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No Brasil, tudo invertido

Meu palpite é que o Brasil se olhou no espelho e, diante do reflexo invertido, gostou e resolveu manter. Nada mais requer lógica ou sentido. Viramos o valhacouto do vale-tudo.
Se não, como é possível tanto zumbi aparecendo? Onde estavam essas pessoas? Entre nós, é claro. Mas disfarçavam. Viviam caladas cuidando das lojinhas e gozando os privilégios históricos.
Agora que elegeram para a Presidência um igual, representante dos seus anseios mais profundos, estão satisfeitas, parte declarada e despudoradamente histérica, parte enrustida, mas contemplada. No conjunto, são os 50% de brasileiros que consideram ótimo, bom ou regular o governo Bolsonaro.
De onde desenterraram um sujeito que defende castigo físico para educação infantil? Desenterraram e botaram no ministério da Educação, depois de tanto tempo sem sequer alguém respondendo pela pasta, depois de ano e meio sem nenhum programa concreto, noves fora a ideologia maluca da destruição.
Na Saúde, ainda pior. Passando mal, muito mal, pior exemplo mundial de combate à pandemia, não temos ministro e os quadros técnicos foram substituídos por milicos que, para dizer o mínimo, são irresponsáveis em aceitar uma função para a qual não têm competência.
Para ficar em três, o superministro da Justiça e da Segurança, ex cabo eleitoral do presidente eleito, saiu atirando. Assim como as forças policiais se mostram cada vez mais violentas, com pelo menos um vídeo diário de um preto pobre sendo agredido.
Parei em três para não cansar esta freguesia. Já chega o meu cansaço. Mas também porque Saúde, Educação e Segurança costumavam ser as maiores preocupações nacionais, segundo todas as pesquisas. Se não deixaram de ser, o que pode ter acontecido?
Insisto, está tudo invertido. Ou sempre esteve, só faltava a gente se olhar no espelho para confirmar.
Como pode tal estado de coisas? Mais três exemplos: uso de máscara para proteção coletiva é obrigatório na rua, mas o presidente da República veta a obrigatoriedade em lugar fechado. O governador de São Paulo, epicentro da covid, libera abertura de bares e restaurantes proibindo mesas nas calçadas e liberando no salão interno; libera academia de ginástica mas não tem recomendação para andar isolado ao ar livre. O terceiro vem a reboque: bares devem atender com até 40% da capacidade ocupação, mas o transporte público segue lotado, e com a classe média incentivada ao uso de automóvel, seja em descolamento vulgar, drive-ins e até no interior de um shopping em Botucatu. Está ou não tudo invertido?
É exatamente o inverso do que o mundo vem fazendo. Em Nova York a aposta dos bares é em mesas nas calçadas e na “zona azul”, como nos parklets que recentemente apareceram em São Paulo. A prefeita de Paris, também de olho na reeleição, aposta em ciclovias e aproveitar o embalo da baixa nos índices de poluição derivados do isolamento. Taiwan, com sete mortos em 24 milhões de habitantes, controlou a contaminação com a triagem de turistas; no Brasil, a Anvisa e o ministério da Saúde foram à Justiça para anular medidas dos estados que adotaram ações no mesmo sentido.
Não entendo mais nada. A única certeza é que não temos governo em qualquer esfera. Estamos perdidos. Você que se vire, cidadão brasileiro.
 
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Adeus, Armandinho

Entendedores, entenderão: ele comprou uma caixa de Noilly Prat. Uma caixa! Pergunto: mas o que você fez com doze litros? Ué, bebi no verão, primo.

Para quem não é do jogo, explico: o vermute branco francês que se tornou sinônimo de marca, ficou famoso por conta do Dry Martini. Alguns exagerados, conhecidos pelo consumo também exagerado do coquetel, chegavam a dizer que bastava a sombra da garrafa do vermute para temperar o gin que chegava à taça. Bartenders chefes de bares de hotéis centenários se orgulham de usar a mesma garrafa há décadas. E mesmo os puristas, como o especialista Edmundo Furtado, admitem, no máximo, uma parte de Noilly Prat para duas partes do gin da preferência do freguês. Façam as contas.

Armando de Arruda Camargo Filho era completamente exagerado. Em tudo. Principalmente em generosidade. Primo, quantas janelas tinha a casa do seu sítio? Não sei, primo; sei que quando da obra, tirei meia dúzia de marcenarias da concordata.

Em Paraty foi na mesma proporção. Chamou Mario Jurado e entregou as chaves, como naquele reclame dos anos 1980 que recomendava o mesmo ao Henri Matarazzo. Wall Paper daria na capa aquela casa que infelizmente só vi em fotos.

Quem conheceu a sede da corretora na rua Hungria até hoje se emociona de saudades. No final dos trabalhos, pouco antes das seis da tarde, os amigos começavam a se reunir. Primeiro na sala dele, então escalavam para a de reuniões, até que decidiam, entre garçons amigos e uma das melhores coleções de arte da cidade, se rolavam para Padock, Baiuca, Plano’s, Pandoro.

Sei lá quantas línguas Armandinho falava. Mas eram muitas. Em Busca do Tempo Perdido, leu e releu no original. Mas não se exibia. No bar, preferia reclamar do Silvio Santos quando o horário do Chaves mudava sem aviso prévio.

