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Ivan Lessa acelerando

“A cada quinze anos, o Brasil esquece os últimos quinze anos”, dizia o Ivan Lessa. Em tempos acelerados, o prazo diminuiu.

Um aluno célebre do Ivan Lessa serve como exemplo. Diogo Mainardi, a propósito do twitter ter dobrado a quantidade de toques por palpite, disse que nos antigos 140 havia menos chance de escrever bobagem. É o estilo homeopático do seu Antagonista. Mas será que funciona? Digo, afasta as bobagens? O lacerdismo que o site adotou na repercussão da fala do general insubordinado mostra que não – além de revelar falta de memória.

Vá lá, são mais de cinquenta anos… Mas o Mainardi mora em Veneza, na Itália, que teve Berlusconi recentemente. Daí que o apoio a um candidato novo, só porque é novo e dito não político, deveria passar pela peneira da lembrança.

Eu não queria falar do Mainardi. Até acho que o exemplo é forçado. Mas sinto uma invejinha da relação que ele teve com o Ivan Lessa.

Vamos ao Ivan, que é o que interessa.

Há pouco mais de um ano o Brasil tirou a Presidenta. Motivo alegado: pedaladas. Motivo real: exaustão e enganação. A gerentona não política congelou tarifas, jogou para a torcida e, reeleita, fez o inverso do que pactuou em campanha, muitas vezes usando a desculpa da “herança maldita” de FHC, mesmo depois de doze anos de governo Lula-Dilma. A turma, desiludida, cassou seu assento.

O gerentão não político da vez é João Doria. Ou, como ele prefere, gestor. O que tem feito na Prefeitura de São Paulo? Diz que encontrou um rombo no caixa, já desmentido pelo Tribunal de Contas. Congelou a tarifa de ônibus (já estourada e pedalada para 2018) e o IPTU. Prometeu participação, descentralização, enxugamento da máquina, e faz justamente o inverso, esvaziando ou extinguindo conselhos e distribuindo 160 cargos a pedido dos vereadores em véspera de votação.

Se Dilma foi traída e delatada pelo marqueteiro quando a Justiça chegou, ninguém há de dizer que João Santana foi incompetente em seu ofício. Doria não tem a mesma sorte com a assessoria.

Comprou uma pré-campanha nacional com seguidas viagens pelo Brasil. Resultado? Estancou nas pesquisas de intenção de voto e sua avaliação em São Paulo sofreu o efeito suflê: murchou na mesma velocidade que subiu. Motivo: os brasileiros veem mais um político em campanha e os paulistanos se sentem órfãos do prefeito que elegeram.

O projeto “Centro Novo”, anunciado para ser entregue em doze anos, teve o prazo cortado para oito anos durante a entrevista coletiva. Quem se lembra da célebre citação: “Não vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta.”

Como é possível? Nos responde professora da FAU-USP Raquel Rolnik. No dia seguinte ao anúncio, representantes da Prefeitura estiveram no Ministério Público Estadual e afirmaram que “o projeto apresentado era apenas uma ideia, que sequer foi analisado ou passou por qualquer desenvolvimento e que, portanto, não era algo que seria realmente executado”.

Nada mais parecido com o PAC, inclusive no “acelera”. Para quem estava com saudades da Dilma, deve ser um bálsamo.

Mais distante e não menos relevante, vale lembrar que nos primeiros meses de mandato Dilma não chegou ao cúmulo de se fantasiar de gari e sair varrendo a Esplanada dos Ministérios, mas se vendeu como “a faxineira da República”.

 
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Notas soltas

Nos termos da Lei

Uma lei recente mudou o Código Penal. Desde então, para configurar organização criminosa, no mínimo três devem estar combinados. Antes eram quatro ou mais. Daí o termo formação de quadrilha.

Por isso a denúncia da PGR contra Michel Temer, Eliseu Padilha e Moreira Franco é sobre organização criminosa (e obstrução de Justiça). De qualquer maneira, valesse a regra anterior, para usar termo quadrilha bastaria aos procuradores incluírem os já encarcerados membros do PMDB da Câmara: Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima e Henrique Eduardo Alves.

A casa de todas as casas

Fernando Collor, Renan Calheiros, Roberto Requião, Romero Jucá, Jader Barbalho. São quatro, não, cinco de outros tantos senadores carbonários que votaram por incendiar a Praça dos Três Poderes.

O arrepio que subiu pela sua espinha, freguesa, enquanto lia os nomes, economiza a minha tarefa de anotar o por que. Não foi para salvar Aécio Neves.

