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House of Cards pelo fim do foro

House of Cards tem uma versão original, da BBC, que também está no Netflix. Tão boa quanto a do Kevin Spacey ou melhor. Recomendo.

Lá pelas tantas um deputado governista vai para a oposição e levanta suspeita de corrupção contra o primeiro-ministro, que se defende desafiando o colega a repetir, na rua, o que dissera no interior da Câmara dos Comuns.

Trago a lembrança para falar do foro privilegiado e da imunidade parlamentar, instituições que se confundem. Ambas são fundamentais para o exercício da atividade parlamentar, mas não podem de jeito nenhum extrapolar este limite e abarcar crimes comuns, notadamente corrupção.

A imunidade parlamentar serve para o congressista poder peitar o Poder Executivo sem medo de ser esmagado por sua força descomunal. Exagerar e perder a credibilidade corre por sua conta e risco. E mais cedo ou mais tarde, acontecem eleições.

O mesmo vale para o Judiciário, inclusive os juízes de primeira instância. Botou muita tinta numa sentença? Chegou a borrar os autos? A segunda instância e o Ministério Público servem para rever e denunciar. Em casos mais graves, devem ser julgados.

Daí a se imaginar que por um delito cometido na pessoa física por alguém que ocupa posto de autoridade merece tratamento diferenciado vai um caminho e tanto, que nunca deveria ser percorrido. Infelizmente não é o que se vê. Políticos com mandato e outras autoridades flagrados descumprindo a lei têm seus casos tratados pela Corte mais alta. Juízes, promotores, delegados, policiais afastados por má conduta costumam se aposentar com salario integral. Ambos corroem o tecido social.

(O aniversário de dois meses do suicídio do reitor Luis Carlos Cancelier está chegando e pouco ou nada foi feito para esclarecer os motivos que o levaram primeiro à cadeia e, depois, à liberdade parcial, que previa proibição de pisar no campus da UFSC. De fato, nunca mais pisou. Seu corpo entrou deitado, para o velório.)

Parece que este é um entendimento óbvio. Além de protestos corporativos, ninguém mais defende os privilégios das castas. Quem pode separar os crimes do colarinho branco dos setenta mil assassinatos por ano no Brasil? Se existe essa pessoa, sugiro que vá ao Rio de Janeiro. A situação político-criminal fluminense prova que, com ou sem sangue, o crime anda de mãos dadas e a impunidade é didática.

Com oito votos num colégio de onze, o Supremo decidiu que para crime comum não pode haver foro privilegiado. E, por incrível que pareça, o ministro Dias Toffoli, mesmo já sendo voto vencido, pediu vistas e não tem prazo para devolver o processo ao plenário. No mínimo, se é que tem mesmo alguma dúvida, poderia se abster declarando que, seja lá qual for sua sentença, terá peso zero no final do processo. E permitir que o país avance.

 
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Renovar o Renova

A coluna Direto da Fonte detalhou o audacioso plano do Renova Brasil, “fundo cívico” que pretende selecionar, entre 4 mil candidatos de todo o Brasil, 150 nomes para disputarem as eleições legislativas em 2018 e investir R$ 200 mil em cada um, fora custos operacionais. O grupo promete avaliar e divulgar quem receberá o dinheiro, mas não avalia nem divulga os doadores. “Assim como qualquer outra iniciativa que é baseada em doações, nós não temos controle da posição dos doadores”, justificou nas redes sociais. Isto é, demonstra não saber onde está pisando. No Brasil pós-Lava Jato, para renovar o processo político é imperioso que haja, de propósito, transparência total sobre doações eleitorais. Aliás, é o que a lei obriga que se faça, publicamente e online, durante a campanha. Se quiser mesmo renovar alguma coisa, ou ao menos para afastar o risco de macular já na largada a biografia de gente interessada em participar da vida pública, o Renova deveria renovar as próprias práticas.

Carta publicada no Estadão em 26/11/2017

 
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Luana já assediou e eu já fui assediado

Luana Piovani disse que já foi assediada “algumas vezes”. E como sempre, meteu pimenta no molho. Contou que, chamada para sentar no colo de um homem, desfilou, sentou ao lado e sorriu, como quem diz “olha com o olho e lambe com a testa”. A história inteira está na coluna da Sônia Racy, no Estadão, onde a atriz fala do espetáculo infantil Em Busca de Noel, que estreia hoje no Ginásio do Ibirapuera.

