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Correr sob a tempestade

O vento já tinha soprado: chuva. E eu, exausto às 15h00 daquela terça-feira, sigo sem saber se não entendi o recado ou se aceitei o convite.

No meu itinerário, de obrigatório, só passar no café Munik para acertar uma pendura. Aproveitei para tomar outro curto. Então deixei para trás a Zé Maria Lisboa e desci a Pamplona já me esquivando dos primeiros pingos – ou suingando a procura de mais gotas. Vai saber…

No Jardim Paulista horizontal a chuva já caía forte, embalada pelo vento. Os estalos no céu ecoavam espantando a cachorrada que costuma latir a quem passa. Exceto um labrador, que gosta mais de água do que dos próprios tímpanos.

Quando alcancei a Veneza, a rua já fazia jus ao nome, e o balanço das árvores, como que prometendo a criação de pontes instantâneas não era animador. Que fazer? Voltar ou seguir? Me deixei levar.

Na Manoel da Nóbrega o horizonte oferecido era um paredão de chumbo, que cindia a cada minuto com relâmpagos de ofuscar. No Deixa-Que-Eu-Empurro, esperando o verde, os carros que passavam pareciam mais assustados do que eu. Curiosa proteção que sufoca. Ou seria a liberdade que encoraja?

Encosta ao meu lado um ciclista, desses bastante equipados, inclusive com barba nômade, que talvez notando minha excitação, comenta: “Não é uma delícia correr sob a tempestade? Na Estrada dos Romeiros é maravilhoso. Se puder experimente.” Partiu.

Entrei no parque aparentemente vazio. Ondas no lago. Os jatos da fonte, como velas, se apagando subjugados pela força da natureza, que como vela inflava a lona de um vendedor de coco.

Pensei em me esticar na estação do Santander, mas definitivamente o aço não combina com descargas elétricas estourando no céu.

Igual a toda gente eu aprendi que ante a tempestade o caso é de se recolher. É o que os bichos fazem – noves fora o labrador e os cisnes negros. Uma eventual freguesa bióloga por favor me explique, se puder, por quê sob a chuva de vento as aves brancas se concentram em maioria às margens do lago, e as negras ficam brincando contra a correnteza.

Meu olhar intrigado para as aves devia ser igual ao das pessoas abrigadas para mim, que da marquise me olhavam como a um fugitivo do Pinel. Bem diferente eram os outros poucos corredores, que se sob o sol cruzam indiferentes os demais, sob chuva escancaram solidariedade. Os malucos se identificam.

Entendo quem foi ao parque aproveitar uma tarde de verão e preferiu o abrigo da marquise para não voltar ensopado. Mas não entendo a multidão que fez o mesmo nos banheiros, especialmente pela vastidão de cheiros que o toró proporciona. Para eles a expressão de incompreensão foi recíproca.

Ir à praia à noite, comer salada de tomate com cebola de manhã (obrigado, tia Maúcha!), pegar sessão da tarde no cinema em dia “útil”. E correr sob a tempestade. Recomendo.

Chuva é água benta.

 
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Michelle e Jair ao mar

Queiroz é a herança maldita que Bolsonaro deixou para o primeiro filho. Quando Flávio nasceu, Fabrício já era amigo de Jair. Puxadinho eleitoral do pai, o varão teve que guardar o esqueleto em seu gabinete na mal-assombrada Alerj.

Flávio não é o único puxadinho. Seus irmãos Carlos e Eduardo também são; assim como Rogéria, mãe dos três, foi um dia. E o mais recente chama-se Hélio Bolsonaro, ou Hélio Negão, deputado federal eleito que trabalha como sombra de Jair.

A diferença entre Flávio e a família é nítida. Dos que falam, ele é o único que parece razoável – e todo mundo sabe como alguém razoável incomoda gente ensandecida. Desenhando, é aquele amigo que no quebra-pau faz o deixa-disso, em contraponto aos que entram dando voadora. Talvez isso explique o isolamento de Flávio na família.

