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É ainda mais grave do que já parecia

Todo santo dia é a mesma coisa: acontece um absurdo no governo federal e a gente se pergunta como chegamos a tal estado de coisas.

Ontem não foi diferente. Com recomendação de resguardo do próprio governo dada a possibilidade de estar infectado pelo coronavírus, o presidente da República interagiu com manifestantes que pediam a volta da ditadura em frente ao palácio do Planalto.

Hoje piorou. Conseguiram piorar. Ainda não são sete horas da manhã e já piorou. É inacreditável.

O ministro Paulo Guedes, em entrevista à repórter Alexa Salomão Folha de S. Paulo, deixou claro que, na reunião da quarta-feira 11 de março entre membros do Executivo e do Legislativo, representantes do Banco Central mostraram que Brasil e EUA têm uma taxa de contagio da população pelo coronavírus mais rápida que a da China e até que a da Itália. E emendou: “foi alarmante”.

Mesmo admitindo não se lembrar de números de tamanha importância, registrou que “na Itália a previsão era de 60% de contagio e aqui, 80%”.

Perguntado sobre quais providências tomou, voltou a falar de reformas, privatização e da articulação política. Chamou a pandemia de sopro. E o importante é que, com milhões de brasileiros no corredor da morte, PaGue admite que não só não tomou providências efetivas como o próprio governo omitiu os dados de projeções da população. Faço minhas as palavras do ministro: é alarmante.

É estarrecedor. Tendo dados graves assim em mãos, depois de cinco dias, o governo, mais do que calado, segue relativizando o problema como fez o presidente ontem na CNN, e dando o péssimo exemplo de não se resguardar tendo uma dúzia de infectados em suas relações mais próximas.

Sinceramente eu não sei mais o que ou como fazer. Dentro do possível, todos devemos ficar em casa. E Jair Bolsonaro e Paulo Guedes devem ir para suas casas e nunca mais voltar. A cena para tamanha irresponsabilidade é clara: consequência ou morte.

 
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TALVEZ NO GRITO

Luís Fernando Veríssimo nos ensinou que só devemos gritar com quem está correndo risco de vida. Exemplo: “OLHA O TUBARÃO!”.

Aprendi a lição, tenho certo êxito no exercício desde então e hoje vou estende-la para “ou com quem está botando em risco a vida alheia”. Então como na linguagem das redes sociais caixa alta é grito, lá vai:

NÃO SAIAM DE CASA PARA NADA SUPÉRFLUO! É DESAGRADÁVEL, EU SEI, MAS TODA ESTA FREGUESIA MORA EM RESIDÊNCIAS CONFORTÁVEIS, COM WI-FI, TV A CABO, NETFLIX, QUIÇÁ BONS LIVROS. COMO UM AMIGO COMENTOU, COLOQUEM-SE NO LUGAR DE QUEM MORA NUM QUARTO E SALA COM DUAS CRIANÇAS, UM IDOSO E SEM AR-CONDICIONADO. PESARÁ MENOS.

AO QUE TUDO INDICA O NOVO CORONA VÍRUS CHEGOU AO BRASIL IMPORTADO DA ITÁLIA, NO ORGANISMO DE UM SENHOR QUE POR LÁ FOI APROVEITAR AS FÉRIAS. SE ESPALHOU NUM CASAMENTO GRANFINO NA BAHIA. E DEPOIS A BORDO DO AVIÃO PRESIDENCIAL ENTRE OS MEMBROS DA COMITIVA, GANHANDO BRASÍLIA. FOI A FASE DE TRANSMISSÃO INDIVIDUAL, QUANDO AINDA É POSSÍVEL ACOMPANHAR A CADEIA DE CONTAMINAÇÃO.

AGORA, PELO MENOS EM SÃO PAULO E NO RIO, JÁ ESTAMOS NA FASE DA TRANSMISSÃO CHAMADA COMUNITÁRIA, QUE É QUANDO SE PERDE O CONTROLE DOS CAMINHOS DA EPIDEMIA, ISTO É, ESTAMOS A UM PASSO DA PANDEMIA.

PARA AGRAVAR O QUADRO AMANHÃ É DIA ÚTIL, E APESAR DE DIVERSAS ENTIDADES E EMPRESAS PRUDENTEMENTE TEREM CANCELADO ATIVIDADES, HAVERÁ MAIOR CONTATO ENTRE AS PESSOAS, NOTADAMENTE OS MAIS ESTRATOS MENOS FAVORECIDOS, OBRIGADOS AO TRANSPORTE COLETIVO, DEPENDENTES DO SISTEMA PÚBLICO DE SAÚDE (que bem ou mal pelo menos existe), E QUE TÊM EMPREGOS OU FAZEM TRABALHOS QUE NÃO PODEM SER REALIZADOS DE FORMA REMOTA. GENTE QUE TRABALHA E MORA COM MUITO MAIS CONTATO PESSOAL. NÃO SE ENGANEM: VAI ESCALAR.

