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Beato Salu na Praça dos Três Poderes

Na oligarquia da Asa Branca de Dias Gomes e Agnaldo Silva, o que mais se temia era a volta de Roque Santeiro. Dezessete anos após o desaparecimento, seu retorno era iminente, ameaçando o fim do mito.

A principal ameaça era feita por Beato Salu, pai de Roque. Desprezando e merecendo a recíproca dos poderosos locais, anunciava não a volta do filho, mas o fim do mundo.

Extrato do Brasil, Asa Branca, tanto quanto o filho ilustre, segue viva em todos os sentidos no coração nacional.

O engenho contemporâneo, porém, parece escolado, e conseguiu neutralizar Beato Salu. Não em suas sandices, mas na percepção delas. Como? Arranjando um elenco ainda mais surrealista.

Naquele mesmo 1986, enquanto Roque Santeiro finalmente era exibida no horário nobre, nos Estados Unidos estreava a comédia “De volta às aulas”, estrelando um empresário tosco e milionário por vender roupas para gordos. Seu slogan era: quer parecer magro? Tenha amigos gordos.

O slogan parece ser a única explicação para a percepção ora vigente sobre o ministro Paulo Guedes. Com êxito profissional incontestável, apesar de alguma nebulosidade em pontos legais, PaGue é financeiramente rico como a estrela do filme, mas considerado intelectualmente tosco por um sem número de economistas, de quem mereceu o apelido inspirado no louco da novela: Beato Salu.

Ocorre que, se no coreto da praça de Asa Branca se encontram Pastorinha, ChanCelerado, colombiano ufanista do Brasil, todos regidos por Marte no mapa traçado pelo astrólogo da Virgínia, convenhamos que Beato Salu parece razoável. Com a Praça dos Três Poderes não é diferente.

O fazendeiro Sinhozinho Malta está apavorado com o desmame prometido, não quer chorar sobre o cadáver de Ametista. Assim como o industrial e comerciante Zé das Medalhas com a ameaça da faca. Os padres Hipólito e Alcindo seguem batendo cabeça. Sem falar na sombra cada vez maior do bando de Navalhada. Já o político Florindo Abelha mostrou o ferrão e disse que sem flores não vai ter mel – levou um bilhão em emendas e a promessa de cargos mil.

Porém, no pregão da Faria Lima, Beato Salu roubou a fala de Sinhozinho Malta e repete ameaçadoramente: tô certo ou tô errado? E o pessoal do asset assente, fingindo acreditar que, mais que durar, o paraíso do semestre passado se repetirá na terra se passar a reforma da Previdência, materializando a década do trilhão.

Os apóstolos de Salu não têm limites e creem que podem reeditar as escrituras. Falam em desvinculação geral do orçamento, um trava língua de três trilhões e trezentos milhões, versão 3.0 da Pec do Teto, mais R$ 2 trilhões em privatizações, R$ 120 bilhões de ajuste fiscal e por aí vai. Quem ousa duvidar é condenado a embarcar com filhos e netos num voo só de ida para Atlântida.

Graças a Deus, contudo, ainda há céticos. Clovis Rossi na Folha de hoje os apresenta. O primeiro é Mohame El-Erian, conselheiro econômico-chefe da Allianz, para quem urge aos colegas um olhar mais amplo; Gene Sperling, guru econômico do Partido Democrata americano, para quem dignidade econômica é a única meta, tendo por tripé capacidade de cuidar da família, oportunidade de realização, liberdade contra dominação e humilhação; e, vejam vocês, o professor Delfim Netto, que botou na mesma Folha um “talvez” em referencia a uma renda básica para confortar o cidadão mais vulnerável.

Ainda: obviamente a reforma da Previdência é necessária, porém muito antes de ser panaceia deve ser sabida como paliativa. Com as novas tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos. Pleno emprego ao modelo de produção e consumo chinês ou americano para sete bilhões de pessoas explodiria o mundo.

Meu palpite é conhecido desta freguesia: só uma renda básica universal garantiria dignidade social e movimento da roda econômica. A parte boa é que a proposta é um dos raros pontos de convergência entre gente tão diferente quanto Eduardo Suplicy, Fernando Henrique, Bill Gates, Barack Obama, Ellon Musk, Richard Branson, OakLavo e Beato PaGue Salu.

 
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A selfie tóxica ou o Luis 14 em nós

A grande novidade na egolatria atual é a democracia e, antes e mais abrangente, a velocidade com que foi atingida, sem tempo para digestão social.

Amor próprio é vitamina, ajuda a viver. Em caso de enfermidade pode ser remédio e ajudar na cura de um mau momento. E como toda droga, nessa toada corre o risco de virar veneno. Numa balada louca, provoca overdose.