Porém Luana se esqueceu de contar que já assediou. Consta que, lá em Jaboticabal, passando de carro ela gostou de um rapaz que estava na calçada. Estacionou, saltou e tascou-lhe um beijo na boca. A história ficou gravada na minha memória com a força que só a inveja alcança.

José Mayer, Kevin Spacey, Harvey Wenstein, Antunes Filho estão apanhando feito vaca na horta por acusações de assédio. São só os mais conhecidos. Onde a gente fuçar, vai encontrar uma vítima. E um algoz. Nos palácios, nas cozinhas, nas igrejas, universidades.

Minha mulher já foi assediada. Minha mãe também. Até eu já fui assediado, pasme freguesia. Por homem e por mulher. E provavelmente já assediei.

Concordo com a Luana quando ela diz que é bom falar sobre o assunto porque é a melhor maneira de acabar com o assédio. Ou pelo menos diminuir. E que é fundamental entender que ao fulanizar uma prática cultural partimos para o olho por olho, dente por dente. E isso nunca deu certo.

O problema é de todos nós, como prova o fato de que Luana assediou e eu fui assediado. Temos que resolver juntos, não destacando bruxas.

 

 

 
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Senor, pense no que faria o Isaac Abravanel

“Não aprovem nenhuma lei que aumente ainda mais a desigualdade e a dívida.” É um comunista? É um socialista? Não. São os Super-Ricos dos Estados Unidos determinando a agenda do Congresso.

O grupo, autointitulado Riqueza Responsável, é especialmente contrário à proposta Trump de acabar ou subir a linha de corte dos impostos sobre propriedades e herança, que nos EUA tributam bens avaliados acima de US$ 5,49 milhões. Cerca de cinco mil famílias pagam esses tributos, que somam US$ 1,5 trilhão por ano. O PIB do Brasil em 2016 foi US$ 1,8 tri.

Esse imposto é uma beleza e precisa ser entendido no Brasil.

Se você é do grupo que gosta de passear em Nova Iorque, saiba que Rockfeller, Lincoln, Frick, Guggenhein, Whitney, antes de espaços de arte são famílias, que para evitar a inexorável taxa sobre heranças, investem em filantropia. Doando elas matam dois coelhos numa só cajadada: criam legado e descontam impostos. A intenção não surge necessariamente nessa ordem. Mas o que importa é que também não altera o produto.

Se a sua turma prefere Miami, desde já peço que releve minha indelicadeza em pedir um pouco de atenção na véspera da Black Friday. Mas é importante você saber que impostos sobre herança e grandes fortunas, que só incidem sobre as cinco mil famílias mais ricas, é um dos fatores que permitem que sejam mais leves os impostos sobre o consumo, que pegam 320 milhões de pessoas. Sim, o celular mais barato é por causa disso.

No Brasil é o inverso. Não há impostos sobre grandes fortunas ou herança. Aliás, o carnê do seu IPVA está para chegar. Mas se você, invés de carro popular estivesse a bordo de um jato particular, o IPVA jamais chegaria. Porque é isento. Já os impostos sobre o consumo são altíssimos. Por isso o seu tão sonhado jipe coreano custa mais caro por aqui do que um modelo de luxo feito na Inglaterra e vendido nos EUA.

Também é por isso que o Silvio Santos prefere investir em fazer bodas de ouro negociando com o Zé Celso a doar de uma vez o terreno vizinho do Teatro Oficina.

Não é apego ao dinheiro o que o move. É a cultura do milionário brasileiro. Aqui, quem doa é um bocó. Notável é quem gasta uma fortuna com advogado tributarista para entrar na Paradise Papers, espécie de nobiliarquia contemporânea.

Ocorre que Silvio não faz parte disso. Historicamente é um recordista de pagamento de impostos. Pessoalmente leva vida de classe média, usa ternos do Camelo, considera cretino quem tem avião particular, lava a própria louça, não dá moleza financeira para as filhas.

Mas aparentemente se deixou levar. E paradoxalmente a convivência com o Zé Celso contribui para a pose de mau. Silvio valoriza as coisas que o dinheiro não pode comprar. E a convivência com o Zé Celso é uma delas. Ele venera personalidades únicas, amplas, divertidas. E como o Zé Celso não toparia substituir o Chaves no SBT, resta ao Silvio obriga-lo a negociar – exercício que, para um judeu-grego e camelô mais brilhante que o Brasil já viu, deve ser terapêutico.