HAVERÁ DOR, SOFRIMENTO, MORTE. HAVERÁ QUEBRADEIRA TAMBÉM, ESPECIALMENTE DE PESSOAS FÍSICAS QUE TRABALHAM POR CONTA PRÓPRIA E NOS SETORES QUE JÁ FUNCIONAM COXOS DEPOIS DE CINCO ANOS DE RECESSÃO (2) E CRESCIMENTO PÍFIO (3). COM EFEITO, TEREMOS MAIS DESEMPREGO E, AO CONTRÁRIO DE QUANDO A FARIA LIMA VAI BEM MAS OS RESULTADOS NÃO CHEGAM AO DIA-A-DIA DAS PESSOAS COMUNS, O INVERSO NÃO É VERDADEIRO: QUANDO A ECONOMIA COLAPSA NO ANDAR DE BAIXO, O BARULHO, COMO SEMPRE, SOBE LOGO PARA O ANDAR DE CIMA, QUE JÁ PASSOU UMA SEMANA TERRÍVEL E TERÁ MAIS ALGUMAS. SENÃO MESES.

O QUE AS NAÇÕES MAIS AFETADAS ENSINAM É QUE A REAÇÃO VEM PELA MÁXIMA CLÁSSICA DA MEDICINA: ANTES PREVINIR DO QUE REMEDIAR.

O MINISTÉRIO DA SAÚDE MERECE PARABÉNS PELO ESFORÇO QUE VEM FAZENDO. TRABALHA COM INFORMAÇÃO SÉRIA, NEGOCIA COMPRA DE INSUMOS COM A CHINA QUE É A MAIOR PRODUTORA, TROCA EXPERIÊNCIAS COM OUTROS GOVERNOS.

JÁ O PRESIDENTE DA REPÚBLICA REMA EM SENTIDO OPOSTO. ANTE A POSSIBILIDADE QUE AINDA RESTA DE ESTAR INFECTADO, E A EVIDENTE DE PODER INFECTAR OU VIR A SER INFECTADO, COMPARECEU ÀS MANIFESTAÇÕES GOLPSTAS QUE CONVOCOU, DEPOIS DESCONVOCOU, E HOJE PELA MANHÃ INSUFLOU NAS REDES SOCIAIS. CUMPRIMENTOU APOIADORES, FEZ SELFIES, SAUDOU MANIFESTANTES QUE PEDIAM DITADURA.

O MINISTRO DA ECONOMIA, INVÉS DE TRABALHAR, FALA EM REFORMAS CONTRA O CORONAVÍRUS E SE METE ONDE NÃO É CHAMADO, COMO SEMPRE CHUTANDO SEM OLHAR PRA ONDE, DIZENDO QUE “COM 3, 4 OU 5 BILHÕES A GENTE ANIQUILA O CORONAVÍRUS”. É O CEBOLINHA DE SEMPRE, COM SEUS PLANOS INFALÍVEIS.

PARA NOSSA SORTE TEMOS ECONOMISTAS SÉRIOS QUE TRAVAM BOM DEBATE, TODOS DEFENDENDO RECURSOS EXTRA PARA MINIMIZAR O IMPACTO. LEIAM MÔNICA DE BOLLE, FELIPE SALTO, LAURA CARVALHO, ANDRÉ LARA RESENDE. SEJA COM REVISÃO DA PEC DO TETO OU ACIONAMENTO DE DISPOSITIVOS DESTA QUE PERMITEM INVESTIMENTO EXTRAORDIÁRIO, TODOS CONCORDAM NO DIAGNÓSTICO: PRECISAMOS BOTAR DINHEIRO PARA DIMINUIR O SOFRIMENTO DA POPULAÇÃO.

CIENTISTAS, TÃO ATACADOS PELA ONDA NEGACIONISTA QUE CONTESTA VACINAS, PESQUISAS E ATÉ SE A TERRA É REDONDA, ATACA A UNIVERSIDADE COM IMPROPÉRIOS E CORTE DE VERBAS, MERECEM MUITOS APLAUSOS. DESTAQUE PARA JAQUELINE GOES DE JESUS, ESTER SABINO, INGRA MORALES CLARO E EQUIPES DOS INSTITUTOS DE MEDICINA TROPICAL DA USP E ADOLFO LUTZ, QUE SEQUENCIARAM O GENOMA DO CORONAVÍRUS 48 HORAS DEPOIS DA CONFIRMAÇÃO DO PRIMEIRO CASO. RECORDE MUNDIAL.

