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O brasileiro é conservador

A construção clássica da mentira pede sua repetição exaustiva até que se torne verdade. Outro esquema, também antigo mas menos evidente, e por isso às vezes mais perigoso, é ocupar o meio-campo dos fatos e expandir a posição até dominar o jogo.

O exemplo do dia é o campo conservador. Sob a constatação de que a maioria da gente é conservadora, radicais repetem o óbvio ao mesmo tempo em que assumem a condição conservadora a fim de parecerem seus defensores exclusivos.

Ora, o conservadorismo pode ser um instinto básico se entendido como de preservação ou sobrevivência. Qual ser vivo não quer se conservar vivo e pela vida luta com todas suas forças?

Na solidariedade com a natureza vamos no mesmo sentido. O ambientalista que entende o mundo como sua casa e dele se sente inseparável, lutando pela conservação e restauração da flora, da fauna, da água, e do ar, é o que senão conservador?

Nos costumes, o casal homoafetivo que sonha em andar de mãos dadas, constituir família, casar com solenidade se possível religiosa, ter filhos e viver em fidelidade de ararinha-azul é o que, meu deus do céu?

Por falar Nele, cá pra nós brasileiros, a religião mais frequente é a Católica, instituição com mais de dois mil anos. Tem um chefe sentado na Cadeira de São Pedro, formado na Companhia de Jesus e cuja missão é conservar a mensagem de Cristo. Escolheu o nome de Francisco e fala sempre em defesa do ser humano, da natureza, do amor incondicional que o Nazareno pregou. Alguém pode ser mais conservador do que o papa?

Em política ocidental o exemplo de conservadorismo mais destacado talvez seja a Coroa Britânica. O que vem de lá? O casamento mais recente foi do príncipe Harry com Megan Markle, uma menina norte-americana, plebeia, descendente de africanos e ex-atriz.

Quando vazaram as cartas do príncipe Charles, herdeiro do trono, viu-se que todo conteúdo era voltado para preservação da natureza e patrimônio histórico da Inglaterra.

A rainha Elizabeth II é a monarca mais antiga no mundo, no trono há 65 anos e Governadora Suprema da Igreja da Inglaterra, protestante. As escolas da Igreja Anglicana, espalhadas por todo o mundo e preocupadas em formar elites que defendam seus valores, determinam que a infância é sagrada inclusive em sua imaginação; logo, se uma menina quiser brincar de Lorde Nelson, e um menino de princesa Diana, ninguém deve interferir.

O problema da ocupação do campo conservador e do sequestro do adjetivo por um determinado grupo está em excluir suas várias formas. No campo ambientalista, quem é a favor de desmatamento, se diz conservador. Nos costumes, quem nega o direito de constituir família a pessoas do mesmo sexo, se diz conservador. Alguns católicos que se dizem conservadores acusam o papa de ser socialista. Súditos da rainha na Inglaterra e alhures sobem no caixote para atacar seu reinado negando a intenção de S.M. em conservar a Coroa.

Pior: o efeito do não reconhecimento de uma zona cinza, como se tudo só pudesse ser preto ou branco, ditos progressistas negam a possibilidade de um fazendeiro zelar pelo meio-ambiente, ironizam o gay que quer “namorinho de portão”, cobram do papa a correção imediata de uma história de dois mil anos, debocham de Megan Markle por se submeter aos ritos tradicionais da Coroa.

A riqueza das coisas da vida está na complexidade. Na semana passada a Associação Nacional de Travestis e Transexuais publicou um filme inspirado no clássico Meu Primeiro Sutiã, criado pela dupla Camila Franco e Rose Ferraz para W/Brasil. Na parodia, uma menina trans ganha o primeiro sutiã do pai como símbolo de reconhecimento de sua identidade de gênero. É lindo e emocionante como o original.

De novo, problema. Radicais de um lado e de outro esculhambam a peça. Uns falam de incentivo à cultura do gayzismo, outros que o sutiã é um elemento de opressão da mulher. Não fosse virtual, o filme seria queimado numa fogueira pública.

