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No mínimo um milhão por mês

Ainda é pouco, mas tá valendo. A CVM estabeleceu o 25 de junho como prazo para as companhias abertas divulgarem os salários máximo, médio e mínimo de seus executivos. Alguns bancos resistiam na justiça, mas no final de maio TRF da segunda Região derrubou a liminar que garantia a cortina indecorosa.

Ainda é pouco porque o ideal é que a lei da transparência seja aplicada para todas es instituições com grau elevado de importância na vida da sociedade – companhias abertas estão entre elas, assim como partidos políticos, sindicatos, federações, fundações, clubes, escolas, universidades, ordens, igrejas etc. Um dia chegaremos lá.

O campeão foi o ex-presidente da Vale do Rio Doce, que em 2017 embolsou R$ 58,8 milhões. A maior parte é referente à verba rescisória por desligamento. Mas de qualquer maneira a média salarial dos executivos da Vale em 2017 foi de R$ 23,8 milhões.

A Vale do Rio Doce é uma das acionistas da Samarco, responsável pelo incidente do rompimento da barragem que em 2015 destruiu o vale do Rio Doce a partir de Mariana, em Minas Gerais, matando dezenove pessoas e espalhando lama e destruição por seiscentos quilômetros de extensão.

Até agosto do ano passado só 1% dos R$ 552 milhões das multas aplicadas haviam sido pagas. Quer dizer, aproximadamente 10% do que o ex-presidente embolsou.

Parênteses: ainda na segunda-feira 25 de junho Vale, Samarco e BHP Billiton assinaram um TAC (termo de ajustamento de conduta) com o MPF e diversos outros órgão públicos estabelecendo instâncias de negociação entre as vítimas e a Fundação Renova – algo que deve ser visto como um avanço e cultivado para que possa render frutos para toda a sociedade no futuro.

Voltando à escandalosa remuneração dos executivos brasileiros, acima de um milhão por mês obviamente estão os banqueiros (Itaú R$ 40,92, Santander R$ 29,99, Bradesco R$15,90) e Ambev R$ 14,7. Tudo em milhões. Milhões.

A ironia da desigualdade assim vertiginosa é que a turma do Bradesco deve estar indignada  sabendo que ganha tão mal para fazer a mesma coisa que o pessoal do Itaú.

Enfim, hoje tem copa e daqui a pouco o Neymar estará na grama. Se o cofrinho do Murilo Ferreira te impressionou, saiba que é o equivalente a um quinto do que o cai-cai ganhou no ano passado (R$ 297 milhões). Desde Aspasia de Mileto uma pessoa não era tão bem remunerada trabalhando deitada.

 
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Tolerância zero no Brasil: do u?

Alguém no Brasil escreveu que o casaco de Melânica Trump reeditou o conceito de vítima da moda. Em meio ao escândalo dos milhares de crianças separadas dos pais, imigrantes ilegais que arriscaram o sonho americano, a primeira-dama num dia criticou a política de tolerância zero do governo e, no dia seguinte, embarcou para uma missão humanitária com um casaco pichado nas costas: “I don’t care. Do u?” Ou “Eu não ligo. E você?”

Talvez fosse uma mensagem pessoal ao marido Donald. Sim, eu acho que ela – e todo mundo – merece o benefício da dúvida. E também acho que, constatado e reconhecido o pênalti, que todo mundo merece uma segunda chance.

Pelo menos 51 crianças brasileiras integram o grupo dos presidiários mirins nos centros de detenção da Patrulha de Fronteiras dos Estados Unidos. Mas quem ouve o áudio, ou pelo menos um trecho dele, não pode pensar em nacionalidade. São milhares de crianças apavoradas e ponto.

A nacionalidade que conta é a de quem fica indignado. É claro que, falando de gente, notadamente de uma criança ou qualquer pessoa vulnerável, tanto faz se ela é vizinha ou vive do outro lado do mundo. Somos todos uma coisa só. Mas vamos adiante pensando antes na arrumação do nosso quintal.

As 51 crianças brasileiras que estão lá na fronteira com o México, além de Houston e Chicago, você supõe, freguesa, não estavam a caminho da Disney e sem visto, mas numa corrida desesperada por uma alternativa de vida. Imagine o nível de desespero em quem decide se arriscar a sentir o bafo do Trump. E é aí que entra o nosso quintal.

Mike Pence, vice do Trump, neste momento almoça no belíssimo Palácio do Itararaty, que na semana passada manifestou “angústia” e “reações de inconformidade” por parte do governo e da sociedade civil brasileira com a situação das famílias separadas pelo governo dos EUA.

Considerando que, por estar no Jornal Nacional, a política de tolerância zero angustie grande parte da população brasileira, creio que vale a pena, literalmente, pensar em como cada um de nós sofre com o choro das crianças separadas de seus pais.

Entre os patrícios que estendem o quintal de casa a Florida ou coisa que o valha, isto é, os com melhores condições sociais, quantas vezes encontramos, nos aviões, famílias que vão à Disney e levam a babá dos filhos a tiracolo? Porque, afinal, alguém tem que cuidar das crianças, ficar nas filas com elas, e é claro que não será o Mickey. E menos ainda serão os pais das crianças. Daí a babá. Mas fica a dúvida: e do filho da babá, que fica em casa, na periferia, quem cuida?