NINGUÉM PRECISA ESTOCAR NADA. NO SUPERMERCADO, UM DIA NÃO TINHA FEIJÃO. DOIS DIAS DEPOIS, LÁ ESTAVA ELE. O ABASTECIMENTO ESTÁ FUNCIONANDO.

INDIVIDUALMENTE NÃO PODEMOS FAZER MUITA COISA ALÉM DE HIGINENE, RESTRINGIR AO MÁXIMO QUALQUER CONTATO SOCIAL E SE DISPOR A AJUDAR QUEM ESTIVER PRECISANDO. O SIGNIFICADO DISSO, COMENTOU UMA AMIGA QUERIDA QUE PROCURA O LADO BOM EM TODAS AS COISAS, É AMOR AO PRÓXIMO, RESPEITO AO COLETIVO, NOÇÃO DE URBANIDADE.

TEMOS UM PERÍODO GRAVÍSSIMO E INFELIZMENTE INEXORÁVEL PELA FRENTE. FAZER A NOSSA PARTE, PENSANDO NO TODO, É O MÍNIMO.

 
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Irresponsável, inconsequente

A irresponsabilidade do presidente da República parece ser um poço sem fundo. Mesmo com declarações das mais absurdas que permeiam sua vexatória biografia, Jair Bolsonaro ainda consegue nos surpreender dia sim, outro também.

Bolsas derretendo no mundo inteiro e especialmente no Brasil e onde está o mandatário? Colorindo uma tela em Miami. Ainda lá, ao falar com a imprensa e inclusive com veículos estrangeiros, sem mais nem por que questiona o resultado das eleições que venceu e afirma que tem provas que apresentará em breve.

Se você é um investidor estrangeiro e tem algum dinheiro no Brasil, toma conhecimento de uma declaração delirante dessas e não é louco a ponto de rasgar dinheiro, sua primeira providência será raspar o tacho por aqui e procurar um lugar com gente minimamente equilibrada no comando. É o que vem acontecendo, são dezenas de bilhões de dólares indo embora há meses. Vale para qualquer situação, já acontecia com a Bolsa batendo mais de cem mil pontos, e imagina com mercado em queda vertiginosa e dólar quebrando recordes históricos de alta.

Sobre a pandemia do coronavírus a irresponsabilidade segue uma toada que vai do institucional ao pessoal. No começo da semana Bolsonaro dizia que que o coronavírus não passa de uma “pequena crise”, uma “fantasia” plopalada (sic) pela imprensa.

Naquele mesmo momento a OMS decretava pandemia, parques, igrejas, torneios esportivos, entretenimento, universidades, a Itália inteira anunciavam suspensão de atividades. Fantasia…

Já em solo brasileiro, descobrimos que o secretário de imprensa Fabio Wajngarten testou positivo. Esteve ao lado de Bolsonaro durante toda a passagem pela Florida, jantou e tirou foto ao lado de Donald Trump, Mike Pence e voltou a bordo do avião presidencial.

A confirmação de um caso no seio da comitiva fez com que seus integrantes passassem a ser monitorados. A prudência mandaria recolhimento até o diagnóstico, mas a irresponsabilidade é como que uma tara para o presidente, que manteve agenda de reuniões presenciais com os ministros Paulo Guedes, Jorge Oliveira, Luiz Eduardo Ramos e o líder do governo no Senado Fernando Bezerra, que do palácio foram se reunir no Congresso com demais líderes para debater o plano de ação para conter a pandemia. Fico me perguntando como pode, considerando os postos que ocupam e faixa etária.

O presidente ainda fez a “live” de quinta-feira ao lado do ministro da Saúde e da interprete de LIBRAS, todos usando máscaras. E pior: em seu encontro matinal com apoiadores que se juntam num curral na porta do palácio, cumprimentou várias pessoas e chegou a pegar no colo uma criança.

A inconsequência bolsonariana é geral e irrestrita. Desrespeita a Presidência, o governo, o país e todos os brasileiros, seja no plano da Nação ou no particular, como ficou provado ao pegar no colo a criança.

Não tenho qualquer boa expectativa em relação a Bolsonaro. Mas também não consigo deixar de me espantar com a existência de alguém como ele, especialmente sentado na cadeira da Presidência da República.

 
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Já é autoritarismo

Cerne da crise entre Executivo e Legislativo e bandeira principal das manifestações “espontâneas” convocadas por Bolsonaro, o debate sobre o Orçamento impositivo evoluíra para uma saída intermediária, negociada entre o ministro da Secretaria de Governo e os líderes dos partidos no Congresso:  Congressistas manteriam os vetos do presidente da República e o governo enviaria projetos de lei para regulamentação do Orçamento impositivo.