O bom senso prevaleceu. E a razão de existir do Senado, a casa de todas as casas, é o bom senso – ainda que dele façam parte figuras que se comportem no Salão Azul como se estivessem naquela outra casa de todas as casas.

Black Friday

Foi uma terça-feira. Mas teve promoção a la brasileira. Tudo pela metade do dobro. O Senado Federal concluiu mais uma parte da reforma eleitoral.

Para alegrar a freguesia, botaram já para 2018 a cláusula de barreira, que impede a representação e, por consequência, o acesso ao fundo partidário que, com efeito, mata a maioria das legendas que não alcançarem pelo menos 1,5% do total de votos. Em 2030 chegará a 3%. O ideal era 5% pra já. Paciência.

Os deputados eleitos por partidos que não superarem a marca ainda poderão assumir, desde que acertem filiação a qualquer outro que tenha alcançado. Note: depois de eleitos, sem combinar com o eleitor. Se na última reforma inventaram a janela da infidelidade, agora abriram a porta.

O fim das coligações, que juntam de jairs a jeans Brasil afora, naquela abjeta sopa de letrinhas, só passa a valer em 2020, na eleição de vereadores.

Não reclama, freguesa. Do jeito que a coisa vai, havendo eleição já está muito bom.

Terrorista americano 

Procuro evitar esse tipo de comparação. Mas é óbvio que usando um turbante e/ou tendo a pele negra, seria impossível ao terrorista de Las Vegas chegar ao quatro do hotel com tantas armas longas e dois tripés.

Botem as crianças na sala

Uma agência chamada Madame Bovary, que atende os museus D’Orsay e da Orangerie, vai retomar o esforço para incentivar a visita das famílias. Notícia da Folha.

Exitosa em 2015, “a campanha foi muito bem recebida pelo público, apreciada e reproduzida”, garante Amélie Hardivillier, que dirige a comunicação das entidades. Destacando as joias de ambos acervos, nove cartazes serão espalhados pela cidade mais uma vez.

Nos conta, pela Folha, a repórter Daniela Franco, da RFI: “Sucesso nas redes sociais, a peça que mais teve êxito utiliza a tela ‘Femme Nue Couchée’ (Mulher Nua Deitada), realizada em 1907, pelo pintor francês Auguste Renoir. Na obra, uma jovem é retratada em uma cama, seios à mostra, o sexo coberto com um lençol. Mas foi a mensagem utilizada no cartaz que chamou a atenção do público: ‘Tragam seus filhos para ver gente nua’.”

 
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#SomosTodosCorleone

Eu nunca quis isto para você. Eu trabalhei minha vida inteira, eu não peço perdão, para tomar conta da minha família. E eu recusei – a ser um tolo – dançando em uma corda, sustentado por todos esses figurões. Eu não peço desculpas, essa é a minha vida, mas eu pensei que quando fosse sua hora você fosse quem sustentasse essas cordas. Senador Corleone. Governador – Corleone, ou algo assim.

Triste e pragmática, a mensagem do pai ao filho mafioso é um retrato da humanidade. É de um romance que se passa nos Estados Unidos com uma família de imigrantes europeus. E é universal.

Don Corleone queria uma família legalizada, não um filho honesto. Alguém com poder de fato para conseguir seguir seu trabalho. No mundo corporativo é o que chamam de plano de carreira e otimização de custos.

Voltarei logo ao Poderoso Chefão. Antes quero comentar a última pesquisa Datafolha, que é mais sobre sobre o espírito humano do que uma projeção eleitoral brasileira.

87% dos brasileiros dizem que valorizam muito um candidato a presidente que nunca tenha se envolvido em casos de corrupção. Ao mesmo tempo, Lula alcança 48% das intenções de voto no seu melhor cenário, que seria disputando um segundo turno com João Doria.

Mauro Paulino, diretor geral do Datafolha, explica. “Da análise conjunta de uma matriz com seis frases, quatro de correlação direta com o tema, percebe-se que essa taxa elevada de eleitores que condenam tal crime cai praticamente pela metade quando ele é associado a determinados fins.
No total, apenas 40% dos entrevistados mantêm-se firmes na posição de condenar a corrupção sob qualquer aspecto. A maioria (60%) a admite, mesmo que em parte, em algum momento, dependendo da finalidade a que é associada.
Entre os que pretendem votar em Lula, eleitorado de menor renda e baixa escolaridade, esse percentual chega a 77%. Também é elevado entre os mais jovens.”

