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Paulo Guedes falando sozinho

Coerente ao histórico acadêmico pelo qual é notado, a persona política de Paulo Guedes também fala sozinha.

PaGue construiu ao longo da vida um patrimônio sólido, inconteste entre seus pares economistas: cara de palhaço, pinta de palhaço, roupa de palhaço. O distinto é uma piada e, não à toa, ganhou o apelido de Beato Salu na academia.

Patrimônio financeiro também construiu, dos grandes. Até que, recentemente, já enjoativamente endinheirado, investiu na vingança. Beato Salu quer provar que estava certo quando pregava o fim do mundo. (Reconheço que nesse sentido ele vai firme.)

No seu primeiro ano enfim superministro, viu aprovada a Nova Previdência. Quer dizer, diz que aprovou, porque a panaceica reforma já estava pactuada sob Michel Temer, que só não a aprovou porque foi Temer demais.

Rodrigo Maia, que assumiu a presidência Câmara em 2016, desde então tinha tudo pronto para votar e passar, e é o principal responsável pela aprovação do texto.

Um aliado assim, só louco descarta. Não deu outra. PaGue conseguiu que o ensaboado Maia o deixasse falando sozinho. Disse o presidente da Câmara à Veja: “O ministro Paulo Guedes passa informações falsas em relação à crise dos estados e municípios. Ele não é sério. Se fosse sério, não  tentaria misturar a cabeça das pessoas.”

Traduzida em números, a crítica fica em R$ 285 bilhões, total calculado por Guedes para a compensação financeira a estados e municípios, que equivale a 100% de queda em arrecadação de ICMS e ISS. Coisa de louco.

O tema ainda vale uma nota política. A agenda Guedes sempre foi Mais Brasília, Menos Brasil. A ideia, boa, é descentralizar o poder, aproximar as decisões dos governantes das pessoas que, como dizia Franco Montoro, “não moram na União ou nos estados, mas nas cidades”. Nota-se agora que era cascata eleitoral do Posto Ipiranga e do Bolsonaro, ambos autoritários e centralizadores.

Maia ainda propôs um acordo entre os Três Poderes para reduzir os grandes salários do funcionalismo público durante a pandemia. Executivo e Judiciário se opuseram. E curiosamente, dias depois surge Paulo Guedes dizendo que salários mais altos dos funcionários são importantes para retomada econômica. Coisa de louco.

Mas como o “fora Maia” está na moda, vamos adotar e ver quem mais deixou Guedes falando sozinho: o próprio presidente Jair Bolsonaro. Se você estranhou a demissão no ministro da Saúde no meio de uma pandemia, leia só mais dois parágrafos, tenha a bondade.

O governo apresentou ontem o Pró-Brasil, um PowerPoint de meia dúzia de lâminas que qualquer netinho faria mais caprichado. Trata-se do programa de retomada econômica que a equipe de Bolsonaro foi capaz de fazer. Mas na apresentação não havia absolutamente ninguém do ministério da Economia. Muito engraçada, a apresentação não tinha número, não tinha nada, e ficou a cargo de um general.

Com todas as letras e literalmente, o plano que o ministro-chefe da Casa Civil general Braga Netto apresentou tem duas vertentes: ordem e progresso. Tem tudo pra dar certo – desde que você não torça contra.

 
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A vacina de Bolsonaro

No dia 19 de Abril, Jair Bolsonaro se juntou a fanáticos golpistas e discursou entre uma e outra tossida. De um lado, em letras garrafais, faixas e berros pedindo intervenção militar, fechamento do Legislativo e do Judiciário, novo AI-5. Do outro, os portões do quartel-general do Exército Brasileiro. Foi mais que atrevimento. Foi um atentado. Algo sem precedente na nossa história uma vivandeira alvoroçada despachando na Presidência da República.

Foi também uma vacina para Bolsonaro. Aos fanáticos que o seguem, o fascista disse “nós não queremos negociar nada”, frisou que “acabou a época da patifaria”, e emendou a charla contra a “velha política”.

Vacina porque aquele domingo marcava o começo da semana em que os velhos mensaleiros voltariam em peso ao centro do poder. PSD de Kassab (que segundo a PGR recebeu R$ 30 milhões da JBS e guardava em casa R$ 300 mil em espécie para despesas correntes); PL de Valdemar da Costa Neto (o Boy, aquele que negociava com Dilma de dentro da Papuda); PTB de Roberto Jefferson (que confessou corrupção com José Dirceu, deflagrando o mensalão); PP de Arthur Lira (réu na Lava Jato); e Republicanos (leia-se Igreja Universal de Edir Macedo) de Marcos Pereira, cotado para presidir a Câmara dos Deputados.

