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A raspa do tacho 1/2

Para mim seria impossível eleger a comida de infância predileta. Lembro de um sanduíche de rosbife com provolone e picles da lanchonete Lírico. Do rosbife de lagarto do meu pai, na verdade uma carne assada receita da minha avó Olga, que levava alho, sal e mantinha a capa de gordura, mas que com o tempo ficou completamente magro, ou “extra limpo”, e ganhou especiarias, ervas da Provence, pimenta do reino quebrada. Da minha avó ainda tinha o bolo de fubá, desde sempre com erva-doce. Os frios da padaria Nova Charmosa, no café da manhã do Juquehy, com pão italiano estalando de quente.

Mas talvez a lembrança mais marcante seja o que eu chamava de raspadinho, que era a raspa do tacho, notadamente da assadeira, seja do frango, com pedaços de coxa e sobrecoxa grudados, às vezes aos flancos, ou as crostas de sal e gordura do rosbife, que misturadas ao sangue que escorria depois do corte davam – e sempre darão – molho excelente.

Esta pode ser a minha iguaria mais recorrente por dois motivos: era proibida na infância (minha mãe chegava a mandar a empregada molhar a assadeira logo após o preparo), e agora, aliada aos prazeres adultos, como o álcool, mais do que autorizada finalmente ela é recomendada pela família mineira da minha Neguinha. Dona Chica, Donana, Cidinha, Tetê e até Heleninha compartilha a raspa do tacho. Além de molho fazem farofa, acham lindo a gente comer com pão, chuchando.

E no 7º Paladar Cozinha do Brasil, que acabou no domingo, o que peguei foi a mesma coisa: a raspa do tacho e lembranças do passado. Queria ter visto o Rogério Fasano falar da profissão de restaurador, o Edinho Engel das quitandas mineiras, as hortas comunitárias da Fernanda Danelon que me trariam a tia Lucy Montoro, o Luiz Américo Camargo ensinando a crítica gastronômica, Luis Fernando Veríssimo sobre qualquer coisa.

Mas só pude chegar no final, na deliciosa raspa do tacho, e fiquei com o Benny Novak e o Henrique Fogaça mostrando a Versão Brasileira que criaram para a brasserie francesa e para um pub inglês, estas pensadas e conceituadas, não espontâneas como o x-burger, e antes com o Mark Emil Tholstrup Hermansen, cientista dinamarquês que estuda a relação da gente nórdica com a comida.

Continua e encerra amanhã

 
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Folhas de outono

Na semana passada a Marilia Neustein botou no facebook uma foto linda do Central Park em clima de outono. E diante do balé das folhas mortas, como sempre, o ronronar de Autumn Leaves despertou em mim.

O curioso é que se aqui nos trópicos oficialmente estamos no outono, Nova Iorque está em plena primavera. Mas não vou entrar nas inversões climáticas, no desgelo polar, na poluição das águas e do ar. Minha visão aqui será a do pedestre urbano sentindo-se absolutamente furtado do outono que ama.

O outono é a minha estação. Por muito tempo tive a sensação de ter nascido aos sessenta anos, ou no outono da vida, aqui surrupiando o texto do Mario Puzo para aquele mafioso judeu, Hyman Roth, que morre num atentado a bala mandado pelo Don Corleone em algum aeroporto americano, logo após dizer que voltava aos Estados Unidos para viver o inverno da vida.

Ocorre que em São Paulo o outono chegou, mas não entrou – ou preferiu não entrar. Pontualmente se apresenta, no conforto de uma rua arborizada, ou pela luz solene quando a tarde cai. Mas pela manhã e à noite os dias são de inverno, e ao meio-dia é verão – ou pior, porque seco, árido, áspero. É o deserto. É a morte.

Se me chamassem à delegacia para reconhecer o bando assassino, não teria dúvida para apontar os meliantes: asfalto, gasolina e automóveis. Foram eles que mataram o outono. É nítido: o outono só existe a pelo menos duas quadras de qualquer via de tráfego insano, e ainda assim timidamente.

É de amargar. E literalmente, porque a boca seca, gruda, e o corpo sofre as consequências. E também o espírito. As estatísticas de 2011 mostram que as mortes por atropelamento de pedestres significam 39% dos acidentes de trânsito em São Paulo, e o carro é o primeiro assassino. O que consola é que o pedestre só morre porque ainda está vivo – dentro dos carros estão todos mortos, presos em caixões de lata e enterrados em congestionamentos. Assim como o outono.