Para gente razoável é constrangedor ter explicar o inexplicável, donde se compreende que Flávio tenha fugido da audiência no MP-RJ marcada para ontem, quinta-feira dez de janeiro. Assim como Queiroz, preferiu ir ao SBT. Porém, quando abriram-se as Portas da Esperança…

Flávio pontuou que não tem como saber  o que seus funcionários fazem fora do gabinete, ao passo que Jair já afirmou que sim, sabia dos rolos do amigo Queiroz.

Flávio foi além, dizendo que a soma dos salários de Queiroz e família chega perto do total detectado pelo COAF. Ora, o salário de Nathalia Queiroz ela recebia do gabinete de Jair, enquanto dava expediente em academia de ginástica no Rio de Janeiro, e transferia tudo para a conta do pai, Queiroz, cujos cheques foram parar na conta de Michelle Bolsonaro.

Desenhando de novo, o que está nas entrelinhas de Flávio, ato falho ou não, é o seguinte: Queiroz trabalhava em seu gabinete, onde dava expediente e recebia salário. Se ele tinha uma filha laranja no gabinete do Jair, que transferia dinheiro para a conta da Michelle, problema deles.

Sendo deputado estadual e senador eleito, Flávio goza da prerrogativa de marcar data e local para falar ao MP. Sendo presidente da República, Jair tem prerrogativas ainda mais amplas, inclusive a de só responder pelo que fez durante o mandato. Resta saber o que protegerá a primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Lá em Minas Gerais a ex-primeira-dama Carolina Pimentel se viu enrolada na Justiça e seu marido, o ex-governador petista Fernando Pimentel, a fez secretaria de Estado para garantir foro privilegiado.

Michelle Bolsonaro talvez não tenha a mesma sorte. Se Jair topar abrir mais uma vaga na Esplanada para protege-la, ou mesmo substituir alguém – quiçá a famigerada Damares – além de piorar a situação política pode não resolver a jurídica, posto que entendimentos recentes restringem o foro privilegiado a atividades diretamente relacionadas ao cargo em exercício.

No navio dos Bolso, a fila na prancha está tão embolada quanto dentro do Planalto. Flávio deixou claro que não quer se molhar. Jair tem bom colete. E Michelle, sabe nadar?

 
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Gabrieéla, fala Gabriéla…

O processo contra Lula não é político – ou pelo menos não exclusivamente. Notadamente no caso do sítio em Atibaia, há provas para muito além do que o vulgar chama de batom na cueca para embasar a denúncia do MP.

Da adega aos pedalinhos, passando por e-mails e telefonemas, chegando a camisetas de futebol e remédios de manipulação com os nomes do ex-presidente e sua falecida senhora, é óbvio que os Lula da Silva usufruíam do lugar, comprovadamente reformado por empreiteiras enroladas no petrolão.

Sabendo disso, a defesa se sacode e concentra o argumento nos indícios de politização do caso, e a Lava Jato retribui:

1)   o então juiz Sérgio Moro levantou parte – e apenas a parte referente a Lula e Dilma – da delação de Antonio Palocci às vésperas da eleição;

2)   General Mourão disse que Moro esteve com PaGue tratando de sua ida para o ministério da Justiça no mesmo período, este que coincide com a publicação do relatório do COAF sobre o laranjal da família Bolsonaro, encontrado na operação Furna da Onça, desdobramento da Lava Jato.

O ministro Moro tem obrigação de esclarecer cada ponto, até porque se furtando de faze-lo, desgasta sua imagem, atrapalha o governo e… favorece Lula.

Nesse teatro não tem ninguém bobo. Mas Lula é politicamente muito mais esperto do que Bolsonaro e Moro somados, como prova o resultado da eleição: de uma cela em Curitiba, elegeu todos os governadores do Nordeste e o PT fez a maior bancada da Câmara Federal.

Antes que alguém apaixonado discorde, rogo para que olhe a evolução de Bolsonaro, que parece continuar em campanha, buscando manter e ampliar os dividendos eleitorais que o antagonizar com Lula proporciona. Ainda soma êxitos com seu eleitorado, mas deveria se lembrar que assim alimenta Lula.