A balada das rede sociais acelerou esse processo de democratização ególatra. Os retratos a óleo nas paredes, antes reservados aos mecenato renascentista, ou as estátuas e monumentos, ainda mais restritos, originalmente exclusividade de divindades mitológicas ou religiosas, depois a autocratas e tiranos, agora estão ao alcance de todos. Voltando ainda mais um pouco, chegaremos a Narciso, intoxicado pelo próprio reflexo.

Não à toa, em 2013 o dicionário de Oxford elegeu selfie como palavra do ano. Em 2018, a palavra é tóxico.

Me lembro de quanto surgiu o Orkut, mas não exatamente há quantos anos. Mais claro na memória é o argumento dos amigos que nos convidavam a participar: ele nos lembra as datas de aniversário dos amigos.

Ora, passamos milhares de anos recebendo parabéns limitados, de gente realmente querida ou socialmente comprometida conosco. De repente, centenas de votos, carinho imenso, vulgarmente agradecido como “massagem no ego”.

Qual seria o efeito disso no espírito coletivo? Meu palpite é que fica próximo do governante que, empossado, torna-se vítima de bajuladores. E como há nego talentoso para tudo, há exímios puxa sacos, capazes de enganar o mineiro octagenário. Imagina o que podem fazer com um adolescente instável de qualquer idade. Com a roda girando, até o próximo aniversário o sujeito procura retribuir os fãs com notícias sobre a própria vida, afinal, não quer desapontar ninguém.

Ficamos extremamente vulneráveis. O consumismo, que já era desmedido, cresceu na mesma proporção do amor próprio. Nos sentimos merecedores de recompensas repetidas que, se não vêm por êxitos intelectuais, afetivos, profissionais, esportivos, podem ser disfarçados com um par de tênis novos.

O aniversário universal ocidental costumava ser o de Jesus. O comércio, inspirado nos reis magos, nos levou a trocar presentes, como se os merecêssemos tanto quanto o Nazareno. Deu muito certo e não demorou para o vício se espalhar pelo ano, com dias disso e daquilo.

Com o fenômeno dos aniversários nas redes sociais, num prazo de dez anos, um sopro na história humana, passamos a sentir individualmente uma importância que não temos. Literalmente há 365 natais. E o algoritmo sabe onde está cada “menino Jesus” e é capaz de fazer brilhar uma Estrela de Belém na timeline dos potenciais reis magos, fortalecendo o círculo vicioso.

A vulnerabilidade serve para tudo. Mensagens políticas passaram a apelar para os sentimentos mais primitivos, aqueles que o pudor não nos permitia revelar nem a nós mesmos, despertando nosso Rei Sol individual. Resultado: cada um de nós acha que “o Estado sou eu”.

Como tem limite para tudo, chega um dia em que não basta seu nome escrito numa joia, na camisa da seleção, seu retrato nas redes sociais. E, quando cai a ficha da impossibilidade de ter a própria face estampada numa moeda – nos cartões de crédito já é frequente –, ou o corpo sarado eternizado em mármore na praça matriz, o Luizinho 14 reage. Igual a todo tirano, compra umas armas e libera os demônios da vingança contra a ingratidão de “sua” gente.

É urgente equilibrar isso. Como fazer, não tenho certeza. Mas se nada for feito, não demora virão as guilhotinas contra selfies. E basta olhar as redes para ver que cada um de nós hoje é um monarca.

 
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Operação Lume de aproxima do Alvorada

Depois de amanhã faz um ano que Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes foram executados. Hoje cedo a Polícia Civil prendeu os assassinos, um PM e um ex-PM, respectivamente Élcio Queiroz e Ronnie Lessa.

O trabalho refinado das promotoras Simone Sibilio e Leticia Emile, do MP-RJ, e das equipes do delegado Giniton Lages, titular da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro, mereceu aplausos do Brasil inteiro, assim como a reportagem minuciosa do jornal O Globo, assinada pelos repórteres Chico Otávio, Vera Araújo e Arthur Leal.

Mas o que salta aos olhos em todo esse caso é a proximidade dos atores com a família do presidente da República, Jair Bolsonaro. É assustador.

Por sinal, faço aqui uma errata: nem todos os brasileiros aplaudiram hoje o trabalho das autoridades e da imprensa. No twitter do pai e do ZeroTrês, nada (ZeroUm e Cartucho ZeroDois me bloqueiam).

Vá lá que a BolsoFamília ataca a imprensa amiúde, mas o trabalho da polícia e do MP eles costumavam elogiar. Ouviram do Ipiranga o remanso mouco?

