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15% dominaram o Brasil

O desencanto é geral. Desemprego, desalento, desespero. Ruralistas insatisfeitos, evangélicos contrariados, industriais em extinção, construtores sem perspectiva, caminhoneiros irritados, militares envergonhados. Sérgio Moro esculhambado, PaGue desautorizado, general Villas-Boas espancado nas redes sociais. Carla Zambelli chora.

Em seu universo paralelo e ainda sob os vapores (obrigado, Braga) do porre homérico do semestre passado, o mercado financeiro finge que vai tudo bem. Já reduziram uma dúzia de vezes a projeção do PIB mas a Bolsa segue firme perto dos cem mil pontos, o dólar se mantém estável, bancos aumentam lucros concentrados na usura sobre uma sociedade endividada.

Hoje balançou, dólar subiu a quatro reais e Bolsa caiu, mas em função da guerra comercial entre China e EUA, não pelo caótico cenário intestino. É como se para os nossos investidores o Brasil não tivesse qualquer relevância, ou fosse antes um rincão para ganhar no mole do que um país.

Academia, imprensa, intelectuais, ambientalistas, cientistas, ativistas, artistas, comunidade internacional, atônitos, procuram entender como tal cenário pode parar de pé. Incompreendida, a alegoria sequer pode ser combatida. Sem resistência, segue o desmonte.

Admito que não sei o que fazer, até porque também não consigo entender como chegamos a tal ponto. Mas sei o que não fazer.

A primeira coisa é nunca ceder para o “eu avisei”. Se o bolsonarismo é incompreensível para quem enxergou que seria assim, imagine para quem acreditou que poderia funcionar. Apelar para a razão, portanto, é tão ineficiente na teoria quanto na prática, isto é, algo como querer voltar no tempo.

A segunda é jamais abrir mão da solidariedade. Quem votou contra o PT deve estar tão mal quanto quem votou contra Bolsonaro. E foram os eleitores do contra que definiram o resultado. O fato é que a eleição passou, há um governo eleito e estamos todos sob ele. Juntos.

A terceira é em nenhuma hipótese render-se e desistir de analisar e tentar entender o que acontece. Juntando a primeira e a segunda, nunca ceder à tentação da vingança e dizer “eu avisei”, mas sempre continuar avisando e lembrando que, mesmo separados em partes discordantes, somos inseparáveis enquanto sociedade, tanto quanto o governo é uma coisa só. Defendendo ou atacando a parte, defende-se ou ataca-se o todo.

Considerando o primeiro grupo, formado pelos que acreditaram na alternativa bolsonarista, se descontarmos seu grupo original, que eu suponho ser algo em torno de 15% de gente realmente reacionária, restam 45% de eleitores que podem ser conservadores, neoliberais, militaristas, lavajatistas, antipetistas. Mas não são bolsonaristas, portanto não votaram a favor de Bolsonaro. O que teria os unido?

Meu palpite é uma estética sofisticada e muito bem trabalhada. Sem explicar a que veio, Bolsonaro simplesmente simboliza.

Ornamentado com símbolos de conveniência que serviram à comunicação de nicho, como Moro, Mourão, PaGue, Bolsonaro tornou-se viável eleitoralmente saltando de 15% a quase 60%. Problema: transformar expectativa eleitoral em realidade de governo sem apoio do Presidente. Efeito: descolamento e desidratação precoce.

Os símbolos de convicção, fiéis ao bolsonarismo original, como filhos, OakLavo, ChanCelerado Araújo, Damares Alves, Abraham Weintraub, Ricardo Salles, tornam-se cada vez mais enraizados. Problema: terão apoio da base reacionária, do Presidente e seguirão operando. Efeito: desmonte.

Arma predileta de Bolsonaro, seu Twitter mostra que sua base virtual é alegórica como a da maioria dos políticos. No caso dele, 60% são contas inativas, 59% não falam português, 84% seguem e 87% são seguidos por quase ninguém, 69% são localizados em lugar nenhum, indicio de atividade bot. O que ele tem de força é um engajamento alto, apontando para a existência de um público diminuto, denso, fiel e combativo. Meu palpite é que sejam os mesmos daquele estrato de 15% reacionários.