O risco dessa conta apaixonada, principalmente para quem ama Bolsonaro porque odeia Lula, é que se o governo atual continuar derrapando como nunca antes na história deste país se viu numa largada, aumentam as chances de vitória futura do lulismo.

Sobre a parte técnica das alegações finais da defesa, ouvi um amigo advogado criminalista sobre o trecho que pede prescrição da possível pena, dada a idade do réu e dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

Ainda que a estratégia mais comum de defesa seja levantar a lebre da prescrição só depois da sentença em primeira instância, até porque a pena em concreto é a base para o cálculo temporal, o doutor crê que, dada a politização do caso, os advogados de Lula optaram por se antecipar.

Se, conforme alega a defesa, o marco do do crime denunciado pelo MPF for 2004, quando da nomeação de Renato Duque e Paulo Roberto Costa na Petrobrás, considerando a idade de Lula, o crime prescreveu. Por outra, se o entendimento for que os Lula da Silva terem usufruído das benesses é o crime em si, a data pode variar até anteontem. Resta agora a juíza Gabriela Hardt falar.

No geral, o que mais impressiona na atualidade é como as mulheres vêm sendo tratadas. Lula sapateou no caixão de Dona Mariza, alegando que, mesmo que ela soubesse do rolo, e contando os laços afetivos, não significa envolvimento dele. Pior: Emílio Odebrecht, um cavalheiro, sustenta a narrativa em sua delação.

Do lado antagonista, o inédito discurso de primeira-dama em posse, em qualquer língua, somado ao uso de uma camiseta com a frase da juíza Hardt, multiplicado pelo envolvimento direto com o caso Queiroz, joga D. Michelle na arena. Na mesma linha foi a mulher do juiz Moro, pedindo nas redes que os brasileiros “parem de reclamar” do governo.

Eu, que sou velhinho, recebo isso com pé atrás. O Poderoso Chefão já ensinava a distinção entre soldados e civis, entre quem vai para “os colchões” e quem fica protegido em casa – homens ou mulheres. Tempos modernos?

 
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O desjejum de Bolsonaro

O desjejum de Bolsonaro

 

Quando o então candidato Bolsonaro surgiu nas redes tomando o desjejum, tuitando, sem prato e com o célebre leite Moça direto da lata, naturalmente imaginamos que era uma peça de marketing do “homem comum”, o presidenciável igual a todo mundo, ou pelo menos a grande maioria assoberbada pelo relógio.

Exemplos não faltam. Matteo Salvini, o populista italiano, faz com Nutella. Mas a charla é antiga. Jânio Quadros em palanque sacava sanduíche de mortadela do bolso do paletó. George W. Bush foi eleito pescando num lago em seu rancho no Texas. Ao embarcar o peixe, exibia o troféu para a câmera e cumprimentava com o boné; então atirava o boné na água e botava o peixe na cabeça. Mensagem subliminar: Vote Bush, que é idiota como você.

O que surpreende no desjejum de Bolsonaro é a semelhança com o desjejum de seu governo. A esculhambação não teve limite, inclusive já escrevi aqui. E insisto que gostaria de esperar pelo menos três refeições a digestão e uma noite de sono. Mas ontem foi algo inimaginável até para alguém pessimista.

. Filhas do Queiroz não aparecem para depor no MP-RJ;
. Queiroz aparece internado no EINSTEIN e tem alta;
. Onyx usou 80 notas fiscais (varias em série) de firma de amigo para receber R$317mil da Câmara;
. Pastora Damares acusada de agressão física a balconista, que alega ter vídeo;
. Filho de Gal Mourão é promovido no BB e passará a ganhar quase R$35mil, fora a possibilidade de bônus de milhões por recisão dentro de dois anos;
. Rodrigo Maia acena reatar com PT e diz que “partido não pode ser suprimido”;
. Governo (orgulhoso?) usa TV pública para divulgar marca “governo Bolsonaro”, o que é ilegal;
. Reunião do presidente Bolsonaro com ministros termina sem coletiva de ministro-chefe da Casa Civil

Publiquei a lista acima no Facebook e minha amiga Cecília Serra compartilhou com a pergunta certeira: falta muito para terminar o expediente?