Havia algum tempo afastado do trabalho, mas seguia notado pela experiência. Um dia foi convidado para almoçar e ver se dava pé num cargo novo. Julinho de Toledo Piza e eu fomos esperar a notícia no São Pedro São Paulo. Armando chega e Julinho está ansioso. E o Armando: não deu, Julinho. Mas o que foi, Armando? Ora, há tantos anos afastado e querem levar meu passe assim, no bico? Recusei.

Craque de bola, jogou no lendário time do Pinheiros que reunia Mulata, Alemão, Esquerdinha etc. Quando a idade chegou, dedicou-se à sinuca. E com vigor. Poucos eram páreo para ele, que retribuía o dom incentivando o esporte. Talvez seja o único caso de alguém que foi manchete no Estadão em dois cadernos na mesma edição, esportes e economia.

Quando emagreci, me convidou para uma feijoada no Mercearia. Passamos a tarde toda. Então cruzamos a Nove de Julho até seu apartamento na Pedroso. Ele abre o guarda-roupas, tira três costumes de linho feitos sob medida e manda eu experimentar. Um cru, um azul e outro branco. Vestiram como se feitos para mim. E ele era a cara da alegria. Emendou: são seus. Foi um verão e tanto dentro das roupas do Armandinho.

Tinha algo de Roniquito de Chevallier. Educadíssimo mas achando piada em fingir que não. Nosso primeiro papo foi no Mulata, meu finado restaurante na Barra do Una. Me chamou para a mesa onde estava com Teca; conversa vai, conversa vem, e ele era pai da Fezuca e do Daniel, amigos de tantos anos. Depois conheci Mariana. E Loro, seu irmão tão querido. Também adorava contar as histórias do Bolão. E da tia ministra Esther de Figueiredo Ferraz, é claro.

Para explicar a história da educação profunda, que ele fingia não ter mas era mais forte do que ele, ainda nesse dia, lá no Mulata, alguém pediu a direção do banheiro e eu, displicente, apontei. E ele: não aponta! Não aponta! Armando acreditava que a Língua estava aí para que a gente pudesse prescindir de gestos, notadamente os vulgares.

Mais recentemente, já completamente pioso, arranjou uma provocação nova. Só queria saber do Itaim Bibi e fazia campanha para o Trump. Trocava e-mails com a campanha. Comprava decalques, camisetas, meias com a cara do louco estampada, broches. E montava banca nos botecos do Itaim, como se por lá eleitores houvessem.

De altos e baixos em tudo, inclusive ou principalmente no humor e nos modos, podia ser vários Armandos. Há mais ou menos um ano almoçamos num restaurante seu vizinho, com Helito Bastos e João Paulo Zumbi Arruda. Papo altíssimo, gostoso de acompanhar. Por outro lado, quando um bocó se juntava, Armando simplesmente latia. E com ferocidade.

Falei com ele pelo telefone na sexta-feira. Tristíssimo pela partida do Julinho, que ele fazia questão de presentear transmitindo velhos troféus recebidos em vida com o título “amigo dos amigos”.

Nesta manhã, Fezuca me ligou com a notícia: seu pai dormiu ontem e não acordou hoje. Descansou o Armandinho, em sono de criança, peralta, vá lá, mas criança como sempre foi, no melhor dos sentidos. Creio que deu tempo de pegar o mesmo voo do Julinho, para chegarem juntos à mesa de outros tantos amigos que estão lá em cima, brindando por nós. E no céu não há de faltar Noilly Prat jamais.

Valeu, Primo!

* Receita contra ressaca do Armando de Arruda Camargo: abacate e sorvete de creme batidos e cobertos, já na cumbuca, por uma dose de conhaque. Gordura, glicose e um chorinho para rebater. Sabia de tudo.

