Facebook YouTube Contato

Debaixo de vara e com pijamas molhados

Generais de pijamas toparam servir ao capitão expulso no Palácio do Planalto. Agora estão apavorados e provavelmente arrependidos.

Com justiça, muito se elogiou recentemente a boa formação dos quadros das Forças Armadas. Tem gente boa em todas elas. Porém os melhores que estiveram no governo federal foram saídos pelo capitão terrorista.

Cena interessante: sendo bons como são alguns, por quê não foram absorvidos pela iniciativa privada? A resposta é simples: os realmente bons, por princípio. Outros, nem tanto, porque nem tanto – ainda que por conveniência tantos conselhos tenham os requisitado desde a posse do governo atual. Iniciativa, né, minha filha? Privada.

Agora, pela decisão do decano do Supremo, que mandou a Justiça ouvir cada um deles sobre a denúncia do ex-ministro Moro, com previsão de condução coercitiva em caso de falta injustificada, até “debaixo de vara”, estão amuados.

Pois que fiquem. Assim é na vida civil que eles escolheram. Sabiam o que estavam fazendo quando aceitaram jantar com o capitão. Sabem o que viram e ouviram. Têm que responder, como todo cidadão.

Se o pijama está molhado, general, problema seu. Você que se enxugue. Ouço agora, às oito da manhã, o clarim do Ibirapuera. Saudades, minha filha?

Hoje vocês têm medo das tropas insubordinadas e das milícias criadas dentro do governo ao qual servem. Que beleza de movimento. Belos estrategistas. Castello Branco mandaria todos vocês prum rincão qualquer, onde a única tarefa seria engraxar coturno.

Os coleguinhas civis de Esplanada estão na mesma. Se não pela decisão do STF, pelo aparelhamento dos escalões inferiores determinado pela turma do Centrão. O Boy (Valdemar da Costa Neto) vai se vingar do Tarcísio de Freitas por não ter feito o que sempre fez no Dinit e assim por diante. Força na peruca, general. Geral.

Finda tanta dor, quando isso passar, porque há de passar, vocês terão que responder. E quiçá será um mundo novo, pós pandemia, onde anistia não teremos. Teremos consequências.

Se segura, minha filha. Bota o pijama no vinagre, mijão. Se não for agora, este país voltará a ser uma República. E você terá que responder. Se debaixo de vara é uma escolha. Faça a sua.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Memória de Bragança

Outro dia escrevi lembrando da infância em Juquehy e citava o tio Edgard de Queiroz Ferreira. Baita figura. Desde pequeno sou fã dele. Uma das brincadeiras em casa, dia de chuva, era brincar de tio Edgard.

Tudo muito simples. Para imitá-lo só precisava de um bigode de rolha queimada, sunga, camiseta branca e havaianas. Então eu dispunha os sofás em forma de lancha e pegava o timão decorativo na parede para navegar. E imaginava a companhia de uma namorada bonita, que ele também sempre teve.

Se não me engano a lancha era uma Cabrasmar 19, casco clássico, muito feliz. Chamava Veroca, também salvo engano. Depois foi para uma Chris-Craft preta e vermelha chamada Rata. Ninguém tinha barco nessas cores.

Me lembro do dia em que a gente estava puxando o Edgard Neto no esqui. Famoso Degas, gostava de slalom a 23 milhas por hora. Eu gostava de ficar a bordo, com castanhas de caju, tremoço etc. Tio Edgard um dia se viu sem copo e bebeu na lata de castanhas. Que vida boa.

As filhas dele são Bibi e Vevé. Duas mulheres lindas, de personalidade fortes, seguras de si  e, com efeito, suaves, amabilíssimas.

Os apelidos do tio Edgard são Espingarda, pelo físico, ou Bobaginha, este herdado do pai, Edgard Bobagem, porque falava muita coisa proibida, e curiosamente era casado com D. Elaí, uma das mulheres mais refinadas que já conheci. Curioso: tia Vera, irmã do tio Edgard, refinada igual a mãe, casou-se com tio Zé Roberto de Ferreira Martins, também dado a falar e fazer bobagens de rolar de rir.

