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Um ano de Trump e o porvir

Há exatamente um ano o calendário já marcava dez de novembro, mas ainda era dia nove. E o mundo todo, catatônico, buscava entender o que aconteceu. A única imagem alcançável era um trocadilho com o 9/11 – que para a gente é nove de novembro mas para os americanos é onze de setembro.

Donald Trump era eleito presidente dos Estados Unidos. E tamanho susto nos remetia ao terror. Ninguém exagerou na comparação. Se milhares de pessoas não morreram imediatamente, o risco daquela eleição atingia toda a humanidade. O botão da bomba nuclear estava ao alcance de um homem notado pela inconsequência diante da tecla “enviar” do Twitter.

A conta, como sempre, foi parar no colo da classe média. Sofrendo as dores do crescimento, as pessoas enquadradas neste vasto corte social foram apontadas como responsáveis pelo merengue reacionário mundial que tinha por cereja a coroação de Donald, o insano.

Depois de um ano o diagnóstico geral é que, com acesso facilitado à comunicação, a turma que ao redor do mundo ganha entre dez e cem dólares por dia enfim pôde se encontrar e formar uma rede de insatisfeitos e assustados com as mudanças contemporâneas.

Gente especializada em manobra social detectou antes o fenômeno e meteu lenha na fogueira das vaidades mais primitivas, a começar pelo domínio do fogo. Digo, nas redes sociais, a sensação individual de estar controlando o fogo prevalece e oculta a imensa caldeira de manipulação. Igual ao sapo que se deixou cozinhar completamente porque em algum momento gostou do conforto da água morna,  a narrativa de defesa do emprego, da cultura, da família, buscou carvão nas profundezas do espírito humano. Nacionalismo, racismo, homofobia, intolerância religiosa, sexismo, xenofobia, moralismo, foram despudoradamente cevados para criar a noção de que as evoluções no mercado de trabalho, intercâmbio cultural e econômico, democracia e mídia tradicional causavam desemprego e desigualdade.

Pesquisas indicam que o quinhão de insatisfeitos é mesmo majoritário. Porém é falsa a impressão de que majoritária também é a parcela da população que prega nacionalismo, racismo, homofobia etc. Os radicais só são mais estridentes, e tanto mais quando se encontram nas redes sociais.

Para superar o trauma o conceito de classe média deve ir além do aspecto financeiro. Socialmente falando o tipo médio é ainda mais amplo. Inclui todo casal de qualquer orientação sexual que só quer fazer um passeio agradável no domingo, não se preocupar com o aluguel ou com a conta do supermercado, da saúde ou da educação, mas não está disposto a transformar isso num ato político permanente nem se esfolar na busca pela glória ou pelo dinheiro para se feliz. Obrigado, Dorival.

Meu palpite é que essa turma está atenta, observando, e além de insatisfeita está exausta das bravatas que só aumentam seus problemas. A classe média, como não poderia ser diferente, vai continuar procurando uma solução média, moderada e factível. Quem souber transmitir como vai liderar o porvir.

 
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Jorge Paradise Papers Lemann e o mais cru dos chicotes

Kay Adams, depois de muitos anos, vai ao encontro do ex-marido, Michael Corleone. Era a festa em que o poderoso chefão receberia a medalha do papa.

Perguntada sobre o que achou do mimo ela responde: “Um pouco caro.” A fundação Vito Corleone doara ao Vaticano cem milhões de dólares.

Numa cena seguinte ela acrescenta que com a aura de honestidade e a família mais próxima da tão sonhada e trabalhada legalização, Don Corleone seria perigoso como nunca antes na história.

À festa também chega o sobrinho bastardo Vincent Mancini, filho do falecido Sonny com a amante Lucy. Herdeiro do temperamento do pai, expõe ao tio o problema da família com Joey Zasa, e diz que pode mata-lo se receber a ordem. Mike responde que não precisa de assassinos, mas de advogados.

Pano rápido. No final de semana que passou o repórter Fernando Rodrigues começou publicar o monstruoso volume de dados da Paradise Papers, reportagem investigativa que reuniu 382 jornalistas de 67 países debruçados sobre 13,4 milhões de arquivos de dois escritórios dedicados às chamadas empresas offshores, que servem para sonegar ou negar impostos nos países onde fortunas são acumuladas.

Fernando Rodrigues, do jornal Poder 360, representou o Brasil no Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, ICIJ na sigla em inglês.

