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Deixar morrer

A imagem é de amargar. Filha e pai, ou seus corpos, de bruços, rostos metidos na lama, afogados na beira do Rio Grande, divisa entre México e Estados Unidos. Chamavam-se Valeria e Oscar Alberto Martinez Rodriguez e tentavam entrar nos EUA em busca de paz e prosperidade, hoje distantes da realidade em seu país de origem, El Salvador. Tania Vanessa Ávalos assistiu à morte da filha e do marido.

Não faz tempo, correu o mundo a imagem do corpo de um menino turco, na mesma posição de Valéria e Oscar. Morto no naufrágio do barco em que sua família embarcou para tentar chegar à Grécia, o corpo foi dar em uma praia do Mediterrâneo na Turquia. Naquele então a pergunta era se o impacto da fotografia mudaria alguma coisa no mundo. Valéria e Oscar mostraram que não.

Ampliando a tristeza para a frieza das estatísticas, segundo a ONU todo santo dia morre um imigrante ou um refugiado em busca de uma vida melhor longe do seu chão. Aparentemente nos acostumamos. Duvido que se as fotos de cada corpo fosse publicada alguma coisa mudaria. Receio que poderia ser pior, colaborando para a banalização.

Alguns se consolam pensando que a humanidade já foi mais pobre, mais violenta, mais doente, mais cruel. Gente sensata reconhece o fato mas recusa o argumento. Afinal estamos em 2019, há riqueza em abundância no mundo, mais que o suficiente para ninguém morrer por falta do que beber, comer, vestir, por falta de onde morar ou por falta de tratamento médico.

Daí que, se continuamos aceitando a indecência que é a miséria e a morte de tantas pessoas, que pelo menos tenhamos  a decência de assumir que é uma decisão. Sim, com o perdão da indelicadeza, escolhemos deixar morrer.

Mas não é tudo. A tendência é piorar. Até o século passado, quando chegavam ao limite do suportável, em busca de algum equilíbrio, os miseráveis faziam greves. No século atual, seria inócuo. Já sobra mão de obra por aí e a cada dia ela é mais dispensável com as novas tecnologias.

A solução do século retrasado, que era quebrar ou pau, seria uma temeridade. Não afetaria as classes dominantes e criaria um argumento para escalar do “deixar morrer” para deliberadamente matar. Não por acaso, já tem governador que fala em “mirar na cabecinha e pum” e presidente que quer  usar drones para abater gente.

Seja no Rio Grande, no Mediterrâneo ou em Angra dos Reis, lugares bonitos e ricos, feitos para a humanidade viver bem e em paz, o cenário presente e futuro será de horror, miséria e morte. Porque escolhemos assim.

 
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Bolsonaro olha a onça 2

A análise de um problema pode ser feita trás pra frente e de frente pra trás. Tanto faz. E tanto melhor se o analista fizer os dois percursos para tirar a prova.

No texto anterior imaginei Bolsonaro chegando ao segundo turno em 2022 usando sua base muscular reacionária na primeira fase, e engordando na segunda, que é plebiscitária, ao lado de liberais e conservadores apavorados com o PT.

Fazendo o caminho inverso, começando com um plebiscito pró ou contra PT, provavelmente o antipetismo venceria, como venceu em 2018, e afastado o medo haveria espaço para o eleitor escolher com calma o candidato antipetista de sua preferência, numa eleição onde dificilmente Bolsonaro teria êxito.

Ocorre que tal cenário só existe em hipótese e serve no máximo para confirmar o primeiro percurso. Dentro da regra que temos, a vantagem no campo antipetista é de novo de Bolsonaro, que com a caneta tem os holofotes que quer, fala direto com sua base eleitoral pelas redes sociais, pode desprezar a imprensa como já faz, convocar manifestações contra adversários e até outros poderes, faltar a qualquer debate mesmo sem facada, usando uma malcriação qualquer como desculpa – porque para seus seguidores, cola.

Outro exemplo possível é a eleição americana, cujo sistema acontece mais ou menos como na hipótese de etapas invertidas que apresentei. Isto é, sendo plebiscitária a eleição, com democratas versus republicanos, o eleitor primeiro escolhe um lado para então decidir quem tem mais chance de derrotar o outro lado.

