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Alerta no ENEM

Quatro milhões de brasileiros tiveram que parar para pensar e botar no papel suas impressões sobre “manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”.

Foi esse o tema da redação do Enem. Numa conta rápida, imagino que pelo menos vinte milhões de pessoas, ou 10% da população, tenha falado sobre o assunto no final de semana, considerando que os candidatos costumam comentar a prova em casa.

Especialistas em Educação que falaram à imprensa elogiaram o tema proposto, afirmando que, pela abrangência, facilita a vida do candidato que faz a prova e, sobretudo, pela atualidade do debate.

Passadas as eleições, conforme previsto (aqui), a manipulação das massas pelos metadados segue firme e forte.

Se já não se restringia ao consumo, aos costumes ou à política, cada vez mais mistura tudo, tornando a humanidade vulnerável a uma nefasta concentração de poder.

A falta de pensamento crítico somada ao alcance dos metadados atingiu níveis incontroláveis. Helio Rheinfrank, um amigo que as redes sociais me trouxe, cravou um apelido perfeito para o fenômeno: ditadura das cinco linhas.

Isto é, diante de um texto com mais de cinco linhas, o sujeito se confunde e fica com preguiça de ir além, tendendo a comprar pelo valor de face a manchete ou o rótulo que mais se aproxima do seu desejo emocional.

Separando a sociedade em bolhas com ajuda dos metadados, provocar o efeito manada nunca foi tão fácil e perigoso.

Para ficar em só um exemplo, semana passada o que mais recebi pelo WhatsApp de amigos animados com a eleição de Bolsonaro foram notícias de empresas declarando intenção de investir no Brasil.

As notícias, todas avalizadas, ora vejam, pela grande imprensa, são pra lá de animadoras. Problema: a maioria é antiga, data do começo do ano.

Perigo 1: recebi esses conteúdos de amigos executivos ou proprietários de empresas médias e grandes, que neste momento estão planificando orçamentos e traçando investimentos para o próximo ano. Planejar sob efeito de euforia é até mais arriscado do que dirigir embriagado.

Perigo 2: se pessoas nessas posições estão suscetíveis à desinformação nesse nível, imagine os menos escolarizados e com menor acesso à informação qualificada.

Perigo 3: em se tratando de emoções, quem tem a chave para manipular euforia, pode usa-la para causar depressão. Repito pois o alerta que fiz aqui no começo de 2017: imagine um disparo de WhatsApp bem bolado dizendo que determinado banco vai quebrar.

Dica: Pessoas físicas, assinem jornais. Pessoas jurídicas: anunciem em jornal.

 
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Ministérios fundidos

Chamar de superministério o da Justiça, que deve ser entregue a Sérgio Moro, é papo ou, por outra, só vale em relação à personalidade mitológica do juiz, maior que a do presidente eleito.

Até anteontem não havia ministério da Segurança Pública e o retorno do tema para o guarda-chuva da Justiça só será percebido em caso de fracasso.

Já transferir o COAF da Fazenda para a Justiça pode ser positivo, dado que a especialidade de Moro é lavagem de dinheiro e, como ensinou o Garganta Profunda, seguir o dinheiro é o melhor caminho para desvendar crimes, do tráfico de drogas à corrupção.

No caso, o problema passa a ser político-administrativo. Ministro tem muita coisa para fazer. Notadamente na Justiça, trata de temas sensíveis, relacionados a Direitos Humanos, questões indígenas, vulnerabilidade das minorias. E pepinos gigantescos, como criminalidade, setenta mil assassinatos e cinquenta mil estupros ao ano.

A parte boa é que Moro é dedicado e trabalhador. A parte ruim é que às vezes se excede. Como juiz esteve protegido pelo cargo técnico. Como ministro, será definitivamente político, e estará sujeito aos questionamentos democráticos por eventuais excessos.

O apelido de superministério para a Fazenda de Paulo Guedes é mais acertado, porque absorve outras duas pastas relevantes, Planejamento e Indústria, Comércio Exterior e Serviços, além de outros órgãos, como o Conselho Monetário Nacional e a Câmara de Comércio Exterior.