Ontem o tio Edgard apareceu no Facebook. Nascido em 1944, entrou agora para as redes. E postou um retrato na frente da sede da fazenda em Bragança ao lado da Elisa, sua namorada.

Quanta lembrança! Bragança é a terra da minha família materna. Meu tataravô Capitão Vieira era cafeicultor por lá. Depois foram para Santos, onde o café é comercializado.

A fazenda do tio Edgard também era de café. Uma delícia acompanhar os grãos chegando pela vala ao terreiro para a secagem. Andar a cavalo no cafezal também era delicioso. Tinha um cavalo mais querido que todos chamado Turdilho. Tinha um outro, esperto, que estufava a barriga no encilhamento. E quando a gente ia montar ele recolhia, fazendo a sela girar.

Do terreiro de café eu subia para a sede, passando antes de limpar a botina na garagem que guarda o jeep Willys azul e o Galaxão velho. O jipe era usado. Íamos ver como estavam os eucaliptos, e o tio Edgard explicava como se apaga incêndio em floresta com fogo de encontro.

Fogo, muito fogo. Nos churrascos, ele brincava comigo que eu era o “rei da carne crua”. Desde pequeno sou dos mal passados. Nas noites de frio havia lareira. E num dia de raclete tivemos que reabastecer o réchaud, que explodiu na minha cara. Sei lá como dei um pulo para trás do sofá e fiquei só com as sobrancelhas chamuscadas.

Século 20, né? De fogo também havia umas tardes onde os homens iam para um barranco testar armas de fogo. Os adultos disparavam e depois os mais novos iam com facas e canivete procurar o chumbo no barranco.

A delícia das mesas começava no café da manhã. O cheiro do leite fresco e quente me deixava louco. Ficava disposto na mesa comprida na ponta oposta a de onde a gente se sentava. E eu ficava lá, perto do cheiro e longe de todos.

E o caminho para os quartos era um corredor fresco, todo de lajotas, gostoso de estar nas tardes quentes. Antes de subir para o sono, o bom era passar para uma colher do brigadeiro que sempre tinha no aparador.

E canja! A canja era um espetáculo. Os cachorros, quando não queriam comer, ganhavam uma concha sobre a ração e matavam a vasilha. E eu me esbaldava. Aprendi a botar ervas frescas sobre a sopa fumegante com o tio Edgard. Hortelã era a predileta dele.

Tem um retrato meu saindo da piscina em Bragança ainda bebê, completamente pelado. Só não compartilho porque a foto não fala bem de mim.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Se somos ordinários, melhor saber logo

Anteontem foi mais um domingo no país do Bolsonaro, que amanheceu na segunda-feira com popularidade em baixa e rejeição em alta, aferidas por dois institutos de pesquisa. Porém não se anime você, democrata, porque dentro das margens de erro ele mantém entre um terço e um quarto de ótimo e bom.

Pesquisas são sempre bem-vindas. Mas o que se lê nos gráficos pôde ser visto nas ruas, nas redes e nos jornais. O comportamento de parte expressiva da população repete o do presidente da República. Isto é, se preocupa com o seu curral e só com o seu curral, num misto atroz de indiferença e irresponsabilidade com a vida.

Na véspera do feriado do Primeiro de Maio, Dia do Trabalho, com desemprego em alta e clara tendência de agravamento no mundo inteiro –  que tanto pior será quanto durar o controle da doença , vimos estradas para o interior ou litoral congestionadas por carreatas fúnebres.

A semeadura da morte será colhida nessas localidades dentro de quinze dias. Pobres frentistas, caixas de pedágio, mercado, padaria e outros que tiveram que olhar nos olhos dos mensageiros da morte e ainda dizer “obrigado, volte sempre”, e então levar o corona para casa, para os seus.

Saí no sábado depois de muitos dias sem pisar nas calçadas que adoro. Vi a padaria e o boteco servindo cerveja e com gente aglomerada. Atordoado e muito aborrecido, resolvi minha necessidade e voltei correndo.

Domingo: moro entre a Av. Paulista e o Ginásio do Ibirapuera. A primeira é acesso de vários hospitais e foi fechada nos dois sentidos, e o segundo ora é hospital de campanha. E o barulho das carreatas da morte, incentivadas pelo presidente de República, durou o dia inteiro.