A corrida para 2020 já começou por lá. Do lado republicano Trump busca a reeleição jogando para seu eleitorado, até porque sabe que é praticamente impossível converter um voto democrata em republicano, e vice-versa, sobretudo se republicano estiver ameaçado pelo velho fantasma comunista, que vem sendo a tônica da campanha trumpista. Do lado democrata é a maior quantidade de inscritos na história, a ponto de não caberem todos ao mesmo tempo num debate.

Porém, se os republicanos pudessem escolher outro candidato em eleições primárias, Trump teria que moderar o discurso e suar muito para conseguir a indicação. Até agora ninguém se habilitou, noves fora os radicais do Tea Party que até ajudariam Trump falando de um extremo ainda mais extremo. Se aparecer um nome razoável, deixará a corrida mais clara pela melhora do debate, e divertida pela incerteza ainda maior sobre o resultado.

* Um amigo jornalista que trabalha como correspondente nos EUA lembrou de John Kasich, político com longa trajetória parlamentar, bem sucedido como governador de Ohio, moderado e carismático. A ver.

 
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Bolsonaro olha a onça

Sim, é cedo para tratar do assunto. Mas não fui eu que comecei.

Um ano antes da abertura do calendário eleitoral nos municípios e menos de um ano depois de concluídos os processos nacional e estaduais, o presidente da República botou o bloco na rua e já fala abertamente em em reeleição.

Bolsonaro pode ser cretino em assuntos gerais, mas de eleição ele entende. Em trinta anos de vida pública só perdeu uma, quando botou o filho ZeroUm para concorrer a prefeito no Rio.

Sabe muito bem o que tem que fazer para ficar no Planalto até 2022 e a melhor receita é manter a briga no campo onde melhor evolui, isto é, em campanha. Daí que, para contrapor tantos analistas certos sobre sua incapacidade de governar e receosos sobre a conclusão do mandato, subiu no ringue.

Ou é normal um presidente aos seis meses de mandato verbalizar impeachment, reeleição, chamar para rua manifestações de sua base? Teremos a segunda neste dia 30 de junho.

É anormal. E é justamente a anormalidade a estratégia bolsonarista. Ele sabe que em condições normais a razão ganha espaço social, e uma sociedade arrazoada não elegeria alguém como ele.

O corner antipetista para 2022 está uma muvuca. Além de Bolsonaro, há os governadores Doria, de SP, Witzel, do Rio, talvez o Caiado, do Goiás. Tem Maia, presidente da Câmara e namorado do mercado, Moro, o juiz-político e super-herói de alguns, e ainda o partido Novo, que deve ganhar espaço.

Neste cenário vale a velha piada capitalista. Dois amigos passeavam pelo Pantanal em galochas, quando surge uma onça. Um descalça as galochas e calça um par de tênis, ao que o outro debocha, dizendo que é impossível correr mais do que a onça. A réplica é fulminante: só preciso correr mais do que você.

Esta é a estratégia bolsonarista. Meter o louco de sempre e manter apaixonada sua base reacionária, que chuto entre 15% e 20%, é alcançável pelas redes sociais, descrente da imprensa e suficiente para passar ao segundo turno e fazer o plebiscito contra o PT ao lado de liberais e conservadores assombráveis pelo fantasma eterno do comunismo.

 
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39 quilos de cocaína

Acabo de chegar da venda. Fui conferir, empilhando no carrinho, qual é o volume em farinha de trigo do que tinha em cocaína no avião presidencial. Na gondola não tinha tudo em farinha e eu tive que inteirar com um pouco de sal. Afirmo que é muita coisa e me pergunto como alguém sozinho poderia ter embarcado a mercadoria. Também me pergunto: e se fosse uma bomba?

Para nossa sorte, Jair Bolsonaro não está na oposição para acusar de tráfico internacional de drogas Temer, Dilma, Lula, FHC, Itamar ou Sarney. Ah, nem o Collor, que apesar da fama, nem com muita dedicação pode ter consumido a carga nos dois anos que passou no Planalto.

Para nosso azar, Jair Bolsonaro está na situação.

