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Minha Casa, Minha Vida, Minha ideia genial

Tive uma ideia genial. Já que a Federação está em colapso, com municípios que nunca tiveram independência orçamentária, estados quebrando e tomando cada vez mais dinheiro da União via BNDES (com expectativa de erosão do buraco porque o Presidento precisa do apoio dos governadores e congressistas para se segurar no Planalto, nada obstante seu governo tenha largado com a PEC do Teto), sessenta mil assassinatos por ano, metade das casas sem saneamento básico, educação, saúde, transporte de pires nas mãos, precisamos de uma solução urgente para fazer a conta fechar.

Prover tudo isso que falta nas cidades se tornou inviável. Com a recente concentração urbana o preço do espaço aumentou muito. Ainda que muitos dos centros, principalmente nas capitais, estejam decadentes, repletos de imóveis vazios, a especulação segue firme. Então o que fazer?

A ideia é simples e já existe na área da habitação. A iniciativa privada, com o firme compromisso social que sempre teve, combinou com os governos federal, estaduais e municipais que faria casa para todos em lugares ermos e distantes, onde o preço da terra é bem mais em conta. O programa é bem conhecido, chama-se Minha Casa, Minha Vida.

Não é genial?  Pois vamos adotar a mesma lógica para todos os outros serviços públicos. Imagina fazer metrô lá longe. Em alguns lugares nem vamos precisar cavar, o trem poderá passar pela superfície, e as estações terão um custo muito mais baixo na desapropriação do terreno (você sabe, freguesa, que é imprescindível ter uma casinha para a estação de metrô, aquelas da avenida Paulista, onde basta um buraco para a turma entrar e sair, não prestam).

Escolas, hospitais, estações de tratamento de esgoto: tudo mais barato se a gente fizer lá longe. Até a cesta básica deve baixar, posto que as pessoas viverão perto de onde o feijão e a mandioca são cultivados, eliminando o sobre preço do transporte e do atravessador. Para a segurança, solução clássica e sempre exitosa: mais presídios, e ainda mais baratos, porque estarão ainda mais distantes.

Sim, estou sendo irônico. Tentando provocar. É o folego que me resta. Obviamente nada disso funciona. O caminho é justamente o inverso: adensar, trazer as pessoas para perto de onde já existe alguma infra-estrutura. O melhor exemplo recente é o Complexo Julio Prestes, na Luz, em São Paulo.

Curiosamente, porém, a maioria dos governos, em associação com a iniciativa privada, insistem em seguir na contramão. No mercado imobiliário comenta-se o seguinte: a construtora Tenda, que tem 70% do seu faturamento amarrado ao MCMV, deve investir dois bilhões de reais na compra de novos terrenos. Onde? Provavelmente naquelas paróquias que o Jaime Lerner definiu como “meu fim de mundo”, dando o sobrenome exato ao Minha Casa, Minha Vida. Já a MRV, com 95% da receita dependente do MCMV, deve fechar o primeiro semestre de 2017 com o maior valor geral de vendas de sua história. Crise? Recessão? Só se for para você, infeliz, que não é amigo dos homi.

Não acreditem quando dizem que o Brasil não tem memória. A Globo News exibiu recentemente um especial sobre os quarenta anos da morte do Carlos Lacerda. Documento impecável. Entrevistaram gente contra e a favor. E todos só falaram verdades. Estão lá coisas do seu legado, incluindo o fantástico Aterro do Flamengo, da Lota Macedo Soares, e Cidade de Deus, que só precisa de um comentário: é o primeiro Minha Casa, Minha Vida da história. Sobre ele, indico dois filmes: Reidy – A construção da utopia e o longa homônimo. Aqui e aqui.

Para encerrar, uma nota que me veio por causa do Lacerda. A turminha da FGV retirou a homenagem ao assessor especial do Presidento depois do cooper de meio milhão em frente à pizzaria Camelo. Para eles não pega bem uma escola de administração que forma grandes executivos, que preza a livre competição, ter qualquer ligação com o Rocha Loures. Mas continuar chamando Getúlio Vargas, sin embargos.