 
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Crime, castigo e perdão – parte II

A Folha publicou no domingo a história de uma leitora que serve de exemplo para todos nós. O primeiro parágrafo se resume a uma frase de agressividade inescapável que sacode o leitor: “Eu fui estuprada por um menor de idade e sou contra a redução da maioridade penal”.

O relato é da jornalista Luiza Pastor, que em 1976, aos dezenove anos, foi atacada por um garoto que entrou no escritório em que ela trabalhava, sacou de um revólver, ordenou que ficasse nua e a estuprou. Depois, antes de fugir, trancou-a no banheiro e escondeu suas roupas.

Luiza não fez boletim de ocorrência. Se hoje ainda é raro, na época da Ditadura os “mocinhos” eram tão apavorantes quanto os bandidos. Foi ao médico, fez exames e decidiu pelo exílio fora do Brasil.

Mesmo assim, dias depois chegou em sua casa uma intimação para reconhecer o suspeito, detido a partir da denúncia feita pelos seguranças do prédio onde ela trabalhava. Na delegacia, ao lado de seu pai, conheceu a história da longa breve vida do menino estuprador: filho de mãe prostituta e pai desconhecido, foi criado pela avó evangélica que acreditava nos benefícios da surra para a educação (não é à toa que formou esta descendência).

Um policial, diante do menino, saiu com essa: “Ah, de novo esse moleque? Esse não adianta prender, que o juiz manda soltar, o melhor é a gente deixar ele escapar e mandar logo um tiro. Vocês não acham?”

Sua primeira reação foi de comprar o prato hediondo e frio da vingança. Mas não demorou a perceber o absurdo de confiar este mal sentimento à Justiça, “muito menos àquele que pretendia descontar no criminoso sua própria impotência”.

Recusou-se a depor. Por isso foi chamada de covarde e ainda teve que tolerar insinuações sobre ter gostado de ser estuprada.

Os dois últimos parágrafos são o único caminho que nos cabe diante da calamidade social em que nos encontramos:

“Sem dar a todos, menores e maiores, uma oportunidade de educação e de recuperação, algo que exige investimento e vontade política, uma política de Estado consciente de suas responsabilidades, teremos criminosos cada vez mais cruéis, formados e pós-graduados nas cadeias e ‘febens’ da vida.

‘Se os políticos quiserem fazer algo realmente eficaz para combater o crime na escalada absurda que vivemos, terão que enfrentar os pedidos de vingança dos ofendidos da vez e criar um sistema penitenciário que efetivamente recupere quem pode e deve ser recuperado. Sem isso, qualquer mudança nas leis será pura e simples vingança. E vingança não é Justiça.”

Enquanto isso, o advogado Sérgio Brasil Gadelha, de 74 anos, espancou e estrangulou a mulher, foi preso, mereceu cela especial e uma semana depois já está no conforto da prisão domiciliar em Higienópolis.

 
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Crime, castigo e perdão

Qualquer assunto, se discutido apaixonadamente, vai se perder pelo caminho. Aquela máxima que define política, futebol e religião como temas proibidos é uma simplificação ordinária. Diariamente os três são debatidos com serenidade e razão e assim o mundo vem avançando, ainda que a ansiedade humana nos faça enxergar o contrário. Graças a Deus.

Paixão é o espírito em carne-viva. Tudo perto dele pode fazer melhorar ou piorar a situação. É mais questão de jeito. E às vezes o jeito é não mexer. Em outras, em que pese a dor, melhor é esfregar, botar merthiolate. Até soprar um pouco vale: o alívio imediato, ainda que falso, tem seu momento de remédio. Só cobrir para não ver é que não pode.

Discutir a redução da maioridade penal diante das imagens de um rapaz sendo baleado na cabeça, ou da fotografia de um pai dilacerado chegando ao velório da filha que encontrou queimada no sofá de casa é impossível. A debilidade começa nas manchetes, que no primeiro caso inclui um telefone celular e no segundo trinta reais , como se pela Apple inteira ou por 30 bilhões os crimes fossem compreensíveis.

A mim parece que falta serenidade à discussão sobre segurança pública. Demagogos surfam a onda popular favorável à redução da maioridade penal para dezesseis anos como solução de todos os problemas, como se o mundo do crime tivesse um baile de debutantes oficial e antes dele fossemos todos puros.

