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Queiroz, o cordial

Fabrício Queiroz é o retrato fiel do homem cordial. Um pobre-diabo brasileiro que fala mal o português, nutre preconceitos clássicos do machão, sente que tem mais direitos do que deveres.

Depois de faltar ao MP-RJ por quatro vezes, apareceu no SBT como que surpreendido por aprender na marra tudo o que a sociedade não foi capaz de lhe ensinar.

A título de esclarecer o país sobre seu sumiço de aproximadamente vinte dias, em pouco mais que vinte minutos de entrevista à repórter Debora Bergamasco escancarou com candura nossos vícios e condenou a BolsoFamília à novas explicações.

Num relato marcado pela escatologia, com duplo sentido, falou muito de fezes, urina, ânsia de vomito e revelou ter se submetido ao exame de toque pela primeira vez agora, aos 53 anos, porque “sou meio contra isso”. No sentido filosófico mais amplo, escatologia se relaciona com o período depois do fim de tudo, ou a era do Messias.

Das explicações que adicionou à lista da já constrangida BolsoFamília, se destacam os serviços de segurança pagos pelo contribuinte fluminense prestados à mulher e aos filhos do primeiro-filho e senador eleito, deputado Flávio Bolsonaro.

Implicou também a própria família, dizendo que suas próprias filhas, enteada e mulher, participavam das campanhas eleitorais dos Bolsonaro desde sempre e, quando houve oportunidade, pediu emprego para elas, posto que ele é quem “gera dinheiro” em casa. Sabemos que foi atendido. E que acredita meritória cada nomeação.

Perguntado sobre a vida da filha, professora de ginástica contratada pelo gabinete de Jair Bolsonaro enquanto dava expediente numa academia no Rio, sendo especializada em choque elétrico, contou com tristeza que a moça tem sofrido crises de ansiedade mas que sobre a vida ela, ela que fale à Justiça.

Partidário da agenda bolsonarista, logo armamentista, contou que o enteado suicidou-se com sua arma dentro de casa.

Carteirou dizendo que 25 deputados lhe prestaram solidariedade. E que não foge da Justiça porque “é homem”. Em seguida respondeu quando vai comparecer ao MP. Depois de um sorriso algo cínico, fixou o olhar na câmera e mandou “Tão logo… tão breve.”

Sobre o médico que lhe atendeu quando do cano no MP, disse que é “o melhor”, o doutor Vladimir, mas que não se lembra do sobrenome, tampouco de como se chama o hospital onde foi atendido.

Dos resultados dos exames que recebeu, está mais preocupado com uma bursite no ombro do que um câncer maligno com possibilidade de metástase no fígado.

Insistiu na versão do presidente eleito Jair Bolsonaro sobre os dez cheques de quatro mil reais que foram depositados na conta de D. Michelle. Resta saber se o depósito original do empréstimo, declarado ou não à Receita, será encontrado em sua conta.

A versão sobre como ganhou ou “fez” dinheiro já teve bastante comentários. Aquela coceira no nariz merece mais um: a linguagem corporal diz que é coisa de Pinóquio.

Para encerrar, mais uma dúvida. Queiroz e filha dizem que foram respectivamente exonerados dos gabinetes de Flávio e Jair Bolsonaro treze dias antes das eleições, enquanto o mestre Elio Gaspari diz que as exonerações foram em sete de dezembro, dia seguinte à publicação do relatório do COAF sobre a operação Furna da Onça, desdobramento da operação Lava Jato.

No final de outubro o general Mourão disse que “há duas semanas” Sérgio Moro, então juiz da Lava Jato em Curitiba, esteve com Paulo Guedes, quando foi convidado para o ministério da Justiça de Bolsonaro, que vem sendo chamado de superministério porque vai absorver o COAF, que hoje está na Fazenda, que será de PaGue. As datas do convite e da versão dos queirozes sobre a exoneração coincidem.

 
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Mar Sem Fim

Em 2018 o Canal da Mancha foi palco de uma batalha naval conhecida como Batalha das Vieiras. Resumindo, a França estabelece um período de defeso para a reprodução das vieiras, proibindo a pesca, e a Inglaterra, não. Deu bode.