O que precisamos é cavocar o atavismo no Silvio. Ontem, em reunião no Oficina para definir o roteiro do ato deste domingo 26, que vai unir TBC, Casa de Dona Yaya e coletivos mil pelo Parque do Bixiga, a Catherine Hirsch, poeta e conselheira do teatro, lembrou que Silvio é descendente direto do Rei Davi, passando por Isaac Abravanel, estadista, filósofo e mecenas português, que doou herança e fortuna acumulada para alforriar judeus escravizados ou tentar impedir que fossem expulsos da Espanha. O terreno do Silvio fica na rua da Abolição.

Ao contrário de Isaac Abravanel, Silvio não herdou nada. Mas ganhou muito. A começar pela concessão do SBT durante o regime militar. Depois, quando foi roubado por gente de sua confiança no Banco Panamericano, se viu diante de uma conta bilionária, sobre a qual tinha responsabilidade de dono, mas não culpa de administrador. A salvação da falência veio pela Caixa Econômica Federal, que sob o governo Lula comprou 49% das ações por R$ 740 milhões. E o Fundo Garantidor de Crédito entrou com mais quatro bilhões de reais. O que são dez mil metros quadrados no Bixiga perto disso?

Silvio querido, eu gosto de você. Todo mundo gosta. Desejamos que hoje, ao abrir a Torá, você se lembre do vovô Isaac e então do vovô Zé Celso, e telefone doando o terreno. Ele fica acordado até as três da manhã. O João Doria deita cedo, às duas – mas em compensação, às seis já está no ar. Telefona, Silvio. E se embalar, doa também os estúdios da Vila Guilherme. Sua exposição que vai do MIS pra lá conviveria muito bem com uma bela Fábrica de Cultura.

Ah, chama o Eli Horn para doar o Parque Augusta. Tenho certeza que, dos Abravanel, ele é fã do Senor e do Isaac.

 
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Turma de 2018

Incrível

Eliane Cantanhede cravou no Estadão que a candidatura de Luciano Huck a presidente da República é pra valer. Garante que o apresentador estará nas fileiras do PPS até o dia 15 de dezembro, respeitando o prazo estipulado pela TV Globo.

Se engana quem acredita que a candidatura empolga as organizações Globo. Um amigo bem-informado chegou a comentar que a família Marinho adoraria ter um dos seus no Palácio do Planalto. Incrível.

Para mim é óbvio que, muito antes da inauguração de Brasília, todo assunto relevante no Brasil passa pelo Jardim Botânico ou, em casos mais graves, pelo Cosme Velho antes de ser decidido. Cidade de Deus e Jabaquara idem. Sempre foi assim, é igual no mundo inteiro e quem ousa fazer diferente chama-se Donald Trump.

Quer dizer, Globo, Bradesco, Itaú e mais meia dúzia de gigantes, amiúde e obviamente são consultados pelos governos e fazem por merecer o bônus. Então por que qualquer um deles se arriscaria a assumir o ônus de estar diretamente associado a um governo que, igual a todo governo, tem pelo menos 50% de chance de dar errado?

Bolson’água

Meu receio era que ele estivesse se preparando. Só que não. Ufa.

O deputado Jair Bolsonaro foi ao Canal Livre na madrugada do 20 de novembro. Cinco dos melhores jornalistas da TV Bandeirantes estavam à mesa. Atípica mas compreensivelmente aflitos, todos perguntavam juntos. É compreensível porque qualquer pessoa de bom senso duvida, por exemplo, que alguém possa defender a tortura – e se apressa para tirar a dúvida.

Para espanto geral, o deputado repetiu e insistiu que, sim, o Estado deve usar de “energia” para tirar de um suposto sequestrador a posição de um cativeiro.

O capitão do Exército e parlamentar foi condenado pelas ofensas a uma colega que, segundo ele, não merece ser estuprada.

Tanto quanto sequestro, estupro é crime hediondo. Pela lógica, evitar um estupro também mereceria “energia”. Fiquei imaginando o deputado pendurado num pau-de-arara até dizer quem merece ser estuprado.

O fofo ainda prometeu que, sob a sua Presidência, “o homem do campo” terá direito à posse de fuzil calibre .762. A posse desta ou outra arma de uso restrito por um civil também é crime hediondo no Brasil.

Estratégia

Anotei aqui que faltou estratégia ao marketing eleitoral do prefeito João Doria.