 
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Sempre Julinho

Julinho era um pândego até quando seriamente preocupado. Um dia, já com o Dona Onça aberto, meteu um poncho e um lenço em volta do pescoço e furou o morro da Paulista para beber no São Pedro São Paulo. Pela Nove de Julho, é claro.
Ainda não eram seis da tarde e, por acaso, eu já estava lá. Horário dos profissionais. Ficamos só os dois, e ele aproveitou para me contar uma preocupação. Queria que eu tivesse uma renda permanente, independente de haver ou não freguês para o que eu sei e gosto de fazer, que é contar histórias.
A sugestão era abrir uma sapataria no Copan, carente do serviço. Você pega uma loja na galeria, equipa, contrata um sapateiro e ele fica lá, trocando saltinho de borracha, dando meia-sola, costurando bolsa, apertando cinto.
Achei curioso e fiquei de pensar no assunto. O apertar cinto era bem pontual. Eu estava emagrecendo com a redução de estomago e vivia cortando os cintos para manter a fivela no terceiro furo. E também ia muito ao Copan, na oficina do Armando, apertar as calças, as quais só abandonava quando os bolsos de trás estavam prestes a se encontrar.
Armando, seu Júlio veio com uma ideia de montar uma sapataria por aqui, o que você acha? Olha, sei não, a turma tem usado cada vez menos sapato, e ali na galeria entre a Dom José Gaspar e a Sete de Abril tem sapateiro; seu Júlio deve estar com preguiça de andar. Desisti.
Daquele banco na frente do Dona Onça, Julinho se divertia com as pratas da casa. Quanto mais cafajeste, melhor. Do Walério Araújo ele adorava repetir a história de quando uma freguesa perua, daquelas de turistar no Centro fantasiadas de onça, lhe tietou perguntando o que ele gostava de tomar: Gosto mesmo é de tomar no cu.
E o Peréio? Com este foi amizade instantânea. Equivalente fraterno do amor à primeira vista. Quando Jana o apresentou pessoalmente à Sabrina Sato, o grande ator se limitou a fazer bilu-bilu, sugerindo a piada tão século vinte, da japonesa escorregando pelo corrimão. Julinho se refestelava.
Nesta quinta-feira fui atrás de um #TBT. Achei um bem apropriado, de um Nove de Julho recente no banco do Julinho. Ele não está fisicamente, mas em espírito pelo próprio banco, a presença da Bandeira Paulista flamejando como os brises do Copan, dos amigos Luís Fernando Rangel, Josué Assumpção e o próprio Peréio. Tão Dona Onça celebrar um Nove de Julho no Copan com gaúcho à mesa.
As melhores conversas sobre 1932 aconteciam naquele banco com Julinho e Helito Bastos, paulistada empedernida. Falávamos dos nossos ancestrais que lutaram por São Paulo e pela Constituição. Helito contava dos aviões paulistas, que se escondiam do Getúlio em Campininha. Eram os vermelhinhos, orgulho bandeirante. Mas de vermelhinho, só os aviões. O Blood Mary ele prefere menos encarnado, e Julinho autorizava o garçom trazer “bem clarinho”.
Um dia, lá pelas 18h00, o almoço ia acabando e Helito pediu a conta. Quando chegou, reclamou: Júlio, este seu bar está muito caro! Onde já se viu uma conta dessa para almoçar? Mas o que você comeu, Hélio? O de sempre, meu PF com carne moída e purê. Mas não é possível, deixa eu ver… Hélio, olha aqui: um PF, 42, o mais são seis Stolichnayas, fora o choro. Ora, Júlio, e não é honesto o trabalhador tomar uma vodquinha para abrir o apetite?
Teve Copa na Onça, que abria de manhã para os jogos do Brasil. Cau Pimentel era o primeiro a chegar. Julinho chegava em seguida. No primeiro dia, às dez, Cau já estava com cachaça e cerveja. Julinho se assustou e perguntou se não era cedo. E o Cau: estou no fuso do jogo.
Na cachaça da Laje, Ismar Freitas conseguiu um feito: passe livre. Pode beber quantas quiser que a Jana não cobra. Julinho adorava o Ismar desde recém-formado, quando no Padock, levado pelo Flávio Mulata, combinou uma empreitada com o Zé do Pé: legalizar coreano. Humanistas.
Tenho que encerrar de novo. Mas como tudo isso sobre 1932 veio também pela audição do clarim do segundo Exército, às 8h00, tocando Paris-Belfort, tenho que emendar mais duas, uma musical e outra parisiense.
A primeira é o aniversário de quarenta anos da morte do Vinícius de Moraes. Julinho contava que, em turnê pelo interior paulista, o Poeta faturava bem, mas se aborrecia com as intermináveis serestas pós-show nas casas dos prefeitos e presidentes de clubes. Todos pediam o Soneto de Fidelidade. E do cansaço da repetição brotava a malcriação, levando o Vinícius a recitar assim: que eu possa dizer do amor, que tive / Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto duro.
A outra Julinho contava para amolar seu Otávio Junqueira Leite de Moraes. Dizia que um Junqueira tomou o vapor em Santos rumo a França. Na volta, num boteco em Orlândia, contava aos amigos suas impressões: olha, Marseille não presta não, areião danado, sô; já Paris, não, em Paris a terra é pretinha.
As duas juntas ainda falam do seu Otávio, que vinha a cada duas ou três semanas a São Paulo e pousava por três, quatro dias na casa do Julinho. No caminho, escalava em Campinas para as coisas do coração: namoro e cardiologista. Uma vez, já no dia seguinte, apareceu para o café carregando a mala. Julinho estranhou a pressa, ao que seu Otávio explicou: Seu Júlio, agora cedo o pau ameaçou ficar duro, então vou a Campinas passar no doutor, porque só pode ser pressão alta.
 
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Obrigado, Julinho

Chegou o convite. O aniversariante faria setenta anos. Julio Cesar de Toledo Piza Filho. Boiadeiro, ex-presidente da Bolsa. Décimo andar do Edifício Conde Silvio Penteado, Av. São Luiz. RSVP. Pensei: terno e gravata escuros, camisa branca lisa e, de troça, comentei com minha senhora: salto baixo e pouca maquiagem.

Lá chegando, a impressão se desfez. Club soda e champanhe fervendo nas rochas, todos os amigos, os músicos da noite, putas, travestis, dançarinas, comida da melhor qualidade e nada de prazo, nunca. Prazo, nunca. Sorrindo, o anfitrião vibrava: Clima de puteiro! Clima de puteiro!