O trem da alegria envolve secretarias em ministérios, diretorias de estatais, Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e, pasme, em meio a pandemia, a Fundação Nacional de Saúde.

Nada de novo. Bolsonaro sempre esteve associado a essa turma. Pelos vários partidos que passou, arranjou, por exemplo, quando escalou no PTB de Roberto Jefferson, cargo com salario de aproximadamente dez mil reais para o então calouro Eduardo Bolsonaro, que ficou laranja em Brasília enquanto cursava faculdade no Rio de Janeiro. Mas disse à BBC que não se lembra. Antes, Flávio Bolsonaro e a progenitora do ZeroQuatro, Ana Cristina Siqueira Vale, também foram contemplados.

De nada adianta, porém, anotar qualquer coisa. Digo, nada deve mudar no oco das cabeças que seguem o Bolsonaro. Os fanáticos estão vacinados contra a verdade dos fatos. Boçais, cúmplices, seguirão mugindo a caminho do abatedouro.

Mas faço mesmo assim, pela coisa linda que será ver o ministro Sérgio Moro recebendo a gangue Esplanada dos Ministérios.

 
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O vírus do presente e o presente do vírus

Por favor, releve o jogo de palavras. Não resisti.

O vírus do presente, causador da Covid-19, é a novidade em si. E o presente que ele traz é esparramar luz sobre as trevas do nosso passado histórico. Mascarados, nos vemos obrigados ao espelho, espelho de camarim, com todas lâmpadas e lentes de aumento, escancarando o desagradável.

O presente decretou o fim da maquiagem, da tintura, do fotoshop, das luzes trabalhadas que tornavam tragáveis nossos defeitos e falhas intragáveis.

No mundo todo, indo ou voltando da corrida ao papel higiênico, a sociedade se alarmou com a quantidade de velhos pelas ruas, como se eles tivessem recém nascido. Em seguida passaram a olhar para a grande massa dependente de subempregos. Para as condições sem condições de habitação, transporte, nutrição, atendimento médico.

De repente, nos demos conta do horror da miséria, do desemprego, da falta de saneamento básico, da tristeza que é não poder ir a uma praça estar com quem gostamos.

Descobrimos, num passe de mágica, que arroz com feijão é comida instantânea, precisando de não mais do que vinte minutos, meia-hora, vá lá, entre o saco e o prato. E com efeito o valor desses minutos a mais para a nossa saúde, se comparados aos cinco minutos que aquele macarrão abjeto misturado a veneno químico requer para ser consumido com pressa.

Em outro lance fantástico, vimos brotar das cartolas da Faria Lima coelhos e mais coelhos, e anda mais coelhos, botando de parte o discurso sórdido pelo chamado Estado mínimo, da condenação da coisa pública, da prática Política.

Botando em números, na cidade de São Paulo 290 mil idosos moram sozinhos, e oito mil destes não têm com quem contar – o que não significa que os demais 282 mil tenham – consideremos os que moram com algum familiar por pudor ou necessidade e os que têm dinheiro para cuidador ou asilo, na cadeia sórdida do cuidador que cuida do meu velho, mas quem cuida do velho do cuidador? O mesmo vale para as babás.

Mais números de São Paulo, se segura: até o dia 20 de abril, dos 297 casos confirmados de Covid-19 no Morumbi, houve sete óbitos. Na Brasilândia, morreram 54 dos 89 infectados. Em 2019, a expectativa de vida no Alto de Pinheiros ao nascer foi de 85,33 anos; em São Miguel Paulista, 71,28.

Mais um, literalmente na boca do estômago: mesmo com dinheiro para presunto cru, queijo cheiroso, biscoito amanteigado, nos viramos nos trinta minutos de fogão para matar a vontade básica do arroz com feijão. Será que entenderemos que a absolutamente ninguém pode faltar arroz com feijão?