 
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Pedalada narrativa

Dilma e o lulopetismo caíram pelas pedaladas fiscais, auge da chamada contabilidade criativa, artimanha usada para fazer os números trabalharem de acordo com determinado argumento. O resultado está aí: 14 milhões de desempregados e impeachment.

Agora as mesmas pessoas que perdoam no Presidento os pecados que usaram para condenar a Presidenta, lançam mão do artifício para justificar a incoerência.

Oficialmente é a pedalada narrativa.

Eis o que diz o Painel da Folha: “Peso pena – Nomes do PSDB fizeram levantamento que insinua que os tucanos que cobram o desembarque do governo Temer são nanicos. Dizem que os 16 que defenderam a permanência da sigla na base aliada, em reunião na segunda (12), somam 46,1 milhões de votos. Os que pediram a saída, 2,7 milhões.”

Mesclar numa conta os votos recebidos por candidaturas majoritárias (governador, prefeito, senador) para comparação com as proporcionais (deputados federais) é no mínimo esdrúxulo. Principalmente quando se nota que, na Câmara, onde a denúncia da PGR será autorizada ou não, votam os deputados federais – e todo o eleitorado saberá como votou cada um.

Ainda: quando o Judiciário enviar a denúncia ao Legislativo, diferentemente dos pedidos de impeachment o presidente da Câmara não tem como engavetar. O regimento manda que o processo siga direto para a CCJ, que tem prazo certo para trabalhar e devolver ao plenário onde, de novo, saberemos como votará cada deputado. São necessários três quintos dos votos para aprovar a abertura.

Será a primeira vez na História que o Presidente da República é denunciado por crime comum, incluindo lavagem de dinheiro, obstrução de Justiça e formação de quadrilha. Tornado réu, deve ser automaticamente afastado por seis meses.

Curiosamente, mesmo sob o risco da votação aberta, a base do governo planeja acelerar os trâmites. Para eles, cada a semana que passa uma denúncia ou delação nova pode surgir, agravando a situação.

 
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Portugal e a tarefa doce de abraçar seus filhos

No sábado dez de junho o relógio contou 28 horas. Era o Dia de Portugal, Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas. Começou no Porto, passou por SP e terminou no Rio.

Celebrei no Teatro Municipal de São Paulo a convite de um fidalgo lusitano chamado Tomaz Capitão, meu amigo querido. Errei no traje mas a noite não poderia ter sido melhor. Eu deveria supor que a ocasião pedia terno e gravata, mas tendo o prefeito abolido o adereço e o Marcelo Casarini, que é doutor em samba e fado, me garantido que os irmãos da terrinha veem com bons olhos lenços nos pescoços, aproveitei a temperatura para me enfeitar.

O cálculo sobre o horário ampliado do relógio veio do presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Souza. Verdadeiro abraço fuso horário (o Pedro Venceslau diria luso horário) em todos os que falam a língua de Camões.

Tão simpático quanto o Presidente foi o ministro António Costa. Saudou a todos os que cruzam o Atlântico lembrando que o próprio filho do presidente vive cá em São Paulo com seus netos.

Pode parecer curioso para nós brasileiros que um país tenha como chefe de Estado um social-democrata, que lá em Portugal é considerado centro-direita, e por chefe de Governo um socialista, tido como centro/centro-esquerda. Bom, pensando bem, cá na Vera Cruz também se vê a social-democracia como centro-direita. Curioso mesmo é a gente continuar precisando de rótulos, com o exemplo fraterno de Portugal escancarado para ensinar. Apelidado de “Geringonça”, por abrigar matizes diversas, a administração lusa vem se saindo bem, muito bem, obrigado.