Na teoria tem um erro evidente. Por quê Indústria, Comércio Exterior e Serviços devem ficar sob a Fazenda, e outros setores fundamentais para a economia, como Agricultura e Turismo, não? Mais distante e não menos importante, fica ameaçada a discordância, fundamental para tomada de decisões impactantes.

A falta de contraponto interno ameaça também o lado bom, porque agilidade aliada à certeza desmedida aumenta o risco de incidentes, e até porque é impossível escapar das interferências externas dos vizinhos de Esplanada.

Com menos de dez dias de governo eleito, sobram arestas criadas entre os homens-fortes sem a menor necessidade. Gal Heleno fala de Direitos Humanos, Onyx Lorenzoni fala de Economia, Paulo Guedes fala de Relações Internacionais, astronauta fala de Educação, Gal Mourão fala de tudo.

Para lubrificar a Esplanada existe a Casa Civil, cujo nome ideal é sempre alguém discreto, conciliador e realizador. Bolsonaro escolheu Onyx Lorenzoni.

Entre as fusões ministeriais, a mais desastrada é a da Agricultura com o Meio Ambiente. O simbolismo é tão forte que nem precisa acontecer para dar errado. O estrago está feito e arrumar a casa vai demandar muito tempo, carinho e cuidado.

As idas e vindas do presidente eleito, somadas à declaração intermediária de que não faz diferença juntar ou não, porque quem nomeia é sempre ele, são multiplicadas por suas declarações e posições históricas. O barulho foi tanto que até a bancada ruralista acordou e pediu para não fazer.

O lado bom da molecagem – sim, até nesse caso ele existe – é que, repreendido, o moleque toma consciência da bobagem que fez e concentra esforços em reconstruir a própria imagem entre os adultos, se afastando dos coleguinhas endiabrados e dando sinais claros de que aprendeu a lição.

 
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Uber crédito na praça – TUEL – rp | consultoria política | construção de narrativa

No chamado “mercado” rola a construção de uma narrativa boa. O “mercado” seríamos todos nós, financistas, rentistas, empresários, consumidores, adimplentes, inadimplentes enfim, toda a gente.

O mercado imobiliário constrói a narrativa dizendo que dele participam todos que de alguma maneira moram. Você que paga aluguel ou o carnê da casa própria, é parte do mercado tanto quanto quem recebe aluguel, tem casa própria, constrói, incorpora, empreende, especula ou tudo junto e misturado.

O mercado financeiro investe na mesma linha. Cliente ou dono de banco, criança que faz poupança no porquinho ou investidor de Wall Street, tanto faz, mercado são.

A narrativa é boa porque tem lógica, base para qualquer argumento que pretenda parar de pé. Se não para é porque o desiquilíbrio de forças pesa mais. Muito mais.

Com política acontece a mesma coisa. Em teoria, todo cidadão é político. Mas não adianta falar. Porque na prática, o poder segue concentrado em um pequeno grupo, reconhecido como “classe política”.

A internet vem mudando as coisas no mundo inteiro. Primavera Árabe, levantes de 2013 no Brasil, Trump, Brexit, Bolsonaro provavelmente não teriam acontecido sem o poder pulverizado das redes sociais.

Se as andorinhas em bando estão fazendo verão ou inverno é outra discussão.

No mercado imobiliário as mudanças já podem ser vistas. Aplicativos de locação direta afetam a prática tradicional, com efeitos no turismo e na vida de quem mora de aluguel. Iniciativas para promover locação social também. Não seria imprudente um palpite de que os coletivos podem chegar à incorporação e construção.

No mercado financeiro brasileiro, com 80% do crédito concentrado em cinco bancos, o desiquilíbrio é atroz. Mas as fintechs avançam e o Banco Central está ajudando. Pelo caderno Link do Estadão, a repórter Luiza Dalmazo nos conta como e por que.

Um empresário de painéis solares que fatura R$ 1 milhão e tem duzentos clientes em oito estados tentou levantar um empréstimo nos bancões e foi ignorado. Sorte dele, que procurou uma fintech e conseguiu R$ 95 mil a juros entre 24% e 48% ao ano – bem abaixo dos 70% a 300% cobrados pelo grande mercado. “Não à toa, diz o Sebrae, atualmente menos de 8% das micro e pequenas empresas do país têm acesso a crédito”, nos conta Luiza.