O sonho do Julinho era um bosque de aroeiras. Desdenhava das sequoias dos Estados Unidos, país que admirava, mas as árvores de orgulho nacional eram porosas, grossas, mas porosas, ordinárias. As nossas aroeiras, não. Delgadas, porém densas. Uma tora delas sequer boia na água. Jurava que as do cais de São Vicente eram as originais do Martim Afonso.

Julinho não viu o bosque que sonhou. Não o bosque, bosque mesmo. Mas em amizades, conseguiu e viveu. Densas. E muitas. Múltiplas.

Como era próprio dele, saiu sem se despedir. Julinho tinha essa coisa à francesa. Não importava quem estivesse à mesa, se levantava e até outro dia.

Saiu às cinco da manhã, como também lhe era próprio. Horário de acordar, sem relação com o de dormir. Sabia o barulho das kombis do Estadão e da Folha. Se demorasse, metia um robe de chambre cor de vinho, chinelos, descia e caminhava até a banca do Copan para buscar os seus. Depois de ler e tomar a posição das boiadas, cochilava. Desperto, tirava um banho e ia ao almoço no Clubinho. Esperando os amigos, (re) lia os jornais, e por vezes ralhava dizendo que eram velhos. E os garçons: não, seu Julio, o senhor deve ter lido os de hoje nesta madrugada.

Gostava de sapatos. Entre estes e botinas, tinha uns quarenta pares do Busso. Praticamente Imelda Marcus da São Luiz.

Exagerado em quase tudo. Ponchos, pares de óculos, coisas de seda. Com estas era um perigo. Sua cartilha rezava: elogiou, merece. Ai de quem elogiasse uma gravata ou echarpe sua: levava na hora.

Com comida e bebida também havia algum exagero. Coisa de espírito de criança, que ele manteve nas coisas informais. Proibido de beber pelo “médico doutor”, conseguiu uma exceção: vinho branco. Chamou o Samir Bebidas. Quando D. Elaine chega em casa, dá de cara com um muro de caixas de vinho branco. Quando entendeu o caso, explicou ao marido: Júlio, o médico disse que você PODE tomar vinho branco, não é obrigado a tanto.

Por aí passa mais uma história. Janaína Dona Onça Rueda, ainda Torres, dezoito anos, passou na casa dele para um presente vindo de Paris. Júlio abre o baú que usava para vagens e pede para ela escolher um xale. Pegou um bege. Em seguida, na galeria do Copan, viu um igual na vitrina. Pensou: eita seu Júlio, antenado…

O tampo passou e abrram o Dona Onça. Na escolha da carta de vinho deu briga. Ele queria os vinhos encontrados nos botequins e puteiros. Jana já sabia de tudo e se recusava. Ele, irredutível, achava que já tinha cedido muito abrindo mão de prato duralex e talheres de alumínio. Ela foi para o pessoal: logo você, tão viajado, conhece Paris tão bem… Paris? Nunca estive lá! Como não, e aquele xale que você trouxe para mim? Ah, te enganei.

Gostava desse esculhambo. Jana recebeu a imprensa de televisão na Onça. Queriam falar da revitalização do Centro. Ela deu uma aula, desde a infância no Bixiga, Vai-Vai, depois acompanhando a mãe nos velhos restaurantes, ela cicerone das melhores boates. Anos dourados. Por isso ecolheu o Copan. Então foram apurar com Julinho: por quê o Centro? E ele: ora, moro ali na São Luiz, e estava caro pegar taxi para beber no Itaim.

Quando fomos visitar o Bálsamo da Furna, fazenda de boi que ele bordou na terra de Paranaíba-MS, na volta passamos por Araraquara, terra natal, sede da fazenda do Morganti, que era uma cidadela, com estádio, praça, escola, hospital, igreja – onde ele foi batizado. Contava: os arquitetos foram indicados pelo Duce. Hoje é Cosan, e na portaria fria não nos deixavam passar. Ele jea tinha desistido quando chamei o Bob Coutinho, que liberou o acesso. A igreja estava em restauração, acesso restrito, mas a torre já liberada. Sugeri: vamos lá, Julinho, a escada vale a pena. E ele: fui batizado aqui no altar, vá você se quiser.

Julinho planejava as coisas. A formação do Júlio Neto era motivo de gáudio despudorado. Como está o seu inglês? Médio, Julinho, só vai mesmo depois do terceiro uísque, acho. Ah, o Julinho fala fluentemente, talvez pense em inglês, e faz o sotaque de qualquer estado.

Também planejava cantadas. A melhor de todas, compôs com genialidade. Telefonou à viúva do Horácio Penteado, seu amigo e consócio de Clubinho. Alô, Lígia Toledo? Não, Lígia Faria e Silva. Só porque não quer.

Gostava das artes. Música principalmente, mas também pintura, toda, literatura, principalmente história política, e cinema, principalmente o romântico. Era Uma Vez Na América ele adorava. Regia Enio Morricone balbuciando as notas com a mão que não estava apoiada para então emendar a cena predileta, do gordinho esperando num vão de escada a menina fornida que atendia a turma num daqueles banheiros de corredor de prédio do subúrbio. O preço era um merengue da doceria linda, para o qual a molecada batalhava cada centavos durante sete dias. E o gordinho ali, esperando a vez, fitando o merengue, fitando a porta do banheiro. Mete um dedo no creme e lambre. Pensa. Outra dedada, pensa de novo. Então decide pelo merengue e até semana que vem.