Presidente e Primeiro Ministro chegaram ao Municipal ao lado do Prefeito e da primeira-dama de São Paulo. Nos discursos, não ficam a citar pelo nome cada uma das autoridades presentes. Dizem o cargo e basta. Prática que quero usar nesta página, até para ver de ajuda a desfulanização da política. Mas não sem antes dizer que Marcelo, António, Bia e João sentaram-se na plateia, no centro dela, nada de gargarejo. Tomem nota. Agradecido.

O que veio a seguir foi um espetáculo. O filme de apresentação de Portugal começa exibindo três manifestações culturais. Fado? Ainda não. A importância que eles dão para a cultura menos difundida é emblemática: Canto Alentejano, Guitarra Portuguesa e arte escultórica contemporânea.

Entre as personalidades é claro que estão Cristiano Ronaldo, modelos, gente de televisão. Mas também escritores, pintores, arquitetos, filósofos, cientistas, médicos, professores.

Então chegou a hora do fado. Quatro cadeiras: cavaco, baixo, guitarra e uma pequena notável chamada Gisela João. Um colosso. Cantou e encantou a plateia, incluindo muitos portugueses que não a conheciam.

Se usei o pequena notável não foi à toa nem exagero. Vão ao YouTube verificar. Até onde minha vivência alcança, desde de Carmem Miranda não aparecia uma portuguesinha tão talentosa e apaixonada pelo Brasil por aqui.

Cantou e dançou um fado divertido e inadvertido, sobre um senhor extraterrestre que tem a nave apreendida por estar sem carta de condução. O prefeito, elegante, entendeu que não era nada pessoal.

Cantou Cartola, As rosas não falam e O mundo é um moinho. Falante, explicou que sabe que é samba, mas também considera fados dos bons. E são. Cantou ainda a mexicana La Llorona, da Chavela Vargas, que a gente conhece pela trilha de Frida. Gigantesca.

Precisar, Portugal não precisava. Mas entende, acolhe e alimenta com todos os ovos e o açúcar que houver o carinho cada vez maior de seus filhos que se espalharam pelo imenso e possível oceano.

 
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De Borja a Andrade ou obrigado, João Batista

Nos estertores do governo Collor uma figura se destacou e merece lembrança: Célio Borja.

Ele aceitou o convite para ser ministro da Justiça com uma missão muito clara: fazer a reforma política. Mais exatamente, a transição para o Parlamentarismo.

Na Constituição de 88 a gente combinou que dali a cinco anos haveria o plebiscito. E o então presidente do STF, aos 66 anos, portanto com mais quatro garantidos na corte, pendurou a toga para a missão que talvez considerasse a mais importante de sua vida.

Bem sabe esta freguesia que #deuruim. Pedro Collor, irmão do presidente da República, foi à Istoé e mostrou as infiltrações que comprometiam as reformas dor jardins e tanques de carpas da Casa da Dinda. E o Congresso, que não tinha boa relação com Fernando Affonso, tratou de derruba-lo.

A situação política era bem menos grave do que é hoje. Mas ainda assim, pela estabilidade institucional, Celio Borja decidiu ficar no ministério e garantir os limites republicanos fossem observados durante o processo de impeachment. Não foi atrapalhado e só deixou a Esplanada quando Collor renunciou e desceu a rampa. O outro nome disto é hombridade.

Atualmente ainda há quem acredite que as reformas em curso no Brasil são a da Previdência e a Trabalhista. Virou desculpa para tudo. Talvez seja exaustão. Ou mesmo um ato de fé – o que torna impossível qualquer debate.

Ontem a Andreia Sadi revelou quais são as reformas que tomam a agenda nacional: além de sítio, tríplex, espigão no Pelourinho, tela de proteção para o Michelzinho no Alvorada (com direito a babá comissionada),  casa da filha, agora há a casa da sogra.