Até a rainha da Inglaterra está citada sob o critério PEP, ou pessoa exposta politicamente. Entre os brasileiros, a lista impressiona. Do PT e do PMDB são quase cem nomes. Do PSDB um bando próximo de 200 tucanos. 27 chefes de polícia militar e mais 27 chefes de polícia civil de cada uma das 27 unidades federativas. 155 delegados da PF. 7 mil funcionários do Congresso Nacional. 60 mil nomes do alto escalão federal.

É preciso notar que não necessariamente todos estão ilegais. Há, por exemplo, 198 diplomatas, que pela natureza do serviço precisam manter contas correntes no exterior.

Nos rankings de ricos organizados por revistas especializadas, o número um do Brasil é o banqueiro Jorge Paulo Lemann, com aproximadamente US$ 30 bilhões. Ele e seus dois sócios principais formam metade da lista de meia dúzia de pessoas que concentram dinheiro equivalente a tudo o que os 50% dos brasileiros mais pobres possuem, aproximadamente cem milhões de pessoas.

O trio, dono das marcas de Brahma, Antarctica, Skol e tantas outras pelo mundo, além do Burger King e Lojas Americanas, é ligado a vinte empresas sediadas em países que cobram nada ou muito pouco em impostos.

Parece óbvio que tudo foi feito com a melhor assessoria tributária que o dinheiro pode pagar. Dificilmente as operações serão ilegais. Resta, pois, perguntar se eles acham bonito, ou se consideram bom exemplo ganhar tanto e contribuir tão pouco num país com tanta pobreza quanto o Brasil.

O Machado de Assis dizia que a consciência é o mais cru dos chicotes. O lombo do Jorge Paulo deve arder. E a caridade exercida pela Fundação Lemann, tão preocupada com a educação e o futuro do país, não vai aliviar a dor.

 

No caso do Michael Corleone, não aliviou. Morreu sozinho e triste, consumido pela diabetes.

 
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Tendências / Debates – Folha de SP: Centro Avante

Artigo publicado pela Folha de São Paulo em Tendências / Debates 04/11/2017

Trocar ideias com o Eduardo Jorge (PV) é um privilégio do qual eu gozo. E faço questão de compartilhar.

Na semana passada recebi uma mensagem dele. Queria conversar. Respondi que era só dizer quando e onde. Eu me adaptaria. Ontem nos encontramos.

A prosa começou com ele manifestando, com a suavidade característica, uma reprovação à minha desfiliação do PSDB. Ainda que compreenda meus motivos, sinalizou que o momento era de resistir e lutar por uma agenda nacional de centro para 2018.

Expliquei que não via mais por onde ajudar por dentro. Que o partido não representa mais o que eu acredito. E que, como ninguém acredita em imparcialidade, desvinculado dos quadros tucanos talvez eu tenha condições de opinar de forma mais abrangente.

O receio do Eduardo vem das últimas pesquisas, consolidando Lula e Bolsonaro como favoritos para um segundo-turno em 2018. Sentimento que, quero acreditar, é da maioria da população.

Porém, essa maioria não enxerga um nome para chamar de seu, o que dá margem para uma revoada de balões de ensaio político que, a história prova, como os balões juninos sempre acabam em incêndio. Não se pode esquecer 1989. Elio Gaspari encerrou o assunto nesta Folha.

Perguntei se ele seria candidato. E ouvi uma lição de grandeza de estadista. Eduardo Jorge não tem medo de eleição e muito menos de defender sua agenda. Mas fica apavorado com a possibilidade de fragmentar o centro impedindo que um candidato mais forte chegue ao segundo turno por falta de 1%.

A quem imagine que 1% dos votos podem ser desprezados ele mostra um dado da corrida presidencial estadunidense de 2016. Três estados tradicionalmente democratas definiram o colégio eleitoral que elegeu Donald Trump: Michigan, Pensilvânia e Wisconsin.

Em Michigan o republicano Trump venceu a democrata Clinton por 0,23% (47,59% X 47,36%). E a candidata Jill Stein (Partido Verde), que fez campanha atacando Hillary Clinton, teve 1,07%. Na Pensilvânia a diferença foi de 0,73% (48,58% X 47,85%). Stein teve 0,82%. No Wisconsin faltou 0,77% (47,78% X 47,01%), que o 1,06% de Stein teria invertido.

Quiçá arrependida, Stein pediu recontagem de votos nesses três Estados. Arrecadou mais de US$ 4 milhões para pagar a mão de obra. Que deu em nada.