A última vítima de Bolsonaro no Twitter vem a ser Constança Rezende, do Estadão, que no domingo à noite foi alvo de mentira produzida por um blog bolsominion que, entre outras coisas, sustenta que masturbação prejudica cérebro. No tuíte, Bolsonaro destacava que o pai da repórter é Chico Otávio, d’O Globo. Tudo a ver?

O presidente não elogiou a polícia, mas perguntado pela imprensa, disse querer saber quem mandou matar Marielle e quem mandou esfaqueá-lo – a Polícia Federal já respondeu duas vezes.

Desde o atentado de Juiz de Fora, Bolsonaro e família não perderam uma oportunidade de associar Adélio Bispo ao PSOL, por este já ter sido filiado ao partido e por ter visitas registradas à Câmara dos Deputados.

Já sobre ter posado em foto com Élcio Queiroz, o presidente disse ter foto com policiais do Brasil inteiro. Verdade incontestável. Porém nada disse sobre ser vizinho e já ter sido cossogro de Ronnie Lessa, ex-PM preso hoje. Não se sabe qual Bolsonaro namorou Lessa, mas o ZeroUm condecorou Ronnie na Alerj.

Apesar das súcias tantas, que ainda incluem Queiroz1, cheques, contratações e outras homenagens a milicianos, não há evidência do envolvimento da BolsoFamília com o assassinato de Marielle e Anderson. Mas tanto quanto Getúlio Vargas era ligado a Gregório Fortunato e nada teve com o atentado contra Carlos Lacerda, os Bolsonaro são ligados às milícias do Rio de Janeiro e devem responder tendo o cuidado de preservar o governo.

Deus nos livre que o presidente acabe injustamente responsabilizado e apele para a solução do 24 de agosto. Deus afaste qualquer possibilidade de uso da tortura (defendida por Bolsonaro) nos depoimentos de Lessa e Queiroz2 para chegar aos mandantes do crime.

Porém, em que pese o crime ser de assassinato, sua origem é um ataque contra a democracia e, sendo assim, pelo bem maior, creio que tem razão o governador fluminense quando diz que pode caber delação premiada para os criminosos.

 
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O pio da graúna que vai matar o tucano e chocar o PL

Se pelo dedo se conhece o gigante, a Lava Jumbo, versão paulista da Lava Jato, que decolou com 145 anos de cana para Paulo Preto mais 24 para sua filha, promete ser um dos maiores desastres políticos-partidários da história. Basta a graúna acertar os termos do pio sobre o tucano.

Tanto faz se graúna ou tucano, no universo partidário brasileiro, podemos cantar o passaredo inteiro. Bodoque e pedra há para todos. A diferença principal do tucano é a proporção, que obedece ao tempo de governo sobre o segundo orçamento do país, sozinho equivalente a duas argentinas. No mais é igual. Tem bico e pena como qualquer outro pássaro, só que maior e mais vistoso.

A segunda diferença que destaca o PSDB dos demais partidos é não aprender com os próprios erros. Pior, muito pior do que ficar em cima do muro, foi pular a cerca sem qualquer pudor.

Se comparado ao DEM, que comeu o pão que o diabo amassou com o rabo no auge do lulismo, mas manteve a posição, fica ainda mais claro. A velha Arena quase morreu de fome, mas o que não mata, fortalece, e hoje está aí, com a presidência da Câmara, do Senado, maior quantidade de ministérios – incluindo a Casa Civil – e, por consequência, já começa receber telefonemas afáveis até do destrambelhado presidente Bolsonaro.

Olhar o PT também ajuda. Com o Lula preso, babaca, fez a maior bancada de deputados federais, o maior número de governadores e disputou o segundo turno para a Presidência. Parece aqueles carvalhos portugueses centenários que, ante incêndios devastadores, sobreviveram e ainda protegeram o entorno.

Para concluir com um terceiro e universal exemplo, Churchill foi intransigente contra Hitler desde o começo. Lutou contra interesses poderosos, políticos, diplomáticos, empresariais, culturais. Sofreu muito. Sangrou, suou, chorou. Mas venceu.

Casos de corrupção, convém insistir, têm para todo gosto – até para o inglês. O que salvou Churchill, DEM e PT foi a defesa de seus princípios e crenças, certos ou errados. Quando o pêndulo histórico voltou, pôde encontra-los em seus lugares. Já o tucano, cadê?

Tudo isso para dar um palpite. João Doria, Bruno Araújo, família Macris e companhia não querem tomar o PSDB. O resultado de 2018, somado ao horizonte da Lava Jumbo, deixa muito claro que pouco poderá ser aproveitado em 2020 e após. A ideia deles é criar uma narrativa que justifique a mudança para outra legenda.

