Facebook YouTube Contato

Fico por aqui. Em casa

Desde ontem, ou antes, pensando no que fazer ante o novo protocolo paulista e paulistano, que permite a abertura dos bares, decidi que não vou. Mas não vou sob protesto.

Devoto da Democracia, sinto um pesar profundo em notar que não posso confiar no prefeito nem no governador. Tenho história pessoal com Bruno e João, mas no prefeito e no governador não posso confiar e recomendo que ninguém o faça. Reconheço que largaram bem quando o corona chegou. Mas se perderam.

Assim, sem norte e desgovernados, nos resta ouvir o que diz a ciência. E a entidade que fala por ela no momento é a OMS, cujo protocolo não recomenda abertura de bares na situação em que nos encontramos.

Se alguém sentiu falta do presidente da República nos comentários iniciais, explico: #elenão merece comentário. Cretino, mesmo calado – como passou a semana, a fim de assentar a poeira política para melhorar a situação do primogênito no Senado, que obviamente o expulsaria, entregando-o às barras da Justiça logo que solicitado fosse – consegue piorar a situação, como o fez no quatro de julho, indo brincar de caubói na embaixada dos Estados Unidos, ou vetando obrigatoriedade de uso de máscara em lugar fechado.

Com toda sinceridade, acho que dá para ir até a esquina, a pé, tomar uma meia cerveja na calçada, passando álcool no gargalo antes de tragar, com segurança. Acho mais: que faria muito bem a todos os confinados de mais de cem dias.

Inclusive fui aconselhado a ir. Um amigo sensato, quarentenado numa fazenda com os filhos, disse: alguém tem que ir para mostrar que dá para fazer com urbanidade. Concordo. Alguém tem que ir e dar uma resposta aos infelizes que foram matar e morrer no Leblon. Não vou. Mas se souber de alguém que foi e fez direito, cumprimentarei.

E aproveito para dizer duas coisas, em apelo a todos que reportam as notícias e opinam: nem todos que estão em bares, legal ou ilegalmente, estão festejando ou desprezando as dezenas de milhares de mortes. Todos temos mortos por velar, e é da cultura de muitos dos nossos fazê-lo em mesa de bar. Beber o morto. Derramar um gole “ pro santo” e lembrar das coisas boas. Então não misturemos zé festinha com quem emergir da quarentena e for até a esquina tomar fôlego.

Outra: parem de tratar por boêmio qualquer frequentador de bar. Noite e birita têm muito a ver com boemia, mas beber de noite não faz ninguém boêmio. Pode-ser ser boêmio e abstêmio. A boemia pode acontecer de dia. Mas disso fala melhor o Paulo Vanzolini. E eu fico por aqui. Em casa.

Tenho te visto chorando
Bebendo e se lastimando
Que não suporta essa dor
De sorrir me dá vontade
Porque falando a verdade
Que sabe você do amor?

Por um desgosto ligeiro
Desengano passageiro
Faz todo esse espalhafato
Que fará você amigo
Se a vida implicar consigo
Lhe der desgosto de fato?

Der um amor que não cansa
Sabe que é sem esperança
E a cada instante piora
Der uma dor que judia
Vinte e quatro horas por dia
Sessenta minutos por hora

Talvez então não dissesse
Que bebe pra ver se esquece
Que a madrugada o inspira
Você fazendo o que faz
Só mostra que quer cartaz
Que é um boêmio de mentira

Porque não é boemia
Trocar noite pelo dia
Beber com ar de tristeza
Ser boêmio é diferente
É viver liricamente
Padecendo com grandeza

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Amanhã tem bar; que fazer?

5 de Julho de 2020

Amanhã abrem os bares de São Paulo. Doente de saudades, não sei como proceder. Mas estou tranquilo na ignorância, posto que ninguém sabe, muito menos os governantes.

A abertura do Leblon foi emblemática. Custei a acreditar no que via. Mas não é exclusividade deles. Em Duque de Caxias foi igual ou pior: lugar fechado e lotado. O mesmo vale para Londres. Pubs repletos. LebLondon. E em toda parte deve ser assim. Em SP nem abriu e já é.

Seguimos sem qualquer protocolo para pessoa física além do veste máscara. Procuro inspirações. Da Inglaterra veio o exemplo bom do príncipe William. Foi cedo ao The Rose and Crown Pub, há seiscentos anos servindo aquele mel bom que matou o vigia. Pediu um copo de cidra, uma porção de batatas e traçou ao ar livre. Admitiu não saber como pagar mas prometeu que pagaria antes de se mandar para almoçar com Kate e as crianças.