A escolha de Bolsonaro é clara. Governará para os 15% de reacionários. Assim, quem esperava que ele trocaria sua base por reformas econômicas ou pacote anticorrupção, errou. Agora defender Paulo Guedes é fortalecer Damares Alves. Atacar Ernesto Araújo é enfraquecer Sergio Moro.

Repito que não sei o que fazer. Mas pergunto: o Brasil seguirá entregue a esses 15%? Por quanto resistirá assim?

 
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A SP de Covas, Doria e Bolsonaro será o paraíso gay

Se confirmada, a emigração da Formula 1 para o Rio será emblemática. A São Paulo de João Doria e Bruno Covas diz querer vender o autódromo de Interlagos, e Jair Bolsonaro afirma que um novo será construído em Deodoro, no Rio. Diz mais: que o circo, passando uma vez por ano, gera sete mil empregos diretos e indiretos que permanecem para sempre (sic).

Outro dia o presidente da República, após suspender a campanha do BB, disse que o Brasil não pode ser um paraíso gay, mas que o estrangeiro esteja à vontade para vir fazer sexo com mulher. Não disse porém se também vale para as estrangeiras que eventualmente gostem de mulheres.

Relacionando as duas falas, resta saber se na conta dos sete mil empregos estão incluídas as operárias do amor. Como é sabido, se tem um setor que a F1 aquece a ponto de fervura na economia paulistana é o do chamado “entretenimento adulto”. As casas mais conhecidas fazem até propaganda. Diz aí, Oscar Maroni.

Sem a F1, a São Paulo de Covas, Doria e Bolsonaro promete ser o paraíso nacional do turismo gay.

Um estudo recente mostra que a Parada Gay é o segundo evento que traz mais dinheiro para SP. Sem a F1, será o primeiro? Talvez. Os números precisam ser atualizados considerando o carnaval.

De qualquer maneira, jamais será sem a prestimosa colaboração da comunidade LGBTTQI, pois dizia o José Simão: “quem faz o carnaval é o bicho e a bicha”. Isso no Rio. Em SP, com bicho fraco, devemos clamar: força, bicha!

 
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Chocolate

Painel da Folha: Segundo a nova pesquisa XP, “o índice dos que a classificam como ruim ou péssima (gestão Bolsonaro) oscilou cinco pontos, de 26% para 31%, de abril para cá.”‬

‪Na margem de erro, 3 chocolates em cada dez derreteram. ‬

‪Confere, ministro Abraham Weintraub?

 

 
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Derretimento ou derrota de Pirro para Sérgio Moro?

 

Pelo que tenho lido, só eu acho que “perder” o COAF para a Fazenda foi uma derrota de pirro para Sérgio Moro.

Quatro pontos básicos:

1) sacia parte da sede de vingança de alguns congressistas que o odeiam;

2) posa de vítima e retoma a solidariedade da sociedade, que vai percebendo que ele combateu adversários, não todos os corruptos;

3) não será mais o primeiro da fila para falar sobre Flávio Bolsonaro, Michele e Queiroz;

4) continua com acesso a tudo que um COAF turbinado por estar próximo da Receita, do BC e outras entidades monetárias pode produzir.

As demais evidências de encolhimento citadas no ótimo artigo do Helio Gurovitz são exatamente evidências.

Só discordo da parte do COAF, providencial para o coitadismo, que por sinal será necessário com estreia da 2a temporada de O Mecanismo. Pelo tom do José Padilha em entrevistas, vem paulada.