Vale lembrar que a agenda Obama para o meio-ambiente não era revolucionária, mas era ambiciosa e incluía uma série de avanços, com destaque para o Plano de Energia Limpa, que previa, pela primeira vez, reduzir em um terço as emissões de gases causadores do efeito estufa entre 2005 e 2030.

Trump revogou o plano e incentiva a retomada de minas e usinas de carvão, que representam quase 150 anos de retrocesso. Fatura que é do mundo inteiro.

O que pode ser feito no Brasil para evitar semelhante catástrofe?

No centro, vemos a bancada federal do PSDB quase chegando aos sopapos numa reunião, com destaque para dois mineiros defensores de Aécio Neves, o que nos dá uma dimensão do problema. Tancredo Neves dizia: “Se é mineiro, não é radical; se é radical, não é mineiro.”

Entre os tucanos presidenciáveis, João Doria acelera contra o padrinho Geraldo Alckmin, esparramando incômodo e constrangimento —que, somados a problemas administrativos, abalaram o cerne da própria gestão, derivando no rompimento com o vice Bruno Covas.

Na Rede, o “nanico” que ficou em terceiro lugar na última eleição presidencial, crise financeira, relatos de salários atrasados, nenhuma estrutura de comunicação, 15 escassos segundos no tempo de televisão e, principalmente, Marina Silva num estaleiro incerto.

Pra não dizer que não falei das flores, PPS, DEM e PSD flertam com o “novo”, PSB ameaça deputados com expulsão e consequente perda de mandato.

Sob as cinzas do PMDB, nem sinal do manda brasa. E a ala moderada do PT, obediente à fidelidade pregada por José Dirceu, como um cadela insiste em defender o dono.

Sem o abandono do personalismo, não haverá solução. O mais próximo que Sassá Mutema chegou da realidade foi na hipótese de o ator Lima Duarte concorrer a vice de Mario Covas naquele 1989 lembrado pelo já citado Elio Gaspari.

O pacto por uma agenda de centro, em que todos devem perder um pouco para a vitória coletiva, é urgente. Deve ser debatido e subscrito por quem tem juízo. E a agenda, liderada por quem tiver credibilidade e as melhores ferramentas de comunicação.

LÉO COUTINHO é escritor e jornalista

 

 
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O futuro da cidade e dos edifícios para os maiores de 60 anos

Na arquitetura, mais espaço para as áreas de circulação, escadarias com degraus amenos ou rampas, janelas amplas para melhor ventilação e luminosidade, piso antiderrapante, atenção à ergonomia desde as tomadas e interruptores, passando pelo banheiro e chegando à cozinha.

No urbanismo, diminuição da necessidade do carro com acesso fácil ao transporte coletivo, prioridade ao pedestre, calçadas acessíveis, bancos com encosto e áreas de estar, banheiros públicos, praças e jardins ocupados, serviço e comércio disponíveis, equipamentos de cultura e lazer, como cinema, teatro, museus, bares, cafés, piscina, quadras e aparelhos para atividade física.

Na decoração, menos cantos vivos para evitar hematomas e facilitar a limpeza, tapetes que não escorregam, boxe de acrílico por maior segurança, iluminação com balizadores – como aquelas da infância – para orientar o caminho do banheiro, ou da geladeira, de madrugada.

Parece interessante? Pois a notícia boa é que, no mundo todo, o mercado imobiliário trabalha com atenção a cada um desses pontos. Não que os incorporadores estejam querendo comprar um imóvel no céu. Até pelo contrário, estão se preparando para continuar vendendo aqui na Terra.

O fenômeno é fruto de um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) prevendo que em 2050 o número de idosos vai superar o de jovens pela primeira vez na história. A tendência é mais acentuada nos chamados países desenvolvidos, onde há melhor qualidade de vida e expectativa de longevidade. Ainda assim o Brasil precisa correr com a lição de casa, porque dentro de sete anos teremos a sexta população de idosos no mundo.

Presidente do Conselho Consultivo do Sindicato da Habitação (Secovi-SP), Cláudio Bernardes falou ao blog Radar Imobiliário do Estadão: “Há pouco tempo éramos uma nação jovem. Então, esse é um conjunto que tem potencial enorme de crescimento, mas não forma, hoje, escala suficiente de clientes.”

Ouso discordar. Não porque desde os verdes anos eu tenha a sensação de já ter nascido velho. Mas porque o conjunto de medidas me parece ideal para todas as idades. Quem não deseja viver num ambiente conforme o descrito nos três primeiros parágrafos é ruim da cabeça. E, se um dia ficar doente do pé, vai mudar de opinião.