Porém, sem mais, Bolsonaro resolveu chantagear o Congresso dizendo que os atos por ele convocados poderiam arrefecer caso os presidentes do Legislativo declarassem publicamente que são a favor de concentrar o poder sobre o Orçamento no Executivo.

Acordo desfeito, trabalho da Secretaria de Governo desperdiçado, e possibilidade de votação conjunta no Congresso para aprovação dos textos preparados pelos parlamentares ainda nesta terça-feira.

A verba em debate gira em torno de R$ 30 bilhões para distribuir ao longo de um ano. Parece muito. Ou parece pouco. Entre ontem e hoje o Banco Central ralou US$ 5 bilhões em reservas para conter a alta da moeda americana. Com o câmbio perto de cinco reais, é dinheiro equivalente a quase R$ 25 bilhões. Em dois dias. Haja poder concentrado em uma autarquia.

Jair Bolsonaro, que já foi defensor do Orçamento impositivo quando deputado, hoje é presidente da República e se sente autorizado a governar como bem entende sem reconhecer os demais poderes e as instituições. Sem respeitar decoro ou liturgia. Há quem veja nisto um flerte com o autoritarismo. Mas não é flerte. Chamar manifestações contra o Legislativo e o Judiciário, botar em xeque o resultado das eleições, atacar a imprensa dia sim outro também, já é autoritarismo.

Enquanto isso, temerariamente as autoridades atacadas tentam contemporizar para não criar alavanca para os tarados seguidores de Jair Messias que acreditam em qualquer patacoada. Pode parecer prudência, mas para mim é o inverso. Não podemos nos acostumar ao atual estado de coisas. É para isso que existe uma Constituição e Três Poderes.

Insisto: agora é consequência ou morte. E elas todas estão previstas no livrinho. Cumpra-se.

 
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Parabéns aos envolvidos

O dia é cinco de janeiro de 2019. O governo Bolsonaro contava quatro dias, portanto. E já era uma confusão danada. Marcos Cintra, funcionário de segundo escalão metido a estrela – que já caiu –, desmentia o presidente. O então ministro-chefe da Casa Civil – que também já caiu, para o lado, mas caiu – Onyx Lorenzoni também desmentia o chefe, que afinal estava mesmo desinformado sobre o IOF.

Antes do final do dia o próprio governo desmentiria o presidente sobre a proposta para a Previdência e as ações da Boeing despencavam 5% depois de uma fala confusa de Bolsonaro sobre o acordo com a Embraer.

Ainda tinha Cartucho, o filho zero dois, participando de reuniões de primeiro escalão como se membro do governo fosse, ministro da Defesa desmentindo o ChanCelerado que confirmara, em sintonia com o presidente, a intenção de uma base militar dos Estados Unidos em território brasileiro.

No meio do sufoco, a Presidência da República arranjou tempo para sancionar uma lei nacional para a erva-mate.

Perplexos, analistas contemporizavam dizendo que começo de governo é assim mesmo, que as coisas se ajeitariam com o tempo, e muita gente ainda dizia que a hora era de torcer (!).

Muito bem. Agora temos quinze meses de governo. E a balbúrdia governamental segue queimando um óleo descomunal. E pra completar temos duas crises internacionais, coronavirus e petróleo.

Ontem a Bolsa caiu 12% e o dólar chegou a cinco reais nas casas de câmbio. Cartucho publicou um vídeo atacando os liberais, talvez por sentir o cheiro da presa enfraquecida, isto é, PaGue e equipe econômica depois da apresentação do pibinho ridículo. Recém nomeada, Regina Duarte foi ironizada e desafiada nas redes de subordinado, levou puxão de orelha do ministro Ramos, teve nomeação desautorizada e apanhou do guru do presidente, Olavo de Carvalho, que também bateu em evangélicos, militares e outros grupos ligados ao bolsonarismo.

Enquanto isso, Bolsonaro, em Miami, coloria uma tela no ateliê do pintor Romero Brito. Ao final do dia, em entrevista, disse que o coronavirus que botou a Itália inteira em quarentena, está superdimensionado, que o Brasil está no caminho certo e, aliás, “já deu certo”.

Ainda em Miami, sem mais nem porquê, Bolsonaro emendou que venceu as eleições no primeiro turno e em breve apresentará provas. Quer dizer, se confirmada o anúncio, as eleições de 2018 estarão sob xeque, quiçá incluindo todos os parlamentares e governadores eleitos. É muito grave.