Faltava. Para diretoria do Inep, que coordena o Enem, foi nomeado Murilo Resende Ferreira, que defendeu a invasão do Congresso, escreveu que o papa Francisco é Maçom e que a Pepsi usa material abortivo em pesquisa.

Cá com meus botões imaginei que o PaGue poderia levar para o governo o Circuit Breaker, tipo de Imosec que o baronato do mercado usa quando dá piriri no baixo clero.

Pois vejam que antes do final do expediente ainda deu tempo para o ChanCelerado tirar o Brasil do Pacto Mundial para Imigração.

Anota aí, freguesa. Se a vida no Brasil vai piorar, sair daqui pode ficar pior. Notadamente para as patrícias, sempre confundidas com operárias do amor em qualquer posto alfandegário.

 
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Macarronada e coletes amarelos

Dois amigos queridos, Fabinho e Betinho, ambos falecidos, disputavam com doçura dotes culinários. Lá um belo dia Betinho convidou Fabinho para comer macarrão. Pasta à mesa, o convidado provou e aprovou com uma ressalva:

-       Olha, Betinho, ficou bom. Mas há um conflito geopolítico na receita.

O molho à base de tomates continha carne de boi moída, linguiça calabresa e champignons.

-       O bolonhês da carne moída odeia o calabrês da linguiça. A única chance de ambos se unirem é para matar o francês dos champignons, concluiu Fabinho.

Obviamente o inverso é verdadeiro, porque vale para todo mundo. Isto é, você quebra o pau em casa, mas se o vizinho mete a colher, é trégua e pau nele.

Hoje soubemos que os populistas italianos se manifestaram a favor dos coletes amarelos na França. Luigi di Maio, líder do Movimento 5 Estrelas e vice-primeiro-ministro puxou o cordão e foi seguido por Matteo Salvini, prócer da Liga, partido da extrema-direita.

Paris reagiu. A ministra de Assuntos Europeus Nathalie Loiseau tuitou “A França tem cuidado para não dar lições à Itália. Salvini e Di Maio deveriam limpar a casa antes de falar”, e foi endossada pelo primeiro-ministro Édouard Phillipe numa entrevista na TV.

Palpite: lembrando das lições do saudoso Fabinho, os populistas italianos deram uma baita força ao presidente Emmanuel Macron.

PS: nas redes sociais postei esta crônica com a imagem de um espaguete à bolonhesa enfeitado com folhas de manjericão. Há alguns anos fui jurado do Paladar Estadão na blitz da lasanha. Em uma das visitas pela cidade fui a um restaurante acompanhado de um amigo italiano, também jurado. O chefe apresentou uma lasanha com um ramo de manjericão por enfeite, separado do molho. Mesmo assim o italiano ficou irado: – Em Bolonha nunca nasceu pé de manjericão!

 
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Steve Jobs e Zé Cabaré

No saudoso bar São Pedro São Paulo conheci o José Egreja. Baita figura. Usineiro e fazendeiro de cana, família de mecenas das artes, formado em arquitetura, compositor refinado e boêmio dedicado – característica que lhe rendeu o apelido de Zé Cabaré. Foi deputado constituinte, exerceu outros mandatos e, de perfil e relações aristocráticas, teve atuação progressista.

Por pouco não ficou bilionário. No auge do etanol, recebeu oferta de R$ 900 milhões por suas usinas. Com aquele jeito simples de quem não precisa de mais nada, comentava: sei lá que número é esse; vou esperar arredondarem em um bilhão. Mas daí veio o pré-sal, o tesão do mercado mudou de lugar e o resto a gente sabe.

Outra paixão do Zé Cabaré eram os cavalos, se não me engano os árabes, que têm aquela cara delgada. Admirador da beleza, Zé não gostava dos cabrestos de couro ou náilon, que cobriam mais do que ele gostaria na cabeça do animal. Arranjou a solução: desenhou um cabresto em fio de aço galvanizado, quase imperceptível. Vendeu diversos e, entusiasmado, brincava dizendo: agora sim tenho um bom negócio.