Os invisíveis enfim apareceram. Metade deles, que moram em lugares cinicamente chamados de casas, não têm saneamento básico. O ministro da Cidadania (da Cidadania!) Onyx Lorenzoni reconheceu que vinte milhões de brasileiros eram invisíveis aos olhos do Estado. Não duzentos mil nem dois milhões: 2O milhões, 10% da população. O presidente da Caixa Econômica Federal, banco público mais popular, admitiu a invisibilidade depois de dezesseis meses no posto, e que deve chegar a 75 milhões de pessoas o número de brasileiros que dependerão da renda básica emergencial. Seis vezes a população de Portugal.

O vírus do presente impôs a projeção do futuro, que assim como o retrato do passado não traz nada de novo: o fim do emprego ante as novas tecnologias é iminente; conservar o meio ambiente, arrefecendo produção e consumo, é urgente; entendimento internacional com respeito às culturas locais é a única saída; a renda básica universal é o caminho para a humanidade – e há convergência política para tanto em quase todo o mundo.

E o presente do vírus é o reconhecimento das camadas e setores que vinham apanhando como pandeiro. Notadamente os músicos e outros artistas, sobrevivendo de couvert, agora são aclamados pelas janelas, sacadas, lives. Para dentro delas, romances caem das prateleiras. A lei Rouanet vale por um bifinho?

Arte e talento se equilibrando com o capital, como no caso do pizzaiolo, que dependia 100% do investidor para trabalhar, ora descobrindo que pode fazer o mesmo desde casa. E o valor de uma conversa, antes jogada fora? Quanto vale aquela amizade repleta de prosa e “cultura inútil”, sem qualquer efeito prático ou retorno material?

Por um instante, a doença do vírus do presente foi batizada em 2019, e o presente do vírus veio em 2020, anunciando os anos vinte, os anos loucos, dar arte, da sobrevivência, da liberdade, do prazer de cada um a serviço de todos, do amor de verdade, do valor de verdade.

Sim, eis os anos vinte, eis o presente. E as bruxas? Las hay, las hay.

 
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Bolsonaro é corno

Bolsonaro é corno. E isso não tem nada a ver com a vida da primeira-dama. Bolsonaro é corno de nascença. Tem espírito de corno. É chifrudo na alma. Entre suas tantas certezas alucinadas, estão os chifres que enxerga no espelho, que sente quando enxuga a testa, atrapalha sua relação com o travesseiro. O corno já disse várias vezes que não dorme.

O presidente sem partido, sem time, sem fé, posição, sem noção, não consegue se relacionar porque é corno. Desconfia de tudo, como não poderia ser diferente com quem acredita em mamadeira de piroca.

A demissão de Mandetta teve todos os achaques da dor de corno. A deterioração da relação começou quando o então ministro, sendo ministro, fazendo papel de ministro, esteve em São Paulo para afinar as ações da Saúde nos planos nacional e estadual.

Para Bolsonaro foi adultério, raciocínio próprio de corno, que vê traição em tudo e, desconfiado, acusa a todos, notadamente de fazer politicagem – como só pensa naquilo, enxerga aquilo por todo lado. Inclusive em relação aos próprios filhos.

E com efeito, a cornitude é o cerne de sua base eleitoral. Gente que não acredita na verdade dos fatos, vê complô em tudo, compram teorias da conspiração, negam ciência, negam a Covid-19, descartam as ameaças reais e inventam fantasmas.

As reações de muitos sobre o que aconteceu ontem, carreatas covardes, apoio do presidente a manifestações contra a República, contra a Democracia, espantou alguns. Ora, o que há de novo? Ele sempre foi isso. Repetidamente negou a ditadura militar ao mesmo tempo em que afirmava ser favorável à tortura. Quem agora se diz espantado também sofre de síndrome de corno, que não é o último a saber, só é o último a querer enxergar.

E para alimentar a cornitude, os sinais trocados, embaçando a realidade. Diz o presidente que “não quer negociar nada” e o mantra “chega de velha política”, ao mesmo tempo que abre alas para a entrada de Roberto Jefferson e Waldemar da Costa Neto no governo. Diz que nunca atacou a imprensa e no mesmo ato diz que vai falar sozinho e “quem não quiser ouvir está dispensado”, emendando grosseria a um repórter que, sendo repórter, ignorou o delírio e fez pergunta.

Como o homem que se sente inferior e indigno de amor espanca a mulher, Bolsonaro não suporta o peso da Presidência, e por isso espanca a República. Mil vezes corno.