É desnecessário ir tão longe ou, antes, pode ser mais efetivo ficar no cotidiano brasileiro. Que bom seria se, além da sociedade e do Ministério das Relações Interiores, a sociedade e também algum ministério se preocupasse com as relações interiores, se angustiasse por um momento com os milhões de crianças que diariamente ficam sem os pais (na verdade, sem a mãe, porque pai a maioria já não tem).

Claro que ninguém pode passar o dia cuidando dos filhos. Todo mundo tem que trabalhar. Mas a gente sabe que a opção de encontrar alguém disposto a deixar suas crianças em casa para ir cuidar de outras crianças em outra casa é exclusiva dos países subdesenvolvidos. Pode parecer estranho o que vou dizer mas não é fakenews: lá nos Estados Unidos, por exemplo, cada um cuida do seu.

Daí que podemos e devemos chorar ao som das crianças presas pela tolerância zero. Mas entre um soluço e outro não custa nada pensar o que leva alguém a topar se separar dos seus filhos. Se meu palpite estiver certo, vamos concluir que poucos fazem por opção e milhões fazem por desespero.

Em outras palavras, vocês que lê em inglês, foque na pergunta pichada no casaco da Melânia. Mesmo que ela não se importe, cabe perguntar: e você?

 
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PSDB 30 anos: o voo de galinha dos tucanos

Hoje PSDB faz trinta anos. A legenda vira balzaca desquitada do eleitorado. E, ao contrário do que socialmente significa o avanço da emancipação feminina, no caso do partido é a consagração do fracasso.

Entre os jornalões quem se antecipou foi o Estadão, com reportagem de Adriana Ferraz e Pedro Venceslau publicada no domingo de São João. Simbólico. Em setembro de 2010, véspera das eleições que poderiam virar a página da história promovendo a turma de 1968 para o “conselho”, permitindo renovação no Executivo, o jornal declarou voto em José Serra, do PSDB, contra Dilma Rousseff, do PT, ambos da geração política de 1968.

Da parte do Estadão, atitude corajosa que infelizmente não prosperou na imprensa nacional. Por aqui, lamentavelmente continuamos simulando isenção enquanto ninguém mais acredita em imparcialidade. Inverter esta lógica me parece fundamental para a sobrevivência do jornalismo.

Da parte dos partidos, progressistas separados na maternidade, era puro conservadorismo. Dilma foi empurrada por um dedaço do presidente Lula após o ocaso de Antonio Palocci e José Dirceu, este galã inconteste da turma de 1968. Seu xará José Serra bem que tentou, mas só foi galã enquanto governante, e como Dirceu teve o tirocínio político reconhecido até pelos adversários mais ferrenhos. Já derrotado por Lula em 2002, quando não defendeu o legado dos oito anos de FHC, Serra seria novamente derrotado em 2010, deixando o PSDB sem presente, passado ou futuro.

Era de se supor que alguém inteligente como o Serra aprendesse com os próprios erros. Só que não. Na entrevista à Adriana Ferraz, o mais importante tucano com mandato disse o seguinte: “Você não muda lideranças por decreto. Há gente jovem e boa, mas lideranças políticas têm de aparecer. Renovar não é uma decisão. E as pessoas precisam estar preparadas.” E o senador segue com uma crítica à escolha de Pérsio Arida para coordenação econômica do programa de governo do pré-candidato a presidente Geraldo Alckmin.

Quem conhece o modo Serra de pensar sabe que ele acredita que tudo deveria ser submetido a ele. Mas o que pasma na resposta é o descolamento da própria história. Serra atropelou em 2010, perdeu e, em 2012 voltou à carga, melando a prévia tucana para escolha do candidato a prefeito de São Paulo. Entre os concorrentes estava Andrea Matarazzo, seu amigo pessoal, que fora secretário estadual, ministro, embaixador e, mais importante, tinha segurado a administração da cidade quando Serra renunciou a um ano e três meses de mandato para concorrer a governador. O vice, Gilberto Kassab, foi rainha da Inglaterra de Piratininga no tempo restante. O “primeiro-ministro” Matarazzo garantiria a reeleição da administração em 2008 com a aprovação do governo em 86% (considerando a soma de ótimo, bom e regular). Mas em 2012, com Matarazzo frito por Kassab, que se dedicava exclusivamente a fazer o PSD, a cidade se encontrava largada e Serra disputou e perdeu para Fernando Haddad.

Para superar Serra, encerro sua presença nesta crônica citando mais duas respostas inacreditáveis na entrevista de aniversário. Já na primeira ele diz que o PSDB é diferenciado “sem prejuízo ao MDB”. Na terceira, defende a autocrítica partidária, provavelmente supondo que a sociedade tenha se esquecido de sua omissão quando Tasso Jereissati tentou e foi abatido no ninho.