A parte do Banco Central foi simplesmente ceder. Se em 2010 chegou a acionar a Polícia Federal para fechar uma startup que apostou na desobediência civil, em abril de 2018 publicou uma resolução que permite a realização de empréstimo sem intermediação bancária. Cinco empresas aguardam aprovação, três como Sociedade de Crédito Direto e duas como Sociedade de Empréstimos entre Pessoas.

O retorno para quem investe em emprestar diretamente para outra pessoa parece bom. Uma fintech ouvida pela repórter oferece 18% ao ano já descontada a inadimplência, taxa 170% acima do que paga o CDI, referencia de aplicação em renda fixa. E pode-se dizer que a burocracia é menor na proporção inversa.

Nesse caminho, o melhor horizonte é o que já venho apostando há algum tempo (escrevi aqui): o “uber” crédito. Pessoas emprestando diretamente a outras pessoas e com análise de risco igual a do app de carona. Furou, dançou.

Os gaviões Serasa e Febraban vão ter que suar para acompanhar as andorinhas.

Ainda: Paulo Guedes, em teoria, vai adorar.

 
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Moro deu a Lula o indulto narrativo

A suspeita de que Lula queria mesmo Bolsonaro vai se confirmando. Começou com Haddad aceitando o papel ridículo de bater ponto em Curitiba e seguiu quando topou a fraude de ser vice de alguém sabidamente impedido de encabeçar a chapa. Aumentou com o próprio Haddad falando em obter vitória política, não eleitoral. E se agravou com a fala de largada, prometendo tirar Lula da cadeia – tão forte que, ao desdizer mais tarde, afirmando que a ideia era absolvição nas cortes superiores, obviamente não colou.

O que se deu foi a primeira vitória que Lula precisava. Fez a maior bancada da Câmara e com gente experimentada em obstruir a pauta legislativa, que vai combater o time dos youtubers café-com-leite formados na escolinha do professor Jair. Fez o maior número de governadores. E a ambos os times podemos somar deputados e governadores eleitos dizendo-se “candidatos do Lula”.

De quebra, fez o centro virar poeira e livrou seu PT de pegar um governo à beira da inviabilidade. Se a gestão do presidente eleito Bolsonaro der certo, será com medidas pra lá de amargas, quase uma quimioterapia, que para matar a doença, mata um pouco o paciente.

Em política a história prova que qualquer resultado é ruim para o médico: se o paciente morre, ele é culpado; se sobrevive, o doutor não fez mais que a obrigação e o novo ídolo passa a ser o dono do circo que chega para aproveitar a bonança.

Juridicamente, hoje o cenário ficou ainda mais favorável a Lula. Seu algoz Sérgio Moro aceitou ser o super-herói do superministério-liga da Justiça (sensacional Sensacionalista).

Para além de aceitar Bolsonaro como chefe, que discursou prometendo fazer Lula “apodrecer na cadeia” e “fuzilar a petralhada”, propostas que podem agradar a muita gente, mas não têm nada a ver com Justiça, no primeiro de janeiro veremos fotos de Moro no coquetel de posse brindando colegas desabonadores.

Pauderney Avelino e Alberto Fraga, ambos condenados em primeira instância, estarão lá. Onix Lorenzoni, que confessou ter recebido caixa-dois da JBS, posará a seu lado na foto oficial da primeira Esplanada, bem como Paulo Guedes, investigado criminalmente pelo MPF por gestão fraudulenta, e ainda o astronauta Marcos Pontes, que se livrou de investigação do Ministério Público Militar por suspeita de faturar com palestras e propaganda de travesseiros enquanto oficial da ativa da Aeronáutica porque STF deixou caducar.

Quando o PT chamou de golpe a deposição de Dilma Rousseff, pouca gente além da pelegada comprou a narrativa. Mas depois, com a absolvição da chapa no TSE “com excesso de provas”, o Congresso perdoando Michel Temer por duas vezes ao custo de dezenas de bilhões de reais, e o vazio das ruas, a charla petista ganhou consistência a ponto de Temer ser obrigado a estabelecer linha de corte para composição do ministério: afastamento provisório em caso de denúncia e definitivo se o auxiliar virasse réu.

