Facebook YouTube Contato

Crônica da tragédia anunciada

Perplexo, eu deveria ficar quieto. Pelo menos esta é a recomendação dos manuais de boa conduta cada vez mais populares: não esquente a cabeça, releve, se não puder dizer algo bom simplesmente cale. Mas nasci com esse defeito e me envolvo, e me aborreço, e me desgasto. Esta é a minha natureza, não tenho como lutar contra ela.

Minha perplexidade, porém, não é simplesmente em relação ao número de vítimas do incêndio em Santa Maria. Acho que a de ninguém é. Infelizmente nos acostumamos à tragédia. Aqui em São Paulo mais de mil morreram assassinados a bala no ano passado, outros milhares foram moídos em acidentes de automóvel e aviões já caíram matando mais gente de uma só vez. O que barbariza neste caso é a suavidade que fica diante da barbárie. As vítimas serão veladas com os corpos e as faces intactas, como se estivessem dormindo, como se aquele ginásio fosse um dormitório de acampamento, absurdo, surreal, ou como se estivessem todos vivos, mas se fingindo de mortos num protesto para ver se o Brasil acorda.

A imagem descrita pelo poeta gaúcho Fabricio Carpinejar é desesperadora: “Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal”. Aquelas campainhas insanas insistindo contra o silêncio definitivo, clamando pela resposta impossível, são de levar qualquer um à loucura.

A maior dor é suave. Um curativo arrancado com violência machuca menos do que suavemente extraído. E a asfixia, o envenenamento por fumaça tóxica de cada adolescente encurralado é dilacerante. Resta crer que depois do susto eles não tenham sofrido. Que o efeito inebriante da fumaça tenha anestesiado cada um deles. Que a dor seja de quem fica, de cada um de nós, que vamos seguir adiante sabendo que há famílias olhando assim os seus filhos, amigos em dúvida sobre a alegria de viver, adolescentes viúvos do primeiro amor. Mas que, como escreveu outro gaúcho, o Luís Fernando Veríssimo, que a revolta tenha uma função prática.

Se fosse para apostar sem ver, botaria meu tesouro no palpite que a boate Kiss já é errada desde a calçada, tanto quanto à prefeitura que um dia autorizou sua operação. Mas pude ver num retrato a calçada, que confirmou meu palpite: feita para o entra e sai de mil pessoas, a faixa de calçada não comporta mais do que três perfiladas.

Da porta (única) para dentro a calamidade se espalha, tudo irregular, da capacidade ao equipamento, do treinamento da equipe à brincadeira com fogos de artifício, da falta de documentação à falta de seguro. Quantos lugares assim não frequentamos? É a crônica da tragédia anunciada. Boates, cinemas, shoppingns, estações de metrô. E mesmo assim têm alvará  e outras licenças de um, dois, três, infinitos órgãos oficiais que atuam em cada município brasileiro. Todos? Não sei, mas a maioria inúteis, que atendem ao interesse particular de mafiosos absolutamente alheios à coletividade.

Parece que os donos da boate e alguns músicos foram presos preventivamente. O prefeito Cezar Schirmer, no cargo desde 2009, e portanto cúmplice da tragédia, se limitou a agradecer a solidariedade e dizer que não está faltando leite nem medicamento. Prefeito, o que está faltando é vergonha na sua cara. O mínimo que você pode fazer é exonerar todos os fiscais que passaram pela rua dos Andradas nos últimos quatro anos e depois renunciar. O resto é com a Justiça.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
15 Comments  comments 

Santa Maria

A imagem das campainhas dos telefones insistindo contra a morte é desesperadora. O Fabrício Carpinejar está certo: “as palavras perderam o sentido”.

 

Fabrício Carpinejar

Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça.

A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta.

Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa.

A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013.

As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada.

Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa.

Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio.

Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda.

Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência.

Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa.

Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.

Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo?

O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista.

A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.

Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.

Mais de duzentos e cinquenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.

Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal.

As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.

Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.

As palavras perderam o sentido.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Gordinhas são a tendência

Notícia boa: as meninas estão engordando. Calma, não quer dizer que vão rolar Ministro abaixo, mas que estão engordando está nas capas das revistas, basta ir a uma banca para constatar. Certa vez uma modelo disse que ficava ofendida e preocupada quando alguém na rua assobiava e a chamava de gostosa. Elogio para ela era ser magrela. Pois esse tempo acabou. As gostosas estão por cima da carne seca. Literalmente.