A mim parece urgente definir quem são os conservadores e progressistas de fato, e tratar de conversar sobre convergências. Entre trancos e barrancos a humanidade avançou sempre que isto foi possível. Estamos mal na foto, mas o filme é bom.

Meu palpite é que a maioria assim espera e, quando voltar a ser possível, muita gente seduzida pelos pseudo conservadores e pseudo progressistas, na verdade – e com o perdão da redundância – radicais reacionários e revoltados, voltará ao diálogo e chegará a bom termo.

 
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Os limites de Bolsonaro

Dentro de alguns dias poderemos vislumbrar os limites do bolsonarismo. O tema é preocupante e tem a ver com algo que precede qualquer outro assunto, incluindo economia, emprego, educação, saúde, segurança, infraestrutura.

A sinalização no horizonte curto dirá o que será da democracia e da liberdade no Brasil sob Bolsonaro. Ou quanto do todo que representa ele estaria disposto a realizar e qual seria o ritmo pretendido.

Falo do caso do turco Ali Sipahi, preso preventivamente pelo Estado brasileiro desde o dia seis de abril, a pedido do governo Recep Tayyp Erdogan, que requer sua extradição sob acusação de terrorismo por ligação com o Hizmet, entidade presente em mais de 160 países e só considerada terrorista na Turquia.

Sipahi é brasileiro naturalizado e pai de brasileiro. A Procuradoria se recusou a liberta-lo mesmo com tornozeleira eletrônica e retenção do passaporte. O ministro Edson Fachin marcou para o 3 de maio a oitiva que deflagra o processo no STF. Se a corte decidir que não cabe extradição, assunto suspenso. Mas se permitir, caberá ao presidente da República autoriza-la ou não.

Diplomaticamente é uma sinuca. Apesar das afinidades Bolsonaro e Erdogan no nacional-populismo que se declara “de direita”, o brasileiro se alinha aos Estados Unidos e Israel, enquanto o turco é adversário de ambos e mantém laços com o nacional-populismo latino-americano declarado “de esquerda”, como o lulismo e o bolivarianismo.

Se tais relações sugerem uma fronteira clara, vale lembrar que Erdogan também é próximo do presidente russo Vladimir Putin, cujas relações pessoais com Donald Trump, idolatrado por Bolsonaro, não sabemos quais são. Sinuca de bico.

E tem mais.

O Estado americano garante asilo político e proteção a Fethullah Güllen, clérigo mulçumano moderado da Turquia e líder do Hizmet. Prega humanização baseada na espiritualidade islamita exercida através de cultura, educação e, óbvio, religião.

No começo do século Güllen ajudou na ascensão de Erdogan, mas de lá pra cá acabou se afastando, tornando-se inimigo do governo e, em 2016, foi declarado terrorista sob a acusação de conspirar a frustrada tentativa de golpe militar na Turquia.

O motivo alegado por Erdogan para o pedido de extradição de Ali Sipahi do Brasil é sua ligação com o Hizmet de Fethullah Güllen.

Uma intenção declarada por Jair Bolsonaro é considerar terroristas grupos de oposição à sua agenda. Na quinta-feira 18 de abril, repetiu no Facebook que pretende tipificar atividades do MST e MTST como de grupos terroristas.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro, presidente da Comissão de Relações Internacionais da Câmara e ministro oficioso do Exterior, tem um Projeto de Lei que relativiza a tortura, criminaliza o comunismo e torna criminoso quem “fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos como a suástica, a gamada, a foice e o martelo ou quaisquer outros meios para fins de divulgação favorável ao nazismo ou ao comunismo”.

Se Ali Sipahi foi considerado terrorista por frequentar os centros culturais do Hizmet ou, conforme a tradição turca, receber presente de casamento em dinheiro de um membro, pode-se imaginar que pelas ideias da BolsoFamília o mesmo valeria para o brasileiro que comprou escarola orgânica na feirinha do MST, emprestou um livro de Marx, vendeu ou vestiu uma camiseta do Che Guevara, figurou numa campanha do Banco do Brasil.