Avante. Na reportagem do Estadão o primeiro parlamentar citado é Nilson Leitão, líder do PSDB na Câmara Federal. As aspas que lhe foram concedidas são estas: “É o momento mais difícil da história do partido.” O deputado Leitão foi o autor da PEC do trabalho escravo, morta no ano passado. Também tentou, como lembra a repórter Thais Bilenky hoje na Folha de hoje, emplacar uma lei que permitiria remunerar o trabalhador rural com casa ou comida. Agora, liderando um partido parlamentarista, colhe assinaturas para o projeto que quer diminuir o número de deputados de 513 para 394. Com apelo populista-eleitoreiro, já conseguiu 172 assinaturas e quer mais.

O Estadão traz também uma entrevista do presidente FHC. Ao repórter Pedro Venceslau ele reconhece que os tucanos hoje são mais liberais mas não menos socialmente orientados. É de se supor que FHC não conheça Nilson Leitão.

Por outro lado sabe-se do carinho e do respeito que FHC tem pela memória de Ruth Cardoso. O jornalista Elio Gaspari a definiu n’O Globo como “consciência social” do ex-presidente, lembrando que, em 2007, quando estourou o caso que viria a ser conhecido como mensalão mineiro (termo capcioso, baseado na semelhança de origem e não com o fim do dinheiro) e que acabou trancando Eduardo Azeredo, Ruth defendeu que ele fosse afastado da presidência do PSDB e “não foi ouvida”.

O ovo do tucano foi galado na convenção do PMDB que definiria o candidato ao governo do estado de São Paulo em 1982. A chapa vencedora foi Montoro-Covas, mas teve que ser diluída por pressão de Orestes Quércia, candidato derrotado que lotara o auditório no Anhembi com militantes egressos do MR8 e, no grito, exigiram “Quércia vice”. Franco Montoro passou mal e teve que ser socorrido. Mario Covas, percebendo o risco da não resiliência para a redemocratização do país, teve a grandeza de ceder a vaga. Mas a ferida foi profunda e deixou um queloide.

Montoro, eleito governador vencendo Reynaldo de Barros, candidato do PDS, além de Jânio Quadros e Lula, teve a coragem de convocar o primeiro grande comício contra a ditadura militar que pedia a volta das eleições Diretas, suspensas pelo golpe militar de 1964.

As Diretas não passaram mas o movimento foi determinante para a volta de um civil à Presidência. Como a eleição seria no colégio eleitoral, onde o então governador de Minas Gerais Tancredo Neves tinha mais força do que Franco Montoro, que por governar São Paulo tinha mais chance no voto popular, Montoro cedeu. Ao secretário Roberto Gusmão determinou uma “mensagem à Garcia”. Gusmão foi pessoalmente ao Palácio da Liberdade comunicar a Tancredo que ele seria o candidato. Telefone, na luta contra a ditadura, “só para marcar reunião em lugar errado”. Décadas depois, já na democracia, Aécio Neves, neto de Tancredo que presidia o PSDB, morreria politicamente num telefonema nada republicano.

Em 25 de junho de 1988, “longe das benesses do poder mas perto do pulsar das ruas”, nascia o PSDB. Nas semanas que antecederam a criação da legenda os jornais davam ampla cobertura às movimentações que cresciam enquanto Orestes Quércia, governando São Paulo com uma dose elevada de autoritarismo, desconstruía o legado democrático, descentralizador e participativo de Franco Montoro.

Consultando os arquivos da época descobri que o movimento era tratado por “o partido novo”. As sugestões de nome pululavam e o Carlito Maia, filósofo popular ligado ao PT, fazia troça sugerindo Partido Quase Popular, ou PQP. Motivo havia.

Desde a convenção de 1982, quando o ovo foi galado, os tucanos criaram um fetiche chamado “cercadinho”, que consiste num curral para proteger os caciques da indiarada em qualquer evento partidário. Naquele dia, no Anhembi, Montoro e Covas ficaram nos corredores cumprimentando os convencionais. Severo Gomes, que também disputava, montou um espaço que hoje chamariam de sala VIP. O auditório ficou para o MR8 quercista.

Trinta anos depois, segue o atavismo. A primeira tentativa de congraçamento do “centro democrático reformista”, que pretendia juntar lideranças em torno da candidatura tucana à Presidência da República, teve por foto de divulgação a imagem de uma dúzia de homens em terno e gravata, num salão forrado com lambris na parede e um enorme tapete persa. Nenhum jovem. Nenhum negro. Índio nem pensar. Nem gay assumido. E só uma mulher vestindo algo parecido com um jaleco branco. Era o retrato perfeito da sala de espera da urologista Angelita Gama.

Neste 25 de junho os tucanos celebram seus trinta anos em Brasília, num salão fechado e exclusivo para a Executiva do partido. Perto do poder e longe do pulsar das ruas.