O movimento começou com a Luana Piovani – sempre ela – no final do ano passado na capa da GQ. Linda e irretocável aos olhos que qualquer pessoa sensata – se é que sensatez é possível diante da Luana – ela foi provocada no twitter e reagiu como de costume: – “Gorda sim, mas seu namorado está agora no banheiro com o meu retrato”. Apesar de bocuda é bem provável que ela tenha razão. Se de fato essa tuiteira infeliz tiver um namorado, a chance de ele ter aplacado a solidão do momento íntimo pensando na Luana é enorme.

Quando 2013 despontou outras meninas lindas resolveram seguir a líder inconteste da beleza nacional. A mesma GQ confirmou a tendência com uma Debora Nascimento de encher os olhos. E de memória posso citar outras divas vanguardistas da felicidade estética: Giovana Ewbank, Fernanda Paes Leme, a mulher do Cachoeira, a virgem de Santa Catarina. Todas colossais exibindo o recheio que quem desgosta bom sujeito não é.

Por falar em samba é claro que as musculosas ainda vão aparecer em maior número nos ensaios e na própria avenida. Mais do que dança, o que elas fazem é esporte. Não há sensualidade nenhuma naquele ataque epilético ereto. Coxas com degrau, costelas aparentes entre os seios, onde chegamos? O desfile é bruto, está desvirtuado. Mas no chão, no Simpatia é Quase Amor, no gingado natural das mulatas que sambam pra valer, a apoteose terá recheio e cobertura.

Ninguém pode achar boa uma coisa magra. Nunca ouvi alguém tratando com carinho a namorada  por Magrela. Em compensação Gorda, Gorducha, Gordinha… O esplendor da mulher é sempre no auge da puberdade, e neste momento elas são como a broas saindo do forno, quentes, roliças, túmidas, com a pele estourando ante a volúpia do corpo.

As piadas sempre têm um fundo de verdade, mas daquela que diz que “mulher gorda é igual a pantufa, em casa é uma delícia, mas na rua dá vergonha” só a primeira parte continua valendo. As gordinhas gostosas estão nas ruas e nas capas de revista. É tendência: coxas juntas, ventre macio, buunda. E sobretudo o sorriso verdadeiro, que só é possível à distância das dietas.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
2 Comments  comments 

Educação: das boas maneiras ao ensino

Fui injusto e logo com o nego mais rico do Brasil. No dia em que o Jorge Paulo Lemann tomou o posto do Eike Batista por algumas centenas de milhões de dinheiros, escrevi que achava grande coisa segurar o troféu sendo mão-fechada como ele. E pior do que injusto fui ingrato, porque na minha primeira e única aventura empresarial, o restaurante Mulata, a AmBev me deu a maior força.

Naquela época eu era genro do saudosíssimo Oscar Yahn, que um dia me garantiu ser grande amigo do Carlos Brito, então diretor de marketing da companhia, se não me engano. Como o Oscar era meio exagerado fui conferir a história com a Rosana Garnier, mulher dele, que confirmou botando os pingos nos is correspondentes: de um atoleiro eles tinham salvado a família Brito, que esperou a máquina chegar tomando umas e outras no barracão mineiro da Rosana e do Oscar.

Então numa terça-feira eu estava em casa tomando sombra de goiabeira com cerveja quando li o 0800 da AmBev no rótulo da Original. Telefonei e fui muito bem atendido e orientado: para falar com o Brito tinha que chamar o escritório. Obedeci, mas ele não estava. No dia seguinte, ao pegar recados na secretaria eletrônica ouço um sotaque carioca: – “Léo, aqui é o Brito, amigo do Oscar. Quando puder me chama”.

No dia seguinte nos falamos. Expliquei que precisava de um distribuidor no Litoral Norte e ele foi direto: – “Manda por e-mail o que você tiver. Se até amanhã não acontecer nada, você me chama de novo”. Quando o sol raiou recebi telefonemas de Bertioga, São Sebastião, Mogi das Cruzes, Caraguatatuba e até São José dos Campos. Além disso chegaram duas geladeiras, dez baldes, cem tulipas e mil bolachas da Bohemia. Tenho ou não que ser grato?

Meu senão com eles vai de encontro justamente com a competência empresarial, que fez da Brahma a maior cervejaria do mundo, hoje chamada AB-InBev e presidida pelo mesmo Carlos Brito. Na busca pelo resultado eles tiveram que passar pela massificação do gosto, ceder ao perfil consumidor comum e descobrir o limite entre a economia com matéria-prima e a qualidade.