Quem diria que, um ano e meio depois, os messias que prometeram salvar a pátria da corrupção estariam juntos em um governo assim.

Lula, o ex-paladino da ética, só tem a comemorar e agradecer a seus antagonistas. Como indulto legal era impossível, ganhou o indulto narrativo. E vai sapatear no depoimento deste 14 de dezembro. Se Moro estiver lá, tanto melhor para Lula.

 
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O presente de Israel para o Nordeste

O embaixador de Israel Yossei Shelley apresentou informalmente suas credenciais ao presidente eleito Jair Bolsonaro.

Nos conta o Ancelmo Gois, d’O Globo, que na visita o embaixador anunciou a intenção de seu governo em bancar a instalação de uma usina piloto de dessalinização de água do mar no Nordeste.

80% da água consumida em Israel vem do mar e a maior planta de dessalinização do mundo é deles.

Para o Brasil a notícia pode ser boa. Não falta água salgada no nordeste e alternativas para a seca são sempre bem-vindas.

Porém, igual a todo problema complexo, esse não tem solução fácil. O primeiro é logístico: a seca maltrata mais o sertão e o mar está no litoral. Levar água aonde ela falta, com ou sem sal, aumenta ainda mais o já alto custo da dessalinização.

Entre as capitais que sofrem com a seca, Fortaleza já tem um plano de PPP para dessalinização e a gestão do governador reeleito Camilo Santana, do PT, promete lançar o edital até dezembro.

Este é o segundo problema e ao mesmo tempo ótima oportunidade. Bolsonaro perdeu a eleição nos nove estados do Nordeste. Para aceitar a oferta israelense, terá que conversar com um governador da oposição. Para ganhar o presente, pelo menos um dos governadores terá que conversar com Bolsonaro.

O terceiro é ambiental: o que fazer com os resíduos do processo? A concentração de sal na água que fica não pode ser dispensada de qualquer jeito, sob risco de genocídio da fauna marinha.

Mesmo Israel enfrenta problemas sérios com a dessalinização. Diplomático, tendo que combinar com a Jordânia e observar a Palestina; ambiental, cultural e turístico, com o Mar Morto, que perdeu um terço do volume que tinha em 1960, correndo risco de morrer de verdade; estrutural e ambiental, com o plano de transposição de águas do Mar Vermelho para salvar o Mar Morto demorando para sair e incertezas sobre o impacto que causaria.

 
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PaGue é o Romário do Bolso

Paulo Guedes, o PaGue, dobrou a aposta. E quebrou a banca. Para entender o contexto, vale voltar algumas casas.

A trajetória do professor é personalista. Proporções guardadas, pode ser entendido como um Jair Bolsonaro do campo econômico-acadêmico. Qual o presidente eleito, jogou sozinho e com boca-dura juntou bastante capital – sendo o de Bolso eleitoral e o de PaGue monetário.

As primeiras grandes vaias à política tradicional vieram nos levantes de junho de 2013. Em 2014 veio a Lava Jato, encharcando principalmente o terreno petista, Dilma Rousseff xingada em abertura de Copa. Em 2016 afundou na lama.

As demais legendas e setores da sociedade, invés de encarar o problema e começar a drenagem, aproveitaram para sapatear imaginando que não se sujariam. Mas a lama chegou à Avenida Paulista e o fato é que hoje ninguém se salva: empreiteiras, bancos, industrias, universidades, igrejas, imprensa e políticos. No Brasil, onde o juiz Sérgio Moro entrar, não vai precisar do VAR para meter cartão vermelho. Até ele fez faltas que merecem, no mínimo, um amarelo.

Assim o campeonato brasileiro entrou no modo várzea e Jair Bolsonaro, por nunca ter jogado no grupo A, vestiu uniforme de atleta de cristo e foi eleito presidente da República sem time, sem treino, sem nada. Largado em um sofá na Barra da Tijuca, levantou o caneco.