Seria o Carlito Maia bidu além de filósofo popular? Acho que não. Filósofos trabalham com a razão e de alguma maneira ele percebeu o DNA tucano. Montoro e Covas não conseguiram fecundar o partido com seus ideais. Já na decisão sobre o nome da sigla, foram votos vencidos e acabou prevalecendo a social-democracia, algo que a maioria das pessoas não sabe o que é e, quem sabe, discorda. O maior adversário eleitoral nesses trinta anos foi o Partido dos Trabalhadores. Trabalho é algo que todo mundo entende e, por definição, ninguém se exclui. O logotipo de um é uma estrela, símbolo universal. O do outro é um tucano, que precisa de pelo menos um parágrafo para ser explicado.

As linhas ideológicas originais do PSDB eram social-democracia, liberalismo social e democracia cristã, com algum espaço no cercadinho garantido aos democratas conservadores. A primeira, pela complexidade, é praticamente impossível de ser comunicada. A segunda, jamais assumida, acabou adotada pelo, vejam só, Partido Novo, que escolheu o nome do PSDB pagão e ainda acolheu os conservadores, com seu líder dizendo que é “liberal na economia e conservador nos costumes”. A democracia cristã ficou para o e-e-Eymael.

Na prática o resultado é que os tucanos perderam o mel e a cabaça no plano federal. Para ficar nas conquistas dos oito anos de FHC, no social não defenderam a reforma agrária nem os programas de transferência de renda iniciados por Ruth Cardoso, entregando de bandeja para o PT os movimentos populares rurais e o Bolsa Família. Na economia, se envergonharam das privatizações e não souberam transmitir a importância da responsabilidade fiscal. Esperar que conseguissem comunicar que o maior programa social possível é a estabilização da economia seria pedir demais. Hoje o brasileiro atribuiu os tempos de bonança a Lula.

Mais distante, vale lembrar que o primeiro programa brasileiro de renda mínima foi começado por um tucano histórico, Magalhães Teixeira, o Grama, prefeito de Campinas durante a redemocratização. Mas quem passou anos repetindo a proposta foi Eduardo Suplicy, talvez o único grão-petista sem problemas com a Justiça. E que Geraldo Alckmin conseguiu “azular” o mapa eleitoral do estado de São Paulo quando entendeu que a “mancha vermelha” representava assentamentos rurais que demandavam os mesmos subsídios que os produtores tradicionais para trabalhar. Ofertando crédito para máquinas e insumos, Alckmin reverteu os votos, mas só contou como uma única vez em entrevista à repórter Julia Dualibi na revista Piauí.

A responsabilidade pelo comportamento tucano é só dos tucanos. Mas há influências. Na ditadura, fazer oposição implicava em risco de vida. Quem conseguiu se manter falando sem ser morto ou exilado foi a chamada terceira via de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro. Na redemocratização, oposicionista e petista se tornaram sinônimos. Conceito falso.

O PT nunca foi oposição, sempre foi do contra. Votou contra Tancredo, contra a Constituição, contra o Plano Real, contra Lei de Responsabilidade Fiscal. E como quem é contra tudo nunca é a favor de nada, uma vez no governo o PT adotou o continuísmo da agenda tucana. Na Carta ao Povo Brasileiro garantiu o Plano Real e cumpriu. Reuniu e ampliou os programas de transferência de renda sob o guarda-chuva do Bolsa Família. E o PSDB, apoiou? Não. Foi incapaz de propor continuidade desenvolvimentista ao Plano Real e passou a tratar o Bolsa Família como esmola.

No plano dos estados, falando desde São Paulo sobre um partido paulicêntrico, os tucanos se iludiram com as sucessivas reeleições para o Palácio dos Bandeirantes. Aceitaram os votos contra o PT sem se preocupar em ganhar o eleitorado a favor do PSDB. A rigor, viraram tutores dos órfãos do malufismo. Com efeito, o tucano pra valer se encontra em extinção, sobrevivendo em um ou outro raro parque em Higienópolis, Jardim Paulista ou Alto de Pinheiros.

No último 17 de junho a Folha publicou um estudo que prova o palpite acima. Os pesquisadores Eduardo Cavaliere, graduado em Direito com concentração em matemática pela FGV do Rio, e Otavio Miranda, da área de economia política do Instituto Chongyang de Estudos Financeiros, na China, organizaram dados mostrando que, apesar de sucessivas vitórias para governador, no legislativo o PSDB é freguês do PT, que tradicionalmente elege mais deputados federais do que tucanos.

Quando a eleição majoritária é para o legislativo o fenômeno se repete. O PT elegeu mais senadores por São Paulo do que o PSDB ao longo das últimas décadas. José Serra (de novo) ganhou em 1994 mas deixou o suplente Pedro Piva no Salão Azul e foi para o ministério de FHC. Romeu Tuma tinha os votos do malufismo. E o protagonismo ficou com Aloísio Mercadante, Marta Suplicy e, claro, o mais longevo deles, Eduardo Suplicy, depois de 26 anos de vitórias perdeu em 2014 e agora lidera as pesquisas ao lado de José Luiz Datena, celebridade do entretenimento policial que tende a herdar o voto malufista.

Às vésperas das eleições de 2018 o cercadinho tucano virou terra de ninguém. Cabe todo mundo mas pouca gente quer ficar e menos ainda gente nova quer entrar.