Para isso, contam com Gilberto Kassab, político incansável que já fez o PSD e só não fez o PL porque o então PMDB, aliado ao PT, não deixou. Mas o trato está na gaveta.

A formula será a mesma: pegar uma marca antiga, dar uma recauchutada, pendurar um presunto na porta e esperar a cambada chegar. Deu certo com o PSD porque tinha a prefeitura paulistana por presunto, dará certo com o PL porque há o estado de SP, presunto ainda mais gordo. João Doria, como publicitário, sabe o valor das marcas e já faz tudo para dizer que é PL, ou Partido Liberal, só faltando o brochinho.

A chance de funcionar é enorme. 2018, Lava Jumbo, onda liberal, PSL vulnerável com um bando em busca de identidade, janela do troca-troca institucionalizada em ano eleitoral. Aguardemos.

 
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Água no chope da educação ou chamem as freiras

Até 2014 empresas podiam botar dinheiro em campanhas eleitorais. A Ambev pingou em dezenove partidos diferentes, ajudando eleger 76 deputados. Pragmatismo inconsequente é o melhor adjetivo que se pode fazer ao método.

Mas como tudo sempre pode piorar, agora temos os discípulos programáticos de Jorge Paulo Lemann, que por meio da Fundação Estudar ajudou na formação de alguns eleitos nas últimas eleições.

Há gente boa no meio, diga-se. A deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP) é um exemplo. É um colosso. Olho nela. Vale a pena.

Já o deputado estadual Daniel José leva para a Alesp o pior da escolinha do professor Lemann, que já atrapalhou muito a educação privada e agora ataca a rede pública.

Como é sabido, assim que passou a reforma trabalhista, a universidade Estácio de Sá, cuja gestão tem o DNA da Ambev, botou 1.200 professores no olho da rua. Chaim Zaher, um dos mais destacados investidores do setor, que chegou a ter 30% da Estácio, condenou publicamente o passaralho.

Em depoimento ao repórter Carlos Petrocilo, da Folha, o jovem deputado do partido Novo disse ser preciso um “pente fino” na Educação paulista e propôs: “vamos separar o joio do trigo, tem professor que vai dar aula bêbado”.

A proposta Daniel José é demitir 80 mil professores: “A rede estadual tem 200 mil professores, mas funciona tranquilamente com 120 mil. O professor usa 30% do seu tempo para preparar aula, está mais preocupado em assistir Sessão da Tarde, nem é Netflix.” Se é verdade, por que não ampliar as possibilidades da rede?

O modelo Ambev de administração vem sendo contestado no Brasil e no mundo. Segundo o site de finanças Infomoney, as empresas 3G, aquelas do “Sonho Grande”, se transformaram num pesadelo que perdeu 92 bilhões de reais em valor de mercado em doze meses.

A causa é sabida: botando o lucro acima de tudo, acabaram com a qualidade dos produtos e os consumidores perceberam. O prejuízo referente à destruição de marcas históricas como Brahma, Artarctica, Skol, Bohemia, Original, Serra Malte, Heinz, Burger King ainda não pôde ser valorado.

Se o modelo Ambev não serve para algo de curto prazo, como cerveja, imagino o que pode fazer com a educação, imperiosamente dependente do longo prazo.

Daniel José nasceu pobre mas estudou em escola privada graças ao patrocínio de uma tia paterna, a freira Benedita. Tem só 29 anos mas já inspira saudosismo do tempo em que se podia contar com freiras para pagar boa escola e fazer boa cerveja.

 

 
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3 notas: conversa com o “mercado”, General Mourão e Sargento Garcia

Conversa com o “mercado”

Ainda sob a rebordosa da urina erótica do carnaval do “Micto” (obrigado, Fefo), um amigo telefona para assuntar. Perto de completar oitenta carnavais, recusa-se a usar redes sociais, mas ultimamente tem pedido à secretária para fotografar e enviar por e-mail os tuítes do presidente e prole. Afirmou que, apesar das raríssimas restrições que encontrou pela vida, nunca antes na história deste ou de outro país viu coisa parecida com o vídeo publicado por Jair Bolsonaro. Aliás, foto e respectiva descrição nos jornais, porque o vídeo se recusou a assistir.

Para além da riqueza financeira, em grande parte herdada, mas considerando tantas extravagancias inacreditavelmente mantida e até ampliada, meu amigo hoje se dedica a alguns investimentos, que olhados de longe repetem conceitualmente sua vida pessoal. Digo, para todos os efeitos é conservador, mas reserva um quinhão para aventuras. Afirma que “adrenalina ajuda a manter a forma”.

