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Orgulho vira-latas

A imagem de um vira-latas mijando na foto de um candidato a cargo público, impressa num cavalete, como se a boca do distinto um mictório fosse, virou meme, viralizou e não poupou quase ninguém.

É claro que o vira-latas, notado pela cordialidade, teria evitado o drama se soubesse o que fazia, porque que ninguém merece ser tratado assim. Que diga o maior dos absurdos, não merece. Por exemplo, se um jornalista sugere que a substituição do povo brasileiro pelo povo japonês transformaria o Brasil numa potencia em até dez anos, e que sequer gostaria de pensar no que seria da ilha do sol nascente no mesmo período, e o presidente da República Federativa do Brasil avaliza o discurso, ainda assim nenhum dos dois merece acabar como o meme.

Melhor é responder com fatos. Pra começar: o Brasil concentra a maior quantidade de japoneses que escolheram viver fora do Japão. Me parece justo admitir que tal fenômeno só existe porque os japoneses gostaram de viver por aqui, onde criaram descendência, misturaram sangue, culturas e costumes.

Em São Paulo, onde está a maior colônia japonesa, o número de restaurantes de sushi e, mais recentemente, de izakayas, sugere a mesma coisa. E que bonitinho é saber que nos caraoquês da Liberdade uma das músicas mais pedidas é Ronda, do Paulo Vanzolini, que nos cartões para inscrição na fila vêm com o título grafado com H, ou Honda. Cena linda no documentário sobre o compositor.

O inverso é verdadeiro. Consta que Tóquio é a cidade com a maior quantidade de bares especializados em Bossa Nova no mundo. Quem é do jogo bem sabe que os japoneses adoram o clima de inferninho do Beco das Garrafas, fumaça, uisquinho, banquinho, batidinha no violão.

Essa beleza a gente deve cultivar. Igual a tudo na vida há coisas boas e ruins tanto na cultura brasileira quanto na japonesa. Podemos ter o melhor de ambas.  Ufanismo é uma face da burrice, na mesma medida que é cretino seu oposto, ou o desprezo pela própria gente. Não surpreende que andem juntos no pensamento do capitão Jair e do sargento Garcia, que vão sem pudor do “Brasil acima de tudo” ao “povinho ordinário”.

Que fase! Mas apesar dela, há indícios que que eles não passarão. Os cães vira-latas estão por aí, cada vez mais queridos e admirados pelo borogodó natural, que só a salada genética batida ao longo dos tempos consegue entregar.

Se depois da vitória canarinha copa de 1958 o Nelson Rodrigues decretou o fim do complexo de vira-latas, gosto de pensar que estava certo, e nos anos seguintes demos um salto cultural que encantou o mundo.

Vinícius e Baden botaram a Europa de joelhos com os afro-sambas. A Bossa Nova, com João Gilberto, Tom Jobim e outros bambas se tornou o ritmo a América do Norte. Niemeyer e Portinari entregavam o prédio da ONU. JK inaugurava Brasília. Anselmo Duarte e Dias Gomes tiravam Palma de Ouro em Cannes com o Pagador de Promessas. Eder Jofre nocauteava quem desafiasse o Brasil. Jango abria conversa com a China e o planeta inteiro se embasbacava com a beleza de Maria Tereza Goulart. Todos vira-latas que confirmavam o Nelson: o complexo dava lugar ao orgulho da raça não definida.

Mas daí os Estados Unidos se assustaram, acionaram uns cachorrinhos de carpete de caserna por aqui, e submeteram o Brasil à ditadura militar que acabou com tudo, nos condenando, com apoio de meia-dúzia de entreguistas endinheirados, a vinte anos de atraso, cujo osso ainda roemos.

É de amargar ver a história se repetindo, com um capitão inconsequente, um sargento esperto e mais meia-dúzia de terraplanistas nos conduzindo de volta ao complexo de inferioridade. Há de ser um engasgo.

 
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Orgulho vira-latas

A imagem de um vira-latas mijando na foto de um candidato a cargo público, impressa num cavalete, como se a boca do distinto um mictório fosse, virou meme, viralizou e não poupou quase ninguém.

É claro que ninguém merece ser tratado assim. Que diga o maior dos absurdos, não merece. Por exemplo, se um jornalista sugere que a substituição do povo brasileiro pelo povo japonês transformaria o Brasil numa potencia em até dez anos, e que sequer gostaria de pensar no que seria da ilha do sol nascente no mesmo período, e o presidente da República Federativa do Brasil avaliza o discurso, ainda assim nenhum dos dois merece acabar como o meme.