Geraldo Alckmin, pré-candidato à Presidência da República, dia sim e outro também recebe pelas costas um adesivo escrito Doria presidente. O autor das pegadinhas, tudo indica, é o próprio João Doria, afilhado político de Alckmin e preferido do MDB de Michel Temer para sua sucessão. (Ver no YouTube a entrevista do Jô Soares aos repórteres Vera Magalhães e Edgard Piccoli da rádio Jovem Pan.)

No PSDB a piada é que o teto da juventude partidária é de quarenta anos. Mas o jovem araçari que tem menos de trinta anos votou exclusivamente em Geraldo Alckmin ou José Serra a vida toda. Sentindo a “morrinha de convento” que o Machado de Assis notou nas casas fechadas, quadros importantes espirraram. Sérgio Cabral saiu para ser governador do Rio. Eduardo Paes e Gustavo Fruet, estrelas da CPI dos Correios, também saíram, e venceram na Cidade Maravilhosa e em Curitiba. Em Campinas pulou fora o Jonas Donizete. Walter Feldman foi para a CBF. Andrea Matarazzo para o PSD. Álvaro Dias e Mario Covas Neto para o Podemos. Gustavo Franco para o Novo. Zé Aníbal ficou mas não se aguenta. Ciro Gomes foi por aí. Zulaiê Cobra desistiu. Entre cinco deputadas federais, 10% da bancada, nenhuma desfila alta plumagem.

A exceção só veio em 2014 com Aécio Neves para presidente. E a outra possibilidade é João Doria em outubro, que demonstra se sentir com autonomia não só para voar sozinho, mas até para decolar tomando o slot de Alckmin, que o embalou.

Hoje, quem for ao diretório estadual do PSDB-SP celebrar discretamente o aniversário da sigla, poderá conferir os retratos na galeria de notáveis. Estão lá Franco Montoro, Mario Covas, Magalhães Teixeira e Sérgio Motta, já falecidos. Entre os vivos, Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Geraldo Alckmin.

Tendo sido prefeito da capital e aclamado pré-candidato ao governo do estado natal tucano naquele endereço, João Doria ainda não conquistou um espaço para seu retrato na parede. A imagem resume o voo de galinha do tucano que, antes de completar trinta anos, se esmigalhou. Ou, tomando emprestado o neologismo da jornalista Renata Lo Prete, virou farinata.

 

Aqui, minha nota de despedida do PSDB em 27 de outubro de 2017

 
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Notas sobre a Copa

Primo Philippe está com tudo. Marcou o primeiro e o segundo da seleção na Rússia. Como diria meu pai, dois Coutinho é biscoutinho. Família sacudida. É Maju na previsão do tempo, Laerte no cartum… No surfe somos um clã: Luana, Lapo, Elsior Lapo, Ordilei.

Acordei cedo e espremi dois quilos de laranja da Bahia, aquela do umbiguinho de fora, como o Braguinha cantou saudando a garota da comuna de Saint-Tropez. Sem dúvida é a melhor laranja. Bebemos, minha Neguinha e eu, como na lua de mel em Portugal, misturado com um bruto, ou brut, como dizem na França. A mistura se chama “mimosa” e é perfeita para o café da manhã.

Neymar Jr. marcou mas não convenceu. Mete vergonha no Brasil. Mas nem tanto. Quando ele tentou cavar o pênalti e o árbitro deu, a torcida comemorou. Farsa desfeita pelo VAR, pude ouvir protestos na vizinhança e ver a decepção da arquibancada. Isso diz muito sobre a brava gente brasileira. Lamentável. Definitivamente os representantes que estão em Brasília são o extrato fiel da Nação.

Nas redes sociais, naturalmente sobra gozação. Mas nenhum meme foi mais falado do que o vídeo da b. rosa. A gente precisa parar com esse tipo de brincadeira. Igual a qualquer processo de mudança cultural, será demorado, mas é fundamental. E aqui faço autocrítica: achei graça nos memes que surgiram a partir do caso. Quer dizer, isso está em mim. E, se não tivesse nascido com a sorte de detestar andar em bando, quem garante que eu não faria a mesma coisa que aqueles infelizes? Já dizia o Nelson Rodrigues que a torcida é uma massa, tem espírito próprio e anula o indivíduo. À menina russa, minha solidariedade e a esperança de que o constrangimento pelo qual ela passou sirva para fazer a humanidade pensar.

Copa do mundo é um evento de globalização, assim como Fórmula 1 e jogos olímpicos. Elites convivendo em harmonia transnacional sob regras comuns, para mostrar a toda gente que é possível. De novo, eu sei, demora, mas é inegável que avançamos.

As fotos oficiais das seleções provam. Fora casos extremos como Argentina e Japão, a maior parte das demais delegações são etnicamente plurais: França, Rússia, Áustria, Marrocos, Nigéria, Kuwait, Croácia, Inglaterra, Alemanha, Portugal, Suécia. Estou até pensando em fazer um álbum para comemorar. E os Estados Unidos não terem se classificado mas ganharem a sede de 2026 em conjunto com México e Canadá foi uma bola linda nas costas do abjeto Donald Trump. Tem força para derrubar muro.