Em Brasília, na rampa do Palácio do Planalto, algumas centenas de pessoas em fim de carreata se aglomeravam em festa para saudar seu Messias numa farra ensandecida.

No dia da Liberdade de Imprensa, jornalistas foram agredidos. Nas ruas, física e moralmente. Orlando Brito e Giba Sampaio. E nas redes, são agredidos e ameaçados dia sim, outro também. Assim como prefeitos, governadores, cientistas e, mais recentemente, até policiais e enfermeiros.

Coloquei a carreata toda num engarrafamento só de propósito, porque me parece ser o mesmo grupo. São os cafonas, reacionários, indiferentes que se sentem representados pelo cafona, reacionário, indiferente mor.

A diferença entre eles está entre o matar e morrer. Os que vão às praias e botequins são indiferentes em relação aos demais, tanto fez como tanto faz, exatamente como faz o presidente, até em relação à própria filha, criança sordidamente exposta, junto com outras duas ou três. Se matarem, e daí? Não são coveiros, enfermeiros, “quer que eu faça o quê?”.

Os que se juntam em protestos, ao que tudo indica, mais do que dispostos a matar, estão dispostos a morrer pelo Messias. Não são muitos, mas são violentos. Não há instituição no Brasil que não os tema hoje.

O Judiciário os teme. O Legislativo, idem. Prefeitos e governadores também. Todos receiam decretar lockdown para evitar o prolongamento e agravamento da dor. Temem o estouro dessa boiada que está disposta a ir para rua matar ou morrer.

E inclusive as Forças Armadas os temem. Reconhecem entre eles milicianos ou insurgentes presentes nas polícias e nas próprias bases. Todos os casos recentes de levante policial nos estados têm alguma relação com o bolsonarismo. E contra milícias e polícia insubordinada não há exército eficaz. Nenhum. Nem se houver comando.

Este é o cenário atual. Há milícia na cara de todos e agora descaradamente sendo organizada por integrantes do ministérios da Damares. O presidente da República incita a desordem porque lhe interessa. É seu habitat natural. Sob ordem e civilidade nunca conseguiu nada. Sabe disso e nesse sentido e só assim trabalha.

Da minha parte, estou disposto a pagar pra ver. Antes que todo o mais seja ordinário como os domingos no país do Bolsonaro. Se a derrota da República já é irreversível, que saibamos o quanto antes.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Não quero mais nada

Minha infância teve muito de Juquehy. Era um acesso difícil, só quem gostava muito de praia vazia topava.

Para um fim de semana a gente enfrentava uma ou duas balsas, estudava a tábua das marés pela ausência de estrada, levava de SP grande parte do que se comia.

A proteína de lá e era uma delícia. Mariscos, peixe, camarão. O mais era especial do fim de semana, frios, pão italiano, todos comprados por meu pai entre a tarde e a noite de sexta-feira.

Ia ele com seu Opala, ou já com a Veraneio, que foi o melhor SUV de todos os tempos, à padaria Nova Charmosa comprar frios. Voltava com o ambiente perfumado de algo que só vim a saber o que era mais tarde, mas que ajudava a gente pegar no sono.

Na praia era uma delícia. Quase exclusividade. Havia uma tolerância, quase festa cívica pela liberdade. Uma dupla caipira andava nua à beira do mar e ninguém ligava.

A casa vivia de portas abertas. Mesmo quando a gente não estava. E os roubos eram obviamente desagradáveis, mas naturais. Sabia-se quem roubava e por quê.

Das poucas casas forasteiras que havia, das mais divertidas era a do tio Edgard de Queiroz Ferreira. Uma edícula compartilhada com uma família de caseiros e a geladeira repleta de vodca e suco de tomate, com autorização para consumo logo após ou mesmo durante o café da manhã. Infelizmente restrita aos adultos que, estranhamente, às vezes recusavam.

Os meninos de lá eram invejáveis. Sabiam de tudo que importava: andar nas pedras, escolher ostras e mariscos, pegar lagosta com as mãos, andar no mato, catar galhos de guapuruvu para artesanato, bambu para as traves do futebol, costurar rede de pesca, se equilibrar em canoa, manejar facão, transplantar orquídea para as namoradas.