Olhando para o ministério da Justiça podemos ter uma dimensão da vastidão que a casa da sogra tomou. Alexandre Moraes, que estreou na pasta com o Presidento, só foi deglutido porque o adversário mais citado chegava a ser contra união estável homoafetiva. Mas logo foi transferido para o STF, deixando no ar o receio de atuação contrária à Lava Jato.

Então veio o Osmar Serraglio, que apareceu muito mais nos áudios da Carne Fraca do que trabalhando, mas não por isso foi substituído pelo Torquato Jardim, que transformou o que era receio em paura. É que na cabeça do Presidento os dois trocariam de cadeira, deixando a Polícia federal com pro Jardim e a Transparência com o Serragljo. De novo, não para fazer transparecer qualquer coisa, mas para garantir uma cadeira na Câmara ao suplente Rocha Loures, também assessor especial do Presidento, que pelo inusitado cooper de cinquenta metros e meio milhão de reais, agora precisava correr do carcereiro e seu barbeiro. Não deu certo e o príncipe das barrinhas de cereal hoje namora as barras da Papuda.

Onde estaria um Celio Borja a essa altura do campeonato? Vos digo: na Cultura.

O cineasta João Batista de Andrade era presidente do Memorial da América Latina em São Paulo. Vinha fazendo um trabalho impecável, com êxito de público e de crítica.

Quando o ministro da Cultura Marcelo Calero denunciou o Geddel Vieira Lima e saiu, Roberto Freire topou o desafio e teve o apoio abnegado do João Batista, que renunciou o Memorial para comprar uma briga gigantesca. Então veio o grampo do Joesley na garagem do Jaburu e Freire renunciou. Mas João ficou como interino, com prejuízo pessoal. Quer dizer, segurou o rojão. Com tanto retrocesso, era algo que acalantava. Sem Cultura uma Nação não é viável. E fez o que tinha pra fazer: nomeou, com apoio do setor, a produtora Debora Ivanon para a presidência da Ancine, contrariando a vontade do Presidento, que nunca confirmou, traindo o combinado. Também indicou para a diretoria colegiada da agência o Jorge Peregrino, executivo da área de distribuição de filmes. Mas soube pelo Diário Oficial que o Presidento escolhera outra pessoa. Como tudo tem limite, hoje pediu o boné. Fez bem.

Que sirva de exemplo para outras pessoas boas que ainda sustentam este governo insustentável. Obrigado, João.

 
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Governo, graxa e volúpia de aceleração

Um amigo que trabalhou em governo há muitos anos, mais exatamente num palácio de governo, conta a história do engraxate. Calma! Sei que esta freguesia está farta de notícias de gente engraxada em palácio. Mas o caso desse meu amigo fala antes do sentido literal.

Houve um tempo em que os cavalheiros engraxavam os sapatos diariamente. Tempo que poderia muito bem voltar. Coisas boas e bem cuidadas duram anos e contribuem para a sustentabilidade. Quem sabe os hipsters podem aproveitar a voga e dar uma força, qual fizeram com as barbearias e a cerveja de garagem.

Atento à demanda e conferindo o endereço do palácio, isolado de tudo e de todos, como prover graxa aos pisantes oficiais? Num passeio pela cidade, que é como essa turma chama o Centro velho, encontrou um jovem que se defendia carregando a caixa de graxa pelas ruas sem conseguir um ponto fixo. Então ofereceu transito livre no palácio, resolvendo o problema geral.

Impasse: quanto o rapaz poderia cobrar pelo serviço? Nada, respondeu meu amigo. Mas não posso trabalhar de graça, replicou o engraxate. E na tréplica veio a lógica da graxa no sentido figurado:

-       Meu caro, deixa eu te explicar como funciona governo. Se você cobrar por alguma coisa, na melhor das hipóteses haverá burocracia, concorrência, menor preço, e você pode acabar pagando para trabalhar. Na pior delas, teria que engraxar além dos sapatos, os bolsos de alguém importante. Ao passo que, sem cobrar nada, impõe ao favorecido um constrangimento que o obriga a retribuir a gentileza com pelo menos o dobro do que o serviço costuma custar. Isto é, quem está acostumado a pagar dez a quem cobra, pagará, feliz, vinte a quem não cobra.