 
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Doutor Sérgio Moro, quem Vossa Excelência pensa que é?

O antropólogo Roberto da Matta foi superado pelo juiz Sérgio Moro.

Da Matta anotou há alguns anos a diferença entre a autoridade no Brasil e nos Estados Unidos usando duas frases populares. Enquanto aqui usamos o “sabe com quem está falando?”, lá é mais comum o “quem você pensa que é?”.

Moro, que embasou a operação Lava Jato na delação premiada, norma importada dos Estados Unidos, tropicalizou o dispositivo dispensando que o prêmio do delator seja umbilicalmente ligado à apresentação de provas. De quebra, no último dois de abril, proibiu que outros órgãos de Estado usem informações colhidas pela operação e ainda condicionou à sua autorização o prosseguimento de medidas que já tenham sido tomadas contra delatores se baseadas em documentos da Lava Jato. A rigor, mostrou na prática o exemplo do antropólogo.

Cabe perguntar ao meritíssimo: quem Vossa Excelência pensa que é?

+Pessoa no xadrez

Difícil discordar do juiz Moro quando diz ele diz que “Há uma questão óbvia, a necessidade de estabelecer alguma proteção para acusados colaboradores ou empresas lenientes contra sanções de órgãos administrativos, o que poderia colocar em risco os próprios acordos e igualmente futuros acordos”. (Porque é óbvio que, podendo, governantes vão utilizar confissões para retaliar quem os delatou.)

Porém o despacho se transforma em peça sofista quando a tese sequer alcança a antítese, que seria exigir dos delatores as provas que rendem os prêmios. Ao contrário do que propõe Moro, o maior risco para os acordos celebrados ou  pretendidos pela Lava Jato e outras operações é dispensar a verdade e arruinar o próprio Estado de direito.

Só nos últimos dias, por falta de provas, o Supremo arquivou ou absolveu Aloysio Nunes Ferreira, Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo. Mas os delatores continuam com seus prêmios, cumprindo penas brandas, em casa e com (muito) dinheiro no bolso.

Para afastar o risco de vermos a chamada República de Curitiba transformada em ditadura curitibana, insisto na pergunta: doutor Sérgio Moro, quem Vossa Excelência pensa que é?

 
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Em tempos de Lava-Jato, voltamos a lavar carros e calçadas

Ninguém sabia que era de caqui aquele pé no meu caminho da roça. Por décadas foi só mais uma árvore na calçada, querida como toda árvore na calçada, porém não sabida.

Era como aquele amigo pagão e infalível da calçada do botequim. Haja o que houver, lá estará ele, no fim da tarde, com uma cerveja e um sorriso, pronto para qualquer prosa, das amenidades às confissões. Ele é parte da sua vida mas não tem nome. Nem precisa.

Até que um dia ele falta e você vai descobrir com o garçom seu nome, suas proezas e o horário da missa. Sem intimidade com a viúva e receoso de enfrentar aquele olhar “esse vagabundo que desgraçou meu marido”, para o qual só o Zé do Pé tinha peito, você vai à igreja mas não fica para os cumprimentos. Procura a cumplicidade com a turma do fundão, ora nos últimos bancos, ora nas galerias laterais, alguns fumando na praça, e percebe que haverá encontro de intenções lá na calçada do boteco – com uma vantagem: o taberneiro topa pendurar a espórtula.

LEIA TAMBÉM:

+ Burrice humana e inteligência artificial

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Mas o que eu queria dizer é que este ano o caquizeiro se identificou. Calma, ele continua vivo, na Lorena, pouco depois da esquina com a Eugênio de Lima. Não virou estatística como tantas árvores que tombaram desgraçadas nos últimos anos em São Paulo. Ocorre que, quem entende do assunto, diz que ele se identificou por medo de desaparecer.

Em 2014, a repórter Fernanda Mena voltava da licença maternidade e se interessou pela exuberante florada dos ipês-rosa. É natural que aqueles móbiles fantásticos, com bolas cor-de-rosa enfeitando a cidade, prendessem a atenção de quem passara boa parte dos últimos meses tendo por universo um quarto de bebê, célula tão repleta de presente e que ainda arranja por onde nos fazer pensar no futuro.

E lá foi ela à faina descobrir que a beleza mais intensa dos ipês-rosa era um grito de socorro causado pelo chamado “estresse hídrico”. Ouviu do José Ricardo Ribeiro Hoffmann, engenheiro agrônomo do Viveiro Manequinho Lopes que, sem chuva, a planta acha que pode morrer e canaliza toda sua energia para se reproduzir, aumentando as chances de preservação da espécie. Flores, sabemos, são os órgãos reprodutores das plantas.

Fernanda também ouviu a professora de botânica da USP e especialista em ipês Lúcia Garcez Lohmann explicar que o pouco que se sabe sobre os ipês é baseado em observação, e que esta indica que eles florescem mais com o tempo seco e dias longos.

Guardo a matéria com carinho e apreensão. Nos últimos tempos, além do caquizeiro, encontrei uma jaqueira carregada na mesma alameda Lorena, e é improvável que dezenas de jacas penduradas sobre o meu caminho da vida toda tenham passado despercebidas em ocorrência anterior.