Problema: o cabresto é tão bem feito que não estraga. Dura muito mais do que os cavalos e seus donos.

Lembrei dos cabrestos do Zé Cabaré lendo os articulistas mundo afora, apurados com o destino da Apple. Como já falaram bastante, a companhia perdeu 75 bilhões de dólares em valor de mercado. Ricardo Amorim desenhou no Manhattan Connection: é como se o Bradesco desaparecesse.

No New York Times o Kevin Roose admitiu que a culpa é da mãe dele, uma senhora aposentada que vive em Ohio, applemaníaca de carteirinha que hoje tem um iPhone 6, um Apple Watch da primeira geração e um MacBook que se fosse gente já teria bisnetos. Está satisfeita e não pensa em up-grade para nenhum deles.

Kevin acredita que antes do que a China, o problema da Apple, assim como o dos cabrestos do Zé Cabaré, está na qualidade dos produtos. Isto é:  Mrs. Roose adora a Apple mas, se seus aparelhos estão funcionando, não há necessidade de substituição.

Eu trocaria meu iPhone 5 por um 7, mas ainda não apareceu promoção que justifique. Meu terceiro MacBook entrou no sétimo ano e vai muito bem, obrigado. (Na verdade a tecla i – casa de ferreiro, espeto de pau – soltou há alguns anos, mas funciona mesmo assim e eu tomo cuidado para não perder quando em trânsito.) Meu iPod já é do pequeno mas ainda com a rosquinha revolucionária e guarda meus discos prediletos. Outro dia levei na escola e a molecada que têm vinte anos de idade e só usa Spotfy não sabia o que era, tampouco para que serviria a rosquinha.

Toda essa tralha, principalmente o computador e o telefone, já vieram com muito mais recursos do que eu gostaria. E inclusive reclamei na compra por algo ainda mais simples. No caso do telefone, demorei para aderir e creio que cheguei ao 5 porque os demais sofreram perda total em acidentes variados. Agora, com adoção da lente de proteção para tela e capinha de silicone, está praticamente blindado.

Desse mercado de serviços e acessórios eu gostaria de saber os números. Meu palpite é que a China avança mais por aí. Os balcões que oferecem uns e outros são onipresentes em São Paulo, e tanto uns quanto outros costumam ser chineses, com algumas variações, sempre orientais, como o mais famoso deles, o Rei do iPhone da Santa Ifigênia, nascido no Líbano.

De qualquer maneira, torço pelo modelo Apple. Gosto de coisas que duram. Uso orgulhoso um paletó que foi do meu pai e que conta uns trinta anos. (Segredo: nunca foi lavado.)

Bem das pernas a empresa continua. Ainda segundo o Ricardo Amorim, só em dinheiro líquido espalhado pelo mundo os discípulos do Steve Jobs têm o equivalente a Bradesco, Itaú, Banco do Brasil, Petrobrás e Vale do Rio Doce somados.

 
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Sobre pregos e bombas ou chimarrão para Bolsonaro

Juro por Deus que minha vontade era esperar os tais cem dias para falar qualquer coisa sobre o governo Bolsonaro. Quero morar na Barra da Tijuca se estiver mentindo. Mas até Ele há de convir que nunca antes na história de qualquer país se viu decolagem tão desastrada.

Quatro míseros dias bastaram para um festival de desencontros do governo empossado capaz de superar a semana seguinte dos congressistas eleitos em nome da renovação. Não que estes tenham parado de tumultuar – até muito ao contrário. Mas nada na história supera o governo Bolsonaro.

O auge, sem dúvida, foi ver funcionário de segundo escalão desmentindo o presidente da República. Em público. Caso do secretario especial da Receita Marcos Cintra, que sequer esquentou o assento. Marina Silva, segundo o Painel da Folha, meteu uma piada boa: o presidente foi desmentido pelo frentista do Posto Ipiranga.

Para não ficar tão chato antes do final do dia o ministro-chefe da Casa Civil tratou de também desmentir o chefe. Menos mal para a hierarquia. Oníx, além de primeiro escalão, é palaciano.