A íntegra está aqui. E eu gostaria de acrescentar que, num recorte entre os uber-escolarizados, os MBAs, CEOs, gestores e outros bichos do chamado mercado, o número deve estar perto da unanimidade, como prova o apoio ao governo Temer em troca das reformas que mais lhes convém.

Paulino ainda nos conta, na conclusão, que “a maioria dos entrevistados concorda, mesmo que em parte, com a frase: ‘Tanto as qualidades quanto os defeitos dos políticos brasileiros são um retrato da população do país’”.

A voz do povo é a voz de Deus. Não somos diferentes de Vito ou Michael Corleone. Muito pelo contrário, somos os próprios Corleone. Do pai, que no princípio topou esconder as armas de Pete Clemenza por favor, e do filho, que no auge se torna um grande empresário, filantropo, sócio de um dos maiores bancos imobiliários do mundo, no Vaticano.

A legalização da família, como define Kay Adams, mãe dos filhos de Mike, a tornou mais perigosa. É exatamente o que assistimos hoje.

O presidente do Congresso Nacional, com razão, diz que nenhum Poder é superior ao Legislativo. É uma mensagem ao Judiciário, que suspendeu o senador Aécio Neves, despertando o sentimento de corpo do que há de pior no Salão Azul. Falam na legitimidade do voto popular, que os juízes não têm. Um passeio da turma pela Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, capitaneado por Aécio, socorreria os senadores na compreensão do que o povo está sentindo, desobrigando o Poder Judiciário da intervenção.

No mundo empresarial, dos seis brasileiros mais ricos, que concentram o mesmo dinheiro que os cem milhões de patrícios mais pobres, três são sócios e estão entre os maiores financiadores de campanhas eleitorais desde a volta das eleições diretas. Outro teve o banco, quebrado, salvo pelo Governo Federal. O quinto é investigado por fraudes na operação Zelotes. O sexto ficou rico fora do Brasil.

Fora do pódio, outros empresários continuam correndo, e propõem criar um fundo cívico para financiar candidatos e eleger entre setenta e cem congressistas no ano que vem. Serão fortíssimos, sobretudo ante a baixa expectativa de caixa. E a presença entre eles de um suspeito de pagamento de propina, que nomeou para diretor de boas práticas de sua empresa um acusado de fraudes, que hoje está preso, aparentemente não incomoda. É o mais rico do grupo.

Mais abaixo, sabemos que 75% dos diretores de recursos humanos já dispensaram candidatos a emprego depois de flagrar mentiras. E mesmo os militares se esquecem da primeira lição, que é a hierarquia, quando revelam interesse, vejam vocês, em botar as coisas em ordem.

Adhemar de Barros, vulgo Rouba mas faz, vive. E também o Millor Fernandes, que encerrou o conceito de negociata: “Todo bom negócio para o qual não fomos convidados.”

 
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Tudo tem limite

Sempre recusei as insistentes comparações entre o prefeito de São Paulo e o presidente americano. Nem a Bruxa do Mandaqui foi capaz de me convencer.

O Aprendiz, os ataques à imprensa e à política, o risca-faca continuo, a estética, o populismo, o ego inflado. Tudo para mim era coincidência.

Ontem, porém, tive um estalo. No Manhattan Connection o Lucas Mendes contava como os russos manobram as redes sociais para bagunçar os Estados Unidos. Basicamente, usam a tecnologia para inflamar conflitos. E há indícios cada vez mais fortes de que dar uma mãozinha na eleição do louco foi parte da estratégia.

Trump enxerga em Putin um motor. Não percebe que o russo é seu ventríloquo.

No fim de uma semana triste, quando museus tiveram que defender seus prédios reais e virtuais da turba ensandecida, percebi o óbvio ululante: o MBL está para João Doria como Putin para Donald Trump.

Fiquei ainda mais triste. Mas como dizia o Bruxo do Cosme Velho, “é melhor cair das nuvens do que de um terceiro andar”.

Não eram poucas as notícias desfavoráveis à agenda MBL. Do obscuro modelo de financiamento, passando pela segunda denúncia contra o governo Temer que o movimento apoia, muita coisa teria que ser explicada e debatida.

Solução? Pauta bomba. Tática antiga, velhaca e fatal. O batedor de carteiras grita pega ladrão enquanto foge. Até que se torna conhecido e tem que mudar de freguesia ou de crime – sempre algo mais e mais grave.