Como os pescadores do continente têm que respeitar a lei e os ilhéus, não, a fronteira acaba sendo, digamos, esquecida, e na iminência do prejuízo de terem menos vieiras ao cabo do defeso, os franceses foram ao mar não para pescar, mas combater os ingleses.

Tendo a Europa problemas maiores para resolver, Berxit, imigrações, protestos etc, as autoridades meio que deixaram rolar. O problema é que, proporções guardadas, a raiz da crise é a mesma: se as nações não se entenderem, não adianta eu fazer a minha parte se o meu vizinho não fizer a dele.

Em 2019 vai recomeçar outra batalha naval. O Japão decidiu sair da Comissão Internacional da Baleia (IWC na sigla em inglês) depois de trinta anos. Mesmo imperfeito, o acordo internacional de 1986 foi positivo e colaborou na recuperação de manadas que chegaram à beira da extinção.

Dentre os 89 países que integram o grupo, o Japão se declarou insatisfeito. O secretário-chefe do gabinete de governo Yoshihide Suga disse que o governo japonês concluiu “ser impossível buscar na IWC coexistência entre estados com visões diferentes”.

Isso é muito grave e não só para as baleias japonesas ou para as vieiras do Canal da Mancha. Se a coexistência entre estados com visões diferentes é impossível, perdemos todos nós, habitantes do planeta Terra.

Vale para os milhares de refugiados que morrem no Mediterrâneo, vale para os venezuelanos que fogem da ditadura para tentar sobreviver em Roraima, vale para os pobres-coitados que tentam entrar nos Estados Unidos em busca de qualquer emprego, vale especialmente para a criança de oito anos que morreu sob a responsabilidade do governo Trump enquanto Trump perguntava para outro menino de sete anos de idade se ele ainda acreditava em Papai Noel.

Vale para o vizinho que não elimina água parada no quintal criando motel de mosquito transmissor de doença, vale para quem não separa o lixo, vale para quem acha que educação sexual nas escolas ou vacinar crianças pode ser uma escolha individual.

Vale principalmente para países que não se importam com tratados internacionais de proteção do meio-ambiente, tratando de acelerar suas economias à revelia das mudanças climáticas que ameaçam toda a humanidade.

Coincidentemente, as pessoas que acham que está ok errar assim coletivamente costumam ser as mesmas que se importam muito com a vida privada dos demais, no que acreditam, com quem trepam, se fumam isso ou aquilo.

É uma pena sem fim, assim como o mar do Fernando Pessoa, que um dia ajudou a nos unir e agora é palco internacional do nosso fracasso humanitário.

 
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Cabral apavora a Guanabara

Seja lá qual for a porcentagem da pena a ser cumprida pelo ex-governador do Rio Sérgio Cabral Filho, a expectativa de alguém condenado a 197 anos de cadeia aos 55 anos de idade é desesperadora.

Para piorar o quadro, Cabral Filho não é exatamente conhecido pelo equilíbrio emocional e sua condenação é por corrupção, com margem de defesa perto de zero, características que o tornam completamente diferente de um preso político que, condenado à prisão perpétua, puxou décadas trancado, anotando pensamentos elevados e saiu já velho, mas por cima, como Nelson Mandela.

Sua alternativa, portanto, é única: fazer acordo de delação premiada. Única e dificílima.

Primeiro porque ele está no topo da cadeia alimentar. Era o chefe, e chefe não tem ninguém acima para delatar. O jeito foi escapar pela lateral, delatando autoridades do Poder Judiciário e do Ministério Público que teriam participado de seu esquema, além de oferecer recheio aos depoimentos de outros delatores sobre a Olimpíada de 2016 e o VAR da compra de votos para o Brasil sediar a Copa do Mundo de 2014, que para a gente acabou em 7×1.

Depois porque, segundo O Globo, dois advogados já declinaram o convite para negociar a delação. Difícil não associar a recusa de um e outro ao receio de ter a carreira soterrada pelo corporativismo do Judiciário.

Por outro lado, tudo isso conta na disposição do preso em falar, e ainda é multiplicado pela chegada do colega Pezão, que pode falar antes, além do medo crescente de rebeliões nos presídios.