Porém não alcançaria tal êxito sem contar com Paulo Guedes. Membro da escola de Chicago, berço do liberalismo, o professor diz as coisas que o chamado mercado gosta de ouvir em teoria. Encantados, os monetaristas assinaram a procuração e apostaram na alta da Bolsa e do Real conforme Bolsonaro subia nas pesquisas.

Ocorre que, com o novo governo eleito, a teoria tem que ser posta em prática, entrar em campo, e o único membro da equipe que demonstra saber onde fica o gol é Paulo Guedes. Até por isso podemos torcer ou não por ele.

Aí é que está o problema (ou a solução). Feito um Romário em campo, PaGue só joga na área e não quer saber o que dizem o técnico, o capitão, a torcida ou os cartolas. Está convicto que, estando bem posicionado, a bola vai esbarrar nele e entrar.

O técnico Lorenzoni quer a equipe sob seu comando, sem nenhuma estrela brilhando sozinha? Problema dele. PaGue diz que o papel de fazer gol é dele, não do técnico.

O capitão Bolsonaro pede meta para o câmbio? Tanto faz. PaGue vai deixar solto e usar reservas cambiais para provocar gol contra.

A torcida nas gerais não entendeu a reforma da Previdência? As organizadas querem manter privilégios? As numeradas e a tribuna sequer topam discutir? PaGue não liga. Segue o jogo na certeza de que será ovacionado ao apito final.

Os cartolas da indústria, que compraram o jogador a peso de ouro, se mostram inconformados. PaGue dá de ombros e diz que vai salvar o futebol brasileiro apesar deles.

O efeito desta última é divertido. O banco da Reserva militar, chamado QG de Brasília, adota a mesma linha. O vice-presidente eleito general Mourão quer jogar em todas as posições e diz que não pode ser substituído. Os demais quatro estrelas querem a infraestrutura inteira, incluindo Minas e Energia e os respectivos organismos de controle sob seu comando.

Aos velhos jogadores, ex-ministros que viveram dias de glória ou fracasso, mas que conhecem o futebol, PaGue repete Romário falando sobre o rei: “Pelé calado é um poeta.”

Repito: gostem ou não dele, PaGue tem personalidade e pelo menos deixa claro onde e como quer fazer gols. Em meio a uma equipe de pangarés desnorteados, não deixa de ser uma esperança. Por isso pode jogar como quiser.

Segue o jogo.

 
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Telefonemas e o complexo de vira-lata

Fernando Haddad só parabenizou Bolsonaro pela vitória na manhã seguinte à sua derrota. Devia ter feito antes, mas antes tarde do que nunca. Podia ter feito por telefone, mas preferiu registrar em uma rede social e foi retribuído com exclamação.

Pelas redes, circulou o discurso de Barack Obama reconhecendo a vitória de Donald Trump. Nosso complexo de vira-lata lamentava não termos líderes com tanta grandeza.

Ocorre que Obama era o presidente dos Estados Unidos e Hillary Clinton, candidata derrotada no dia 08/11/2016, também só telefonou a Trump no dia seguinte.

Assim, afastem o complexo de vira-latas. As campanhas, de modo geral, vêm acontecendo em tom deletério e os candidatos, em qualquer lugar, são pessoas, com sentimentos que precisam ser digeridos.

Por falar nisso, Geraldo Alckmin só telefonou a João Doria no dia seguinte. Atribuiu a demora ao sinal fraco do celular em Pindamonhangaba.

João Doria minimizou a demora dizendo ter “grandeza e altivez”.

Em uma das falas após a vitória, o governador eleito em São Paulo disse: “Não vou tratar a população que não votou em mim como inimiga.” É o mínimo. Mas não deixa de ser preocupantee que possibilidade tenha sido cogitada.

 
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Convém já ir se acostumando

Um velho amigo verificou em mim “tendência esquerdopata”. Uma amiga de infância da minha mãe desabafou afirmando que eu queria o PT de volta e sugerindo que minha manifesta rejeição a João Doria tivesse interesses ocultos, que ela não diria em consideração à amiga. Outros vieram com “o choro é livre”, consagrado pelo lulopetismo e outras torcidas, notadamente as de futebol.