Desta cena decorrem duas tentações: 1) ter um príncipe para criar protocolo pessoal (quem faz a regra na ilha é o governo, e seu chefe Boris Johnson precisou tomar na testa para parar de brincar de BolsoTrump); 2) me postar diante de um bar antigo de São Paulo amanhã, às 11h00, ver subir a porta e por lá ficar até as 17h00, horário em que supostamente todos encerrarão as atividades. O pub do príncipe é cem anos mais velho que a chegada do Cabral por aqui, mas temos nossas equivalências admiráveis.

A primeira tentação está resolvida, mas por prudência, por hoje evitarei contato com Helito Bastos e Cunha Bueno, meus amigos monarquistas. A segunda mais ainda. Vejo que o problema central das aglomerações vem do comportamento de manada. Todos querem estar juntos, e se tem uma coisa que deve permanecer no pós pandemia é o distanciamento social. Chega de zé festinha pedindo trago, falar pegando, conversar a menos de meio metro de distância. Chega de bar lotado com gente se esbarrando. Chega de avião com todo mundo batumado – e isto vale para todo transporte coletivo, notadamente o urbano. Resta saber como os negócios sobreviverão assim.

Para quem é do jogo, amanhã basta uma calçada, pouca gente querida e chope sob o sol. Temos centenas de lugares assim, um em cada esquina, não precisamos todos ir ao mesmo. Neste ponto é mais seguro, em São Paulo, abrir bar do que parque, porque destes temos poucos, raros, e o transporte público lotaria para trazer quem vive longe deles. Por Justiça, se não tem pra quem mora longe, não pode ter para quem mora perto. Quem não gostar da realidade, ajude democratizar a cidade antes da próxima pandemia.

Para democratizar precisamos pensar nas pessoas físicas. Porém, como se nota, só temos protocolo para pessoas jurídicas. Shoppings reabriram para não ter que negociar aluguel e condomínio com os lojistas. Há quem lute contra a quarentena com o argumento da manutenção de empregos, enquanto cinco bancos seguram o crédito para manter as pequenas e médias empresas, maiores empregadoras do Brasil. O governo federal admite que não sabe como acelerar o processo, que não alcançou 20% do disponibilizado, mas fez em poucos dias a multiplicação do caixa para os cinco bancos.

Pena é a gente não se tocar que os nossos problemas são crônicos, e a pandemia, aguda. O desemprego não chegou com ela, é morte anunciada há anos. De novo os bares e restaurantes: distribuidoras de energia estão cobrando as contas de luz pela média. O lugar, fechado, para conta equivalente ao consumo do mês correspondente no ano passado, quando estava aberto. Isto porque a medição é feita in loco. Medição de energia e água in loco em pleno 2020. Imagina o exército de empregados girando para conferir os relógios. Quando a tecnologia ficar mais barata que o trabalho, como já é no mundo desenvolvido, onde vão trabalhar essas pessoas? E o Iguatemi e as repartições da prefeitura e do governo? Continuam com ascensoristas ou os dispensaram por segurança sanitária? Como levar renda para essas pessoas? Via emprego não será.

A pandemia é gravíssima, mas nossos problemas são bem maiores e antigos. Reabrir agora deve cancelar mais CPFs do que salvar CNPJs. Vamos pagar pra ver? Da minha parte, não sei. Receio esperar quinze dias e perder o respiro psicológico, que é um salto mortal na escuridão em que estamos há meses. Não sei o que fazer. Alguém?

 
Tags:
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Protocolo Moura Coutinho

Acabei de almoçar um bife com uma polegada de altura. Também teve arroz Biro-biro e salada com agrião. Agora estou no segundo uísque. Posso reclamar da quarentena? Em tais condições não devo. Mas posso.

A Marta Rocha pode reclamar do vice-campeonato mundial de beleza? Não deve. Mas pode. Claro que pode. Maldita polegada. Ou bendita, quem poderá afirmar?

Perto dos cem dias de quarentena, não aguento mais. Podia ter sido pior pessoalmente? Claro. Mas também podia ter sido melhor. E alguém tem que falar disso.