No Estadão de segunda-feira descobri quão injusto eu fui com o Jorge Paulo. Aquele que eu acreditava um Tio Patinhas e mais nada é na verdade um filantropo e preocupado com o tema mais importante de todos: educação. Mantém há anos uma fundação voltada à melhoria do ensino. E há algum tempo contratou o Denis Mizne, um advogado que participou da concepção e decolagem do Instituto Sou da Paz, que hoje colabora até com a ONU quando o assunto é controle de armas.

Também pude conferir que objetividade, prontidão e outras bossas são coisas da turma do JPL. O primeiro contato entre o Mizne e a Fundação foi feito direto com o patrão, por e-mail, um minuto depois dele ter autorizado– é claro – uma amiga indicar seu nome. A primeira entrevista foi via Skype e o primeiro encontro pessoal logo que o homem desembarcou em São Paulo.

Nego honesto, esse Mizne achou por bem alertar o futuro patrão: – “Eu não entendo nada de educação”. Elegante e prático o Lemann rebateu: – “Tudo bem, o Marcel Telles não entendia nada de cerveja quando a gente comprou a Brahma.”

O Fernando Henrique repete uma piada boa: – “Educador é a mãe!” Ora, o Marcel Telles continua entendendo mais de empresas do que de cerveja, e o Minze não precisa saber de educação para fazer bem o seu trabalho.

A prova está na passagem do professor Salma Khan pelo Brasil. Da Presidente da República, passando pelo ministro da Educação até altíssimos empresários e educadores, todo mundo tratou de ajustar a agenda às 36 horas que a estrela catedrática ficaria por aqui. E fizeram muito bem, porque o método utilizado pela Khan Academy, que consiste em espalhar pelo mundo ensino de qualidade através de vídeos para internet, depende de adaptação local. Sabe o que fez o Mizne? Caprichou na tradução dos textos, foi buscar o dublador do Goku, personagem do Dragon Ball 2 que a molecada adora, arranjou um cara que repete a caligrafia do Khan, enfim, deixou tudo tão harmônico que um vídeo chamado Anatomia de um Neurônio já conta 350 mil visitações. É fantástico.

Esta é uma delícia de ser rico: fazer as coisas acontecerem. Quando eu trabalhei na prefeitura o Ricardo Montoro era o secretario de Participação e Parceria, responsável pelos Telecentros, que a grosso modo podem ser entendidos como pequenas escolas de computação espalhadas pela periferia. Só o Ricardo inaugurou mais de 200 dos trezentos e tantos que há na cidade. O coordenador era o Fred Guidoni, hoje prefeito de Campos do Jordão. E a vontade na época era colocar o Professor Pasquale para ensinar português para a molecada, que está escrevendo cada vez mais – e pior. Chegamos a fazer reuniões com a Verena Peixoto, que cuida do licenciamento, mas não deu. A coisa pública é difícil, emperrada. Então fica a dica para o Denis Minze, que já sinalizou que quer ir além no ensino à distância.

E, Jorge Paulo, mil parabéns pra você. Por favor perdoe as más palavras.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
2 Comments  comments 

Esse cara sou eu

“Todos erram neste mundo, não há exceção, quando voltam à realidade, merecem perdão / Por quê é que eu Senhor, que errei pela vez primeira, passo tantos dissabores, e sofro pela humanidade inteira?” Este era o Cartola cantando mágoas de amor. Pode parecer exagerado dizer que toda a dor da vida está concentrada em um só homem, mas é o extrato genuíno de um coração dilacerado.

O exagero serve bem a outras formas de comunicação, como o humor por exemplo, escrito, falado, desenhado, muito embora há quem defenda a ironia como fina iguaria. Gosto de tudo. As melhores piadas sobre os portugueses são as sutis. A lógica deles já é toda cheia de graça. O humor inglês também não precisa de mais tempero, as impressões do cotidiano bastam.

O Gigi Pinto Thomaz me contou uma onde ambas se encontram: o embaixador português chega a uma recepção no Palácio de Buckingham, e o arauto da rainha:

-       Your name, sir?

-       Saraiva.

Ele bate a vara no chão e anuncia os convidados:

-       Sir Aiva and lady Aiva!