 
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PEC da Faria Lima ou do Orçamento de Guerra?

O filósofo Yuval Harari comentou que a gente não deve tratar a pandemia por guerra, evitando que se materialize um inimigo a ser enfrentado para além do vírus, um inimigo humano, um povo, uma Nação, o diferente.

É compreensível que um israelense goste menos da palavra guerra. Europeus também têm pelo menos dois motivos gigantes para detestar. Assim como os estadunidenses não deveriam gostar, apesar de parte deles parecer adorar, posto que as guerras que patrocinam acontecem no estrangeiro, cuja existência tantos deles ignoram.

A Ambev, quando chegou na Europa, aproveitou a campanha de motivação interna que emprega no Brasil, usando linguagem bélica para estimular que o concorrente seja tratado como inimigo. Os europeus a recusaram. Para eles, guerra é assunto sério.

Dado que a pandemia é global, talvez seja o caso de ouvir o conselho do Harari. Quanto mais entendermos que não há saída para o mundo fora do entendimento geral nas nações, melhor.

Aqui no Brasil, com ou sem influência do filósofo, a chamada PEC do orçamento de guerra foi apelidada de PEC da Faria Lima. É perfeito. E carrega o mesmo conceito: além do vírus, a ser combatido pelos profissionais da ciência e da saúde, temos que combater os financistas que enxergam o mundo pela frieza dos números, sem considerar as pessoas e o meio ambiente.

Economia sem pessoas e meio ambiente na conta não é economia. É mentira. E se alguém supõe que os farialimers estão dispostos a se adaptar à verdade dos fatos, muito se engana. E o lobby pela PEC da Faria Lima prova.

A cara de pau não tem limite. Até anteontem arautos do Estado mínimo, financistas que defendiam o poder de cura da mão invisível do mercado, sem qualquer pudor agora exigem amparo da mão forte do Estado. Mais exatamente, querem socorro do Banco Central para seus fundos que operam dívidas pública e corporativas, cujos valores despencaram ao mesmo tempo que as remunerações dispararam.

O argumento é de morrer de rir. Ou antes: de matar. Dizem os fundos chamados independentes, ou que não pertencem aos bancos, que a geração de emprego lá na ponta depende que suas contas estejam equilibradas. Para tanto, querem o mesmo socorro que os bancões já vêm recebendo do BC, com aumento de liquidez.

Ocorre que os bancos estão retendo o dinheiro, então os fundos querem relação direta com o BC. Agora, se os bancos não transferem o dinheiro para os fundos, quem garante que os fundos farão o oxigênio chegar à economia real?

Ora, se a ideia é descentralizar, que o BC crie mecanismos para comprar os títulos direto dos correntistas, que vão procurar algum investimento novo, aumentando a chance do fôlego se espalhar.

É urgente que a sociedade reaja e não aceite a charla velha. Miséria, favelas, desemprego, desigualdade, falta de saneamento, destruição do meio ambiente estão escancaradas pela covid-19, que é doença aguda, mas não têm nada de novo, são a nossa doença crônica, que a Faria Lima deliberadamente ignorou esses anos todos e despudoradamente segue indiferente.

A vontade geral de voltar ao “normal” depois da pandemia não pode ser confundida com continuar aceitando a anormalidade do desequilíbrio econômico (social, ambiente, financeiro). Este é, sim, o nosso inimigo. E deve ser tratado como tal. Prometo me esforçar para não chamar de guerra.

 
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Mandetta testou negativo ou como irritar Bolsonaro

Mandetta caiu. Ou pulou. No domingo foi ao Fantástico para não voltar. Testou enfrentar o presidente da República e, sendo demissível, deve ser isolado.

A locação escolhida para a entrevista foi simbólica: o palácio do governo goiano, onde seu aliado Ronaldo Caiado é inquilino e já ofereceu cargo além de pouso.

A tragicomédia da situação está na razão, tanto no caso particular da demissão quanto no sentido universal da palavra: o Mito não suporta a razão, a verdade dos fatos, a ciência, e por isso demitiu o ministro da Saúde em meio a uma pandemia.

No rol de meios para irritar Bolsonaro e seu rebanho, o uso da razão desponta.

O vice presidente general Hamilton Mourão diz as mesmas coisas que Mandetta. Defende isolamento social, respeito aos fatos, à ciência, comando local de governadores e prefeitos, lugar e tempo de fala dos profissionais aptos a falar publicamente sobre tratamentos contra qualquer doença, notadamente a Covid-19.