Além de jacas e caquis vi inéditas mexericas, limões, uma profusão de romãs, mangas e abacates, pitangueiras, amoreiras e goiabeiras dando mais do que o costume. E para não dizer que não falei das flores, ruas amarelas com tantas pétalas de sibipiruna, quaresmeiras desfilando até depois da Páscoa e todas as cores de ipê se revezando com impressionante precisão matemática. Um branco, raríssimo, ali na Groenlândia com a rua Primavera, estava de parar o trânsito, literalmente.

Como a própria Fernanda lembrou num post recente nas redes sociais, em 2015 o termo “volume morto” veio nos assombrar. E tudo, ou pelo menos a minha observação cotidiana, me leva a pesadelos parecidos com o Thriller do Michael Jackson, com o volume morto ressurgindo das catacumbas.

Se flores e frutas e os meus pesadelos não bastam, anote: 2018 teve o maio mais seco dos últimos 57 anos, os reservatórios do Sistema Cantareira já operam em níveis mais baixos do que os de 2013 (no último dia dos namorados estava com 45,7% e no 12 de junho de 2013 tinha 58,1%) e a vazão, que é quantidade de água que entra no sistema, está aquém da média há mais de um ano e meio. A Sabesp diz que as obras realizadas para combater a última seca vão garantir água na torneira até o fim de 2019. Mas não diz que é urgente economizar.

Ninguém há de negar que a gente fez muita bobagem durante do século XX. Paciência. Inês é morta. Mas impressiona ver que o volume morto não tenha ensinado nada. Em tempos de lava-jato, voltamos a lavar carros e as calçadas, prefeitura e governo do estado apostam em asfalto como ativo eleitoral, a estrutura de saneamento básico segue negligenciada e o indivíduo, diante deste quadro, puxa água para sua sardinha: vistas do alto, as concentrações urbanas parecem sofrer de uma brotoeja azul, todas sapecadas de caixas d’água. Quanto haverá de água parada pendendo feito jacas sobre as nossas cabeças?

Léo Coutinho, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie

 
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Elogio aos velhos

Ótimo papo do Boni com o José Nêumanne no Estadão. Destaco alguns pontos:

“Perguntei ao dr. Ulysses se o trabalho estava indo bem. Ele me respondeu, literalmente: ‘O Brasil é o país da demanda. Todos querem puxar a brasa para sua sardinha. Chegar a um acordo é um desespero.’”

“A tomada de posição de um veículo é um direito, quase um dever.”

“Uma única coisa é certa: os grandes produtores de conteúdo sobreviverão.”

“Sou um sonhador por natureza e teimoso por deformação profissional.”

“Nenhum projeto sólido e confiável foi apresentado por qualquer candidato. Pelo que ouço nas ruas, a população está descrente e sem motivação para votar. Parece estar adivinhando que vamos continuar trancados e sem saída.”

Só discordo de quando ele diz que “eleição repetitiva dos mesmos políticos” é um dos três grandes problemas do Brasil. Acho o doutor Ulysses me dá razão. E que tanto o Boni e o Nêumanne provam que ter gente experimentada funcionando ajuda muito.

+ Senhores e escravos

Na Folha do 17 de junho o repórter Marco Augusto Gonçalves trouxe uma entrevista com uma dupla de pesquisadores brasileiros, Eduardo Cavaliere, 23, e Otavio Miranda, 24, o primeiro graduado em direito com concentração em matemática pela FGV do Rio e o segundo membro da área de economia política no Instituto Chongyang de Estudos Financeiros. Eles provam com números que o discurso de renovação política em voga está errado.

Escrevi aqui sobre três grupos que se valem dessa narrativa falsa, e que na verdade não buscam outra coisa se não a ocupação do espaço vazio no entorno ou no cerne da vida pública. Esta freguesia pode escolher o meu palpite, a pesquisa científica do Cavaliere e do Miranda ou, melhor ainda, ambos. Deles, pincei este trecho: “Em 2014, 53% dos deputados federais brasileiros foram reeleitos, enquanto que 95% dos congressistas americanos, 90% dos britânicos, 88% dos espanhóis, 80% dos australianos e 72% dos canadenses se reelegeram. A baixíssima renovação em cada um desses países é razão de atraso ou ausência de progresso nacional? Improvável.”

 

 
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O Brasil é uma granja

No dia da abertura da copa, a comissão de ética da Presidência da República decide que Pedro Parente não precisa cumprir quarentena para assumir a direção da BrF depois de ter presidido a Petrobrás. O “mercado”, invés de ficar escandalizado, comemora, e as ações do frigorífico sobem. Vergonha. E ainda criticam o que chamam de “classe política”. Renova Brasil #sqn

 

 
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Hoje teve aula na escolinha do Jorge Paulo

Henrique Meirelles foi o entrevistado do Roda Viva na última segunda-feira. Data pior seria difícil. Além do encontro na ilha de Sentosa, que absorveu toda a atenção do mundo, era véspera do dia dos namorados no Brasil, quando as fotos e declarações dos casais enamorados se tornam onipresentes nas redes sociais.