Outro ponto que merece destaque e objeção é a ideia de criação de guetos para idosos. Primeiro porque nada garante que um jovem próspero, por consideração aos mais velhos, abdique da possibilidade de viver em um lugar agradável, com boas calçadas para o carrinho do bebê, chance de trocar as horas no trânsito pelo cinema, janela na sala que não o sufoque.

Depois porque todo mundo já viu de perto a alegria mútua que a convivência entre crianças e idosos proporciona. E com a vantagem de que os processos de adoção entre netos e avós podem ocorrer nas praças, sem onerar a justiça.

Mais distante, mas não menos importante, há uma figura obrigatória neste tema. Paulo Mendes da Rocha disse em entrevista recente ao Conversa com Bial: “Você vê, o pessoal fala em casa popular e faz feia de propósito para que pareça popular (…) Popular sobre que aspecto? Vai haver um quilowatt popular que de vez em quando dá choque, a luz apaga? Não existe. Ter um telefone popular, que fala, não fala, você tem que gritar? Não existe. Ter um esgoto popular, de vez em quando fede, sai tudo para fora? Não pode. A torneira, se você abrir, as crianças morrem de disenteria ou é uma água potável?”

Se é lógico para a distância econômica e social, também deve ser para as mais distintas faixas etárias. Em conceitos básicos de habitação não pode haver distinção.
Ainda sobre o nosso arquiteto querido, vale notar que aos 89 anos Paulo vai a pé ao trabalho e volta escalando pelos bares, encontrando amigos e botando a conversa em dia. Ao Pedro Bial, diante da filha Joana, afirmou que parou de fumar. Há controvérsias, mas tanto faz. O importante é imaginar a cidade ora prometida pelo mercado imobiliário.

A última fronteira – o urbanista Anthony Ling já deve estar aflito – é a do financiamento. Ou quem paga a conta. Para os bancos, o limite para quitação imobiliária é a idade de oitenta anos e seis meses. De modo que um imóvel destinado a idosos, sendo adquirido aos setenta, teria só dez anos de prazo, elevando o valor das parcelas ao impossível.

Fábio Villas Bôas, diretor técnico da Tecnisa, maior construtora do Brasil, falou ao Estadão que há dez anos a companhia passou a pensar no tema, e que desde então uma equipe de gerontólogos, como são chamados os especialistas em idosos, participam da elaboração de projetos.

No primeiro semestre de 2018 a empresa vai lançar o primeiro produto resultado desse processo. Segundo Villas Bôas, as áreas comuns serão iguais a de um prédio qualquer, mas os quatro primeiros andares terão instalações quase hospitalares para atender os mais frágeis, e nos demais andares haverá unidades tradicionais, mas acessíveis.

A pergunta que fica é sobre a vacância e a alternância dos proprietários. E nos leva a pensar na cultura patrimonialista, já abordada no Esquina pelo vereador José Police Neto. O modelo de aluguel social, ou de interesse da sociedade, pode ser o caminho, a qualquer tempo ou idade.


Léo Coutinho é escritor e jornalista, membro do Conselho Participativo Municipal na Prefeitura Regional de Pinheiros

Crônica publicada no Projeto Esquina – Encontro sobre cidades do Estadão

 
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Coisa feia, Luislinda

Coisa feia, Luislinda. A petição pelos sessenta mil mensais já era deplorável. Suas explicações conseguiram piorar a cena. Com destaque ao paralelo entre trabalho escravo e as obrigações impostas pelo Estado-feitor, como despesas no cabeleireiro, perfume e que tais.

Minha luta pessoal é por separar declarações conforme seu contexto. Desprezo “argumentos de autoridade”, onde títulos e condições alheias pretendem sustentar raciocínios. E pelo mesmo princípio me esforço para não deixar que a memória interfira na minha análise sobre o que as pessoas estão argumentando. Quando sinto que estou avançando, vem alguém como a senhora me atrapalhar.

Em 2011, ao ser promovida à juíza desembargadora na Bahia, vossa excelência atou o evento à inédita condição que somava gênero, raça e penteado: “Sou a primeira juíza negra, rastafári, cabelo vermelho do Brasil.” Nomeada ministra dos Direitos Humanos, insistiu na exaltação da equação. Desconfiei.

Para mim alguém com o seu histórico de luta contra o preconceito racial tinha mais o que dizer. Virar ministra com o propósito de incluir mulheres e negros num governo criticado desde a posse por se parecer com a antessala de um urologista era relevante e exigia posição à altura. Mas para vossa excelência o colorau capilar pareceu mais importante.