Dias depois ele anunciou que diminuiria as viagens da pré-campanha. Não chega a ser uma farinata completa, mas também não é comida de verdade. De lá pra cá foi ao Rio, Manaus e Sorocaba. E escondeu das redes sociais.

Ajustar algo que começou errado é sempre mais difícil do que fazer certo desde o princípio. Com tanto tempo acumulado longe da cidade, afirmando ser possível governar pelo WhatsApp e que as pernadas interessavam aos paulistanos, parar de viajar ou esconder quando viaja implica falsidade. Das duas, uma: o prefeito reconhece que negligenciou a cidade ou assume que das viagens pouco ou nada traziam de bom para São Paulo e portanto não fazem falta.

Passados 25% do tempo de mandato o prefeito começa 2018 sem mais poder culpar a gestão anterior, e senhor absoluto do próximo orçamento, deverá enfrentar o problema da tarifa de ônibus, as águas de janeiro, fevereiro e março, tambores de carnaval, estresse eleitoral no PSDB (diretório nacional e prévias estaduais) e desconfiança generalizada: dos políticos, pelo fato de ter avançado contra o próprio padrinho; do mercado, do qual espera boa vontade nas desestatizações, por não respeitar ritos e pactos sociais, como o Plano Diretor; da sociedade, pela percepção da ausência do dia-a-dia da administração.

Vice norte e sul

Dizem que, às vezes, quem está fora enxerga melhor do que quem está dentro. Que enxerga diferente, não há dúvida. E mesmo assim coincidências acontecem.

Desde Lisboa um amigo arrisca que a chapa Lula–Manuela D’Ávila é fortíssima. Ele senhor do Nordeste e pai dos pobres. Ela gaúcha, loira, jovem e bonita, parece simpática à elite branca. Difícil discordar.

Se se confirmar, Geraldo Alckmin vai precisar de Ivete Sangalo na vice. Baiana, sacudida, mãe de gêmeos, não poderia ser acusada de showmício e ainda é ex do Luciano Huck.

 
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Ruas crocantes e outras notas

Minha ideia é fazer uma alameda só com as árvores que soltam favas crocantes nessa época do ano. Modéstia à parte, não conheço ninguém melhor do que eu na arte de estalar favas secas nas calçadas. Cada passo é um croc.

Minha Neguinha até tenta me acompanhar, e eu incentivo mostrando como se faz. Em vão. Sempre estalo mais que ela. Creio que seja um dom que Deus me deu. Nasci assim, com talento para crocâncias. E é uma atração mútua. As favas estão para mim como a bola para o Garrincha. Flano pela cidade como se estivesse comendo pipoca no sofá. Ou como estalo todas as juntas, na cama, ao despertar.

Quem quiser experimentar esta delícia, basta sair para um passeio. Tem muitas por aí. Mas não o bastante. Daí meu projeto para a alameda. Que irá de encontro a um coreto.

Como velhos amigos, temos intimidade, mas não sei o nome científico da árvore. Tampouco sei o vulgar. E aposto que a recíproca é igual. Ela também não sabe os meus e isso tem peso zero na relação.

O trecho mais divertido talvez seja a saída do Ibirapuera. Atravessando o monumento às Bandeiras, cruze por dentro da praça no sentido da Brigadeiro. Se eu estiver por perto, prometo pódio na escala Richter de sensações.

Nutella e raiz

Uma companhia de trens japonesa virou notícia ao se desculpar por um atraso de vinte segundos.

O equivalente culinário aconteceu na Alemanha. Consumidores de Hamburgo protestaram contra uma mudança na receita da Nutella. Comparando rótulos de antes e depois de agosto de 2017, verificaram que a quantidade de leite em pó na composição subiu de 7,5% para 8,7%.

A Ferrero, fabricante do creme de avelã mais famoso do mundo, admitiu a alteração: “Houve uma troca no soro de leite para o leite desnatado em pó de 2,1 gramas a cada 100 gramas. Com isso, passa de 6,6% para 8,7% a quantia de leite em pó desnatado na receita.”

Você, brasileiro, que em instantes deixará a labuta para tentar chegar em casa antes do sábado por meio do nosso transporte público, sequer pode invejar japoneses ou alemães. Ante distância tão absurda, o máximo que a gente alcança é achar que eles são uns chatos com mania de perfeição.