Lembrando ainda que foi o único “revés” vindo do Legislativo. Os demais, evidentes, aconteceram no Executivo (Bolsonaro) ou nos atropelos da Lava Jato. Estes, resumo em seis pontos: 1) Reitor Cancellier; 2) Delações premiadas sem prova mas com prêmio garantido; 3) Empresas destruídas, fortuna pessoal dos donos preservadas; 4) Vazamento seletivos; 5) Tentativa de criação de fundação bilionária com dinheiro da Petrobrás; 6) Conge.

Na semana que vem tem votação em plenário e tudo pode mudar. Moro ganha em qualquer cenário. Se perder, é vítima da vingança dos “corruptos”. Ganhando, se fortalece.

Aparentemente é justamente isso que o governo não quer. A orientação do ministro Onyx Lorenzoni enviada à base era clara no sentido de deixar o plenário votar ontem. Poderiam fazer alguns destaques para marcar posição, mas a ordem era deixar rolar.

E a base fez o justo inverso: membros do PSL, legenda do presidente da República, usaram o direito à palavra do Podemos para destratar o presidente da Câmara Rodrigo Maia e derrubaram a sessão.

 
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Bombachas estão na moda

Décadas atrás, quando o Yamandu Costa baixou em São Paulo, também seu bar predileto ainda era desconhecido. Lá no Filial, o gaúcho desfilava bombachas e alpargatas enquanto driblava o assédio vulgar dos bêbados e o especial, que despontava sobre seu talento colossal.

Bebia bastante, de vez em quando tocava uma moda e, no fim da noite, pedia um “prato de mãe”, usando as mãos abençoadas para sinalizar a vontade mundana de comer um bife caprichado.

Eu achava tudo lindo, inclusive as bombachas, exóticas em São Paulo, e as alpargatas, que no vaivém da moda, remetiam à minha infância.

Eis que, em pleno 2019, bombachas e alpargatas, juntas, estão em voga. As sandálias são fabricadas pela indústria homônima, que até por isso jamais deveria ter suspendido a oferta. Com todo respeito ao simbolismo das Havaianas, legítimas de fato, para a Alpargatas, deveriam ser as alpargatas.

Mas fenômeno mesmo são as bombachas, não só em São Paulo mas no mundo inteiro, para meninas e meninos e nas cores mais diversas.

Eles usam preferencialmente como roupa esportiva, feita em malha de moletom. Quem se senta em um bar próximo a uma academia pode conferir. Os mais jovens usam também para atividades sociais e os descolados até para trabalhar.

Para as meninas, como sempre, as opções são mais vastas. Além das bombachas em moletom, elas têm as de pano à disposição de qualquer gosto. Em comum, só o alcance da bainha, que nunca chega aos tornozelos – o que é uma maravilha, porque não há na anatomia feminina parte que seja tão bonita e reveladora quanto os tendões de Aquiles.

Quando estão com a barriga sarada, elas combinam a bombacha com mini-blusa. Curiosamente, fica bonito. A cintura alta e a folga nos quadris proporciona conforto para ambos os sexos e graça para a silhueta da mulher. Para além disso, esconde o umbigo, esta cicatriz que tem um que de bunda, considerando que todo mundo tem mas não deveria aparecer à toa. Oculto, o umbigo denota pudor, que é o maior tesão que existe.

Comtemplando as bombachas pelas ruas renovo minhas esperanças na humanidade. Se somos capazes de evoluir para o uso de uma roupa bonita e inteligente – conforto da cintura alta, folga na região das vergonhas e, atenção ciclistas!,  justeza nas canelas –, o futuro deve ser auspicioso.

 
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Abraham apavora

R$ 2,1 bilhões das universidades. R$ 914 milhões da educação básica. R$ 5,7 bilhões na soma geral de verbas bloqueadas pelo ministério da Educação em seu orçamento não carimbado, oficialmente chamado discricionário.

Gente séria se apronta em dizer que não tem jeito, que a austeridade é o único remédio. Mas também tem muita gente séria dizendo que a austeridade, estendida até para a Educação, é veneno. Veneno de matar na raiz. Sou uma nulidade financeira, mas estou com o segundo grupo e não abro.