Trata-se de escândalo sem precedentes, no Brasil e no mundo. Eduardo Bolsonaro, deputado federal, presidente da comissão de Relações Internacionais da Câmara e principalmente filho ZeroTrês, já acusou as autoridades venezuelanas de envolvimento com o tráfico de drogas, sugerindo que o mesmo poderia acontecer no Brasil. No problema do papai ainda não meteu o nariz.

O primeiro prejuízo é das Forças Armadas. Além de participarem deste governo, no mínimo constrangedor, vão somando débitos na falsa imagem de instituição impoluta e rigorosa que construíram ao longo de 35 anos depois do grande vexame de 21 anos da ditadura que patrocinaram.

Do mesmo jeito que os milicos não viram o colossal volume de 39 quilos de cocaína embarcando no avião do presidente da República, não viram os 117 fuzis de Ronnie Lessa, vizinho e ex-cossogro do presidente eleito, não viram as súcias milicianas do candidato a presidente com Queiroz e famílias.

Bolsonaro deve estar exultante em seu espirito rancoroso e vingativo. Desprezado pelas Forças Armadas, barrado em solenidades da caserna durante tantos anos, mesmo sendo deputado federal, como bem deixou claro o xaropinho general Augusto Heleno no papo com o Valor Econômico. Sob seu governo, a cada dia a instituição responsável pela manutenção da soberania nacional é desmoralizada. Quando restar só o pó, finalmente poderemos contar com as milícias, conforme proposta do filho ZeroUm.

Fosse eu periquito, tomava hoje um litro de Passport, aquele uísque em litro verde, quadrado e cheio de medalhas, excelente para amnésia pontual.

 
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O Morin tem razão

Do alto de seus 98 e pelo menos uma caipirinha, o filósofo francês Edgard Morin esteve em São Paulo para uma conferência no SESC e falou à repórter Úrsula Passos, da Folha.

Como ele opina sobre vários assuntos, e eu tendo a seguir pelo mesmo caminho sem receio de me esborrachar, aqui vou me controlar para ficar em só uma ideia.

Disse o Morin: A crise da democracia é o controle do poder político pelo poder financeiro, que é cego, que só vê interesses imediatos, que não tem consciência dos destinos da humanidade.

Concordo com ele e quero falar do que considero a causa histórica do problema. Com as revoluções científicas ao longo dos séculos sedimentou-se a noção de que ciência, ciência mesmo, ciência pra valer, só as chamadas ciências exatas. As demais, apelidadas de ciências humanas, viraram chacota, coisa de desocupado, maconheiro e outros bichos. Cultura inútil, enfim.

Compramos a noção de que só valia a pena estudar o que fosse exato, palpável, demonstrável, matérias que apresentassem respostas definitivas, como Engenharia, Matemática, Tecnologia, Química. O valor deste conceito chegou ao ponto de arrastar para a exatidão ciências essencialmente dependentes de consciência de humanidade, como Direito, Medicina e Economia. Assim nos formamos e o preço que pagamos é o desequilíbrio atual.

Porque é lógico: ao aceitar que só tem valor o que pode ser exatamente convertido em preço, seja do produto ou do trabalho, a sociedade fez uma escolha. E a Política, que é rigorosamente o entendimento ou a escolha de uma sociedade sobre como ela deva funcionar, não poderia escapar da lógica monetarista: tudo tem que ter um preço, inclusive a Política.

Mas como preço e valor sempre vão acabar se encontrando, se estiverem muito distantes ou desequilibrados, o caminho para o encontro será mais difícil, a viagem será uma crise, não um passeio. Crise de valores.

Não sei se é o auge, mas nunca vi nada pior nesse sentido do que um presidente da República e seus escolhidos para cuidar da Educação diminuindo a importância da Sociologia, Psicologia, Filosofia e outras ciências da seara que o vulgar chama de “cultura inútil” na academia. Não por acaso, são os mesmos que costumam atacar a Política. Note: adotam a Política de atacar a Política do outro, negando o entendimento, o reconhecimento, como se só a deles valesse. Isso tem nome mas eu prometi ficar numa só ideia. Adiante.

Para voltar ao Morin e concordar com ele dando exemplos, fiquemos com a Economia e a Filosofia Política. Historicamente a segunda é acusada de jamais ter conseguido definir um padrão exato, como a Economia julgou ter conseguido sob a frieza da matemática e afastada do calor das emoções humanas. Pior: acusam a suposta deficiência da Filosofia Política como responsável pela instabilidade política no mundo ao longo dos séculos.