As meninas, algo onírico. Menos acessíveis pela cultura que as invadia, mantinham um sorriso amigo, a pele da cor do bronze, os sovacos, coxas e canelas com pelugens louras, diáfanas e perfumadíssimos, muitos causos das avós na cabeça, pés assustados, em cunha.

Era coisa boa, conflito interessante, educativo. Mas não aprendemos nada. Ainda tem disso por aí. É raro, mas se encontra, ainda que cada vez mais caro, porque fizemos assim, sabe-se lá por quê.

Se eu pudesse sair de casa hoje sem risco, corria para abraçar e aprender sobre a vida com os caiçaras. Só lavava uma sunga, duas camisetas e um par das legítimas. E Blood Mary para o café.

Mais nada. Não quero mais nada.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Féretro aéreo

Associação representante de 300 companhias aéreas no mundo, a IATA disse à repórter Cibelle Bouças, do Valor Econômico, que a Argentina tem o pior cenário para a retomada.

Peter Cerdá, VP da IATA para as américas, criticou as restrições mais duras do governo argentino que, aliado ao lockdown nas cidades, fechou fronteiras, suspendeu voos e proibiu venda de bilhetes mesmo se datados para além da data reabertura projetada.

Em 17 de março, a Argentina contava dois óbitos por covid-19, e o Brasil, um. Em 25 de abril, na Argentina eram 185 óbitos e, no Brasil, 4.045 – fora a subnotificação evidente. Hoje já passamos a China tanto em casos confirmados e óbitos, segundo os dados oficiais não confiáveis aqui ou lá.

Porém tais números talvez não entrem na contabilidade de Cerdá, para quem os melhores exemplos de gestão da pandemia na região são Brasil, México e Venezuela.

No Brasil, temos um presidente que virou estrela da tragicomédia. Bolsonaro é nternacionalmente é tratado como um palhaço assassino de filme B de terror. O presidente do México AMLO também menosprezou a pandemia e viu a escalação da contaminação e das mortes entre mexicanos.

Já o ditador da Venezuela, que largou tão mal quanto Donald Trump e Boris Johnson, dos EUA e do Reino Unido respectivamente, reviu a tempo suas medidas, pediu um armistício à oposição e declarou que pediria ajuda até aos Estados Unidos. Aparentemente funcionou, ainda que não seja seguro confiar nos números de qualquer ditadura.

É espantoso que, com o setor fortemente abalado, prejuízos abissais e sem perspectiva de recuperação a curto ou médio prazo, um representante com a importância de Cerdá fale nesses termos.

A não ser que a aposta seja féretros aéreos, com translado de cadáveres para onde houver cova sobrando, o melhor que a IATA tem a fazer é confinar seu vice-presidente Peter Cerdá em algum lugar sem comunicação.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

A destruição do Brasil

A destruição do Brasil, por dentro e por fora. Coisa incompreensível. O que leva alguém a jogar 24/7 contra o país, a Nação? E como pode tanta gente apoiando este governo criminoso?

Admito que, com todo asco que sempre senti por Jair Bolsonaro, dentro de seu programa de governo reconheci pontos positivos, com destaque para atenção ao turismo e menção à renda básica.

O que temos hoje: um pandemônio diário, com multidões em frente às agências da Caixa Econômica Federal para tentar receber a renda básica emergencial, simplesmente pela incompetência do governo para fazer o programa funcionar.

E o turismo, parado no mundo todo pela pandemia, sofre ainda mais com o comportamento do presidente da República, seu chanceler e sua base eleitoral.

Quando as pessoas voltarão a viajar? Impossível dizer. Calcula-se que seja algo próximo da chegada da vacina, prevista para daqui a no mínimo dois anos.

Porém, um dia, voltaremos a viajar. Mas pense num estrangeiro olhando para o Brasil. Os argentinos, nossos hermanos, que lidaram bem com a pandemia, impondo sacrifício a todos, terão vontade de nos visitar? E vontade de receber nossas visitas, terão?

E mesmo em países cujos governos são simpáticos ao governo brasileiro, estamos mal. O presidente dos EUA, em conversa com o governador da Flórida, discutiu a possibilidade de proibir voos de origem brasileira.

