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O horizonte tucano pode ser definido em 2020

Em São Paulo, prefeito não se reelege. Nunca se reelegeu. A ressalva seria Gilberto Kassab (PSD) em 2008. Mas não conta, dado que ficou no posto pela aprovação da administração José Serra (PSDB), e quando resolveu fazer a sua, derreteu.

Na eleição de 2016 João Doria (PSDB) derrotou o então prefeito Fernando Haddad (PT) no primeiro turno. Era o começo da onda de renovação política e o auge do antipetismo no Brasil – o impeachment de Dilma Rousseff (PT) data de 31 de agosto e as eleições municipais ocorreram no dois de outubro. O fenômeno, batizado como Onda Azul, favoreceu Doria e o PSDB.

Em 2018 Doria seria de novo testado nas urnas, disputando o governo do estado, e levou uma surra dos paulistanos. Na capital, perdeu para Marcio França (PSB) por 58,1% a 41,9%, diferença de quase um milhão de votos.

O prefeito atual é Bruno Covas (PSDB), eleito vice em 2016 e empossado em 2018 com a renúncia de Doria. Para concorrer à reeleição em 2020, está posto que não poderá contar com o passado nem com o presente – se prefeito paulistano nunca se reelegeu, fica ainda mais difícil tendo 56,7% de desaprovação, 42,1% de ruim e péssimo e nem dois dígitos na pesquisa estimulada (Paraná Pesquisas Abr2019). E a projeção do futuro é ainda pior.

Em 2016 o PSDB ainda estava distante da Lava Jato, que só agora chega a São Paulo e, de largada, condenou Paulo Preto, apontado como operador tucano, a emblemáticos 145 anos de prisão (no Rio, o governador Sérgio Cabral, topo da cadeia alimentar, pegou 170 anos). A tendência é que os processos paulistas avancem daqui pra frente.

A concorrência deve ser bem mais dura que a de 2016. Naquele então, partidos simpáticos ao eleitorado tucano estavam coligados em torno de Doria, não lançaram candidato ou não existia, caso do DEM, do Novo e do PSL, respectivamente.

Em 2020 será diferente. O DEM sai da reforma da Previdência como namoradinho do mercado. O Novo agora tem tempo de televisão, é forte nas redes sociais, na militância e terá candidato. O PSL tem a presidência da República, um dos dois maiores tempos de televisão, um moinho nas redes sociais, capacidade de mobilização de rua comprovada e terá candidato.

O eleitor tradicional do PSDB, o tucano “raiz”, pode se sentir atraído a votar no neto de Mario Covas. Mas os problemas intraninho, notadamente os causados pela hegemonia doriana, o empurra para alternativas que estarão nas urnas, como Andrea Matarazzo (PSD), amigo pessoal da alta plumagem, Marcio França, vice fiel de Geraldo Alckmin (PSDB), ou ainda uma alternativa que surja pelo PV, Rede, Podemos, Cidadania, PMDB.

Enquanto isso os partidos de oposição trabalham para formar consensos pragmáticos. Para ser forte em SP, o PT estaria disposto a abrir mão do Rio de Janeiro e Porto Alegre para o PSOL.

Para além disso tudo, o governo Bruno Covas ainda carece de uma marca, e a aposta não poderia ser mais desastrada. Pelo cronograma apresentado, o prefeito parece acreditar que entregar o Parque Minhocão lhe renderá votos. A mim parece o justo inverso.

Os partidários do parque têm perfil mais descolado, são bicicleteiros, ativistas pela ocupação da cidade, entusiastas do uso do Centro para lazer, todos distantes do PSDB. Entre os que querem derrubar o elevado há um grupo mais conservador, que quer de volta a Avenida São João, árvores no chão e calçadas ensolaradas cheias de gente; e o grupo reacionário, especialmente incomodado com pessoas fazendo festa na porta de casa e revoltado com a mudança do nome para presidente João Goulart.

Contra todos eles há uma vasta maioria carro-dependente, que quer acelerar. João Doria sabia disso, operou contra o uso do Minhocão pelas pessoas, aumentou os limites de velocidade nas marginais, fez dois muros paisagísticos para quem passa de carro (na 23 de Maio e na Marginal Pinheiros), ambos fracassados, e ralou R$ 400 milhões numa plataforma eleitoral chamada Asfalto Novo – sem a qual, seu desempenho na eleição de 2018 teria sido ainda pior, é a triste realidade.

Como se não bastassem todas essas dificuldades na disputa pelo Executivo, com a última reforma eleitoral, em 2017, acabou a possibilidade de coligações proporcionais, no caso a chapa de vereadores. Não há sequer um tucano puxador de votos na Câmara ou identificável nos quadros da legenda.

Entre os tucanos mais votados em 2016, o primeiro foi Mario Covas Neto, tio do prefeito, que se mudou para o Podemos. O segundo mais votado foi Eduardo Tuma, atual presidente da Câmara, mas distante do partido e com reputação de ruborizar malufista. Então vem Patrícia Bezerra, que tem voto de nicho e se indispôs com João Doria quando da famigerada intervenção na Cracolândia, deixando a secretaria de Direitos Humanos. A lista segue com outros representantes, divididos entre os que têm voto de nicho ou curral. Com voto de opinião, ninguém com expressão eleitoral ou exercendo bom mandato.