Caso você desista de encarar o rush e encoste para uma cervejinha nesta sexta-feira abafada, deixe um gole para o santo e peça pela grande companhia brasileira chamada Ambev, que mudou completamente as receitas originais das nossas marcas mais queridas. Quem sabe um dia o Jorge Paulo compra a Ferrero e mete amendoim na Nutella. Finalmente o mundo vai conhecer a vida como ela é.

Dorme, Carminha 

Outra coisa que podemos desejar é a ministra Camem Lúcia sonhando com o Picciani puxando seu pé. Ela merece. Hoje o chefe da quadrilha da Alerj foi absolvido pelos pares, prerrogativa que ganharam depois daquela lambança que começou no Senado, foi ao Supremo e voltou ao Salão Azul para salvar Aécio, Renan, Jucá, Barbalho. Estão de parabéns.

 
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Coisa de preto?

Willian Waack foi infeliz. Completamente infeliz. A frase é absolutamente descabida. Discriminação idiota. Mas vinda de um cara não é idiota, muito pelo contrário, mais idiotas seremos nós se deixarmos assim. Condenaremos o jornalista e só? Vamos desperdiçar a chance de ouvir um pedido de desculpas e desculpar?

Em tempo: fuçando meus preconceitos, encontrei buzinar no trânsito entre as coisas de gente mimada e egoísta, não de gente sofrida, como infelizmente é comum entre os pretos. No meu arquivo, coisa de preto é música suingada, proeza esportiva, bunda empinada e pinto grande. Se te parecem qualidades positivas, ou preconceito a favor, aproveite para rever os seus preconceitos, lembrando que eles nunca são bons.

Salão azul

A notas a seguir, na íntegra, são do Painel da Folha de São Paulo:

Ovo da serpente Um grupo de senadores tenta dar cabo da CPI dos Maus-Tratos, presidida por Magno Malta (PR-ES). Na sessão do dia 9, um dia depois de aprovar a condução coercitiva do artista que provocou polêmica ao se apresentar nu em SP, Malta levou ao plenário um acusado de pedofilia, algemado e com uniforme de detento. “O sr. foi abusado na infância?”, indagou. O depoente disse que sim, mas que não queria falar. O senador insistiu. O preso chorou. O depoimento virou peça de propaganda.Histórico Alessandro da Silva Santos é acusado de abusar de 11 menores. Ele ainda não foi julgado. Chegou ao Senado desacompanhado de um defensor. “O sr. tem advogado?”, questionou Malta. “Tenho”, respondeu o homem. “Ele sabia que o sr. viria aqui?”. “Não. Nem eu sabia, excelência.”Escapou O senador designou um advogado, funcionário da Casa, para auxiliar o preso. Eles conversaram por dois minutos. Depois o servidor saiu de cena. É possível ouvir o diálogo na gravação da TV Senado porque Malta não desligou o microfone. Fala entre defensor e cliente é inviolável.

Peso da lei O advogado avisou Alessandro de que tudo poderia ser usado em seu julgamento. No interrogatório, Malta quis que ele confessasse os crimes, detalhasse o número de vítimas e, diante do pedido do homem para só falar em juízo, disparou: “Se fosse juiz, ficaria ofendido. É como se ficasse mais fácil”.

Tudo certo Procurado, Malta disse que constituiu advogado para que o preso pudesse conhecer seus direitos. “Quem deve ter sofrido constrangimento foram as crianças que ele abusou. Conheço o movimento a serviço de forças ocultas e interesses escusos para calar a CPI!”

Quem gostou aplaude – e acorda

Em Ribeirão Preto, um homem que roubou uma corrente de ouro de um membro do PCC foi intimado a comparecer ante o “tribunal do crime”. Devolveu a corrente mas, com medo de morrer, faltou ao “julgamento”. E foi condenado à morte por W.O. Levou quatro tiros enquanto jogava sinuca num bar.

Ignorância e farsa

Uma marcha na Polônia foi notícia no mundo inteiro. E a internet ainda estava muito longe de acontecer. Naquele 1º de setembro de 1939, desfilavam sobre Varsóvia as tropas de Adolf Hitler.

No Brasil o Estado Novo oscilava entre seguir plano de desenvolvimento dos Estados Unidos e assumir seu apreço às ditaduras europeias. O ditador Getúlio Vargas só desceu do umbuzeiro em 1942, se aliando aos Estados Unidos, Rússia e Inglaterra.