Falta a compreensão de que a segurança pública vive a inflamação de uma situação social em carne-viva e infeccionada, e que não há nada a curto prazo que se possa fazer: não há cirurgia, não há milagre, não se pode voltar no tempo para o instante anterior ao tombo que esfolou a pele, e é inútil proibir os encontros e desencontros da vida. Diante da carne-viva só um tratamento longo e cuidadoso, para amenizar a cicatriz, para educar os caminhantes, oferecer joelheiras aos imprudentes e até, em último caso, numa atitude extrema, impedir o passeio como pena para mais atenção.

Continua amanhã.

 
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Quando eu for, eu vou sem pena

“Quando eu for, eu vou sem pena / Pena vai ter quem ficar”. Esse período do ano é implacável com os mais velhos. A temperatura oscila bruscamente, o ar é seco e sujo, maltrata a todos, principalmente os velhinhos. Passei o dia todo cantarolando essa musiquinha do Paulo Vanzolini, que se foi ontem, com pneumonia, mas sem pena. A pena é de quem fica.

“Longe de casa eu choro e não quero nada”. Quando vivi na praia era esta a música que embalava a minha melancolia. Uma vez passamos mais de três meses ininterruptos debaixo de chuva e garoa. Mas quem disse que a garoa é suficiente para matar as saudades de São Paulo? Eu ficava lá com o espírito sequestrado, sofrendo sem saber o quê, “que fora do chão ninguém quer e nem pode nada”.

Acho que a coisa que eu mais admirava no Vanzolini era a autenticidade dele. Ele era genuíno, brilhante e muito trabalhador, sem tempo para reagir às babaquices burguesas que nos subtraem o bom-humor, a energia. Só que mais do que recusar, ele nem prestava atenção nessas bobagens, como se fosse inabalável. Era um espírito elevado de verdade.

Tudo o que alguém pode fazer numa existência ele fez e à perfeição. Estudou entre os melhores, construiu legado científico e artístico, amou e foi amado, foi íntimo da cidade e do mato. Bebeu, fumou, se confessou. E nunca deixou de trabalhar. Quando não achava mais graça em cantar preferiu ficar de prosa no palco, contando casos e deixando as canções e os versos para a mulher e para os amigos, como numa herança antecipada, coisa de gente grande e desprendida, que desmente outros dois versinhos da música que passou o dia na minha cabeça, mas só por um instante, para logo a poesia voltar à exatidão dos fatos:

“O que eu fiz é muito pouco
Mas é meu e vai comigo
Deixo muito inimigo
Porque sempre andei direito
Agasalhei neste peito muita cabeça chorando
Morena minha até quando, você de mim vai lembrar?

Quando eu for, eu vou sem pena
Pena vai ter quem ficar”.

A pena de viver sem o Vanzolini é nossa.

 
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Jardins

“Se não, é como ter uma mulher só linda. E daí?”
Vinicius de Moraes

Dia desses, pelo facebook, vi um amigo jardinando. Isto é, ele estava cuidando do próprio jardim, o que, segundo muitas culturas, notadamente as desenvolvidas, seja em Ascott, Uberlândia ou Mossoró, significa uma hora excelente do dia, um retiro pessoal, terapia. Prazer de fato.

Pode parecer bocó, mas é importante explicar essas coisas sobre a jardinagem quando o nosso costume é entender o jardim como um telhado, capacho, ou algo que compõe a casa, mas não emociona nem envolve o morador.

Neste momento há alguém pensando em seus vasinhos de orquídeas que esperam nova florada no beiral da cozinha, ou o canteiro de manjericão, alecrim e pimenta que estão em flor. Ora, é importante lembrar que floresceram não por cuidado, mas por abandono. Quer dizer, as flores neles são antes um relaxo do que um cuidado. Esqueça uma orquídea na árvore e ela agradecerá. Ignore os temperos e eles protestarão em flor.

Os jardins, assim como os cachorros, são para quem os ama. Tanto faz se nobres ou vagabundos. Jardins e cachorros são sempre lindos. Quem precisar de cães simplesmente para guarda, prefira alugar. Pela boniteza os de louça são a perfeição. Mas ter um cachorro de verdade é para quem vê no passeio um prazer, na brincadeira um privilégio, no cuidado um carinho. A importância está no relacionamento, não na posse.

E com os jardins não parece, mas é igual. Um jardineiro profissional deve estar no mesmo nível do veterinário, só necessário em casos pontuais. O resto é bom que o dono faça, rega, poda, limpeza. Tanto para o jardim, mas quanto mais para o dono.  Dono é quem cuida.