A perspectiva é ruim para a próxima bancada tucana na cidade onde o partido nasceu há 32 anos. Na Assembleia Legislativa, mesmo com o PSDB tendo terminado o primeiro turno de 2018 em primeiro lugar, de dezenove deputados restaram apenas oito, sendo só um da capital. E para eleger Cauê Macris presidente da Casa, tiveram que trabalhar uma aliança com o arquirrival PT, fato que será explorado pelos adversários.

O resultado das urnas em 2020 em São Paulo deve determinar o horizonte do partido no plano nacional. Poderá ser uma das legendas aglutinadoras pós cláusula de barreira e fim das coligações, ou perecerá? Voltará ao velho mandabrasa ou será o novo PMDB? Ao que tudo indica, já não basta ao PSDB uma autocritica ou revisão programática.

 
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O Novo e a Nova Previdência

Desde as tentativas no governo Temer venho escrevendo que a reforma da Previdência é paliativa e que, antes dela, deveríamos fazer a reforma política, rever o pacto federativo, a partir dele fazer a reforma administrativa, a tributária e só então mexer na Previdência, já de acordo com a nova conjuntura. Perdi. Paciência. Estou acostumado.

Lamento não só pelo tempo como pela forma que foi feita, pesando mais sobre os mais pobres, com militares em separado, manutenção de privilégios para grupos da base eleitoral do governo e o despudor do próprio Presidente em bancar o lobby para policiais federais.

Mas reconheço que tem muita gente em Brasília empolgada com a Nova Previdência como está e por convicção. Gente séria que acredita, inclusive, no regime de capitalização ao modelo chileno. Discordo mas mantenho contato e prosa saudável. O advogado do diabo tem o condão de verificar nossas ideias e, melhor, trabalha pro bono.

Entre as bancadas mais empolgadas com a Nova Previdência está a do partido Novo, e aparentemente é uma posição programática, pactuada desde a campanha, em plena sintonia com o eleitorado representado pela sigla.

Daí que é difícil entender, estrategicamente, o movimento da bancada na manhã de hoje. Num tuitaço simultâneo a um esforço de assessoria de imprensa, os deputados federais novistas avisaram que, nesta reta final, vão trabalhar pela reinclusão de estados e municípios no texto através de uma emenda aglutinativa, que requer adesão de apenas 10% da Casa ou 52 deputados.

Na melhor das hipóteses é amadorismo, e talvez os novistas percebam quando colegas da oposição pedirem para assinar o destaque. Da reunião de líderes já saiu a notícia que o tema é sensível, provocará debates acalorados em plenário e pode atrasar ou até botar a perder a reforma toda.

Na pior hipótese é a sanha pelo protagonismo. Como o Novo não tem senadores, que são os parlamentares representantes dos estados e que, portanto, têm maior legitimidade para tratar da questão, pode ser que a bancada esteja jogando para a torcida para colher algum louro lá na frente. Passe arriscado.

Primeiro porque improvável que o destaque passe. No máximo, vai atrasar o andamento. Na prática, serve só para marcar posição. Se acabar em gol contra, será culpa do Novo. E se enfim passar no Senado, seus deputados terão que ficar nas pontas dos pés para aparecer na foto.

 

 
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João Gilberto na minha vida

João Gilberto entrou cedo na minha vida, e é claro que foi um deleite. Mas como tudo custa, o prejuízo veio a reboque, com a incompreensão da maioria dos meus contemporâneos, que não entendiam aquela batida mansa, sussurrante, impecavelmente “desafinada” e extremamente sensual. A overdose de adjetivos é uma homenagem ao Nelsinho Motta, superlativo da simpatia.

Me lembro de quando enfim encontrei um CD Amoroso / Brasil para comprar. Acho que foi na Toca do Vinícius, num carnaval em Ipanema. Fiquei com dois para garantir. Por muito tempo, só era possível se importado, e eu não podia correr o risco de ficar sem pelo menos um.

Então veio o ano-bom de 2001, virada do século. Fui com uma turma para Itacaré, que ainda não estava em voga, e levei o álbum. Ouvir Amoroso / Brasil na Bahia, com uma caipirinha de umbu, é uma experiência maravilhosa, noves fora a vodca Natasha. Agora, graças ao Ruy Castro, descobri que o João era fã de umbu, mas em versão sorvete, da Sorveteria da Ribeira, em Salvador.

O problema com o disco, nas tardes de Itacaré, era sintonizar a turma que vinha das micaretas do axé na fazenda do vocalista de um conjunto famoso. Reconheço que era impactante sair do “até o chão” para a batidinha mansa do João. Mas era um impacto assim, batidinha. E a bem da verdade, a favor da turma, registro que, apesar de alguma contrariedade, protestos mesmo só quando a faixa era Besame Mucho. Ou Estate.