Vejo aí duas injustiças. Primeiro, a instabilidade política no mundo inteiro, na história inteira e principalmente na mais recente, começa com a influência desproporcional do poder econômico sobre as decisões políticas. E o retorno à estabilidade acontece quando a balança é invertida, quer dizer, quando as decisões políticas determinam a direção do poder econômico.

As exceções são os processos muito acelerados, como algumas guerras, as pestes, os cataclismos, sob as quais a sociedade, impactada em conjunto, tende a reagir com solidariedade. Mas mesmo nestes casos, se acontece de alguém saber antes, o comum é que procure salvação individual usando o poder econômico, quando não se aproveitando da informação para tirar proveito também econômico. E, como as depressões econômicas são previsíveis, principalmente por grupos que detém poder econômico e político, também é comum que se trabalhe individualmente no sentido do quanto pior, melhor, pelo menos até que a derrota coletiva seja reconhecida e se lembrem de chamar a Política para resolver.

A segunda injustiça é a acusar a Filosofia Política de não ter conseguido definir um padrão. É verdade que sobram idas e vindas, cuja causa principal está posta e é externa. Econômica. Mas também é verdade que há 2.500 anos o Aristóteles separou em três as formas de governo, ou seis, considerando uma versão boa e outra ruim para cada uma. Quais sejam, monarquia ou tirania (poder de um), aristocracia ou oligarquia (poder de poucos) e regime constitucional ou democracia/demagogia (poder de muitos). Vigoram até hoje.

Mais recentemente, o Montesquieu definiu o modelo ideal de Estado que é adotado pelas nações que melhor se desenvolveram. Como? Separando os poderes do Estado em três, os quais considero uma adaptação do esquema do Ari: Legislativo (poder de muitos), Judiciário (poder de poucos), Executivo (poder de um).  Definitivamente é o que funciona e, quando falha, é de novo por problema externo, notadamente econômico, que vem do problema da representatividade desvirtuada pelo desequilíbrio do financiamento da Política, desde o eleitoral até o participativo, através do lobby.

Trazendo o problema para o Brasil atual, o motivo pelo qual as reformas estruturantes deveriam começar pela reforma política – e não meramente puxadinho eleitoral que sempre sai em ano ímpar – deveria ser a primeira reforma, e principalmente voltada para diminuir o peso do poder econômico na escolha dos representantes que deverão fazer as demais reformas de Estado. Pela ordem: Pacto Federativo, reforma fiscal, tributária, trabalhista, da Previdência.

 
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Imparcialidade em vertigem

Ao contrário da realidade em outros países, notadamente na Europa e nos Estados Unidos, no Brasil os órgãos e mesmo os profissionais de imprensa optam por não manifestar lado em questões políticas.

O fenômeno, que curiosamente ganhou mais força desde a redemocratização, com raras e pontuais exceções como o Estadão declarando voto em José Serra para presidente, a revista Trip para a vereadora Soninha Francine e o antropólogo Roberto da Matta também em Serra e no Estadão, surgem sinas de arrefecimento e isto é para mim algo positivo.

Igual a tudo na vida, não é sem dor que avançamos. Só nos últimos dias pelo menos três jornalistas foram vítimas de perseguição aparentemente por dissintonia com a expectativa de seus empregadores. Marco Antonio Villa foi afastado e então demitido da rádio Jovem Pan, Paulo Henrique Amorim afastado da TV Record e Rachel Sherazade teve a cabeça pedida por um anunciante do SBT. Fora Amorim, Sherazade e Villa passaram os últimos anos fazendo críticas implacáveis ao lulopetismo e mantiveram os critérios para avaliar o bolsonarismo. Quer dizer, se a régua dos profissionais em geral não mudou, mudou a das empresas, que mostram como vão orientar seu jornalismo. Como o site The Intercept, sabemos que pelo menos três concessionárias públicas têm lado.

Mais distante e não menos relevante, Reinaldo Azevedo pediu demissão da Veja em função do vazamento pela Lava Jato de uma conversa com fonte onde criticava matéria da revista. O problema aí não é da empresa, mas da Justiça que não podia usar escuta como meio de perseguição. Imagina se cada um de nós, na iniciativa privada, tivesse vazadas as conversas em que criticamos chefes, patrões e parceiros. A rádio peão que toca nas calçadas, quilos e cafés no horário do almoço indica o tamanho da confusão.