Mourão vai além. Chama o filho ZeroTrês de Eduardo Bananinha, conversa com congressistas, mantém boa relação com a imprensa. Ocorre que Mourão, tendo sido eleito, não pode ser demitido. Então pode fazer tais barbaridades, inadmissíveis barbaridades.

Outros ministros, os admiráveis da Esplanada, irritam o bolsonarismo pelo mesmo motivo: uso da razão.

Teresa Cristina, ministra da Agricultura, sinaliza pela boa relação com o embaixador da China para manter e ampliar nossos contratos de exportação, fundamentais para a economia e pontualmente urgentes para importação de insumos hospitalares. E é atacada nas redes do ódio bolsonarista.

Enquanto isso, popular com no palácio do Planalto é o xarope da Educação, que provoca com malcriações os chineses todos, inclusive os cidadãos, com crime de racismo.

O astronauta, ministro da Ciência e Tecnologia, teve que se desculpar com o filho ZeroDois, o carbonário Cartucho, chefe do gabinete do ódio, por tentar uma solução razoável para o uso de dados de geolocalização para evitar aglomerações.

Tarcísio Freitas, craque da Infraestrutura, deixou prevalecer o soldado obediente à qualquer ordem, por mais absurda que seja, ao técnico servo da razão, e acompanhou o chefe insano em uma excursão absurda à uma padaria em Brasília.

E assim vamos, acelerando para o precipício. Para ter apoio de Bolsonaro, é preciso ser maluco como ele e o gado que o suporta.

O ministro Lorenzoni e o ex-ministro deputado Terra vazam uma conversa de conspiração contra Mandetta, Terra especialmente deturpa artigos e dados sobre a pandemia, e ambos ganham simpatia no Planalto.

O presidente da Embratur publicou um vídeo na internet onde o Bolsonaro aparece carregando um caixão, em montagem sobre os dançarinos que animam funerais em Gana. O mundo confinado, milhões de pessoas perdendo entes queridos sem sequer poder velar por eles, e o chefe da empresa responsável por cuidar da imagem do Brasil no exterior, a fim de trazer turistas e divisas, trabalho e renda para os brasileiros, faz uma dessas.

Um fiscal do Ibama é demitido por fiscalizar o meio ambiente. Não foi o primeiro a sofrer retaliação. Logo no começo deste governo, o fiscal que flagrou e multou o então deputado Jair Bolsonaro, pescando em área de proteção ambiental em Angra dos Reis, foi perseguido. Tudo por meio do ministério do Meio Ambiente.

Assim é o Brasil bolsonarista. Quanto mais louco, mais alinhado com o chefe da Nação. Você que lute, freguesa, porque o pandemônio seguirá assim.

 
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A face fúnebre da solidariedade trará consequências – quais?

Melhor político em exercício no mundo, o chefe de Estado do Vaticano e da Igreja Católica celebrou, no 27 de março, pela primeira vez na História, missa para uma praça de São Pedro completamente vazia, evento que se repetiu no domingo de Páscoa, festa mais importante para os católicos praticantes.

A imagem daquela praça cívica – e obviamente religiosa, por estar diante da Catedral mais importante para o trono do mesmo São Pedro – vazia, parecia mais cheia do que pode estar em sua lotação plena. No lugar das sessenta mil pessoas que o espaço comporta, havia milhões de pessoas, católicas ou não, que pelo trabalho da imprensa e dos internautas puderam acompanhar a cerimônia.

Obviamente sou influenciado pela frase do meu tio-avô Franco Montoro, político tão parecido com o papa Chico, no primeiro comício pelas Diretas, diante da Catedral da Sé, em São Paulo, que ele convocou para o 25 de janeiro de 1984: “Há pouco me perguntaram quantas pessoas estão nesta praça. 300 mil? 400 mil? Aqui estão 130 milhões de brasileiros.” Bastidor antes de fechar parênteses: a frase foi soprada pelo quinto filho do governador, Ricardo Montoro.

Mais do que uma providência de ordem prática – evitar que dezenas de milhares de pessoas reunidas esparramassem o novo coronavírus,  a mensagem do papa quis mostrar que, neste momento, estar separado é estar mais junto. A humanidade, em distância prudente, mostra solidez, solidariedade.