Igual a toda inveja, a minha em relação ao pai da Bossa Nova era fruto de uma admiração profunda. Eu adorava quando ele reclamava da técnica nos shows. Mesmo sem alcançar o problema que só ele ouvia, era “claro” que ele tinha razão, até porque sobrava também para o público malcriado, motivo inconteste de incomodo e suficiente para avalizar todo o mais. A bronca que ele dava era tudo o que eu desejava fazer, mas preferi, sempre que pude, a rendição, ficando em casa com meus artistas queridos.

Só o vi ao vivo uma vez, no Tom Brasil. Foi bom, apesar do espaço inadequado, muito amplo. Decidi que então que só repetiria a dose quando tivesse dinheiro para vê-lo num bar pequeno e em Tóquio. Quer dizer, opção definitiva pela rendição aos discos e à proteção do lar.

O Julio Maria, visitando as raízes do João em Juazeiro da Bahia, entendeu o “problema”. “Os amigos começaram a contestar a sanidade mental de João no dia em que o baiano avistou um caminhão vindo por uma estrada que cruzava a cidade. Como se recitasse uma oração, ele disse baixinho: ‘Veja lá aquele caminhão, que maravilha. Olha como as árvores da estrada acariciam sua cabeça.’”

Meus amigos velhinhos gostam de brincar com a meta de sublimação do sexo. Dizem que sua maior vontade é, um dia, nem pensar naquilo. Sempre achei graça, mas me perguntava quem seria capaz de tal proeza. Um dia me ocorreu: o João Gilberto. Naquela plenitude de sensualidade, suspeitei que ele bem podia viver livre de trepar. Quebrei a cara quando, beirando os oitenta anos, ele aparece com a namorada grávida da filha caçula. Nem o João, meu deus!

Passei o sábado seis de junho nos anos 1950, no Star City, restaurante em Santa Cecília. A notícia da orfandade da Bossa Nova só tive ao chegar em casa e abrir o telefone. Não fiquei triste pelo João Gilberto, que por sinal merecia descansar. Sinto é pelo Brasil que ele ajudou a inventar e mostrou como era possível, mas que a gente faz questão de matar de tempos em tempos.

 
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No Brasil de Bolsonaro, não se entende parece se entender e, quem se entende, faz o inverso

Um meme divertido que passeia pela internet mostra uma foto de Jair Bolsonaro com seus três filhos parlamentares e a legenda: Presidente reunido com a oposição.

A gente ri para não chorar. Na verdade é altamente preocupante a situação.

O ZeroUm, senador, está bem enrolado com a Justiça em processo que envolve a primeira dama Michelle e o Queiroz, amigo de Bolsonaro desde antes do varão nascer. O ZeroDois, vereador, dá sinais de que precisa urgentemente de apoio psicológico profissional e levanta dúvidas sobre a eficiência do exame psicotécnico para posse de arma de fogo, agenda central do governo. ZeroTrês, deputado, viaja oficialmente ao lado do pai, é chamado de Chanceler pelo porta-voz da PR, orienta trabalho de ministra pelas redes sociais.

Enquanto isso, a oposição de verdade, a mais organizada e articulada em vigor, curiosamente segue mais alinhada do que divergente do governo. Trata-se do sombrio gabinete do governador paulista João Doria, literalmente o shadow cabinet bandeirante. Sem a mesma atenção dos governos federal ou municipal, anulou os conselhos de participação do meio ambiente e de patrimônio histórico e seu partido, o PSDB, sinaliza que está alinhado ao PSL no projeto de anular o conselho de direitos humanos.

É muito estranho. A legenda tucana nasceu há 31 anos propondo maior participação da sociedade e, quando a sociedade enfim demonstra querer participar com mais afinco das decisões públicas, o PSDB rasga a bandeira.

Estranho mas é o espírito do tempo. Quem não se entende parece se entender e, quem se entende, faz o inverso. Alguns exemplos extra.

O ministro da Economia PaGue veio a São Paulo falar ao mercado financeiro. Avalizou a conduta do chefe ressalvando “uma ingenuidade ou outra”. Eufemismo para a bola dividida sobre a articulação do Planalto para privilegiar policiais na Nova Previdência, sendo derrotado pelos deputados e pela equipe econômica. E a tendência na relação é de degradação maior, quando dentro de alguns meses vier a proposta para a reforma tributária. PaGue quer acabar com a isenção para gastos em plano de saúde e escola particular, devendo levar à loucura a classe média bolsonarista.

Sérgio Moro, ministro e até recentemente paladino da justiça, desmorona a cada dia. Sem vergonha, usa o Estado para fazer sua defesa pessoal, em ato que se é feio em teoria, na prática subtrai a urgência de medidas contra a violência que assola o país. Como sempre dá para piorar, em coletiva no Japão durante o G-20, Bolsonaro disse que Moro abriu para ele o inquérito da PF sobre o laranjal em seu partido – processo que corre em segredo de Justiça.

É escandaloso. E exige uma resposta além: de quando vem esse conluio? Ora, sabemos que o relatório do COAF sobre Flávio e Queiroz, que alcança Michelle, dormiu durante todo 2018 no MP-RJ, só avançando após as eleições. Enquanto a Lava Jato fluminense prendia diversos colegas de Flávio, conselheiros do TCE e quatro governadores, sobre os Bolsonaro nada se fez.