De seu ponto de vista, a maioria dos rolos e envolvendo o governo federal são marginais. Quase nada o abala, incluindo Venezuela, ministros malucos e laranjais. Suas preocupações são duas: composição das comissões no Congresso e as emoções da BolsoFamília.

A lógica é: sua geração, “a velha guarda”, sabe da importância da primeira; já a “jovem guarda”, turma que está no dia a dia da operação, é sensível demais à segunda. Diz ele: Juventude e velocidade misturadas geralmente acabam em acidente, e hoje é essa molecada com esses telefones do diabo acelerando nas duas pontas, na Câmara e na mesa (de operação dos bancos). E emenda uma metáfora de corrida de carro: O presidente pilota o “pace car”, mas parece querer marcar a volta mais rápida.

Perguntei se tinha elogios ao governo e ele devolveu com outra pergunta: Esse Paulo Uebel, você conhece bem? E rindo: Levantei aqui e vi que é Spencer, deve ser parente do Churchill.

Respondi que conheço “de chapéu” mas também simpatizo, guardadas algumas divergências. Passou pela prefeitura do João Doria com serviços prestados e sem respingo de cal, e mantém boa performance no governo Bolsonaro, com exposição e serenidade, se distinguindo dos malucos. Convém prestar atenção.

General Mourão

O general Mourão deveria se preservar. Evoluía bem em seus palpites até que resolveu comentar a declaração de Bolsonaro sobre o papel das Forças Armadas na sustentação da democracia. Citar o exemplo venezuelano foi um tiro de cano duplo no pé. Primeiro porque compromete a possibilidade de diálogo entre militares de lá e de cá por uma solução pacífica. Depois porque pode parecer ameaça ao próprio governo, ou no mínimo alimentar a paranoia dos que navegam orientados pelo astrólogo da Virgínia. Quem já expulsou Bolsonaro da tropa uma vez…

Sargento Garcia

Alexandre Garcia costumava ser bom jornalista. Agora, trabalhando voluntariamente e sem editor, perdeu a mão.

Ainda sobre a ideia deturpada que Bolsonaro mostrou ter sobre o papel das Forças Armadas na democracia, o novo Sargento Garcia atacou de revisionista histórico deturpando os fatos sobre a relação das FA com a institucionalidade.

Pretendendo dar aula de história, “se esqueceu” que os militares defenderam a ditadura Vargas em 1932 e que mais tarde o tenente Gregório Fortunato foi o pivô do suicídio de Getúlio, chamou o golpe de 1964 de “socorro aos civis para não virar Cuba”, e o general Figueiredo ter deixado a Presidência pela porta dos fundos para ele foi “devolução planejada”.

Horas depois reclamou, com razão, dos impostos pagos na compra de equipamentos para seu canal no YouTube. O preço total indica coisa fina. Já o conteúdo anunciado parece ser a velha estratégia de espelhamento para estepe ou eventual neutralização. Desenhando, OakLavo está prestes (sem trocadilho com O Velho, também militar) a ganhar um concorrente.

 
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A Lava Jato paulista promete ser Lava Jumbo

Acho que já contei aqui, mas é oportuno repetir o caso. Um amigo gostava de brincar com o nome do Baixinho, dizendo que Romario foi batizado quando seu pai viu o placar no Galeão anunciando um voo Roma/Rio. Ainda que tudo nos leve a crer que a origem do nome tem a ver com romaria, a sacada é boa.

A lembrança é oportuna porque a segunda temporada de Suburra, no Netflix, estreou simultânea à igreja Católica nas suítes fluminenses da operação Lava Jato.

Suburra é o vale romano onde vale tudo (perdão, não resisti). Lá se encontram as águas da Cidade Eterna e também máfia, política, polícia, prostitutas, mercado, aristocratas, ONGs e, claro, a igreja. Impossível não notar a semelhança com o Rio.

Com quatro governadores, membros do Tribunal de Contas, policiais, executivos de multinacionais publicas e privadas, universidades, presidente da Assembleia Legislativa e dezenas de deputados estaduais presos ou seriamente envolvidos em corrupção e/ou milícias, incluindo o filho varão, um amigo de décadas e a mulher do presidente Bolsonaro, além de um assessor correligionário do juiz-governador Witzel, somaram-se gente de confiança dos cardeais da Arquidiocese.

Porém o importante no paralelo não é Suburra ou o Rio, mas a origem das águas, de onde vêm, se brotam ali mesmo ou as duas coisas depois de tanto tempo. O caso de Roma parece atávico. O do Rio, idem. É difícil concluir que teriam chegado tão longe sem anuência social.