Esses cretinos que elegemos, sobretudo em 2018, falam abobrinha à vontade. Bolsonaro é o campeão mundial. Não tem polegada que lhe tire o campeonato. Rolou um meme onde o Trump o chamava de Juan Messias. Piada verdadeira. Dá até saudades de quando para o resto do mundo o Brasil não existia, nossa capital era Buenos Aires. Agora, graças ao Jair, somos famosos e bem conhecidos. O pior povo do mundo.

João Doria e colegas governadores nnao ficam atrás. Mais atrapalham do que ajudam. Ninguém sabe o que é pra fazer. Publicam números trocados, com lógicas trocadas. A mais recente é que mesmo com shoppings abertos o isolamento está mantido em 48%. Ridículos, quase inúteis 48%.

A atenção deveria ser para onde os 52% estão se encontrando. De um lado, pobres coitados condenados ao transporte público e trabalho chamado essencial. Do outro lado o velho champanhe da inconsciência descrito há décadas pelo nosso Rubem Braga.

Gente que vai ao Iguatemi passear. Passear em shopping, minha filha? Puta que o pariu! Tenho uma tia que tem loja lá. Estava naturalmente preocupada. É seu ganha-pão. Mas daí perguntam: está vendendo? E ela: na loja, não; as pessoas vêm, olham, e pedem pelo telefone, daí mandamos pelo Rappi.

E o pior de tudo é ver que os governantes, por nós escolhidos, por nós que somos esta Nação marginal, fracassada, infeliz, ingrata de um dos melhores territórios que a Natureza foi capaz de criar, esse governantes, que são nosso espelho, sequer falam de pessoas.

Falam de números de mortos. Falam de leitos de UTI. Tudo em números. Nada de pessoas. O governo federal até dos números não quer mais falar. Só fala por ordem judicial.

Mas falam de CNPJs. Querem salvar empresas. Como se empresas existissem sem gente. Como se tivessem razão de existir sem gente. É a vitória política da Faria Lima. O tal mercado, que ninguém sabe direito o que é ou pra que serve, vigorando em sua lógica fantasiosa.

Eu achava graça nos outros países se preocupando com o indivíduo. O governo da Holanda chegou a publicar manuais de masturbação, sexo on-line e a dica para cada qual escolher uma costelinha para agarrar de quando em vez. A Espanha votou por ampla maioria uma renda básica universal. Alemanha também meteu dinheiro nas pequenas empresas, que no fim das contas são empresários individuais. Portugal testou geral e já está aberta. Whuan e Coreia do Sul testaram dezenas de milhões e já podem brincar. Trabalhar sempre puderam. Igual a todo mundo.

Nova York, depois do susto, e mesmo com um imbecil seu filho desgovernando o país ali num estado vizinho, tomou medidas pelas pessoas. Caminhem pelas ruas. Fizeram ruas de lazer, sem carros, igual a nossa Paulista Aberta, para a turma desanuviar. Foi fundamental para manter o isolamento.

Quer dizer: seguiram a regra básica da medicina que é feita para as pessoas, não para o “setor” ou “mercado”: prevenir é melhor do que remediar.

Mas aqui, na pior Nação do mundo, na marginalia que nos tornamos, ninguém se lembra das pessoas. Cadê a recomendação para um passeio isolado? Cadê a informação ou protocolo para uma namoradinha? Para encontrar os amigos mesmo a distância?

Como não tem, cada um faz o que quer. Mesmo quem acha que está em quarentena não está. Visitam amigos, parentes, namoram. Uma blogueira disse que começou namoro pela internet e tudo bem com ela. Fez plástica no nariz durante a quarentena, limpou os hematomas, arranjou namorado e está trepando pessoalmente.

Então cada um que se vire. Brasileiro, você que lute. Ninguém está preocupado com a sua vida, assim como você cagou um balde para os demais. 50% desta Nação acha Bolsonaro bom, ótimo ou regular. Que dizer dum índice desse.

Por isso aqui vai meu protocolo pessoal: sair para caminhar está liberado. Quem tiver namoro, exerça. Quem não tiver, arranje. Comam e bebam o melhor dentro de suas possibilidades. E se acharem bar aberto servindo chope na calçada, bebam. Liberou. Liberou tanto que se estiver aberto às sete da manhã desta segunda-feira já pode.

Vocês que lutem, brasileiros. Esta é a síntese do protocolo Moura Coutinho.