A música predileta era Boiadeiro Errante. Um dia chamou a mim e Paulinha para jantar num italiano “nuovo” da rua Amauri. Estranhei. Não era dele. Mas fui, lógico. Quando entramos, entendi. Foi ele botar a primeira botina no salão para o piano começar “ já vai bem longe aquele tempo, bem sei…” Era Willie, nosso amigo pianista querido, que esta manhã, sei lá como, conseguiu cantar em áudio para a gente no grupo Cabaré do Julinho.

A bebedeira que ele gostaria ficará para depois da pandemia. Não tem jeito. Só sobrou grupo de risco entre nós. Mas quando chegar o dia…

Vai em paz, Julinho, criança eterna. Tenho que ficar por aqui. Sei que você, repetindo Zé do Pé, achava cerveja bebida de otário. Mas abri uma agora. Não se preocupe. Quando os seus amigos puderem se abraçar e retomar a bebedeira, será uísque.

 
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Horizonte

A gente que andava por aí sem olhar por onde sempre me irritou. A popularização do telefone esperto agravou nossa relação. Mas não é o único fator. Para além dele, me irritam todos os ignorantes aos demais. Incluo aflitinhos, turma da firma que vai e vem do almoço perfilada ao chefe impedindo o passeio e, mais distante, uma trinca formada pelos distraídos, os bêbados avulsos ou em grupo e as crianças mal-criadas, pela qual oscilo. Entre a simpatia e a irritação.

Distante das calçadas nesta quarentena, quando saio para o abastecimento noto que o problema persiste, só que diferente.

Esgotadas por tanta notícia e redes sociais, e sempre carregando algo, as pessoas andam com os telefones menos à vista. As patotas perfiladas ao chefe, seja pelo trabalho remoto ou pelo isolamento social, diminuíram muito.

Porém, o não olhar por onde anda permanece. Agora olham para as unhas, olham para o chão, olham para o nada, fitam o vazio.

Claro que é impressão minha e admito que brota do meu sentimento íntimo, que vem da falta de horizonte.

Me sinto sufocado por não saber como e muito menos quando vamos sair dessa. Chego a invejar os encarcerados, ou pelo menos os que tem advogado e previsão de liberdade. Já me peguei até invejando a inconsciência e até a crueldade da turma da gripezeinha, do e daí?, do deixa morrer, quer que eu faça o quê?, morre mais gente engasgada do que vai morre por covil-19. A idiotice deve ser um lugar confortável.

Pensei em desencanar e ir aos bares clandestinos e agora oficialmente abertos por várias vezes, até já preparado, de máscara e tudo, ela que esconde muito da cara, mas não esconde a vergonha.

Sair para beber é partir para a incerteza, mas uma incerteza certa, voluntária, não imposta como a pandemia. Do primeiro nevoeiro a gente sai quando quiser. Este segundo, sem saída à vista, é angustiante.

Para me segurar, arranjei um antídoto, que por alguns momentos alivia a escuridão: contra a falta de futuro, o jeito é buscar o passado, as coisas que a gente sabe como termina. Textos e filmes antigos, principalmente os que a gente sabe quase de cór, são os melhores. Retratos de outras épocas também, com a vantagem de mandar para os amigos e conferir se as memórias combinam. Sei de gente que não sai do vale a pena ver de novo no canal Viva.

É paliativo, admito. Mas garanto que funciona. Enquanto não houver horizonte, retrovisor.

 

 
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Fico por aqui. Em casa

Desde ontem, ou antes, pensando no que fazer ante o novo protocolo paulista e paulistano, que permite a abertura dos bares, decidi que não vou. Mas não vou sob protesto.

Devoto da Democracia, sinto um pesar profundo em notar que não posso confiar no prefeito nem no governador. Tenho história pessoal com Bruno e João, mas no prefeito e no governador não posso confiar e recomendo que ninguém o faça. Reconheço que largaram bem quando o corona chegou. Mas se perderam.

Assim, sem norte e desgovernados, nos resta ouvir o que diz a ciência. E a entidade que fala por ela no momento é a OMS, cujo protocolo não recomenda abertura de bares na situação em que nos encontramos.

Se alguém sentiu falta do presidente da República nos comentários iniciais, explico: #elenão merece comentário. Cretino, mesmo calado – como passou a semana, a fim de assentar a poeira política para melhorar a situação do primogênito no Senado, que obviamente o expulsaria, entregando-o às barras da Justiça logo que solicitado fosse – consegue piorar a situação, como o fez no quatro de julho, indo brincar de caubói na embaixada dos Estados Unidos, ou vetando obrigatoriedade de uso de máscara em lugar fechado.

Com toda sinceridade, acho que dá para ir até a esquina, a pé, tomar uma meia cerveja na calçada, passando álcool no gargalo antes de tragar, com segurança. Acho mais: que faria muito bem a todos os confinados de mais de cem dias.

Inclusive fui aconselhado a ir. Um amigo sensato, quarentenado numa fazenda com os filhos, disse: alguém tem que ir para mostrar que dá para fazer com urbanidade. Concordo. Alguém tem que ir e dar uma resposta aos infelizes que foram matar e morrer no Leblon. Não vou. Mas se souber de alguém que foi e fez direito, cumprimentarei.