Triste e bela imagem ante a necessidade. E não demora, haverá uma mais potente.

Sabe-se que há ainda hoje pelo mundo personalidades mais conhecidas que o papa. Na China, onde surgiu o vírus, não há religião. Outros países têm outras várias, como a Índia, com um bilhão de pessoas isoladas.

Mas para além das religiões há personalidades mundiais. Ídolos do esporte, astros da música, do cinema. Políticos com dimensão internacional. E é claro que, cedo ou tarde, um deles sucumbirá.

E então haverá um funeral, religioso ou pagão, com uma pessoa morta recebendo os adeuses de bilhões de seguidores pelos meios de comunicação. Se vai acontecer numa alcova de cemitério, palácio ou estádio, não importa. Haverá bilhões na audiência.

Já acontece entre nós, em particular, despedidas à distância, de entes queridos que não podem ou não devem ser velados presencialmente. O rito nos faz falta e terá efeito social.

Em alguns lugares, como no norte da Itália ou em Nova York, a vala comum é realidade. Face fúnebre da solidariedade, que também terá consequências sociais.

Porém até onde eu saiba, a despedida universal ainda não aconteceu. Talvez sequer uma nacional tenha acontecido. Porém de novo, de novo é questão de tempo. E de novo haverá consequências sociais. Depois delas, estaremos mais juntos ou mais separados?

 

 

 
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A Coluna Sanders

Quando morreu o Luis Carlos Prestes, Paulo Francis anotou: morreu simultâneo ao sonho. Era março de 1990 e o muro de Berlim caíra quatro meses antes, simbolizando o ocaso socialista.

O Velho, líder da Coluna Prestes, que atravessou o Brasil na segunda metade dos anos 1920, ficou conhecido como um movimento tenentista de oposição à oligarquia do sudeste, que dominava o poder pela política do café com leite, ou entre São Paulo e Minas, governando no Rio.

Porém antes que militarista, a Coluna Prestes era um movimento popular que reivindicava direitos hoje óbvios: educação pública e obrigatória, fim da miséria, da injustiça social e arrefecimento da desigualdade econômica, voto secreto.

Daí que, igual a frase célebre de um chinês sobre o legado da Revolução Francesa em seu bicentenário, Francis foi precipitado ao lavrar o obituário do sonho do Velho.

Até porque o sonho do Velho era o comunismo, que se nunca nasceu, em qualquer parte, a qualquer tempo, não poderia morrer. O caminho projetado pelo Prestes foi o socialismo. Mas no ideal não era diferente do projetado por um de seus antagonistas, Roberto Campos, capitalista fervoroso. Os debates entre ambos deixam claro que tinham um sonho comum, só divergiam no itinerário.

Como no século 20, com ajuda de ditaduras socialistas e propaganda capitalista, o comunismo virou palavrão, monstro a ser combatido, conceito abstrato, contra o qual vale tudo e tudo cabe, até o João Doria, a turma que tem dinheiro para pagar pelas melhores ideias vem ensaiando há algum tempo e com mais intensidade na última década, um apelido para estabelecer algo parecido que permita o a humanidade sobreviver sob harmonia e justiça social, ambiental, financeira.

A alcunha mais recente, ventilada anteontem, em janeiro de 2020, no relatório do encontro dos super-ricos em Davos, atende por economia steakholder, onde o poder sobre o capital seria pulverizado entre todos os envolvidos na cadeia de produção e criação de riqueza, empresários, acionistas, empregados, consumidores, fornecedores, com finanças obedecendo ao equilíbrio da sociedade e do meio ambiente. Podem espernear à vontade, mas isso é muito mais comunismo do que o Prestes imaginou alcançar em vida. É o ideal socialista. E é o ideal capitalista também.

Há trinta anos, no nordestes dos Estados Unidos surgia nacionalmente um político improvável. Seu sonho, impulsionado pela disputa bem sucedida contra Republicanos e Democratas nas eleições para prefeito em Burlington, maior cidade do estado de Vermont, era a criação de um terceiro partido político, de ideologia definida como socialista democrática, cuja base é um movimento popular batizado Coalizão Progressista, ou Coluna Sanders.

Curiosidade: em janeiro 1989, véspera da queda do Muro de Berlim, Bernie Sanders entregava a prefeitura de Burlington depois de consecutivos mandatos, e se preparava para ir ao Congresso dos Estados Unidos como senador. Contextualizem, por favor: EUA, 1989, bandeira socialista. Discordar é bom, mas há de se respeitar uma figura assim.

