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Liberdade e lágrimas

A piada era sobre uma pesquisa com a população carcerária. Deu que 5% queriam a liberdade, e 95% a Libertadores. Claro que o Corinthians disputava o campeonato sul-americano e algum são-paulino saiu com esta.

Adoro o Corinthians. Não fosse santista por tradição e Botafogo por devoção ao Garrincha, torceria para o Timão. Me redimo sendo Boca na Argentina. Nunca vi uma partida inteira mas sou Boca. Também não vi do Santos nem do Fogão. Mas torço.

Lembrei da piada porque não aguento mais ficar aqui no pavilhão um. Não posso reclamar mas não aguento. Tá puxado. Não aguento. Levo vida mansa e não aguento. Tem banho de sol, de banheira, comida boa e birita. Mas não aguento. Quero sair, mas não saio.

Não aguento é ver essa cambada que o Brasil elegeu em 2018. Como pode Doria, Zema, Witzel? Em 1982 eu era uma criança e lembro bem da nossa alegria com a esperança que havia. Fazíamos coisas boas. Elegemos Montoro em SP, Tancredo em MG, Brizola no Rio. E hoje temos que aturar esses três panacas.

O do Rio parece que já caiu. Se o processo de impeachment for igual ao federal, estará afastado amanhã depois que a Alerj aprovou a abertura dos trabalhos. Assume um cantor advogado católico. E se concluído anda este ano, haverá eleição para governador em plena pandemia.

Voltando à tenra idade e às piadas. Com Sarney e Aids, a turma brincava dizendo que tinha saudades do Figueiredo e da gonorreia. Se bobear não era piada. A cretinalha costuma raciocinar relativizando o ruim com o pior. A eleição do Bolsonaro é isso. Sentimento de vingança, falta de empatia, ódio à igualdade, à democracia.

Doria, Witzel e Zema são a mesma coisa. Podem os dois primeiros estarem de mal com o Bolsonaro hoje, mas são a mesma coisa. Não me venham dizer que são 70%. Porra nenhuma. Perdoe o vocabulário, freguesa, mas porra nenhuma. São farinha do mesmo saco e, como já anotei aqui, não se divide um saco de farinha exatamente. Estão para sempre misturados.

Tanto é que com recordes diários de mortes no estado de São Paulo o irresponsável do João Doria vai relaxar a quarentena que nunca conseguiu fazer. Shopping. Amanhã abrem os shoppings. Como pode? A única explicação que eu vejo é o shopping de inverno do próprio governador, em Campos do Jordão, que abre no final do mês.

É de uma maldade tremenda. O Bolsonaro é um imbecil mas pelo menos não disfarça. Mais perigoso é o João Doria, que simula esclarecimento, fantasiado de ninja na televisão. Anda dizendo que a ocupação de leitos de UTI em SP caiu para 60%, dando a entender que o contagio diminuiu. Gente inteligente está pensando assim. Quando na verdade o numero absoluto de leitos aumentou com a parceria da rede particular de saúde, baixando os números proporcionais de leitos ocupados. Receio palavras fortes, mas trata-se de um genocídio narrativo.

Senhoras e senhores, vocês que lutem. Não temos em quem confiar. Dentro de um mês podemos ter quase dobrado o número de mortos contados até aqui. Mas até lá, com ajuda dos representantes escolhidos, vamos nos acostumar e nenhum defunto será chorado. Não haverá liberdade e tampouco lágrimas.

 
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Vá lavar um bom tanque

“Vá lavar um bom tanque!”, disse o chofer de ônibus a uma senhora que atrapalhava o tráfego no Rio de Janeiro da metade do século passado. Lá, no século 20, era sem dúvida uma sentença machista. Hoje não é mais. Serve para ambos os sexos e, se não serve, errado está quem não cuida das próprias coisas.

Não é de hoje que cozinho diariamente. Mas como eu gosto, não me incomodo em nada. Também não estreei na faxina durante a quarentena, mas admito que nesse ritmo nunca tinha experimentado. E tanto que aprendi que não sujar é tão importante quanto limpar. Pela primeira vez na vida estou usando prato para comer sanduiche.