 
Tags:
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Já vão tarde

As reportagens sobre a cretinalha que foi aos shoppings são estarrecedoras. Filas, aglomerações. E os relatos de quem topou a visita são o retrato de uma sociedade doente.

Em São Paulo, no Iguatemi, um casal relativamente jovem, na casa dos trinta anos, falou à Folha. Foram comprar presente do dia dos namorados? Não, já o tinham feito pela internet. Mas então foram fazer o que? Bater perna, ué. Passear. E o distinto ainda emendou: agora que os shoppings estão abertos, ninguém vai me impedir de passear, afinal a economia tem que girar.

Não é uma besta? Foi ao shopping, não comprou nada, já tinha girado a economia pela internet, mas foi passear, se expor e expor os demais.

Bruno Covas e João Doria estão de parabéns. Irresponsabilidade sem tamanho. Desse jeito, não vamos sair disso tão cedo. E a confusão só aumenta. Numa semana, cogita lockdown. Na outra, relaxa a quarentena. Batendo recordes de mortes no estado e relaxa a quarentena.

Estamos perdidos. Essa gente que não gosta da cidade, não gosta de ninguém. Consta que vários estão se mudando para condomínios no interior. Com trabalho remoto, não precisarão morar nas cidades.

A verdade é que já não moravam. Nunca moraram em São Paulo, mas dentro dos seus condomínios, dos carros, eventualmente clubes e, claro, dos shoppings. Equipamentos que podem estar em qualquer lugar. Que diferença faz se está no melhor trecho da Faria Lima ou num quilometro qualquer de uma estrada no interior?

Espero que se mandem todos. E logo. Já vão tarde. Quando a tragédia passar, teremos uma cidade melhor, porque muito ajuda quem não atrapalha.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Sem saída

Tenho comido banana ouro.  Cá na casa materna há uma cisão bananeira. Mamãe gosta da prata e, eu, da nanica. Já da ouro todo mundo gosta. Deve ser saudades da Rio-Santos. Mas todo mundo gosta. Principalmente os sabiás-laranjeira, bem-te-vis, sanhaços e os pardais imigrantes que vêm nos alegrar.

Minha vontade de rolar pelas calçadas passa pelas frutas. Ando enfurecido pensando no que tem de pitanga dando sopa por aí. E os cretinos que furam a quarentena o fazem de automóvel, como sempre, ignorantes aos tesouros encarnados no passeio. Nem pra isso servem.

Dizem que o corona não vigora nas coisas mais primitivas, como frutas, papelão etc. Entre erros e acertos, vão descobrindo que ele sobrevive nas coisas sintéticas que a gente inventou. Azulejos, metais, plásticos. Azulejos eu destaco pelo apreço ao sul europeu. Coisa bem bolada cujo valor, para além da beleza, damos mais valor quando começa a faxina.

Se é verdade, deve estar liberado comer pitanga no pé, sem lavar, como sempre. Meu avô Coutinho tinha mania de lavar as frutas, mesmo as descascáveis. E depois das frutas, as mãos. Aí tudo bem. Digo as mãos. Mas lavar mexerica? Ele lavava. Eu só lavo há três meses.

Vovô Coutinho, ou vovô Chico, era tisiologista. Salvou muito tuberculoso nos Sanatorinhos em Campos do Jordão. E mandava fazer tudo como está hoje em dia. Tossir na parte interna do cotovelo, lavar sempre as mãos, e ralhava com as netas que não seguravam os cabelos na hora dos ósculos de oi e tchau.

Mas não era radical. Liberava o dedinho no uísque a todos os netos. Que delícia era isso. Dedinho no uísque do vovô, florais de bá e espuma da cerveja do papai fazem parte da infância de todo bêbado. Como são baratos os primeiros porres. Tão baratos como gostosos.

A vida é boa, a gente é que estraga. Há passarinhos e pitangas por aí. Convergência bananeira. Tecnologias boas, como a azulejeira. Como copos de cristal. Gelo sólido dentro de um armário caseiro. Música. Não entendo por quê a gente insiste em estragar tudo. Pior: parece quem nem uma pandemia global educa.

Enfim, as filas que vemos nos shoppings indicam que o costume não vai mudar. Seguiremos estragando a vida. Paciência. Melhor beber. Sem pitanga, cachaça. Faltam dois pro meio-dia. Vai soar a sirene da Gazeta. Vamos nessa.