Há outros encontros virtuosos entre Portugal e Inglaterra, entre eles o drible no Napoleão com apoio britânico à mudança da corte de Dom João VI para o Brasil e, mais antigamente, no final do século XIV, conforme nos conta o Luís de Camões n’Os Lusíadas, a convocação pelo Duque de Lancaster e autorizada por Dom João I dos doze cavaleiros lusitanos para limpar a honra de doze damas inglesas injuriadas em sua terra, resolvida em breve e cruel batalha vencida pelos bravos portugas.

Só não vou me estender sobre este assunto para evitar a impressão de que estaria puxando brasa para as minhas sardinhas (portuguesas), posto que à época de Dom João VI o embaixador português em Londres era Dom Domingos de Souza Coutinho, e o secretario de Estado para Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos era Dom Rodrigo de Souza Coutinho. Mas meu orgulho maior é o Magriço Álvaro Gonçalves Coutinho, um dos doze da Inglaterra, sendo o único que foi à luta não por mar, mas a cavalo – consta que inclusive o canal da Mancha –, e que de volta a Portugal escolheu a família Moura, da freguesia de Travassos, para começar a família Magriço de Moura Coutinho, sendo este que vos fala seu descendente, senão tão valente e bravo, trabalhador incansável na defesa das damas, dos fracos e dos oprimidos.

E quem disse que o humor não serve para denunciar o escárnio da vida, a dor das damas, dos fracos e oprimidos? Tomemos o Julinho de Toledo Piza por exemplo. Olhando assim ninguém diz, mas o homem estudou Ciências Sociais. A vida acabou lhe embrutecendo e o transformando em capitalista e pecuarista, mas ainda se encontra sensibilidade debaixo do escudo do vil metal.

Logo à primeira audiência do novo hit do Roberto Carlos ele fez uma paródia, muito mais afinada à triste realidade feminina do que a original cantada pelo rei, que este Magriço de Moura Coutinho faz questão de publicar:

“O cara que prensa você toda hora

Que toca a buzina se você demora

Que está todo tempo querendo beber

Lembrar das suas datas não quer nem saber

E no meio da noite reclama

Se a criança te chama

Esse cara sou eu.”

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
2 Comments  comments 

Drogas, FHC, Napoleão e Dom João

Começa hoje em São Paulo o programa de internação compulsória para dependentes de crack. A ideia consiste em abordar as pessoas nas ruas e internar para tratamento com ou sem consentimento. Alguns terão prioridade, entre eles  grávidas e contaminados por doenças graves como hepatite, tuberculose ou AIDS. Parece que serão tratados até a cura ou o parto e depois perguntados se querem estender o processo até o abandono da dependência. Confuso, para dizer o mínimo.

Mais do que uma opinião formada sobre o assunto, tenho medo das consequências. Questão de princípio. Receio qualquer interferência do Estado na vida pessoal do cidadão, sobretudo quando os limites não estão claros o bastante. Pela mesma teoria defendida pelos entusiastas da proposta, os alcoólatras que logo pela manhã passam pelo botequim para beber um “Paramount” – como são chamados os coquetéis que fazem parar a tremedeira das mãos do sujeito –, poderiam vir a ser internados de acordo com a vontade daqueles tidos como “autoridades competentes”.

A parte boa – porque tudo na vida tem uma parte boa – é que as drogas começam a ser encaradas como questão de saúde e não de segurança pública. Este sim me parece um passo enorme, ainda que diminuído por uma política que oscula o totalitarismo.

Assisti com prazer a entrevista que o Doutor Dráuzio Varella fez com o presidente Fernando Henrique Cardoso. Logo no primeiro bloco da conversa dividida em três partes ele fala da origem e dos desdobramentos da cruzada mundial contra os entorpecentes que hoje identificamos como drogas ilegais.

Eu não sabia, mas esse devaneio de propor extinguir completamente as drogas  do planeta foi plantado no governo do Richard Nixon e colhido como fruto sagrado pela ONU, que o mantém até hoje, independentemente do fracasso consagrado.

Meu palpite é que o Nixon, ante a corajosa decisão de sair do Vietnã, precisou oferecer algo mais amplo e duradouro aos fabricantes de armas, e para eles nada poderia ser melhor do que a proibição irrestrita das drogas, posto que a história ensina que sempre que uma lei é impossível quem prospera é o crime organizado, obrigando o Estado a se armar para combate-lo, criando um círculo vicioso delicioso para os escroques do mercado bélico. Vide Lei Seca e o lendário Al Capone.