Mas ainda tivemos o governo desmentindo o Presidente sobre a proposta para a Previdência e entrevista louca do próprio Presidente sobre o acordo da Boeing com a Embraer, que fez as ações da empresa despencarem 5%. Nem vou entrar no mérito, que é para não piorar: tendo a concordar com Bolsonaro, que por sua vez discorda do que disse há um mês. Tá confuso demais.

Para além disso, Damares fora, vimos o filho zerodois participando de reunião de ministério como se fosse o bebê John-John sob a escrivaninha do Kennedy no Salão Oval, ministro da Educação nomeando para cuidar do ENEM um tipo que acusa professores de incentivar a pedofilia (!), ministério da Defesa desmentindo o “Chancelerado” das Relações Exteriores sobre a confirmação de que os Estados Unidos podem sim vir a instalar base militar no Brasil (hipótese levantada pelo próprio presidente Bolsonaro).

Impossível fazer qualquer comentário. Mas como a vontade de ajudar é mais forte do que eu, pego carona com o Presidente, que ainda ontem arranjou tempo para sancionar uma lei nacional sobre a erva-mate (governar é estabelecer prioridades)., para deixar um palpite.

A receita gaúcha para o chimarrão (Oníx deve confirmar) é a seguinte: depois de ajeitar a bomba, a erva-mate e a água na cuia, coloca-se um prego (grande) por decoração. Se alguém perguntar “pra que o prego?”, você responde “se quiser mexer, mexa no prego, mas não mexa na bomba”.

 
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Desencana, Damares

Se todo mundo tem um tio meio Bolsonaro, me arrisco a dizer que as tias Damares costumam ser mais frequentes. É a típica “senhora de família” que vive antes preocupada com a vida alheia do que com a própria.

A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos foi à Globo News contar a que veio. O cenário, que lembrava uma sala de visitas, poderia ter ajudado no clima, mas talvez tenha atrapalhado. Era o retrato fiel da tia intrometida que chega ao almoço de domingo e, candidamente, passa a operar contra a harmonia. A esquete é manjada: falando em nome do “bem”, ataca a todos genericamente.

Além de não saber explicar a razão de ser do quinhão “Família” do ministério, ponto vago desde o discurso de posse, quando tentou dar um exemplo de como a pasta poderia funcionar, piorou tudo. Disse que o jovem brasileiro sulista que passa no ENEM e entra numa faculdade de medicina no Norte, acaba sofrendo com a distância dos pais, e que seu trabalho seria criar alternativas.

A turma ainda tentou um contraponto, explicando que é parte importante do desenvolvimento pessoal, realização de um sonho, comum no mundo inteiro. Em vão. Para ela o bom é ficar debaixo da asa da família e que no exterior “papai tem dinheiro para visitar o filinho”. Qualquer semelhança com a BolsoFamília não deve ser mera coincidência.

Porém, sendo que tais figuras é o que temos para hoje, convém dar uma força.

Ministra Damares, já que foram extintos os ministérios das Cidades e do Trabalho,

aproveite os técnicos ora desocupados e peça dados sobre o convívio diário entre pais e filhos nas cidades. Você verá que, descontadas as horas trabalhando, em deslocamento e dormindo, mal sobra tempo para que a família trate de alimentação, educação, lazer.

Desencana do jovem que passou em medicina. Ele está bem e talvez você precise mais dele do que o inverso.

Desencana também se as crianças serão chamadas de príncipe ou princesa. No Brasil profundo, se alguém encontrar motivo para tratar os filhos assim, provavelmente é porque confundiu os nomes da prole.

Na Inglaterra ainda há príncipe e princesa, que costumam estudar nas escolas da igreja Anglicana, de denominação cristã como a sua, e cuja chefe é a rainha. Sabe o que eles decidiram? Que a infância é sagrada e os sonhos das crianças não podem ter qualquer interferência. Isto é, se menino quiser brincar de princesa e menina de príncipe, tá ok.