 
Tags:
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Liberdade e lágrimas

A piada era sobre uma pesquisa com a população carcerária. Deu que 5% queriam a liberdade, e 95% a Libertadores. Claro que o Corinthians disputava o campeonato sul-americano e algum são-paulino saiu com esta.

Adoro o Corinthians. Não fosse santista por tradição e Botafogo por devoção ao Garrincha, torceria para o Timão. Me redimo sendo Boca na Argentina. Nunca vi uma partida inteira mas sou Boca. Também não vi do Santos nem do Fogão. Mas torço.

Lembrei da piada porque não aguento mais ficar aqui no pavilhão um. Não posso reclamar mas não aguento. Tá puxado. Não aguento. Levo vida mansa e não aguento. Tem banho de sol, de banheira, comida boa e birita. Mas não aguento. Quero sair, mas não saio.

Não aguento é ver essa cambada que o Brasil elegeu em 2018. Como pode Doria, Zema, Witzel? Em 1982 eu era uma criança e lembro bem da nossa alegria com a esperança que havia. Fazíamos coisas boas. Elegemos Montoro em SP, Tancredo em MG, Brizola no Rio. E hoje temos que aturar esses três panacas.

O do Rio parece que já caiu. Se o processo de impeachment for igual ao federal, estará afastado amanhã depois que a Alerj aprovou a abertura dos trabalhos. Assume um cantor advogado católico. E se concluído anda este ano, haverá eleição para governador em plena pandemia.

Voltando à tenra idade e às piadas. Com Sarney e Aids, a turma brincava dizendo que tinha saudades do Figueiredo e da gonorreia. Se bobear não era piada. A cretinalha costuma raciocinar relativizando o ruim com o pior. A eleição do Bolsonaro é isso. Sentimento de vingança, falta de empatia, ódio à igualdade, à democracia.

Doria, Witzel e Zema são a mesma coisa. Podem os dois primeiros estarem de mal com o Bolsonaro hoje, mas são a mesma coisa. Não me venham dizer que são 70%. Porra nenhuma. Perdoe o vocabulário, freguesa, mas porra nenhuma. São farinha do mesmo saco e, como já anotei aqui, não se divide um saco de farinha exatamente. Estão para sempre misturados.

Tanto é que com recordes diários de mortes no estado de São Paulo o irresponsável do João Doria vai relaxar a quarentena que nunca conseguiu fazer. Shopping. Amanhã abrem os shoppings. Como pode? A única explicação que eu vejo é o shopping de inverno do próprio governador, em Campos do Jordão, que abre no final do mês.

É de uma maldade tremenda. O Bolsonaro é um imbecil mas pelo menos não disfarça. Mais perigoso é o João Doria, que simula esclarecimento, fantasiado de ninja na televisão. Anda dizendo que a ocupação de leitos de UTI em SP caiu para 60%, dando a entender que o contagio diminuiu. Gente inteligente está pensando assim. Quando na verdade o numero absoluto de leitos aumentou com a parceria da rede particular de saúde, baixando os números proporcionais de leitos ocupados. Receio palavras fortes, mas trata-se de um genocídio narrativo.

Senhoras e senhores, vocês que lutem. Não temos em quem confiar. Dentro de um mês podemos ter quase dobrado o número de mortos contados até aqui. Mas até lá, com ajuda dos representantes escolhidos, vamos nos acostumar e nenhum defunto será chorado. Não haverá liberdade e tampouco lágrimas.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Vá lavar um bom tanque

“Vá lavar um bom tanque!”, disse o chofer de ônibus a uma senhora que atrapalhava o tráfego no Rio de Janeiro da metade do século passado. Lá, no século 20, era sem dúvida uma sentença machista. Hoje não é mais. Serve para ambos os sexos e, se não serve, errado está quem não cuida das próprias coisas.

Não é de hoje que cozinho diariamente. Mas como eu gosto, não me incomodo em nada. Também não estreei na faxina durante a quarentena, mas admito que nesse ritmo nunca tinha experimentado. E tanto que aprendi que não sujar é tão importante quanto limpar. Pela primeira vez na vida estou usando prato para comer sanduiche.

Cama não arrumo. Prefiro desarrumada. Primeiro porque acho que tem que respirar durante o dia. Depois porque quando dá na telha ir deitar ela já está lá preparada, bastando puxar a coberta. E não, não entendo, não entendo, nunca entenderei essas pessoas que enchem a cama de almofadas. Trambolho. Sequer já espaço para guardar aquela bagulhada. E, cansado, o pobre ainda tem que ficar dando conta dela. Muito estranho.