Melhor é responder com fatos. Pra começar: o Brasil concentra a maior quantidade de japoneses que escolheram viver fora do Japão. Me parece justo admitir que tal fenômeno só existe porque os japoneses gostaram de viver por aqui, onde criaram descendência, misturaram sangue, culturas e costumes.

Em São Paulo, onde está a maior colônia japonesa, o número de restaurantes de sushi e, mais recentemente, de izakayas, sugere a mesma coisa. E que bonitinho é saber que nos caraoquês da Liberdade uma das músicas mais pedidas é Ronda, do Paulo Vanzolini, que nos cartões para inscrição na fila vêm com o título grafado com H, ou Honda. Cena linda no documentário sobre o compositor.

O inverso é verdadeiro. Consta que Tóquio é a cidade com a maior quantidade de bares especializados em Bossa Nova no mundo. Quem é do jogo bem sabe que os japoneses adoram o clima de inferninho do Beco das Garrafas, fumaça, uisquinho, banquinho, batidinha no violão.

Essa beleza a gente deve cultivar. Igual a tudo na vida há coisas boas e ruins tanto na cultura brasileira quanto na japonesa. Podemos ter o melhor de ambas.  Ufanismo é uma face da burrice, na mesma medida que é cretino seu oposto, ou o desprezo pela própria gente. Não surpreende que andem juntos no pensamento do capitão Jair e do sargento Garcia, que vão sem pudor do “Brasil acima de tudo” ao “povinho ordinário”.

Que fase! Mas apesar dela, há indícios que que eles não passarão. Os cães vira-latas estão por aí, cada vez mais queridos e admirados pelo borogodó natural, que só a salada genética batida ao longo dos tempos consegue entregar.

Se depois da vitória canarinha copa de 1958 o Nelson Rodrigues decretou o fim do complexo de vira-latas, gosto de pensar que estava certo, e nos anos seguintes demos um salto cultural que encantou o mundo.

Vinícius e Baden botaram a Europa de joelhos com os afro-sambas. A Bossa Nova, com João Gilberto, Tom Jobim e outros bambas se tornou o ritmo a América do Norte. Niemeyer e Portinari entregavam o prédio da ONU. JK inaugurava Brasília. Anselmo Duarte e Dias Gomes tiravam Palma de Ouro em Cannes com o Pagador de Promessas. Eder Jofre nocauteava quem desafiasse o Brasil. Jango abria conversa com a China e o planeta inteiro se embasbacava com a beleza de Maria Tereza Goulart. Todos vira-latas que confirmavam o Nelson: o complexo dava lugar ao orgulho da raça não definida.

Mas daí os Estados Unidos se assustaram, acionaram uns cachorrinhos de carpete de caserna por aqui, e submeteram o Brasil à ditadura militar que acabou com tudo, nos condenando, com apoio de meia-dúzia de entreguistas endinheirados, a vinte anos de atraso, cujo osso ainda roemos.

É de amargar ver a história se repetindo, com um capitão inconsequente, um sargento esperto e mais meia-dúzia de terraplanistas nos conduzindo de volta ao complexo de inferioridade.

 
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Harmonia nota dez

Entre a turma que conversa sobre comida há alguns que falam muito em harmonização, ou como combinar ingredientes que vão virar pratos, e então os pratos com as bebidas e por aí vai. De vez em quando rola uma surpresa boa.

Ando meio implicado com a palavra no contexto das comidas, mas como vou falar de gente e de carnaval, harmonia cai muito bem. E para juntar os dois temas, agradeço especialmente meu amigo e sommelier de blocos Marcelo Casarini.

E que beleza de harmonia está o carnaval de São Paulo. Ver a gente pela rua, brincando folgada por lugares históricos que não costumam visitar nem de carro, e se misturando com as pessoas que vivem no local, é harmonia perfeita, delicia de ver e viver.

Tenho acompanhado tantos blocos quanto a saúde de alguém que já dobrou a serra pode aguentar. Alguém poderá dizer que é mera dedicação à folia. Admito. Mas tem mais. Para além do folião há alguém apaixonado pela rua, especialmente pelo centro e os bairros velhos do seu entorno, que os antigos chamam de “cidade”, termo que eu adoro e uso, e passear pela cidade em meio a um cordão com centenas de pessoas, literalmente no meio da rua, tem sido um deleite. Afinal, a cidade é a gente.