Por aqui havia um forte sentimento antifascista e antinazista. Entidades tiveram que mudar de nome. Em São Paulo o Sport Club Germânia virou Esporte Clube Pinheiros. O Bar Berlim, no Rio, virou Bar Lagoa.

Ali perto, numa esquina, o jovem Paulo Francis defendeu um rapaz espancado por ser alemão. Apanhou junto. Ocorre que o rapaz era judeu-alemão. Ignorância dobrada.

No sábado 11/11, Varsóvia assistiu à marcha da Independência da Polônia. Grupos nacionalistas aproveitaram para desfilar xenofobia e nazismo. O governo polonês contemporizou. Tentou passar a ideia de patriotismo destacando o caráter da marcha oficial. Dois dias depois, finalmente, cedeu e condenou as mensagens clandestinas.

O russo Karl Marx escreveu que a história acontece primeiro como tragédia e se repete como farsa. Se tem um lado bom no flerte com a farsa polonesa foi a revisão do governo, ainda que 48h atrasado.

Na década de 1930 passamos anos contemporizando o nazismo. O inglês Winston Churchill farejou a tragédia e falou sozinho por muito tempo. Dizia que “conciliador é aquele que alimenta o monstro na esperança de ser devorado por último”. Até que voltou ao poder e salvou o mundo. Foi por pouco.

Estamos assistindo a repetição da história como farsa? Correspondente da Globo em Nova York, como foi o Paulo Francis, Guga Chacra condenou as mensagens extremistas na Polônia e vem sendo atacado na internet por tipos que flertam com o nazismo e o fascismo.

Quero crer que, igual os que atacaram o jovem Francis, os ignorantes de hoje não sabem o que estão fazendo. Mas a consciência tranquila que vem das certezas fundamentais é antes de qualquer coisa um perigo fundamental.

 
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2018 pode ser do camarão ensopadinho com chuchu

Minha tarefa era comer sessenta dos melhores pratos da cidade de São Paulo em um mês. E ainda recebi um cartão de débito com o valor necessário para cobrir a despesa. Invejável? Sem dúvida.

Era o prêmio Paladar Estadão 2012. Convidado pelo amigo Ilan Kow, inventor e então editor do caderno homônimo no jornal, virei jurado. Foi uma delícia.

Ocorre que, confirmando a sabedoria popular, a turma vê as pingas e não imagina os tombos. Conciliar sessenta pratos em um mês com a vida cotidiana não é fácil. No meio há agenda social e profissional que, não raro, envolve comida. Até café da manhã aparece. Coisa de gente aflita, que evito com vigor. Manhã para mim é em casa, lendo os jornais e escrevendo cenários e tendências para a freguesia.

Mas o que eu queria dizer é que, passado o rancão da primeira semana dedicada à comida de chef, vem a saudade da chamada confort food. Arroz, feijão, ovo frito, verdurinha.

Para mim isso explica o ânimo político em 2017. A popularidade do Presidento está na margem de erro, 3%, e não se ouve panelas. Estão cozinhando arroz branco ou venderam a bateria para comprar feijão?

Está puxado. Mesmo nos feriados, quando tradicionalmente os jornais emagrecem e a gente descansa, teve fogo alto. Réveillon: gente estripada e decapitada nos presídios; carnaval: Yunes, Padilha, Funaro e um pacote de dinheiro para Cunha; março: Operação Carne Fraca; Páscoa: Temer responde à delação da Odebrecht; Tiradentes: OAS diz que Lula pediu destruição de provas; Dia do Trabalho: Judiciário delatado na Lava Jato; ainda maio: Joesley grava Temer no porão do Jaburu; Corpus Christi: Coronel Lima banca reforma na casa da primeira-filha; férias de julho: Geddel preso; mês do cachorro louco: Imbassahy flagrado negociando emenda por voto em plenário; Sete de Setembro: Palocci revela pacto de sangue entre Lula e Odebrecht; Dia da Criança: STF lava as mãos sobre Aécio; Finados: PGR Raquel Dodge afirma ser incontroverso o repasse de meio milhão da Odebrecht a Aloysio. No meio disso tudo, o mais votado de 2016 tentou furar a fila do restaurante e acabou vaiado. Amanhã é 15 de novembro, festa da República. Tremei.

Num cenário assim o populismo ferve. Pesquisas mostram que 35% dos brasileiros sentem saudades de Lula e da picanha daqueles anos. Acreditam que berrando de cima de um palanque ele pode reestabelecer o churrasco aos domingos. 13% querem mais pimenta no molho e apostam no destemperado Bolsonaro. Oi?