Aliás, Sérgio Cabral, medalhão da corrupção guanabara, admitiu ontem ao juiz Marcelo Bretas que pagou propina para ter as Olimpíadas. Naquele então, o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, tinha como diretor de comunicação o general Augusto Heleno, hoje no GSI de Bolsonaro. Ganhava salario muito acima do teto e se dizia ignorante ao impedimento. Ignorava também a corrupção? Deveria responder, e de preferencia evitando o padrão adotado para falar sobre a apreensão de 39 quilos de cocaína num avião da comitiva presidencial que estava sob sua segurança. Para Heleno, o flagrante da autoridade espanhola “foi azar”.

Está difícil entender o Brasil de Bolsonaro. Mas devemos concordar com o Presidente quando ele diz que, ao determinar a Sérgio Moro que a PF investigue todos os partidos, para não parecer perseguição ao seu PSL, só quer que a lei valha para todos. Nesta estamos entendidos. Mas não entendo por que o Presidente não bota a ideia em prática, afastando ministros suspeitos, orientando que estes abrissem os respectivos sigilos, e sugerindo ao primogênito e à primeira dama que fizesse o mesmo. Sabemos todos que o melhor caminho para liderar é pelo exemplo.

 
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A trilha do trilhão

Vastamente conhecido, o plano infalível do Cebolinha, oficialmente conhecido como ministro Paulo Guedes, era reformar a Previdência para, em dez anos, economizar um trilhão.

A proposta original seguia o padrão do marreteiro, vetor de toda negociação humana, dos semáforos aos andares altos da Faria Lima, passando pelas coisas do coração, seja entre “conjes” ou pai e filhos, que parte do princípio de que devemos pedir mais do que desejamos para, ao ceder, fazer parecer que somos razoáveis. Com efeito vem a recíproca, o troço escala e tão cedo não evoluiremos para a franqueza. Obra maior da humanidade, a política obedece à regra.

Ao elaborar seu plano, Cebolinha caprichou na crueldade, que a bem da verdade pode ser atribuída ao longínquo antagonismo com a Mônica, aquela menina histérica que anda de vermelho e desce o sansão sem dó do lombo adversário. Chumbo trocado, enfim.

Por inabilidade política, Cebolinha exagerou a ponto de fazer chorar quem descascava o texto. Tirar BPC e aposentadoria rural era demais. Nem madrasta faria um negócio desses. Ficou tão evidente que a própria equipe econômica assumiu os jabutis – termo parlamentar-tupiniquim para algo que está mas não se pode explicar e muito menos defender, mas que continua servindo para proporcionar alívio quando extraído.

Logo no começo do ano a inabilidade quase botou tudo a perder. Pior que a Mônica é o Centrão, organismo político que, igual ao Cascão, agride mais do que uma coelhada sem precisar erguer o braço, porque ataca o olfato e continuadamente, sem trégua, e que como a Magali tem um apetite infinito. A coisa fedeu a ponto de ficar entendido que a Nova Previdência alcançaria, no máximo, R$ 500 bilhões em dez anos.

Então um parlamentar reformista e experiente lançou mão de um jabuti inteligente. Para chegar ao trilhão, ou perto dele, o caminho seria reter no Tesouro os recursos do PIS-PASEP/FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) que são do BNDES.

Sim, era outro jabuti evidente, até porque, no final das contas, são dois bolsos da mesma calça, com o agravante de que poderiam ser exigidas explicações sobre a autonomia do governo para mexer em cada bolso – há regras para isso no Estado.

Para a gente entender como política não é para amadores, dois problemas derivaram da ideia pacificadora: 1) Cebolinha adorou a ideia e fez questão de manter no texto, tanto porque ajudaria na retórica do trilhão quanto porque não gosta do BNDES; 2) Veio a crise Levy, presidente do banco, mandado ao microondas em acordo entre Paulo Guedes e Jair Bolsonaro, por motivos financeiros e políticos, respectivamente.

A turma do deixa-disso teve que suar para ajeitar as coisas e, ontem, passou na Câmara a versão final do primeiro acordo sem nenhum dos jabutis citados, obra política de parlamentares experientes.

Ficou uma conta para o Chico Bento, ou o produtor rural que exporta. Como passou, considerando o poder atual da bancada ruralista? Elementar: no embate com outro jabuti, que era a ideia de taxar os bancos. Na briga entre os tons de verde, cana e pasto valem muito, mas dólar vale mais.

O próximo passo é no Senado, que deve ainda discutir se inclui estados e municípios. É a Casa certa para o debate, por reunir representantes dos estados.

O problema central aqui é político, não financeiro. Deputados federais resistem em assumir o ônus de aprovar em Brasília mudanças que desagradam suas bases nos estados e municípios, e a primeira base eleitoral de cada um deles é feita de funcionários públicos que defendem antes de tudo seus privilégios. Por isso a primeira reforma deveria ser a Política, mas agora é tarde.