Resultado: de brilho em brilho, de ano em ano, o jovem pagou faculdade, comprou casa para a mãe e permaneceu no palácio por mais tempo que o Adhemar de Barros entre o Pacheco Chaves e o Bandeirantes.

Trazer este caso à tona em época dos terríveis sapatênis tem uma intenção direta. Quem habita palácio deve evitar almoço grátis. Vejamos o que acontece com as doações “sem nenhuma contrapartida” à Prefeitura de São Paulo.

Já tivemos o problema com os laboratórios que se livraram do estoque na iminência do vencimento “doando” à rede municipal. O prefeito respondeu mal. Botou na reportagem da rádio CBN palavras que não haviam e sobre o ICMS escreveu que explicaria mas não cumpriu.

A mesma emissora trouxe no dia dos namorados um furaço do Guilherme Balza: áudio de uma reunião pouco republicana no gabinete do secretario de Governo, com a presença do colega da Justiça, a chefe de gabinete da Cultura e dois executivos da Dream Factory, agência que representava a Ambev na concorrência para o patrocínio do carnaval. A Ambev é uma das doadoras de benfeitorias para a cidade “sem nenhuma contrapartida”.

Meia dúzia de perguntas brotam instantaneamente: 1) Como fica o compliance da multinacional AB-Inbev, controladora da Ambev, ante as declarações da agência que detém sua conta? 2) O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa vai se posicionar? 3) Na nova gestão o secretário de Justiça passou a ser o chefe da Controladoria; conduzirá a investigação das próprias ações? 4) O secretário de Governo seguirá calado? 5) Há conflito no fato da secretaria adjunta da Cultura ser casada com o mandachuva da fundação Lemann, sonho grande assistatencial do dono da AB-Inbev? 6) o secretario da Cultura, que é cineasta, conhece a máxima do Woody Allen: “A diferença entre sexo pago e sexo grátis é que o grátis é muito mais caro”?

E outras duas, relacionadas a esta e outras passagens, também ficam: 1) A amizade entre o público e o privado pode prosperar nessa penumbra? Digo, uma empresa altruísta pra valer, com satisfações a prestar aos acionistas, vai querer entrar num beco sombrio assim? 2) Nesse frisson de participar da vida pública, caberia uma quarentena aclimatadora a quem chega, da mesma maneira que é imposta a quem sai? Por, digamos, volúpia de aceleração e ingenuidade, vimos conceitos básicos atropelados, como o secretario da Justiça dizendo que “a cracolândia está em guerra (!!), e em guerra se for preciso derrubar patrimônio histórico, a gente derruba (!!!)” (ai de ti, Palmyra); ou o coleguinha da Assistência Social usando o carro oficial para levar um cidadão desabrigado à rodoviária e pagar sua passagem para a terra natal – com direito a vídeo populista na rede social.

 
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Fábulas tucanas reunidas

Prestes a virar balzaca, a legenda tucana, minha legenda, iria ao divã. O sistema eleitoral brasileiro colapsou e impôs a catarse. Mas igual na vida pessoal, o organismo partidário resiste ao tratamento – que todos sabemos, é inexorável. E de hora em hora a coisa piora.

Num complexo de Édipo agudo o PSDB volta ao útero peemedebista. Mas com um sentimento que está menos para Freud e mais para Woody Allen. O primeiro falava da atração e da repulsa do filho (PSDB) em relação à mãe (PMDB). O segundo assumiu e escancarou o desejo: quer sim voltar ao útero – a qualquer útero. Foi esta a escolha do PSDB no dia dos namorados, ser mais galinha do que tucano. Traça de Jucá a Barbalho, topa Renan, flerta com Moreira, almoça Padilha, janta Michel.