Para se esquivar dos problemas que são seus e não consegue resolver, Trump é capaz de brincar com uma granada atômica. Doria grava um vídeo sucumbindo à banalização da pedofilia.

Funcionou, não há dúvida. Mas o que sobra depois de uma e outra?

As narrativas chegaram ao limite. E dele não podem passar.

 
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O MAM, a laje e a primavera

Um homem, peludo, suado e pelado, se encontra com uma menina, também nua. A saúda, pergunta se ela aproveitou o dia e mete outras amenidades. O pai, só de cuecas, a incentiva a responder. Notadamente está preocupado com a educação da filha. Despedem-se.

Assisti a esta cena enquanto falava do orelhão do vestiário do meu clube, só com a orelha vestida. Lá se vão uns vinte anos. Era incomum. Intrigado, chamei por e-mail uma tia psicanalista craque, especializada em questões de família.

O fenômeno, verde naqueles anos, derivava do crescente número de separações conjugais. Os pais, nos dias em que ficavam responsáveis pelos filhos, experimentavam uma tarefa nova, isto é, cuidar dos filhos. E das filhas.

Minha tia ainda não havia enfrentado algo parecido. Na troca de e-mails, notou que tanto para meninos quanto para meninas, o corpo nu feminino era algo comum, dada a amamentação, seja da própria mãe ou das mães de leite, ou a hora do banho, em casa ou em ambientes coletivos, como os vestiários.

Já o nu masculino permanecia um tabu, especialmente para meninas, que na nossa cultura pouco ou nada conviviam com os homens como vieram ao mundo – salvo um irmão, primo ou coleguinha ainda puro e imberbe.

O que mais espantou minha tia foi a realidade dos vestiários. Nos masculinos as pessoas andam sem roupa, cobrem no máximo um ombro para carregar a toalha. Nos femininos há pudor e as toalhas viram vestidos.

Passadas duas décadas, descontando o meu estranhamento e o aumento de meninas acompanhadas pelos pais, pouca coisa mudou. Não consta que qualquer uma daquelas meninas, hoje adolescentes ou adultas, tenha sequelas pela convivência com homens pelados das mais variadas formas.

A quem imagina que pertenço a um clube nórdico, naturista ou elitista, acrescento que me refiro a um clube paulistano, que pode ser considerado elitista, mas que o vestiário em questão é o geral, ou seja, aberto a visitantes de todas as classes sociais, nacionalidades, raças.

Hoje, a caminho do MAM, sentindo a pressão da retumbante marquise do Ibirapuera e a tensão do barulho das rodinhas, notei um paralelo com a atualidade. A mesma laje que sufoca é completamente aberta, sem saída ou entrada, alagada de luz, um fim de túnel possível em qualquer circunstância. E há ipês, primaveras, helicôneas, bailarinas patinadoras, cavaleiros de skate.

Na porta do museu, uma tristeza tremenda: diversas viaturas da guarda municipal para garantir a continuidade tranquila do 35º (!) Panorama de Arte Brasileira. Por outro lado, foi bacana ver que a Prefeitura cumpre seu papel de Estado sem ceder ao populismo e à histeria de um governo passageiro ou das redes.

A performance La Bête, do coreógrafo Wagner Shcwartz, que combinou o corpo nu a um origami em homenagem a obra Bichos, da Lygia Clark, só aconteceu no primeiro dia. Tinha aviso de nu na entrada. E uma mãe entrou com a filha e permitiu que a menina interagisse com o artista, conforme a proposta. A cena que ganhou as redes é singela. Quem sentiu tesão precisa procurar ajuda. Urgente.

Impactante e revoltante são duas outras instalações. Mão na lata é uma coletiva de jovens moradores da favela da Maré. Gente da melhor qualidade que tenta respirar sem nenhuma atenção da sociedade ou do Estado. E outra, a última que vi, da Dora Longo Bahia, mistura Brasil e Argentina. Florestas transformadas em carvão, a Patagônia derretendo e as crianças orientadas pela rivalidade das arenas do futebol.

Para encerrar, acabo de saber que o MAM, o nosso MAM, acaba de sediar um quebra-pau de porta de estádio.

Vem, primavera! Venham, anos 1920!

 
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Notas soltas meio amarradas

Patriarca

Dizem que Tancredo deve estar se revirando no túmulo. Aposto que sim. Mas não só.

