o ex-chefe Zé Dirceu. O Segundo, para o próprio Lula. O terceiro foi o coroinha Gilberto Carvalho, não se sabe se para pedir ajuda ou orações.

E mais uma vez o Chico Buarque é pertinente: Acorda amor
/ Eu tive um pesadelo agora
/ Sonhei que tinha gente lá fora
/ Batendo no portão, que aflição
/ Era a dura, numa muito escura viatura
 / Minha nossa santa criatura
/ Chame, chame, chame lá
/ Chame, chame o ladrão, chame o ladrão!

 
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Ouro de tolo

Aproveitei a calmaria da cidade para rever os oitenta anos do cotidiano inglês expostos em fotografias no centro cultural Ruth Cardoso – FIESP. Claro que é um extrato, mas a impressão é que consegue o essencial, que para mim é a densidade do espírito britânico. Dizem que é melhor vergar do que resistir até quebrar. Mas não para os ingleses. Eles podem estar nus, sangrando e chorando, mas não vão se ajoelhar. Tanto faz se rico ou pobre, preto ou branco, nobre ou plebeu. Ser inglês é algo substantivo, não cabe adjetivo.

As criadas servindo o jantar são tão inglesas quanto seus patrões. O mineiro jantando imundo de carvão ao lado da mulher é um lorde. A pedra que testemunhou um assassinato e continua lá depois de anos impávida como o monumento na praça que sobreviveu à guerra sob sacos de areia e a mensagem que a internet vulgarizou: “Keep calm and carry on”. Assim seguem os ingleses. A granfina no sofá de veludo pode ser tão forte quanto a mãe que ampara os filhos depois de ter a casa destruída por um bombardeio aéreo.

Desci as escadas e aproveitei para passar pelo Nelson Rodrigues, que neste centenário mereceu exposições diversas e também da FIESP/CESI, além da montagem de duas peças no auditório: Boca de Ouro e A Falecida.

No mesmo dia voltamos para ver o Marco Ricca no papel do bicheiro múltiplo. É notável o fascínio pelo metal. Antigamente as pessoas tinham uma volúpia da morte, que hoje migrou para a juventude, ou até um frisson, como se quem não estiver em movimento contínuo, vivenciando ou apenas simulando sensações, estivesse morto ou, pior, ficando velho, essa coisa abjeta. Mas o ouro continua fascinando: se antes era a vontade de passar para a eternidade deitado num caixão maciço, agora é ser eternamente jovem e rico, não importa a que preço. A comunhão das loucuras está nesses sorrisos de um branco perfeito, total, virgem como um anjo, como se jamais tivesse vivido, e que por isso não poderá morrer jamais.

Enquanto isso a Veja destaca o pensamento do filósofo Michael Sandel. O que o preferido de Harvard propõe é que deveríamos impor limites para a sanha do mercado, porque é degradante imaginar transações envolvendo órgãos, filhos, ventres, cidadania, lugares em filas. E a Veja envolve desde a capa a virgindade leiloada da menina se Santa Catarina.

Para mim ao balcão é tão estreito que sempre que começo a pensar no assunto me confundo, sem saber dizer onde nasce o vício, se na compra, na venda ou se é a conjunção de ambos. Porém, por mais delgado que seja, enxergo o balcão que separa o comprador do vendedor, e entendo que, se é verdade que se um não vender outro venderá, os compradores são limitados, e não é todo mundo que, tendo dinheiro, compraria. A linha é tênue demais, e as respostas definitivas variam muito. Quem pode antecipar a reação diante um momento de necessidade extrema? De qualquer maneira tendo a condenar antes o comprador, não pela transação, mas pela crença em que o vil metal prevalece sempre. E quem assim crê pode ser o tomador do capital. Quando dinheiro não se faz com adulação, bajulação, rufianismo assistencial, golpe do baú?