Como se não bastasse, o próprio Bolsonaro e seus aliados, agora com apoio do Clube Militar, seguem convocando a população para manifestações contra o Congresso marcadas para 15 de março. E não medem esforços para inflamar a turba. Mentem até sobre o acordo feito entre Executivo e Legislativo sobre a divisão do orçamento.

Olha… vocês estão de parabéns.

 
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Rir é medida de sobrevivência

Amanheci conservador nesta sexta-feira. Os sintomas começaram ontem, quando o sol apareceu para lembrar que é março, ou verão. E hoje um saudosismo tremendo da época da pureza e da ingenuidade.

Como era bom quando a gente duvidava dos filmes de cowboy. A munição da turma parecia eterna e ao cabo da fita a gente ficava cético, mas com vontade de coisas básicas, montar a cavalo, tomar banho num ribeirão, fazer fogueira e tragar uísque e cigarro forte. Só não estou ouvindo Ennio Morricone porque a Dua Lipa publicou clipe novo com estética dos anos 1980, que tá valendo.

Mas há indícios de que o vírus conservador em mim pode estar encubado há mais tempo. Talvez pela baixa imunidade provocada pelos excessos do carnaval, ou pela escassez de marchinhas tradicionais. Ou ainda pelo tuíte de uma mulher lembrando que nos anos 1990 a ciência anunciava clones (acho que vale garantir uma dúzia do Drauzio Varella), mandava robô para Marte, desvendava genoma, e agora são obrigados a vir a público pedir para a gente “tomar vacina, lavar o pinto e explicar que a Terra é redonda”.

Me lembro de quem voltava do Nordeste contando dos passeios de buggy nas dunas, quando o piloto perguntava “com ou sem emoção?”. Correr risco para se divertir era assim. Hoje deixam de tomar vacina talvez para pertencer a sabe-se lá o que. Num artigo publicado no Valor a Laura Greenhalg contou que “em 2015, os índices de vacinação de sarampo eram de 96%; baixaram para 57% em 2019. O mesmo vale para a poliomielite – 95% em 2015; 51% em 2019.”

Agora chegou o vírus corona e tem gente boa dizendo que não encontra informação confiável sobre como se proteger, em que pese o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que é médico e político, estar fazendo um trabalho prudente e seríssimo. Ou o Dr. Drauzio ter explicado na Folha a mesma coisa que o biólogo Fernando Reinach desenhou no Estadão. A gente boa está em sintonia, mas a praga do WhatsApp segue devastadora, ensinando que vinagre e mascara é o que resolve.

Me deu tanta saudade do meu avô Chico. Pneumologista e por anos dirigente dos Sanatorinhos em Campos do Jordão, Dr. Coutinho contribuiu muito para o controle da tuberculose no Brasil, que por sinal poderia estar erradicada se as pessoas seguissem regras básicas de educação, como tossir ou espirrar na parte interna do cotovelo, lavar as mãos e ficar em casa quando se está enfermo. Não por acaso, a mesma receita para combater o vírus corona.

Porém o que temos na sociedade contemporânea é uma epidemia de desinformação e esculhambação promovida por gente louca e/ou irresponsável, que vai ganhando audiência e eleições aqui e alhures.

Notadamente aqui o que acontece é um descalabro. O exemplo que vem de cima, isto é, das autoridades mais altas, já está causando e ainda causará prejuízo, dano e morte por anos.

A equipe do PaGue, ministro da Economia, diante do fiasco do PIBinho, ventila a teoria de que existe o PIB público e o privado. É a chamada mamadeira de piroca econômica. E o próprio ministro vai a FIESP sem conseguir concluir uma frase. O ministro da Justiça e Segurança, sobre motim policial, mais de 300 mortes, retroescavadeira e senador baleado, diz que não houve radicalismo. Seu afilhado e diretor da Força Nacional, que fora comandante justamente da polícia cearense nos últimos anos, chama policiais criminosos de heróis. O ministro da Educação contrata empresa acusada de corrupção em kits escolares, e para desviar do assunto acusa uma prefeitura de se apropriar de uma ação justamente em kits escolares, alegando que seria obra do ministério quando na verdade é exata e precisamente das prefeituras. E o presidente da República endossa.

É justamente Bolsonaro quem lidera a turba da confusão. Com tantos e tão urgentes problemas para resolvermos, usa o cargo para promover uma TV aliada colocando um “humorista” para responder sobre o PIB, ataca covardemente mais uma vez a jornalista Patrícia Campos Mello e faz ameaças explícitas a anunciantes do jornal onde ela trabalha, a Folha de S. Paulo.