Cama não arrumo. Prefiro desarrumada. Primeiro porque acho que tem que respirar durante o dia. Depois porque quando dá na telha ir deitar ela já está lá preparada, bastando puxar a coberta. E não, não entendo, não entendo, nunca entenderei essas pessoas que enchem a cama de almofadas. Trambolho. Sequer já espaço para guardar aquela bagulhada. E, cansado, o pobre ainda tem que ficar dando conta dela. Muito estranho.

Mas o que eu queria dizer é do caráter restaurador da faxina. Não o físico, óbvio, que regenera as coisas materiais. Falo da sensação boa do dever cumprido que a faina proporciona. Manja aquela coisa de limpar as gavetas, se libertar dos excessos. É por aí e vai além.

O esforço em limpar a casa é bom para o moral. Cura ressaca, tanto pelo circulação do sangue ou pelo bem-estar da realização de algo realmente importante. Bom para o moral e para a moral também. Ah de quem vem me amolar durante ou após uma faxina. Pode ser o papa telefonando que não atendo. Tenho mais o que fazer.

Claro que tudo isso tem a ver com ter nascido católico, de classe-média e coxinha. Tendemos  a considerar o trabalho um feito. Uma proeza. Acreditamos que o trabalho enobrece – como se os nobres trabalhassem.

O problema é que o trabalho acabou. Noves fora aquela primeira profissão, todas as demais poderão ser substituídas pelas novas tecnologias. Mais da metade já é, mas a turma segue trabalhando por necessidade ou vício. Nas repartições públicas e no shopping Iguatemi ainda há ascensoristas. Nossos ônibus têm cobradores.

A raiz cultura disso tudo, creio, é a culpa católica. Coisa do meu xará operário, o São José. Tão bonito o ofício de carpinteiro. Mas e agora, com as impressoras 3D? E agora, José? Arranjamos um problema enorme. Se José não sai de casa para ir à oficina, a que horas o Espírito Santo pode visitar Maria para conceber o Nazareno, nosso salvador?

O Domenico de Masi não disse, mas já estava preocupado com isso. Propunha a diminuição da carga horaria, por força de lei, para ir acostumando a turma a não trabalhar. Sabia que, do ponto de vista do que entendemos por produtivo, em pouco tempo seríamos inúteis. Então veio o novo coronavírus e mandou parar. Parou. Tem muita gente fazendo zoom para disfarçar. Mas a verdade é que somos inúteis. Só lavar um bom tanque nos redime.

Mais curioso: trabalhamos de graça sem nos darmos conta. Sabe aquela coisa de provar que você não é um robô, freguesa? Passamos anos reconhecendo garranchos. Sabe pra que? Para alfabetizar robôs. Trabalho bem feito, hoje eles digitalizaram todas as maiores bibliotecas do mundo, a jurispridência legal internacional, os arquivos centenários dos maiores e mais antigos jornais.

Agora reconhecemos coisas do tráfego. Faixas de pedestres, semáforos, automóveis. É tudo para habilitar carros autônomos. E o processo está bastante adiantado.

Mas o problema não é exclusivamente social. Tem o lado mais amplo, econômico. Nossa cultura atrela trabalho à renda. Mesmo com a gente trabalhando de graça para fazer meia dúzia de bilionários no Vale do Silício. Mesmo com mais da metade da população trabalhando de sem ganhar tostão desde que o mundo é mundo. Tivemos escravos, sim. Tentamos acabar com isso mas ainda há quem resista. Porém principalmente ainda toleramos que as mulheres trabalhem, muitas vezes em jornadas duplas, sem ganhar nenhum por cuidar das crianças, dos velhos e das casas.

É importante investir em desenvolvimento tecnológico para a vida melhorar. Mas junto com essa melhora, igual a tudo na vida, vem a degradação de outras frentes. A concentração de capital fica inevitável. A precarização do trabalho grassa. E como poderemos manter a economia girando se cada vez mais pessoas são expulsas da atividade econômica.

Só a renda básica pode nos salvar. E nos salvar, enquanto sociedade, depende de salvar a economia e, antes, o meio ambiente. Quem tiver outra solução, por favor apresente.

E, se for muito difícil para o cristão ganhar sem trabalhar, vá lavar um bom tanque que passa. Garanto.

 
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Irmã Dulce e eu neste domingo da quarentena

Com receio deste domingo, não fui para a cama. Dormi sentado no sofá sem sequer esticar as pernas. Estou treinado. Faz mais de ano que estou assim, receando o dia seguinte, tentando evita-lo.