E por jardins entenda-se qualquer coisa, inclusive a cidade. A região dos jardins, onde nasci e cresci em é um exemplo de abandono. Ninguém mora aqui, ninguém cuida. Tudo está na mão do próximo, seja o serviço público ou o particular. Dos moradores, nunca. Estes estão todos em cavernas, e delas só saem trancados em seus carros, sempre no sentido de outra caverna, onde tudo é padronizado e protegido, e onde fazem planos de viver intensamente em outros lugares. Dos seus cachorros há quem cuide, assim como dos jardins. E as crianças. às vezes, os maridos. E as mulheres.

 
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A vida sem torresmo

O Estadão está em pleno processo de mudança. Há nova tipografia e organização de cadernos. Política, Metrópole e Esportes agora formam um só bloco. O Caderno2 está praticamente intacto, só o Quiroga caiu pro rodapé. O Paladar também segue imaculado.

Mas o que eu queria dizer é que a Folha parece estar sob influência do rival. A manchete do Cotidiano parece a chamada da coluna do Macaco Simão: “Escritórios alugam vagas de flanelinhas”. É ou não é piada pronta a situação a que chegou a cultura automobilística?

Vá lá que na pessoa física você use os serviços de um flanelinha  de confiança, como parecem ser o Rivaldo e o Alemão que a Anna Kreep entrevistou para a Folha. Confesso que eu também uso eventualmente. O meu chama-se Patrãozinho, e também me chama assim. Mas quando são os escritórios de advocacia que contratam os serviços como forma de prêmio para seus funcionários e associados, fica a impressão de esculhambação institucional. Como eles pagam? Boleto bancário? E isto na região da Faria Lima, o metro quadrado mais caro da cidade, onde teoricamente trabalham os melhores, mais bem pagos e mais influentes profissionais.

O doutor Carlos Marcondes começou recentemente numa banca por ali e ia trabalhar de Metrô. Porém, convidado por outra firma, ficou contente com o “benefício” oferecido e agora vai de carro. O benefício é o serviço do flanelinha pago pela empresa, igual a plano de saúde, vale refeição e mesa perto da janela. Pode?

Caímos no ridículo. Um dos postos de gasolina mais tradicionais da cidade ficava na esquina da Faria Lima com a Cidade Jardim. Agora é estacionamento. Para mim tanto faz. Sou pedestre nenhum dos dois me servia. Mas meu palpite é que estamos enfartando e continuamos entendendo o torresmo como alimento essencial, não supérfluo. E tome ponte de safena!

 
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A vida inteira

Entre ontem e hoje a página do blog no facebook alcançou 900 curtidas, motivo de jubilo para o cronista. Não acho pouca coisa tanta gente seguindo alguém que não oferece outra coisa além de letras organizadas, notadamente hoje em dia, quando o pouco que se lê é cada vez mais pouco. (Se a forma está errada, a freguesa releve, porque fugi da escola.)

Para comemorar botei na foto de capa um trabalho da minha xará Leonora Fink. É uma cena com crianças negras sentadas à beira de uma fonte. Para nós, brasileiros, criminosamente acostumados ao abandono das fontes e das crianças (sendo as ricas com as babás e as pobres pelas ruas; e sendo pobre a maioria dos negros), remete ao centro decadente de qualquer cidade grande. Um segundo olhar enxerga que tantos as crianças quanto a fonte são bem cuidadas, e nos transporta imediatamente para o mundo civilizado.

Mas o que eu queria dizer é sobre o filme Dentro de Casa, que está nas melhores salas da cidade. Fala de um francês ideal, professor, casado com uma mulher interessante, sem filhos e com vida cultural gostosa, porém algo entediado com a mediocridade contemporânea, tanto entre seus alunos quanto na arte apresentada pela mulher galerista.

Até que qual uma flor da fenda no asfalto brota um talento entre seus alunos, que traga o professor para um jogo excitante, irresistível, que o leva a atuar, como diria o outro, “no limite da irresponsabilidade”, mas assim como o outro e todo apaixonado, sempre em busca de algo maior, mais forte e belo, sem se preocupar com as consequências em sua vida pessoal.

Fica o exemplo de que é preciso paixão. Sem querer me defender, tenho certeza que fugi da escola porque achava tudo aborrecido. O assunto era cansativo, o ambiente desconfortável, as matérias enferrujadas. Nem a comida salvava.  E “do lado de lá tanta aventura” que o portão de saída ficava muito mais atraente do que a lousa.