Memória: depois do 11 de Setembro os Estados Unidos sob George W. Bush criaram licenças para, em nome da segurança, invadir a privacidade dos cidadãos e oficializaram a tortura nos campos prisionais de Guantánamo. Entre Bush e Trump, Barack Obama teve oito anos para acabar com Guantánamo e não conseguiu.

Mais memória: a gente se engana em pensar que ideias radicais dependem de maioria. No livro O Terceiro Reich no Poder o historiador Richard Evans mostra que Adolf Hitler nunca teve mais do que 10% de musculatura ideológica. Mas na eleição de 1930 somou outros 10% de eleitores que consideravam o sistema político corrupto e ineficiente. Dois anos depois dobrou a meta e chegou a chanceler atraindo a classe média apavorada com a ameaça comunista. Pior: judeus, peões e outras minorias, assustadas com seu crescimento, acabavam apoiando os comunistas para frear o nazismo, fortalecendo a compreensível paranoia burguesa, posto que o socialismo soviético, ali vizinho, foi terrível. Deu-se a tempestade perfeita que consagrou o nazismo e precisou da Segunda Guerra para voltar à bonança.

Com o Bolsonaro é tudo muito parecido. Como Erdogan, ele provoca militares e persegue adversários. Como Bush, relativiza a tortura. Como Trump, usa o twitter para confundir, não para comunicar. Como Hitler, tinha em torno de 20% quando veio o atentado à faca de ex-integrante do PSOL e Haddad do PT disparou.

Quem supõe que exagero, fique à vontade. Minha torcida íntima é para que de fato eu esteja exagerando o futuro, apesar da clareza dos fatos presentes e passados.

Se, na pior das hipóteses, o Supremo permitir a extradição de Ali Sipahi, Bolsonaro poderá sinalizar logo quão disposto está em fortalecer sua narrativa histórica. Com a popularidade em franca decadência, ele tem pressa, e esta é proporcional e inseparável da fome de seus apoiadores ideológicos, que nos grupos de WhatsApp não lhe dão trégua.

 
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Forças Armadas deveriam se proteger

O youtuber Olavo de Carvalho não está errado nos comentários que fez sobre a ditadura militar. Foi mesmo uma catástrofe em todos os sentidos: político, cultural, econômico, moral, humanitário.

Igual a tudo na vida, teve pontos positivos, como em infraestrutura, mas porque grandes obras eram possíveis sem processo legal. E mesmo assim não foi lá essas coisas. Teve Transamazônica, Minhocão, Itaipu saiu sem eclusa, há gente morta e concretada nas fundações da ponte Rio-Niterói.

Talvez OakLavo tenha exagerado na forma ou ao colocar todos os militares no mesmo balaio, enquanto muitos deles foram cassados e perseguidos pelo regime. Mas se a gente entender que ele fala de quem participou diretamente da ditadura, noves fora a paranoia comunista, a fala chega perto de ligar lé com cré.

Errado está o chefe de Estado em endossar ataques chulos às Forças Armadas. Errado está Jair Bolsonaro em defender os episódios mais terríveis do período. E pior ainda agora é ver os dois, chefe de Estado e pessoa física, dançando a lambada da incoerência.

O ataque tinha um alvo óbvio: o vice presidente Hamilton Mourão. O general se comporta como sempre se comportou: mal. Não foi por falta de aviso. Como se não bastasse o histórico de insubordinações e despautérios, ainda em campanha admitiu com todas as letras a dificuldade em observar os limites das cadeiras onde se sentou.

Curioso é que, ora em papel moderado, Mourão incomode mais do que enquanto foi radical. E que o presidente, que chegou a 60 milhões de votos fazendo crer que os absurdos que se acostumou a dizer era da boca para fora, uma vez no palácio confirme ser tudo o que sempre foi.

Em apenas 48 horas recentes, Jair Bolsonaro falou contra turismo gay, incentivou turismo sexual, atacou as ciências humanas, cancelou uma campanha publicitária que fora pensada, estudada e que custou ao Banco do Brasil R$ 17 milhões – sem contar o prejuízo institucional e o desrespeito à lei das estatais.