Cedo ou tarde algum doutor deve topar o caso. E a profundidade do pavor nas altas rodas da Guanabara é no mínimo proporcional ao tamanho da pena ora acumulada multiplicado pela posição na cadeia alimentar do condenado. Medindo em altura, fosse um prédio, o pavor teria pelo menos vertiginosos 197 andares.

 
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O especial do Rei 2018

“Nem tão depressa que pareça fuga, nem tão devagar que pareça provocação”, teria dito o Pinheiro Machado ao cocheiro, com receio da turba incandescida, porém zeloso de seu papel político/social.

Muito além de uma carroça, a TV Globo é um transatlântico e da mesma maneira tem que se mover: velocidade de cruzeiro – nem muita nem pouca e sempre avante.

O departamento artístico passou o ano sintonizado com a sociedade que, ao contrário do que alguns ficam repetindo, não é conservadora no sentido reacionário. Tanto é que repetem, repetem e, confirmando a regra pela exceção, não vira verdade.

Provocando de leve, em 2018 a TV Globo retratou depois do JN o que está dentro dos lares, e depois do JG o que está nas ruas, nos bondes e botequins. (salve, Nelson!)

Com Fernanda Lima, com Pedro Bial, com tudo, deixaram a sangria rolar. Por que senão a sociedade coagula, enfarta, sofre derrame.

Parte da gente, embalada pelo momento político/social, reclamou como sempre reclama quem se olha no espelho ou se flagra numa fotografia diferente da que tem por hábito. Alguns ficaram realmente incandescidos.

Tudo certo como dois e dois são cinco.

Mas então chega o fim do ano. Hora de serenar os ânimos. E do Especial do Rei.

Roberto Carlos abriu com Michel Teló: Agro, caminhoneiro, Brasil profundo. Duas bailarinas. Papo de macho.

Então veio Alejandro Sanz: Latino sedutor que não entra em termos particulares sobre orientação sexual. Canta, corteja, fala português. Diplomacia.

Em seguida, Zizi Possi. Enxuta, bem-tratada, com saia de branca de neve e blusa transparente na medida: Uma senhora, sim, mas independente, sonhadora e bem resolvida.

Breve passagem de Mariana Ruy Barbosa: Namoradinha do Brasil.

E finalmente o príncipe Dudu Braga e banda executando os clássicos do Rei: Família. Filho cego. Pai amoroso.

Encerra com Jesus Cristo.

Já houve especiais melhores. Mas esse foi um primor em pontaria política/social.

 
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A moda no Rio é ir a praia à noite

Minha expectativa na adolescência era de viver muito “na noite”. Desde os verdes anos fui um tipo noturno. Dormia tarde e acordava cedo, relativamente falando.

Apresentado ao entendimento vulgar de “noite”, isto é, “noitada”, “balada”, “nite”, gostei e aderi por um bom período.

Curiosamente até o adjetivo boêmio foi associado a notívago – o que não é exato. Boêmios lendários exercitaram a arte sendo vespertinos, como o inconteste Zé do Pé. A melhor definição é a do Paulo Vanzolini: ser boêmio é “viver liricamente, padecendo com grandeza.”

Mesmo antes de casado, quando o homem veste oficialmente o camisolão, fui preferencialmente boêmio vespertino. O chamado happy-hour, que minha geração preteriu em favor da academia de ginástica, foi um flerte constante. Mas minha paixão sempre foi pelos almoços que começam depois do horário regular e não terminam.

E meu grande amor, a noite. Mansa, fresca, silenciosa. Amo a noite, a lua e o mistério das estrelas inclusive – ou principalmente – para atividades que a maioria descartou por convenção social. Por exemplo navegar ou andar na praia. Mar calmo, maré baixa, vazio físico e alta densidade espiritual.

Em Juquehy, nas noites de lua, eu ia muito passear na areia. Com a Una, minha amiga terrier-escocesa, e no caminho encontrava algumas marias-farinha. Antes de voltar para casa dava um mergulho na água morna e ela me guardava da areia, aguardando algo aflita.