Voltando à parte boa, que é começar a entender o drama das drogas como questão de saúde pública, a chave para a solução passa pela experiência do próprio FHC e do Doutor Dráuzio quando lembram da elaboração da política para tratamento da AIDS no Brasil. Fosse entregue ao pessoal que defende a proibição e a repressão das drogas, os portadores do HIV seriam presos, fichados e impedidos definitivamente de qualquer prática que permitisse a transmissão do vírus, bem como qualquer pessoa que trepasse sem camisinha ou compartilhasse uma seringa.

Graças a Deus a imbecilidade humana não chegou a esse ponto, muito até pelo contrário. A epidemia de AIDS foi controlada no Brasil com campanhas educativas, distribuição grátis de preservativos (ante protestos religiosos) e de medicamentos  para o tratamento da doença, que para tanto tiveram as patentes internacionais quebradas, servindo de modelo para o mundo inteiro. Quer dizer: esforços e investimentos concentrados em educação e saúde.

Em Portugal fizeram a mais ou menos a mesma coisa, só que com as drogas. Lá o gosto popular é mais a heroína do que a cocaína ou crack, e o que o governo fez foi descriminalizar o uso de todas as drogas, sem restrição, e oferecer aos usuários tratamento gratuito e desestigmatizado, uma vez que a pessoa não tem que se identificar para ser tratada.

O mundo ainda vai reconhecer a inteligência estratégica portuguesa, cuja base é a lógica e a resiliência. Eles são capazes de vergar ao extremo e por isso não quebram nem machucam ninguém. Quanto antes a gente aprender com eles, melhor.

Dom João VI quando mudou seu reino para além mar, notadamente para o Brasil, deixou o Napoleão feito bobo e de pires na mão. Pela lógica, Portugal era aqui, impossível de conquistar sem perder a Europa. Com a queda do tirano tudo voltou a ser como dantes. O golpe foi tão severo que as biografias dedicadas ao estrategista militar genial fazem a gentileza de esquecer o drible joanino.

O imperador despótico de hoje é o crime organizado, imperando mundo afora, corrompendo Estados, apodrecendo instituições, cada vez mais rico pelo tráfico de drogas, crianças, mulheres, órgãos e armas, muito poderoso e alheio ao sofrimento das pessoas. Temos duas opções: enfrentar nos termos deles, que são pólvora, chumbo e brutalidade, ou nos nossos, que são educação, saúde e inteligência.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
2 Comments  comments 

O Centro é a nossa praia

Dos dez lugares preferidos pelos turistas que visitam São Paulo, quatro estão na Luz e só dois não estão no Centro. Mas o endereço e a predileção não são os únicos laços que unem esses lugares. A chave é a mesma no mundo inteiro, não falha: arte, cultura, urbanismo e arquitetura. Vida boa nas cidades só pode ser assim.

A lista foi criada democraticamente pelos navegantes de um dos maiores sites dedicados ao turismo no mundo, o Trip Advisor. Começa com a Sala São Paulo, que se confirma como o legado maior do governador Mario Covas. Foram mais ou menos 50 milhões de reais investidos na reforma e adaptação da estação Júlio Prestes e criação da Orquestra Sinfônica do estado de São Paulo. Comparados aos tantos bilhões do orçamento estadual é dinheiro de “bolso de colete”, diriam os barões do café que por ali passeavam há cem anos.

O José Serra quando assumiu o governo paulista mostrou que fez a lição de casa e tratou fazer acontecer algo na mesma linha para entrar para a história: a SP Companhia de Dança que ele inventou ficará ali na frente, dentro do Centro Cultural da Luz, um prédio lindo projetado pelo escritório suíço Herzog & De Meuron, que está nascendo e cujo ultrassom pode ser conferido no youtube.

Quem tocou a concepção foi o Andrea Matarazzo quando ocupou a secretaria da Cultura, que por sinal também fica na Júlio Prestes. Além do Covas, do Serra e do Geraldo Alckmin que continuou e garantiu ambos os projetos – isto é fato, não tucanice –, outro homem que entrou para a história através do mecenato teve influencia no trabalho do nosso hoje vereador: Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccillo, que nos legou o MAM, o MAC, a Bienal, o TBC, a Cia. Vera Cruz.

Mas o melhor de tudo é que esse esforço não foi em vão, como prova o ranking de quem usa. Os bocós que acreditam na rivalidade entre Rio e São Paulo repetem que “praia de paulista é o shopping”. Não é. Ficou ainda mais claro que a nossa praia são os bares e os restaurantes, e antes deles as praças, parques e equipamentos culturais.