Trinta anos depois, o velho estadunidense se retira da corrida pela nomeação para disputar a Casa Branca pelo partido Democrata. Fosse vivo, Francis poderia escrever que o sonho da Coluna Sanders estreia quando Bernie sai de cena.

O fato é que Bernie Sanders denunciou a doença crônica da desigualdade social, da destruição do meio ambiente pela lógica de produção e consumo desenfreados, da necessidade de haver educação e saúde públicas, do Tesouro distribuir renda por transferência direta entre impostos sobre grandes fortunas e trabalhadores,

Seria exagero dizer que foi contraposto. Tentaram, sim, ridiculariza-lo afirmando que seria impossível. Até que de repente, não mais que de repente, surge uma doença aguda e, como num passe de mágica, todos – ou pelo menos a parte esclarecida da sociedade, seja através do amor ou da dor (assistam Boris Johnson de volta da internação agradecendo os cuidados de profissionais imigrantes) -, concordam com  Bernie.

Sim, velho Bernie, a Coluna Sanders vingou. E a sua também, velho Prestes. Chicago teve que curvar-se e hoje é aliada. Contra a razão, restam dois ou três líderes nacionais invertebrados, celerados, peçonhentos, que perecerão. Avante.

 
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Aceita que dói menos

O presidente da General Motors para a América do sul disse com toda clareza: na indústria as empresas têm caixa para sobreviver entre duas e seis semanas sem receita. Exata e precisamente assim. Um mês e meio, no máximo. Se nada for feito, começa a quebradeira. Está no caderno de Economia do Estadão deste 9 de abril.

Parece milonga e o preconceito contribui para a impressão. Perô, como o executivo argentino não fala particularmente sobre a GM, mas por toda cadeia de fornecedores, convém acreditar. É pule de dez. Quem ainda tiver um amigo industrial trabalhando no Brasi pode confirmar num zapzap.

Sobre de onde poderia vir o socorro, o barão apresenta um tripé: atrizes das multinacionais, bancos e Estado. Mas deixa claro que só um é pé é seguro: o Estado, emendando que, dada a crise mundial, as matrizes não falarão e que os bancos pedirão garantias que não existem. A conta deles, então, é sua, minha, nossa.

Agora sim é a milonga clássica das montadoras, mais conhecida que Por Una Cabeza. O garanhão de ontem, que anunciava na Faria Lima dez bilhões em investimentos para os próximos cinco anos, ora diz que não sai da baia. E que se o Estado não entrar com a cenoura e os torrões de açúcar, a chibata vai cantar. No lombo de quem? Ora, do 1,3 milhão de peões empregados pelo setor, é claro.

Não é uma maravilha? O Estado, que estava definitivamente quebrado quando a vontade era passar as reformas Trabalhista e da Previdência, agora tem fôlego para salvar todo mundo. E é claro que do 1,3 milhão que pode se livrar do engavetamento, 1% será melhor protegido, com freios de última geração, oito air-bags, bancos em couro e blindagem de fábrica.

Cá das galerias do Colón todos podem, se não ver, perceber o que há por trás do pano: o modelo de capitalismo de cooptação que imperou nas últimas décadas é grossa mentira no geral, e a indústria automobilística em particular é insustentável economicamente (sociedade, meio ambiente, finanças).

Ou como pode um setor dito de “bens duráveis” depender do consumo desenfreado de tais bens? Cada vez mais urbanizada, a humanidade ainda precisa de tantos automóveis? As sociedades estão dispostas a continuar pagando por desonerações, incentivos fiscais e socorro financeiro para uma indústria supérflua e altamente poluidora? Que toma dinheiro de todos para manter empregos e não mantém, para desenvolver tecnologias menos poluidoras e só entrega cobrando caríssimo, incapaz de pensar em modelos de reciclagem?

Em São Paulo, um terço dos deslocamentos são feitos por carro, e três terços das pessoas pagam caro pela manutenção da malha viária, pelo lixo que os carros espalham, pelas mortes no trânsito, pelo ar que respiram.

O fato é: acabou. Alguém disse que o cavalo já foi um erro. Mas há quem goste de cavalos. Com os carros particulares é a mesma coisa. Foi um erro, mas há quem goste. E ambos os grupos têm todo direito de gostar e usar, carros e cavalos. Mas que paguem particularmente por uns e outros.