Tetraneto e xará invertido do Patriarca da Independência José Bonifácio de Andrada e Silva, o deputado federal tucano Bonifácio José Tamm de Andrada, que entre outros feitos apoiou a ditadura militar, fez corpo-mole na campanha pelas Diretas e foi candidato a vice de Paulo Maluf em 1989, aos 87 anos será o relator da denúncia contra Michel Temer por organização criminosa e obstrução de Justiça.

Na primeira denúncia, Bonifácio votou por livrar o Presidento da Justiça. Lembrando o pregão de votos em que se transformou a Câmara na ocasião, com o ministro tucano Antonio Imbassahy flagrado operando em plenário, parodio #Noel: Quem dá mais? Por um relatório, lavrado em sinete, que deixe Michel em seu gabinete? Extenso ao palácio, e toda a cambada, foi posto no prego por Bonifácio Andrada.

3%

Também é o nome de uma série brasileira original da Netflix. Porque antes é o índice de aprovação do governo do Presidento, registrado pelo Ibope. Recorde histórico. Impressionado? Calma. A margem de erro é de dois pontos percentuais. Quer dizer, pode ser 1%.

O Palácio do Planalto atribui parte marca histórica à militância oposicionista da modelo Giselle Bündchen, com 13,2 milhões de seguidores nas redes sociais.

No ato me lembrei de uma fotografia onírica. Giselle, nua, montando um cavalo branco. Obra do fotógrafo Walter Chin para a revista Vanity Fair. A beleza arrebatadora exprime liberdade e poder.

Em tempos de assanhamento militar, quando até um juiz do STJ pergunta pelas redes se o povo quer baioneta, considero que a modelo merece ter o retrato transformado em monumento, maior que o do patrono do Exército Duque de Caxias, para a turma lembrar que a única intervenção cabível é a civil, com as pessoas participando, exercendo seu poder com liberdade garantida.

Zaprefeito 

Mesmo estando na cidade, governava pelo WhatsApp. Só desgrudava os olhos da telinha para gravar vídeos e dar entrevistas. Numa delas, afirmou que sentia falta de construções icônicas. Reconhecia um museu lá no alto e uma ponte que vira no noticiário. Um assessor recomendou que procurasse no Instagram pelas hashtags #SP #Arquitetura. Pena: dois goles de guaraná quente.

A gestão dava sinais de atraso em todas as áreas. O problema foi logo identificado: era impossível teclar, digo, despachar, com tantos buracos sacudindo o SUV. E a melhoria do asfalto virou prioridade.

Chamou os fornecedores e pediu, de presente, o top, como aprendera na loja de vinhos. Outro assessor, enólogo experimentado, ensaiou uma metáfora: “Chefe, usar asfalto de ladeira ou corredor em ruas pacatas, é como fazer sagu com Romanée-Conti.” Este bebeu meio litro de guaraná. Quente.

O caso atrasou tanto que vieram as chuvas, proibindo as obras de recapeamento.

Consta que o papa Francisco, amigo novo, ainda não respondeu o WhatsApp que pede intercessão junto a São Pedro na doação de mais doze meses de seca. Sem contrapartida.

Sentido!

Há sete anos, com direito a cenas dignas do Coppola, o Estado tomava o Complexo do Alemão. Prenderam vasta quantidade de maconha, poucas armas, meia-dúzia de traficantes e uma rapinha de cocaína e derivados.

Pavilhão Nacional hasteado no cume do morro, o então governador Sérgio Cabral Filho comemorou: “Nós temos um trabalho que tem como principal objetivo recuperar trinta anos de abandono, de populismo, de confusão.”

Hoje Cabral é inquilino em Bangu, e seu contrato de aluguel pode se estender a 45 anos.

Seu vice, Luiz Fernando Pezão, é oficialmente governador do estado do Rio de Janeiro. Na prática, ninguém é. A não ser nas 800 favelas, territórios comandados com mão de ferro pelo poder paralelo de milicianos e traficantes.

Na semana que passou a polícia invadiu a favela da Maré, aquela que os Paralamas cantaram há uns trinta anos, para tentar encontrar o traficante Rogério 157. Em vão. O prêmio de consolação foi, de novo, uma tonelada de maconha, alguns fuzis que eram das Forças Armadas, e uma pistola de brinquedo.

Semana esta que se encerra com a retirada das tropas do Exército da favela da Rocinha. Depois de uma semana de ocupação, entenderam que está tudo bem.

A passagem foi marcada por soldados fantasiados com mascaras de caveira – pelo que foram repreendidos, posto que o Exército só tolera insubordinação de general de quatro-estrelas –, distribuição de doces no dia de Cosme e Damião (Dadinho ou Zé Pequeno?) e vasta produção gráfica, com direito a chuva de filipetas na entrada e lambe-lambe na saída.