Tudo porque eu ter criticado o tom agressivo do primeiro discurso do presidente eleito Jair Bolsonaro, a ambiguidade persistente diante de um país afogado em incertezas, a recusa em ser entrevistado ou debater programaticamente, e a malcriação da assessoria de imprensa ainda na apuração.

Meu ponto é que o eleito tem dois caminhos: baixar o sarrafo das expectativas criadas no período eleitoral ou assumir de vez que pode baixar o sarrafo descendo o cacete e acuando os brasileiros que não votaram nele – e que são a maioria.

Sinceramente, acho que é o mínimo. Mesmo assim, gente tida como equilibrada enxergou em mim uma enfermidade tendenciosa, desejo de ver o PT de volta, motivos não revelados para me opor a um oportunista que fez o diabo para se eleger governador e, para ficar nos três exemplos, uma turma mais moderada, garantindo que, por ora, pelo menos o choro é livre. Oremos.

Mais curioso foi ver que nas lives que se seguiram, minimamente o presidente eleito baixou a bola, falou em pacificação, concedeu entrevistas e o assessor de imprensa pediu desculpas reconhecendo o erro.

Porém, até o momento, nenhum dos meus detratores voltou para pedir desculpas. Mau sinal. Digo não por mim, que nasci pra sofrer e de alguma maneira me acostumei. Mas pelo país. Jair Bolsonaro adquiriu sofisticação no uso das redes sociais, mas se engana quem imagina que ele as controla – até muito pelo contrário, quem parece senhor é antes escravo dos seguidores. Se seus apoiadores não cobrarem dele a moderação que se espera de um governante, a coisa degringola. Do jeito que subiu, desce.

O melhor exemplo veio no Jornal Nacional. De cara amarrada mesmo diante de um William Bonner simpaticíssimo e de Renata Vasconcellos, atacou a Folha de São Paulo dizendo que o nosso maior jornal acabou. Para tanto, valeu-se do caso da Val do Açaí, que segundo ele não era funcionaria fantasma. Mas não disse que a reportagem provou e que ele próprio aceitou o pedido de demissão que resultou da matéria. Quer dizer, se houve injustiça, ele é parte.

Apesar das semelhanças com o lulopetismo, o populismo de Bolsonaro é um nabo, que cresce rapidamente mas pode ser arrancado por uma criança. O de Lula é um carvalho que, como ficou provado, resiste até a incêndios de grandes proporções. De uma cela em Curitiba, o presidiário colocou seu poste no segundo turno, elegeu o maior número de governadores e a maior bancada de deputados federais.

Outra diferença que os une é o conceito de suas plataformas. Lula propunha votar sem medo de ser feliz. Torrão de açúcar. Bolsonaro propôs votar sem medo de ser triste. Chicote.

Lula teve sorte. Pegou o país com as bases da economia ajustadas e bom momento internacional. Era quase unanimidade no Congresso e em popularidade. Bolsonaro terá base e sociedade altamente fragmentadas para enfrentar uma economia em estado crônico. Convém já ir se acostumando.

 
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Descer o sarrafo ou descer o sarrafo

Eleito presidente, Jair Bolsonaro tem dois caminhos a seguir: descer o sarrafo ou descer o sarrafo.

A primeira opção seria no sentido de baixar as expectativas criadas por falas inflamadas e deixar claro o que pretende. Porém, como o eleitor votou no escuro, sem ter a menor ideia de como pensa o ex-capitão ou, no máximo, apostando que ele não fará as coisas que diz, desde meta para o câmbio até elogio à tortura, a estratégia do presidente eleito para manter a popularidade deve ser continuar assim, escondido no porão, enviando sinais trocados, dizendo e desdizendo.

Obviamente é um cenário ruim. O país está machucado e precisa encarar suas feridas. Ter clareza sobre como serão tratadas. Vai arder, não tem jeito. Mas a alternativa é o alastramento da infecção.

Protegido pela convalescência desde o atentado a faca de seis de setembro, Bolsonaro foi poupado de debates e entrevistas. Sorte dele, azar nosso.

Ao arrepio da lei, sequer contas eleitorais prestou desde então. Não sabemos como e quem pagou por sua campanha.

A segunda opção é descer o sarrafo no sentido de baixar o cacete em quem dele duvida ou discorda.