E se em Santos a restauração dos prédios em frente à praia está rendendo ao investidores lucros de até 100%, por que seria diferente com as pessoas físicas ou jurídicas que voltarem à Luz e ao Centro todo de São Paulo? Enfim, é lá que estão as melhores praças e museus, nosso passado e nosso futuro. O Centro é a nossa praia.

crônica publicada no Portal TASTE/Cesar Giobbi

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Mundo ervilha

Fui buscar nos guardados de família um pedaço da Folha de São Paulo do domingo 10 de setembro de 1978, notadamente a página 51 do quinto caderno, já desde então chamado Ilustrada. O fim era encontrar a nota que o colunista social Tavares de Miranda publicou sobre o meu batizado e da minha prima Gabriella Montoro, mas encontrei muito mais, contrariando e efemeridade da letra impressa em jornal.

O cenário sócio-cultural da cidade não mudou muito, como poderá conferir esta freguesia. A crítica literária destaca antologias sobre as obras de Jorge Luis Borges e Augusto Frederico Schimidt, e da viagem do Ignácio de Loyola Brandão à “ilha proibida”, depois de dezessete anos de bloqueio econômico e cultural entre Brasil e Cuba. Quem então apostou no fim da nossa ditadura teve que esperar mais quase dez anos – e na do Fidel ainda está esperando.

A coluna Panorama, assinada por T Monteiro, traz uma dica do por que da aura de breguice e preconceito enfrentada pelo Miss Universo nas últimas décadas: “protesto dos vários grupos de feministas do mundo inteiro”. Como é sabido, essas pobres diabas tiveram muita influência na imprensa (do mundo inteiro). O bom-senso porém venceu, o feminismo morreu e o concurso está aí, glorioso de novo.  Deixemos para lá. Como diria o Rubem Braga, a simples visão de uma mulher bonita perdoa toda a estupidez da vida. (Sobre o centenário do Sabiá neste 2013 só falo depois da Danuza Leão.)

Outra curiosidade anotada por T Monteiro é a façanha do rapaz francês Michael Lottito, que “comeu uma bicicleta em quinze dias e no 31 de agosto começou a comer outra”. Com três centímetros diários de “ferro ciclístico” ele chegou ao Guiness afirmando que o “prato forte” das magrelas é o quadro. E o Carlos Naggar aí dizendo que gosta de pedal. Gosta nada. Se gostasse almoçava uma.

No teatro gostei de ver o meu querido Paulo Cesar Pereio estrelando ao lado da Ruth Escobar a Revista do Henfil, escrita pelo próprio cartunista a quatro mãos com Oswaldo Mendes. No elenco também esteve a Sonia Mamede, que segundo o Julinho Toledo Piza era boa pra chuchu.

E a música? Como era bom ser flaneur em 1978. Na estação São Bento do Metrô o Marco Rezende e o grupo Index faziam a abertura oficial do I Festival Internacional de Jazz de São Paulo. O tecladista, nascido no Cachoeiro do Itapemirim, e portanto conterrâneo do Rubem, começou a carreira na Europa e participou de concertos com Art Blakey, Dizzie Gillespie, Stan Getz e Ronnie Scott. Isso mudou. Hoje pela São Bento só se escuta o pregão das óticas.

De volta à página 51, noto no alto as fotos do nonagésimo aniversário do “eminente” Luiz Piza Sobrinho, comemorado com missa na Igreja da Consolação e almoço “no seu” Automóvel Clube. “Diziam presente centenas de amigos (“a direita empedernida” segundo outro Piza já citado aqui), entre os quais o prefeito de São Paulo, um ministro do Supremo e altas personalidades”, como confirma a presença do sorridente Bastião do Amor, bivô do meu afilhado Frederico Ribeiro.

A página seguinte, além do anúncio de lançamento da coleção Primavera Verão Vigotex fala de dois jantares (um íntimo, outro dançante) e de um Coc-souper (cuja tradução do google me parece obscena, por isso não vou repetir). Mas seja lá o que for só pode ser coisa fina, porque aconteceu no flat da “grande dama paulista” Yolanda Penteado e foi oferecido ao Alberto Cavalcanti, um dos percussores do cinema no mundo. O jantar íntimo foi para um pequeno grupo em casa de Filly (Matarazzo) e Pierpaolo Gembrini e contou com a presença do decorador Hugo Di Pace, que hoje parece mais jovem do que há 34 anos. O interessante aqui é o sobrenome de solteira da anfitriã entre parênteses. Quando era notável o colunista destacava; quando não, metia um Sra. Fulano de tal e ponto. O jantar dançante se deu no Paulistano em torno do cantor italiano Sergio Endrigo, em noite comandada pelo então presidente Luis Ferraz do Amaral e do seu diretor social Raul Simone Pereira, que foi paciente do meu avô Coutinho em Campos do Jordão, onde presenciou o amigo Hugo de Barros salvar meu pai menino do afogamento num riacho. Tirei uma cópia  enviei para ele, que aos 89 anos completos no sábado passado acaba de me telefonar do escritório para agradecer a lembrança e retribuir com estas e outras histórias.