Ato contínuo, seu trabalho acabou submerso. Vá lá que lama não falte. Entendo que seja difícil expor uma agenda positiva de dentro deste valhacouto. Então veio a portaria do trabalho escravo.

O silêncio no seu ministério só não foi total porque a secretária nacional de Cidadania Flávia Piovesan criticou a portaria: “Afronta à Constituição Federal, ao Código Penal e aos direitos humanos.” Foi demitida pelo ministro da Casa Civil Eliseu Padilha, vestal da República temerista.

Em Brasília, dezenove horas deste três de novembro. Dia útil. A senhora ainda não pediu para sair. Mas deveria.

Com quinze minutos a pé daí a senhora alcanca o Palácio do Itamaraty. O chanceler Aloysio Nunes Ferreira deve estar trabalhando. Com a portaria do trabalho escravo, o que não falta é trabalho para tentar justificar às nações amigas o que acontece com o Brasil. Faz uma gentileza? Passa por lá e convide o colega a sair junto.

Segundo a PGR Raquel Dodge, nomeada pelo Presidento, e não Rodrigo Janot, é “fato incontroverso que o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, recebeu R$ 500 mil da Odebrecht para financiar a campanha ao Senado em 2010”. O ministro nega e vai se defender. Mas convém que o faça longe do Itamaraty.

Ah, se não for pedir muito, no caminho pela Esplanada pega o Torquato Jardim, ali no Ministério da Justiça. Leve umas caixas para ajuda-lo esvaziar as gavetas.

Ele oficializou a relação das autoridade fluminenses com milícias e tráfico de drogas e armas. Quer dizer, ele falou crime organizado, mas ficou vago, porque crime organizado, como prova a capivara do Sérgio Cabral Filho, é o próprio governo do Rio. O sentido da fala era o do tráfico e das milícias integradas por policiais e gente do Governo. Não deu provas. Se as têm, prevarica. E o ministro da Justiça não pode.

Coisas menores, a senhora diria, até com razão. Depois que a Câmara autorizou o Governo seguir com Temer, Padilha e Moreira Franco, vocês três são fichinha. Mas volta para a Bahia. Será melhor para todos. Vem verão. Suas havaianas estão à sua espera. Prefira pisar e sapatear sobre elas. A gente não aguenta mais.

 
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Terrenos no céu para todos os gostos

O fundão eleitoral que escandalizou a Nação não saciou o apetite dos candidatos à reeleição. Vai ser bruto o jogo no ano que vem e ninguém está disposto a perder o assento. Avançarão sobre cada tostão que enxergarem pela frente, seja alpiste, alface ou capital político.

Nesse vale-tudo, o que não falta é crente assistindo telequete e tomando partido do mocinho sem desconfiar que existe um trato com o bandido.

Se há quem compre terreno no céu, há quem venda na terra. E o portfólio é o mais variado.

Merecem destaque três exemplos. Da bancada do boi, a portaria do trabalho escravo, sobre a qual falei aqui e aqui. Da bancada da bala, a tentativa de armar os filhos de Alcione, também conhecidos como marronzinhos, em todo Brasil. Graças a Deus a primeira o Supremo suspendeu e a segunda o Senado vetou. O terceiro exemplo você encontra ou, antes, é encontrado quando liga o rádio ou a televisão. Por ali a arrecadação não para. Oh, glória.

Outro exemplo que bateu na trave do Senado e voltou à Câmara é o dos aplicativos de compartilhamento de carona, Uber e que tais. Patrocinado pelo cartório dos taxistas, aparentemente quer defender a classe, mas na verdade só a prejudicaria.

A exigência da placa vermelha daria permissão para aproximadamente cinquenta mil novos carros rodarem em corredor de ônibus em São Paulo, estrangulando o corredor e tirando a maior vantagem competitiva dos taxis. Para sorte deles, taxistas, o Senado rejeitou.

Registro do carro em nome do motorista, também rejeitado, é outra medida sobre a qual os taxistas não pensaram antes de apoiar. Cega pela vontade de inviabilizar os concorrentes dos aplicativos, que no desespero do desemprego se valem de carro alugado numa conta que não fecha, a “praça” subscreveu a medida. Burrice. Melhor seria exigir que a licença dos taxis seja exclusiva para o taxista, acabando com os cartórios de exploração que vão de um à frotas de mais de mil carros.