Para não surtar diante da tragédia adotei comportamento igual ao do turista que foi às dunas, pediu “com emoção” e ficou de pé no banco traseiro do buggy segurando no Santo Antônio com uma mão só. Estou rindo dos farialimers que agora defendem intervenção estatal na alta do dólar, dos economistas ditos liberais que avalizam a privatização do PIB, do liberal Rodrigo Maia reconhecendo a importância do investimento público, dos reacionários cretinos que continuam dizendo que são conservadores e apoiando essa corja de malucos que assola o país.

É triste, é grave, é claro. Mas encarar como tragicomédia é medida de sobrevivência para mim.

 
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Só o carnaval salva

Amigo querido envia mensagem algo contrariado com a minha folia no carnaval. Disse que em particular não é possível na minha idade alguém gostar tanto, e que no geral é um absurdo a brincadeira se estender por tantos dias, como vem acontecendo há alguns anos em São Paulo e no Rio e sempre aconteceu em Salvador.

Conheço meu eleitorado e argumentei que é saudabilíssimo para a economia da cidade. Em vão. Mostrei dados oficiais: R$ 2,1 bilhões movimentados só em SP, mas ele não acreditou.

Também não acreditou que eu sempre brinquei o carnaval, desde os verdes anos no Iate Clube da Barra do Una, na adolescência desorganizando corso em Juquehy, outras vezes indo aos clubes de Itú, Vinhedo, Avaré, Rio Claro, ou mergulhando na lama em Paraty.

Fui Rio de Janeiro, incluindo feijoada na Casa da Dona Zica na Mangueira e desfile na Sapucaí obviamente pela Estação Primeira, fiz todos as noites no camarote Nº1 de noite e todos os dias do Bola Preta à Banda de Ipanema. E até incertas absolutamente antropológicas ao Baile do Vermelho e Preto e ao Sweet Home do Carlinhos Doce Lar.

Meu único arrependimento é nunca ter embarcado naquele Landau conversível da Globoceta, que tem apoio da Foderj e da Fundação Boquete Pinto.

Já adulto, de novo na Barra do Una, do meu falecido restaurante Mulata saiu por anos o Cordão da Toalhinha, com todo mundo só de toalha. O carro de som era um buggy BRM que um empresário de Bertioga, do ramo do entretenimento adulto, usava para propagandear a casa, e executava marchinhas tradicionais e também as nossas, compostas entre amigos – atualmente todas canceladas para evitar conflito.

E agora já velhinho estou brincando em São Paulo, o que é uma delícia. Ralei meu all star azul pelas ruas de Santa Cecília, Bixiga, Pompéia, Pinheiros, Vila Madalena, República, Triangulo. Festa linda.

Tudo em vão. O ranzinza não admitiu meu retumbante histórico de folião e tergiversou dizendo que nos dias oficiais vá lá, mas pré e pós não pode, não tem cabimento tal “novidade”. Mesmo sabendo da impermeabilidade, contei que há vinte anos eu saía na Pholia na Faria, ia ao baile do Palace e já cabulei expediente de trabalho algumas vezes para sair atrás da Piruada.

A coisa fantástica é que não adiantou nada. Mesmo quando afirmei que separaria fotografias e juntaria testemunhas, tive que ouvir que photoshop é moleza e que memória de bêbado não tem valor. E ainda: que carnaval de qualquer jeito é fantasia e que precisamos da realidade.

Para preservar a amizade não perguntei o que ele acha da terraplana, dos movimentos antivacina, anticiência, mamadeira de piroca, dos supostos êxitos do ministro PaGue/pibinho, da integridade do Moro, da honestidade do Bolsonaro, da chance das ideias de Damares funcionarem. Isso tudo vem matando gente e com a vida não dá para brincar.

Diante das novas  realidades individuais, só brincar o carnaval salva.

 
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Consequência ou morte

Não bastasse o potencial para a polêmica, algumas questões seguem travadas por perguntas mal feitas. Aborto, por exemplo. Ser contra ou a favor? Ora, ninguém pode ser a favor, aborto é uma coisa horrível, notadamente para a mãe que assim decide. A resposta talvez mudasse se a pergunta fosse: você é a favor de condenar uma mulher que já se decidiu por uma solução tão grave e triste? (Isso noves fora a hipocrisia de quem fez clandestinamente em clínica com piano de cauda mas em público condena a pobre desesperada que apelou para a agulha de tricô.)

O fim da polícia militar é outro exemplo. Parece que quem advoga a tese quer acabar com o policiamento ostensivo, quando na verdade a ideia é voltar a ser o que era antes da ditadura militar, a então chamada Força Pública, com hierarquia civil semelhante a das polícias Civil e Federal, ou das polícias estadunidenses, que dá maior poder de negociação das condições de trabalho a subordinados em relação aos superiores.