Sábado pelo Delta Histórico, saindo do Páteo do Colégio, flanando o bloco pelo calçadão, terminando na Praça Antonio Prado entre o nosso coreto e o mergulho da linda São João. Domingo com concentração na Praça Vladimir Herzog, brincadeira pelas ruas do Bixiga, turma abrindo alas para o trânsito pedestre local, gente assistindo e festejando o cortejo das janelas dos sobrados, dispersão na Praça da Bandeira, que por um momento pareceu se de novo praça.

Entre os foliões, alguns fantasiados, outros vestidos de mulher, conforme a tradição. E principalmente mulheres vestidas de mulheres, com a roupa que querem, sem receio de serem importunadas pelo que escolheram usar.

E tantos artistas. Quanta gente aprendeu tocar algum instrumento para doar talento para a festa, como o  próprio Casarini, que carrega a tuba para nossa alegria. Outras tantas treinam números, pernaltas, malabares, fantasias. Tudo de presente para a gente.

Único conflito registrado é o da desigualdade que nos maltrata. É carnaval mas ela está lá, com os barões famintos vivendo sob as marquises. Mas de alguma maneira a festa pela rua, sem a famigerada corda, tem o condão de aplacar a distância, ainda que naquele instante.

Chamam de ilusão, eu sei. Dizem que vai acabar numa quarta-feira, sei também. Mas estar todo mundo junto e misturado, na rua, cantando as nossas marchinhas, nossos sambas e pagodes, é a nossa cultura, nosso patrimônio universal, imaterial, atemporal, real, que nos harmoniza e oferece um caminho, uma chance de Nação.

É bonito, é bonito. Harmonia nota dez. Entra no cordão. Vem brincar o carnaval.

 
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Blue Jasmine / SP

Monica Bergamo é um colosso de repórter. Na coluna de hoje na Folha de S. Paulo trouxe dados sobre o ainda inédito Censo da Prefeitura, que só amanhã terá a íntegra publicada. Insisto: não é pouco inédito. Conversei com membros dos primeiros escalões e ninguém ainda leu os dados todos.

Pelo que a Folha antecipou, o Censo traduz em números o que se vê pelas ruas da cidade. Ah se esta nossa freguesia, o centro expandido, descesse do jipe para um passeiote na calçada… Ou pelo menos baixassem os vidros de vez em quando. Veriam uma cidade absolutamente deprimida.

Vamos aguardar o levantamento completo, mas já dá para dizer que os números espelham a tristeza que está nas ruas: entre 2015 e 2019 a população desabrigada cresceu 60%, de 15,9 mil para 24.344.

Sou pedestre e ando a pé inclusive por lugares e em horários que a maioria das pessoas das minhas relações não recomenda. Aliás, eu também não recomendo, sobretudo em se estando só. Mulher então, nem pensar. E penso que o risco físico é até baixo perto do emocional. Mas eu nasci assim e não sei viver de outro jeito. É como que vital para mim ver de perto como estão as coisas no meu entorno.

A nota que encerra o furo da coluna fala dos motivos que levaram tantos dos nossos concidadãos ao relento: “conflitos familiares, falecimento de parentes, drogas e problemas de saúde (como depressão). Alguns são egressos do sistema prisional.”

Me pegou o “conflitos familiares” em primeiro lugar na nota. Se foi aleatório ou obedece aos números do Censo, nem meus contatos na Prefeitura souberam dizer, nem a coluna pôde antecipar. Aguardemos, pois. Mas tenho um palpite.

Pelas piadas sobre grupos de família no whatsapp e constrangimentos na ceia de Natal entre pessoas que vivem confortavelmente, pode-se imaginar o prejuízo social que o estresse político atual provoca em quem tem um só cômodo para a família toda, muitas das vezes no fundo de um quintal úmido e pouco arejado. Quem pode afirmar que não prefere uma marquise na República do que passar o dia encarando o tio do whatsapp?

Sei de casais que não se reconhecem mais. Marido falava exclusivamente sobre bolsa, golfe, futebol, vinhos, automóveis e viagens. Há alguns anos passou a dar opinião política e a mulher constatou que casou-se e teve filhos com um reaça. Imagina.