(Obedecendo ao chefe, o presidente do BB, Rubem Novaes, prevaricou e pode ter entrado na mira do MPF e da CVM. Precavido, o ministro da Secretaria de Governo, general Santos Cruz, tratou de desautorizar a ordem de seu subordinado, o secretario de Comunicação Fabio Wajngarten, que foi além e disparou circular ordenando que todos os órgãos federais, inclusive as estatais, submetessem suas campanhas à Secom.)

Tamanha confusão, que remete aos tempos da ditadura militar, parece não ensinar nada ao governo. Se, como OakLavo e Bolsonaro endossou, os vinte anos de autoritarismo fizeram tão mal à imagem do Exército, em apenas cem dias a instituição perdeu 13 pontos da popularidade que custou a restabelecer. (Piauí)

Para além de tudo isso, o fuzilamento com oitenta tiros de Evaldo Rosa, que também matou o bravo Luciano Macedo, que desesperado com a cena e correu para acudir; a prisão do tenente-coronel que traficava armas no Espírito Santo e no Rio de Janeiro, e que foi o responsável pela fiscalização de armas e explosivos nesses dois estados sem que o Exército desconfiasse; como não desconfiou do vizinho miliciano do presidente que matou Marielle e Anderson e tinha 117 fuzis, ou das súcias bolsonaristas com o Escritório do Crime em Rio das Pedras, contribuem ainda mais para o desprestígio das Forças Armadas.

Uma pena. Numa democracia as Forças Armadas são uma das instituições autorizadas pelo povo a exercer a força, relação que exige confiança plena. Ao falhar assim grosseiramente, fazem mal proporcional, isto é, pleno.

 
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Justiça nega pedido de Flávio Bolsonaro para interromper a investigação sobre Queiroz

A Justiça negou o pedido de Flávio Bolsonaro para interromper a investigação sobre Queiroz. O repórter Fábio Grellet conta em detalhes no blog do Fausto Macedo.

Antecipo aqui algumas pérolas. O senador, membro da BolsoFamília mais enrolado com as súcias milicianas, acusou o MP de vazamento ilegal de informações sigilosas para a imprensa, e o COAF de acessar seus dados bancários sem autorização judicial.

Não é uma beleza? Logo um membro do clã que teve as eleições ajudadas pelo levantamento parcial do sigilo da delação de Antonio Palocci às vésperas da votação, e justamente pelo juiz que viria a ser ministro-estrela de seu pai.

Sim, Sérgio Moro, que, segundo o General Mourão, combinou com PaGue sua ida para o governo ainda durante a campanha.

Ministro Moro, símbolo da Lava Jato, operação que nos desdobramentos fluminenses prendeu quatro governadores, dezenas de deputados, presidente da Alerj e do Tribunal de Contas mas que, curiosamente, não viu os rolos de Flávio Bolsonaro.

Lembrando: o relatório do COAF chegou ao MP-RJ em janeiro de 2018 e rendeu pela operação Furna da Onça a prisão de dezenas de deputados, mas a parte dos Bolsonaro, Michelle e Queirozes só veio a público depois das eleições, em novembro daquele ano, com pouco mais de trinta páginas. Entre novembro de 2018 e fevereiro de 2019, o mesmo processo gerou 300 páginas, um pen-drive e um DVD.

Valendo um ano de rachadinha num gabinete bolsonarista, a freguesa apostaria que o chefe da Lava Jato em Curitiba sabia desde janeiro de 2018 ou não?

Quando ouço que Moro estaria aborrecido com a possibilidade de perder o COAF para o PaGue, me resta dar risada. Está é exultando com a transferência, que o livra de ter que falar sobre o assunto – ou minimamente adia o enfrentamento da responsabilidade.

 
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Dizem que PaGue é inteligente.

Dizem que PaGue é inteligente. Pode ser. Mas sempre que alguém chega com tal impressão, me lembro da fala de um personagem do Luís Fernando Veríssimo: Sou rico, por isso me chamam de doutor.