E aproveito para dizer duas coisas, em apelo a todos que reportam as notícias e opinam: nem todos que estão em bares, legal ou ilegalmente, estão festejando ou desprezando as dezenas de milhares de mortes. Todos temos mortos por velar, e é da cultura de muitos dos nossos fazê-lo em mesa de bar. Beber o morto. Derramar um gole “ pro santo” e lembrar das coisas boas. Então não misturemos zé festinha com quem emergir da quarentena e for até a esquina tomar fôlego.

Outra: parem de tratar por boêmio qualquer frequentador de bar. Noite e birita têm muito a ver com boemia, mas beber de noite não faz ninguém boêmio. Pode-ser ser boêmio e abstêmio. A boemia pode acontecer de dia. Mas disso fala melhor o Paulo Vanzolini. E eu fico por aqui. Em casa.

Tenho te visto chorando
Bebendo e se lastimando
Que não suporta essa dor
De sorrir me dá vontade
Porque falando a verdade
Que sabe você do amor?

Por um desgosto ligeiro
Desengano passageiro
Faz todo esse espalhafato
Que fará você amigo
Se a vida implicar consigo
Lhe der desgosto de fato?

Der um amor que não cansa
Sabe que é sem esperança
E a cada instante piora
Der uma dor que judia
Vinte e quatro horas por dia
Sessenta minutos por hora

Talvez então não dissesse
Que bebe pra ver se esquece
Que a madrugada o inspira
Você fazendo o que faz
Só mostra que quer cartaz
Que é um boêmio de mentira

Porque não é boemia
Trocar noite pelo dia
Beber com ar de tristeza
Ser boêmio é diferente
É viver liricamente
Padecendo com grandeza

 
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Amanhã tem bar; que fazer?

5 de Julho de 2020

Amanhã abrem os bares de São Paulo. Doente de saudades, não sei como proceder. Mas estou tranquilo na ignorância, posto que ninguém sabe, muito menos os governantes.

A abertura do Leblon foi emblemática. Custei a acreditar no que via. Mas não é exclusividade deles. Em Duque de Caxias foi igual ou pior: lugar fechado e lotado. O mesmo vale para Londres. Pubs repletos. LebLondon. E em toda parte deve ser assim. Em SP nem abriu e já é.

Seguimos sem qualquer protocolo para pessoa física além do veste máscara. Procuro inspirações. Da Inglaterra veio o exemplo bom do príncipe William. Foi cedo ao The Rose and Crown Pub, há seiscentos anos servindo aquele mel bom que matou o vigia. Pediu um copo de cidra, uma porção de batatas e traçou ao ar livre. Admitiu não saber como pagar mas prometeu que pagaria antes de se mandar para almoçar com Kate e as crianças.

Desta cena decorrem duas tentações: 1) ter um príncipe para criar protocolo pessoal (quem faz a regra na ilha é o governo, e seu chefe Boris Johnson precisou tomar na testa para parar de brincar de BolsoTrump); 2) me postar diante de um bar antigo de São Paulo amanhã, às 11h00, ver subir a porta e por lá ficar até as 17h00, horário em que supostamente todos encerrarão as atividades. O pub do príncipe é cem anos mais velho que a chegada do Cabral por aqui, mas temos nossas equivalências admiráveis.

A primeira tentação está resolvida, mas por prudência, por hoje evitarei contato com Helito Bastos e Cunha Bueno, meus amigos monarquistas. A segunda mais ainda. Vejo que o problema central das aglomerações vem do comportamento de manada. Todos querem estar juntos, e se tem uma coisa que deve permanecer no pós pandemia é o distanciamento social. Chega de zé festinha pedindo trago, falar pegando, conversar a menos de meio metro de distância. Chega de bar lotado com gente se esbarrando. Chega de avião com todo mundo batumado – e isto vale para todo transporte coletivo, notadamente o urbano. Resta saber como os negócios sobreviverão assim.

Para quem é do jogo, amanhã basta uma calçada, pouca gente querida e chope sob o sol. Temos centenas de lugares assim, um em cada esquina, não precisamos todos ir ao mesmo. Neste ponto é mais seguro, em São Paulo, abrir bar do que parque, porque destes temos poucos, raros, e o transporte público lotaria para trazer quem vive longe deles. Por Justiça, se não tem pra quem mora longe, não pode ter para quem mora perto. Quem não gostar da realidade, ajude democratizar a cidade antes da próxima pandemia.

Para democratizar precisamos pensar nas pessoas físicas. Porém, como se nota, só temos protocolo para pessoas jurídicas. Shoppings reabriram para não ter que negociar aluguel e condomínio com os lojistas. Há quem lute contra a quarentena com o argumento da manutenção de empregos, enquanto cinco bancos seguram o crédito para manter as pequenas e médias empresas, maiores empregadoras do Brasil. O governo federal admite que não sabe como acelerar o processo, que não alcançou 20% do disponibilizado, mas fez em poucos dias a multiplicação do caixa para os cinco bancos.