Da varanda de casa, mirando a goiabeira no fundo do quintal, não vi Jesus. Mas proseei muito com meus mortos preferidos.

Na Barra do Una meu ideal era esperar a turma dormir e “pegar emprestada” a lancha do Helito Bastos. Saía sozinho, eu e o liso. E que delícia entardecer e ver a noite chegar pescando lula com o Dutinho no Montão de Trigo.

Hoje abro O Globo e descubro que a moda carioca é ir à praia de madrugada. Um motorista de aplicativo sai com a família do Estácio para aproveitar Copacabana depois das 23h00, sem prazo de retorno. Deve ser uma maravilha.

A reportagem ainda diz que Arpoador e Leme, por serem mais iluminados, atraem mais gente. Adoro um e outro, mas de noite evitarei quando visitar a Guanabara. O melhor da praia noturna é a luz da lua e o vazio.

Ontem no especial do Rei o Eri Johnson estava no gargarejo. Me lembrei de uma passagem divertida, quando fui com o Ismar Freitas ver a gravação de um DVD dele na Barra da Tijuca, dirigido pelo saudosíssimo Roberto Talma (TV Globo, vamos tratar de concluir o Diário do Farol do João Ubaldo antes que o Netflix lance mão?) e com participação do Zeca Pagodinho, que levou o uísque.

No final fomos para uma churrascaria. Imagina a expectativa do fã aqui. Entrar pela madrugada bebendo com o Zeca. Quebrei a cara. Muxoxo. Todo mundo camisolão. Creio que não consegui disfarçar minha decepção. Antes das duas da manhã já levantávamos o acampamento. Devo ter ficado desagradável.

Até que o Eri se aborreceu e explicou a toada do grupo perguntando: – “Você gosta de praia?” E eu: – “Gosto. A gente vai para lá agora?” Hoje em dia, quem sabe?

 
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Fala aí, Flávio! Fala antes que você faça ré uma senhora inocente, a dona Michelle!

Pela segunda vez, Fabrício Queiroz deu o cano no MP-RJ. De funcionário fantasma, foi promovido a entidade. Gente séria já teme pela sua integridade física e outros, menos sérios, já duvidam de sua existência.

O primeiro-filho e senador eleito pelo errejota Flávio Bolsonaro tuitou que “pela enésima vez” não pode ser responsabilizado por “atos de terceiros”. Mais exato seria chamar de “segundos”, posto que o homem era praticamente seu tio por afinidade e tinha a parentada toda, marido novo da ex-mulher inclusive, empregada nos gabinetes da #BolsoFamília, pagos pelo contribuinte.

A narrativa está na moda. João de Deus também diz que a culpa é do fantasma.

Na esteira dessa história cada vez mais estranha vem o encerramento do tuíte do distinto primeiro-filho. Diz que seu gabinete é uma beleza, como prova seu crescente eleitorado.

Ora, que o eleitorado cresceu não há dúvida. É fato. Porém a própria #BolsoFamília, no risca-faca dos grupos de zap do PSL, usa a grife do presidente eleito Jair Bolsonaro para contrapor correligionários os quais, julgam, não seriam eleitos sem o Bolso no santinho.

Certificado de força da grife é o subtenente Helio Bolsonaro, batizado Helio Fernando Barbosa Lopes e atual papagaio de entrevistas do governo eleito. Abriu a luz ele está lá, totêmico, protegendo o “irmão” das bobagens que disse sobre negros e quilombolas. Candidato a vereador em Queimados-RJ na eleição de 2004, teve 277 votos. Em 2014 tentou deputado federal e foi impugnado. Em 2016 tentou de novo a vereança em Nova Iguaçu-RJ e alcançou 480 votos. Tudo com o nome de batismo. Em 2018 passou a se chamar Helio Bolsonaro, saiu para federal e foi o mais votado, com 345.234 votos.

Posto que o Bolso puxou muito voto em 2018 e é venerado pelos filhos e outros tantos, não seria o caso para o Flávio obedecer ao pai e padrinho político e abrir de uma vez o cadeado do Queiroz? Ele mesmo disse em entrevista que ouviu do assessor uma explicação plausível para o rolo detectado pelo COAF.