Caso contrário, é mentira. E, se tem uma morte boa que a pandemia pode legar ao mundo, é a da mentira. Senhores, acabou. Urge um modelo econômico novo, com tudo na planilha: sociedade, meio ambiente, finanças. Aceitem que dói menos.

 

 
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A favor do Fundão: Democracia custa

O presidente Rodrigo Maia, da Câmara dos Deputados, baixou portaria cortando R$ 150 milhões do orçamento da Casa, que serão destinados ao combate no Brasil da pandemia que assola o mundo.

É pouco. Mas também é o triplo do que os três maiores bancos privados do país doarão em conjunto.

Ouço um farialimer: “Mas o dinheiro dos bancos é dos bancos, e o da Câmara é do pagador de impostos.” Falso. São bolsos da mesma calça. Só Itaú-Unibanco tive R$ 25 bilhões em perdão de impostos devidos depois da fusão.

Por falar em trinca, Maia também propôs corte de 20% nos salários do funcionalismo público. A tesoura cortaria nos Três Poderes. Mas no governo Bolsonaro, Paulo Guedes vetou, e no Judiciário há “muitas restrições”. Sepultaram a ideia.

O que não falta agora são os populistas de sempre defendendo raspar os dois bilhões do fundo eleitoral para botar no combate à Covid-19. Abutres em plumagem de pomba. Ideia rasteira, que como toda ideia rasteira, fala com facilidade quem não consegue enxergar acima da sarjeta.

Tão polêmico quanto óbvio, é necessário lembrar: Democracia custa. Democracia precede Educação, Saúde, Segurança, Economia (sociedade, meio ambiente, finanças) etc. Tudo isso junto é cada vez mais da conta do urbanismo, Democracia depende de urbanidade, e as eleições deste ano são nas cidades, que são as pessoas, que é onde vivem as pessoas.

Ora, cadê o tão exaltado “Mais Brasil, menos Brasília”? Era convicção ou conveniência eleitoreira?

Agora veja, freguesa, o juiz federal Catta Preta Neto bloqueou os fundos partidário e eleitoral para destinar à Saúde. Seria interessante um parecer do meritíssimo sobre o corte de 20% e dos dividendos acima do teto.

Veja mais uma coisa, freguesa. Como teremos Democracia se os partidos não tiverem dinheiro para suas atividades? Como um líder comunitário da favela do Vidigal, que se defende (se defendia) vendendo mate e biscoito grobo na praia, pode disputar eleição com o João Amoedo, seus cem milhões de dólares e nenhuma restrição para autofinanciamento eleitoral? Um tem que escolher entre o prejuízo de um dia sem faturar e a passagem para o trem para uma reunião em Madureira, o outro está num sofá de plumas branco, no ar-condicionado, fretando jato para rodar os estados.

Se dependesse só de Bolsonaro e seu Posto Ipiranga PaGue, a Renda Básica Emergencial para o vendedor de mate seria de R$ 200. O Parlamento, por unanimidade, subiu para até R$ 1.200.

Sem os fundos eleitoral e partidário, na melhor das hipóteses, teremos plutocratas autofinanciando sem limite as próprias campanhas, posto que não mais podem financiar bancadas inteiras em prol de seus interesses. Na pior, veremos o caixa-dois correr solto, e este hoje é mais fácil nas igrejas de fachada, nas milícias e demais organizações criminosas, no garimpo clandestino. (Base de quem mesmo?)

Democracia custa. Democracia custa. Democracia custa. E tanto na vida pública quanto na privada. Ou o distinto farialimer que chegou até aqui, babando, bota dinheiro em empresa autocrata onde o dono faz o que quer? Naturalmente prefere se proteger pagando o jeton dos conselheiros (Parlamento), compliance, auditoria, ouvidoria (Ministério Público, Tribunal de Contas), assessoria jurídica (Judiciário), pesquisa, desenvolvimento, formação, inovação (Ciência e Tecnologia, Educação-Universidade) e até benesses para seduzir executivos, como automóvel de luxo, título de clube de gólf, plano de saúde cinco estrelas, apartamento de cobertura (auxílio paletó e que tais)?

Farol alto, freguesia, por favor. Não sei se já disse, mas Democracia custa.

 
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