Sei de parentes, pais e até mães de mulheres e gays que, sem qualquer pudor, reconhecimento, ou sequer preocupação, aplaudem as declarações tresloucadas sobre costumes das autoridades eleitas. Pior: há cada vez mais gente confortável em censurar crenças, orientação sexual, comportamento de seus entes. Para quem não tem couro muito grosso só pode ser insuportável.

Preciso encerrar mas não sem antes falar de drogas e depressão. Quantos amigos partiram para o oito ou oitenta, abstinência total ou porre emendado? E os psicanalistas e psiquiatras? Nem eles estão aguentando. Pergunte ao seu. Então imagine como seria se esta paróquia não pudesse pagar pelo tratamento. São Paulo seria um Blue Jasmine abissal.

 
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Esperteza demais

Como manda o folclore nacional, frases brilhantes são atribuídas à sabedoria da política mineira. Uma delas é: quando a esperteza é demais, vira bicho e engole o dono.

O caos em Belo Horizonte e outras diversas cidades merece atenção e ajuda do Brasil inteiro. Até porque, para além da solidariedade, ao ajudar também se aprende, e o que acontece agora por lá pode acontecer em qualquer outra cidade que, tais quais a capital mineira, retificaram rios, canalizaram córregos e impermeabilizaram o solo durante o delírio automotivo que marcou o século 20.

Outra frase brilhante que serve para entender o que acontece é do Bretch: “Do rios que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem.” Serve também como que sob medida para a raiva no olhar da Greta.

Mas o que eu queria dizer é sobre a primeira frase. Seja na vida pública ou na iniciativa privada, esperteza demais é perigosa. Há possibilidade de consertar as coisas, admitindo maus-passos, fazendo autocritica, mas até pelas dimensões que a vida pública implica, tudo se torna mais delicado.

O caso atual mais emblemático e vexatório de esperteza exagerada é o do governador de São Paulo João Doria. O Datafolha de cinco de janeiro mostrou que, dos brasileiros que julgam conhece-lo bem, 69% dizem que é pouco confiável e escassos 7% o consideram confiável o bastante.

A trajetória é impressionante. Há três anos de volta à vida pública, Doria conseguiu destruir pontes com grande parte dos aliados que nele confiaram. Destaque para o padrinho Geraldo Alckmin, o ex-governador Marcio França atacado até no plano pessoal, membros do primeiro secretariado na breve passagem pela Prefeitura e a própria população paulistana. Jair Bolsonaro é desnecessário citar, ambos se merecem.

Somos amigos de longa data por relações familiares e depois própria, inclusive profissional, e estou entre os que acreditaram que João se adaptaria à vida pública. Foi um dos maiores equívocos que já cometi.

Já na transição entre a eleição em 2016 e a posse como prefeito em 2017, notei que o candidato, que ouvia os voluntários dos grupos de trabalho para elaboração do Plano de Governo, não passava de um avatar. Aguardei movimentos mais determinantes, até porque reconheço que de bobo ele não tem nada, mas tais movimentos vieram e a relação política se tornou impossível.

De novo, o que impressiona é que ele não aprende. Para ficar em um só exemplo, agora em fevereiro será o aniversário de um ano do anúncio do fechamento da fábrica da Ford em São Bernardo do Campo, onde Doria se intrometeu e anunciou que seria comprada pela brasileira CAOA. Com o perdão do jogo de palavras, era caô, finalmente admitido pelos envolvidos no último dia 23. Dado o fiasco, o governador, esperto, tratou de se afastar.

No Valor Econômico as repórteres Marli Olmos e Malu Delgado explicam o caso.

É muito, muito grave. Negociações com tamanho impacto na vida e expectativas de milhares de trabalhadores e suas famílias, bem como no andamento do mercado financeiro, são ultra protegidas por cláusulas de confidencialidade. O governador do maior estado do país atropelar regras é gravíssimo.

Em artigo publicado hoje na Folha vem o governador exaltando o Estado Mínimo. Com todo respeito a quem reza a cartilha liberal, o lessefér radical, lembro que sem o mínimo de regulação, pactos e regras claras, freios e contrapesos, nem a selva é possível. Talvez só um deserto desses apresentados nos filmes de fim dos tempos.