Enfim, a nota sobre o meu batizado começa com o retrato dos meus avós Olga e Francisco Coutinho, estando eu no colo dela. Logo abaixo meus padrinhos Regina Coutinho (pessoalmente e num óleo na parede) e Ricardo Montoro, tia Helena Carvalhaes, meu pai com a Bibi no colo, minha mãe com a Piny choupando o dedo, e os pais da Bibi, tia Beth e tio Beto Montoro. Mas a melhor foto é a última, do padre Palácios que nos batizou, ladeado pelo então senador Franco Montoro e a tia Lucy, metido num terno de seda e camisa preta com o colarinho aberto e os braços sobre os ombros do casal. Era muito divertido esse padre.

Para lembrar mais uma vez do Julinho e encerrar a conversa, emendo uma das suas histórias. Numa bebedeira o padre perdeu o crucifixo que carregava no peito, ficando numa aflição irremediável. Mesmo assim, porém, um amigo tentou ajudar: – “Não esquenta, padre, cruz de bêbado não tem dono”. Êta mundo pequeno e redondo.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Uma longa e duas rapidinhas

O Tim Maia é que brincava com isso. Sempre que comparecia aos próprios shows regia a plateia qual a um coral. Vulgar, mas coral. O Wilson Simonal também fazia isso e de maneira impressionante. No filme documentário sobre a vida dele está o Maracanãzinho inteiro fazendo o que ele quer, tom abaixo, tom acima, com e sem champignon, salsinha e cebolinha, meu limão, meu limoeiro. E igual ao Tim a velocidade ele também regia.

Naturalmente que Síndico era mais cafajeste e interagia com o público fazendo piadas idem, apontando “só as virgens” ou na clássica Eu e você, você e eu, propondo uma longa e duas rapidinhas: – “Raau; rau,rau”. E ainda dizia que é bom pra celulite, coração, fazia gestos, tudo enfim. Sobrava até pro japonês da técnica, o Gilberto da produção, as gatinhas do vocal. Só peguei em gravação e acho um delírio.

Mas o que me traz aqui é outro Maia, o do calendário. No dia do fim do mundo programado para o ano passado o Marco Renzetti propôs à freguesia da sua Osteria del Pettirosso uma degustação italiana completa. Entrada, primeiro e segundo prato, e sobremesa. Peguei minha Neguinha e rolei para lá.

A bem da verdade furei a fila. Quem me convidou para comer o cacio e pepe na Pettirosso foi o Gerardo Landulfo, mas na falta dele e iminência do fim do mundo preferi não esperar. E de qualquer maneira o prato proposto continua em aberto.

O que ata o Tim ao calendário Maia do Marco Renzetti é a velocidade da sua cozinha: longa. Ir à Pettirosso é para quem está disposto a se entregar incondicionalmente ao chef, feito um coral ao maestro. Tempo, tom, tempero, repertório: quem decide é ele, o freguês só obedece.

Vale a pena. Entre as duas opções para cada ato fiquei com tartar de salmão e mini-alcachofras, fettuccine ao ragu de linguiça toscana e funghi porcini, paleta de cordeiro assada à baixa temperatura com cebolinhas ao balsâmico e de sobremesa sorvete de creme com calda de frutas vermelhas. Alguma novidade? Não. Ou não aparentemente. A maior novidade, ou qualidade do Pettirosso é ir na contramão da invencionice contemporânea e preparar tudo na hora, o que torna a refeição longa, mas faz toda a diferença. Não tem esse esquema de massa ou arroz pré-preparado. O risoto demora o tempo todo do seu preparo, sem truque, sem playback. É o famoso “quem sabe faz ao vivo”. Meti o garfo no da minha Neguinha, que era a segunda opção de primeiro prato, com camarões e aspargos, e senti vontade de aplaudir o chef.