Pela declaração absurda do ChanCelerado, que comparou o isolamento social aos campos de concentração nazista, conseguimos arranjar enrosco com a comunidade judaica e, obviamente, com Israel.

No momento em que precisamos combinar cooperação com a China, mais tumulto, seja de um dos filhos do presidente, do ministro da Educação, do olavismo do ChanCelerado.

E está na Câmara dos Deputados a MP 910 do governo federal, que pretende anistiar e entregar terras públicas griladas e destruídas na Amazônia e no Cerrado. Sob o pretexto de regularizar a situação de gente séria, podemos premiar e incentivar grileiros, predadores da pior espécie.

Obviamente, se isso acontecer, toda a comunidade internacional, ora ainda mais atenta aos problemas causados pela destruição da natureza, com razão vai reclamar e, sem ter o que fazer em relação às nossas políticas internas, deverão impor sanções econômicas, erguer barreiras, rever tratados.

Quer dizer, o comportamento irresponsável, debochado, criminoso de Jair Bolsonaro, desde a “gripezinha” até o “e daí?”, passando pelo “não sou coveiro”, piora nossa relação com a pandemia, contagia mais gente, mata mais gente, retarda o momento de retorno. E o mundo, de olho nisso tudo, obviamente não estará interessado em nos ajudar, agora ou depois.

 
Tags:
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Sobre os novos na Justiça

As nomeações no guarda-chuvas da Justiça não devem nos alarmar. Na Polícia Federal ou no ministério – que, confesso, não sei se continua super como foi preparado para o cabo Moro, ou se volta a ser o ministério inaugurado por Ruy Barbosa na República velha. Assim, também não sei se cabe foto do ex-ministro Moro na galeria de ocupantes da pasta. Talvez num corredor ou lavabo.

Sobre as nomeações: acuado e louco para fugir ou negar os fatos, o corno Jair Bolsonaro faz o que sempre fez: vende o sofá onde flagrou a conja em inevitável coito extraconjugal.

O corno Bolsonaro, igual a todo corno, entende a República como traidora. Para ele o problema está na ordem, não em quem a obedece.

A nomeação na Polícia Federal parece ser um caso clássico de oportunismo combinado, nada diferente da nomeação do próprio Moro se guardadas as proporções. O que importa é que a instituição é de Estado e tudo indica que não se curvará ao governo do miliciano.

Mais: segundo o The Intercept, Alexandre Ramagem era lido pelo coordenador da  Lava Jato como membro auxiliar do PT, ligado ao partido dos Trabalhadores e que já naquele governo esperava oportunidade de ascensão em troca de favores.

Nas mensagens obtidas pela Vaza Jato, Ramagem aparece como suspeito de atuar em conluio com um procurador federal preso por venda de favores ao grupo JBS.

Porém, escalado para a segurança do então candidato Bolsonaro durante a campanha de 2018, se aproximou da família miliciana, que não conhece ninguém notável, e pelas circunstâncias teve que ir abraçando quem aparecia.

É lamentável que qualquer servidor público trabalhe feito biruta, a República não merece – mas não consigo dizer a mesma coisa da família miliciana.

Com tudo isso o novo ministro da Justiça André Mendonça é altamente elogiável. Alçado a Advogado Geral da União no governo atual, conta vinte de seus aos 47 anos em dedicação à instituição.

Pastor evangélico, Mendonça é conservador na vida privada mas alinhado ao progressismo na vida pública. Presbiteriano, é um tipo de cristão reformado que, pela fé que professa, é exatamente conservador em privado porém tradicionalmente progressista em questões político-religiosas.

Ainda: se Ramagem era segundo a Lava Jato petista de conveniência, seu ora chefe Mendonça foi publicamente entusiasta programático do plano de governo lulista, escrevendo artigo favorável à eleição de Luís Inácio em 2002 e, já em 2018, pelas redes sociais, indicava preferência pela também evangélica progressista Marina Silva.

O mais curioso nisso tudo é que o presidente e estuprador da República, fiado numa base eleitoral construída por robôs em redes sociais, ora negocia com o Centrão sob uma condição: que os indicados não tenham publicações amigas do PT.