Confortante é ter aprendido logo, a ponto de acordar sem qualquer torcicolo. Isso na parte física. O conforto espiritual vem da santa Irmã Dulce, que dormiu quarenta anos numa cadeira de pau. Eita virtude. Não chego a tanto. Durmo sentado, mas no estofado.

Aqui na casa materna é tudo estofado. Há um fetiche europeu. Até as cadeiras de palhinha dos nossos ancestrais ganham almofadas por aqui. Não reclamo, mania é mania, a gente deve achar graça. Mas não dá pra entender. O assento de palhinha é uma das grandes coisas deste país tropical. Fosse mais usado, teríamos menos brotoejas.

Advirto, porém, que esta freguesia não se arrisque a nos imitar. Digo Irmã Dulce e eu. A prática requer certos cuidados. Providências indispensáveis. Por exemplo, de ontem para hoje me preparei com uísque, guarânias paraguaias que achei num aplicativo ótimo chamado spotfy e deixei a chalana à deriva. Recomendo. Ah, senador Mario Palmerio, como eu gostaria de ter integrado sua tripulação no Paranazão, Pananapanema e no próprio Paraguai.

Meu receio era com os atos de hoje. Sei bem como é difícil, pra não dizer temerária, a relação das guarnições ostensivas de polícia militar com manifestantes, principalmente se pretos e pobres. Não estivesse na casa materna, umbilicalmente ligado ao grupo de risco, teria comparecido para vaiar na rua a monstruosidade do governo atual.

Para gáudio geral, corre tudo em paz. É um domingo virtuoso. E tanto que a brava Miriam Leitão conseguiu organizar uma DR entre FHC e Ciro Gomes na Globo News. Marina Silva também está lá. Será bom para tomo mundo ver que aquela mulher aparentemente frágil é uma força da narureza, e que qualquer um desta freguesia, se nascido nas mesmas condições que ela, continuaria analfabeto, considerando a improbabilidade de ter sobrevivido. Assistam. Vou fazer o segundo daiquiri.

 
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Terraplanismo constitucional e fuzis para civis

Terraplanismo constitucional. Assim o ministro do STF e presidente do TSE Luís Roberto Barroso definiu a interpretação delirante do artigo 142 da Constituição, proposta pelo advogado Ives Gandra Martins, segundo a qual, para além dos Três Poderes da República, há previsão de um poder moderador, que seria exercido pelas Forças Armadas.

A ideia esdruxula é debatida por aí porque se comunica com a ditadura militar, também exercida pelas Forças Armadas, marcadamente o Exército, e pela presença de tantos membros da Reserva e pelo menos um da ativa dentro do Palácio do Planalto.

Também porque há, no histórico de Jair Bolsonaro, nos movimentos recentes dele próprio e mais despudoradamente do seu entorno, verbalizações cada vez mais claras do que sempre foi óbvio: ele nunca esteve brincando quando defendia a ditadura e só tem interesse em governar sem contraponto. Sua única agenda é esta.

E a coisa de espalha. O filho ZeroTrês disse com todas as letras: endurecer é questão de “quando, não de se”. Gal. Mourão meteu um artigo no Estadão explicitando como enxerga manifestações de oposição ao governo. O procurador-geral da República acompanhou – depois se retratou, mas era tarde. Paulo Guedes falou em AI-5 numa coletiva de imprensa nos Estados Unidos. O ministro da Educassão defende a prisão dos membros do Supremo. E por aí vai.

Até os moderados sucumbiram. Tereza Cristina apareceu bebendo o copo de leite que supremacistas brancos estadunidenses adoraram como símbolo do que acreditam ser a “pureza branca”. Pedro Guimarães, presidente da Caixa, idem. É curioso: o gole mais agressivo veio do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, que é pardo.

Tarcísio de Freitas, rara exceção outrora respeitável na Esplanada bolsonarista não desgruda do presidente, sem máscara, na padaria, aparecendo em manifestações que pedem o fim da democracia pelo fechamento do Legislativo e do Judiciário.