Eu nunca aprendi ganhar dinheiro e tenho horror a negociação. Pergunto o preço das coisas. Se está acima do valor que atribuo, agradeço e me retiro. Até porque prefiro gostar das pessoas pego bode de quem dá desconto.

Por outro lado, se um possível cliente oferece muito menos pelo que eu acho que vale o meu trabalho, deixo a conversa esfriar até morrer.

Mas em teoria, igual a todo mundo, sei como funciona a negociação. Um lado bota gordura para queimar e o outro, se desdenha, quer comprar.

Este é o campo profissional do PaGue, que ficou milionário negociando capitais e, ora ministro, vendendo sua Nova Previdência, mais de uma vez falou que a ordem era “nunca ceder, jamais recuar”.

Então é no mínimo curioso que, ainda antes da fase preliminar da reforma, ele tenha assumido a obesidade do texto original, ou seus “jabutis”, em linguagem parlamentar.

Depois, já na CCJ, o governo cedeu em quatro pontos, sinalizando que o texto sofre de obesidade mórbida.

Mais: paquidérmico delírio, adotou o jogo do trilhão como a pena do Dumbo para o Brasil voar. O amadorismo aí é duplo.

Primeiro porque não passa de fantasia e, ao contrário do que acontece no velho mercado, em política fantasia custa caro. Ato contínuo, foi ridicularizado pelo próprio chefe, que fala abertamente em R$ 800 bi. Ou pela própria equipe, que na apresentação (ainda parcial) dos cálculos, fez outra mágica mudando o período projetado, agravando o custo político da falta de transparência.

Depois porque, se na iniciativa privada inflar expectativas de retorno é a praxe, na vida pública convém ser prudente. O esquema é óbvio: na vida privada os potenciais compradores de uma ideia precisam ser convencidos a botar dinheiro na frente; na vida pública o convencimento passa por combinar com os compradores da proposta, na frente, onde os recursos projetados serão investidos – e a conta de cada quinhão parte do número anunciado.

Não tem necessariamente rolo aí. É legítimo que os deputados queiram uma parte do bolo para investir em educação, saúde, infraestrutura etc em seus estados, e que topem trocar, por exemplo, verba para construção de escolas pela mudança no abono salarial de um estrato significativo de seus representados.

Mas PaGue finge que não entende e segue tentando tratorar. Segundo O Globo, na segunda-feira 22 ele apareceu no meio de uma reunião onde o Presidente, o governador, um senador e deputados de Roraima tratavam da reforma e, percebendo que se fazia política, mandou: “assim vocês vão parar lá no Sérgio Moro.” Depois se desculpou, mas era tarde, e teve que ir embora antes do final da conversa. Logo ele, que outro dia afirmou ter a convicção de que não roubou um centavo.

 
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A velha charla do Novo

A velha charla do Novo
Incomodado com o que sugere ser injustiça da imprensa com seu correligionário, João Amoêdo 30, dono do NOVO 30, reclamou da falta de notícias sobre a decisão do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, não morar no Palácio das Mangabeiras – como se a despesa para manutenção do palácio sumisse junto com a ausência do mandatário…
Na verdade é possível que a despesa aumente, dada a obrigação da PM em criar um aparato especial para a segurança do governador em sua residência particular.
O mesmo acontece com João Doria PSDB, que ficou em sua chácara no Jardim Europa, onde a PM mantém guarda 24/7. A ala da residência no Palácio dos Bandeirantes o governador paulista pintou de preto e arranjou um puxadinho para o secretário Henrique Meirelles MDB Nacional despachar, como alternativa ao pedido do banqueiro para usar helicóptero no deslocamento diário entre o Alto de Pinheiros e a rua Boa Vista – trecho bem servido de trem trem e metrô.
Quem melhor respondeu ao partido Novo foi o Bernardo Mello Franco hoje n’O Globo, lembrando casos célebres da marquetagem.
Fernando Collor morou na Casa da Dinda e Sérgio Cabral preteriu Laranjeiras em favor do Leblon, de onde só sairia de camburão. E ontem a PGR recomendou estadia de 22 anos para Collor na Papuda.
Eu incluiria na lista Paulo Maluf, que preferiu morar na rua Costa Rica do que no Palácio dos Bandeirantes. Coincidentemente, agora só pode deixar o imóvel para tratar da saúde no hospital Sírio Libanês.
Ainda sobre a turma do Novo, o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles esteve ontem no programa da Andréia Sadi, na GloboNews, contando que às segundas e sextas-feiras despacha em São Paulo, tendo a facilidade de ir a pé (ótima medida) à sede do Ibama, sua vizinha em Cerqueira Cesar. O imóvel de luxo é da União e não está à venda.
Em tempo: apesar das alegorias e da máxima “pobre gosta de luxo, quem gosta de pobreza é intelectual”, Joãozinho 30 nunca foi foliado ao partido Novo.
 