Nas viagens intermunicipais também dançaram. Bem feito. Invés de propor a liberação para os taxis, pediram para proibir os ubers. Foram rejeitados. O pior é que todo mundo perde. Você vai daqui para Guarulhos e o retorno do taxi é obrigatoriamente vazio, o que torna a corrida mais cara, piora a poluição e o trânsito na cidade, desperdiça energia.

Sobre acabar com pontos de taxi em local público não se fala. Tem cabimento exclusividade em Congonhas? São 800 carros para 50 mil passageiros por dia.  E é claro que a fatalidade da fila leva quem tem juízo a procurar uma alternativa. Por exemplo, o Uber.

O preço do ponto chega a R$ 150 mil. É um terreno no céu, pelo qual todos pagamos aqui na terra.

 

 
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Zé Celso X Silvio Santos

Impossível não lamentar o vídeo com Zé Celso e Silvio Santos negociando o terreno ao lado do teatro Oficina, onde o prefeito João Doria faz uma ponta numa esquete corporativa impagável, e uma assessora do Zé Celso entra com o contraponto tragicômico: “Essa palavra, empreendimento, é muito forte para nós.”

Meu lamento tem dois motivos. Começando pelo Suplicy ter se comportado. Entrou mudo e saiu calado. Acho que ele se conhece. Igual quem começa a beber e não para mais, o senador é assim falando. Então deve evitar o primeiro pitaco. Bem poderia ter atacado um Bob Dylan no final, soprando soluções.

Mas principalmente é lamentável saber que antes da tecnologia ficar fácil e barata, décadas de reuniões como esta ficaram sem registro. Quando Zé e Silvio começaram esse namoro eu não era nascido. Quarenta anos depois, estão dependentes um do outro. Se alguém ceder acaba a diversão. E igual a casais sinceramente apaixonados, se um morrer o outro logo vai ao seu encontro.

Os trajes merecem nota. O poncho do Zé Celso, que o Silvio chamou de mexicano e foi corrigido, porque é Tahumara, tribo indígena que não se considera mexicana, é uma indumentária de cerimônia.

Elegante além da toalete, Zé Celso não comentou o casaco do Silvio, que aderiu à moda dos coletes salva-vidas recheados de plumas. Quem usa fica parecendo um boneco Michelin. E lá no hemisfério norte, onde inventaram a peça, ninguém local usa em ambiente fechado. Isso é coisa de povo colonizado. Contraponto direto à identidade original festejada no poncho do Zé Celso.

Consciente de que os protagonistas só querem namorar, o prefeito procura contracenar com Guilherme Stoliar, executivo do grupo SiSan. E joga deliberadamente a favor da agenda do Patrão do Baú.

Ao Zé Celso pergunta quem vai pagar o circo ou as tendas, que devolve o boleto à municipalidade. O prefeito replica que não tem dinheiro. E a tréplica, óbvia, merece destaque: “mas os seus amigos têm”.

Ora, se o caixa da cidade está baixo como o alcaide insiste em dizer, e a solução vem de doações, por que não haveria de encontrar patrocinador para uma causa com garantia de retorno publicitário?

Vale lembrar que a Prefeitura gastou quase três milhões de reais com o jilgle da cidade linda. O Tribunal de Contas não gostou e está investigando improbidade administrativa. Deixasse Silvio e Zé Celso criarem o jingle, o dinheiro poderia ir direto para o terreno da contenda teríamos menos um pepino no TCM. Silvio é brilhante neste quesito. Zé Celso idem. Durante a reunião cantarolou um “AnhangaBaú… da Feliz Cidade”.

Para encerrar, fico me perguntando por que não importar da América, invés de casacos-coletes-salva-vidas, termos corporativos e “malls”, a cultura da filantropia, tão exercitada por aqueles estados unidos.

Eli Horn deu a senha no mesmo domingo que a Folha trouxe o vídeo na reportagem do João Carneiro. “Não consigo entender por que amealhar dinheiro sem ajudar [os pobres]. Não tem lógica. Não é justo. Nossa obrigação é conscientizar todo o mundo para fazer o bem.”

Fica a dica para o Sílvio Santos doar o terreno à cidade e bancar a transformação – perto do que doaram para salva-lo da quebra do banco Panamericano, seria troco. E a esperança do próprio Eli fazer igual com o terreno do Parque Augusta. A diferença que falta para a desapropriação, espelhada com o volume que ele pretende doar, sai do bolso do colete.

 
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Faltou estratégia

A audiência dos vídeos do João Doria caiu 75%. A conta, publicada no Estadão de domingo, é do profissional responsável pelas redes sociais do prefeito, que obviamente minimiza o fato: “ainda está muito acima do que a maioria dos políticos consegue obter.”