Outra coisa que me intriga é o efeito “vale”. Suburra e o Rio de Janeiro, cercados de montanhas, seriam diferentes de outros lugares ou a diferença estaria na concentração, que socialmente repetiria o efeito geográfico?

Depois de muito tempo a Lava Jato alcança São Paulo, com o primeiro processo concluído. Com boa vontade, pode-se atribuir a demora ao tamanho do estado paulista, devido as águas do Tietê, que invés de se concentrarem, espraiam-se continente adentro.

Mas força da nascente impressiona. Paulo Preto, apontado como operador do PSDB na DERSA, foi condenado a 145 anos de cadeia, além de outras pessoas, como sua própria filha, Tatiana Cremonini, que pegou outros 24 anos de pena. Tudo por conta de uma só obra, o Rodoanel. Aliás, só o trecho sul da obra. Pelo olho d’água podemos imaginar a pororoca que será na foz. Se a terra bandeirante é pujante em tudo, por que haveria de não ser em corrupção?

Os envolvidos no processo também provocam vertigem. Se no Rio as autoridades enroladas ficaram no plano estadual, São Paulo estreia com o Ministério Público pedindo a suspeição de um ministro do Supremo, Gilmar Mendes, por conta da troca de mensagens nada republicanas deste com o ex-ministro Raul Jungman e o ex-senador e ex-presidente da Investe SP do atual governo João Doria, Aloysio Nunes Ferreira, gravemente envolvido com Paulo Preto.

Senhoras e senhores, preparem-se para o impacto. A pizza pode ter chegado antes em São Paulo do que em Roma, mas dessa vez parece que não vai assar. A Lava Jato paulista promete ser Lava Jumbo.

 
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Entre festa e desavença, a escolha do brasileiro é óbvia

Milhões de pessoas nas ruas. Muita chuva, muita cachaça, pouco sol, pouca roupa. E muito, muito pouca confusão. Entre festa e desavença, a escolha do brasileiro é óbvia.

Nas ruas ou na avenida, com organização mínima e quase todo mundo bêbado, uma brincadeira gigantesca acontece quase que espontaneamente. Bilhões de reais são movimentados democraticamente, com oportunidades acessíveis da grande indústria ao camelô, que na maioria das vezes trabalham aliados.

Se o saldo do carnaval não é suficiente para provar que alegria e cultura vencem a violência, não sei o que mais poderia ajudar.

Ainda tem brincadeira pela frente no Rio, em Salvador, em São Paulo e tantas outras cidades. Tempo suficiente para o país limpar a sujeira causada pela autoridade máxima do país, que tentou estragar a festa e conseguiu prejudicar tanto nossa imagem, com dois vídeos lamentáveis, um mentindo sobre a Lei Rouanet, outro escatológico que nem no sonho mais asqueroso do pior tarado representaria o carnaval brasileiro.

Comportamento curioso. Li na BBC que a Austrália incluiu algumas aves na lista de animais perigosos. A cobras, aranhas e águas-vivas venenosas, crocodilos e, creio, o tubarão branco, somaram-se três espécies de aves de rapina que espalham incêndios florestais para tornar suas presas mais vulneráveis. Com o bico ou as garras elas apanham um galho em chamas e lançam sobre uma parte da floresta que estava em paz, iniciando o incêndio.

Fosse uma fábula, serviria para o comportamento do presidente Jair Bolsonaro e sua família. Da maneira mais sórdida, atacam de velório de criança à festa popular. Incendeiam o país porque sabem que gente como eles, gente de rapina, só prospera em terra arrasada.

A parte boa vem de outra fábula de passarinho, aquele que, sozinho, de gota em gota tenta apagar o incêndio e, ridicularizado pelos demais animais, responde sereno: cada um faz o que pode.

O carnaval brasileiro mostra que são muitos esses passarinhos a fim de proteger a imensa e diversa mata brasileira. Gente cansada de guerra que quer brincar, confraternizar, se misturar, beijar na boca, ser feliz. Prova que as aves de rapina, as aves agourentas, não vão prevalecer.

Que o espírito de paz desses tantos pássaros bombeiros permaneça vivo para além dos três ou dos trinta dias do carnaval. Que viva feliz os 365 dias do ano, ajudando a festa vencer a violência. Mais alegria, água fresca e Mangueira. Menos ódio, urina e Bolsonaro.

 
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Orégano no Minhocão

Crônica publicada no projeto Esquina Encontros Sobre Cidades do Estadão

Bruno Covas usa uma imagem divertida para dizer como as ciclovias municipais entraram em São Paulo: espalhadas como orégano em pizza.