 

Ainda: sobre as centenas de mortes pela covid-19, o presidente e estuprador da República disse: E daí? Sou Messias mas não posso fazer milagre.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Ventiladores a pleno

Universidades públicas desenvolveram ventiladores que podem ser fabricados em pouco tempo e baixo custo. Ventiladores usados para manter a respiração dos pulmões acometidos pela covid-19. Se podem ser usados em UTI não está claro. Ainda assim é boa notícia, até porque não há cientista reclamando.

Ventiladores políticos também seguem a pleno. É inacreditável, mas enquanto deveríamos estar todos e principalmente os mandatários concentrados nos ventiladores que salvam vidas, a maior autoridade do país segue aumentando a velocidade das pás que espalham merda.

Depois de um final de semana turbulento, a segunda-feira amanheceu com ares de calmaria em Brasília. Acenos para o diálogo e pedidos de calma vieram principalmente do Parlamento.

O presidente da República reuniu três ministros fortes para acalmar alguns setores. Tereza Cristina, da Agricultura, que balançava especialmente por defender a obviedade da necessidade de mantermos boas relações com a China, estava lá. Tarcísio Freitas, da Infraestrutura, também.

Vá lá que chegue a ser espantoso que ambos, pessoas respeitáveis, sigam neste governo. Mas a rigor não temos nada diferente do que se projetava desde antes da eleição, de modo que, sob o risco do otimismo, prefiro seguir achando que os dois estão se sacrificando para evitar o pior, como as pastas da Educação, Saúde, Relações Exteriores, Meio Ambiente, Direitos Humanos, Turismo e tantas outras provam que pode ser.

O terceiro ministro era o Beato Salu, Paulo Guedes, esvaziado na semana anterior com a apresentação do Pró-Brasil. Invés de oferecer alguma resposta aos tantos brasileiros que precisam urgentemente da Renda Básica para sobreviver, preferiu acenar ao marcado atacando os servidores públicos. Sem que ninguém tivesse tocado no assunto, falou sobre não aumento de salário por um ano e meio. Logo ele, que há duas semanas recusava um acordo para redução ou contingência dos salários mais altos do funcionalismo e ainda argumentava que estes serão importantes para a recuperação da economia.

Como se vê, brasileiro não pode confiar em qualquer alívio. Todo santo dia, para além da pandemia, a política bolsonarista nos sufoca.

O 27 de abril já caminhava para as horas finais quando o ministro decano do Supremo Tribunal Federal autorizou a abertura de inquérito sobre o litígio entre Bolsonaro e Sergio Moro pedida pelo Procurador Geral da República. Ao que tudo indica, juridicamente serão sessenta dias de coleta e organização de provas, posto que a Polícia Federal aparentemente já sabe de tudo sobre a operação da família Bolsonaro na produção e esparrame de notícias falsas e súcias milicianas no Rio de Janeiro.

Junto com a ordem do decano, vinha DataFolha, mostrando que, mesmo acreditando que Bolsonaro mente, 1/3 dos brasileiros seguem firmes a seu lado, determinados ao precipício.

Somadas as notícias da noite, o cenário que se configura é o seguinte: ao que tudo indica, em sessenta dias teremos o inquérito mostrando os crimes cometidos pela primeira família, com potencial para deflagrar oficialmente um processo de derrubada.

Porém, o movimento das tropas militares dentro do governo indicam que não será breve – fácil nunca é. Os generais, que até domingo lamentavam a saída de Sérgio Moro, passaram a criticar o ex-ministro, sinalizando manutenção do apoio a Bolsonaro, apesar de tudo.

As falas dos presidentes da Câmara e do Senado pedindo calma e entendimento vão no mesmo sentido.

A explicação está no DataFolha. Um impeachment ainda este ano exigiria novas eleições. Os políticos veem que, com 33% de apoio, até um Eduardo Bolsonaro poderia chegar a um segundo turno e ser eleito. E os generais, se tiverem que pagar o preço de marcharem aliados ao capitão que mancha sua história, preferem esperar 2021, porque da metade do mandato em diante, em caso de impeachment, assume o vice – que é um deles.