Concordando ou não com o texto, creio que todos devemos celebrar a inegável vitória da Câmara dos Deputados, com todos seus vícios e virtudes. A Casa do Povo valorizou a política, o diálogo, o entendimento E seu maior troféu veio de Minas, terra de grandes conversadores. Não pelo resultado do Brasil x Argentina, mas pela foto que mostrava, no momento em que se votava o texto mais esperado dos últimos anos, a maioria dos membros do Poder Executivo bem longe de Brasília, acompanhando o presidente Bolsonaro no Mineirão, para não atrapalhar. Principalmente o Cebolinha, que tirou do armário uma gravata yuppie, tradução estética de sua máxima “continuo onde sempre estive há quarenta anos”, ou seja, com o raciocínio nos anos 1980.

 
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A gestão do “eu acho”

Era um jovem advogado muito bom na parte comercial da banca. Vendia o trabalho do escritório que era uma beleza. Em tudo que é convescote, lá estava ele, em toalete perfeita, amaciando e ampliando a freguesia.

Dava duro, coitado. Sequer tinha tempo para conhecer os processos e dizia-se que jamais entrara na biblioteca, por sinal caprichadíssima, formada pelo fundador, seu padrinho, ao longo de 45 anos.

Quando o velho preparou a sucessão foi um bololô. Entre tantos herdeiros, havia os que conheciam tudo do trabalho porta pra dentro, ou da advocacia propriamente dita, e se dispuseram a tomar a frente da administração. Mas o nosso herói era a cara pública da banca, falava bem do comercial, e numa reunião saiu com esta: “Não sou advogado, sou gestor. Ges-tor.” Donde os acionistas decidiram que era a pessoa adequada para dirigir o escritório, se esquecendo que na verdade ele era vendedor. Ven-de-dor.

Seu primeiro ato foi repaginar o ambiente. Os lambris do gabinete do velho foram revestidos com vinil preto, sugestão de uma decoradora sua amiga, que se empolgou e meteu o plástico até sobre a antiga mesa de reuniões, em madeira de lei.

Já acomodado nas novas instalações, olhou os números da contabilidade e descobriu que a tal biblioteca (que, de fato, ele conhecia só de nome) consumia uma gaita em infraestrutura, ar-condicionado, desumidificador, restauração de obras raras, manutenção do arquivo, e ainda tinha uma equipe de estudos que se aprofundava em temas não necessariamente cotidianos, mas que orientava casos novos com dados que iam de jurisprudência à estatística. Isso sem contar o preço do metro quadrado do espaço, que poderia ser fonte de receita.

Chocado, o gestor debochou: Não faz o menor sentido! Então determinou o fim da biblioteca e toda sua estrutura. Alguém argumentou que o custo da biblioteca era menor do que o gasto em cafezinho e pão de queijo nas reuniões, e ouviu que “livro é hábito alimentar de traça, não de cliente e acionista”. Ainda lembraram que a base do êxito histórico da banca se devia à inteligência ali acumulada, que cada vez mais dados são preciosos para decisões acertadas. Em vão.

O plano de demissão dos funcionários está acelerado e o novo leiaute do salão já está pronto. Tudo preto, à exceção de um retrato coloridíssimo da deusa Têmis, assinado por Romero Brito.

Um estagiário vendou os próprios olhos com a gravata, brincando que era melhor ser cego do que ver aquilo, e sentiu o peso da espada. Sempre enfatizando as sílabas, o gestor cravou: Você está de-mi-ti-do!

Teimoso, o aprendiz limpou as gavetas e foi se despedir da biblioteca que usava mesmo antes de entrar para a banca, porque esta era franqueada a estudantes, princípio do fundador. Perguntou na saída o que seria feito do acervo, mas ninguém tinha pensando nisso.

A propósito: o governador de São Paulo extinguiu a Emplasa, empresa responsável pelo planejamento metropolitano do estado. São 45 anos de conhecimento acumulado, precioso notadamente no momento em que mais e mais cidades são fundidas, criando regiões metropolitanas. Ninguém diz qual será o destino do acervo, de valor imensurável.

Limpar um rio, por exemplo, depende de governo metropolitano, porque se uma só cidade por ele cortada não colaborar, continuará sujo. Para funcionar, depende de planejamento, que só pode existir se feito sobre dados.

Mas era previsível, considerando que em seu rasante pela prefeitura da capital, o ora governador fez tudo da sua cabeça e sem qualquer planejamento, desde dois muros malucos que já acabaram, passando pelas mudanças nas velocidades, até rasgar o Plano Diretor apontando o desenvolvimento do leste para o sul. Vale frisar: tudo porque ele achava.

 
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Balanço do Bolso: seis meses

Ainda durante a campanha para presidente da República, Tancredo Neves foi recebido com imensa manifestação popular em uma determinada cidade. Note que a eleição foi indireta, mas as pessoas queriam Tancredo, a volta do poder civil, ditadura nunca mais.

Aécio, seu neto e secretário particular naquele então, perguntou ao avô o que ele faria com tamanha popularidade, que respondeu: vou gastar em três meses. Quer dizer, tomaria medidas amargas como um xarope para curar os males que via maltratando o Brasil.

A lembrança aqui se justifica não por conta dos personagens, mas porque o governo atual completou ontem seis meses, onde o presidente da República ralou a popularidade sem conseguir qualquer avanço.