No caso, trata-se de uma crítica-chiste para provocar Fernando Haddad. Mas pode muito bem ser recebida como elogio: basta gostar da combinação orégano, queijo, tomate e massa para agradecer ao pizzaiolo que teve o cuidado final. E, convenhamos, o mundo todo gosta.

Apesar de divertida, a comparação não é exata. Primeiro porque as ciclovias foram recebidas como coentro, despertando amor e ódio. Depois porque, uma vez espalhado sobre a pizza, é praticamente impossível tirar o orégano, e o conceito das ciclovias propõe justamente o inverso: a prefeitura bota a tinta e a cidade experimenta; se der certo, faz a obra definitiva; se não, deixa sumir com o tempo.

Na Faria Lima foi um colosso. A adesão da população é tamanha que a ciclovia já merece tomar uma faixa dos carros para duplicação. Na Guilherme Cothing tem pouco uso e, se atrapalha o trânsito, pode ser revista. Ao contrário do que ocorre com as pizzas, em ambos os casos é perfeitamente possível aumentar ou diminuir a porção de orégano.

A imagem do prefeito Covas serve muito melhor ao seu projeto para o Parque Minhocão, apresentado à cidade pela Vejinha. Orégano fresco, caro e com aroma de gourmetização.

Acompanho o processo do Parque Minhocão desde o começo. Ouvi todos os envolvidos com atenção, em reuniões, seminários, audiências públicas. Insisti com a turma pró-parque e com a turma do desmonte que ambas as frentes eram geneticamente aliadas, que o verdadeiro adversário dos grupos era a maioria da população que quer continuar usando o elevado como via para carros. Jamais fui ouvido.

Minha posição desde o começo foi de apoiar a criação do parque como um teste, seguindo a receita da Janette Sadik-Khan, comissária de Transportes de Nova York na prefeitura exitosa de Michael Bloomberg, que transformou diversas áreas daquela cidade. Abre o trânsito para as pessoas e deixa rolar com ingredientes baratos e de intervenção superficial, como cadeiras de praia, guarda-sóis, algumas plantas. Temos isto no Largo de São Bento, na Praça do Ouvidor, e as pessoas adoram. Os usuários do Minhocão já fazem por conta própria algo semelhante aos finais de semana (há quem leva a samambaia para passear). Teríamos que ampliar o horário e dar uma força de leve.

Se funcionasse diariamente, aumentaríamos as intervenções. Canteiros, tablados, fontes, escadas, elevadores. A imagem que me vem à cabeça é a da Revolução dos Cravos, com as pessoas depositando flores nos canos das metralhadoras da ditadura salazarista. Gente enfeitando o Minhocão do Maluf seria historicamente lindo. Se não funcionasse, desmontaríamos.

Minhas reservas com a manutenção da estrutura passam pela qualidade de vida no chão. O Paulo Vanzolini, que tanto cantou ta região, fez Raiz, música que não sai da minha cabeça: Eu moro onde mora a raíz, no chão / No escuro calado e feliz do chão / No tempo que eu tinha asa / Piruetei, mandei brasa / Voei no vento do ar / Pra depois voltar pro chão / No fundo do chão eu brotei raíz / A seiva do chão eu bebi feliz / No escuro da minha casa / Vai me nascer outra asa / E eu volto solto pro ar / Contigo livre a bailar / Enquanto o vento soprar / Sem pensar no chão.

Como fica o chão? A parte da poluição atmosférica e sonora poderia ser sanada com regras duras para combustíveis e propulsão de ônibus e carros. Faria bem para toda a cidade, notadamente para áreas sob esses monstrengos. Pena é que nesse sentido seguimos estacionados, quando não damos marcha à ré.

A iluminação também preocupa. Sem sol, o chão fenece. O projeto apresentado fala em abrir uns buracos no tabuleiro para resolver a questão, mas não convence.

O projeto é ruim sobretudo porque é gaiato. Mostra como pode ser o ideal acabado, sem evidenciar que grande parte não está previsto para a fase inicial. Também ignora a participação das pessoas, ponto mais alto e bonito da luta pelo parque.