 
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Planejamento Il Gattopardo

A meia-dúzia de brasileiros mais ricos tem o mesmo dinheiro que os cem milhões mais pobres. Passamos a semana alarmados com a publicação do estudo da Oxfam, que vai além: metade da riqueza do país está concentrada em 5% da população e no ritmo atual a renda das mulheres só em 2047 será equivalente a dos homens; negros só alcançarão os brancos em 2089.

Para conseguir dormir alguém poderá dizer que o país é muito grande, com realidades diversas demais. Pois vejamos as cidades. Em Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo, a idade média (sem trocadilho) ao morrer mal ultrapassa cinquenta anos. Em Pinheiros chega a oitenta anos.

Os dados são da Rede Nossa São Paulo, que todo ano faz o Mapa da Desigualdade. Me arrisco a dizer que trata-se rigorosamente do mesmo estudo. Alguns exemplos:

Saúde: Na Bela Vista há 46,45 leitos hospitalares por mil habitantes; na Vila Medeiros são 0,041, e 31 distritos têm indicador igual a zero. No Jardim Paulista nasceram 0,117 filhos de mães com menos de dezenove anos de idade; em Perus foram 19,41.

Emprego: Na Barra Funda há 60.900,66 empregos para cada dez mil habitantes; em Marsilac há 168,38 para cada dez mil habitantes.

Violência: Para cada dez mil habitantes entre quinze e 29 anos, houve 0,642 homicídios na Vila Mariana e 10,44 no Campo Limpo. Onze distritos, majoritariamente bairros ricos, tiveram índice igual a zero.

Cultura: 59 distritos não têm sequer um museu. 58 não têm cinema. 60 não tem centro cultural.

O total de distritos é 96.

É claro que essa realidade condena a maioria da população à pobreza perpétua. E está certo o Américo Sampaio, gestor de projetos da Rede Nossa São Paulo, quando diz que ela foi muito bem planejada, não é obra do acaso.

Américo também alerta para o perigo que tamanha discrepância representa à democracia. Como falar em liberdade e Justiça a quem vive nessas condições?

Ele analisa que democracia, na periferia, é um vereador chato passar a cada quatro anos pedindo voto. Antes fosse.

A miséria é cevada cuidadosamente por diversos vereadores que pastoreiam seus territórios como currais eleitorais. As chamadas associações de bairro, em sua maioria, funcionam como milícias que controlam o acesso aos raros equipamentos e serviços públicos disponíveis. Precisa de uma quadra esportiva, tratamento médico, vaga no CEU? Pede para a associação, que requer cadastro com título eleitoral. Quando chega a eleição o que se encontra são reféns, não eleitores.

A “democracia” dos ricos se dá através de entidades de classe que defendem interesses empresariais, que pela lógica deveriam estar aliados à sociedade, mas não estão. A classe média se defende com o cunhado barnabé que troca favores nas repartições.

Para superar essa barreira só tem um caminho: descentralização e participação. Transformar os Conselhos Participativos Municipais, presentes em 32 regiões, em deliberativos. Está no Plano de Metas apresentado pela atual gestão e aprovado pela Câmara dos Vereadores. Porém não será cumprido.

Muito pelo contrário, o que vemos é o esvaziamento dos conselhos, que já não eram lá muito respeitados. O que significa isso? Exatamente a execução minuciosa do planejamento apontado pelo Américo Sampaio. Planejamento Il Gattopardo. Mudar para manter a desigualdade que tanta prosperidade traz aos 5%.

 
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Como será o amanhã

Convém desconfiar de bidus, adivinhos e afins. Entretanto, quatro episódios com a tinta ainda fresca nos jornais apontam claramente para desdobramentos futuros. Gente boa que sabe ler pesquisas chamaria de tendência. E o Nelson Rodrigues diria que é o óbvio – aquele que só os profetas enxergam.

1) Lula, PT e geral

A carta de desfiliação do ex-ministro Antonio Palocci no primeiro aniversário de sua temporada no cárcere foi endereçada ao PT. Mas deve ser lida por todos os demais trinta e tantos.

O trecho da carta que sacudiu a rede social foi o que chama Lula de pretensa divindade e pergunta até quando seus líderes vão fingir acreditar na autoproclamação do homem mais honesto do Brasil.