Governando com a família e pela família – a própria, diga-se –, Bolsonaro se desgastou em pautas caras aos seus. Um filho tem problema pessoal com um ministro e arranja briga virtual? Demite-se o ministro. Parentes plantam bananas no Vale do Ribeira? Suspende-se a importação da fruta do Equador. A BolsoFamília coleciona multas de trânsito? Cancela-se radares. Gostam de armas? Assina-se uma enxurrada de decretos que nem a bancada da bala entende para defender, e que acabam fracassados.

Onde pode conferir êxitos, o governo ataca com cascata. Aprovado acordo histórico Mercosul-UE depois de vinte anos de trabalho de Estado, o Presidente, seu ChanCelerado previsivelmente tentam faturar, fingindo não terem declarações contra o multilateralismo. Com a MP que autoriza o pente-fino no INSS é parecido, faturam sem lembrarem de combater fraudes em pensionistas filhas de militares. Autorização para vender subsidiárias das estatais sem precisar de aval do Congresso? Também teve. Mas os mecanismos de conformidade na maior delas, a Petrobrás, criados para evitar outro Petrolão, foram escandalosamente desmontados. E o aval para descumprir a regra de ouro não é outra coisa senão uma autorização para pedalar.

As derrotas são mais evidentes. A agenda maluca vem sendo combatida institucionalmente pelo Poder Legislativo e organismos internacionais, como nos decretos de armas, diminuição da transparência governamental, demarcação de terras indígenas, desvio de finalidade do fundo da Amazônia. Tudo barrado graças às instituições competentes.

Três fatos inéditos para seis meses de governo: a pior avaliação para um presidente no período, reeleição em pauta, convocação de duas manifestações a favor do modo de governar – sintoma de que Bolsonaro reage mal aos freios e contrapesos republicanos e mostra que está disposto a seguir só com o apoio de sua base muscular-reacionária, prestigiando seguidores em redes sociais e ministros mais polêmicos, enquanto manda auxiliares racionais para o microondas.

Bolsonaro parece saber o que está fazendo. Apesar de menores do que as do dia 26 de maio, as manifestações do 30 de junho reuniram bastante gente disposta a passar vergonha defendendo Sérgio Moro e o governo como se defendessem o combate à corrupção. Ora, há na Casa Civil um corrupto confesso, no Turismo um investigado por laranjal com o principal assessor e coordenador de campanha preso, inúmeras evidências de funcionários fantasmas, rachadinhas e súcias milicianas nos gabinetes da BolsoFamília, com a primeira-dama, o primeiro-filho e um amigo com quarenta anos de intimidade envolvidos até o pescoço.

Moro dá de ombros e não parece se importar com o fedor, no que é seguido por fãs da Lava Jato como se ele ainda estivesse em Curitiba e não fosse motivo de desconfiança e tenha merecido acusações de parcialidade pelos membros da própria força-tarefa. No mundo real, defender a Lava Jato seria pedir seu afastamento e explicações convincentes, e não apoia-lo incondicionalmente. Mas no mundo delirante dos bolsominions e morominios dá-se o inverso. Não por acaso, os mesmos que falam em Justiça para o PT dizem que investigar Queiroz e ZeroUm é perseguição, ainda que Michele não tenha sido intimada a depor.

O cenário futuro não é melhor. Passada a Previdência, agenda que vem de longe e à qual Bolsonaro teve que curvar-se, mesmo a contragosto, Paulo Guedes, outro pilar de seu governo, precisará de uma agenda nova, que deve ser a reforma tributária.

Já tendo assumido que não fez nada até agora, apesar de tantos desempregados e desalentados, porque a prioridade é a Previdência, PaGue terá que mostrar a que veio, e na questão tributária parece não ter nada combinado com o chefe, que abertamente diverge de suas ideias.

De acordo com declarações recentes, o plano infalível do Cebolinha da Economia para impostos é uma diminuição geral, mas com alívio e até isenção para quem ganha menos, e peso maior para quem ganha mais, incluindo diminuição das possibilidades de deduções, como em plano de saúde e mensalidade escolar. Bolsonaro é contra e é óbvio que classe-média bolsonarista vai estrilar, restando a PaGue duas opções: engolir o sapo ou pegar carona da FAB só de ida para o Leblon.

 
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18 milionários fazem voto de confiança na democracia

O grupo dos 18 ricos norte-americanos que querem pagar mais impostos por serem ricos merece, além de aplausos, uma leitura mais ampla pelo significado que a proposta carrega.

Na parte financeira, se eu entendi, a ideia é que, acima de US$ 50 milhões, cada fortuna seja taxada em dois centavos por dólar, e acima de US$ 1 bilhão, um centavo por dólar. Minha dúvida é por que alivia lá para cima, mas é uma dúvida marginal.

Bacana mesmo na proposta é o entendimento conceitual sobre impostos e a importância do governo, do Estado, da democracia.

Uma idiota da objetividade (obrigado, Nelson) tentou lacrar perguntando por que os ricos proponentes simplesmente não doam mais dinheiro para a Receita. A resposta, óbvia a ululante, é a diferença conceitual entre filantropia e impostos.