Para encerrar, apesar do bananal, ainda temos algum Estado, e a Comissão de Valores Mobiliários, ou CVM, é parte dele, autarquia diretamente ligada ao Ministério da Economia. Porém, diante do caso, salvo engano, se mantém em silêncio.

 
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Existe carinho em SP

Namorei bastante nossa cidade no seu último aniversário. Apesar dos pesares e das damares, não posso reclamar da vida, espacialmente depois de um sábado como o último 25 de janeiro.

Levantei cedo, li, escrevi, tomei café. Perto do meio-dia tomei um ônibus para não suar na subida da Brigadeiro e já na Paulista andei até o Instituto Moreira Salles, onde a família do fotógrafo Peter Scheier abria a exposição do seu arquivo.

Scheier era judeu-alemão, casou-se um uma alemã-católica e juntos escolheram viver em São Paulo. Era fotojornalista, mas por tão talentoso não escapou de ter a obra reconhecida pelo valor artístico. Viajou o mundo registrando e eternizando a beleza instantânea.

De lá caminhei até o MASP para fazer o caminho do córrego Saracura até o Bixiga, o Vai-Vai, onde Dona Onça preparava a feijoada da Educação. Literalmente o couro comeu e comemos os couros. Feijoada raiz, com todos os fetiches, pé, orelha, rabo, as partes que fazem grudar os beiços. E tome cachaça da Laje.

Tem jeito melhor de passar o aniversário do nosso chão? Abraçar os amigos, Casarini, Reis, Jana, Walerio, Marcinha, Amanda, Rangel, Olga, Will, Sâmia, Niltes.

Como seu eu merecesse, São Paulo ainda nos deu mais. Subimos para a Praça do Ciclista, cume do espigão donde se vê a Serra, e onde uma francesa reuniu paulistanos de lugares diversos com coletes coloridos e todos os metais de sopro para brincar o carnaval.

Temos muito motivos para a tristeza hoje em dia, mas também tem muito carinho por aí, daquele jeito que o Antonio Maria não sabia descrever mas sabia que existia por aí, ou pelo menos supunha que já havia existido. Maria querido: tem carinho por aí sim. E é só com ele que podemos seguir em frente.

 
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Ponto pro PaGue

Nem só de patacoadas foi o passeio do ministro PaGue em Davos. Teve a bobagem de relacionar a destruição do meio ambiente com a fome dos pobres e, para citar um exemplo brasileiro de criatividade, a lembrança de Santos Dumont.

É claro que o Pai da Aviação merece a memória, mas para seguir no mesmo tema seria melhor que o ministro lembrasse que a política econômica atualmente praticada, continuidade de Dilma2/Levy, entregou 80% da Embraer de bandeja para a Boeing por um preço próximo do que o hotel Copacabana Palace pegou por um pacote de bens na mesma época, respectivamente 4,2 e três bilhões de dólares.

Apesar dos pesares, é justo reconhecer que o ministro marcou um ponto ao declarar a intenção do governo em avançar na adesão ao Acordo Internacional de Compras Governamentais, grupo que reúne perto de cinquenta países ricos e alinhará o Brasil automaticamente às melhores práticas de concorrência e qualidade de produtos e serviços, mercado estimado em 1,7 trilhão de dólares.

Jogador relevante com aproximadamente cinquenta bilhões de reais em compras anuais só da União, e até R$ 150 bilhões contando estados, municípios, autarquias, fundações etc., o Brasil tem a muito a ganhar aderindo ao acordo, do qual se tornou observador em agosto de 2017 sob Michel Temer.

É de amargar ver como gastamos mal o dinheiro público. Móveis, por exemplo. Numa visita rápida a qualquer repartição pública, nota-se a péssima qualidade dos equipamentos. Materiais de quinta categoria que compramos sob o falso cuidado em escolher o menor preço. Daí que uma cadeira vai durar dois, três anos, tendo que ser substituída. O mesmo vale para asfalto, merenda, armamento, aparelho de raio-x. Não é difícil imaginar a quem interessa. Mas em caso de dificuldade, basta prestar atenção em quem vai reclamar.

 
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SP466

Sábado, 25 de janeiro de 2020. Aniversário de 466 anos da cidade de São Paulo. Amanhecemos com chuvinha criadeira, que é a garoa que tem pra hoje. Logo mais deve esquentar, para depois refrescar para aquém dos vinte graus. Mais paulistano clima, difícil.

