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Contágio sanitário e político

As manifestações que explodiram nos Estados Unidos, se espalhando rapidamente por diversas cidades, de costa a costa, logo atravessaram o Atlântico e estouraram também em Paris, farol cultural das mobilizações de massa. Parisienses são bons em atos públicos. Treino, né, minha filha.

Em dois ou três dias a onda contagiante fez o caminho inverso, atravessando o Canal da Mancha e Londres se levantou contra o racismo. A agenda é histórica e segue urgente. Outros muitos levantes já aconteceram. Mas nunca em meio a uma pandemia que exige distanciamento social.

Há um recorte entre os manifestantes indicando que quem está nas ruas são as pessoas que respeitam a ciência e cumpriram quarentena, por medo de contagiarem ou serem contagiadas. Por solidariedade. E por solidariedade afastaram o medo.

No Brasil também tivemos atos no final de semana que passou. São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba especialmente. O racismo por aqui também é forte, mas as manifestações vão além, em defesa da democracia, sem a qual nenhuma vida nem ninguém está seguro.

Houve excessos em praticamente todos os atos. Não é o ideal. Mas é preciso lembrar do Brecht: muitos falam da violência das margens dos rios, poucos se lembram da violência das margens que os oprimem.

Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos outro recorte, ideológico, é visível nos atos: quem apoia as manifestações cá ou lá protesta contra os governos Bolsonaro e Trump, figuras internacionalmente deletérias.

Ideológico porém não partidário. Nos EUA, George W. Bush, representante da família mais tradicional do partido Republicano e provavelmente a mais influente das últimas décadas, com dois presidentes e vários outros membros eleitos para postos relevantes, criticou duramente a posição de Trump. Arnold Schwarzenegger, ex-governador da Califórnia e Republicano, foi ainda mais duro, mostrando que quem acena ou marcha junto de nazistas não é diferente deles.

Aqui não dá para falar em recorte partidário. O presidente da República não tem partido, assim como em meio a uma pandemia não tem ministro da Saúde. O que ele tem é uma manada ensandecida de reacionários declarados ou enrustidos que suportam seu fascismo e torcem a favor da escalada golpista.

O perigo dos levantes mundo afora neste período é uma nova onda de contágio sanitário. O vírus está por aí e, ao contrário dos nazistas e fascistas, não escolhe quem vive ou morre de acordo com suas preferências.

Saberemos dentro de uma ou duas semanas o efeito sanitário dos atos. Nos EUA já estão no nono dia e tendem a crescer; na França e na Inglaterra idem.

Considerando duas semanas ou quatorze dias, temos uma data: 17 de junho. Quem se lembra do 17 de junho de 2013 pode fazer um paralelo com a possibilidade de contagio político com o Brasil.

 
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Pandemia eterna

Que ninguém me acuse de pessimismo na pandemia. Digo, pode até alguém me acusar. Quem não me acusa sou eu mesmo e, creia freguesa possível, por aqui já é grande coisa.

Sob a tristeza da tragédia, procurei ver o lado bom. Imaginei a possibilidade de um estalo social. Um despertar depois de tudo. Quase cem dia depois, entre erros e acertos, aqui e alhures, admito que não encontrei.

A internet me conta que Nelson Sargento, aos 96 anos, está vendendo seus ternos para sobreviver. De novo pra marcar: Nelson Sargento, 96 anos, está vendendo seus ternos para tentar sobreviver. Nelson Sargento está vendendo as calças.

No isolamento de combate ao coronavírus os artistas foram exaltados. Cantavam nas janelas e a turma aplaudia. Milhões se conectavam para acompanhar lives. Mas não era amor à arte. Muito menos respeito. Era tédio, solidão, carência. E era onda também. Boiada.

Mais do que nunca trabalhando de graça, ou por alguma quentinha que um botequim amigo mandasse entregar, artistas de primeira linha,  distantes dos palcos que restaram, estão comendo o pão que o diabo amassou com o rabo.

Então algum precipitado diz: essa maldita quarentena! Outro, menos tonto, acusa a pandemia. Ou como pode Nelson Sargento, aos 96, estar vendendo as calças?

Gente esquecida. Nação sem memória. O parceiro do Sargento, Cartola, já velho, foi encontrado pelo Sérgio Cabral lavando carros em Copacabana. E só então foi gravar o primeiro disco. O que tem de novo na miséria financeira do Sargento? Somos o que sempre fomos.

Nos Estados Unidos e em Paris a turma está nas ruas há uma semana protestando contra o assassinato de George Floyd, esganado pelo joelho de um policial racista. Nada de novo, de novo. Sabe-se quantas vezes a indignação ficou maior que o medo da repressão. Mas não me lembro de ter sido maior do que o medo de uma pandemia.

Aqui no Brasil, quase nada. Meio que nos acostumamos. O menino João Pedro, 14 anos, quarentemado, brincando no quintal, foi fuzilado por um policial. Mais de setenta tiros dentro da casa. Duas granadas. Seu corpo foi sequestrado pelo Estado. As evidências do ataque, que seriam usadas na investigação, ficaram sob responsabilidade do policial que matou João Pedro.

Enfim, está confuso, estou confuso, desesperado. Sem esperança. Misturando Sargento, Cartola, Floyd, João Pedro e pandemia, lembro do Aldir Blanc, que eu gostaria de homenagear de um jeito melhor mas ainda não encontrei por onde.

Aldir chegou ao hospital sem covid-19. E mesmo assim não tinha leito. Depois arranjaram. E então ele já tinha a covid-19. Morreu, o Aldir. Mas antes escreveu, entre tantas outras belezas, alegrias e tristezas: “Rubras cascatas, jorravam das costas dos santos / Entre cantos e chibatas / Inundando o coração, do pessoal do porão / Que a exemplo do feiticeiro gritava em vão.”

O que nós somos é isso. Sempre fomos. Duvido que vamos mudar. A covid-19 com suas centenas de milhares de vítimas cedo ou tarde passa, e será lembrada como acessório na nossa pandemia história e eterna.

 
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Se abrir agora, não fecha mais

No sábado que passou almocei tarde e, de noitinha, saí para buscar comidas no Bar do Baixo, na Vila Madalena. Torta de frango deliciosa, com massa leve, quase folhada, recheio generoso. Peguei também uma porção de pernil, desfiado e com molho na medida, perfeito para meter no pão e ser feliz. Recomendo (985-828-008).

Saí de casa com receio de mim mesmo. O Bar do Baixo é de amigos queridos que estariam lá, como tantos, todos donos de bares que estão na luta para continuar. No meu íntimo a luta era outra: conseguir manter a prudência, fazer só o que era para ser feito, e voltar para a tranca.

O bar, os amigos, a noite, comidinhas confortantes. Coisas que amo e para mim dão sentido à vida. Misto de prazer e dependência.

Não sei como, mas consegui me comportar. Passei, peguei, paguei, me pirulitei e voltei para casa. Os primeiros momentos no sofá foram desesperadores. Queria arranjar outra desculpa para sair. Pensei em furar a quarentena e desencanar. O sufoco durou uma eternidade.

Era algo como o fumante que, anos depois de controlar o vício, dá uma tragada e vai pro limbo entre se entregar e segurar o ímpeto que bota a perder tanto tempo de esforço.

Tudo isso para fazer uma afirmação: ao relaxar o isolamento, que de verdade sempre foi folgado, tendemos a agravar ainda mais a situação que já é dramática. Mesmo em lugares onde foi bem feito, como em Portugal, a abertura causou novos surtos.

Pior: depois de tanto tempo, com o cansaço consequente, e a dificuldade de perceber como, mesmo esculhambado, o isolamento alcançado salvou vidas, se prefeitos e governadores partirem para a reabertura, será impossível fechar de novo.

Falo por mim. O que resta aqui é uma virtude compulsória. Sigo colaborando com o isolamento por solidariedade e obediência a quem entende do assunto e assessora os governantes. E, sendo assim, se tais vozes me deixarem sair, irei no minuto seguinte.

Depois de quase cem dias de isolamento, mesmo sabendo que estamos nos protegendo e não presos, começo a acreditar que, se é pra viver assim, antes partir para a incerteza.

Sei que é desrespeitoso com tantas pessoas que sofreram com a doença, que perderam gente querida, que estão nos hospitais, convalescendo ou tentando salvar vidas, com tantas outras que ainda vão sofrer. Mas é meu sentimento, completamente nu.

Invés disso, apesar do cansaço, topo reforçar o isolamento antes de falar em reabertura. Mais quinze, vinte dias de lockdown, com isolamento perto de 100% e ocupação de leitos de UTI próxima de 50%.

Caso contrário estaremos desenganados. É minha convicção, baseada nas projeções dos especialistas que sigo. E, se assim for, igual a todo desenganado, certo do pouco tempo que lhe resta, a escolha será voltar a fumar.

 
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Caravana Tio Patinhas

Com 54 anos de história, a Lanchonete Tio Patinhas, em Presidente Prudente, oeste paulista, tem autorização para receber clientes sentados a partir da segunda-feira primeiro de junho.

Prudente, junto com Bauru, Barretos e Central (Araraquara e São Carlos) é uma das quatro regiões paulistas que estão na faixa três da “quarentena inteligente” do governo Doria, que permite o serviço de bares e restaurantes no local.

Mas não vão achando que liberou geral. Inventaram umas regras. Por exemplo: mesas espaçadas, tirar a temperatura da freguesia na entrada e prazo para a saída. Sim, a “água no pé” rolando várias vezes ao dia.

Elegante, o gerente da Tio Patinhas, Carlos Moreno, 57, disse à Folha de S. Paulo que isso de tempo máximo de permanência está fora dos planos da lanchonete, porque “soaria indelicado”. Mas cogita o termômetro como medida de proteção para a brigada e freguesia. Faço ideia das piadas que virão se isso acontecer.

Tenho algo de romântico, e a abertura de um bar antigo numa cidade querida me deu gatilho, como dizem no tuíter. Fui ao WhatsApp comentar com os bêbados. E a club soda ferveu.

De pronto surgiu um com a cotação de uma van para levar a turma. Calcularam que, deixando a capital entre seis e sete horas da manhã, ao meio-dia poderíamos mergulhar nas preciosidades douradas da caixa-forte do oeste.

Outro propôs que, para não perder tempo, deveríamos abastecer a van com um farnel de paramounts e também uns papagaios para evitar parada.

Esclarecimentos: paramount é o apelido dado pelo saudoso Ciso Marques da Costa para os coquetéis matutinos, aqueles de parar a mão: Blood-Mary, Mimosa, Bellini, Caracu com ovo, Screwdriver. E o papagaio ave não tem nada com o pato Patinhas. Entendedores entenderão.

O segundo orçamento – a turma é prudente, não tem ninguém à toa – veio de um amigo do audiovisual. Segundo ele, nas vans que operam para o setor pode-se fumar a bordo. Venceu a licitação por maioria absoluta sem necessidade de abrir os envelopes.

A conversa de botequim não parou até agora. Muitos foram tentar descobrir se na Tio Patinhas tem chope. Não que sejam fãs, mas estão com saudades. Outros se lembraram das personalidades prudentinas que os receberam na lanchonete.

Os irmãos Walter e José Lemes, então donos da Viação Andorinha, deputado Marcelino Romano, prefeito Paulo Constantino, juiz-desembargador Pedro Menin. Também surgiram alguns nomes soltos: Agripino, Maurílio, Odoriquinho. Não os conheço, mas imagino que seja ótimo beber com quem se chama Agripino, Maurilio ou Odoriquinho.

Meu amigo por lá é o Samé de Paula. Empolgado, também falei com ele sobre a agenda de segunda-feira. Mas Samezinho, comportado como sempre, está em quarentena severa em Goiânia, duas vezes mais distante de Prudente do que São Paulo.

Se vinga ou não a caravana, contarei ou não a propósito. Até porque a semana pode ser imprevisível. Bauru, Barretos, Araraquara, São Carlos são cidades gostosas e equipadas de bares que merecem toda nossa consideração.

 
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Comida, corona, causa e efeito

Um amigo, contrário ao isolamento social, negacionista da ciência e fartamente estocado de papel higiênico, cloroquina e álcool – em gel e outras variedades clássicas -, não para de me amolar no WhatsApp. Curioso: o faz dizendo que nunca mais vota no João Doria. Por isso não o bloqueio. Tem que manter isso aí.

Oscilando entre duas convicções contraditórias, segue o meu amigo: 1) o coronavírus foi criado em laboratório para jogar os ativos mundiais na bacia das almas, que então seria comprada pela China; 2) a culpa é do povo chinês que comeu morcego.

Reconheço que a China demorou para fazer o alerta mundial sobre o vírus. Mas não lhes culpo. A Organização Mundial da Saúde também teve seus atrasos, bem como diversas nações. Até o Drauzio Varella subestimou o perigo, revendo sua posição ante as evidências, tanto da ciência quanto dos caixões empilhados.

Porém não tolero xenofobia, e tais ataques à China não são outra coisa. Tentei argumentar especialmente sobre o morcego – que é de fato uma possibilidade. Em vão. Já conto como.

Pós sucessivos fracassos, decidi lhe pregar uma peça. Depois de meu amigo falar mal de tudo quanto é chinês, especialmente do embaixador Yang Wanming, esperei uns dias e, numa manhã, enviei mensagem dizendo que haveria uma live com o consulado chinês, restrita a 120 empresários que com eles comercializam, e que um cliente me pedira para convidar potenciais investidores. Topou na hora, ansioso até. Amigo empreendedor não convida para uísque desinteressado, mas a gente se diverte mesmo assim.

O argumento que eu usava para justificar o pobre chinês que comeu o morcego é a cultura. Passaram fome braba por lá. E quem pode dizer o que se faz com fome? Os sobreviventes do avião que caiu nos Andes se tornaram antropófagos em poucos dias – por sobrevivência, não como o prêmio para o guerreiro que homenageava o inimigo capturado saboreando suas carnes.

Morcegos são ratos e nem todo mundo come rato por fome. O roedor é considerado iguaria na própria China, Camboja, Laos, Moçambique, Indonésia, Vietnã, Gana, Filipinas, Myanmar, Tailândia. Dizem que na França comeram ratos. Nada a ver com ratatouille, que é e sempre foi vegetariano, mas parece que comeram. Aqui no Brasil come-se paca e capivara, que são mais ou menos ratos.

Na São Paulo colonial as formigas eram disputadas feito safra de jabuticaba. Comia-se formiga frita, com preferência pelas mais graúdas, bundudinhas, tanajuras crocantes.

E o que dizer de ostra, marisco, vôngole, ouriço? Há quem tenha nojo e eu acho ótimo porque sobra mais. Também adoro lesmas – o que me falta é o capital para os escargots do La Casserole ou do Freddy.

Parentes distantes das baratas são os camarões, que ninguém recusa, salvo por alergia. É um tipo invertido de vontade. Se quem tem fome come o que tiver, o alérgico quer comer o camarão para viver melhor e não pode. Ambos têm medo de morrer.

Como chegamos até aqui, entre nojos e delícias, é pergunta para antropólogo responder. Tenho só palpites. Caviar e outras ovas, por exemplo, devem ter sido sobras por muito tempo. Até que um dia o senhor viu o escravo lambendo os beiços e babau, nunca mais, né, minha filha?

Meu amigo negacionista recusou o banquete. Insiste que combater a pandemia com isolamento vai deprimir a economia e causar miséria e fome. Vai. Mas só se a gente deixar. Há comida (e riqueza) suficiente no mundo para que ninguém passe fome, sede, frio, medo.

Conseguir isso não é difícil. Ou pelo menos é muito mais fácil do que fazer meu amigo entender que, se o novo coronavírus veio mesmo do morcego, assim como os coronavírus antigos vieram de outros bichos, a culpa não é destes ou de quem ou jantou, mas da fome histórica do nosso mundo desigual, da falta de asseio também histórico que não nos preocupamos em universalizar, da igualmente histórica péssima relação que travamos com a Natureza.

Sem resolvermos a causa, os efeitos vão continuar. Novos coronavírus virão. H1N2, Sars-23, Covid-40.

 
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Caprichar na despedida

Para mim é imperioso reconhecer que, entre tentativas, erros e acertos, no limite, Bruno Covas e João Doria merecem nota acima da media no combate à pandemia. Especialmente o Bruno, na linha de frente ainda convalescendo de um câncer brabo.

Os hospitais de campanha municipais e estaduais são um exemplo. Estão funcionando, salvando vidas, ao mesmo tempo que a rede privada reclama o vazio em suas dependências. Um doutor chegou a dizer à CNN que a abertura era necessária porque, isoladas, as pessoas não sofrem acidentes e, nessa toada, hospitais particulares quebrariam.

É curioso que o exitoso Corujão da Saúde, raro ponto positivo da passagem relâmpago de Doria pela prefeitura, quando soube aliar a sugestão do ex-governador Marcio França a seus contatos profissionais, tenha sido preterida, notadamente no cenário atual.

Desconto também para as macaquices politiqueiras da exaltação do maior isolamento do país, destacando números absolutos e não proporcionais no estado mais populoso da federação. Se comparados à Argentina, com população equivalente à paulista, fracassamos fragorosamente.

Fracassamos como sociedade. Nas periferias, a dificuldade de isolamento se impôs previsivelmente. E, no centro expandido, onde poderia ser cumprido com conforto e alcançar os desejados 80%, o fracasso foi retumbante.

Tristeza enorme constatar nosso caráter. Os fura-quarentena lavando a consciência e apelando por abertura com o dedo apontado para a periferia desesperada. Insistindo que a depressão econômica seria mais danosa que a doença. Prova inconteste da indiferença histórica e negação da realidade.

“Ah, como pedir isolamento se as pessoas moram amontoadas, em casas mal arejadas e sem insolação, e não têm dinheiro para sobreviver um mês parados?” Como se novidade fosse.

“Ah, mas e a saúde mental das pessoas trancadas em casa?” Como se novidade fosse. No centro, tédio, depressão, frustração, paranoia – e tome placa dental para não estourar os dentes durante o sono químico, e mais bolas para se levantar quando o efeito passa. Na periferia, sorrisos falhos por falta de dentista e sono desmaiado pela exaustão de horas diárias no transporte público, espaçadas pelas jornadas de trabalho suado.

Aos três meses de cana domiciliar, penso também no sistema prisional. Tanta gente punitivista que dizia ser moleza tais condenações, defendendo mais presídios para passador de maconha, ladrão de galinha e que tais, todos pretos e pobres. Duvido que tenham mudado, mesmo que tenham guardado isolamento. Se nem cana confortável regenera, é fácil concluir o que estamos criando com o sistema vigente.

Também penso se valeu a pena ficar em cana. Não sou de ferro. Passei por incontáveis estados emocionais nesses três meses. Tento ser otimista, mas fracasso, derrotado pelas evidências.

Me esforço para reconhecer o trabalho do governo do estado. Mas quem aguenta, quando depois do dia noventa vem a tal “quarentena inteligente”? Tão “inteligente” que ninguém entendeu.

A quarentena na capital paulista será afrouxada. Grande SP, com todas suas zonas cinzentas, não. Seremos, por óbvio, um manancial de propagação do vírus.

Shoppings reabrirão nas zonas laranjas, que inclui capital e a região do Vale do Paraíba. Doria tem um shopping de inverno em Campos do Jordão, onde a classe média vai passear exatamente como fez pelo interior e litoral nos feriados. Prefeitos do CODIVAP, preparem-se para o impacto.

Só mais um exemplo, porque não quero cansar a freguesia já esgotada de tudo. Shoppings sim, bares e restaurantes, não. Mas e o tal takeaway que sempre foi permitido? As praças de alimentação vão querer abrir e entregar comida no balcão diante das centenas de mesas e cadeiras. Pobres dos seguranças que terão que espantar a clientela.

Fico por aqui, louco pra sair e ver minha cidade, os ipês-rosa-de-bola em flor, conferir se são maritacas ou periquitos os passarinhos que ora cantam aqui perto da Paulista, rever as pessoas que eu venero, matar a saudade do meu lar, o botequim (obrigado, Noel).

Já que vai dar merda, pelo menos vamos caprichar na despedida.

 
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Bolsonaro contra a vacina

Parece que a vacina contra o bolsonarismo apareceu no horizonte. E, igual a toda vacina, ela será feita a partir dos vírus atenuados.

A base do bolsonarismo é mentira, desinformação, as chamadas fakenews. Nada de novo, porque sempre houve, mas nunca com a potência da atualidade, proporcionada pelo ambiente toxico e descontrolado das redes sociais e que tais.

E também não é só um problema brasileiro. O Reino Unido deixou a União Europeia se valendo dos mesmos vírus. Assim como Donald Trump pela disseminação do vírus foi eleito.

Depois de tantas vítimas, a combinação para enquadrar a doença começou a surgir. São literalmente quatro lados.

O primeiro é o Poder Judiciário. O Supremo Tribunal Federal, vendo-se atacado pelo esquema que já havia tomado o Poder Executivo, pela caneta do ministro Edson Fachin preside o inquérito para apuração das suspeitas.

Aqui cabem parênteses sobre os meios. Sim, foi ato de ofício do presidente Dias Toffoli, é incomum, porém regimental, e pode ser arriscado se usado de qualquer jeito. Mas demais instituições, devidamente consultadas, o avalizaram. Advocacia Geral da União por exemplo. E inclusive o atual procurador-geral da República – que hoje mudou de opinião e pediu a suspensão do inquérito. Especialistas divergem sobre a continuidade ou não do inquérito sem a participação direta do Ministério Público.

A segunda fronteira ainda está no Judiciário. A Polícia Federal, autorizada pela Justiça, correu com as investigações e identificou financiadores, operadores, provavelmente as empresas responsáveis. Está faltando gente no inquérito, financiadores, funcionários públicos e familiares de Bolsonaro. Mas a coisa está adiantada e já alcançou, por determinação do gabinete do ministro Alexanfdre Moraes o sigilo bancário dos investigados durante as últimas eleições.

Eis que chegamos na terceira fronteira, que encerra o triangulo das bermudas do vírus bolsonarista: a Justiça Eleitoral. Ontem tomou posse o novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Luiz Roberto Barroso, e seu discurso foi bastante concentrado na preocupação com a deterioração que o vírus da desinformação vem causando à Democracia.

E a base de tudo, que somada ao triangulo judiciário enquadra o vírus bolsonarista, devemos ao trabalho da imprensa. Por justiça e gratidão é importante nominar a repórter que puxou o fio: Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, premiada aqui e alhures pela série de reportagens que iluminou o esquema de financiamento de propagação de fakenews. Patrícia está para o vírus bolsonarista como as cientistas que sequenciaram o coronavírus que nos assola.

A vacina então é esta. Ainda demora para ser concluída e fazer efeito, mas já está encaminhada para enquadrar muita gente que hoje berrou de medo da agulha ou das gotinhas. Notadamente o principal beneficiado pela doença, Jair Bolsonaro, que pode ter a chapa cassada pela Justiça Eleitoral caso as suspeitas sejam provadas e a chapa Bolsonaro-Mourão, condenada.

 
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Autoengano

Muito se engana quem imagina que o comboio da Polícia Federal desta manhã, que atinge empresários, ativistas e políticos bolsonaristas no inquérito sobre as fakenews, elimina a possibilidade de intervenção da Presidência da República na instituição. A intervenção é um fato – resta saber a medida.

A Polícia Federal, igual a tudo que inclui a ação humana, está sujeita às preferencias de parte de seus membros, podendo por estes ser violada. Por cima, por baixo, de frente, de costas, de lado. Aqui o importante é o velho “pode menos quem pode mais”, sendo do interesse geral que a pessoa eleita para o posto mais alto da República permaneça afastada de qualquer suspeita de interferência em órgãos de Estado.

De novo, igual parece tudo na atualidade, para mim é incrível o nível de polarização que alcançamos. Chegamos ao ponto de debater se determinado medicamento funciona ou não no combate à maios pandemia em cem anos. E isso incentivado pelo homem mais poderoso do mundo e pelo presidente do nosso país, este que, sapateando sobre mil cadáveres diários, diz “quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda, tubaína”. E não falta quem ache graça.

No mesmo sentido entram as operações de ontem e hoje da Polícia Federal. Os incautos se dividem em dois partidos: os que ora defendem a família do governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel, e os que defendem a família Bolsonaro, como se até anteontem não estivessem abraçados, tendo sido eleitos juntos, com o mesmo discurso de ódio, moralismo e destruição “de tudo que está aí”.

É como se sacos de farinha pudessem ser repartidos exatamente ao meio. Quem acredita nisso acredita em qualquer coisa, até em comprimido de farinha.

No breu do beco-sem-saída em que nos metemos, a briga-de-foice grassa, deitando tripas pelo chão. O diálogo com gente outrora moderada – ou pelo menos controlada pelo processo civilizatório – vai se tornando impossível. Hoje vale mais lembrar de como certas pessoas costumavam ser do que procurar saber se estão bem.

A conjuntura é tão maluca que, segundo pesquisas, ao mesmo tempo que o distanciamento social arrefece, a maioria da população segue apoiando a adoção de um lockdown. É como se, sabendo que dói menos arrancar o curativo de uma vez, a falta de coragem nos impusesse o autoflagelo de puxa-lo aos poucos.

E o deprimente é notar que nada disso é novo. O bolsonarismo é o velho malufismo, porém mais tosco, vulgar, despudorado, reacionário. Assim como o é o nós contra eles.

A miséria das favelas e rincões, a pobreza e insegurança permanente mesmo de quem a vida inteira trabalha, o desprezo pela Cultura, a falta de Educação, o descaso com a Saúde, as desigualdades todas também sempre estiveram aí. Nosso “vale quem tem”, “deixa morrer”, “meu pirão primeiro” são estruturais.

Comecei a quarentena esperançoso, sofrendo mas nutrindo a possibilidade de uma mudança comportamental diante do desastre, como uma enchente avassaladora que afoga e fertiliza. Mas a realidade vem impondo a falta de ar.

Quando e se a pandemia passar, lamentavelmente continuaremos divididos entre os que vivem e morrem sufocados, e os que vivem, morrem e deixam morrer indiferentes, confortados pelo autoengano.

 
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É tarde

O inquérito sobre a interferência do presidente da República na Polícia Federal corre na PGR. Augusto Aras deve falar até o final da semana, quando saberemos se a investigação vira ou não denúncia.

E onde esteve ontem o investigado? Na PGR. No mínimo é inoportuno. Com um pouco mais de severidade, não estivéssemos nós nos acostumando ao absurdo a cada dia, haveria espanto geral.

O mesmo ou ainda mais acintosamente já foi feito outro dia com o Supremo Tribunal Federal, levados de supetão para uma reunião improvisada com o presidente do colegiado. O vídeo, transmitido ao vivo pelas redes do bicão, deixa claro que a intenção era transferir para o Judiciário a responsabilidade da condução da luta de todos nós contra a pandemia.

Pouca gente no mundo pensa como Bolsonaro sobre como combater a praga. O presidente prefere se voltar de costas aos nossos vizinhos mais amigos, com casos exemplares na Argentina, comercialmente terceiro parceiro do Brasil, e Uruguai e Paraguai, politicamente mais próximos do governo atual. Jair Bolsonaro se alinha ao ditador da Venezuela ou ao populista socialista do México, todos os três negacionistas da ciência.

Ainda sobre o Supremo, sem qualquer pudor Bolsonaro ameaça o tribunal, dizendo que segura sua matilha, que pede o fim do Judiciário, caso o Judiciário faça suas vontades. Matilha esta que ele defende armar e atua para tanto, através de portarias que permitem o aumento da compra de munições e dificultam o rastreamento destas e de armas.

Em paralelo, na crise entre Executivo e Judiciário, surge uma nota ameaçadora do ministro general Augusto Heleno, de pronto apoiada por dezenas de oficiais da Reserva do Exército.

Voltando à possível interferência na Polícia Federal, batalha travada por Bolsonaro com o até anteontem ídolo dos bolsonaristas Sérgio Moro, hoje amanhecemos com novos indícios. O governador do Rio, outrora aliado de Bolsonaro, acordou com equipes da PF dentro do Palácio das Laranjeiras, sua residência oficial, e outras equipes em sua casa no Grajaú, no escritório de sua mulher, entre outros endereços.

A deputada estrela do bolsonarismo Carla Zambelli, em entrevista a uma radio, antecipou ontem que haveria diligências da PF contra prefeitos e governadores. E vale lembrar que a ministra Damares, na famigerada reunião do dia 22, diz com todas as letras que eles ainda vão mandar prender prefeitos e governadores – como se competência para tanto ela tivesse. O ministro analfabeto funcional da Educação defende o mesmo para ministros do STF.

Sem meias-palavras, o governador Witzel afirmou que a operação Placebo, que investiga desvios nas compras para o combate à pandemia, confirma a interferência da Presidência da República na PF.

Obviamente é necessário investigar e punir malfeitos e desfalques a qualquer tempo, notadamente em meio a uma pandemia com dezenas de milhares de mortos. Inclusive já prenderam gente no Rio de Janeiro.

Mas visto em panorama, o quadro todo é assustador. Tem focinho de criação de polícia política, tem rabo de polícia política, se move como polícia política. Não tem como dar certo. E suspeito que perdemos o momento de frear o movimento sem dores e traumas. E, assim, é o caso de pagar pra ver. É tarde, sei bem. Mas como venho insistindo aqui, é consequência ou morte.

 
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Paulo Marinho, o caseiro do Bolsonaro

Chamado de empresário, Paulo Marinho resolveu contar à Folha algumas passagens da campanha de Jair Bolsonaro à Presidência, notadamente em relação à possível e até provável corrupção de um policial federal, que teria vazado ao então candidato ao Senado Flávio Bolsonaro, o ZeroUm, a chegada da operação Furna da Onça a ele, Queiroz e a atual primeira-dama Michele.

O episódio teria acontecido na metade do segundo turno da corrida eleitoral. Naquele então Queiroz foi demitido do gabinete de Flávio na Alerj, e sua filha Mariana, laranja no gabinete de Jair, também caiu do pé. Em tempo: a moça é instrutora de ginástica especialista em choques elétricos e foi se empregar justo no gabinete onde o torturador Ustra é ídolo.

Também data daquele período a revelação do vice Hamilton Mourão sobre o convite de Paulo Guedes a Sérgio Moro para o ministério da Justiça. A operação Furna da Onça é um desdobramento da Lava Jato no Rio de Janeiro.

E nunca é demais lembrar que o relatório do Coaf chegou ao MP-RJ em fevereiro de 2018, e até novembro daquele ano, que no correr dos meses viu a prisão de vários colegas de Flávio, o TCE inteiro e quatro governadores, justamente pela Furna da Onça, produziu 30 páginas sobre o ZeroUm, e entre novembro de 2018 e fevereiro de 2019, 300 páginas, um DVD e um pen-drive. Impossível não sentir cheiro de gaveta no processo.

À Monica Bergamo, Paulo Marinho contou alguns bastidores da campanha à qual serviu de caseiro para Bolsonaro. Disse que Bolsonaro destrata subalternos e que mal conseguia acompanhar assuntos mais relevantes, que gostava mesmo de papear com a turma da segurança e contar piadas sexistas e homofóbicas.

Contou mais. Ora aliado de João Doria, Merinho disse que a orientação do governador de São Paulo para uma candidatura a prefeitura do Rio de Janeiro era encontrar uma mulher, e citou quem seria, acrescentando que é bonita.

Juntando as coisas dá para entender como e porque, vendo de perto que o “capitão” é um boçal, Paulo Marinho seguiu trabalhando pela sua eleição. Para colocar o boçal no posto máximo da República. São a mesma coisa, a mesma pedra, com a diferença de polimento.

O engraçado é que agora há a suspeita de que o Banco Central devassa as contas de Paulo Marinho. O caseiro de Bolsonaro vive seus dias de Francenildo, caseiro do Palocci, que teve a conta na Caixa Econômica devassada pelo governo Lula.

Mais divertido será se fuçarem direitinho, para saber quanto Marinho botou de dinheiro não contabilizado na campanha. Só um cretino acredita nas prestação de contas da campanha Bolsonaro presidente.

 
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