A filantropia consiste em decidir individualmente a dar dinheiro para o que se acredita. Monocraticamente, portanto. Os impostos, que por definição são obrigatórios e valem para todos, têm função de distribuir e realocar riqueza através do Estado por governos eleitos. Escolher coletivamente, logo, democraticamente, e de ponta a ponta.

Ponto alto da proposta é o não carimbamento do dinheiro, isto é, invés de dizer que os valores teriam que ser aplicados em Educação, por exemplo, porque é muito comum sempre que aparece um extra, dar aos governos eleitos a liberdade de escolha do que fazer com o dinheiro é voto de confiança na democracia e no aparelho estatal.

Outro ponto alto é a questão de justiça. Mesmo nos Estados Unidos, onde os impostos pesam bem mais sobre a renda do que sobre o consumo, proporcionalmente os ricos acabam pagando menos do que os remediados e os pobres.

No Brasil, onde temos o inverso, ou seja, peso maior sobre consumo do que renda, a injustiça tributária é vexaminosa. O assalariado paga imposto na fonte e, tendo que consumir para sobreviver, vê a maior parte de sua renda tragada em taxas. Já da classe média pejotizada para cima, além de proporcionalmente pagarem menos, ainda pode-se escolher dever à Receita durante a tempestade e depois consertar quando vem a bonança.

Que bom que os americanos do norte estejam falando a respeito e pautando as eleições, ainda que pareça utópico. E que pena que por aqui, sobretudo nas rodas endinheiradas, o tema seja tratado como piada, e o Estado, o governo e a democracia só sejam festejados nos vãos de escada, em conversas espúrias.

 
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Agradecer aos Rueda e viva a Casa do Porco

Francisco Perrota-Bosch atacou a Casa do Porco na Folha do dia 25 de junho. Assina o artigo avisando ao leitor que é arquiteto e crítico de arquitetura. Mas na verdade critica o urbanismo, que provavelmente estudou, mas não aprendeu.

Abro parênteses para insistir que as FAU deveriam se chamar FUA. O acrônimo não fica tão bonito, mas me parece essencial para os estudantes se lembrarem que o urbanismo precede a arquitetura. Que se o urbanismo for ruim, não há arquitetura que salve. Que o valor final de um imóvel é determinado antes pelo urbanismo do que pela arquitetura. Como o mestre Paulo Mendes da Rocha ensina, basta comparar o que tem de material e mão de obra investidos numa mansão no Morumbi e numa quitinete em Ipanema, e ver quanto custa cada um.

Voltando ao crítico Perrota, ele escreve que o projeto de arquitetura da Casa do Porco tem “requintes de crueldade” nas janelas abertas para a calçada, sendo uma a vitrine que exibe o premiadíssimo açougue do chef Rueda, e a outra um balcão de venda de sanduíches para quem quiser comer na rua, porque constrangeria as pessoas desabrigadas que viviam sob a marquise. Para ele o problema é atrapalhar quem mora na rua, e não resolver com programas de habitação de interesse da sociedade.

Não contente, Perrota avança, mostrando que não aprendeu urbanismo ao condenar as mesas na calçada e até o toldo que estende a função da marquise, dizendo que tomam espaço dos pedestres. Ora, como o próprio crítico lembra, citando os cafés de Paris, mesas de bar nas calçadas são positivas para as cidades. Mas não lhe ocorre que, se tem mais gente na calçada do que calçada, que amplie-se a calçada sobre o espaço absurdamente destinado a estacionar carros, notadamente num bairro repleto de infraestrutura de mobilidade.

Porém, o adjetivo “vitalidade”, que ele escolhe para reconhecer o fenômeno das mesas nas calçadas, é contraditório para quem duas linhas antes lamentava o constrangimento dos desabrigados que moravam no mesmo espaço. Vitalidade é qualidade de algo que está vivo. Seriam os desabrigados zumbis aos olhos de Perrota?

Para muitas pessoas em São Paulo, sim, que de dentro dos SUV olham os que só têm as ruas para morar como zumbis. Mas não para os donos da Casa do Porco.

Quando a obra começou, ali morava uma menina chamada Amanda. Magra e dependente química, acordava no horário do almoço dos peões que trabalhavam na reforma. E pedia comida. Então a Janaína Rueda propôs que ela ajudasse na limpeza, sendo remunerada e tendo direito a mesma comida de todos os operários. Fazia vale sem questionar o que Amanda faria com o dinheiro. Houve recaídas e faltas, naturalmente. Mas Amanda persistiu. Quando a Casa do Porco foi inaugurada, passou a trabalhar no Bar da Dona Onça, dos mesmos donos, ali no Copan. Também trabalhou com Janaína no programa de melhora da merenda escolar do governo do estado, infelizmente encerrado pela “gestão” atual. O governador João Doria, que mentiu dizendo que a cracolândia tinha acabado, deveria se aproximar deles para ver o potencial de transformação social que empreendedores de verdade têm. Ah, hoje o problema da Amanda é emagrecer um pouco.

Tem mais calçada. Poucas quadras acima,  na mesma Bento Freitas, um predinho cor-de-rosa, que é um camafeu de bem-feito, andava algo decadente. Janaína e Jefferson foram para lá, alugaram uma loja que dá para a calçada e abriram o Hot Pork, balcão de cachorro-quente. No vizinho, montaram a Sorveteria do Centro, sob os cuidados da confeiteira Saiko Izawa, dona das mãos e do gênio mais delicado em atividade em São Paulo.