Mas o que eu queria dizer é do caráter restaurador da faxina. Não o físico, óbvio, que regenera as coisas materiais. Falo da sensação boa do dever cumprido que a faina proporciona. Manja aquela coisa de limpar as gavetas, se libertar dos excessos. É por aí e vai além.

O esforço em limpar a casa é bom para o moral. Cura ressaca, tanto pelo circulação do sangue ou pelo bem-estar da realização de algo realmente importante. Bom para o moral e para a moral também. Ah de quem vem me amolar durante ou após uma faxina. Pode ser o papa telefonando que não atendo. Tenho mais o que fazer.

Claro que tudo isso tem a ver com ter nascido católico, de classe-média e coxinha. Tendemos  a considerar o trabalho um feito. Uma proeza. Acreditamos que o trabalho enobrece – como se os nobres trabalhassem.

O problema é que o trabalho acabou. Noves fora aquela primeira profissão, todas as demais poderão ser substituídas pelas novas tecnologias. Mais da metade já é, mas a turma segue trabalhando por necessidade ou vício. Nas repartições públicas e no shopping Iguatemi ainda há ascensoristas. Nossos ônibus têm cobradores.

A raiz cultura disso tudo, creio, é a culpa católica. Coisa do meu xará operário, o São José. Tão bonito o ofício de carpinteiro. Mas e agora, com as impressoras 3D? E agora, José? Arranjamos um problema enorme. Se José não sai de casa para ir à oficina, a que horas o Espírito Santo pode visitar Maria para conceber o Nazareno, nosso salvador?

O Domenico de Masi não disse, mas já estava preocupado com isso. Propunha a diminuição da carga horaria, por força de lei, para ir acostumando a turma a não trabalhar. Sabia que, do ponto de vista do que entendemos por produtivo, em pouco tempo seríamos inúteis. Então veio o novo coronavírus e mandou parar. Parou. Tem muita gente fazendo zoom para disfarçar. Mas a verdade é que somos inúteis. Só lavar um bom tanque nos redime.

Mais curioso: trabalhamos de graça sem nos darmos conta. Sabe aquela coisa de provar que você não é um robô, freguesa? Passamos anos reconhecendo garranchos. Sabe pra que? Para alfabetizar robôs. Trabalho bem feito, hoje eles digitalizaram todas as maiores bibliotecas do mundo, a jurispridência legal internacional, os arquivos centenários dos maiores e mais antigos jornais.

Agora reconhecemos coisas do tráfego. Faixas de pedestres, semáforos, automóveis. É tudo para habilitar carros autônomos. E o processo está bastante adiantado.

Mas o problema não é exclusivamente social. Tem o lado mais amplo, econômico. Nossa cultura atrela trabalho à renda. Mesmo com a gente trabalhando de graça para fazer meia dúzia de bilionários no Vale do Silício. Mesmo com mais da metade da população trabalhando de sem ganhar tostão desde que o mundo é mundo. Tivemos escravos, sim. Tentamos acabar com isso mas ainda há quem resista. Porém principalmente ainda toleramos que as mulheres trabalhem, muitas vezes em jornadas duplas, sem ganhar nenhum por cuidar das crianças, dos velhos e das casas.

É importante investir em desenvolvimento tecnológico para a vida melhorar. Mas junto com essa melhora, igual a tudo na vida, vem a degradação de outras frentes. A concentração de capital fica inevitável. A precarização do trabalho grassa. E como poderemos manter a economia girando se cada vez mais pessoas são expulsas da atividade econômica.

Só a renda básica pode nos salvar. E nos salvar, enquanto sociedade, depende de salvar a economia e, antes, o meio ambiente. Quem tiver outra solução, por favor apresente.

E, se for muito difícil para o cristão ganhar sem trabalhar, vá lavar um bom tanque que passa. Garanto.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Irmã Dulce e eu neste domingo da quarentena

Com receio deste domingo, não fui para a cama. Dormi sentado no sofá sem sequer esticar as pernas. Estou treinado. Faz mais de ano que estou assim, receando o dia seguinte, tentando evita-lo.

Confortante é ter aprendido logo, a ponto de acordar sem qualquer torcicolo. Isso na parte física. O conforto espiritual vem da santa Irmã Dulce, que dormiu quarenta anos numa cadeira de pau. Eita virtude. Não chego a tanto. Durmo sentado, mas no estofado.