Pena é a gente não se tocar que os nossos problemas são crônicos, e a pandemia, aguda. O desemprego não chegou com ela, é morte anunciada há anos. De novo os bares e restaurantes: distribuidoras de energia estão cobrando as contas de luz pela média. O lugar, fechado, para conta equivalente ao consumo do mês correspondente no ano passado, quando estava aberto. Isto porque a medição é feita in loco. Medição de energia e água in loco em pleno 2020. Imagina o exército de empregados girando para conferir os relógios. Quando a tecnologia ficar mais barata que o trabalho, como já é no mundo desenvolvido, onde vão trabalhar essas pessoas? E o Iguatemi e as repartições da prefeitura e do governo? Continuam com ascensoristas ou os dispensaram por segurança sanitária? Como levar renda para essas pessoas? Via emprego não será.

A pandemia é gravíssima, mas nossos problemas são bem maiores e antigos. Reabrir agora deve cancelar mais CPFs do que salvar CNPJs. Vamos pagar pra ver? Da minha parte, não sei. Receio esperar quinze dias e perder o respiro psicológico, que é um salto mortal na escuridão em que estamos há meses. Não sei o que fazer. Alguém?

 
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Protocolo Moura Coutinho

Acabei de almoçar um bife com uma polegada de altura. Também teve arroz Biro-biro e salada com agrião. Agora estou no segundo uísque. Posso reclamar da quarentena? Em tais condições não devo. Mas posso.

A Marta Rocha pode reclamar do vice-campeonato mundial de beleza? Não deve. Mas pode. Claro que pode. Maldita polegada. Ou bendita, quem poderá afirmar?

Perto dos cem dias de quarentena, não aguento mais. Podia ter sido pior pessoalmente? Claro. Mas também podia ter sido melhor. E alguém tem que falar disso.

Esses cretinos que elegemos, sobretudo em 2018, falam abobrinha à vontade. Bolsonaro é o campeão mundial. Não tem polegada que lhe tire o campeonato. Rolou um meme onde o Trump o chamava de Juan Messias. Piada verdadeira. Dá até saudades de quando para o resto do mundo o Brasil não existia, nossa capital era Buenos Aires. Agora, graças ao Jair, somos famosos e bem conhecidos. O pior povo do mundo.

João Doria e colegas governadores nnao ficam atrás. Mais atrapalham do que ajudam. Ninguém sabe o que é pra fazer. Publicam números trocados, com lógicas trocadas. A mais recente é que mesmo com shoppings abertos o isolamento está mantido em 48%. Ridículos, quase inúteis 48%.

A atenção deveria ser para onde os 52% estão se encontrando. De um lado, pobres coitados condenados ao transporte público e trabalho chamado essencial. Do outro lado o velho champanhe da inconsciência descrito há décadas pelo nosso Rubem Braga.

Gente que vai ao Iguatemi passear. Passear em shopping, minha filha? Puta que o pariu! Tenho uma tia que tem loja lá. Estava naturalmente preocupada. É seu ganha-pão. Mas daí perguntam: está vendendo? E ela: na loja, não; as pessoas vêm, olham, e pedem pelo telefone, daí mandamos pelo Rappi.

E o pior de tudo é ver que os governantes, por nós escolhidos, por nós que somos esta Nação marginal, fracassada, infeliz, ingrata de um dos melhores territórios que a Natureza foi capaz de criar, esse governantes, que são nosso espelho, sequer falam de pessoas.

Falam de números de mortos. Falam de leitos de UTI. Tudo em números. Nada de pessoas. O governo federal até dos números não quer mais falar. Só fala por ordem judicial.

Mas falam de CNPJs. Querem salvar empresas. Como se empresas existissem sem gente. Como se tivessem razão de existir sem gente. É a vitória política da Faria Lima. O tal mercado, que ninguém sabe direito o que é ou pra que serve, vigorando em sua lógica fantasiosa.

Eu achava graça nos outros países se preocupando com o indivíduo. O governo da Holanda chegou a publicar manuais de masturbação, sexo on-line e a dica para cada qual escolher uma costelinha para agarrar de quando em vez. A Espanha votou por ampla maioria uma renda básica universal. Alemanha também meteu dinheiro nas pequenas empresas, que no fim das contas são empresários individuais. Portugal testou geral e já está aberta. Whuan e Coreia do Sul testaram dezenas de milhões e já podem brincar. Trabalhar sempre puderam. Igual a todo mundo.

Nova York, depois do susto, e mesmo com um imbecil seu filho desgovernando o país ali num estado vizinho, tomou medidas pelas pessoas. Caminhem pelas ruas. Fizeram ruas de lazer, sem carros, igual a nossa Paulista Aberta, para a turma desanuviar. Foi fundamental para manter o isolamento.

Quer dizer: seguiram a regra básica da medicina que é feita para as pessoas, não para o “setor” ou “mercado”: prevenir é melhor do que remediar.

Mas aqui, na pior Nação do mundo, na marginalia que nos tornamos, ninguém se lembra das pessoas. Cadê a recomendação para um passeio isolado? Cadê a informação ou protocolo para uma namoradinha? Para encontrar os amigos mesmo a distância?

Como não tem, cada um faz o que quer. Mesmo quem acha que está em quarentena não está. Visitam amigos, parentes, namoram. Uma blogueira disse que começou namoro pela internet e tudo bem com ela. Fez plástica no nariz durante a quarentena, limpou os hematomas, arranjou namorado e está trepando pessoalmente.