Conflito: a esquina, erma, era ponto de prostituição, e as michês trans que ali trabalhavam foram reclamar que o movimento esperado atrapalharia a faina. Solução Janaína: oferecer emprego a quem quisesse. E assim foram inauguradas e continuam sendo animadas as casas, com drags divertidíssimas harmonizadas com o cardápio festivo.

O infeliz Perrota encerra insistindo na contradição ao considerar “golpe de marketing” de “revitalização” montar restaurantes festejados na região central, tentando lacrar chamando de arquitetura extrema o presente que os Rueda deram para a República, ignorando o bem que as casas fizeram para um caso raro de bairro urbanisticamente exitoso.

Talvez para Perrota, o ideal arquitetônico seja o do nosso querido Carlino, restaurante mais antigo da cidade, ora fechado para a Bento Freitas, provocando saudades nos clientes que o frequentavam com amplas janelas na Vieira de Carvalho.

De todo modo, a notícia boa é que Perrota-Bosch se dedica à crítica de arquitetura. Fosse ele um engenheiro mecânico alemão, provavelmente em breve teríamos carros e ônibus autônomos sem janela, forrados por dentro com papel de parede, evitando que a conivência na cidade constrangesse seus cidadãos.

Liguem não, Jana e Jeffinho. Não passem recibo. Apesar de merecido, evitem a tentação de batizar algum coquetel da casa com o nome de espírito de porco em homenagem ao crítico.

 
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Europa sendo Europa

Celebradíssimo, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia surgiu como que inesperado em meio a uma reunião do G-20, no Japão, onde o Brasil, principal mercado da América Latina, não poderia aparecer mais desastrado.

Para começar, a comitiva de inspeção do Brasil, em escândalo inédito, foi flagrada em escala pela autoridade espanhola com 39 quilos de cocaína na bagagem. Dizem que acontece, mas nunca houve flagra. Vexame..

Então o presidente da República desembarca e faz malcriação para jornalistas. O ministro-chefe do GSI, general Augusto Heleno, emenda nova malcriação. A comitiva só seria controlada diante de Vladmir Putin,  quando a verborragia foi confessadamente impedida pelo poderio militar de outra Nação. Bezerra da Silva tem uma canção a respeito.

Vale ressaltar que poderia ter sido pior. O ministro da Economia PaGue e o chanceler Ernesto Araújo faltaram ao encontro, donde fomos poupados de ter suas ideias expostas ao mundo. Vá lá, teve o vexame do vídeo sobre bijuteria no facebook, mas se deus quiser deve ter alcance limitado. Evitemos publicar o pecado, como recomendou o Machado.

A parte boa é que, apesar ou em função de tanta trapalhada, simultaneamente em Bruxelas a Europa seguia empedernidamente Europa em questões de Estado e era aprovado o acordo Mercosul – União Europeia, cuja negociação conta vinte anos.

As impressões do por que enfim saiu são divertidas. Alguns atribuem à contenda entre China e Estados Unidos. Há  quem diga que os destinos da Argentina contaram. Outros contam o período de diplomacia não ideológica durante o governo Temer. Impossível negar o cenário. Não sejamos burros como o vídeo-tape do Nelson.

Mas o motivo central é claro. Óbvio e ululante para continuar com Nelson: a Europa segue sendo a Europa.

Ceder e fazer o acordo que desagrada e agrada a muitos europeus e sul-americanos é continuar o que o continente que pariu a razão sempre fez quando as coisas chegaram ao extremo. Historicamente, com resiliência, a Europa se curvou aos fatos e cedeu para evitar a degradação geral.

Considerando que todos sabemos dos detalhes a serem combinados, o acordo sul-americano-europeu é uma ode ao entendimento contra à maluquice que grassa.

Perder um pouco em ganhos por vinho e chocolates para impor limites à preservação ambiental e proteção à dignidade humana tão ameaçadas pelos governos loucos que surgiram nos últimos anos é uma antecipação. A Europa sabe, pela história, que custa mais caro remediar do que prevenir.

Prova disso é o esquema adotado para manter relações com o Irã. Uma semana depois do presidente Trump ter ordenado um bombardeio a este país, que poderia ter causado uma guerra nuclear, mas retirado a ordem dez minutos antes (dez minutos!), os europeus criaram um modo de manter relações comerciais com os iranianos sem que sejam configuradas transações entre o bloco econômico e o país, driblando as sanções dos EUA e mantendo poder diplomático para evitar o abandono do pacto nuclear.

É a inteligência, a razão europeia, continente também e pelo menos duas vezes massacrado pela burrice no último século, se antecipando aos efeitos da idiotice.

Que bom que o atual governo brasileiro celebre. Melhor seria se fizesse ampla e francamente, reconhecendo erros do passado como atacar o multilateralismo, o entendimento plurinacional, a política e a globalização como costumavam fazer.

Celebremos a política de Estado e os estadistas. Desde São Paulo, brindo com vinho ainda pago com encargos prestes a sumir. Viva!

 
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