Lula na verdade é um preso virtual que deve oficializar sua candidatura à Presidência da República no dia 31 de junho. Tem importância histórica, atestada em intenções de voto, que não deve ser subestimada. Mas não voltará a presidir o país. Portanto não é uma ameaça, a não ser quando superestimado como ladrão maior da República.

Explico: a tentativa de diversos pré-candidatos à Presidência em estabelecer Lula como o grande e único corrupto brasileiro, não cola. Pelo contrário, a narrativa o mantém na berlinda com a possibilidade de continuar respondendo, negando, alegando perseguição e mostrando que mais fácil é dizer quem não roubou. E que no período dele o povo comia picanha.

Daí que a melhor parte da carta do Palocci – que pode ser tudo, menos estúpido – é a sugestão de que o PT caminhe para um acordo de leniência com a Lava Jato. Isto é, confissão de crimes e pagamento de multas. Serve para todas as legendas com assento no Congresso.

2) Gordura e músculo

A Câmara aprovou a Medida Provisória do Presidento que mantém seu comparsa Moreira Franco com status de ministro e foro privilegiado. Foi apertado. 203 votos a favor e 198 contra.

Quer dizer, considerando que Moreira Franco (e Eliseu Padilha) estão incluídos na segunda denuncia da PGR, que acusa o Presidento de organização criminosa e obstrução de Justiça, o governo tem pouca gordura para garantir os emblemáticos 171 votos para se livrar da investigação no STF. Por outro lado, falta à oposição musculatura para levantar os 342 votos necessários para autorizar o trabalho da Justiça.

3) Aécio

Quem diz que tucano não vai preso precisa controlar a ansiedade. As coisas levam tempo. Tem mais de dez anos que o PT foi às barras dos tribunais com o Mensalão.

A decisão do STF de afastar Aécio Neves do mandato e obriga-lo a recolhimento noturno anuncia que a gaiola se aproxima do ninho. Continuar negando qualquer irregularidade é repetir a retórica que o Palocci recomendou ao PT que abandonasse.

Tasso Jereissati bem que tentou, ensaiando o reconhecimento de erros no horário de TV do PSDB. Foi fortemente atacado por falar a verdade. Não conseguiu avançar. A peça de perdeu na história e ficou sem efeito.

4) Troféu

De Davos, Clóvis Rossi nos informa sobre mais uma conquista brasileira. O Índice de Competitividade Global do Fórum Econômico Mundial classifica 137 países em quesitos diversos. No sub-item “Confiança do público nos políticos” ficamos com a 137a posição. Parabéns a todos os envolvidos.

Entre os pré-candidatos ao Planalto, nenhum tem menos que 50% de rejeição. O limite clássico que inviabiliza uma candidatura é de 40%.

AVISO: conteúdo foi alterado

 
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Financiamento eleitoral é toda a reforma política. E mesmo assim não avança

Quem vai pagar a conta das eleições? É a pergunta que o Congresso tenta responder. Não por acaso, toda reforma eleitoral orbita em torno dela. Para valer nas próximas eleições, precisa ser concluída até o 7 de outubro.

O Salão Azul deve votar o relatório que acaba com a propaganda partidária na TV e destina ao fundo eleitoral metade dos recursos de emendas de bancada. Não está claro se o dinheiro economizado com o fim da propaganda na TV também iria para o fundo.

Longe de um consenso, os senadores apresentaram destaques para todos os gostos. Ou quase.

Há quem queira acabar até com o horário eleitoral gratuito, quem proponha reduzir para 30% o quinhão que sairia das emendas de bancada, cortar pela metade os 20% dos fundos partidários que deveriam ser investidos nos institutos que cada legenda tem, economizar quase um bilhão no custeio do Congresso e distribuir a gaita entre os partidos, tirar entre dois e 3,6 bi do orçamento e/ou até 50% dos subsídios que vão para cada parlamentar. São ao todo vinte sugestões. E absolutamente todas elas já são usadas para a campanha eleitoral permanente que os congressistas fazem, com raras exceções.

Fato é que não tem como fazer campanha para deputado, senador, governador e presidente com o modelo que valeu para vereadores e prefeitos no ano passado.

O ideal seria o voto distrital, que não precisa de tantos recursos. Mas com este Congresso é impossível.

Pergunto por que não voltar com o financiamento de pessoa jurídica. Empresas não votam e nunca votarão. Mas são parte da sociedade e têm responsabilidades sociais. Com transparência e limites, creio que mais do que poder, deveriam participar de campanhas eleitorais.