Mas e Electra, onde entra? Dizia o meu caríssimo Pedro Paulo de Melo Saraiva em suas aulas de arquitetura e urbanismo: “eleja um pai, alguém que você admire, e use a trilha por ele percorrida para nortear e balizar a sua”. Não à toa, seu apelido era Papito.

Meu pai político hoje é o FHC. Prudentemente, ele se mantém como observador, resguardando-se para uma eventualidade histórica. Mas sua trajetória está aí e pode ensinar a quem se dispuser a aprender.

Ainda que tenha cedido aqui e ali, até para poder governar, nunca foi de ficar ciscando. Cantava alto, regularmente e com exclusividade para o brilho do sol. Não deixou se enganar pelo brilho do ouro – que sempre é de tolo.

Hoje temos um PSDB que atendeu aos caprichos da história e foi integrar um governo que dificilmente daria certo. Governo este eleito em chapa adversária contra a qual os tucanos foram ao TSE. Governo este cuja agenda econômica não é diferente da que seria apresentada pelos tucanos – nem tampouco é diferente da proposta pela Dilma-Levy em 2015. Mas que de repente passou a ter apoio majoritário. E é nesse “de repente” que mora o perigo.

Michel Temer nunca foi bom de gogó nem gostou do brilho do sol. Há inclusive suspeitas de que este pode lhe ser fatal. Restou, pois, o brilho do ouro – que efetivamente é quem está governando. Porém, cada spray de lama impõe uma nova camada de ouro. E assim o molho já ficou muito mais caro do que o frango.

Dizer que o PSDB não podia prever o cenário atual seria muita hipocrisia. Tapamos o bico e aceitamos a missão impossível de cruzar a pinguela. Eis que a pinguela caiu. Não aguentou o peso da boiada.

Nas caudalosas águas do rio nos encontramos com o dilema da perereca, aquela que encontra um escorpião se afogando e pedindo socorro em nome de tudo que é vivo. A perereca sabe que é da natureza do escorpião ferroar e matar quem lhe cede o lombo. Sabe que prestando socorro acabarão ambos mortos – ela envenenada e ele afogado. Sabendo de tudo isso a perereca não pode topar. Melhor salvar um do que nenhum. A não ser que o escorpião também saiba de muita coisa. Ou que a margem lá 2018 seja tão sedutora que se transforme em miragem.

 
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Descriminalizou

Esforço do dia: tentar olhar o lado bom da ação policial desta manhã na Cracolândia.

Raiava o sol quando as tropas entraram na Praça Princesa Isabel, a Redentora, que assinou a Abolição depois de uma discussão de quarenta anos – que ainda não terminou.

Os militares saudaram seu patrono Caxias, o Duque de Ferro, ali esculpido em bronze pelo Brecheret, e avançaram sobre os desabrigados que se instalaram na praça há quinze dias, quando da pulverização do “fluxo” matriz na rua Helvetia.

Ato continuo, o governador do estado falou à imprensa em entrevista coletiva. A mudança de olhar é clara: 1) em São Paulo não se prende mais usuário de drogas; 2) dependência química, definitivamente, passa a ser tratada como questão de saúde, não de polícia; 3) a polícia paulista, maior contingente do Brasil e terceira maior instituição militar da América Latina, de agora em diante não vai mais conduzir às delegacias quem for flagrado, por exemplo, fumando um baseado, seja na Luz, na Faria Lima, no Capão Redondo ou em Cidade Tiradentes. De São Vicente a Araçatuba, de Franca a Ourinhos, o consumo de drogas ilícitas está descriminalizado.

Isto é, até a manhã de hoje, o protocolo policial para flagrante de consumo de drogas ilícitas previa que o usuário fosse conduzido à delegacia, assinasse um termo circunstanciado e, no fórum, participasse de uma audiência de transação penal. Inteligentemente nossas autoridades passaram a fazer vista grossa ao consumo na Cracolândia, evitando assim o caos jurídico, criando uma concessão tácita para, pelo menos, os limites do estado de São Paulo.