A primeira fatia do cuscuz só pode ir para o cacique Tibiriçá, a quem devemos este chão. Das duas, uma: ou és tu descendente do nosso Martim Afonso, mameluco portanto, ou não és paulistano. Não importa a qual tempo você ou seus ancestrais chegaram.

Da amizade entre Tibiriçá e o português João Ramalho, coroada no casamento com Bartira, que fez os amigos sogro e genro, nasceu a diplomacia tupiniquim, que depois de quase 500 anos ainda frutifica. Por aqui todos que chegam podem escolher entre serem abraçados ou expelidos. Vá lá, perfeito não é. Mas quem supor que faria melhor, ou puder apontar outro lugar mais diverso, que se atreva a lançar a primeira flecha.

São descendentes diretos de Bartira e João Ramalho a rainha Silvia da Suécia e o ex-deputado João Paulo Arruda Filho, também conhecido como Zumbi, atual pataxó no sul da Bahia.

O enraizamento da nossa diversidade sem igual pode ser conferida na relação dos alcaides escolhidos desde a redemocratização. Segura a montanha russa: Jânio (o louco), Erundina (nordestina e mulher, a terceira eleita para governar uma capital), Maluf (deixa pra lá), Pitta (negro, carioca, poste), Marta (aristocrata, sexóloga, loira de olhos azuis), Serra (tecnocrata-progressista), Kassab (deixa pra lá 2), Haddad (poste-professor-galã-humanista), Doria (deixa pra lá 3).

Creio que acertamos mais do que erramos, não só em eleições, mas em tudo. Ainda há muito pela frente, e notadamente as desigualdades gritam e nos ofendem 24/7. E é justamente por isso que é imperioso vigiar e resistir, ou manter o legado de Tibiriçá, que significa “vigilante da terra” ou “olhos das nádegas”. Isto é, sigamos em frente sem descuidar da retaguarda.

Até porque não faz dois dias que um infeliz, que ocupa o posto mais importante do país, dizia: “O índio mudou, tá evoluindo. Cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós.”

Paulistano e orgulhoso da nossa ancestralidade indígena, não vou sossegar enquanto esse tipo de cretinice encontrar eco na sociedade. Aqui em Piratininga não, presidente. Por aqui covardes como você não arranjam papel sequer dentro do caldeirão.

 
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Harry e a incerteza

Lá se vão uns quinze anos. Morando na praia, mais submetido à natureza e com muito tempo livre, fui passear nas nuvens e voltei com um palpite: a vida boa é um misto de êxito e fracasso, como o ciclo entre a primavera e o outono, fases da lua, marés, as garças e gatos que ressurgiam folgando em harmonia num gramado ensolarado depois de noventa dias de chuva sem parar.

Mais recentemente soube que há um filósofo francês contemporâneo chamado Charles Pépin que defende as virtudes do fracasso. Ele parte das biografias de pensadores que tropeçaram muito até terem êxito, e também cita invenções e outros casos de gente que tomou muito caldo antes de chegar na praia.

Se a ideia é original pouco importa. Os velhos marinheiros já diziam que entre eles os bons são os forjados em mar grosso. Mas a ideia é boa.

Não encontro o meu original. Mas lembro que um dos argumentos era minha aflição sobre a vida dos príncipes. Deus me livre de algo tão programado. Excitante e enriquecedor me parecia a trajetória do jovem príncipe russo do Scott Fitzgerald de Love at Night, que foge da revolução e vai ser taxista em Cannes, onde… Leiam.

Também me animava a possibilidade de abalar a crença de que a chamada civilização nos permite controlar os acontecimentos, traçar planos exatos, administrar até a natureza. Hoje vemos no que deu.

Levamos milhares de anos para separar os mitos da razão e, na empolgação, perdemos a freada, desprezando as ironias do destino, os fenômenos naturais que, ao cabo, nos fazem pessoas melhores, exatamente como o outono alimenta a primavera, que retribuiu com flores, folhas, frutos, sementes. Exatidão e previsibilidade deixaram o mundo sem graça, fertilizando o solo para a volta dos mitos.

Tudo isso para dizer que Harry é quem brilha. Se ele quer estar com Meghan e Archie, e não se sentem bem sob as pedras dos palácios da Coroa, adeus Pátria e Família e olá incerteza. Bora viver a vida.

Desejo com fervor que tenham pela frente a vida mais gostosa e rica possível, com todas suas aflições, surpresas e alegrias. Peito aberto e avante.