Aqui na casa materna é tudo estofado. Há um fetiche europeu. Até as cadeiras de palhinha dos nossos ancestrais ganham almofadas por aqui. Não reclamo, mania é mania, a gente deve achar graça. Mas não dá pra entender. O assento de palhinha é uma das grandes coisas deste país tropical. Fosse mais usado, teríamos menos brotoejas.

Advirto, porém, que esta freguesia não se arrisque a nos imitar. Digo Irmã Dulce e eu. A prática requer certos cuidados. Providências indispensáveis. Por exemplo, de ontem para hoje me preparei com uísque, guarânias paraguaias que achei num aplicativo ótimo chamado spotfy e deixei a chalana à deriva. Recomendo. Ah, senador Mario Palmerio, como eu gostaria de ter integrado sua tripulação no Paranazão, Pananapanema e no próprio Paraguai.

Meu receio era com os atos de hoje. Sei bem como é difícil, pra não dizer temerária, a relação das guarnições ostensivas de polícia militar com manifestantes, principalmente se pretos e pobres. Não estivesse na casa materna, umbilicalmente ligado ao grupo de risco, teria comparecido para vaiar na rua a monstruosidade do governo atual.

Para gáudio geral, corre tudo em paz. É um domingo virtuoso. E tanto que a brava Miriam Leitão conseguiu organizar uma DR entre FHC e Ciro Gomes na Globo News. Marina Silva também está lá. Será bom para tomo mundo ver que aquela mulher aparentemente frágil é uma força da narureza, e que qualquer um desta freguesia, se nascido nas mesmas condições que ela, continuaria analfabeto, considerando a improbabilidade de ter sobrevivido. Assistam. Vou fazer o segundo daiquiri.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Terraplanismo constitucional e fuzis para civis

Terraplanismo constitucional. Assim o ministro do STF e presidente do TSE Luís Roberto Barroso definiu a interpretação delirante do artigo 142 da Constituição, proposta pelo advogado Ives Gandra Martins, segundo a qual, para além dos Três Poderes da República, há previsão de um poder moderador, que seria exercido pelas Forças Armadas.

A ideia esdruxula é debatida por aí porque se comunica com a ditadura militar, também exercida pelas Forças Armadas, marcadamente o Exército, e pela presença de tantos membros da Reserva e pelo menos um da ativa dentro do Palácio do Planalto.

Também porque há, no histórico de Jair Bolsonaro, nos movimentos recentes dele próprio e mais despudoradamente do seu entorno, verbalizações cada vez mais claras do que sempre foi óbvio: ele nunca esteve brincando quando defendia a ditadura e só tem interesse em governar sem contraponto. Sua única agenda é esta.

E a coisa de espalha. O filho ZeroTrês disse com todas as letras: endurecer é questão de “quando, não de se”. Gal. Mourão meteu um artigo no Estadão explicitando como enxerga manifestações de oposição ao governo. O procurador-geral da República acompanhou – depois se retratou, mas era tarde. Paulo Guedes falou em AI-5 numa coletiva de imprensa nos Estados Unidos. O ministro da Educassão defende a prisão dos membros do Supremo. E por aí vai.

Até os moderados sucumbiram. Tereza Cristina apareceu bebendo o copo de leite que supremacistas brancos estadunidenses adoraram como símbolo do que acreditam ser a “pureza branca”. Pedro Guimarães, presidente da Caixa, idem. É curioso: o gole mais agressivo veio do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, que é pardo.

Tarcísio de Freitas, rara exceção outrora respeitável na Esplanada bolsonarista não desgruda do presidente, sem máscara, na padaria, aparecendo em manifestações que pedem o fim da democracia pelo fechamento do Legislativo e do Judiciário.

Presente e passado, juntos e misturados, puxam a atenção para o Exército (Marinha e Aeronáutica mantém distância prudente desse bando de tarados). O próprio Exército, enquanto instituição, tenta se descolar, em vão, em que pese os esforços do general Leal Pujol, seu comandante, e do ex-ministro general Santos Cruz. Porém não tem jeito mesmo. A imagem colou e agora ninguém mais sabe como se livrar da imensa bobagem que fizeram abraçando o ex-capitão desprezado por todo o alto comando.