Já o ministro da Educação, que se considera o sujeito mais preparado para o posto em quinze gestões ou 27 anos, provavelmente se considera também excelente financista, tendo inclusive carreira destacada no mercado.

Abro parênteses para comentar a lista. Voltando quinze ministros, chegaremos ao professor José Goldemberg, sem dúvida um craque. Mas como entre este e o atual há muita gente boa, fico na dúvida se o corte foi Goldemberg ou Abraham Weintraub chutou quinze. Fecha e segue.

 

+ O Messias trocou água por água

 

O que o distinto parece não lembrar é que sua passagem pelo sistema financeiro foi desastrosa. Quando o Banco Votorantim balançou, seu economista-chefe era o próprio Weintraub. Só não quebrou porque Lula mandou o Banco do Brasil comprar 49,99% do capital votante, isto é, mantendo o controle com quem teria falido. Haja generosidade.

A transa significa R$ 4,2 bilhões em dinheiro de dez anos atrás. Se o ministro fizer a gentileza de somar a inflação, teremos uma boa comparação com os R$ 5,7 bi que ele segurou da Educação. Meu palpite é passa ao largo.

Sobre Humanas, alvo principal do ministro e seu chefe, fico mais à vontade para falar. Tenho medo de poucas coisas, e a principal delas são as pessoas que não temem o ridículo. Sob este ponto de vista, Weintraub me apavora.

Alguém que comete um erro crasso, de exatos 1.000%, em coletiva de imprensa, e não contente ainda sapateia sobre o erro, empinando-se e afirmando que faz mágica, é capaz de qualquer coisa.

Se a mesma pessoa vai a uma audiência com parlamentares e se vale do figurino de palestrante, com PowerPoint, mangas arregaçadas e balé no palco, para sem pudor cobrir-se de autoelogios ao mesmo tempo que confunde Franz Kafka com kafta, o bolo de carne no espeto da culinária sírio-libanesa, pode muito bem mastigar uma lata de pistaches com casca e tudo e continuar sorrindo.

Por tais motivos, estou apavorado. Mas não imagino quem poderia estar mais sintonizado com o governo atual do que um tipo assim.

 
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Lula, Marinho, Mourão e Nabuco

A Rede Globo foi criticada por ignorar a entrevista com Lula. A favor da emissora, cabe dizer que, noves fora o talento dos jornalistas Monica Bergamo e Florestan Fernandes Jr., respectivamente Folha e El País, a notícia se encerrava na suspensão da proibição da entrevista – que o G1 deu. Já a entrevista em si, com o velho palanque delirante, não trouxe nada que merecesse notícia.

Dias depois, os canais mantidos em nome de Lula divulgaram o depoimento lido antes da entrevista, com ataques diversos à Rede Globo. É provável que os editores do Jardim Botânico tenham sabido antes, mas obviamente ninguém vai passar recibo.

Uma curiosidade sobre a entrevista foi Lula apelar à ciência para dizer que pode ser candidato ainda nesta encarnação. Com muitos anos de reclusão pela frente e outros tantos de restrição de direitos políticos, equacionando as variações de pena, novas condenações, faturamento político contra ou a favor, expectativa de vida e prazo de validade de atividade profissional humana, ninguém sensato pode supor reencontrar a foto de Lula numa urna.

Foi mais ou menos isso que a Monica Bergamo delicadamente sugeriu, ao que o ex-presidente respondeu: ora, dizem que o homem que vai viver 120 anos já nasceu…

A curiosidade está na fábula atribuída a Roberto Marinho, que em seu aniversário de oitenta anos teria ganho uma tartaruga de uma neta e recusado, justificando: melhor não, depois eu me apego, o bichinho morre, a gente sofre…

Se não é verdade, além de bem bolado é uma pena, porque vida boa deve ser a de uma tartaruga lá nos jardins do Cosme Velho.

Por falar em Cosme Velho, boa nova é a de colorirem o retrato do Bruxo. A foto em cores de Machado de Assis, com a pele mulata, vai colaborar com o tanto de serviço que temos pela frente contra o preconceito racial.