Bolsonaro pai, em live nas redes, afirmou que é favorável a vazar tudo o que puder, escancarar a informação. Sendo assim, por quê não manda o filho dizer de uma vez o que ouviu do Queiroz? Será melhor antes, nas redes como eles preferem, do que no MP. E, se demorar muito, acabam convocando dona Michelle, cuja conta corrente foi usada para depósitos que somam quarenta mil reais.

Parafraseando Roberto Jefferson no mensalão, onde o COAF também foi fundamental: Fala aí, Flávio (Zé Dirceu)! Fala antes que você faça ré uma senhora inocente, a dona Michelle (Lula)!

 
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Lula faz fumaça

Consta que Lula não fuma pelo menos desde o câncer. Tampouco faz coelho no fogão à lenha do sítio Los Fubangos em São Bernardo do Campo. Porém, mesmo preso em Curitiba há meses, segue fumegando mais que pau molhado na fogueira que ajudou a montar no Brasil.

A liminar do ministro Marco Aurélio Mello (mMAM) publicada ontem e ainda ontem suspensa pelo presidente da corte Dias Toffoli é emblemática. Centrada em torno de Lula, a repercussão fez fumaça de conveniência para um sem número de pessoas. Tentarei, abaixo, citar alguns casos que me ocorrem.

O ministro Gilberto Kassab, já indicado para chefiar a Casa Civil do governador eleito João Doria, amanheceu com a notícia de que a Polícia Federal estava em seu apartamento atrás do shopping Iguatemi. Por lá acharam R$ 300 mil reais em espécie, que o ministro diz ter como comprovar a origem. Deve ter mesmo. Kassab trabalha 24/7. A PGR diz que só da JBS ele recebeu R$ 58 milhões. E, se os agentes conversaram com o zelador do Edifício Monfort, devem ter notado o rosto aliviado de um trabalhador que passou anos em aflição com o trânsito de mão única de bagagens nas dependências do condomínio.

O senador reeleito Renan Calheiros, candidato favorito à Presidência do Congresso em 2019, viu sumir no fumacê a decisão do mMAM sobre voto aberto na eleição do Senado. Os cálculos que vêm de Brasília indicam que pelo menos uma dúzia de senadores dispostos a votar no alagoano em segredo ficariam constrangidos caso tivessem que faze-lo com a luz acesa.

A Câmara Criminal da Procuradoria se manifestou oficialmente sobre a liminar do mMAM alarmando a sociedade para a soltura de “pedófilos, estupradores e homicidas”. O MBL e os bolsominions esparramaram. Até o momento presente não houve pedido de desculpas pela nota oficial que desinformava a população: o texto da liminar excluía criminosos de alta periculosidade.

O Alto Comando do Exército, colégio integrado por quinze generais, se reuniu em videoconferência para se antecipar a eventuais manifestações ou distúrbios populares que derivariam da soltura de Lula. Dica: o mesmo cenário pré-impeachment ou prisão, com exército do Stédile na rua, com tudo. Quer dizer: nada.

A diplomação dos deputados eleitos em MG e RS foi um circo de horrores. Os mineiros chegaram a trocar socos. Anteontem em SP também teve empurra-empurra. Talvez o primeiro na história da distinta Sala SP, ambiente onde a turma costuma se comportar como se estivesse em país civilizado.

O presidente da Câmara Federal Rodrigo Maia assumiu a Presidência da República por conta da viagem do presidento Temer ao Uruguai, onde participou da reunião do Mercosul. Com a caneta na mão, sancionou o texto que afrouxa a Lei de Responsabilidade Fiscal, permitindo que estados e municípios estourem seus gastos, conforme aprovado pelo Congresso. O mesmo Congresso que outro dia votou o impeachment de Dilma Rousseff por pedaladas fiscais.

O presidento Michel Temer, bem como seu aliado e ministro Moreira Franco, entre outros, tiveram suas investigações enviadas para a primeira instância, no Rio, em SP e no DF. Pouca gente atinou para o fato de que a decisão do ministro Marco Aurélio fala sobre prisão em segunda instância, não sobre soltura. No fim as coisas andam juntas, é claro. Mas o principal é o seguinte: o gato (angorá) subiu no telhado. Isto é: se soltar preso ilustre já na segunda instância dá muita confusão, todos os advogados de defesa vão argumentar que, para afastar o risco de mais confusão, que se evite antes trancar novos condenados ilustres antes do trânsito em julgado. “Com o Supremo, com tudo.”