Então cada um que se vire. Brasileiro, você que lute. Ninguém está preocupado com a sua vida, assim como você cagou um balde para os demais. 50% desta Nação acha Bolsonaro bom, ótimo ou regular. Que dizer dum índice desse.

Por isso aqui vai meu protocolo pessoal: sair para caminhar está liberado. Quem tiver namoro, exerça. Quem não tiver, arranje. Comam e bebam o melhor dentro de suas possibilidades. E se acharem bar aberto servindo chope na calçada, bebam. Liberou. Liberou tanto que se estiver aberto às sete da manhã desta segunda-feira já pode.

Vocês que lutem, brasileiros. Esta é a síntese do protocolo Moura Coutinho.

 
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Já vão tarde

As reportagens sobre a cretinalha que foi aos shoppings são estarrecedoras. Filas, aglomerações. E os relatos de quem topou a visita são o retrato de uma sociedade doente.

Em São Paulo, no Iguatemi, um casal relativamente jovem, na casa dos trinta anos, falou à Folha. Foram comprar presente do dia dos namorados? Não, já o tinham feito pela internet. Mas então foram fazer o que? Bater perna, ué. Passear. E o distinto ainda emendou: agora que os shoppings estão abertos, ninguém vai me impedir de passear, afinal a economia tem que girar.

Não é uma besta? Foi ao shopping, não comprou nada, já tinha girado a economia pela internet, mas foi passear, se expor e expor os demais.

Bruno Covas e João Doria estão de parabéns. Irresponsabilidade sem tamanho. Desse jeito, não vamos sair disso tão cedo. E a confusão só aumenta. Numa semana, cogita lockdown. Na outra, relaxa a quarentena. Batendo recordes de mortes no estado e relaxa a quarentena.

Estamos perdidos. Essa gente que não gosta da cidade, não gosta de ninguém. Consta que vários estão se mudando para condomínios no interior. Com trabalho remoto, não precisarão morar nas cidades.

A verdade é que já não moravam. Nunca moraram em São Paulo, mas dentro dos seus condomínios, dos carros, eventualmente clubes e, claro, dos shoppings. Equipamentos que podem estar em qualquer lugar. Que diferença faz se está no melhor trecho da Faria Lima ou num quilometro qualquer de uma estrada no interior?

Espero que se mandem todos. E logo. Já vão tarde. Quando a tragédia passar, teremos uma cidade melhor, porque muito ajuda quem não atrapalha.

 
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Sem saída

Tenho comido banana ouro.  Cá na casa materna há uma cisão bananeira. Mamãe gosta da prata e, eu, da nanica. Já da ouro todo mundo gosta. Deve ser saudades da Rio-Santos. Mas todo mundo gosta. Principalmente os sabiás-laranjeira, bem-te-vis, sanhaços e os pardais imigrantes que vêm nos alegrar.

Minha vontade de rolar pelas calçadas passa pelas frutas. Ando enfurecido pensando no que tem de pitanga dando sopa por aí. E os cretinos que furam a quarentena o fazem de automóvel, como sempre, ignorantes aos tesouros encarnados no passeio. Nem pra isso servem.

Dizem que o corona não vigora nas coisas mais primitivas, como frutas, papelão etc. Entre erros e acertos, vão descobrindo que ele sobrevive nas coisas sintéticas que a gente inventou. Azulejos, metais, plásticos. Azulejos eu destaco pelo apreço ao sul europeu. Coisa bem bolada cujo valor, para além da beleza, damos mais valor quando começa a faxina.

Se é verdade, deve estar liberado comer pitanga no pé, sem lavar, como sempre. Meu avô Coutinho tinha mania de lavar as frutas, mesmo as descascáveis. E depois das frutas, as mãos. Aí tudo bem. Digo as mãos. Mas lavar mexerica? Ele lavava. Eu só lavo há três meses.

Vovô Coutinho, ou vovô Chico, era tisiologista. Salvou muito tuberculoso nos Sanatorinhos em Campos do Jordão. E mandava fazer tudo como está hoje em dia. Tossir na parte interna do cotovelo, lavar sempre as mãos, e ralhava com as netas que não seguravam os cabelos na hora dos ósculos de oi e tchau.

Mas não era radical. Liberava o dedinho no uísque a todos os netos. Que delícia era isso. Dedinho no uísque do vovô, florais de bá e espuma da cerveja do papai fazem parte da infância de todo bêbado. Como são baratos os primeiros porres. Tão baratos como gostosos.

A vida é boa, a gente é que estraga. Há passarinhos e pitangas por aí. Convergência bananeira. Tecnologias boas, como a azulejeira. Como copos de cristal. Gelo sólido dentro de um armário caseiro. Música. Não entendo por quê a gente insiste em estragar tudo. Pior: parece quem nem uma pandemia global educa.

Enfim, as filas que vemos nos shoppings indicam que o costume não vai mudar. Seguiremos estragando a vida. Paciência. Melhor beber. Sem pitanga, cachaça. Faltam dois pro meio-dia. Vai soar a sirene da Gazeta. Vamos nessa.

 
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