Então se segura, freguesa. Se segura e fica em casa. Evite, ao máximo, contato com qualquer ventilador, seja da pandemia sanitária ou do pandemônio político.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Têm pena de mim

Ainda menino, me acostumei a apanhar por dar opinião e fazer questão de viver a minha vida. Sei quanto custou, ainda custa, sempre vai custar. Mas os bônus, raros, muitas das vezes restritos a um circulo de intimidade, me contemplam. Não posso, de jeito nenhum, me queixar da vida. Sou privilegiado em todos os sentidos.

Há quase vinte anos, morando na praia, exercitei correspondência por e-mail com amigos e familiares. E a maresia comeu grande parte delas. Foram dois computadores enferrujados. Até que uma amiga sugeriu a nuvem daquele então: “crie um blog, mesmo que não divulgue, você guarda o que escreve em lugar seguro.”

(Mais ou menos seguro, porque está difícil recuperar no virtual o que publiquei no blog gratuito que o UOL oferecia com compromisso de manter para sempre.)

Então comecei o blog, e quando vieram as redes sociais, coisa de dez anos atrás, ganhei uma audiência aroeira, magra porém densa, considerando que atualmente é difícil encontrar gente disposta a ler em média dois mil toques diariamente.

Escrevi sobre temas variados, crônicas, causos, bebedeiras e cafajestadas, amor, tentativas de humor, e muito sobre política. Investi boa parte da vida criticando os governos petistas, até porque coincidiram com o período, critiquei também o PSDB já enquanto fui filiado, e não baixei a guarda quando Temer subiu e muito menos quando caímos todos no bolsonarismo.

De acordo com conjunturas pessoais ou públicas, revi algumas opiniões, procurando sempre explicar cada movimento. Está tudo registrado.

Sigo apanhando feito vaca na horta, de tudo quanto é lado, sofrendo acusações absurdas, delirantes, que ao cabo me divertem mais do que incomodam. Deve ser vaidade, inflada por um amigo Mineiro e sábio: em política, quanto você apanha a torto e a direito, provavelmente está certo.

Tudo isso para dizer que particularmente estou bem e sigo em frente. Mas que é grande minha a tristeza com o presente coletivo, notadamente em relação às pessoas da minha convivência que tiveram a maioria das oportunidades e privilégios que tive, com uma ou outra variação de parte a parte.

Tristeza que disparou ao ver nas redes sociais gente querida furando quarentena em meio à pandemia que enterra milhares e deprime milhões mundo afora. Se é inconsequência, inconsciência, indiferença, hipocrisia, tanto faz. Noves fora os que têm o privilégio de contar com tratamento psíquico e receberam recomendação de dar uma volta à pé, ao sol, para manter a saúde, ninguém desta paróquia tem o direito de furar quarentena.

Pior: receber pelo whatsapp carreatas de mensagens de gente confortavelmente quarentemada contestando a necessidade de quarentena, propagando notícias falsas, negando a ciência e a verdade dos fatos.

Tristeza galopante. Mas meu cavalo depressivo, que ora galopa, está encilhado e em marcha há anos. Sonegadores hipócritas; empregadores que não se vexam em pagar o trabalho pelo preço de mercado e não pelo valor; arautos do “vale quem tem”; ativistas das conveniências: têm pena de mim. Não por favor, mas pela recíproca, por franqueza, porque estou morrendo de pena de vocês.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Moro merece ostracismo político e investigação judicial

Recém demitido do ministério da Saúde, Luiz Henrique Mandetta postou foto ao lado do demissionário mais fresco, Sérgio Moro, agora ex-superministro da Justiça.

A mensagem é emblemática. Carrega o cálculo eleitoral da saída de um e outro, sem prejuízo dos motivos técnicos de ambos os casos. Sim, freguesa, as coisas andam juntas e têm mais de um ou dois lados.

O exemplo do dia é a fala de despedida de Moro. Acusou o presidente da República Jair Bolsonaro de crime de responsabilidade pela tentativa de interferência na Polícia Federal, e de falsidade ideológica na falsificação de assinatura em pedido de demissão. (171 devia ter sido o número do senador Flávio Bolsonaro.) E, talvez em ato falho, ele próprio, Moro, assumiu algo que precisa ser explicado: que história é essa de garantia de pensão ou coisa que o valha no acordo para aceitar ser ministro? Tudo muito grave.