Presente e passado, juntos e misturados, puxam a atenção para o Exército (Marinha e Aeronáutica mantém distância prudente desse bando de tarados). O próprio Exército, enquanto instituição, tenta se descolar, em vão, em que pese os esforços do general Leal Pujol, seu comandante, e do ex-ministro general Santos Cruz. Porém não tem jeito mesmo. A imagem colou e agora ninguém mais sabe como se livrar da imensa bobagem que fizeram abraçando o ex-capitão desprezado por todo o alto comando.

Entretanto, não é o Exército que deveria nos preocupar diante de um provável endurecimento de regime. Ou, no máximo, as patentes intermediárias, estas seduzidas por Bolsonaro, “expulso” por atentar contra a própria arma reivindicando soldos e tratamentos melhores, dizendo por elas lutar, mas sem nada a apresentar em quase 30 anos de vida pública – a não ser para seus filhos.

As altas patentes na ativa têm compromisso com o Estado, não com o governo. E os soldados, a molecada da base da carreira, sob a adrenalina da expectativa de combate, pode até se animar, mas na linha de frente o sentimento arrefece. Mais: diante de possíveis manifestantes, como aconteceu nos EUA, exaustos de séculos de maus-tratos, se veriam diante de um espelho.

Uma das imagens que marcaram a semana foi a da mulher preta falando firme com soldados loiros do Exército dos EUA, dizendo que eles deveriam marchar ao lado dos manifestantes e não contra eles, até que todos concordaram, deram-se as mãos e se ajoelharam. Aqui, acredito, protestantes e praças, pretos e pardos, se reconheceriam quase que instantaneamente.

Mas nada disso adianta. O perigo real são as milícias e grupos paramilitares, muitos deles integrados por membros da polícias militares. Todos os casos recentes de insubordinação e/ou levante policial recentes têm alguma relação com o bolsonarismo. Nas manifestações do final de semana passado em São Paulo, Rio e Curitiba, ficou claro que as PMs têm lado, pesos e medidas diferentes para tratar manifestantes. E estes, nas cidades, ninguém segura. Nem o Exército. Nem o dos EUA.

A propósito: Jair Bolsonaro, que já vinha aumentando as possibilidades de compra de munições e dificultando rastreamento de armas de fogo, canetou há poucas horas a liberação da venda de fuzis 7.62 e 5.56, até então de uso restrito das Forças Armadas, para civis. Assim o presidente da República celebrou os três meses e mais de trinta mil mortes da pandemia. Exatamente os trinta mil que ele disse que a ditadura deveria ter matado e não matou.

Bom final de semana. Fique em casa.

 
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Classe A.B.Surda

Milhões de filhos da classe AB estão recebendo os R$ 600 da renda básica emergencial para combate à pandemia. Os malandros se cadastraram e, como o sistema do governo federal não cruza os dados dos dependentes com o do imposto de renda das famílias, foram aprovados.

O relatório do ministro Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União, responsável por fiscalizar o programa, foi aprovado por unanimidade. Na primeira versão constava que 8,1 milhões de pessoas recebem indevidamente o auxílio, mas o dado foi retirado por depender de verificação do número exato.

No texto aprovado, soubemos que a demanda das famílias pela renda básica emergencial equivale ao triplo da demanda pelo Bolsa Família, que no pré-crise tinha investimento total dezesseis vezes inferior à renda básica emergencial.

Gostaria muito de saber quantos dos malandros cadastrados eram ou são críticos do Bolsa Família. Aposto que todos. Alguns, consultados pelas reportagens dos jornais deflagradas pelo Estadão, se justificavam dizendo que não usam nenhum serviço do Estado e que assim estão no direito de pegar algum. “Gente de bem”, né, minha filha?

Já tinha acontecido com militares da ativa. Mais de 73 mil deles receberam a primeira parcela. Mas pelo menos não se cadastraram e, consta, terão o dinheiro descontado em folha.

Nos dois casos, a responsabilidade foi transferida para o “sistema”. Até pode ser. Coisas feitas às pressas, sob urgência. Agora, assumindo o risco de errar, não era o caso de errar mais e liberar quem realmente precisa das aglomerações temerárias diante das agências da Caixa?

Porém, invés de resolver isso, ou assumir o risco, o governo dedicou parte do seu esforço a firmar uma cooperação com a Amazon para que a Alexa tirasse dúvidas frequentes sobre o auxílio de R$ 600. O aparelho custa R$ 900.