A questão é sobre quem pode ter lado e cresceu com o lançamento do documentário Democracia em Vertigem, da Petra Costa para a Netflix. Com lado muito bem definido, a cineasta deixa claro qual onde é seu ponto de vista.

O mesmo caminho foi adotado pelo diretor Nanni Moretti em “Santiago, Itália”, em cartaz em São Paulo na mostra É Tudo Verdade. Ainda não assisti, mas o artigo que o diretor do festival de documentários Amir Labaki escreveu para o Valor Econômico conta que, lá pelas tantas, contraposto por um general da ditadura Pinochet que reclamava por um entrevistador neutro, Moretti diz e repete: “Eu não sou imparcial.”

E não deverá ser diferente com o documentário produzido pelo MBL sobre o processo de impeachment de Dilma e efeitos da Lava Jato já retratado pela Petra Costa. Teremos duas versões sobre um período e cabe à audiência escolher um lado ou nenhum. E ainda não se sabe se o MBL incluirá no filme a notícia e as “escusas” pedidas pelo ministro Moro sobre tê-los chamado de tontos mesmo dizendo que não sabe se chamou.

Minha conclusão: isenção não existe; em jornalismo, empresas podem ter lado e devem ser imparciais em reportagens, respeitando a verdade dos fatos; articulistas podem ter lado e terão minha preferência se forem imparciais; documentaristas podem ser imparciais desde que com transparência; juiz imparcial mais que uma contradição é uma ilegalidade.

 
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Desânimo apanhou

Hoje meu desânimo em relação à sociedade apanhou. Foram três golpes em coisa de meia-hora.

Saindo do parque, já esperando o primeiro semáforo, sou abordado pela senhora que momentos antes me servia uma água de coco. Com a língua de fora, explicou que correu para me entregar quatro reais do troco que eu esquecera na cadeira.

No caminho de casa toca o telefone. Era o sapateiro avisando que emitiu minha nota fiscal de ISS, a paulistana, que peço mais animadamente do que as de ICMS ou paulista, porque gostaria de ganhar um milhão. Na semana passada ele não tinha talão e confesso que achei que estava me enrolando quando pediu para deixar o número anotado para que providenciasse.

No supermercado, compro uma dúzia de ovos que estavam em promoção de dez por oito reais. Chego ao caixa de autoatendimento e vejo que a máquina cobrou 4,99. Chamo um funcionário para avisar e brinco com o ineditismo do evento, emendando que a empresa é famosa por errar muito, mas sempre a seu favor. A turma em volta, clientes e funcionários riram da piada embasada na verdade. No fim, fizeram questão de manter o preço lançado abaixo do anunciado.

 

 

 
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Moro é a mãe

Clássico aqui em casa, suspeito que, igual a tantas outras coisas, siga a regra que diz que é tudo igual, só muda o endereço. Falo da mãe que, confrontada com a menor crítica, reage assumindo TODA a culpa do mundo, afirma que não faz NADA certo, que era melhor desfazer TUDO o que ela pôs a mão. Funciona bem com crianças e com adolescentes das mas variadas idades. Com adultos, não cola. Vira piada.

A defesa do ministro Moro segue a mesma linha. Respondendo ao senador Fabiano Contarato (REDE-ES), defensor da Lava Jato, ex-delegado e professor de Direito, que disse o óbvio sobre as mensagens reveladas pela Vaza Jato, isto é, que a relação de Moro com Dalagnoll violou o princípio da imparcialidade, a ética, a Constituição Federal, o código de Processo Penal, a Lei da Magistratura e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, lembrando que, se em seus 27 anos como delegado, se ele fizesse contato semelhante com uma das partes de um inquérito e tal fato chegasse ao MP ou ao Judiciário, ficaria preso na delegacia, Moro escapou como uma mãe: “O senhor, então, quer que se anule TUDO?”