Parênteses: escrevi aqui há alguns anos que amor de gente feia era igual festa de orçamento baixo. Quer dizer, para quem olha parece feio, mas quem participa sempre parece mais contente. E o inverso é verdadeiro: nada mais frio do que as fotos posadas dos casais lindos e das festas instagramáveis.

De volta ao Meirelles, não dá para dizer se a assessoria acertou no que não viu quando escolhei a data-moita. A entrevista foi de uma monotonia de sauna fria. Os jornalistas só faltaram bocejar.

+Aspectos da paralisação – Economia

Obviamente o pré-candidato-banqueiro não tem condições eleitorais. Mas seu discurso é baseado em experiência administrativa e merece integrar um debate sério, urgente para todos nós. E politicamente a coerência liberal merece destaque: liberal na economia, sobre os costumes ele se mantém no mesmo campo quando afirma, sobre o consumo de drogas, que se trata de questão pertinente ao indivíduo. Oxalá tenha feito corar o João Amoedo, ou outro pré-candidato-banqueiro e dono do partido Novo, ou Flavio Rocha de não se qual partido, que propõem o famigerado “sou liberal na economia e conservador nos costumes”.

Sigo na minha luta para escancarar esse liberalismo de conveniência. Ou liberalismo de Estado, tão comum no Brasil.

Ao meu lado estão os grandes bilionários brasileiros, ainda aplaudidos por onze entre dez wannaBis tupiniquins. A Ambev, cujos sócios são três dos seis caras que têm na poupança o mesmo dinheiro que os cem milhões de brasileiros mais pobres, só faz me ajudar.

++ Um brinde à Estácio ou a escolinha do professor Lemann

Hoje abri o Estadão e lá estão os mosqueteiros do Sonho Grande, o 3G Capital, salve, salve, ameaçando o Governo Federal com milhares de demissões caso a medida que reduziu os incentivos para a fabricação de xarope de refrigerante na Zona Franca de Manaus não seja revogada. (Previ aqui.)

Curiosamente 1: a turminha do liberalismo de conveniência, devota da escolinha do professor Jorge Paulo, deu piti nas redes quando se falou em subsídio para o diesel dos caminhoneiros – piti este que não os impediu de abastecer o Land Rover sete lugares (tem que caber as babás), descer a Serra rumo à Baleia e, de quebra, postar no instagram que o final de semana com as praias ermas e livres de pobres mortais estava “top” ou “incrível”.

Curiosamente 2: já deu tempo de todo mundo ler o Estadão e até agora nem um pio sobre as ameaças da Ambev, Coca-Cola e Pepsi em retalhar seus empregados caso suas tetas não sejam restabelecidas.

Curiosamente 3: segundo a OMS a obesidade é a segunda causa de mortes no mundo e por isso já é considerada epidemia. Doenças associadas a ela custam fortunas ao sistema de Saúde, primeira preocupação dos brasileiros em qualquer pesquisa. E obviamente o consumo de refrigerantes, que são basicamente água e açúcar, tem grande parte da culpa. Quer dizer: oneram as contas do país, ajudam a matar uma porção de gente e ainda pretendem receber incentivos (aproximadamente R$ 7 bi/ano) para continuar.

Muito bem, Jorge Paulo. Você está de parabéns.

Camaradas liberais, vamos juntos! Ergam o punho e gritem comigo: #LeseferPraValer.

 
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Trump, Kim e as fissuras

Donald Trump e Kim Jong-un se encontraram ontem na ilha de Sentosa, antiga Ilha do Morte. Conforme artigo da Economist traduzido pelo Estadão, Sentosa é um termo malaio que significa paz e tranquilidade. Mas até 1972 a ilha tinha outro nome “Pulau Blakang Mati”, ou “Ilha da Morte”.

Do encontro ambos saíram com um entendimento que merece ser celebrado como vitória pela humanidade. Não que os termos assinados valham alguma coisa e muito menos signifique esperança – tanto um quanto outro não prezam acordos institucionais. Mesmo assim, devemos celebrar o fato do jantar ter acabado sem malcriações de parte a parte. A chance de descambar para agressões verbais e até físicas me parecia alta. Ufa.

Para o futuro, o que receio é o fortalecimento do discurso anti-civilização. O atropelo dos ritos diplomáticos é assustador. Não deu errado dessa vez, mas pela força da imagem pode virar prática comum acabar mal.

Conversei com amigos que gostam do Trump, com amigos que desgostam e com moderados. As opiniões sobre quem estava mais à vontade variam muito. Na minha, era o Kim. Mas tanto faz.

Minha aflição, insisto, vem dos aplausos à sem cerimônia que marcou a preparação do convescote. A rigor, poderiam dispensar a foto “histórica” e fazer tudo pelas redes sociais.

À esta aflição somo o maniqueísmo dos que atacam a Coreia do Norte por ser uma ditadura sem lembrar que Cingapura não é uma democracia.

Com trocadilho, morro do medo de fissuras. São elas que levam barcos a pique, sejam canoas ou transatlânticos.

 
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