Mais uma: no Rio de Janeiro surgiu um movimento interessantíssimo que se esparrama pelo Brasil: identificação de fraudadores de cotas. Jovens brancos que se declaram pretos, indígenas e /ou pobres para entrar na universidade pública ou nas particulares com direito à bolsa. Vários perfis no tuíter para quem quiser conferir as caras-de-pau.

De novo, aposto que são todos contra a política de cotas raciais. De novo, “gente de bem”, né, minha filha. Perdão por usar assim, Noel, mas é o A.B.Surdo.

 
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Contágio sanitário e político

As manifestações que explodiram nos Estados Unidos, se espalhando rapidamente por diversas cidades, de costa a costa, logo atravessaram o Atlântico e estouraram também em Paris, farol cultural das mobilizações de massa. Parisienses são bons em atos públicos. Treino, né, minha filha.

Em dois ou três dias a onda contagiante fez o caminho inverso, atravessando o Canal da Mancha e Londres se levantou contra o racismo. A agenda é histórica e segue urgente. Outros muitos levantes já aconteceram. Mas nunca em meio a uma pandemia que exige distanciamento social.

Há um recorte entre os manifestantes indicando que quem está nas ruas são as pessoas que respeitam a ciência e cumpriram quarentena, por medo de contagiarem ou serem contagiadas. Por solidariedade. E por solidariedade afastaram o medo.

No Brasil também tivemos atos no final de semana que passou. São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba especialmente. O racismo por aqui também é forte, mas as manifestações vão além, em defesa da democracia, sem a qual nenhuma vida nem ninguém está seguro.

Houve excessos em praticamente todos os atos. Não é o ideal. Mas é preciso lembrar do Brecht: muitos falam da violência das margens dos rios, poucos se lembram da violência das margens que os oprimem.

Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos outro recorte, ideológico, é visível nos atos: quem apoia as manifestações cá ou lá protesta contra os governos Bolsonaro e Trump, figuras internacionalmente deletérias.

Ideológico porém não partidário. Nos EUA, George W. Bush, representante da família mais tradicional do partido Republicano e provavelmente a mais influente das últimas décadas, com dois presidentes e vários outros membros eleitos para postos relevantes, criticou duramente a posição de Trump. Arnold Schwarzenegger, ex-governador da Califórnia e Republicano, foi ainda mais duro, mostrando que quem acena ou marcha junto de nazistas não é diferente deles.

Aqui não dá para falar em recorte partidário. O presidente da República não tem partido, assim como em meio a uma pandemia não tem ministro da Saúde. O que ele tem é uma manada ensandecida de reacionários declarados ou enrustidos que suportam seu fascismo e torcem a favor da escalada golpista.

O perigo dos levantes mundo afora neste período é uma nova onda de contágio sanitário. O vírus está por aí e, ao contrário dos nazistas e fascistas, não escolhe quem vive ou morre de acordo com suas preferências.

Saberemos dentro de uma ou duas semanas o efeito sanitário dos atos. Nos EUA já estão no nono dia e tendem a crescer; na França e na Inglaterra idem.

Considerando duas semanas ou quatorze dias, temos uma data: 17 de junho. Quem se lembra do 17 de junho de 2013 pode fazer um paralelo com a possibilidade de contagio político com o Brasil.

 
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Pandemia eterna

Que ninguém me acuse de pessimismo na pandemia. Digo, pode até alguém me acusar. Quem não me acusa sou eu mesmo e, creia freguesa possível, por aqui já é grande coisa.

Sob a tristeza da tragédia, procurei ver o lado bom. Imaginei a possibilidade de um estalo social. Um despertar depois de tudo. Quase cem dia depois, entre erros e acertos, aqui e alhures, admito que não encontrei.

A internet me conta que Nelson Sargento, aos 96 anos, está vendendo seus ternos para sobreviver. De novo pra marcar: Nelson Sargento, 96 anos, está vendendo seus ternos para tentar sobreviver. Nelson Sargento está vendendo as calças.

No isolamento de combate ao coronavírus os artistas foram exaltados. Cantavam nas janelas e a turma aplaudia. Milhões se conectavam para acompanhar lives. Mas não era amor à arte. Muito menos respeito. Era tédio, solidão, carência. E era onda também. Boiada.