O custo de postar na internet é igual ao de manter um telefone. A decisão de insistir publicando independe de fatores externos, como audiência e patrocinadores.

Na televisão, botar um programa de qualidade no ar custa caro. Um show que tivesse tamanha queda de audiência seria encerrado ou condenado a uma emissora retardatária, que bota qualquer coisa no ar e equilibra as contas vendendo o horário nobre à gente especializada em tirar dinheiro de fanáticos.

Na TV Globo, uma novela que tivesse 75% menos audiência do que a média histórica, acabaria no mês seguinte. O diretor estaria certo se dissesse que “ainda está muito acima do que a concorrência consegue obter” – assim como estaria certa a sua demissão.

Na internet tudo é mais rápido, exceto a percepção do erro. A fuga da audiência de qualidade que na TV os patrocinadores acusam semanalmente, nas redes é camuflada pela ligação direta com os fanáticos que interagem por vício. No processo contagioso, quem gera o conteúdo pode acabar dependente. Likes e outras interações são entorpecentes.

Pragmaticamente falando, o erro de marketing do João foi investir em publicidade sem estratégia. A rigor, é o mesmo que ir à guerra com o paiol repleto de munições e não ter sequer uma mira, um mapa ou uma bússola para se nortear.

Para alcançar o objetivo de chegar ao Planalto, com o mínimo de estratégia João teria ficado em São Paulo. E tirando alguns momentos para estudo e reflexão. A cidade estaria igual, caótica. Mas a sensação das pessoas seria de que pelo menos ele está tentando.

Nessa louca disparada pelo Brasil e alhures, deixou órfão o paulistano que o elegeu num primeiro turno inédito, e se apresentou ao brasileiro como mais um político que só pensa na próxima eleição. Suicidou o gestor-outsider-centrista que, provam todas as pesquisas, o país está procurando para eleger presidente da República.

Entre os políticos, que ainda são quem elegem os outros políticos, seja pela liderança ou pelo tempo de televisão, o desastre é ainda pior. A base da relação entre todos é a mesma que a dos mafiosos: credibilidade, palavra, fio do bigode, benção padrinho. Ao tentar furar a fila do próprio padrinho, João ganhou a desconfiança eterna de toda a classe – o que não impede vários tipos de acordo, mas dificulta e encarece bastante.

Talvez a culpa não seja só dele. Como em política não existe espaço vazio, para os bastidores que financiam a política a máxima também vale.

Os 50% do PIB que historicamente moveram as peças sobre o tabuleiro nacional estão recolhidos por conta da Lava Jato e similares. São as empreiteiras, os bancos, mais uma e outra indústria gigante. Os outros 50% são filiados ao LIDE, que enxergaram no seu líder a possibilidade de ocupar o espaço. João se entregou, é claro, mas também foi tragado por este vácuo.

A repetitiva agenda nacional de pré-campanha mostra como. O roteiro é sempre o mesmo. Solenidade em alguma casa legislativa, facilmente conseguido pelo empresariado local, seguida de coletiva de imprensa regional, encontro com empresários e jantar na casa do maioral.

Abandonar o plano e essa turma causaria, no mínimo, frustração proporcional à expectativa. Mas pode ser a única saída. Sem transmitir a imagem de que pelo menos está tentando governar a cidade de São Paulo, participando mais notícias arrazoadas e menos farinatas, a tendência é ampliar o esvaziamento virtual e político, que pode se estender até o plano profissional, posto que a prefeitura tem prazo e o LIDE vive do prestígio do fundador.

 
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De Paraty à Catalunha, a causa independentista

Sob as águas de março, o verão se despedia em Paraty. Os gogós e as palavras, cada vez mais aquecidos pela Maria Isabel, chegavam ao ponto de ebulição. Foi o que aconteceu.

Paulo Brotero, grande acionista do banco Noroeste, liderou o brado. Os amigos concordaram. Era lógico: Isolada de tudo naqueles anos 1960 – o Rio só era acessível durante a estiagem e São Paulo impossível a qualquer tempo –, na prática a cidade histórica era autônoma e até com um príncipe residente podia contar. Logo, não fazia sentido pertencer à República Federativa do Brasil.

Em comitiva a trupe marchou à fazenda Maré Alta, do príncipe João Maria de Orleans e Bragança, cujo histórico parecia favorável.