Entretanto, não é o Exército que deveria nos preocupar diante de um provável endurecimento de regime. Ou, no máximo, as patentes intermediárias, estas seduzidas por Bolsonaro, “expulso” por atentar contra a própria arma reivindicando soldos e tratamentos melhores, dizendo por elas lutar, mas sem nada a apresentar em quase 30 anos de vida pública – a não ser para seus filhos.

As altas patentes na ativa têm compromisso com o Estado, não com o governo. E os soldados, a molecada da base da carreira, sob a adrenalina da expectativa de combate, pode até se animar, mas na linha de frente o sentimento arrefece. Mais: diante de possíveis manifestantes, como aconteceu nos EUA, exaustos de séculos de maus-tratos, se veriam diante de um espelho.

Uma das imagens que marcaram a semana foi a da mulher preta falando firme com soldados loiros do Exército dos EUA, dizendo que eles deveriam marchar ao lado dos manifestantes e não contra eles, até que todos concordaram, deram-se as mãos e se ajoelharam. Aqui, acredito, protestantes e praças, pretos e pardos, se reconheceriam quase que instantaneamente.

Mas nada disso adianta. O perigo real são as milícias e grupos paramilitares, muitos deles integrados por membros da polícias militares. Todos os casos recentes de insubordinação e/ou levante policial recentes têm alguma relação com o bolsonarismo. Nas manifestações do final de semana passado em São Paulo, Rio e Curitiba, ficou claro que as PMs têm lado, pesos e medidas diferentes para tratar manifestantes. E estes, nas cidades, ninguém segura. Nem o Exército. Nem o dos EUA.

A propósito: Jair Bolsonaro, que já vinha aumentando as possibilidades de compra de munições e dificultando rastreamento de armas de fogo, canetou há poucas horas a liberação da venda de fuzis 7.62 e 5.56, até então de uso restrito das Forças Armadas, para civis. Assim o presidente da República celebrou os três meses e mais de trinta mil mortes da pandemia. Exatamente os trinta mil que ele disse que a ditadura deveria ter matado e não matou.

Bom final de semana. Fique em casa.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Classe A.B.Surda

Milhões de filhos da classe AB estão recebendo os R$ 600 da renda básica emergencial para combate à pandemia. Os malandros se cadastraram e, como o sistema do governo federal não cruza os dados dos dependentes com o do imposto de renda das famílias, foram aprovados.

O relatório do ministro Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União, responsável por fiscalizar o programa, foi aprovado por unanimidade. Na primeira versão constava que 8,1 milhões de pessoas recebem indevidamente o auxílio, mas o dado foi retirado por depender de verificação do número exato.

No texto aprovado, soubemos que a demanda das famílias pela renda básica emergencial equivale ao triplo da demanda pelo Bolsa Família, que no pré-crise tinha investimento total dezesseis vezes inferior à renda básica emergencial.

Gostaria muito de saber quantos dos malandros cadastrados eram ou são críticos do Bolsa Família. Aposto que todos. Alguns, consultados pelas reportagens dos jornais deflagradas pelo Estadão, se justificavam dizendo que não usam nenhum serviço do Estado e que assim estão no direito de pegar algum. “Gente de bem”, né, minha filha?

Já tinha acontecido com militares da ativa. Mais de 73 mil deles receberam a primeira parcela. Mas pelo menos não se cadastraram e, consta, terão o dinheiro descontado em folha.

Nos dois casos, a responsabilidade foi transferida para o “sistema”. Até pode ser. Coisas feitas às pressas, sob urgência. Agora, assumindo o risco de errar, não era o caso de errar mais e liberar quem realmente precisa das aglomerações temerárias diante das agências da Caixa?

Porém, invés de resolver isso, ou assumir o risco, o governo dedicou parte do seu esforço a firmar uma cooperação com a Amazon para que a Alexa tirasse dúvidas frequentes sobre o auxílio de R$ 600. O aparelho custa R$ 900.

Mais uma: no Rio de Janeiro surgiu um movimento interessantíssimo que se esparrama pelo Brasil: identificação de fraudadores de cotas. Jovens brancos que se declaram pretos, indígenas e /ou pobres para entrar na universidade pública ou nas particulares com direito à bolsa. Vários perfis no tuíter para quem quiser conferir as caras-de-pau.

De novo, aposto que são todos contra a política de cotas raciais. De novo, “gente de bem”, né, minha filha. Perdão por usar assim, Noel, mas é o A.B.Surdo.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments