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Pudim vai inteiro ou fatiado?

Duma esquina qualquer no Leblon, amigo carioca envia WhatsApp ao grupo. O comentário não era dele, mas achou graça e compartilhou.

Na TV da casa de sucos o ministro Moreira Franco dizia sobre a Rocinha  “precisamos diminuir a arrogância e a prepotência do crime organizado”. Da calçada, um rapaz que esmolava ainda sob os vapores da noite passada (obrigado, Rubem) replicou: – “Deixa estar, Angorá, sua hora vai chegar.”

Pelo grupo conversávamos sobre a segunda denúncia da PGR contra a quadrilha instalada no Palácio do Planalto. A Câmara fatia ou não fatia?

Desta vez, além do Presidento, os ministros Moreira Franco e Eliseu Padilha estão incluídos no que a PGR chamou de organização criminosa. Para aceitar ou rejeitar a peça, a Câmara pode decidir fatiar e votar em separado.

Gerson Camarotti, analista de política da Globo News, acha que em bloco o governo tem mais chance de se safar, com menos trabalho (e despesa).

Meu palpite é inverso. Em bloco será mais difícil defender o governo da acusação de quadrilha. Note que a chamada Turma do Pudim, facção instalada no Palácio do Planalto, conta com alguns integrantes já presos: Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima e Henrique Eduardo Alves. Os três chefões denunciados que estão em liberdade são Michel Temer, Eliseu Padilha e Moreira Franco.

Na votação da primeira denúncia vimos diversos deputados constrangidos votando pela recusa. Na tentativa de justificar seus votos, diziam que o governo tinha que continuar, que substituir presidente da República é algo grave. Quer dizer, o mesmo argumento não servirá desta vez, posto que teria que encaixar dois ministros facilmente substituíveis. Ficar ao lado deles é estar aliado a Cunha, Geddel e Henrique Alves. É engrossar a calda para o valhacouto do pudim.

Alguém poderá dizer, com razão, que é fácil interver a primeira parte da narrativa. Digo, os dispostos a salvar o governo podem alegar que num pacote de volume incerto, tipo aquele citado pelo primeiro-amigo José Yunes quando serviu de entreposto entre Lucio Funaro e Eliseu Padilha, cabem dois ministros. A ver. Lembrando que calda de caramelo mela, é difícil de limpar e a aprovação do governo está em 3,4% (CNT/MDA-19/09/17).

Mais distante mas não menos importante é o papel do Rodrigo Maia, vulgo Botafogo ou Bolinha, sabidamente insatisfeito com os avanços do PMDB do Presidento sobre a bancada do seu DEM, genro do Moreira Franco e primeiro na linha sucessória da Presidência da República.

Ele diz que o pudim será servido inteiro. Vejamos. Se fatiar, na prática estará condenando o sogro a uma investigação no Supremo. Se mantiver a denúncia em bloco, pode abrir caminho para a condenação do Presidento – e também do sogro, o que é um álibi e tanto para vestir a faixa sem ser acusado de conspirador.

Aguardemos.

 
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Enquanto isso na ONU…

Enquanto isso, no encontro das Nações Unidas, diplomatas brasileiros desfilam saia justa. Nesta quinta-feira 21, revela o Estadão, o governo do Presidento terá que aceitar ou rejeitar propostas do Vaticano no sentido de proteger o casamento entre homem e mulher e eliminar qualquer possibilidade de aborto. Ocorre que a Lei brasileira admite aborto em casos de estupro ou risco de vida da mãe, e casamento homoafetivo.

Pelas regras da ONU não cabe ninguém em cima do muro. Por princípio, a ONU não admite sequer o muro.

No entanto, a ideia do Itamaraty, sob pressão do Presidento, que precisa do apoio da bancada evangélica para se livrar da segunda denúncia por obstrução de Justiça e chefiar organização criminosa, é tentar um meio termo, dizendo que concorda com o Trono de São Pedro, mas não pode desrespeitar a própria lei.

A coisa pode piorar. O líder do Partido Social Cristão emitiu a seguinte nota: “o governo brasileiro voltou atrás e vai aceitar a recomendação do Vaticano que pede proteção dos nascituros e da família formada por marido e mulher, na parte da Revisão Periódica Universal do Conselho de Direitos Humanos da ONU”.

Como já disse aqui, o preço para manter o Planalto transformado em valhacouto vai custar caro.

Nas duas semanas que antecederam a votação da primeira denúncia, o Presidento liberou quase R$ 16 bilhões para estados, municípios e emendas – estas que, sozinhas, somaram R$ 1,9 bi, o equivalente a tudo o que saiu do Tesouro nos cinco meses anteriores: R$ 1,8 bi.

Está claro, porém, que o custo não é só financeiro. Para manter no poder o que a PGR chama de quadrilha, estamos pagando com retrocessos sociais, ambientais, institucionais. E o mercado continua de bom-humor. Serão idiotas ou cumplices?

 
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“Cura gay” é 171, meritíssimo

Não tenho dúvidas que a homossexualidade não representa uma vantagem, no entanto, também não existem motivos para se envergonhar dela, já que isso não supõe vício nem degradação alguma.
Não pode ser qualificada como uma doença e nós a consideramos como uma variante da função sexual, produto de certa interrupção do desenvolvimento sexual. Muitos homens de grande respeito da Antiguidade foram homossexuais, e dentre eles, alguns dos personagens de maior destaque na história como Platão, Michelangelo, Da Vinci etc. É uma grande injustiça e também uma crueldade perseguir a homossexualidade como se fosse um delito.

Quem escreveu os parágrafos acima foi o pai da psicanálise em 1935. Freud, Sigismundo, primeiro e único. Creio que encerra o assunto na esfera do divã. Mas ele é humilde e emenda: “Caso não acredite na minha palavra, sugiro-lhe a leitura dos livros de Havelock Ellis.”  Obrigado, doutora Helena Cunha Mourão, Heleninha querida.

Entre meus amigos gays, quem encerrou o debate foi o estilista Walério Araújo: “Deus me livre, a essa altura da vida, deixar de ser gay. Tenho nem roupa para isso.” Gênio.

De modo que só resta a discussão jurídica. A decisão do juiz Waldemar Cláudio de Carvalho não chega a defender a chamada “cura gay”, e inclusive ele cita a posição da Organização Mundial da Saúde (OMS), que repete exatamente o doutor Sigismundo: “A homossexualidade constituiu uma variação natural da sexualidade humana, não podendo ser, portanto, considerada como condição patológica.”

Por outro lado – sem trocadilho – o juiz determina que o Conselho Federal de Psicologia (CFP) altere a norma, que vem da década passada, proibindo a prática da famigerada terapia de “cura gay”.

Isto é, se o pai da psicanálise diz que homossexualidade não é doença, a OMS concorda e o CFC acompanha, o psicólogo que vender seu tratamento ocorrerá em estelionato. 171. Liberando a prática, como determinou o juiz, abrimos um precedente para deixar de considerar criminoso alguém que venda terreno no céu.

 
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Se Villas Boas não botou o gato no telhado, eu quero virar pandeiro

Ontem à noite um tanque de esteira atropelou minha esperança. Eu assistia ao capítulo final do Sob Pressão, quando o Bial avisou que dali a pouco o comandante do Exército estaria no seu sofá. Em cima do fato, o apresentador conseguiu uma entrevista com quem tem competência hierárquica para tratar das declarações de um general que ameaçou intervenção militar política no Brasil. A chamada antecipava o conteúdo. Bial foi direto: “O general Mourão será punido?” Suspense. Fiquei acordado para ouvir a resposta.

Momentos antes, pelo Estadão, soubemos que o general de quatro-estrelas da reserva Augusto Heleno, usara as redes para defender o colega Mourão. De dentro dos seus pijamas, escreveu “Meu apoio irrestrito ao meu amigo de longa data e respeitado chefe militar, Gen Ex Antônio Hamilton Mourão. Em resposta a uma pergunta, colocada diante de uma plateia restrita, ele limitou-se a repetir, sem floreios, de modo claro e com sua habitual franqueza e coragem, o que está previsto no texto constitucional. A esquerda, em estado de pânico depois de seus continuados fracassos, viu nisso uma ameaça de intervenção militar. Ridículo. E mais, isso sim preocupante, o descaramento de alguns políticos, indiciados por corrupção e desvio de recursos públicos, integrantes da quadrilha que derreteu o país, cobrando providências contra um cidadão de reputação intocável, com 45 anos de serviços dedicados à Pátria. Aconselho que, pelo menos, se olhem no espelho da consciência e da vergonha. Brasil Acima de Tudo!”

Heleno não disse se reconhece entre os serviços prestados por Mourão à Mãe Gentil os comentários inadequados que, em 2015, lhe renderam uma geladeira burocrática – que persiste, nem sobre subalternos seus terem homenageado o coronel Brilhante Ustra, que durante a ditadura militar chefiou o centro de repressão e tortura DOI-Codi.

Na quinta-feira 14 de setembro escrevi aqui sobre a intervenção militar que gostaria de ver. Com a retirada das tropas de Paz brasileiras do Haiti, que elas se dirigissem para áreas de conflito doméstico. No domingo seguinte, a favela da Rocinha era tomada por milicianos. Eis um assunto que merecia atenção do general Augusto Heleno, primeiro comandante da operação haitiana. Mas até agora, nada.

Os comentários do general Heleno na verdade foram repercutidos pelo general de brigada Paulo Chagas, mais atuante nas redes sociais. No 19 de setembro compartilhou fake news sobre o lixo no Rock In Rio. No dia 15 de setembro anotou o seguinte:

“Identificamos no Congresso algumas grandes quadrilhas, como o PT, o PMDB e o PSDB, um lote de alcateias e alguns lobos solitários, todos, junto com a Suprema Corte, alvoroçados e acuados pela revolta do povo esclarecido, por malas de dinheiro, gravações, delações, vídeos e evidências investigadas e processadas pela polícia, pelo Ministério Público e pela Justiça de Curitiba, de Porto Alegre e de alhures.

É inútil querer tapar o Sol com a peneira e fingir acreditar que o gesticulante e verborrágico Michel Temer – há anos no meio dessa balbúrdia criminosa, cercado por ‘amigos de confiança’ que precisam até de apartamentos para guardar a quantidade de dinheiro que roubaram – possa, nessas condições, ser uma ilustre, pura, ingênua e inocente vítima da má vontade do Procurador Geral, por mais venal e comprometido que este seja!”

Flagrante quebra de hierarquia que depõe contra o Exército enquanto instituição.

Então o que eu poderia esperar do comandante do Exército Eduardo Villas Boas se não pulso firme para enquadrar seus subalternos? Criei expectativa e quebrei a cara. A emenda saiu pior do que o soneto. Muito pior.

A narrativa exposta ao Pedro Bial foi de arrepiar. Villas Boas começa elogiando o “soldado” Mourão. Afirma que já conversaram e que não haverá qualquer punição.

Contemporizou o golpe de 1964, com razão, explicando que foi feito com apoio do Parlamento, e que a intenção do marechal Castello Branco era chamar eleições em seguida. Sobre terem substituído o marechal e ficado mais de duas décadas, se valendo de atrocidades, calou-se.

Ainda sobre 1964, ressuscitou a intentona comunista de 1935 como um dos motivos da intervenção militar. Mas não se lembrou de dizer que o movimento, derivado do tenentismo dos anos 1920, foi gestado nos quartéis por militares insubordinados, não por políticos. E caminhou para ditadura, o Estado Novo de Getúlio Vargas, instaurado em 1937, valendo-se de um dos casos clássicos de fake news, o Plano Cohen.

Curiosidade: quem encontramos no cerne do Plano Cohen e do golpe militar de 1964? Outro insubordinado Mourão, o Olympio Filho.

Outros motivos que para o general Villas Boas justificavam o golpe era a Guerra Fria e a instabilidade política, fruto da polarização extrema.

Pergunto: o que temos hoje? Estados Unidos e Coréia do Norte brincando com bombas nucleares, nenhum estadista de escol internacional – ou só o papa, com todas suas limitações –, polarização política elevada a catarradas, tuitadas, tapas e pontapés. Se o Villas Boas não botou o gato no telhado, eu quero virar pandeiro.

Mas distante e não menos importante, Villas Boas apresentou medidas legislativas e executivas que considera fundamentais para o Brasil, de orçamento a modelo de processo criminal para o militar que mata em conflito urbano, passando por áreas de proteção da Amazônia e exploração de riquezas naturais. Um enólogo verificaria notas de espoleta e plano de governo.

O comandante civil que melhor comandou tropas no século XX foi Winston Churchill, político inglês que salvou o mundo do horror militar nazista. Deixou uma máxima que merece ser lembrada: “O conciliador é aquele que alimenta o monstro na esperança de ser devorado por último.”

Ministro Raul Jungmann, você tem que desarmar essa granada.

 
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Viaduto do Chá ou Anhapuana – o trampolim maldito

Um homem pulou do Viaduto do Chá e colou-se com A-ral-di-te!

Na escola, um amigo, sem mais nem por que, de vez em quando berrava isso. Contava ter ouvido no rádio. Eu, que só ouvi dele, me divertia. Hoje acredito que fosse uma peça publicitária, da época em que valia até propaganda de cigarro. Curiosamente, as de carro ainda valem. Mas não vamos nos dispersar.

Me lembro do suposto reclame sempre que penso no Chá. Quando alguém propôs que trocassem seu nome por Prefeito Mario Covas, a família teve a grandeza de declinar publicamente. Caso contrário, muito provavelmente a proposta passaria. E a cidade assumiria mais um prejuízo.

Por princípio, não gosto de mudança de nomes de logradouros. E também por consequência. Digo, a possibilidade de mudar afasta a responsabilidade de batizar. E contamina todo o mais.

O viaduto não é do Chá à toa. Às margens férteis do Anhangabaú, que passa ali debaixo, o José Arouche de Toledo Rondon plantava… chá. Quando a ponte veio, ficou mais fácil o caminho até a chácara onde ele aumentou a lavoura: o então periférico Largo do Arouche.

Desde então São Paulo cresceu muito. Hoje tem o dobro dos habitantes de Portugal. Só na Zona Leste vive um Uruguai inteiro. Nosso PIB é metade do argentino. O condomínio Copan tem orçamento e caixa de fazer inveja à ampla maioria das cidades.

A grandiosidade tem seu lado bom, igual a tudo na vida. A parte ruim nos remete ao Viaduto do Chá, endereço do governo paulistano. Um velho pajé tupinambá que tivesse imaginado a ponte antes dos Toledo Rondon começarem a plantação, cravaria o nome: Anhapuana, que em Tupi significa “trampolim maldito”.

Repare o que se repete com todo prefeito que chega. Antes de esquentar a cadeira, sente um comichão e começa a planejar um salto fantástico. E esquece da cidade. Invariavelmente se esborracha. E com eles, todos nós. Às vezes a Araldite ajuda colar os cacos. Mas nunca fica bom. Veja como estão os que por lá passaram.

Nem sempre a culpa é só do político. Qualquer pessoa, evoluindo num trampolim, terá público no entorno gritando: puula, puula! Depois, para juntar os cacos, ficam só as Sylvias e Ana Estelas. Mas também há Nicéias e Luíses para pisotear. O problema talvez seja a própria cidade, que virou um país vertiginoso e intangível.

Há, no mundo todo, uma tendência pelo fortalecimento municipal. Descentralizar o poder da União e dos estados, aproximando quem manda dos que moram e conhecem o lugar, como pregava o Franco Montoro.

Por princípio é um caminho bom e no fim evitaria megalomaníacos em escalas diversas (do presidente que pede mais dinheiro para a bomba atômica ao prefeito que, sem jamais ter conversado na calçada, sonha acordado com os salões da ONU).

Mas como fazer em São Paulo, uma cidade-Estado? Só acabando com o Anhapuana.

Calma, nem de longe quero derrubar o Viaduto do Chá. Só que poder ali concentrado leva ao delírio, que precede o fracasso. A solução é descentralizar.

Não sei se é o caso de emancipar cada uma das 32 prefeituras regionais, como quer, por exemplo, a turma de Santo Amaro, que já foi independente. Porém urge garantir autonomia administrativa e orçamentária à cada uma delas, com eleição para os mandatários, e cumprir o Plano de Metas proposto pelo governo Doria e aprovado pela Câmara dos Vereadores, tornando deliberativos os Conselhos Participativos. Para tanto, vontade política é o bastante.

As duas viagens internacionais mais recentes do prefeito atual foram para França e  Argentina, . Antes tivesse enfatizado o diálogo com os prefeitos de Paris e Buenos Aires.

Em ambas as cidades os conselhos regionais funcionam e garantem qualidade de vida às pessoas, não permitindo que crises e debates nacionais interfiram no cotidiano. Não por acaso, são os destinos preferidos dos brasileiros fora do Brasil e dos Estados Unidos. Quer dizer, a gente aprova, ainda que talvez não saiba por que.

 
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Mourão 2.0

Era uma vez um governo tão fraco, mas tão fraco, que um piquete da torcida do América derrubaria. Até que num 31 de março, em Minas Gerais, um general de pijamas acordou injuriado e marchou. Chegou ao Rio de Janeiro no primeiro de abril e tomou o poder, onde seus coleguinhas, valendo-se de atrocidades diversas, ficaram por mais de duas décadas, destruindo o país. Era 1964. O general chamava-se Mourão.

Mais recentemente, gente que não conhece ou não reconhece a história, passou a procurar um Mourão 2.0. Embalada pelos casos de corrupção que a operação Lava Jato vem revelando e dissolvendo, com apoio da sociedade e da imprensa, essa gente concluiu que naqueles dias não havia nada disso. Sociedade e imprensa livres? Não. Concluiu que não havia corrupção. É a idiotice elevada ao extremo.

Ignora-se, por exemplo, que o cartel das empreiteiras que estrelou a Lava Jato começou na ditadura militar. Era oficial. Os ditadores recebiam a meia dúzia de maiores empresas de  cada setor e distribuíam verbas e favores. Pouca gente enriqueceu muito. Saúde, educação, segurança, instituições foram destruídas. Nasci no fim da ditadura e já não havia escola pública decente.

Até que em 2017 o Mourão 2.0 apareceu. Num encontro maçônico em Brasília, o general Antonio Hamilton Mourão surgiu fardado. Perguntado por um dos presentes, vazou que o Exército “realizou planejamentos muito bem feitos” sobre intervenção militar, e deixou no ar que o Alto Comando seria simpático à ideia.

O preambulo que antecedeu a pergunta exaltava a suposta hierarquia presente nos quartéis e ausente na sociedade. Talvez seu autor da pergunta ignore que o convidado especial fora afastado do Comando Militar do Sul por insubordinação, que não é outra coisa se não quebra de hierarquia.

Pior: o comandante supremo das Forças Armadas atualmente é Michel Temer. O que diz ele sobre a ameaça de ser derrubado por um subalterno burocrata? Nada.

O Presidento é o chefe do Poder Executivo, e só não está afastado porque o Poder Legislativo assim decidiu e o Poder Judiciário obedeceu. É também professor de Direito Constitucional. Deveria se lembrar do senador Auro Moura Andrade, presidente do Congresso em 1964, que renunciou à candidatura a vice-presidente do marechal Castello Branco e, diante de um milico que tentou enquadra-lo, respondeu publicamente: “Japona não é toga”.

Sem democracia, cara freguesia, não se faz Justiça. Muito menos Lava Jato.

 

ERRATA: em 1964 o general Olympio Mourão ainda não estava em pijamas.

 
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Pantone político no Queermuseu

Arte e cor são indissociáveis. Até na ausência de cores vibrantes a arte pulsa. O melhor exemplo talvez seja Guernica, do Picasso. Aliás, o diálogo sobre a autoria ficou tão conhecido e emblemático quanto a obra. Um oficial nazista que vistoriava o ateliê do artista perguntou: – “Você fez isso?” E o gênio: – “Não. Vocês fizeram.”

De Paris, Picasso pintou a Guernica em chamas que viu em fotos. Oitenta anos depois, de São Paulo, este humilde cronista anota coisas e cores que viu e leu sobre Porto Alegre.

Enfrentamos cores e controvérsias mais uma vez. O banco Santander, conterrâneo de Picasso, Dali e Cervantes, arregou para a patrulha reaça das redes sociais e recolheu a exposição Queermuseu. O grão-reacinha foi homenageado com um meme divertido: “Queer Kataguiri”. Está no ar.

Uma vez nas cordas, o bancão multinacional pode continuar apanhando dos juniores. Como o centro do debate é antes político do que artístico, não demora vão implicar com a máquina de cartão de crédito que o banco oferece para empreendedores, chamada “a vermelhinha”. Ai, ai, ai… O que farão se chamarem o dispositivo de “esquerdista”? Recall? Ou demitir o diretor de marketing como fizeram com a analista que previu a crise da Dilma (PT) e informou aos clientes?

No plano político, o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchesan Júnior (PSDB), aliado à patrulha, aderiu postando elogio em suas redes sociais. Em seguida afinou e apagou.

Outro Júnior, João Doria (PSDB), prefeito de São Paulo, nada disse sobre o caso. Mas também deveria fazer uma análise do pantone político. Sua empresa, o Lide, tem o logotipo vermelho. A bandeira da cidade que governa é uma cruz de malta vermelha. E seu discurso de pré-campanha é basicamente gritar contra qualquer coisa próxima do magenta. E para tanto não tem limites.

Parte da campanha é espalhar bandeiras brasileiras pela cidade. Só na Avenida Brasil, trinta mastros com o pavilhão nacional. Alguns escondidos pelas árvores. Diz que é a exaltação da Pátria. Há quem enxergue como vulgarização publicitária do símbolo que deveria ser tratado com solenidade.

Mastros e bandeiras foram doados por um advogado, sem custo para o Tesouro municipal. No investimento, beleza. Mas e o custeio, preocupação primeira de um gestor?

A Constituição manda hastear e recolher as bandeiras diariamente. Ou iluminar à noite. Quem vai pagar? Destacar servidores para esse trabalho numa cidade onde falta corte de grama e varrição, seria impensável. Iluminar mastros escondidos atrás de árvores, num canteiro central inacessível a pedestres, enquanto as calçadas seguem escuras e a licitação pela iluminação pública está emperrada há anos, também.

Uma proposta cívica começar rasgando a Constituição seria very quuer.

 
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Tange, fere, engorda e mata

O mais novo presidente velho do BNDES, Paulo Rabello de Castro, tomou posse no auge do escândalo da JBS. Foi ao Canal Livre e deixou claro que o governo do Presidento estava disposto a retaliar os irmãos joesleys.

Logo em seguida, algo intrigante aconteceu. A primeira denúncia da PGR contra o Michel Temer era recusada no Congresso. Pairava no ar uma trégua. Rabello de Castro chegou a dizer que “JBS foi um dos negócios mais bem bolados do BNDES”.

Mais recentemente, novo estouro de boiada. Os outrora impublicáveis áudios que “Ricardinho” Saud gravou numa uiscada com o chefe, célebres pelo “nóis não vai preso”, ganharam publicidade e voltamos ao salve-se quem puder.

A la Trump, o presidente do BNDES foi ao twitter e meteu que “chegou a hora de resgatar os investimentos de todos os brasileiros na JBS”. Aproximadamente 20% do açougue é do banco, que pelo contrato e normas de conformidade já deveria ter saído ou, antes, nem deveria ter entrado.

O problema é que, se o BNDES sair da JBS, não será por virtude, mas por vício. Retaliação. Se engana o brasileiro que acredita estar sendo protegido. Tivesse voz sobre a parte que lhe cabe, o que você faria, freguesa? Avisaria antes que vai vender, apodrecendo o bife nas bolsas, ou faria valer o contrato para ser indenizada?

Paulo Rabello de Castro, na comitiva da pinguela, tem uma missão clara: ferir o boi de piranha para ajudar os bandalhos chegarem à margem posterior do rio.

 
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Querida

Aquele telefonema vazado entre Lula e Dilma, que obrigou o juiz Moro a se desculpar com a corte suprema, é sempre lembrado pelo Bessias e pelo “tchau, querida”.

No depoimento de ontem em Curitiba, Lula, que afirma acreditar em alguma diferença pessoal por parte do Ministério Público em relação a ele, usou o mesmo tratamento para se referir a uma promotora de Justiça. De pronto, foi advertido pelo Sérgio Moro.

Para mim serviu como mais um indício de que Lula e Dilma travavam uma guerra fria naquela época do telefonema, e que a intenção da Presidenta antes expor do que salvar seu criador.

 
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Minha intervenção militar

Nelson Jobim falou ao Roberto D’Ávila na Globo News. Dizem que ele ensaia candidatura ao Planalto. A ver.

Entre outras coisas, disse duas que eu gostei particularmente. Que o passado é assunto para a Justiça resolver. A política deve cuidar olhar para o futuro.

Ex- ministro da Defesa, deixou claro que é inadequado o uso das Forças Armadas para controle da ordem nas cidades, posto que seus praças são treinados para lidar com o inimigo, não com o cidadão. Perfeito. A exceção seriam as forças de Paz, os chamados capacetes azuis, que atuam em casos extremos.

Com a volta das nossas tropas de Paz do Haiti, creio que seja o caso de estudar algum apoio para o Rio de Janeiro, periferias de São Paulo, Vitória, Maceió, Simões Filho-BA, Ananindeua-PA, Lauro de Freitas-BA, Pilar-AL e outras onde a relação entre Estado e sociedade ultrapassou a condição de “caso extremo” há tempos.

 
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