Em 2017 um estado foi às urnas. Elegeu Amazonino Mendes, três vezes prefeito de Manaus e agora três vezes governador do Amazonas, com 782.933 votos. O terceiro colocado foi Eduardo Braga, citado na Lava Jato, que recebeu 539.318 votos. Ambos perderam para abstenções, brancos e nulos, que somaram 1.016.635 eleitores.

Quer dizer: experiência, alianças políticas, suas lideranças e tempo de televisão contam. Lava Jato idem. Acima delas só o cansaço.

Me parece que a maioria está como a Teresa Batista, cansada de guerra. Sabe que a promessa de picanha para já é bravata e não aguenta mais pimenta. Quer a paz do trivial. Nesse prato, o problema acompanha a solução. Há público para acreditar picanha ou brincar com pimenta. Mas quem sai de casa para comer chuchu?

O nome mais próximo de construir alianças políticas, juntar lideranças e somar tempo de televisão é Geraldo Alckmin, quarenta anos de vida pública e campeão de longevidade no governo do estado de São Paulo, que supera a Argentina em PIB e população. Seu problema são os apelidos. E, paradoxalmente, a solução também.

Na delação da Odebrecht seria o Santo, numa passagem distante que, segundo pesquisas qualitativas feitas pela Travessia Estratégia, não chega a ser comprometedora. Na boca do povo é o Picolé de Chuchu, porque não anima. Por outro lado, santos têm o respeito até dos ateus e o outro nome do chuchu é tranquilidade.

Seu desafio, portanto, é somar tempero sem perder a base. Propor um camarão ensopadinho com chuchu, receita que surgiu no Rio e ganhou o mundo na voz da Carmem Miranda. Os melhores camarões vêm do Ceará. Na falta deles é preciso uma nega baiana ô, que saiba mexer. Sei do que estou falando. Minha avó Olga nasceu a léguas do mar, em Corumbá-MS, e era especialista no prato, que tem uma qualidade extra: se o orçamento aperta, pode ser completado com uma farofinha de ovos, que em todo canto se acha.

 
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Crônica das anilhas

Me lembro do editor da revista Cigar Aficionado dizendo que não tirava as anilhas dos seus charutos “por não se envergonhar do que fumava”. Desde JFK, os puros da ilha do Fidel dão mais problema que um baseado, e a turma do fumoir tem que se contentar com tabaco de outra procedência, tido como genérico.

No Brasil, com o perdão do trocadilho, a etiqueta manda o charuteiro elegante começar o ritual descartando a anilha. Claro que há os desobedientes. E atualmente há até exemplares ostentação, com mais de uma anilha, anilha em ouro – assim como há roupas com logotipos cada vez maiores que encontram consumidores orgulhosos.

Passei o final de semana com isso e os meus botões por conta das anilhas dos cinquenta milhões de dinheiros apreendidos em Salvador, atribuídos à quadrilha do Geddel Vieira Lima. Até as digitais do irmão Lúcio foram identificadas e preservadas. Já as anilhas, que indicariam a procedência da fortuna, por quais bancos passaram, sumiram na Polícia Federal. Seriam motivo de vergonha para algum banqueiro? Será obra de algum delegado elegante ou empreendedor? Jamais saberemos.

Siga o dinheiro

Na terça-feira passada fui almoçar no Bar da Dona Onça. Era o aniversário de 45 anos da eleição do Nixon, que acabou caindo com o Watergate, escândalo que cunhou a frase-princípio da investigação sobre corrupção: “Siga o dinheiro”. Infelizmente, por algum acaso, nossa Polícia Federal não anotou.

Julinho Toledo Piza, sócio da Onça, gosta do Nixon pelos motivos certos. Lembra que ele começou a conversa com a China em plena Guerra Fria e que saiu do Vietnã. Estava feliz com a data e, talvez por isso, pela alegria, lembrou uma canção linda. Viola quebrada.

A música é do Villa-Lobos e o Mario de Andrade meteu a letra. Destaco um trecho sublime: “Por causa dela sou rapaz muito capaz de trabaiá, e todos dias, todas noites carpinar / Eu sei carpir porque a minha alma tá arada, rodeada, carpinada com a foiçada dessa luz do teu olhar.”