Por “TUDO” Moro inclui a anulação dos processos de tantos condenados, inclusive réus confessos que devolveram dinheiro roubado, como Renato Duque e Paulo Roberto Costa. Piada. Mas tem gente boa que caiu na charla, como se Duque e Costa tivessem herdado milhões ou acertado na loteria, e resolvido doar o dinheiro para a viúva só para não terem mais amolações. É rir pra não chorar.

Ninguém deve temer a anulação geral da Lava Jato. Obviamente seria impossível. Mas quem apoia a operação e deseja que o combate à corrupção nos altos escalões prossiga, tem por obrigação lógica pedir que sejam revistos os processos onde juiz e o procurador se tornaram suspeitos, inclusive com novos julgamentos.

Ah, mas seria um prêmio para Lula, que aparece destacado nos primeiros vazamentos. Ora, quem tem convicção da culpa do ex-presidente, por coerência não pode temer que um processo novo resulte em final diferente. É custoso, sem dúvida. Mas muito mais barato do que dormir com a possibilidade de alguém estar preso injustamente. Muito mais barato do que alimentar eternamente o discurso de prisão política. Isto sim mancha e enfraquece a Lava Jato.

O mérito da Lava Jato foi processar e penalizar estratos sociais que até então raramente conheciam punição. Sob o lema “a Lei é para todos”, rompeu paradigmas, influenciou cortes superiores. O ideal seria que influenciasse também para baixo, a primeiríssima instância da Justiça, que é a policial, e que infeliz e amargamente pesa diferente para ricos e pobres. E neste ponto a aula de um senador ex-delegado ao ministro ex-juiz ganha peso dois.

Sim, a gente já dorme sabendo que há milhares de presos com pena cumprida, outros milhares presos antes do tal transitado em julgado. E que o motivo da injustiça é socioeconômico, não legal.

O sonho que a Lava Jato ofertou foi o de ver a Justiça alcançando quem podia pagar os melhores advogados. Mas pode virar pesadelo se deixarmos crescer a impressão de que, para tanto, as autoridades se valeram de justiçamento, não da Justiça, e o resultado será que a confiança duramente construída ao longo de cinco anos dará lugar ao medo, exatamente como acontece com o trabalho das polícias nas periferias. Quem pede uma revisão da forma de como a polícia trabalha, quer melhorar a polícia e a Justiça, não acabar com ela nem proteger criminosos.

Esse medo de mexer em parte e acabar comprometendo o todo é o mesmo que pode sufocar a continuidade da operação Lava Jato. O deixa-estar para trás serve da mesma maneira para frente. A quem interessa um cenário assim? Cada vez mais fortes são os rumores de que os maiores interessados são os próximos alvos das investigações, gente e corporações ainda mais ricas e poderosas do que as processadas até aqui, para quem a Pátria sempre foi mãe gentil, ao contrário dos outros pobres filhos deste solo. Qual delas Sérgio Moro quer ser?

 
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Jorge Paulo Lemann, passado, presente e futuro

Duramente criticada à direita e à canhota, a bancada do Jorge Paulo Lemann está diante da fronteira que marcará sua independência ou subserviência ao padrinho bilionário. E a reboque vem um indicativo sobre as semelhanças e diferenças entre as pessoas física e jurídica do magnata no trato com seus afilhados políticos.

Nota da coluna Radar da Veja – Ataque ao gigante: “O gabinete de Bolsonaro está no centro de uma guerra entre cervejarias artesanais e a Ambev pelo IPI da Zona Franca de Manaus. Os pequenos pedem o imposto zerado. O gigante, seus créditos de 20%. Nos dois lados, milhares de empregos em jogo.”

É fácil entender como a Ambev (pessoa jurídica do Jorge Paulo) e outras gigantes das bebidas garantiram tamanho privilégio. Até 2014, último ano em que foram permitidas doações de empresas a campanhas eleitorais, a PJ do JP pingou R$ 41,5 milhões em campanhas, com saldo de 76 deputados federais eleitos entre 19 partidos diferentes, com destaque para PMDB (R$12 mi), PT (R$11 mi) e PSDB (R$8 mi). Pragmatismo que desceu redondo.

Já em 2018, três deputados federais eleitos têm histórico ligado a Jorge Paulo, neste caso por conta das bolsas de estudos ofertadas pela Fundação Lemann. Tabata Amaral (PDT-SP), Felipe Rigoni (PSB-ES), Tiago Mitraud (Novo-MG).