O embaixador francês nos EUA Gérard Araud fez troça com a última live do presidente eleito Jair Bolsonaro, que disse ser “insuportável” viver na França.

Fabrizio Queiroz, chofer e amigo do coração da BolsoFamília, deu perdido no MP. Com depoimento marcado para ontem, quando compartilharia com todos nós a explicação “bastante plausível” que segredou ao primeiro-filho Flavio Bolsonaro sobre o R$ 1,2 milhão que movimentou em sua conta, Queiroz alegou um mal súbito relacionado à saúde e não apareceu.

Um amigo, convidado para a confraternização de fim de ano da firma, aproveitou a confusão para enfaixar o pé e deixar para estar com os coleguinhas no ano que vem.

 
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Três notas frescas

Natal iluminado

Hoje a Polícia Federal entrou num apartamento em “área nobre” da capital paulista. Diz que encontrou R$ 350 mil em espécie. ERRATA: foram só R$301mil.

Duas dicas aos agentes: 1) usem o ar-condicionado. Não tem cabimento sofrer assim, vestindo preto e botina nesse calor. 2) Peçam licença para conhecer o vizinho.

Consta que, na reforma do apartamento onde o dinheiro foi encontrado, a quebra do piso derivou na queda do lustre de cristal instalado no teto debaixo. Quebrou tudo. Coisas de laje…

A peça seria herança de família, valor inestimável, coisa e tal. O condomínio foi acionado e o dono da obra assumiu a responsabilidade, sugerindo a reparação: a então recém-inaugurada loja dos cristais Baccarat no shopping em frente tinha lustres inúmeros à venda, lindíssimos. Ao vizinho bastaria lá comparecer, escolher um novo e pedir ao gerente que mandasse a conta. Assim foi feito. Coisa de R$ 700 mil reais – dez anos atrás.

Ô boca!

Fernando Haddad, no pior momento da campanha para presidente que um ex-presidente do glorioso XI de Agosto poderia performar, disse sobre empresários que bancaram disparos de whatsapp no pleito: tranca um que ele faz delação.

Ô boca! Joyce Fallete, primeira que falou, acusou justamente a campanha a deputada federal da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, eleita no Paraná, e de Luiz Marinho, que concorreu a governador em São Paulo.

Haddad até agora não deu um pio. Até para cumprimentar Bolsonaro pela vitória ele foi mais célere.

Gay

A ditadura cubana queria uma nova Constituição. O ex-presidente Raul Castro comandava a comissão encarregada do texto. Pressionada por grupos cristãos, católicos e evangélicos, a Assembleia Nacional comunicou que decidiu remover o conceito de matrimônio a fim de respeitar todas as opiniões.

Acho que não tem IURD na ilha. Aqui no Brasil, Edir Macedo, um dos maiores líderes de igreja evangélica, defende o casamento homossexual desde o século passado.

 
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O indivíduo JdD e a ABIN

O indivíduo João Teixeira de Faria é velho conhecido do Estado brasileiro. Segundo documentos revelados na última edição da Veja, nos anos 1980, quando já praticava “curas espirituais” em Abadiânia, JdD foi investigado pelo SNI. Não por problemas semelhantes aos gravíssimos que ora enfrenta, mas por contrabando.
Em 1985 JdD foi preso pela Polícia Federal portando uma tonelada de autunita, mineral raro, caro, radioativo, rico em urânio, matéria-prima para fabricação de artefatos nucleares – como a bomba atômica, por exemplo. Ele e integrantes do bando estavam armados. Diante das autoridades, JdD confessou ser o financiador da operação e que cedia sua fazenda em Abadiânia para estocar o material. Em dinheiro de hoje a operação lhe renderia R$ 3,5 milhões, cerca de 10% do total da aplicação que o COAF flagrou baixados para sua conta corrente na semana passada.
De lá pra cá o SNI virou ABIN e JdD ficou mundialmente conhecido. Para muito além das centenas de mulheres que o acusam de abuso sexual, ou curra espiritual, o “médium” deu passes em celebridades nacionais e estrangeiras, jet setters, fenômenos do esporte, líderes empresariais, ministro do Supremo e o pelo menos três presidentes da República – notadamente os últimos, sendo que o atual o recebeu no palácio do Jaburu.
Pergunta que não quer calar: onde estava a ABIN e o GSI quando permitiram que tais autoridades se aproximassem do indivíduo João Teixeira de Faria?
 