Mais do que nunca trabalhando de graça, ou por alguma quentinha que um botequim amigo mandasse entregar, artistas de primeira linha,  distantes dos palcos que restaram, estão comendo o pão que o diabo amassou com o rabo.

Então algum precipitado diz: essa maldita quarentena! Outro, menos tonto, acusa a pandemia. Ou como pode Nelson Sargento, aos 96, estar vendendo as calças?

Gente esquecida. Nação sem memória. O parceiro do Sargento, Cartola, já velho, foi encontrado pelo Sérgio Cabral lavando carros em Copacabana. E só então foi gravar o primeiro disco. O que tem de novo na miséria financeira do Sargento? Somos o que sempre fomos.

Nos Estados Unidos e em Paris a turma está nas ruas há uma semana protestando contra o assassinato de George Floyd, esganado pelo joelho de um policial racista. Nada de novo, de novo. Sabe-se quantas vezes a indignação ficou maior que o medo da repressão. Mas não me lembro de ter sido maior do que o medo de uma pandemia.

Aqui no Brasil, quase nada. Meio que nos acostumamos. O menino João Pedro, 14 anos, quarentemado, brincando no quintal, foi fuzilado por um policial. Mais de setenta tiros dentro da casa. Duas granadas. Seu corpo foi sequestrado pelo Estado. As evidências do ataque, que seriam usadas na investigação, ficaram sob responsabilidade do policial que matou João Pedro.

Enfim, está confuso, estou confuso, desesperado. Sem esperança. Misturando Sargento, Cartola, Floyd, João Pedro e pandemia, lembro do Aldir Blanc, que eu gostaria de homenagear de um jeito melhor mas ainda não encontrei por onde.

Aldir chegou ao hospital sem covid-19. E mesmo assim não tinha leito. Depois arranjaram. E então ele já tinha a covid-19. Morreu, o Aldir. Mas antes escreveu, entre tantas outras belezas, alegrias e tristezas: “Rubras cascatas, jorravam das costas dos santos / Entre cantos e chibatas / Inundando o coração, do pessoal do porão / Que a exemplo do feiticeiro gritava em vão.”

O que nós somos é isso. Sempre fomos. Duvido que vamos mudar. A covid-19 com suas centenas de milhares de vítimas cedo ou tarde passa, e será lembrada como acessório na nossa pandemia história e eterna.

 
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Se abrir agora, não fecha mais

No sábado que passou almocei tarde e, de noitinha, saí para buscar comidas no Bar do Baixo, na Vila Madalena. Torta de frango deliciosa, com massa leve, quase folhada, recheio generoso. Peguei também uma porção de pernil, desfiado e com molho na medida, perfeito para meter no pão e ser feliz. Recomendo (985-828-008).

Saí de casa com receio de mim mesmo. O Bar do Baixo é de amigos queridos que estariam lá, como tantos, todos donos de bares que estão na luta para continuar. No meu íntimo a luta era outra: conseguir manter a prudência, fazer só o que era para ser feito, e voltar para a tranca.

O bar, os amigos, a noite, comidinhas confortantes. Coisas que amo e para mim dão sentido à vida. Misto de prazer e dependência.

Não sei como, mas consegui me comportar. Passei, peguei, paguei, me pirulitei e voltei para casa. Os primeiros momentos no sofá foram desesperadores. Queria arranjar outra desculpa para sair. Pensei em furar a quarentena e desencanar. O sufoco durou uma eternidade.

Era algo como o fumante que, anos depois de controlar o vício, dá uma tragada e vai pro limbo entre se entregar e segurar o ímpeto que bota a perder tanto tempo de esforço.

Tudo isso para fazer uma afirmação: ao relaxar o isolamento, que de verdade sempre foi folgado, tendemos a agravar ainda mais a situação que já é dramática. Mesmo em lugares onde foi bem feito, como em Portugal, a abertura causou novos surtos.

Pior: depois de tanto tempo, com o cansaço consequente, e a dificuldade de perceber como, mesmo esculhambado, o isolamento alcançado salvou vidas, se prefeitos e governadores partirem para a reabertura, será impossível fechar de novo.

Falo por mim. O que resta aqui é uma virtude compulsória. Sigo colaborando com o isolamento por solidariedade e obediência a quem entende do assunto e assessora os governantes. E, sendo assim, se tais vozes me deixarem sair, irei no minuto seguinte.