Tenente-coronel da Força Aérea Brasileira, sócio fundador do Clube dos Cafajestes e herói do Levante Integralista de 11 de maio de 1938, que atacou o Palácio da Guanabara para matar o ditador Getúlio Vargas, a reputação do príncipe o precedia. Do episódio, sua alteza guardava por medalha uma cicatriz e há quem lhe atribua a estratégia de invasão, posto que o alvo fora residência de sua avó D. Isabel, princesa imperial do Brasil.

Paulo Brotero e companhia não se enganavam. Consultado sobre declarar independência e tornar Parati um principado autônomo ao modelo monegasco, Dom João Maria topou.

Ato contínuo, consultaram o juiz da comarca, que aderiu. O delegado resistiu e foi preso. O fio telefônico, única ligação de Paraty com o mundo, cortado. E começaram formar o governo. Câmara, ministérios, secretarias.

Ocorre que era 1964, quando no primeiro de abril outro golpe tomou o Estado. O Exército Brasileiro, comandado pelo marechal Castello Branco, também formava seu governo.

De uma repartição qualquer os militares checavam a situação das cidades. A ditadura temia possíveis focos de resistência. Impossível por terra ou telefone, Parati permanecia uma incógnita.

A solução foi acionar a base da Marinha em Angra dos Reis. E uma corveta foi destacada para verificar a situação paratiense. Receosa de encontrar comunistas fortemente armados e treinados pelos russos, a galera foi cautelosa na aproximação. Atracaram longe do cais e sinalizaram com tiros de advertência.

Os súditos do principado previam a resistência republicana, porém não tão rápida. Tudo o que tinham para defender sua Nação era alguma pólvora extraída de fogos de artifício. E, claro, os canhões do período colonial que ainda hoje enfeitam a praça. Munição? Só as pedras do calçamento das ruas. Assim foi feito.

Diante dos disparos, os marujos da corveta entenderam que a coisa era séria. O fato da munição encontrar a água a poucos metros das bocas dos canhões parecia antes um aviso do que chabu. Não era prudente brincar com os russos. Chamaram reforço.

Exceto sua alteza, os revoltosos foram todos presos pela ditadura militar. Deu algum trabalho explicar que não lutavam pelo comunismo, mas pela monarquia e pela independência. Entre mortos e feridos, ninguém.

Enquanto isso na Catalunha…

 
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A Primeira-Uretra, Frota será o novo Tiririca e o presente do Bolinha

Lembra daquele cheque que te fez tremer antes de assinar, freguesa? Pois é. Virou troco.

O cheque de hoje vale 32 bilhões de reais. E foi assinado por nós, brasileiros.

Dezessete foram para o perdão de dívidas dos ruralistas via Funrural. A chamada bancada do Boi tem aproximadamente duzentos votos.

O Boy, do PR, também conhecido como Valdemar da Costa Neto, que negociou a permanência da Dilma num telefonema direto da Papuda para o Palácio do Planalto, conseguiu adiar a privatização do aeroporto de Congonhas, o maior em movimento no país. Tem gente representando o meliante lá dentro e obviamente ele quer que permaneçam. Do que pode ser enxergado, são mais seis bilhões de reais.

60% de desconto para devedores de multas aplicadas pelo Ibama, por agressão ao meio-ambiente, equivalem a mais R$ 2,7 bilhões.

O Refis, que parcela a perder de vista dívidas de impostos, chegou com cálculo de R$ 13 bi. Mas para Temer, Padilha e Moreira Franco se livrarem da investigação, negociam 50% de desconto no valor de face, ou R$ 6,4 bi.

Então você bota mais uns quatro bilhões e duzentos milhões de reais em emendas, ou alpiste para os passarinhos, e chega à conta original, que é do Estadão.

Este 25 de outubro entrará para a história como o dia em que a desobstrução da Primeira-Uretra foi mais importante do que a obstrução da Justiça – e a formação de quadrilha.

Mais distante mas não menos marcante foi rever um por um dos deputados federais brasileiros. Um espetáculo burlesco. Mas calma.

Doutor Ulysses dizia que se a gente não gosta do Congresso atual, não perde por esperar o próximo.

Hoje Tiririca declarou que não quer a reeleição. Ele, que se elegeu dizendo que pior do que está não fica, será substituído por Alexandre Frota.

Ainda: E o Rodrigo Maia falando à Andrea Sadi? Concluiu a entrevista se alinhando ao ministro Henrique Meirelles e celebrando a folga que conseguiu para os bancos  no dia das crianças. Contei como aqui. Foi o presente do Bolinha.

 
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