Temos problemas reais, ministra. Meninas e meninos crescendo e se multiplicando num manguezal de DSTs por falta de qualquer orientação. É improvável que vesti-los de rosa ou azul possa alterar o quadro.

 
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Aviso

Em consideração à freguesia, esta página pretende descansar um pouco. Prometo trégua até pelo menos a semana do dia 14/01. Mas não garanto. 

 
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Os recordes de Temer e Bolsonaro

Entusiastas dirão que Temer conseguiu evitar a abertura do alçapão no fundo do poço – já não falta quem o diga, aliás. Em contraponto, críticos vão dizer que o instinto de sobrevivência das nações impera depois de depressões econômicas.

Deixemos a tarefa da síntese para os historiadores. Ante o hercúleo trabalho que terão narrando o período atual, dois anos e meio não é o que vai onerar a faina.

Cientificamente o que temos para hoje é a impopularidade recorde, emparelhada com a margem de erro de qualquer pesquisa. Só 5% aprovam Temer. Reconhecida a tempo pelo próprio governo, a rejeição ajudou o Presidento a governar. Vista sob qualquer viés, a lição que fica é a de que tudo na vida, “exata e precisamente” tudo, tem seu lado bom.

Temer assumiu com um norte bem definido e bem combinado com o stablishment. Batizada de Ponte para o Futuro, a prioridade era salvar a política externa, a Petrobrás, o BNDES e as finanças, entregues respectivamente a José Serra, Pedro Parente, Maria Silvia Bastos Marques, Henrique Meirelles (Fazenda) e Ilan Goldfajn (BC). Só os dois últimos sobreviveram pessoalmente. Ainda assim o norte foi mantido, com substituições escaladas no banco de reservas do mesmo stablishment.

No Congresso o essencial do trato estabelecido era passar as reformas do Trabalho e da Previdência. Os responsáveis pela interface foram Eliseu Padilha, Moreira Franco e Carlos Marun. A primeira passou. A segunda morreu enterrada no porão do Jaburu, com o próprio Michel Temer estrelando um podcast produzido por Joesley Batista e a PGR. A partir dele, todos o esforços para salvar o organismo governamental se voltaram para “manter isso”, ou seja, o governo.

Aqui não importa se a gente acha que foi ponte, pinguela ou se demos com os burros n’água. Tampouco se a bússola estava bem calibrada. Importante é que havia um norte claro para quem estava na ponte de comando e que esse pessoal entende de política e de governo – noves fora o erro crasso (político) de criar o teto de gastos antes de votar as reformas.

E a partir de amanhã, o que podemos esperar do governo Bolsonaro? Não há norte claro sequer para a Economia, praticamente ninguém tem experiência política ou de administração pública, das cinco estrelas do governo quatro já estão carimbadas por denúncias, as contas seguem estouradas, a base parlamentar é inexperiente, movediça e escandalosa, e os estados e as cidades, responsáveis pelos serviços que afetam o dia-a-dia das pessoas, estão em maioria quebrados.

Tudo isso sem contar uma oposição experiente, raivosa e que promete ser implacável, além do inexorável imponderável (greves, crises externas etc), inflacionado pela quantidade de malucos no entorno do presidente que não perdem uma chance de ficar calados, a começar pela parte eleita da prole, cujo único que pode ser considerado razoável, Flávio, é justamente o mais implicado na praga do amarelinho que abateu o laranjal do presidente eleito.

Cientificamente, a expectativa positiva da população coloca um peso extra nas costas de Bolsonaro. Segundo o DataFolha, em agosto deste ano 23% dos brasileiros estavam otimistas com a melhora na Economia já para os primeiros meses do governo que assumirá amanhã. Agora no final de dezembro eram 65%, recorde na série histórica que começou em 1997.

Como a gente sabe, satisfação é = realidade – expectativa. Isto é, quanto mais se espera, maior a chance de ficar insatisfeito. Resumindo, o recorde que ajudou Temer a governar é o mesmo que pode atrapalhar Bolsonaro, provando que se tudo na vida tem um lado bom, o inverso é verdadeiro, e também tem o lado ruim.

 
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