E das outras faltas pouco se fala:

. A parte do minhocão que avança sobre o Bixiga é solenemente esquecida;

. Quarenta milhões de reais para um parque de largada numa cidade que sequer mantém seus canteiros e viadutos, onde uma chuva derruba mais 400 árvores das poucas que restam, e que quer conceder os parques existentes a perder de vista, sob a desculpa de falta de recursos para manutenção, parece caso de internação;

. A não previsão de habitação social para aplacar a provável expulsão de antigos moradores é injusta – poderia e deveria ser combinada com incorporadores que vão se beneficiar do investimento público;

. O cronograma inicial apressado, com entrega prevista para as vésperas das eleições, é algo que a população definitivamente percebe e rejeita – e que aqui se parece antes com os muros da 23 e da USP do Dória do que com Bilhete Único ou os CEUS da Marta, a Virada Cultural ou a Cidade Limpa de Serra/Kassab, a mobilidade ou a Paulista Aberta de Haddad;

. Dada a proximidade da casa do prefeito com o Minhocão, não vou me espantar se ele acabar acusado de prefeitar em causa própria, como Maluf, que fez uma praça em sua esquina, cercou e nunca usou.

 
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Ilona Szabó perfumando Moro

Indiscutível na personalidade do ministro da Justiça Sérgio Moro é o zelo pela própria imagem. Claro que, sendo humano – revogadas disposições em contrário –, está sujeito ao erro. Mas qualquer pessoa sensata há de reconhecer o evidente esforço.

Visivelmente constrangido pela falta de respostas lógicas às incoerências entre o Moro juiz e o Moro ministro, com destaque para pano quente em casos de corrupção de colegas, nas investigações sobre a família do presidente, no entendimento sobre caixa-dois, nas evoluções de sua senhora advogando em audiências com autoridades federais, no uso eleitoral de despachos judiciais, o doutor Sérgio Ricardo, para não rachar a viola no palco ou enfia-la no saco, canta o grande sucesso do seu xará: Todo morro entendeu / Quando Zelão chorou / Ninguém riu nem brincou / E era carnaval.

Carnaval é mesmo e o que não falta é gente chorando, dos morros aos vales do Brasil. Sobre todo mundo ter entendido, não se pode dizer a mesma coisa.

O choro do ministro Moro é próprio dos arrependidos. “Onde fui me meter?”, pergunta-se o doutor, que apela para a segunda estrofe: No fogo de um barracão / Só se cozinha ilusão / Restos que a feira deixou / E ainda é pouco só.

A ilusão que tinha para hoje era cozinhar a “empreendedora cívica Ilona Szabó – que inacreditavelmente aceitou o papel. Qual é o aroma da fumaça? Ao modelo da Fazenda, demonstrar autonomia na pasta da Justiça ou, “estou aqui mas não com Bolsonaro e esses malucos”.

Ocorre que o ministro PaGue o fez no quarto dia, endossando o pito público de um funcionário de segundo escalão no presidente da República. A diferença é que tratava-se de um assunto que Bolsonaro ignora completamente (aumento de IOF), e não teria como consultar o Posto Ipiranga para reclamar com o próprio Posto Ipiranga.

Sérgio Moro além de atrasado não foi tão inteligente. Nas claques bolsonaristas sua escolha é tratada como abortista, desarmamentista, globalista financiada por George Soros, a favor do desencarceramento e da liberação das drogas. Tudo o que a BolsoFamília adora.

Em 24 de outubro de 2018 Szabó escreveu para a Folha um artigo intitulado Feliz 2023, alertando aos brasileiros como seriam os próximos quatro anos caso as urnas confirmassem as pesquisas. As palavras escolhidas merecem destaque: destruição, terrível, máquina de notícias falsas, desastre, retrocesso, censura, intimidação, morte, tristeza, medo, derramamento de sangue, desmatamento.

Os parágrafos relacionados às competências do ministro Moro são primorosos. Excludente de ilicitude vem grafado como “licença para polícia matar”, prevê aumento assustador de mortes de policiais, explosão de balas perdidas, cidadãos comuns tornando-se em assassinos, ataques institucionais impensáveis ao STF.

As previsões óbvias feitas por Ilona Szabó acabaram se confirmando e parecem não incomoda-la. Já as previsões mais difíceis, reconhecidas como otimistas pela própria vidente, qual o fortalecimento de ativistas e o florescer de novas vozes, ficaram ainda mais distantes com a sua adesão.

Que não venham me dizer da importância da pluralidade nos conselhos. A “empreendedora cívica”, reconhecida artilheira do ativismo pacífico, aceitou uma insignificante suplência de conselho consultivo. Isto é, cadeira no banco de reservas dos olheiros.

Senhora Szabó, aceite o fato: sua nomeação serve única e exclusivamente para perfumar o fedor que vem da Esplanada. Sérgio Moro, constrangido com o mau cheiro e sem querer ir para o chuveiro, pegou você para desodorante. Mistura porca. E como sempre acontece nesses casos, o ar ficou definitivamente empesteado.

 
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