Enquanto o debate continua impedido por perguntas erradas, as feridas permanecem tapadas, porém com as infecções pululando. Tratar ferida é ardido, desagradável, mas a alternativa é a febre, que um dia se torna incontrolável, irreversível.

No caso das polícias o quadro atual é assustador. Em fevereiro de 2017 houve motim no Espírito Santo, controlado não sem dificuldade pela liderança do governador Paulo Hartung (sem partido). Posteriormente veio a ideia absurda de anistiar os amotinados, mesmo com 224 mortes contabilizadas durante a crise.

Naquele então um deputado federal postava vídeo nas redes sociais criticando o governo do Espírito Santo, elogiando aliados capixabas que apoiavam o motim e sugerindo que os levantes poderiam se alastrar pelo país. Seu nome é Jair Messias Bolsonaro (sem partido), atual presidente da República, que começou sua carreira política num enfrentamento com o Exército que incluiu processo por planejar atentado terrorista.

Neste fevereiro de 2020 o governador do Ceará Camilo Santana (PT) resistiu e resolveu o motim no estado sem ceder às chantagens por anistia ou qualquer outro pleito dos amotinados, que usurparam quartéis e viaturas, armados e encapuzados, aterrorizando a população. A contabilidade dos homicídios passa de trezentos casos. E a cena da coronelada do senador Cid Gomes avançando com uma retroescavadeira contra o motim e sento baleado rodou o país.

O que pouca gente sabe é que naquele dia o deputado estadual cearense André Fernandes (PSL), um dos apoiadores mais destacados do motim, almoçava no Palácio do Planalto com o presidente da República.

Diante do caos instalado e probabilidade de repetição em outros estados, o ministro da Justiça e Segurança Pública primeiro fez que não viu e, quando não mais pôde, visitou o Ceará e enviou a Força Nacional para ajudar na manutenção da ordem. Com a crise controlada pelo governo do estado, o ministro tentou faturar politicamente e, pior, com mensagem periclitante, considerando “sem radicalismo” uma crise que matou centenas e teve um senador baleado.

Foi a senha para autorizar seu afilhado de casamento e diretor da Força Nacional de Segurança Pública coronel Aginaldo de Oliveira, responsável pela operação federal no Ceará, a exaltar os amotinados como “gigantes” e “corajosos”. No palanque com os criminosos, o coronel disse: “Os senhores se agigantaram de uma forma que não tem tamanho. É o tamanho do Brasil que vocês representam”; “Vamos conseguir. Sem palavras para dizer o tamanho da coragem que vocês têm e estão tendo ao longo desses dias.”

O coronel Oliveira casou-se recentemente com a deputada federal bolsonarista Carla Zambeli e teve o casal Moro entre seus padrinhos.

Se não houver consequências para tamanhas irresponsabilidades, por mais ardidas e duras que sejam – e talvez já seja o caso de amputação – a ferida evidentemente vai piorar e chegaremos a um quadro irreversível, com suspensão da ordem, mais terror e mortes.

 
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Nojo, asco e guilhotinas

Uma característica em mim que eu gosto, cultivo e até me orgulho como quem se orgulha de um jardim bem cuidado é a de gostar de toda a gente. É sério, encontro traços de simpatia até nas figuras mais improváveis. Nem sempre consigo explicar ou ser compreendido. Mas para mim o importante é que eu gosto de ser assim porque me ajuda a viver e pensar.

Porém admito que “toda a gente” talvez seja muita gente. Há tipos que não consigo tolerar. E entre eles bajuladores e covardes se destacam.

Com os primeiros, dependendo da personalidade, de vez em quando até vejo alguma graça. Tem por aí puxa-saco profissional que chega a ser divertido, geralmente quando admite a cara-de-pau e performa sem pudor.

Já com os covardes, não consigo abrir exceção. Sinto nojo. Asco. É tão forte o sentimento que nas vezes que reagi agressivamente contra pessoas inofensivas senti nojo de mim mesmo. Quando aconteceu procurei pedir desculpas e tomo o máximo de cuidado para que nunca mais se repita.

Preambulo feito, escrever o nome do ministro Sergio Moro hoje para mim é algo de embrulhar o estomago. Principalmente porque um dia me deixei enganar por ele. Exemplo mais claro e relevante de bajulador e covarde no Brasil atual não há. Tipo asqueroso. Nojento.

O que o ministro da Justiça e da Segurança Pública fez em relação ao Ceará é algo imperdoável. Diante de policiais amotinados, encapuzados, que usaram viaturas para ameaçar a população e depredaram o patrimônio público, 200 assassinatos e um senador baleado numa coronelada, lavou as mãos enquanto pôde e agora tenta descaradamente faturar politicamente em cima do acordo que só saiu graças à coragem e firmeza do governador Camilo Santana.