Só lamento pelo querido Charles, meu predileto na Casa de Windsor. Primeiro na linha sucessória, por dever não poderia largar tudo e viver entre as belas pernas de Camila, ao que tudo indica, seu grande amor. Se The Crown for 50% real – sem trocadilho –, ele bem que merecia largar o jaquetão e partir para a incerteza.

 
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Gripe

Chama-se República Oriental do Uruguai aquele pequeno grande país ao leste do extremo sul da América Latina. Por dentro, porém, nada há de extremo. Como o Pompeu de Toledo tão bem desenhou numa Veja recente, com a última eleição para a Presidência terminada com menos de 1% de diferença entre os concorrentes, estes foram juntos, literalmente abraçados, à posse do novo governo argentino durante a transição dos mandatos.

Do lado de lá do Atlântico, no extremo oeste da Europa, encontramos nossa Terrinha querida, Portugal, porto do Mar Sem Fim, onde a cena política também vai bem, obrigado, com extremismos afastados e a Geringonça navegando em mar de azeite, como diria o Amyr Klink.

Não sem razão alguém poderá dizer do inconveniente de tomar como exemplos primeiro um país com população equivalente a da Zona Leste da capital paulista, depois outro com metade da população da Grande São Paulo. Mas também é verdade que em política tais armaduras inexistem, tanto é que Portugal e Uruguai, tendo o primeiro o triplo da população do segundo país, conseguem harmonia e urbanidade nas questões públicas. Quer dizer: se a harmonia pode escalar de três para dez milhões, por que não para duzentos, trezentos milhões de pessoas?

Sinceramente não vejo impedimento, porém confesso desalento. Estou cansado. Muito. Diante dos fatos das grandes nações, quando um sopro de otimismo me acomete, desconfio de uma gripe emocional, ou minimamente o equivalente a um resfriado que a gente pega quando dá mole para um vento nas costas. Este velhinho já não pode com friagem física, e muito menos emocional.

Ler o Amanhã Vai Ser Maior, vitamina C pura em forma de livro da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, anima. É um acalanto a pesquisa da professora, serena a alma e aponta caminhos, mas então a gente sai na rua e parece tudo tão distante… Volto a espirrar. Haja lenço.

Lá nos Estados Unidos as coisas caminham para que se renove o contrato do atual inquilino da Casa Branca por quatro anos. Sem dúvida ele tem seus ardis e encontra eco na sociedade até para além dos muros que gostaria de erguer. Mas minha impressão, e incompreensão, é sobretudo com o lado adversário.

Donald Trump constrangeu e praticamente impôs a nada menos que 40% de congressistas do partido Republicano aposentadoria precoce. Sem disposição para bajular o maluco, nem condições para seguir vida pública contrariando o gabinete mais forte do mundo, abandonaram a ágora. E como em política não há espaço vazio, obviamente foram substituídos. A qualidade da “renovação” esta freguesia pode imaginar, até porque exemplos aqui no Brasil não faltam.

Do outro lado, entre os Democratas, donde era de se esperar uma oposição serena, é que não sai nada. Se parece desejável e racional que tentassem uma ponte com os 40% de republicanos moderados, o que se encontra é a tradicional carnificina fratricida das eleições primárias.

Como nos contou o Roberto Simon recentemente na Folha, num evento de campanha Joe Biden foi perguntado sobre a possibilidade de composição com um republicano. Com jeito, o pré-candidato ficou de considerar, mas sem convicção. Jogando a bola para os republicanos, disse que o gesto deveria partir deles. Ato contínuo, seu primeiro adversário nterno, Bernie Sanders, aproveitou para surfar dizendo que, com ele, jamais.

Quem fez “a pergunta de New Hampshire” relatada pelo Simon foi uma senhora que verbalizava uma questão colocada por seu filho. Isto é, duas gerações e dois gêneros distintos convergindo. Mesma família? Sim. Mas isso ajuda ou atrapalha? Como estão as relações no grupo de WhatsApp da sua?

Porém não se anime, freguesa. Mesmo com Trump do outro lado, e tendo mais bons nomes para apresentar, como os das senadoras Amy Klobuchar e Elizabeth Warren, ou até do ex-prefeito Michael Bloomberg, ao que tudo indica os democratas chegarão ao final do ano em frangalhos.

 
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