Depois de quase cem dias de isolamento, mesmo sabendo que estamos nos protegendo e não presos, começo a acreditar que, se é pra viver assim, antes partir para a incerteza.

Sei que é desrespeitoso com tantas pessoas que sofreram com a doença, que perderam gente querida, que estão nos hospitais, convalescendo ou tentando salvar vidas, com tantas outras que ainda vão sofrer. Mas é meu sentimento, completamente nu.

Invés disso, apesar do cansaço, topo reforçar o isolamento antes de falar em reabertura. Mais quinze, vinte dias de lockdown, com isolamento perto de 100% e ocupação de leitos de UTI próxima de 50%.

Caso contrário estaremos desenganados. É minha convicção, baseada nas projeções dos especialistas que sigo. E, se assim for, igual a todo desenganado, certo do pouco tempo que lhe resta, a escolha será voltar a fumar.

 
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Caravana Tio Patinhas

Com 54 anos de história, a Lanchonete Tio Patinhas, em Presidente Prudente, oeste paulista, tem autorização para receber clientes sentados a partir da segunda-feira primeiro de junho.

Prudente, junto com Bauru, Barretos e Central (Araraquara e São Carlos) é uma das quatro regiões paulistas que estão na faixa três da “quarentena inteligente” do governo Doria, que permite o serviço de bares e restaurantes no local.

Mas não vão achando que liberou geral. Inventaram umas regras. Por exemplo: mesas espaçadas, tirar a temperatura da freguesia na entrada e prazo para a saída. Sim, a “água no pé” rolando várias vezes ao dia.

Elegante, o gerente da Tio Patinhas, Carlos Moreno, 57, disse à Folha de S. Paulo que isso de tempo máximo de permanência está fora dos planos da lanchonete, porque “soaria indelicado”. Mas cogita o termômetro como medida de proteção para a brigada e freguesia. Faço ideia das piadas que virão se isso acontecer.

Tenho algo de romântico, e a abertura de um bar antigo numa cidade querida me deu gatilho, como dizem no tuíter. Fui ao WhatsApp comentar com os bêbados. E a club soda ferveu.

De pronto surgiu um com a cotação de uma van para levar a turma. Calcularam que, deixando a capital entre seis e sete horas da manhã, ao meio-dia poderíamos mergulhar nas preciosidades douradas da caixa-forte do oeste.

Outro propôs que, para não perder tempo, deveríamos abastecer a van com um farnel de paramounts e também uns papagaios para evitar parada.

Esclarecimentos: paramount é o apelido dado pelo saudoso Ciso Marques da Costa para os coquetéis matutinos, aqueles de parar a mão: Blood-Mary, Mimosa, Bellini, Caracu com ovo, Screwdriver. E o papagaio ave não tem nada com o pato Patinhas. Entendedores entenderão.

O segundo orçamento – a turma é prudente, não tem ninguém à toa – veio de um amigo do audiovisual. Segundo ele, nas vans que operam para o setor pode-se fumar a bordo. Venceu a licitação por maioria absoluta sem necessidade de abrir os envelopes.

A conversa de botequim não parou até agora. Muitos foram tentar descobrir se na Tio Patinhas tem chope. Não que sejam fãs, mas estão com saudades. Outros se lembraram das personalidades prudentinas que os receberam na lanchonete.

Os irmãos Walter e José Lemes, então donos da Viação Andorinha, deputado Marcelino Romano, prefeito Paulo Constantino, juiz-desembargador Pedro Menin. Também surgiram alguns nomes soltos: Agripino, Maurílio, Odoriquinho. Não os conheço, mas imagino que seja ótimo beber com quem se chama Agripino, Maurilio ou Odoriquinho.

Meu amigo por lá é o Samé de Paula. Empolgado, também falei com ele sobre a agenda de segunda-feira. Mas Samezinho, comportado como sempre, está em quarentena severa em Goiânia, duas vezes mais distante de Prudente do que São Paulo.

Se vinga ou não a caravana, contarei ou não a propósito. Até porque a semana pode ser imprevisível. Bauru, Barretos, Araraquara, São Carlos são cidades gostosas e equipadas de bares que merecem toda nossa consideração.