Aliás, outra coincidência com Doutor Roberto, que era acusado por Assis Chateaubriand de usar pó de arroz para embranquecer a pele azeitonada dos seus ancestrais mouriscos da Itália mediterrânea.

E por falar nos mouros, o general Mourão, que durante a campanha exibiu um neto lourão exaltando o alvear da família, em entrevista ao Roberto D’Ávila na Globo News disse de sua relação com Jair Bolsonaro: tudo tranquilo e sereno, feito baile de moreno – até a meia-noite.

Pelo jeito, mesmo descontando o fuso da Virgínia, a coisa já está pra lá das quatro da matina, e não demora acorda um colega de cinco estrelas com saudades de tocar o clarim.

Que situação… Tanta gente sofrendo, desempregada, desesperada, um governador celerado disparando de dentro de um helicóptero blindado contra áreas de maioria preta e pobre, crianças correndo do chumbo aéreo na saída da escola, e as alternativas à nova política são o aerofone e o Aerotanque.

Resta o consolo do Laurentino Gomes, que hoje no twitter lembrou Joaquim Nabuco. Há exatos 131 anos, uma semana antes de Isabel do Brasil assinar a Lei Áurea, o abolicionista pernambucano tomava a palavra na Câmara dos Deputados para dizer: “Eu lastimo que o túmulo da escravidão não seja largo bastante para conter tudo o que deverá desaparecer com ela.” Bidu.

 
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Urbanidade digital ou Jô Soares, influenciador analógico

Em boa forma, Jô Soares meteu na Folha um artigo divertido, elegante e esclarecedor, tentando explicar ao presidente da República a qüestão da palavra “socialista” na origem do partido nazista. Está aqui, mas saiu antes em papel, permitindo ao Gordo a assinatura brilhante: Influenciador analógico.

Antes da maravilha que é a internet entrar em nossas vidas, os influenciadores, então chamados formadores de opinião, escreviam também em jornal. Elaboravam ideias juntando milhares de letras. Por vezes eram respondidos por outro influenciador daquele então e, com sorte, nós leitores merecíamos réplica e tréplica, também com toques mil separados por semanas, que permitia uma digestão mais tranquila.

A internet não acabou com a prática. No Valor Econômico rola há alguns meses um dos melhores debates sobre economia, em torno da teoria monetária moderna, começado pelo André Lara Resende. Mas é estranho que siga praticamente restrito ao Valor, ou semianalógico, quando, nos Estados Unidos por exemplo, o mesmo debate promove convergência entre a ala socialista do partido Democrata e trumpistas do partido Republicano.

Voltando ao tempo dos influenciadores analógicos, me lembro do João Ubaldo, se não o Luís Fernando Veríssimo ou outro dinossauro querido, rogando para que as cartas dos leitores contrários ou favoráveis a uma ideia publicada fossem remetidas ao editor.

Soa elitista, reconheço. Mas igual a tudo na vida o elitismo tem seu lado bom, e filtrar opiniões e comentários tem seu valor. Nosso organismo funciona assim e inspirou os mecanismos sociais, institucionais e políticos.

A internet suprimiu parte desses filtros e o efeito se vê diariamente. Como um organismo que não tivesse estomago, intestino, fígado, rins, pulmões e quetais, a sociedade tosse, espirra e vomita inclusive bile. Invés de rogar por cartas ao editor, influenciadores digitais não só respondem diretamente a comentários grosseiros, impensados, apaixonados, como os promovem para provocar a audiência insana. A voga no twitter é destacar o absurdo com um RT lacrador.

Não consigo evitar as náuseas e não acho que me afastar da internet seja boa ideia. Mas será que a gente consegue unir o melhor dos dois mundos, analógico e digital? Digo tentar conviver nas redes em urbanidade. Simplesmente bloquear, apagar, ignorar grosserias, ideias absurdas e derivados. Fazer exatamente como nosso organismo faz com ares fétidos, comidas nojentas, bebidas asquerosas, defesas naturais sem as quais seria impossível – ou muito desagradável – viver.