A tentativa de interferência na PF seria para proteger a família miliciana do presidente da República. Mas não é tudo. Contou a chegada ao governo de diversos condenados na Lava Jato.

A pose de homem honesto pura afetação, cascata do ex-juiz-ministro, que passou pano para o colega de Esplanada Onyx Lorenzoni, corrupto confesso. Com todas as letras, disse Moro: “ele pediu desculpas.” Também engoliu o pito do chefe quando interferiu junto ao presidente do STF para manter a autonomia do COAF. Bolsonaro teria dito: “se não pode ajudar, não atrapalhe.” Moro ficou.

Também é impossível que Moro não soubesse das rachadinhas da família Bolsonaro. Comandando a Lava Jato desde Curitiba e em linha direta com o colega Marcelo Bretas no Rio de Janeiro, viu o desdobramento fluminense da operação botar na cadeia cinco governadores, o tribunal de contas inteiro, e deixar de lado Flávio Bolsonaro, Queiroz e a agora primeira-dama Michelle.

Os relatórios do COAF que embasaram a operação Furna da Onça ou Lava Jato fluminense chegaram ao MP-RJ em fevereiro de 2018, ano eleitoral. Entre fevereiro e novembro, ou logo após a eleição de Bolsonaro, produziu trinta páginas sobre os Bolsonaro. Entre novembro de 2018 e fevereiro de 2019, entregaram 300 páginas, um CD e um pen-drive. Tem cara de gaveta, cheiro de gaveta, barulho de gaveta. O que pode ser?

Mais: o general Mourão, quando falava mais que a boca, contou à imprensa que Paulo Guedes esteve em Curitiba para convidar o então juiz Moro para o governo. Coincidentemente no fim de outubro de 2018, mesmo período da exoneração dos queirozes dos gabinetes dos Bolsonaro. Tudo isso tem que ser investigado.

E vale acrescentar o papel do Exército na eleição de Bolsonaro. Em 2018 tivemos intervenção federal no Rio de Janeiro. O Exército ficou responsável pela Segurança Pública, com acesso a todos os dados de inteligência das polícias. Como pode não ter visto as súcias milicianas dos Bolsonaro? Como pode não ter visto que um miliciano, vizinho e ex-cossogro do presidente da República eleito, possuir 117 fuzis? Incompetência? Ou conivência? Hoje há vários membros do Exército no governo, a maior presença na história, mesmo considerando a ditadura militar.

Moro teve a grandeza, reconheço, de elogiar a autonomia dada a Polícia Federal no primeiro mandato de Lula. Alguém pode ter criticado os governos petistas tanto quanto eu. Mais do que eu, ninguém. Gastei mais de uma década da minha vida nisso e não abro mão do reconhecimento. Mas faltou a Moro nomear o responsável, Marcio Thomaz Bastos, até porque foi seu antecessor no ministério da Justiça. Elegância não é uma qualidade sua.

Por falar em mérito, vale lembrar outro ministro da Justiça. Quando o governo Collor entrou em parafuso, encontrar quem estivesse disposto a servir ao Estado, minimizando os prejuízos do processo, era ainda mais difícil do que na montagem do governo. O então ministro do STF Célio Borja, com alguns anos de cadeira confortável pela frente, abriu mão do conforto para segurar o peão na unha à frente ministério da Justiça.

E ainda há outro caso, do deputado João Mellão, que gastou grande parte da Saúde fazendo como Borja, só que no ministério do Trabalho. João faleceu hoje e merece todo  reconhecimento dos brasileiros pela dedicação ao país. Obrigado, Mellão.

Por tudo isso Sérgio Moro não merece aplausos pela saída. Entrou bem no sentido figurado. Entrou por que quis e sabia exatamente o que estava fazendo. Mas literalmente entrou mal e sai pior ainda. Moro tem méritos inegáveis, mas a fuga do governo Bolsonaro não está entre eles. Por respeito a grandes brasileiros, evitemos entregar pérolas a porcos. Moro merece ostracismo político e investigação judicial.

 
Tags:
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments