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Museu Nacional – retrato do Brasil

Aos duzentos anos de idade, o Museu Nacional virou cinza. Soube hoje pelo canal Meio que nenhum ministro compareceu à solenidade do aniversário, em junho. E o último presidente a visitar a Quinta da Boa Vista foi Juscelino Kubitschek.

Michel Temer não é o principal responsável pela tragédia. Michel Temer não merece sequer esta distinção. Não tem mais filme para queimar. Mas por estar no posto e, logo que assumiu, ter proposto acabar com o ministério da Cultura, ou ter distribuído dezenas de bilhões de reais em emendas para se safar de um processo criminal, sendo que nenhuma emenda procurou atender às urgências do Museu Nacional, será lembrado pelo assombroso descaso.

Dos treze nomes que concorrem à Presidência da República, só dois trataram da importância dos museus e do patrimônio histórico e cultural em seus programas de governo: Marina Silva e Ciro Gomes.

Em contrapartida, Guilherme Boulos e Manuela D’Ávila estão sapateando sobre as cinzas, numa sem-vergonhice inacreditável, mesmo para os dois. É de fazer corar canalha que canta viúva no velório do amigo.

O mercado empedernido também chafurda nas cinzas. Acusam o Estado, os governos, tudo o que está aí. E a preferência, como sempre, é o ataque à Lei Rouanet. Como se o mercado não se valesse de perdões de impostos bilionários e da própria Lei Rouanet para gastar dinheiro público patrocinando cultura com retorno comercial. Tenho certeza que gelam as consciências junto com a champanhe rosé.

Aquelas janelas ardendo são o retrato do Brasil. Do abandono, do descaso, da hipocrisia. O individual venceu o coletivo. Salve-se quem puder.

E é importante notar que, não muito longe dali, na Penha, uma cozinheira de 39 anos e seu filho mais velho, com vinte anos, tiveram a casa destruída: sofá rasgado, TV quebrada, geladeira, rack, guarda-roupa, caixa de som, cama, beliche, cômoda: tudo perdido. Incêndio, deslizamento? Não. As tropas do Exército da Intervenção Federal.

A cozinheira e seu filho foram identificados como autores de um vídeo de uma operação militar. O vídeo viralizou, deu até na TV. Mas por que eles gravaram? Para provar para os patrões que naquele dia não dava para sair de casa. Descobertos,  sofreram a retaliação covarde e criminosa.

O preço da tralha da família, descrita acima, é fácil de calcular. Alguns dos pertences, inclusive, ainda estão sendo pagos no carnê das Casas Bahia. Já o acervo perdido no Museu Nacional é de valor inestimável. Noves fora esta diferença, ambos não existem mais. São o nosso retrato, um retrato sem imagem, sem reconhecimento, sem passado, sem futuro, qual o reflexo de um vampiro.

Errata 1: a agência Lupa verificou os programas e só Marina e PT citaram museus nos programas de governo, Corrigido.

Errata 2: o canal Meio atualizou sua nota dizendo que, depois de JK, o general Costa e Silva, enquanto ocupou a Presidência da República, esteve no Museu Nacional.

Atualização: Sobre o incêndio, Jair Bolsonaro disse: já pegou fogo, quer que eu faça o quê?

 
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Bonner queima o filme

Beleza de homenagem à eleição do Cacá Diegues para a ABL no Jornal Nacional. Ficou com a cadeira sete que foi do também cineasta Nelson Pereira dos Santos. Letras e luz.
Sorte nossa o mais novo imortal ter escanado da entrevista com o Bonner. Imagino como seria: “Mas e o Sarney, não macula o colégio? E Paulo Coelho, é canastrão ou não é?”
Uma pena o tom confirmado nas entrevistas com os presidenciáveis. Hoje foi Marina Silva. Primeiro foi criticada com a sugestão de ser intransigente. Depois, por ceder e fazer aliança com o PV na figura do Eduardo Jorge (na minha opinião, um dos melhores políticos em atividade). E ainda por criticar os métodos do Centrão e ter, pela REDE Sustentabilidade, feito alianças nos estados.
Compreendo que quem não conhece o Brasil e a política faça esse tipo de ataque. Mas o editor do principal jornal do país não tem essa desculpa. Não pode ter.
Bonner sabe que as alianças da Rede são programáticas, seja lá com quem for. Muito diferente do Centrão, que para ficar no exemplo mais emblemático, tem o presidente do PP, senador Ciro Nogueira, em Brasília apoiando o PSDB e garantindo a vice Ana Amélia, e no Piauí pedindo votos para Haddad.
Sobretudo sob a ótica do reconhecimento. Ora, as retransmissores da TV Globo, notadamente no Nordeste, são basicamente das famílias do Centrão. fazer o que? O Brasil é assim. Mas na programação (ou no programa), quem manda são os profissionais apontados pela diretoria.
William Bonner, eu gosto de você e tenho respeito pelo seu trabalho. Mas não é queimando os políticos que você vai salvar o filme do JN.
 
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Saúde antes do hospital

Em qualquer pesquisa sobre a expectativa popular ante os governos que vierem a ser eleitos, dá Saúde na cabeça, além da margem de erro, no plano nacional ou em qualquer estado aferido.

O problema disso é que, em que pese nossa carência médica, seja clínica e ou hospitalar, o clamor não deve ser entendido assim chapado. Com o mínimo de sensibilidade, o político de verdade, com capacidade de entendimento e liderança, deve notar que Saúde não se resume a tratamento.

É melhor prevenir do que remediar. Diz a voz do povo, dos médicos e dos loucos.

Por exemplo, com metade dos domicílios sem saneamento básico, galopa a chance de uma ou duas diarreias na primeira infância. E com os esforços do organismo concentrados em sobreviver pelo intestino o cérebro da criança acaba definitivamente prejudicado. Depois disso não há Sírio Libanês, Harvard ou Sorbonne que tirem o atraso.

Passar quatro, cinco horas de pé, suando e esmagado num ônibus, onde nem ar nem sangue conseguem o mínimo de circulação, também torna impossível a qualquer pessoa ter saúde.

Some à conta da mobilidade o horário de trabalho e o do sono para ver quanto sobra para uma refeição saudável, estar com a família e os amigos, um pouco de lazer, contemplação, cultura. Pois é. Quem aguenta o tranco? O sistema de Saúde não aguenta.

No mundo civilizado a turma faz as contas e avança. Londres, por exemplo, nos conta o Rafael Balago da Folha, estabeleceu como meta que todos seus habitantes deverão fazer pelo menos vinte minutos de deslocamento a pé ou de bicicleta por dia até 2041. Hoje só um terço se sacode assim.

As primeiras medidas foram inverter a lógica dos semáforos, dando prioridade ao pedestre, melhorar ainda mais as calçadas e reduzir a velocidade dos carros para 32k/h. Com efeito, mais exercício e menos poluição. A previsão é que, alcançada a meta, o SUS da Rainha vai economizar cerca de R$ 7,8 bilhões.

Enquanto isso, cá em São Paulo, dados da Cestesb mostram que 31 pessoas morrem por dia por causa da poluição. Quem não está tossindo, com o nariz ardendo e a garganta raspando que proponha a primeira acelerada.

Ainda pela Folha, agora citando o lado de lá do canal da mancha, a Fernanda Mena mostrou como nosso sistema respiratório é mais resistentes do que os franceses. Cinco vezes mais resistente – pelo menos aos olhos das autoridades.

Lá, quando a poluição atinge 80 microgramas de MP10/m3 (índice referente a partículas inaláveis pairando no ar, dando aquele laranja lindo ao crepúsculo), o alarme toca, o trânsito sofre restrições e as catracas do metrô são liberadas. Tudo para evitar transferir a conta para a saúde. Aqui esse alarme só toca se bater 420 MP10/m3.

Antes de votar, pergunte ao seu candidato o que ele pensa sobre Saúde.

 
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Jornal Nacional e os presidenciáveis

É preciso reconhecer: Bolsonaro foi bem no JN. Não que tal comportamento sirva de exemplo para outros candidatos e nem mesmo para qualquer pessoa. Mas é como ele construiu sua imagem e o fato é que lidera as pesquisas de intenção de voto nos cenários sem Lula, com seguidores tão fiéis e engajados quanto os de Lula e inclusive uma porção em comum. Pois é.
Se do candidato não era de se esperar outra postura, a mesma coisa não pode ser dita dos âncoras do jornal mais importante da TV brasileira, assistido por setenta milhões de pessoas.
Pior: o padrão foi estabelecido na segunda-feira com Ciro Gomes e, pelo princípio da isonomia, não pode mudar com os próximos entrevistados. Sim, o estado policial que vigora no Brasil foi adotado pelo jornal mais relevante do país. É lamentável. Para além disso o que pode ser? Chamar o Datena para âncora?
O ponto alto tanto de Ciro quanto de Bolsonaro foi a tentativa de mostrar ao Brasil seus cadernos-plataforma, respectivamente SPCiro e “kit-gay”. Que o primeiro seja uma proposta e o segundo só uma reação, não conta. É o que cada um tem a oferecer em troca de votos e puderam desenvolver os argumentos. Competentíssima, a equipe técnica não permitiu a exibição física em nenhum dos casos, trocando o enquadramento de cena.
O ponto baixo do JN foi o final, quando mais uma vez perguntaram ao candidato sobre sua admiração pela ditadura militar. Como em outras questões, Bolsonaro respondeu atacando, e de novo citando Roberto Marinho.
Seria bom que o William Bonner assistisse à Rede TV. Ou pelo menos o debate entre os presidenciáveis lá realizado. Talvez aprendesse que é o jeito, não a força, o caminho contra a violência. Assim, ao ataque contra o Doutor Roberto, poderia responder: “Sim, as Organizações Globo apoiaram o golpe de 1964 e a ditadura militar, mas entendemos que foi um erro grave, nos arrependemos e tivemos a decência de reconhecer e pedir desculpas. O senhor gostaria de aproveitar a oportunidade para fazer o mesmo?”
 
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Marx e as moças

Contra o Estado, mas contra mesmo, era o Marx. Nada de Estado mínimo, essa perfumaria contemporânea que cheira nos centros e fede nas favelas. O ideal do Marx era zero Estado.

Como demonstrou o século XX, o ideal marxista deu errado, antes por conta de quem tentou transformar a teoria em prática do que pelo que ele propôs. E já em 2018 podemos ver que o capitalismo, ideal vendido como seu oposto, mas na verdade muito parecido com o marxismo, não deve precisar do século XXI inteiro para naufragar – não há barco que navegue com o peso distribuído na proporção de 1% x 99%. É lógico que vai virar. E, de novo, muito mais por culpa de quem leu o Adam Smith e não entendeu do que por conta do que o escocês anotou.

A parte boa que merece ser festejada são as moças. A mulher deu certo sob qualquer ponto de vista e contra todas as expectativas.

Há alguns anos li O Preço de Todas as Coisas, do Eduardo Porter. Era para tentar aplacar a minha dificuldade de botar preço no meu serviço. Não posso dizer que me ajudou como eu gostaria, mas recomendo mesmo assim. Boas histórias sobre formação de preço.

Uma delas é o preço da mulher. Há muitos anos a poligamia era bom negócio. O macho precisava de muitos filhos para ajudar na lida e assim mantinha várias mulheres para aumentar as chances, posto que era comum a criança “não vingar”.

O ventre era capital. Com a popularização da educação, saúde etc, a taxa de mortalidade infantil começou a cair, e melhor negócio passou ser sustentar uma única mulher, educada, asseada, capaz de gerar e fazer vingar vários filhos.

Sim, o mundo é cruel. Mas crueldade não tem gênero. “Farinha pouca, meu pirão primeiro”, é algo demasiadamente humano, animal, vivo. As moças também entraram no jogo, performaram e transmitiram a personagem “bela, recatada, do lar” para garantir algum conforto e estabilidade. As que não quiseram ou não conseguiram se dividiram entre algumas classes acessórias, sendo as três mais comuns a das tias, meretrizes e prostitutas, onde o capital variava entre serviços domésticos e sexo.

A parte boa da história é que no bicentenário do Marx ele teria motivos para comemorar com as moças. Ele, que nunca ligou para isso do homem sustentar a mulher – até muito pelo contrário, quem mantinha sua casa e família era a patroa Jehnny e o chapa Engels, ficaria contente com a derrubada do Estado promovida pelas mulheres.

Duas notícias comprovam. A primeira é a Casa de Todas as Casas em recuperação judicial. Sim, o movimento do Love Story, um dos mais famosos lupanares de São Paulo, caiu muito. Conta a crise, a legislação trabalhista e outros bichos. Mas pelo o que disse o proprietário ao Raul Juste Lores, editor da Vejinha, o Tinder teve peso.

Quer dizer: apesar da história da humanidade, apesar de tanta gente ainda achar que elas devem ganhar menos porque engravidam, hoje a mulherada se sacode, é dona do próprio nariz e faz o que bem entende, principalmente amor. Com efeito, a vagina morreu enquanto capital, e o cérebro passou a ser o bem mais valioso para todos os gêneros.

Outra boa nova vem de Barretos, da festa do peão. Há uns dez anos era comum os rapazes laçarem as moças nas ruas. Grosseria sem tamanho. Violência. Elas com hematomas nos braços e no espírito. Acabou. Como? Elas demonstraram para os vaqueiros que também gostavam de sexo. Bastava combinar. Hoje os acampamentos são de ruborizar a turma de Woodstock.

Claro que tem muito peão ofendido, comprando revolver e votando em quem promete fuzil. Mas os bacanas gostaram e se divertiram com a igualdade e a franqueza, e tanto que sequer foram ver touro pulando. Na festa do peão, só fizeram paz e amor.

 
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Ruim da cabeça e doente do pé

Artrite, artrose, gota, joanete, esporão do calcâneo, unha encravada, reumatismo. O que não falta é impedimento particular para um passeiote pelo bairro e resolver o que for possível sem precisar do carro. Supermercado, farmácia, padaria, chaveiro, banco, botequim, eventualmente papelaria, floricultura, costureira e, diariamente, o cagote do cachorrinho.

Fico sinceramente comovido com os tantos velhinhos que vejo indo e vindo, impávidos, mesmo acometidos por um ou mais dos males de abertura desta crônica.

Mas deles não me compadeço. Ou, antes, sinto pena é da turma mas moça, os jovens, que curiosa e majoritariamente preferem o automóvel para suas atividades mais corriqueiras.

Curioso é tanto o fato de que teoricamente haveria nos mais jovens maior disposição física para o caminhar, quanto a nova bossa de sequer tirar carteira de habilitação e preferir os aplicativos e coletivos. Só que não. Os moços vão ao supermercado e, na saída, espera o uber. Andar mesmo só na esteira e olhe lá. Jovens correm porque acham que não tem tempo a perder.

Paciência. Mas no fim das contas faz sentido. Saber perder tempo é um tipo de sabedoria parecida com a financeira, onde quem tem menos tende a aplicar melhor, e quem tem de sobra desperdiça guardando para sabe-se lá o que. Quiçá a artrite.

 

 
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Paulo Guedes, ficção e realidade

Paulo Guedes, o PaGue, também conhecido como Posto Ipiranga de Jair Bolsonaro, falou longamente à revista Veja, que lhe concedeu a capa da edição de 22 de agosto e a manchete: “Ele pode ser o presidente do Brasil.”

É assustador. PaGue é evidentemente um cara preparado e de convicções liberais densas. O problema é que a densidade de suas convicções econômicas o tornam impermeável a outras percepções e abrem caminho para qualquer tipo de conveniência delirante.

Some-se a isso a impressão de que sente-se incompreendido, alguém que merecia mais láureas do que a vida lhe concedeu, e o susto chega a arrepiar.

Até novembro último ele queria fazer Luciano Huck presidente da República. O grande argumento, publicado no perfil do apresentador na revista Piauí, foi que um sobrevivente de acidente aéreo era um predestinado. Colou. Mas como ante às primeiras adversidades Huck desistiu, PaGue foi procurar o Bolso.

À Veja, sobre capacidade de governabilidade e em contraponto ao evidente apreço de seu candidato à ditadura militar, disse que “Bolsonaro pode ser o primeiro presidente a amputar os próprios poderes presidenciais, retirando dinheiro do governo central e transferindo-o a estados e municípios”.

Ocorre que o programa de governo da dupla diz justamente o inverso. A ideia é criar uma superpasta da economia e centralizar poder no PaGue, que inclusive já disse nas redes sociais que usará este poder concentrado para governar, trocando verbas por apoio dos governadores.

Mais grave é o histórico pessoal do PaGue. No auge da ditadura Pinochet, que foi ainda mais sanguinária que as nossas, o professor aceitou lecionar na Universidade do Chile diante do que chamou de “proposta irrecusável” – coisa de sete mil dólares a mais do que ganhava no Brasil.

Proposta irrecusável nO Poderoso Chefão é com o pavoroso Luca Brasi apontando um 38 para sua cabeça. Mas vá lá. A história acaba depois de seis meses com a polícia política de Pinochet, provavelmente muito pior que o Luca Brasi, fazendo uma inspeção em sua sala dentro da universidade. (Ai de ti, Erasmo Dias…) Claro que o PaGue voltou fugido. Mas diz que, na verdade, a gota d’água foi um terremoto que assustou sua mulher.

Ainda sobre o perfil pessoal, PaGue diz que lê três livros científicos por semana: “Não gosto de ficção. Gosto do que é real.”

Professor, na boa, vamos tentar um acordo? Compre as obras completa do Machado de Assis, do Shakespeare ou, sei lá, do Julio Verne, e inverta a equação. Digo, fique com a realidade durante o dia e prefira levar a ficção para dormir.

 
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Da pesca da lula ao arrastão do Centrão

O deputado Espiridião Amin gostava de fazer troça com a inteligência da lula para provocar o líder metalúrgico. Chegou a levar ao plenário a carteira de trabalho da avó, toda em branco, para dizer que era daquele que “nunca trabalhou”. E usava o processo de pesca do molusco para zombar da suposta falta de inteligência do adversário.

Quem já pescou sabe que é muito divertido. Primeiro porque não requer isca, basta uma pequena grateia chamada zangarelho para atrair o bicho que, quando se dá conta que entrou bem, por nada, cospe tinta pra todo lado. A bordo é uma farra, com a turma literalmente feito pinto no lixo ou, quanto mais sujo, mais contente o pescador.

Ocorre que, ao que parece, se não a lula, o Lula aprende. Pescado e preso por Moro, segue disparado em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto e, por bilhetes, organiza o processo eleitoral a seu gosto, como prova o drible em Ciro Gomes, que acabou perdido e isolado na nuvem de tinta.

Por outro lado, quem era festejado como grande articulador, vai tomando bordoada de todo lado. Sim, falamos de Geraldo Alckmin, o tucano que entrou no arrastão do Centrão.

Não se pode dizer que foi sem isca. Havia aproximadamente R$ 800 milhões do fundão eleitoral, metade do tempo de TV e mais de três mil prefeitos como oferta. Porém…

Segundo levantamento da Folha (Carolina Linhares e João Pedro Pitombo), dos 216 diretórios dos partidos da coligação formada em torno de Alckmin, apenas 96 lhe darão palanque.

No Estadão (Andreza Matais, Naira Trintade e Juliana Braga), o relato sobre o tranco do MDB, cujos advogados contestam no TSE as atas das convenções dos partidos aliados, que pode tirar sete dos nove partidos da coligação e, com efeito, um belo quinhão do tempo de TV e até a candidata a vice.

E sequer dentro do PSDB Alckmin encontra sossego. Pedro Venceslau, do Estadão, informa que o vereador tucano Jandeilson Pereira, de Santarém-PA, aproveitou a passagem do candidato pela cidade para cobrar a volta do ministério da… Pesca.

Como se não bastasse, ainda há a Justiça. Pelo G1 a repórter Julia Duailibi revelou que as duas horas de depoimento na semana passada não ajudaram Alckmin. Pelo contrário, o processo que, se já tinha o agravante de correr em sigilo, ganhou a possibilidade de ser desmembrado e se transformar em dois.

No fim da pescaria, prato cheio para o Centrão. Quanto mais atordoado o peixe, mais fácil fica embarcar e transformar em moqueca.

Atualização: os dois últimos parágrafos não tinham subido na postagem original.

 
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Jiu-jitsu venceu o debate

O debate da Rede TV caminhava para a tradicional monotonia de sauna fria. Mas a surpresa do formato onde o queijo central sugeria um ringue para o embate direto entre os candidatos, dando ao telespectador a possibilidade de perceber a linguagem corporal dos oponentes, animou.

Alckmin e Meirelles pareciam estar em um jogo de imitação. O tucano, que para este pleito assumiu completamente a careca, na forma está idêntico ao banqueiro – que, aliás, diz que não é banqueiro, nem político, nem emedebista. E até o Álvaro Dias, que na Band destoou adotando o estilo Fabio Jr., abandonou a tinta, vestiu camisa branca e atou gravata sóbria.

Quando Daciolo foi chamado para enfrentar Bolsonaro, imaginei que o ex-capitão ordenaria posição de sentido ao cabo. Não rolou. Então foi a vez do Boulos, que também deu em nada. E até o Ciro mostrou como sabe impor urbanidade, se recusando a ir ao chão com o ex-capitão e arrancando um cordial aperto de mãos. Muxoxo bom. Antes assim.

A grande surpresa veio de Marina Silva, única mulher enfrentando a peleja e vice-líder nas pesquisas. Qual o bambu, que verga mas não quebra, encurralou Bolsonaro em cordas imaginárias e, com suavidade e resiliência, meteu uma alavanca a la Gracie jiu-jitsu e fez o ex-capitão piar fino. A gente devia prever que aquele coque samurai tem um significado maior.

Já escrevi aqui sobre a lição japonesa do soft power, que ouvi num programa do Bial. Pesquei um trecho para quem tiver preguiça de acessar o link: “O termo é até meio redundante. Porque se é poder, também é suave. A bravura e a brandura são indissociáveis. Quem berra, esperneia, agride, é antes de tudo um fraco.”

E não consigo escapar de outra história que também ouvi assistindo ao Bial. Um dos filhos do doutor Arraes contava que o pai, deputado no Recife do começo do século passado, era o único em plenário que não andava armado. Preocupado, o filho perguntou por quê. E o Arraes devolveu mais ou menos assim: “Meu filho, todos eles sabem que eu não ando armado. E o cabra honrado jamais abriria fogo contra alguém desarmado.”

Brasil a dentro, as mulheres que trabalham fora, criam os filhos sozinhas e não se assustam com cara feia têm motivos para aproveitar o sábado folgadamente. Merecido.

 
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Parque Augusta, a Casa da Moeda e a nossa casa

Crônica publicada no projeto Esquina Encontros Sobre Cidades do Estadão

Na solução para a criação do Parque Augusta, a melhor imagem para o nosso entendimento é a do Valter Caldana, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie: a prefeitura de São Paulo imprimiu dinheiro.

A conta é simples. Governando bem os instrumentos que dispõe o poder público gera valor capaz de criar contrapartidas que valem por investimentos nas cidades. Neste caso específico usamos a TDC, ou Transferência do Direito de Construir. Isto é, os 3.300 m2 que as construtoras proprietárias do terreno pretendiam construir ali poderão ser usados em outra área ou vendidos a quem possa interessar a preço de mercado. Com base nas cotações atuais para a mesma região, chega-se ao valor de aproximadamente R$ 18 milhões.

O feito torna-se ainda mais importante se lembrarmos os valores que as gestões anteriores chegaram a negociar. Na mais recente, do ex-prefeito João Doria, falavam em R$ 120 milhões numa permuta que incluía um terreno de valor imensurável. Tratarei dele na conclusão.

Antes é preciso dizer como o preço diminuiu tanto e qual foi a importância da sociedade civil no desconto. Membro dos grupos que há anos defendem a criação do parque, o urbanista Augusto Aneas deu a receita da militância no blog da Raquel Rolnik e aqui destaco os ingredientes jurídicos e fiscais acatados pelo Ministério Público na pessoa do promotor Silvio Marques: questionar o Direito de Protocolo, mover Ação Civil pública pedindo indenização pelo fechamento irregular da área, fazer valer o IPTU progressivo. Financeiramente falando, tais medidas criaram o risco do molho sair mais caro que o frango, ajudando as construtoras a optarem por um acordo.

A compreensão de tamanho êxito, de novo citando o professor Caldana, é fundamental para a gente seguir avançando sem banalizar a vitória do tripé sociedade civil, poder público e iniciativa privada, sob o risco da “impressão de dinheiro” inflacionar o preço da terra e de outros ativos na cidade. A Lei Cidade Limpa, por exemplo, se voltasse a ser levada a sério, poderia ser usada na recuperação de fachadas como a do edifício Copan e até na conta de subsídios para o transporte público.

O terreno da prefeitura cuja fração chegou a ser cogitada como moeda de troca na permuta de R$ 120 milhões proposta pela gestão João Doria precisa ser contabilizado nas comemorações da criação do Parque Augusta. Trata-se de uma joia da cidade, a poucos metros de um encontro raro de metrô, ônibus e trem, em frente à Marginal do Pinheiros, que soma 100 mil m2 se considerarmos os 50 mil m2 do governo do estado. Com o acordo, ele está livre para ser pensado inteiro.

Pinheiros tem 300 mil habitantes e população flutuante de 700 mil pessoas que vêm e vão diariamente de longe ou muito longe para trabalhar, o que significa enorme demanda por habitação próxima de onde o emprego está.

Há exatamente um ano havia no caixa da prefeitura R$ 125 milhões da Operação Urbana da Faria Lima carimbados para Habitação de Interesse Social, que obrigatoriamente devem ser investidos na região. E estes, somados aos US$ 25 milhões em multas que três bancos pagaram para se livrarem do processo por terem operado dinheiro ilegal do ex-prefeito Paulo Maluf, e que pelo acordo do Parque Augusta devem ser investidos em creches, formam um belo caldo urbanístico que, aposto, será caso internacional de gestão pública para os governantes que o realizarem.

Para ter uma ideia das possibilidades, também há aproximadamente um ano a prefeitura entregava setenta residências na fase 2 do Jardim Edite, na esquina da Roberto Marinho com a Berrini, com direito a escolas, equipamentos de lazer e posto de saúde no térreo, ao custo de menos de R$ 10 milhões.

Haverá um PIU (Plano de Intervenção Urbana) para definir o destino do terreno em Pinheiros e a lição que fica da solução do Parque Augusta é que todos devemos participar. Sociedade, poder público e iniciativa privada, juntos pela valorização da cidade. Ou da casa da moeda à casa de todos nós. Minha sugestão está posta.


Léo Coutinho, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie

 
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