Um amigo que passou pela mesa e notou nossa alegria aproveitou para provocar. Afirmou que o Nixon era o bom e que JFK, filho de contrabandista e, filho de peixe, ordenou a compra de mil unidades de Petit Upmann antes de assinar o embargo à Cuba.

 
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Reforma e Renova Brasil (emoji risadinha)

Valendo! As novidades trabalhistas entraram em vigor neste sábado 11 de novembro. É simbólico. No final de semana, poucos patrões e muitos empregados estão na labuta.

Os deputados que aprovaram as medidas tiraram dez dias de folga, sob o argumento de que se o dia da res pública, cai numa quarta-feira, não compensa ir a Brasília trabalhar na terça e na quinta-feira – segunda e sexta não contam, nunca contaram. O Judiciário achou bonito e acompanhou.

Curiosamente, uma das medidas da reforma trata justamente disso. De agora em diante, patrões e empregados podem, em acordo, jogar um feriado de quarta para sexta-feira. Mas seria injusto cobrar isonomia ou, no mínimo, boa memória dos nossos parlamentares e magistrados.

Na teoria a reforma é uma gracinha. Na prática, além do já exposto, a vox populi não bota fé. Inclusive entre os patrões e seus advogados, ninguém crê na vox Dei. Melhor dizendo, receiam contratar sob as novas regras e daqui a um ano verem eleitos mandatários que revoguem tudo o que foi aprovado por este Congresso que cobrou 32 bilhões de reais do erário para manter o Presidento denunciado no Planalto. Fora o risco do Judiciário.

Outro ponto curioso da reforma é o item Velhinha de Taubaté, que acredita em negociações equilibradas entre patrões e empregados num país de analfabetos funcionais com quatorze milhões de desempregados declarados.

Para entender como funciona, reparem no fundo cívico Renova Brasil, turma de gestores que fez vaquinha “com o propósito de acelerar novas lideranças políticas e viabilizar o acesso do cidadão comum ao Congresso Nacional”. Pretendem eleger previamente 150 candidatos a candidato a deputado federal e botar R$ 200 mil na campanha de cada um.

A eleição prévia será um processo seletivo arbitrado por gente indicada pelo Renova Brasil. Entusiastas e colaboradores sugeriram que eu participasse. Considerei a ideia, mas não sem antes perguntar sobre o processo de seleção dos altruístas que puseram dinheiro no fundo. Questão elementar: quero saber se os doadores têm os mesmos compromissos éticos dos candidatos. Questão de equilíbrio. Ainda não responderam. Quando e se o fizerem, incluo aqui (resposta e réplica no fim do texto.

Por ora, sabe-se que o Abílio Diniz é um dos mecenas. Logo ele, com problemas sérios de conduta empresarial e graves questões em aberto na Justiça. Também sei que o Eduardo Mufarej, porta-voz do grupo, foi parceiro do Abílio na BRF, e que juntos nomearam para diretoria de boas práticas o JR, que veio a ser preso por fraude. Como alguém que quer participar da renovação política topa ser avaliado por eles?

Quero estar enganado, mas tudo isso parece mais uma etapa do aquecimento para ocupar o espaço político abandonado pelos tradicionais financiadores de campanhas, suspensos pela Lava Jato.

Sem querer afobar a seletíssima audiência desta página, recomendo que para entender a igualdade social no Brasil aguardem a segunda-feira 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra. Reservem um momento para verificar como a data é celebrada. Nas piscinas, iates-clubes e campos de gólf, as senhoras e os senhores poderão ver os brancos celebrando. E os negros trabalhando.

ATUALIZAÇÃO 20h00 – Renova Brasil, pelo facebook, respondeu o seguinte:

Oi Léo Coutinho, tudo bem? Assim como qualquer outra iniciativa que é baseada em doações, nós não temos controle da posição dos doadores. Acreditamos que se essas pessoas estão apostando no potencial desta iniciativa e dos bolsistas é porque concordam com nossos pilares. O que podemos garantir é que os doadores não terão qualquer influência sobre os bolsistas ou sobre o processo de formação. Qualquer outra dúvida, estamos à disposição. Abraços!

Minha réplica: Renova BR grato pela resposta. É importante separar doações altruístas de compra direta de apoio. Seria bacana vocês deixaram isso mais claro entre os princípios anunciados. Muita gente vem confundindo doação eleitoral com corrupção e condenando políticos com bons serviços prestados. Abraços

 
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