O caso do banco Santander é exemplar. Cancelou uma exposição de arte porque um grupo reclamou. Não ficou bem com o grupo e desagradou outros vários.

Se a sociedade presta atenção nas atividades culturais que um banco promove, por que não dedicaria o mesmo interesse pela política? Uma regra que obrigasse empresas e candidatos a publicarem em seus canais, sites e redes sociais, as doações combinadas, seria positiva para todos nós.

 
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Conflitos no final de semana: 11 Selvagens e Ala de Criados

Começou com uma oficina para jovens atores. O autor e diretor Pedro Granato propôs à trupe uma conversa sobre influências, e do cinema duas se destacaram: Quentin Tarantino e Relatos Selvagens, longa festejado do diretor argentino Damián Szifron, com o onipresente Ricardo Darin.

Era a senha para a criação dos 11 Selvagens. A estrutura da peça é semelhante a da fita. Diversas situações em que atravessamos a linha que separa a urbanidade da selvageria num caldo contemporâneo. Com a própria imagem refletida na superfície, quando a coisa ferve, fragmentando o reflexo num caleidoscópio tenso, nos sentimos aliviados, pensando que jamais chegaremos a tanto. Será? As faces de quem sente o vapor da arena não desintumesce assim tão fácil. E se desintumesce, talvez seja mais grave.

Curioso é que entre os conflitos postos no caldeirão não estão os clássicos social, racial, religioso. Ou por outra, estão os que sofreram mais avanços, tornando as relações mais horizontais, como os de gênero, de comportamento social, sexual ou hierárquico-corporativo e, claro, o político.

Na chegada, a introdução que vem da cidade. Duas ou três raras vagas para carro dando sopa na porta do teatro. Quem encosta achando que se deu bem logo é avisado: “melhor não”. Pelos fundos do edifício Redondo, um dos melhores, mais bonitos e bem localizados da República, condôminos lançam todo tipo de lixo. A turma que pita protegida sob a marquise vizinha confirma.

Vai lá. Até 11/11 no Pequeno Ato, Rua Teodoro Baima, 78.

Na saída, desci com minha Neguinha para o Bar da Dona Onça. Já na primeira mesa sob a marquise do Copan, que já teve seus dias de Redondo e hoje é um camafeu da urbanidade, uma surpresa deliciosa: Maria Manoella e Pereio ensaiavam para o jantar. Convidados, aderimos. Bela sexta-feira.

Vinham do SESC Bom Retiro, onde nossa diva estreou em Ala de Criados. Algo tensa, comentou que talvez estivesse muito preocupada com a plateia. E o Pereio: “Claro, eu estava nela.” Tem duas coisas que não passarão: insegurança de estreia e cafajestice. Graças!

Se 11 Selvagens não aborda o conflito de classes, Ala de Criados é todo ele. O pano de fundo é uma família aristocrata que se exila num clube de campo em Mar del Plata durante a chamada Semana Trágica, que em 1919 marcou a Argentina pela brutal repressão militar aos imigrantes europeus que trabalhavam em fábricas e reivindicavam uma equalização.

O texto do dramaturgo argentino Mauricio Kartun é universal. Aconteceu no mundo inteiro, inclusive no Brasil dois anos antes, ou há um século contando de hoje, quando no emblemático Nove de Julho de 1917 deflagrou-se a primeira greve geral brasileira no Cotonifício Crespi, na Mooca, se espalhando por todo país. Conforme o nosso costume, não houve um tiro, e uma semana depois tudo voltou ao normal.

Além da Manu, que no domingo já estava completamente à vontade no palco, o melhor na Ala de Criados é ver como aristocratas, burgueses e operários tomam partido. O operário quer mudanças e avanços porque não têm outra opção. O aristocrata se diverte porque a mudança arrefece o tédio, e porque sequer alcança se imaginar em outra posição. Para ele a vida é assim – que não deixa de ser verdade. Nem a fome mata a fleuma que se estabelece depois de quatro gerações de riqueza*. Menos ainda se a fleuma é argentina.

O partido do burguês sempre é conservador. Estreante na riqueza, vive inseguro com a possibilidade de voltar a ser pobre. Cafajeste na audácia, penderá radicalmente para o lado que lhe parecer mais vantajoso para manter sua posição. É o eterno infiel da balança.

*Conta válida para o novo mundo.

Vai lá: Até outubro no SESC Bom Retiro, Al. Nothmann, 185

ERRATA: Houve sim tiro na grande greve de 1917. Um operário foi morto pelo Estado, causando comoção e ampliando o movimento.

 
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