 
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A feijoada de Guaidó

Presidente autoproclamado da Venezuela, Juan Guaidó tinha uma feijoada marcada para quarta-feira, que é dia de feijoada. Porém, o ímpeto da juventude, somado a alguns pertences e à ausência de outros fundamentais, o condenaram à sabedoria popular que reza “quem tem pressa, come cru”.

É fato que ele conseguiu a libertação de Leopoldo Lopez, sem a qual a feijoada estaria incompleta e, em caso de indigestão, ambos contam com asilo na embaixada da Espanha, fortalecido com a eleição do governo socialista.

Por outro lado, faltaram dois ingredientes básicos: militares e gente suficiente para comer.

Hoje é impossível dizer se na quarta-feira, que é dia de feijoada e coincidia com o Feriado Internacional do Trabalho, o povo teria saído para almoçar a feijoada de Guaidó e, com as ruas ocupadas, atrairia os militares.

Na melhor das hipóteses, Guaidó foi traído pela falta de experiência somada à excitação. Como de fato serviu a feijoada já na terça-feira, sem tempo sequer para a dessalga das carnes, é provável que acreditasse na deserção de parte dos militares, informação sabidamente falsa por quem mantém contato com os generais em Caracas, caso do general Mourão.

Agora a ideia é requentar e engrossar o caldo para servir no sábado. Pode funcionar. O problema é que Guaidó já pegou a pecha de não ter o dom do tempero.

Ao que tudo indica, a solução diplomática está afastada ou nunca existiu, porque Maduro é um sanguinário e sanguinários não dialogam. A solução militar também não interessa a ninguém.

Trump tem mais o que fazer e, como disse o Guga Chacra, apesar dos impressionantes indicadores econômicos, sua popularidade segue estacionada.

Putin tem gente na Venezuela aparentemente por dois motivos: guardar Maduro e a tralha militar que entregou nos últimos anos. Roberto Godoy fez um inventário para o Estadão, que além da riqueza de detalhes aponta o desfecho mais provável.

Entre os russos em solo venezuelano estão os mercenários “wag”, soldados profissionais que vão para a iniciativa privada vender caro sua capacidade de combate, inclusive para os governos. No caso russo, a empresa se chama Wagner, e tem oitenta homens, talvez duas ou três mulheres, há um ano grudados em Maduro.

No caso americano a empresa é mais conhecida. A Blackwater oferece ex-fuzileiros navais para fazer serviços que ao Estado não é permitido. Atuaram no Iraque e no Afeganistão. Seu fundador Erick Prince estaria negociando um pacote mercenário com aliados de Juan Guaidó, mas ambos negam a notícia.

No Brasil não há nada igual. O que temos mais próximo de paramilitares trabalhando por conta própria são milicianos como o ex-policial Ronnie Lessa, vizinho e ex-consogro de Jair Bolsonaro, exímio atirador acusado de matar Marielle Franco e Anderson Gomes. A Polícia Civil encontrou com ele 117 fuzis. Ou Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do BOPE suspeito de ser miliciano, e cujas mãe e mulher trabalhavam no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj e depositavam na rachadinha de Fabrício Queiroz.

Com Lessa preso e Nóbrega foragido, dificilmente o Brasil poderia colaborar com a possível batalha clandestina na Venezuela. Até porque assassinar uma vereadora e seu motorista desarmados ou cobrar o gatonet de moradores de Rio das Pedras é bem diferente de enfrentar gigantes russos, mesmo que ao lado de um Blackwater.

Uma entrada militar oficial do Brasil na Venezuela dependeria do Congresso e a ala militar do governo, bem como as Forças Armadas, que descartam a possibilidade.