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Paulo Guedes – mas que baita macho!

“Amarrei o cavalo no tronco, entrei no baile chutando o capacho, e já senti no olhar das véia / suspiro das moça: mas que baita macho!”

Sérgio Reis, cantor, compositor e congressista, embalou bailes mil com seu violão bem-humorado. E ontem, vendo Paulo Guedes discursando na Firjan, a moda de fundo que se podia ouvir era essa da abertura. Baita macho!

À burguesia reunida para o almoço, o Posto Ipiranga do Bolso não podia ser mais direto: “Tem que meter a faca no Sistema S também.”

Parênteses para a coincidência histórica: o anfitrião Eduardo Eugênio Gouveia Vieira, presidente da Firjan há 23 anos ou oito mandatos consecutivos, tem origem empresarial no grupo petroquímico Ipiranga. Metido num distinto terno mostarda, sorria enquanto era elogiado pelo palestrante: “Se chegarem uns interlocutores inteligentes e preparados, que queiram construir, como o Eduardo Eugênio, a gente corta 30%. Se não, é 50%”, afirmou PaGue.

E foi além: “Vocês estão achando que a CUT perde sindicatos e aqui fica tudo igual, o almoço é bom desse jeito e ninguém contribuiu?” Chegou a dramatizar, com pausa para gole d’água e expressão de espanto, num chiste com a plateia.

Era de se esperar um calor infernal nos salões, labaredas mais altas do que a da refinaria de Manguinhos, que naquele momento ardia na Zona Norte. Só que não. O ar-condicionado marcava 22 graus e a confraria parecia ainda mais fresca. E o motivo está além da técnica clássica de bater antes na CUT sempre que for dizer algo desagradável ao patronato.

A explicação da harmonia parece clara. Saca o enredo.

Logo depois de consagrado pelas urnas o Posto Ipiranga do governo eleito disse que ia “salvar a indústria brasileira, apesar dos industriais brasileiros”. Traduzindo, mais concorrência e menos cartórios setoriais.

Em outra “coincidência”, ainda ontem em Brasília o diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI Carlos Abijaodi dizia: “Não podemos ter proteção exagerada nem abertura inconsequente”, e que políticas industriais e comerciais devem ser feitas “sem preconceito”. Isso num debate realizado pelo jornal Correio Braziliense com a presença do futuro secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade Carlos Costa, que tomou nota.

Como se conversassem numa videoconferência BSB/RIO, PaGue dizia na Firjan como vai tratar estados e municípios na necessária revisão do pacto federativo: “Estamos prontos para ajudar. Acabou o toma-lá-dá-cá. Vamos fazer bonito.” Para logo em seguida emendar (!): “Se não apoiar vai lá pagar sua folha. Quero que dinheiro vá para estados e municípios, mas me deem a reforma primeiro.” E sobre a Cessão Onerosa do petróleo: “Vou ter uma graninha para todo mundo que ajudar a aprovar. Se não ajudar não tem grana para ninguém.”

Industriais são bons entendedores e obviamente deram duplo azul no zap do PaGue, que retribuiu.

Desenhando, é o seguinte: PaGue parece disposto a gradualizar a salvação que prometeu à indústria, apesar dos industriais. Como? Mantém bilhões em privilégios fiscais setoriais de um lado e cobra a conta do Sistema S.

Donald Trump, que ameaçou travar o governo caso dos democratas negassem orçamento para o muro na fronteira com o México, não deve conhecer o Posto Ipiranga. Caso venha a conhecer, a Esplanada bolsonarista pode perder um membro.

 
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