Nesse sentido, começou bem. Contra a imprensa, que tem o dever de duvidar, sua assessoria se limitou a enviar uma mensagem contestando as pesquisas e chamando de “lixo” o trabalho jornalístico. Invés de entrevista coletiva, o eleito preferiu falar o que quis em uma rede social.

Paulo Guedes, seu assessor e fiador econômico, destratou a correspondente do jornal argentino Clarín, que fazia perguntas sobre a perspectiva de relação do futuro governo com o Mercosul. Guedes é conhecido por se exaltar quando contrariado. E já rebaixado de superministro a subordinado de Onyx Lorenzoni, se mostra ainda mais indócil.

Perto de 58 milhões de brasileiros escolheram votar em Bolsonaro e quase noventa milhões votaram em Fernando Haddad, se abstiveram ou optaram por votar em branco ou nulo.

Como até hoje todos os que não votaram em Bolsonaro foram carimbados de “vermelhos”, e Bolsonaro fala em “varrer do mapa os bandidos vermelhos”, resta saber se haverá vassoura para noventa milhões de pessoas ou, se no lugar do pelo ou da piaçava, vão largar surra de cabo.

 
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“Lula está preso, babaca”, ou o encontro de Janaína, Cid e Mano

Cid Gomes e Mano Brown não mandaram recados ao PT, mas a todos os partidos, a todos nós.

Ao PT ambos falaram diretamente, diante de claques, pelegos ou apoiadores incondicionais que se recusam terminantemente à reflexão. Porém é um erro festejar como um banho de água fria para despertar só o petismo. Todos nós deveríamos lavar o rosto e ter coragem de encarar o espelho.

As duas falas que marcaram a reta final das eleições têm um paralelo com a largada da corrida. Janaína Paschoal, deputada mais votada na história do país, foi cotada para vice de Bolsonaro, mas recusou.

Conheceu o candidato no dia da convenção do PSL e, de pronto, enfiou críticas duras goela abaixo da torcida bolsonarista, comparando seus seguidores aos radicais do outro lado. Como Cid e Mano, a professora foi vaiada.

Mano Brown, em comício no Rio, bateu com o coração. E bateu firme. Ele não acredita que pessoas da sua convivência tenham se tornado fascistas. Reconhece que o apoio a um maluco é antes a revolta popular contra todos os erros que o PT teima em não admitir, à desconexão do partido com suas raízes.

Cid Gomes falou com a cabeça. Difícil não enxergar cálculo político em sua mensagem. Mas o teor é o mesmo. Sem autocrítica, no escuro da caverna, um partido, um indivíduo ou a coletividade acabam mofando. A luz machuca os olhos, mas a visão sem ela é impossível.

“Lula está preso, babaca”, é a minha candidata à frase definitiva das eleições 2018. Porque serve para todo mundo.

Aos 40% que aprovam Lula, “Lula está preso, babaca”, serve para entender que já era, o homem está condenado a doze anos e pelo processo menos denso, que é o tríplex. Perto de Atibaia, o Guarujá é uma multa de trânsito.

Aos 60% que o rejeitam, “Lula está preso, babaca”, serve para lembrar que a Justiça está trabalhando. Que nunca antes na história deste país um ex-presidente da República foi preso em regime democrático.

Aos 48% que pretendem votar em Bolsonaro, “Lula está preso, babaca”, serve para lembrar que o papel de punir quem deve é do Judiciário e está funcionando, não do Executivo ou do presidente da República, como sugere o ex-capitão contra o lombo de seus opositores, em evidente delírio fascista.

Aos 38% que pretendem votar em Haddad, “Lula está preso, babaca”, serve para lembrar que, se eleito, ele terá que governar sem Lula, e que se repetir uma escassa visita ao padrinho em Curitiba, seu governo se desmoraliza.

A bem da verdade, sobre autocrítica cabem aplausos e vaias para encerrar: as Forças Armadas fizeram autocrítica sobre a ditadura militar. Bolsonaro, não. O PT não fez autocrítica sobre corrupção e erros que causaram a depressão econômica. Haddad, sim.

Boa votação a todos.

 
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