A semelhança com o que a Ambev fazia está no princípio ecumênico-ideológico, como se nota pelas legendas pelas quais se elegeram suas excelências e na passagem por movimentos político-eleitorais como o RenovaBr, sabidamente apoiado por Lemann, ainda que, em contradição com o que prega para partidos e outras entidades e instituições, não publique dados sobre como é financiado.

A diferença, ou pelo menos um indicativo, saberemos pelo posicionamento de Amaral, Rigoni e Mitraud em relação ao privilégio que a Ambev quer manter na Zona Franca.

Isto é, a Ambev não se furtará em defender a manutenção de suas benesses, garantindo que seus donos continuem figurando entre três dos seis homens mais ricos do Brasil que, somados, concentram o mesmo dinheiro da metade mais pobre da população. Querem ganhar mais e mais ainda hoje custe o que custar.

Já a Fundação Lemann pretende lavar a ganância do presente investindo na educação de jovens que cuidarão de fazer do Brasil um país melhor, mas no futuro, e a mão na massa mais aparente vem com a primeira geração de parlamentares eleitos.

Ironia do destino, a cosmovisão política de Jorge Paulo se encontra hoje em pauta, e seus afilhados terão que enfrentar o dilema entre passado, presente e futuro. É com vocês, excelências. Posicionem-se.

 
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Corpus Christi 2019 – entendedores entenderão

Um fiscal de renda em começo de carreira encontrou indícios de irregularidades em uma grande empresa e a denunciou, com vasta publicidade na imprensa. O empresário, que era popular como gestor, faturando inclusive com palestras, se defendeu dizendo que fazia o possível, que empregava milhares de pessoas cujas famílias dependiam de tais empregos, que era muito difícil o empreendedor sobreviver sob as regras e a cultura empresarial brasileira, e falou em perseguição pessoal. Com efeito, dois partidos se destacaram contra e a favor da investigação. Preocupado com sua imagem pública, o fiscal denunciou também a maior concorrente da primeira empresa, mesmo sem motivo legal, entendendo que mais importante era continuar seu trabalho pela moralidade fiscal nacional. As duas empresas quebraram.

Um agente da vigilância sanitária, também iniciante, lacrou um botequim porque este ainda não tinha alvará. Mas naquela paróquia o botequim era festejado e a freguesia se juntou para defender o português empreendedor, que por sua vez mostrou o rolo que é o Brasil: alvará só sai, quando sai, depois que a vigilância atesta as condições de funcionamento, porém ninguém pode funcionar sem alvará, donde conclui-se que em algum momento todos atravessam um limbo regulatório. Para preservar sua carreira, o agente lacrou os demais botequins da vizinhança, que ficou sem nenhum, levando o bairro à decadência, desemprego, ruas vazias e perigosas. Todo mundo perdeu.

Um jovem árbitro de futebol marcou continuadas faltas contra um determinado time, a ponto de sua imparcialidade ser contestada pela torcida, que era grande. Receando perder o emprego ou limitar sua carreira a campeonatos regionais, o “juiz” combinou com os bandeirinhas que seria necessário equilibrar as coisas, marcando eventualmente faltas, pênaltis, gols e alguns cartões contra ou a favor de uma equipe tradicionalmente adversária, ainda que sem motivo. Mais importante era moralizar o futebol de acordo com seu VAR pessoal. O futebol acabou em descrédito, a pancadaria estourou nas gerais, foi um sete a um federal.

Preocupado com os rumos do casamento do filhos, os pais religiosos queriam dar um jeito de anular o matrimônio antes que viesse o inevitável divórcio, garantindo que os seus pudessem se casar de novo comme il faut. Problema: para anular matrimônio é necessário que algumas das faltas consideradas pela igreja tenha acontecido. E isso não havia. Gravemente cindidas, as famílias apelaram, e cada qual procurou sua autoridade religiosa mais chegada para preparar uma denúncia infundada contra o agregado. E os jovens religiosos, a fim de ganhar prestígio com determinadas famílias nessa selva que se tornou a concorrência eclesiástica, toparam aceitar as denúncias. O casal acabou como Romeu e Julieta, só trocando o veneno por pólvora e chumbo, que era a moda da época.

 
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