É um avanço tremendo. Imagine, freguesa, que um terço dos quase 650 mil presidiários no Brasil é considerado traficante, sendo que aproximadamente 70% dos casos contam com apenas um tipo de testemunha: o policial que fez a autuação.

A ação de hoje prova que a polícia não tem como participar do combate ao uso de drogas. A Praça Princesa Isabel é um retângulo plano de 270 metros de comprimento por uns cem de largura. E a polícia não conseguia impedir a entrada de drogas ali. Qual resultado podemos esperar considerando os dezessete mil quilômetros de fronteiras secas e molhadas  do Brasil?

 
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Boi manso é que derruba porteira ou ACM profeta

“Boi manso é que derruba porteira”, comenta minha Neguinha, de olho no julgamento do TSE. O ministro Herman Benjamin já ganhou a batalha. E Michel Temer já perdeu. Tanto faz o resultado.

Confesso que a aparência me enganou. Ao tomar conhecimento da figura do juiz, lembrei daquele outro que rosetou pela Guanabara com o Porsche do Eike Batista. Naqueles dias o X-man tinha perdido a pródiga peruca em Bangu e imaginei que tivesse sido extraviada para Brasília. Preconceito meu. Preciso ajustar o Oscar Wilde do meu ego.

Benjamin já ganhou porque entrou para a História. Se vier o quatro a três, ficará em negrito. A água sempre esguicha mais forte com pressão contrária. E mais distante mas não menos importante, sua entrada “faceira, não vaidosa”  para os livros, renderá ao Gilmar Mendes uma polegada extra de beiço.

Temer já perdeu porque ficou sem uma saída honrosa. Cassado pelo TSE ele poderia fazer qual sua companheira Dilma e criar uma narrativa de golpe, de perseguição, de ter sido punido pelo que não controlava. Ela tenta com as pedaladas, ele poderia tentar com o caixa petista – ainda que até os índios não contactados da Amazônia saibam que ele também pedalou e ela também é responsável pelo caixa.

Alguém há de dizer: fácil falar quando não é você que está na iminência de trocar o Jaburu pela Papuda. Ora, o que separa a viagem de Temer não são dezoito quilômetros. É o tempo. Mais cedo ou mais tarde ele cumpre o périplo. Com um discurso de inocência na bagagem, minimamente teria algo em comum com os colegas para puxar assunto no banho de sol. Quem vai ao cinema sabe que são todos inocentes.

Como disse o Benjamin, não dá para bancar o coveiro de prova viva. Dificilmente conseguirá convencer os quatro pares que disputam as alças do caixão. E que ainda serão assombrados pelas delações de Lucio Funaro, Rocha Loures (peruca?), Antonio Palocci, talvez Eduardo Cunha, quem sabe Henrique Alves.

Antonio Carlos Magalhães sempre foi engraçado. O que a gente não sabia é que também foi profeta quando apelidou Temer de Mordomo de filme de terror.

Atualização, 21h45: Dois dos três ministros do STF, Rosa Weber e Luiz Fux, votaram pela cassação da chapa Presidenta-Presidento. Lá no STF Temer é investigado por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça e deve ser denunciado pela PGR na semana que vem. Lá também votam Marco Aurélio, Barroso Celso de Melo, Lewandowski, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e a presidente Carminha. E não pela cassação da chapa, mas se Michel Temer é criminoso. Façam suas apostas.

 
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Oswaldinho e O Alienista

-       Muito prazer. Osvaldo Lara Vidigal. Todo Lara é louco, todo Vidigal é ladrão.

Contam que o lendário pandego Oswaldinho Vidigal se apresentava assim, para horror da nobiliarquia paulista.