A depender da nossa diplomacia, tanto pior. Mais alinhado ao celerado Nicolas Maduro não poderia estar o ChanCelerado Ernesto Araújo, a quem caberia justamente tentar o diálogo. Contudo, sua agenda recente nos Estados Unidos, conversando oficial e oficiosamente sobre assuntos de interesse nacional sem respaldo da ala militar do governo, como mostrou o furo da repórter Thais Bilenky em sua estreia na Piauí, fizeram o caldo entornar.

É claro que tudo pode acontecer quando se trata de um país em caos, com pessoas morrendo, cidades desabastecidas até água e luz, mas com a maior reserva de petróleo do mundo.

Porém a chance do Brasil ajudar na feijoada parece cada vez mais distante.

 
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Você topa trabalhar de graça?

O IBGE mostra que, às tarefas do lar e cuidados com parentes, meninas se dedicam o dobro dos meninos. Segundo a Pnad Contínua, elas ralam 21,3 horas, e eles, 10,9h por semana em casa.

Apesar do desequilíbrio, a diferença vem diminuindo. Onze milhões deles debutaram no serviço doméstico de 2016 para cá.

Usei a terceira pessoa porque estou fora das estatísticas. Aqui em casa o trabalho é dividido quase que meio a meio há tempos. Cuido da cozinha e Neguinha cuida das roupas. O desequilíbrio está na faxina, mas por questão de critério, não gênero. Sou menos exigente do que ela na hora de concluir que algo está limpo e gosto de cama desarrumada, respirando o dia inteiro. Ela não suporta. Pela harmonia, procuro não interferir.

A divisão das coisas de casa entre homens e mulheres é um problema social estrutural e não respeita fronteiras. Mas no mundo desenvolvido, o entendimento avança mais depressa.

Pelo NYT/Estadão soubemos da história de um casal que se formou em Direito em Cornell. Dez anos e dois filhos depois, ambos têm contratos com grandes firmas de advogados, que pagam salários anuais de sete dígitos. Porém ela trabalha meio período, ou 21h/semana, e ele entre sessenta e oitenta horas, chegando a ganhar até seis vezes mais do que ela trabalhando só três vezes mais.

O avanço no entendimento está na equação que permite ele ganhar mais. Se por muito tempo entendíamos que mulheres desistiam da carreira profissional por terem maridos ricos, agora entende-se que os maridos podem ser ricos porque elas desistiram da carreira.

Quer dizer, para topar a chamada “profissão gananciosa”, ou aquelas que prevalecem sobre qualquer outra esfera da vida, e que por isso pagam a ponto de fazer alguém rico, o profissional depende de uma retaguarda, sem a qual seria impossível “apagar um incêndio” a qualquer momento. Por exemplo, o advogado tem um cliente preso e corre para atender. Se tiver que buscar os filhos na escola, leva-los para casa, fazer lição, brincar, dar banho, jantar e botar para dormir, estará demitido.

Isso funciona com casais ricos do nordeste dos Estados Unidos, topo de qualquer pirâmide social. Mas ainda lá, no entorno de Cornell, quem vai cuidar dos filhos do bombeiro se ele corre para literalmente apagar um incêndio enquanto sua mulher, professora, está em aula?

Aqui na periferia do mundo a resposta parece fácil, notadamente para esta freguesia. Com mão de obra barata, contrata-se babá, cuidadora, motorista e toda a sorte de empregados domésticos. Mas e das crianças, dos velhos, das casas dessas famílias, quem cuida?

Em qualquer campo político fala-se da importância da família enquanto célula na sociedade. Mas na hora do que interessa, que é pagar quem trabalha diretamente para a família, todos se esquecem, ou parecem esquecer, que se a família é um pilar da sociedade, a sociedade só fica de pé se proteger a família.

É exatamente a relação particular do casal de advogados, só que ampliada para o coletivo. Sem trocadilho, é no mínimo uma questão de justiça remunerar o trabalho doméstico. E se é justo, convém a todos nós.

Me perdoem se insisto nesse tema, mas não vejo caminho diferente da Renda Básica Universal para resolver o problema.

 
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