 
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Comida, corona, causa e efeito

Um amigo, contrário ao isolamento social, negacionista da ciência e fartamente estocado de papel higiênico, cloroquina e álcool – em gel e outras variedades clássicas -, não para de me amolar no WhatsApp. Curioso: o faz dizendo que nunca mais vota no João Doria. Por isso não o bloqueio. Tem que manter isso aí.

Oscilando entre duas convicções contraditórias, segue o meu amigo: 1) o coronavírus foi criado em laboratório para jogar os ativos mundiais na bacia das almas, que então seria comprada pela China; 2) a culpa é do povo chinês que comeu morcego.

Reconheço que a China demorou para fazer o alerta mundial sobre o vírus. Mas não lhes culpo. A Organização Mundial da Saúde também teve seus atrasos, bem como diversas nações. Até o Drauzio Varella subestimou o perigo, revendo sua posição ante as evidências, tanto da ciência quanto dos caixões empilhados.

Porém não tolero xenofobia, e tais ataques à China não são outra coisa. Tentei argumentar especialmente sobre o morcego – que é de fato uma possibilidade. Em vão. Já conto como.

Pós sucessivos fracassos, decidi lhe pregar uma peça. Depois de meu amigo falar mal de tudo quanto é chinês, especialmente do embaixador Yang Wanming, esperei uns dias e, numa manhã, enviei mensagem dizendo que haveria uma live com o consulado chinês, restrita a 120 empresários que com eles comercializam, e que um cliente me pedira para convidar potenciais investidores. Topou na hora, ansioso até. Amigo empreendedor não convida para uísque desinteressado, mas a gente se diverte mesmo assim.

O argumento que eu usava para justificar o pobre chinês que comeu o morcego é a cultura. Passaram fome braba por lá. E quem pode dizer o que se faz com fome? Os sobreviventes do avião que caiu nos Andes se tornaram antropófagos em poucos dias – por sobrevivência, não como o prêmio para o guerreiro que homenageava o inimigo capturado saboreando suas carnes.

Morcegos são ratos e nem todo mundo come rato por fome. O roedor é considerado iguaria na própria China, Camboja, Laos, Moçambique, Indonésia, Vietnã, Gana, Filipinas, Myanmar, Tailândia. Dizem que na França comeram ratos. Nada a ver com ratatouille, que é e sempre foi vegetariano, mas parece que comeram. Aqui no Brasil come-se paca e capivara, que são mais ou menos ratos.

Na São Paulo colonial as formigas eram disputadas feito safra de jabuticaba. Comia-se formiga frita, com preferência pelas mais graúdas, bundudinhas, tanajuras crocantes.

E o que dizer de ostra, marisco, vôngole, ouriço? Há quem tenha nojo e eu acho ótimo porque sobra mais. Também adoro lesmas – o que me falta é o capital para os escargots do La Casserole ou do Freddy.

Parentes distantes das baratas são os camarões, que ninguém recusa, salvo por alergia. É um tipo invertido de vontade. Se quem tem fome come o que tiver, o alérgico quer comer o camarão para viver melhor e não pode. Ambos têm medo de morrer.

Como chegamos até aqui, entre nojos e delícias, é pergunta para antropólogo responder. Tenho só palpites. Caviar e outras ovas, por exemplo, devem ter sido sobras por muito tempo. Até que um dia o senhor viu o escravo lambendo os beiços e babau, nunca mais, né, minha filha?

Meu amigo negacionista recusou o banquete. Insiste que combater a pandemia com isolamento vai deprimir a economia e causar miséria e fome. Vai. Mas só se a gente deixar. Há comida (e riqueza) suficiente no mundo para que ninguém passe fome, sede, frio, medo.

Conseguir isso não é difícil. Ou pelo menos é muito mais fácil do que fazer meu amigo entender que, se o novo coronavírus veio mesmo do morcego, assim como os coronavírus antigos vieram de outros bichos, a culpa não é destes ou de quem ou jantou, mas da fome histórica do nosso mundo desigual, da falta de asseio também histórico que não nos preocupamos em universalizar, da igualmente histórica péssima relação que travamos com a Natureza.

Sem resolvermos a causa, os efeitos vão continuar. Novos coronavírus virão. H1N2, Sars-23, Covid-40.

 
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