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Dragão tatuado no braço ou Cartucho no divã

Carlos Bolsonaro tem a cara do pai, Jair Messias, tatuada no braço. Mas até por definição esta não é a marca mais profunda na relação.

Quem tem pais separados ou já se separou sabe que o processo pode acabar bem, mas dificilmente termina livre de mágoa e sua memória nunca se apaga.

A mesma coisa pode-se dizer da adolescência, período agudo na formação da personalidade de qualquer pessoa dada a profusão de transformações e percepções – biológica, sociológica ou psicologicamente falando.

Mais raras são as pessoas que já passaram por disputas eleitorais dentro de uma campanha. Eu já passei por várias, duas como candidato, e afirmo: é duro. No final, com qualquer resultado, leva um tempo para controlar a inércia emocional.

Quem nunca esteve dentro de uma campanha, pense em como a última abalou seu ânimo e relações pessoais. E então multiplique sem receio de exagerar. Entre outros motivos, este explica por que a política é arte para gente grande.

Agora tome um menino de dezessete anos que, a pedido do pai, concorre a vereador contra a própria mãe, no âmbito do divórcio de ambos. É o caso de Carlos Bolsonaro.

Não dá para afirmar, mas considerando que ele é o filho ZeroDois, pode-se supor que o ZeroUm recusou a missão – o que aumenta o crédito emocional do filho em relação ao pai.

Tudo isso talvez possa explicar o sentimento de Carlos em relação a Jair Messias. E, pela pessoa, outra coisa diferente de compaixão ninguém há de sentir.

Do lado do pai, que tanto exigiu do filho, recebeu e é devedor, mais compaixão. Fez, está feito e, dado o amor envolvido, só posso oferecer minha solidariedade.

Ocorre que a vida privada de pai e filho diz respeito aos dois e só os dois podem resolver. Já a vida pública de um vereador do Rio de Janeiro e a do presidente da República diz respeito a todos os brasileiros, com o agravante de milhões desempregados, desalentados, desesperados. E, definitivamente, não merecem sofrer ainda mais por um problema que é privado e que não deveria consumir a popularidade do governo que tanta expectativa criou.

Para além disso é inacreditável, mesmo considerando este período surrealista, que um vereador sequestre o avatar do presidente da República – que basicamente foi o eleito – e fale ou cale em seu nome, inclusive endossando vídeo com ofensa às Forças Armadas e, contrariado, suma por alguns dias até ser descoberto num clube de tiro em Santa Catarina.

Fosse na vida privada, em família ou numa empresa, o sensato seria impedir que tais pessoas tomassem qualquer decisão. Na vida pública é inaceitável que autoridades, incluindo a autoridade máxima, proceda assim. Mas é também mais complicado. Tarefa para a política resolver. De novo: política é arte para gente grande.

 
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Queres conhecer Inácio, coloca-o num palácio

O Barão de Itararé segue clássico e em 2019 não poderia ser mais atual.

Abaixo, seleta das homenagens recebidas pelo autor da máxima-título, todas fresquíssimas.

O partido Novo abre a série por ser a mais fresca e pela malandragem da escolha do nome da legenda, que no fim das contas não tem outro significado além do embuste tradicional.

Em campanha, seus candidatos falavam em vender ou conceder, vejam vocês, os palácios e aeronaves dos governos que alcançassem. Como imaginavam ser impossível vencer qualquer um, falavam grosso como só aos irresponsáveis é permitido.