Sobre a virgindade da menina, que por sinal é maior de idade e vacinada, já disse que enxergo antes do dinheiro e do próprio hímen um gesto político, que liberta a mulher, sempre condenada, ora a dar, ora a não dar. E me parece que quem se escandaliza com o volume de dólares envolvido, mas tolera a prostituição comum, que por sinal é algo insignificante como uma sessão de massagem,  se importa antes com o dinheiro do que com a pessoa, donde ocorre no mesmo erro.

O dínamo do mundo pode ser o dinheiro e o sexo, mas nem um nem outro tem a ver com amor. A qualidade do amor é a inversa: fazer o mundo parar. Diante dele qualquer outra questão é perdoável, todo outro é de tolo. Dinheiro e sexo reluzem, instigam, e por isso tem preço. Amor é intangível, não pega etiqueta nem pode ter forma, seja de ouro, seja de barro, assim na terra como no céu.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Mocinho novo, enredo velho

E o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, trocou o secretario da Segurança. Sai Antonio Ferreira Pinto e entra Fernando Grella Vieira. O discurso de posse serviria para qualquer outra pasta. Trocando policiais por médicos ou professores o doutor Grella poderia assumir a saúde e a educação. Na falta da apresentação de um conceito novo a piada infame já está rolando.

A rigor, substituir a pessoa produz o mesmo efeito em qualquer um dos lados. Digo, substituir o mocinho vai resolver o problema tanto quanto prender o chefe dos bandidos: nada. Se o enredo do filme não mudar continuaremos assistindo diariamente a esta carnificina que só não é mais torpe do que a guerra das estatísticas: o Planalto diz que em São Paulo morre mais gente do que em Gaza, o Bandeirantes responde dizendo que proporcionalmente assassinamos menos do que no resto do Brasil.

A questão para mim é muito clara: o combate ao o crime organizado não é caso de Polícia Militar, mas de Polícia Federal. Enquanto a PM está com seiscentos homens em Paraisópolis, outras centenas no Capão Redondo, mais não sei quantos na Brasilândia,  o saldo da corporação que sobra para garantir a ordem opera desfalcado física e conceitualmente, primeiro porque já não há policiais e viaturas suficientes, depois porque com os colegas morrendo em atentados terroristas qualquer outro delito se torna irrelevante.

Relógio roubado, carteira batida, motoqueiro na contramão, ciclista sobre a calçada, carro avançando o sinal, cachorro brabo sem focinheira, contrabandista de CD pirata, flanelinha achacando quem estaciona para ir ao teatro ou futebol. Tudo pode esperar. Ora, as pessoas estão sendo assassinadas e a madame preocupada com uma bolsa? Compra outra e não amola. Outro dia dois vizinhos meus se pegaram de pau na porta da minha casa. Foi uma baixaria, um descendo o sarrafo no carro do outro e a mulherada aos berros. Quando alguém lembro de gritar pela polícia outro falou em cima: “Mas vai incomodar a PM com isso? Os dois que se fodam.”

Policial Militar é para ser conhecido das pessoas e prevenir crimes e contravenções espontâneas. A sensação de ordem já colabora muito. Mal-comparando, a PM é para não deixar os senadores aprovarem um 14º salario para eles mesmos. Quando aprovam o décimo-quinto ou a isenção fiscal para ambos, é crime organizado, é para chamar os federais e, se necessário, as Forças Armadas. Se o Salão Azul tivesse sido enquadrado na primeira investida, a segunda e a terceira não existiriam. Mas a PM, sobrecarregada, já não consegue cumprir sua função, e vai continuar enxugando gelo até alguém criar coragem para mudar o conceito.

Para concluir esse assunto que já é repetido, falo da outra vantagem da PM não se envolver com o crime organizado que tem dinheiro para corromper e poder para atacar: não adianta comprar os policiais corruptos nem mandar matar os honestos, porque nem uns, nem outros, tem qualquer coisa a ver com o assunto.

Ainda dá tempo. Pelas cartas apreendidas, pelas gravações de telefonemas interceptados, nota-se que eles não são tão organizados assim. Mas que evoluem a cada dia, faturando alto e corrompendo, ninguém duvida.

 
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