As duas rapidinhas foram divididas entre este e o ano passado. Aproveitando a tranquilidade paulistana desse período fui conhecer o Italy, que na Oscar Freire só não é mais concorrido do que o Frevo. Eles têm lá um garçom ótimo e honestíssimo, cujo nome sofro por não lembrar. Diante da confusão entre as três cartas de vinhos (velha, nova e no tablete), com preços diferentes para a mesma garrafa, com simpatia e sinceridade ele contornou a falha enquanto o metre e o vendedor de vinhos nem se coçaram. Dividimos uma massa fresca recheada que estava boa, mas impressionou mesmo pela velocidade com que chega à mesa. Nem o McDonalds pode ser mais rápido. E o santo também desconfia quando a rapidez é demais. De sobremesa escolhi os cannoli, que vieram acompanhados de uma calda qualquer, ainda bem que à parte. Meu problema com eles é que sempre acho aqueles com os quais a Connie Corleone matou o padrinho na ópera em Palermo  mais apetitosos.

A segunda, nem tão rápida assim, foi no Dinner 210. Queria experimentar o sanduíche de pastrami morno do Benny Novak. E é ótimo, rústico, imperfeito. Só achei que podiam ser mais generosos com o picles. Pedi mais e o garçom teve coragem de me dizer que estava esgotado. Uma pena, mas o cardápio judeu-novaiorquino é instigante  e eu vou voltar. Rapidinho.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Toca aqui

No Almanaque da Revista de História da Biblioteca Nacional, que a mim chega por graça do Jean-Louis Lacerda Soares, amigo gentil que ainda não conheço pessoalmente, e que este mês conta a passagem do nazismo pelo Brasil, encontro a origem do cumprimento romano, que não é outro senão esse que a gente usa diariamente.

A curiosidade entra na conta do amigo italiano do nazismo, Benito Mussolini. O Almanaque nos ensina que entre as imposições do fascismo havia a “saudação romana”, que com o braço direito erguido na diagonal queria substituir o aperto de mãos. Ignorava o Duce que a mão desarmada estendida à troca franca já na Roma do período clássico era o hábito popular. É incrível como as ditaduras conseguem ser cretinas em todos os sentidos ou, como anota a revista, erradas até nos pequenos gestos.

Meu primeiro encontro com a beleza simbólica do aperto de mãos foi em Juquehy, uma praia bonita que existiu no Litoral Norte de São Paulo. Éramos uma turma de moleques criados sob o fascínio dos motores de explosão, e mais do que nadar, surfar, esquiar, jogar pelada, taco ou frescobol na maré baixa, explorar a Mata Atlântica tão rica logo acima das nossas casas, enfim, a gente queria queimar óleo: moto, mobilete, monareta, bugue, o carro do pai. Qualquer lata motorizada emocionava. Mas é claro que sendo todos menos de idade ninguém tinha habilitação, de modo que a brincadeira só era permitida debaixo da vista grossa da polícia – e de alguns pais.

Até que um dia chegou um sargento aflitinho decidido a cumprir a lei com rigor. A notícia se espalhou depressa e todos (ou pelo menos este menino de curiosidade irrefreável) fomos tomados por  uma sensação mista: continuar brincando livremente e enfrentar a repressão da autoridade. Diziam que ele berrava, apitava, batia o coturno (impossível conciliar bom-humor e coturno na praia) e abordava a molecada de arma em punho. Ora, a liberdade é uma delícia, mas nada como um limite para prova-la.

Fui levado para a delegacia algumas vezes, mas nunca pelo sargento caxias. Minha experiência com ele se limitou à lição do apeto de mão, que redundantemente foi dada pelo professor Geraldo Pinheiro Franco. O Gê era então juiz corregedor da polícia, e na impertinência íntima dos caráteres pouco calejados todo nosso desejo era ver o juiz “da gente” metendo uma carteirada e calando a boca do algoz oficial.

Quando enfim nos encontramos ele tinha abordado se não me engano o Ferzinho Cardoso empinando em frente à Casa Rosa. Mas como deu tempo de botar a moto para dentro da garagem o guarda ficou na calçada com o revolver em punho. Então correram para chamar o Gê, que com toda calma chegou e estendeu a mão ao policial, que não teve outra saída senão devolver a arma ao coldre para retribuir o cumprimento. E então para o nosso desgosto levamos um puxão de orelha tanto do sargento quanto do juiz, ou melhor, do Geraldo, do pai da Fafá e da Juju, que frustrando a nossa expectativa sequer mencionou o posto que ocupava.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
6 Comments  comments