Ficou famoso, entre outras façanhas, por ferver a piscina da Sociedade Harmonia de Tênis com quilos de Alka Seltzer, confundir o diabo Sérgio Paranhos Fleury botando fogo no toldo da boate Hippopotamus, criar uma praia com areia do Guarujá num caminhão basculante e desfilar saudando amigos e parentes durante o horário normal de expediente na rua Boa Vista.

O motivo dele estar mais uma vez nesta página vai além da nostalgia. Não de tudo daquele tempo que mal conheci, mas dessas figuras capazes de sacudir os alicerces, fazer chacrinha, confundir para explicar.

Na época dos fatos alternativos nos falta um Oswaldinho. Uma de suas histórias serve bem como antídoto para um boato que navega pelo whatsapp, espalhando que o filho de um famigerado canalha (não, não são adjetivos redundantes) teria sido recusado na matriz americana de uma escola chique que ainda será inaugurada em São Paulo.

Lá na “great America” tem disso. Até condomínios soltam bola-preta. Um roteiro brilhante do Russel Gewirtz, O Plano Perfeito, que foi à telona com direção do Spike Lee, trata essencialmente do tema – e da hipocrisia que o sustenta.

Pois o Oswaldinho chegava ao clube Samambaia, exclusivíssimo, acompanhado de algumas moças vestidas com meia arrastão, minissaia, batom vermelho. Naquele tempo a indumentária também era, digamos, exclusivíssima. Ao que porteiro, gato-escaldado, acusou:

-       Seu Oswaldo, perdão, mas essas moças são suspeitas.

-       Não, meu caro. Essas são putas mesmo, eu garanto. Suspeitas são as convidadas.

Fico imaginando as escolas, clubes, condomínios, igrejas fantasma que se formariam se a regra passasse a valer sem fraternidade. Vou aproveitar o frio que volta para reler O Alienista.

 
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Barboooosa

Joaquim Barbosa botou as manguinhas de fora. Lembrou que a toga não lhe prende há três anos, que é um cidadão pleno, observador atento da vida brasileira, inclusive às pesquisas de intenção de voto, e que vem refletindo sobre a possibilidade de ser candidato a presidente da República, já tendo conversado com duas legendas.

Até aí, nada demais. Igual ao ex-ministro, o que não falta é gente pensando no assunto. A favor dele conta a transparência. Dos muitos que sabidamente namoram a possibilidade, poucos declararam publicamente – e convém recear sempre o joão-sem-braço.

O que não soa bem é um argumento. Assim falou Barbosa: “Veja bem, a Constituição brasileira prevê eleição indireta. Mas eu não vejo tabu de modificar Constituição em situação emergencial como esta para se dar a palavra ao povo. Em democracia, isso é que é feito.” Sim. Foi exatamente o que Hugo Chavez fez na Venezuela.

É inegável que Joaquim Barbosa tem serviços prestados, notadamente no caso do mensalão, quando presidia o STF. A bem da verdade, vale lembrar que Delcidio do Amaral e Osmar Serraglio, respectivamente presidente e relator da CPMI dos Correios, que abriu o embrulho para o Brasil, também têm.

Mas a lembrança de alguns detalhes do caso somada à afirmação de que ele não vê tabu em rabiscar o Livrinho em caso de emergência, nesta espinha causa arrepios.

A primeira passagem que me vem à cabeça é o da famosa sessão em que o advogado Luiz Fernando Pacheco foi expulso do plenário. Escrevi à época e está aqui para quem se interessar. Resumindo, havia um assunto em que a Lei impõe precedência e o presidente do Supremo Tribunal Federal ignorou propositalmente, chegando a teimar depois de alertado.

Para mim é grave. Muito. Não quero imaginar alguém que une declarações e atitudes assim no terceiro andar do Palácio do Planalto. Tá puxado. Vou assistir TV Pirata que com o Latorraca eu ganho mais.

 
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