Pior: parabenizou a todos, a todos!, sem distinção, pela solução da crise. Em outras palavras o ministro da Segurança Pública autoriza levantes semelhantes em todo o país, algo inadmissível a quem pela Constituição é dada a licença de uso da força.

Nojo é o que se pode sentir ante a covardia de Sérgio Moro. E asco pelo puxassaquismo diante do chefe, o presidente da República que começou sua carreira política com ameaça de motim e atentado terrorista.

E além de nojo e asco, convém sentir medo. Medo é coragem administrada. E Bolsonaro e Moro no poder constituem uma ameaça sem precedentes ao Brasil na nossa história recente. Gente baixa assim é capaz de qualquer coisa. E quando “qualquer coisa” é o exemplo que as autoridades mais altas do país transmitem, ninguém está seguro. Nem eles próprios, como a história prova. Mas bajuladores e covardes, apesar de disfarçarem bem pela esperteza, costumam ser burros, e não sabem que ninguém controla uma população que toma gosto pelas guilhotinas.

 

 
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Cabe um stop-and-frisk para carros caros

Pelas calçadas de São Paulo dá para sentir na pele, notadamente no arrepio dos joelhos apavorados com os para-choques. Mas escrever a respeito sem dados científicos seria quase tão arriscado quanto ser pedestre na nossa cidade.

Vou dizer e em seguida explico: é muito mais comum, impressionantemente mais comum, que uma pessoa dirigindo um desses jipes enormes e blindados solenemente ignore a presença dos pedestres no trânsito. Amiúde estão ao celular e sequer dão conta de que possa haver alguém a pé, e muito menos que esse alguém sempre terá preferencia.

Note: não é exclusividade. Entregadores e motoristas de aplicativos também fazem o diabo sobre os mais diversos veículos. Mas admito que tendo a lhes dar um desconto tentando imaginar a aflição que é a luta dessa turma pela sobrevivência.

Com ciclistas também são corriqueiras as ameaças. Acho admirável quem consegue adotar a bicicleta na cidade. Mas tem uma parte que parece se sentir moralmente superior e, portanto, merecedora de preferência em qualquer situação.

Porém minha impressão geral sempre foi a de que motoristas de supercarros são especialmente mais agressivos e/ou displicentes. E ai de quem reclama.

A novidade aqui é que a impressão agora tem base científica, ainda que não centrada em São Paulo. De Nevada a Helsinque, dois estudos afirmam que pessoas que dirigem carros caros tendem a ser desagradáveis no trânsito.

Da Universidade de Nevada, a equipe pesquisadora chegou a seguinte equação: a cada mil dólares a mais no preço do carro, diminui em 3% a chance dela parar para a travessia de um pedestre.

Da Universidade de Helsinque, com base em 1.892 entrevistas, o pesquisador Jan-Erik Lönqvist concluiu que “homens egocêntricos, teimosos, argumentativos e antipáticos” têm mais chance de desejarem um carro caro e tendem a violar regras de trânsito com mais frequência do que os demais.

Os dados são de uma matéria da CNN reproduzida no Brasil pelo canal F5, do UOL.

Antes que algum amigo venha me dizer que se lembra do que eu fiz no verão passado, admito várias dessas características em mim e agradeço a Providência que um dia me fez abandonar o automóvel. Das coisas de garoto do século 20 que eu quero superar, o gosto por dirigir está quitado. E agora tenho mais um motivo para recomendar o pedestrianismo como terapia aos meus contemporâneos.

E fica a pergunta sobre como os governos poderiam ajudar mais gente a superar esse frisson. Um palpite vem do acompanhamento das eleições primárias do partido Democrata nos Estados Unidos.

Fortemente atacado pela política stop-and-frisk, por toda a carga de discriminação étnica e social que esta carrega, o pré-candidato Michael Bloomberg também é reconhecido pelas melhoras no transporte durante seus mandatos como prefeito de Nova York, sendo sua então secretária Janette Sadik-Khan festejada em todo o mundo pelo trabalho realizado. E se a chamada capital do mundo é referencia para tantas outras grandes cidades, um stop-and-frisk para motoristas de carros caros, ora com base científica e não mero preconceito, parece boa política pública a ser adotada em todo canto.

Pena que não será para nós, brasileiros. Aqui o presidente da República é contra radares móveis nas estradas, dá mal exemplo pilotando motocicleta com habilitação suspensa e capacete desatado, o governador do maior estado e último prefeito eleito na maior cidade também já teve a CNH cassada e apareceu sem cinto de segurança algumas vezes. São estes os representantes da nossa sociedade.

 
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