Outra fita que vem da Europa fala disso. O Homem desenvolveu a capacidade de se adaptar, mas ainda é bicho e a longo prazo a necessidade do habitat-natural torna-se orgânica. Ginger & Rosa fala da amizade de duas meninas adolescentes na Londres da Guerra Fria, naturalmente impetuosas, apaixonadas por um boêmio radical, que querem da vida a vida inteira e nem um tostão a menos, mesmo que isto signifique dor e sofrimento.

 
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30 mil milionários e mais da Rose

Antes tarde do que nunca, o BNDES parece estar de volta à realidade. Na sexta-feira o presidente Luciano Coutinho – não é parente – chamou a imprensa para dizer que abandonou a política de criar empresas “campeãs nacionais”.

A justificativa do abandono foi a da conclusão do ciclo. Como era previsível, o Luciano falou das limitações do Brasil para criar empresas líderes sem citar o gargalo da infraestrutura e da mão de obra preparada. Segundo ele o possível foi feito. Em números, isto significa ter emprestado em condições de mãe para filho cerca de 18 bilhões a empresas como JBS, Marfrig, Lácteos Brasil (LRB), Oi e Fibria. Destas cinco, duas (LRB e Marfrig) estão em recuperação judicial. E a conta não inclui o pindura de quase dez bilhões do Eike Batista. Sobre a periclitante situação do baluarte dos nossos bilionários, Luciano diz estar tranquilo. Bom, pelo menos ele.

Não sei onde eles pensavam em chegar desse jeito. Pelo que eu sei BNDES é a sigla para Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Me parece tão óbvio que de modo geral, mas principalmente para o desenvolvimento econômico e social, mil milionários valem mais do que um bilionário… Com a grana da política de criação de empresas “campeãs nacionais” a gente poderia ter feito diretamente mais trinta mil milionários, e proporcionariam um progresso social e econômico incalculavelmente maior por um risco muito mais baixo. Mas o BNDES de Lula e Dilma, como se vê, preferiu a concentração de renda.

Ainda Lula e Dilma: Segundo a reportagem de capa da Veja desta semana, o governo Dilma investigou internamente a atuação da ex-chefe de gabinete da Presidência da República, que serviu em SP durante o governo Lula. O que mais me chama a atenção é a foto do gabinete: um retrato gigante do Lula no meio de dois sofás fundos, tipo “cama marquesa”, nenhuma janela. Literalmente uma alcova. Chefe de gabinete?

 
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A pé e abandonado

A melhor página de humor na imprensa atual é o Diário da Dilma, publicado na revista Piauí. Se publicarem em livro no final do mandato servirá ao Brasil como registro histórico. Quero dizer, já serve, mas concentrado num volume único seria uma retrospectiva interessantíssima para o estudo futuro deste governo, além de garantir diversão imediata.

Sobre a mais nova estrela do Congresso Nacional ela anotou mais ou menos isto: “Quando pensei que titia falava muita bobagem, vem o tal Feliciano quebrar o paradigma”.

Entre os que dizem muita besteira a Presidenta poderia incluir alguns correligionários, como a petista e presidente da Petrobras Graça Foster. Na semana passada ela disse que acha congestionamento lindo. A freguesa desta página que duvidar da imparcialidade do bloguista esteja à vontade para checar o google. Entendo e não me magoo, porque foi exatamente o que fiz, e depois de ler o imparcialíssimo Ruy Castro numa croniqueta intitulada Azar do Brasil, que a Folha publicou.

O ponto de vista da Graça Foster é do negócio. Não importam os prejuízos sociais e ambientais: se estiverem comprando combustível e queimando energia, ainda que sem sair do lugar, tanto melhor. É a mesma coisa que a presidência do Mc Donalds festejar a epidemia de obesidade.

No mesmo congestionamento cívico está parado outro petista, o Chico Macena, secretário das subprefeituras do prefeito Fernando Haddad, que se recusa a entender o pedestre como parte do trânsito em São Paulo. Para ele, as calçadas e as pessoas que por elas trafegam que se danem, porque não são problema da prefeitura. O desdém deles por quem anda a pé fica claro no convite para o 5º Prêmio CET de Educação no Trânsito, “que tem por objetivo a reflexão, a criatividade e a produção de trabalhos voltados para a segurança no trânsito”. Segundo a companhia, poderão concorrer motoristas, motociclistas e ciclistas. Ponto. Os pedestres seguem abandonados.

 
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