Daí, deu ruim. Romeu Zema driblou os correligionários, lançou o voto Bolso-Zema e ganhou Minas Gerais. Azar dos caciques, que não querem saber de trocar Ipanema pelos confins da Cidade Administrativa, e vão gastando a imagem com o político inepto.

O governador mineiro não foi à posse do presidente da República alegando corte de despesas. Charla brava. Podia muito bem fazer um bate-volta até de helicóptero, como já fez sem urgência o seu vice Paulo Brandt, também do Novo.

Mas a maravilha da cara-de-pau veio na Páscoa, quando um helicóptero do estado passou em Macacos para apanhar Brandt e senhora e levar até Ouro Preto. Desculpa: o casal encerrava estadia num spa que fica na rota.

Questionado, Romeu Zema agora diz que, dada as dimensões mineiras, o uso de aeronaves é “imprescindível” ao governo. Resta saber quando ele se deu conta do tamanho do estado e – perguntar não ofende – se mantém a ideia de transformar o palácio do governo em hotel ou, quem sabe, spa.

Cairia bem ao partido Novo, que apareceu falando em corte de despesas e agora se dedica ao corte de calorias.

A mesma coisa pode se dizer de João Doria, que se elegeu governador em SP acusando seu adversário Márcio França de ser “socialista e esquerdista”, quando o próprio França, um ano antes, articulou a coligação que elegeu Doria prefeito.

Primeiro ato de Doria na formação da base do governo na Assembleia Legislativa? Acordo com PT para controlar a Casa.

Vale citar Sérgio Moro, que enquanto juiz considerava caixa dois pior que corrupção, e agora diz que não é tão grave e até perdoa o colega corrupto confesso que pede desculpa.

E o professor Paulo Guedes, que falava tanto em mais Brasil, menos Brasília, descentralização como forma de virtude administrativa etc? Agora ministro PaGue, sinalizou com R$ 40 milhões em emendas para cada deputado que votar a favor de sua reforma da Previdência.

 
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Fila e fox

Durante a minha infância eram dois os cachorros na casa dos meus avós paternos: um fila brasileiro e um fox paulistinha. Este era uma gralha, latição sem fim, não parava quieto. Já o primeiro quase não latia e, como um leão, passava a maior parte do tempo em repouso.

Eu poderia ter resolvido a imagem do primeiro paragrafo usando o popular “cão que ladra não morde”. Mas o élan é importante. Ajuda viver.

Qualquer pessoa sensata teria mais cuidado com o fila do que com o paulistinha, não só pelo tamanho dum de doutro, mas pelo comportamento. Latindo por tudo, no fim das contas o paulistinha latia por nada, e nem como alarme funcionava mais. Já o fila cumpriu seu papel na vida deitado, porque ninguém foi imprudente a ponto de provoca-lo para saber se de fato ele morderia.

O que eu jamais poderia imaginar é que os dois cachorros me ajudariam a comentar um governo. Jair Bolsonaro, filhos e apoiadores virtuais são como o fox paulistinha e latem sem parar. Mas noves fora a fadiga, em algum momento deixarão de ser importantes.

Meu receio é que até lá acabem aborrecendo um fila a ponto de provocar uma reação. E tanto mais receoso eu fico quando os provocados agem exatamente como um fila, impávido, que não passa recibo e só se levanta para resolver – do seu jeito.

A lista de provocados é ampla. Já descontando os pacíficos, que lutam no plano das ideias, como imprensa, academia, demais poderes, provoca-se Venezuela, Hamas, Centrão, crime organizado e agora os militares.

Se há estratégia, só pode ser o desejo de um contra-ataque que justifique um endurecimento que permita governar sem contraponto. A receita é velha e costuma funcionar.

Mais assustadora do que as provocações é a resposta moderada dos provocados: Nicolas Maduro fazendo diplomacia para reabrir a fronteira, Hamas publicando carta elegante, Centrão articulando enquanto a suposta base se consome, armistício entre facções criminosas, militares investindo em relações públicas.

Quem acreditar que qualquer um deles está com medo do Bolsonaro ganha um fox paulistinha para cão de guarda.

 
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Quem advogou, advogou; quem não advogou, não advoga mais

Desde 1928, data de fundação das nossas primeiras faculdades, de cada cem vagas criadas para alunos de Direito, dezesseis foram abertas só nos últimos quinze meses.

16% também é o índice de aprovação dos inscritos no último exame da Ordem dos Advogados do Brasil, que por sinal recomenda apenas 161 dos mais de 1.500 cursos que funcionam no país.

Tais restrições, no entanto, não impedem a chegada de milhares de novos advogados ao mercado de trabalho. O Brasil é vice-campeão mundial em número de advogados, com um para cada 174 habitantes.

O presidente em exercício da OAB, Luiz Viana de Queiroz, não poderia ter sido mais direto no diagnóstico, e chamou “estelionato” o que as faculdades fazem com seus alunos e famílias. Rodrigo Capelato, diretor da SEMESP, entidade paulista das mantenedoras do ensino superior, não aliviou: “Um curso tecnológico de estética e cosmético deve empregar mais que um de Direito, mas existe uma cultura do bacharelado.”

Informações mais detalhadas você encontra na matéria da repórter Angela Pinho para a Folha de ontem. E eu sigo daqui, agravando o problema.

Há alguns anos a IBM criou Jill Watson, um computador com capacidade cognitiva que, lá em 2011, já vencia concorrentes humanos no jogo Jeopardy!, tipo de Show do Milhão da TV americana.

Em 2017 Watson se tornou pai orgulhoso de Ross, o primeiro robô advogado contratado por uma grande banca nos EUA. Especializado em falências, Ross foi trabalhar no Baker & Hostetler, banca com quase mil advogados. Um dos sócios, a princípio cético sobre a capacidade do colega eletrônico, resolveu testa-lo num caso novo, para o qual estudou por dez horas. Ross chegou ao mesmo resultado, só que instantaneamente.

Ross tem uma irmã brasileira chamada Carol, robô que trabalha no Urbano Vitalino, escritório tradicional do Recife, presente em várias capitais e no exterior, que lida simultaneamente com mais de cem mil processos, e cujas tarefas repetitivas, como acompanhar publicações diárias e ajusta-las aos casos da banca, estão por conta de Carol, a filha de Watson radicada no Pernambuco.

Famílias de computadores como a de Watson vão se esparramar pelo mundo e tomar conta da advocacia. Aplicativos de mediação de processos trabalhistas já são uma realidade. Outros tantos virão. Daí o título da crônica: quem advogou, advogou; quem não advogou, não advoga mais.

Está difícil precisar prazo para o estabelecimento de novas tecnologias, e por isso convém duvidar de quem se arriscar a dizer exatamente quando vai acontecer. Mas  “se” vai acontecer já não é uma questão.

Obviamente alguns casos hão de sobreviver, como o do grande especialista criminal que defenderá um acusado de crime de sangue muito criativo. Ou o do casal bilionário que vai se separar litigiosamente. O mais, a gente ordinária, vai caminhar como sempre caminhou desde que a humanidade adotou a roda.

De novo, excentricidades existirão, como quem ainda usa caneta tinteiro, fogão à lenha e automóvel próprio. Tesão é uma questão de custo, não de razão. E também sempre haverá o estelionato citado pelo presidente da OAB, encontro charmoso de um tipo esperto com outro mais esperto ainda.

Resta saber qual será a profissão dos estudantes de Direito. E desde já nota zero para quem pensar em concurso para juiz. Ou por outra: o Supremo Tribunal Federal, apesar dos onze ministros muito famosos, tem um camisa doze ainda desconhecido.

Chama-se Victor sua décima segunda excelência, e despacha desde agosto do ano passado na Praça dos Três Poderes. É um robô e foi batizado em homenagem ao falecido ministro Victor Nunes Leal, percussor da sistematização da jurisprudência da Corte em sumula, função que seu afilhado deve continuar trabalhando 24/7, celerizando ao infinito os trabalhos jurídicos.

 
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