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17 universidades invadidas e a memória do “sutiã de náilon”

17 universidades foram invadidas por policiais e fiscais eleitorais por suposta propaganda eleitoral. Porém, entre o material apreendido, não consta menção a qualquer candidatura.

Na Universidade do Estado do Rio de Janeiro policiais militares retiraram uma placa que homenageava a vereadora Mariele Franco, assassinada em março, e uma faixa que dizia “Direito UERJ Antifascismo”. Algo óbvio para uma faculdade de Direito. Se a mensagem acaba associada a um candidato, talvez seja porque ele merece.

A justificativa dos TREs é que prédio público não pode servir à campanha eleitoral. Ta ok. Mas não havia propaganda eleitoral. E não consta cumprimento de medida judicial contra o comando do BOPE por ter cedido o quartel, que é prédio público, para candidato Jair Bolsonaro fazer campanha. Quem tem peito para enquadrar os caveiras?

Há 41 anos o coronel Erasmo Dias invadia a PUC-SP. Foi uma selvageria e amparada por grupos paramilitares, que chegaram a bater até em gente de saia – incluindo meninas e padres. Quase 900 alunos presos na ROTA. Algumas alunas acabaram queimadas. Sobre os ferimentos, diria o coronel: mulher tem a perna presa, não consegue correr; queimaram porque usavam sutiã de náilon.

O governador Paulo Egydio Martins assumiu a responsabilidade pelo ato. Gesto de grandeza. Em depoimento, explicou que havia um decreto da ditadura militar proibindo reunião estudantil. Quando descobriram a reunião na PUC, autorizou a PM cercar o prédio porém com ordens expressas: “Vamos respeitar o campus da PUC.” Então os alunos seguiram para o TUCA. O governador manteve a ordem: “O teatro é da PUC, não intervenham.”

Só quando a manifestação foi para a rua e consta que atiravam pedras contra a polícia. Então o governador autorizou que impedissem a baderna. Na rua. Porém com a confusão armada os alunos correram para dentro da universidade e a PM e os grupos  paramilitares acabaram invadindo o prédio.

Trago a história para mostrar que o problema de ter um candidato praticamente eleito presidente da República dizendo as coisas que diz, incentiva atos de violência das autoridades rasas e de grupos civis que passam a agir como milícias. A ação desmedida nas 17 universidades, as ameaças a jornalistas e cientistas, a perseguição virtual a opositores são só um aperitivo do que está por vir.

 
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2018 é 2016 requentado

João Doria é o maior suflê político da história recente. Subiu e desceu com a mesma velocidade. Empatado na margem de erro com Marcio França na corrida para o governo paulista, não dá para prever como sairá das urnas.

Mas na cidade onde estreou eleitoralmente com vitória inédita no primeiro turno, o recado da população é claro: o paulistano se arrependeu de confiar em Doria. As últimas pesquisas mostram França vinte pontos à frente na cidade de São Paulo.

A ascensão e queda doriana entre 2016 e 2018 guarda semelhanças com a eleição atual na falta de densidade, em que pese hoje o caldo estar ainda mais ralo. Em 2016 a cidade não foi debatida e em 2018 o país também não é. Porém, se em 2016 a receita já era antipetista e acabou fritando o PT nas urnas, pelo menos houve debate. Em 2018, na corrida estadual há bate-boca. Na nacional, nada.

Um ótimo exemplo da escassez racional veio hoje pela Folha na entrevista de Rodrigo Garcia, candidato a vice-governador na chapa com Doria. Apesar da insistência dos repórteres Thais Bilenky e Joelmir Tavares por respostas elaboradas, o que vimos foi um político experimentado falando nos termos de um tiozão do WhatsApp.

A diferença principal entre a eleição de 2016 em São Paulo e a nacional de 2018 está nas propostas dos candidatos.

Doria prometeu muito e não entregou. Participação e descentralização se mostraram estelionatos eleitorais, com a criação dos super-prefeitos regionais e esvaziamento dos conselhos. As privatizações morreram atropeladas. A dedicação viajou grande parte do tempo. O combate à corrupção foi desprezado com o fim da independência política da Controladoria. Se Aécio Neves e Lula levaram respectivamente trinta e quarenta anos para serem réus, Doria acelerou e chegou lá em quinze meses.

E o tão desfilado talento de gestor acaba com um dado: Doria quis pagar R$ 120 milhões pelo Parque Augusta. Um ano depois, Bruno Covas fechou o acordo por R$ 8 milhões. Na iniciativa privada seria um escândalo. E o fato de um ex-vice-presidente de uma construtoras envolvidas no negócio ter sido homem de confiança no governo Doria merece questionamento.

Tudo isso explica parte da rejeição a Doria na cidade que governou.

Em 2018 acontece justamente o inverso. Jair Bolsonaro, prato principal, reúne comensais que esperam dele um cardápio completamente diferente do prometido. Estão pedindo angu e esperando bife. Quando o rancho for servido, não poderão reclamar.

Daniela Lima, editora do Painel da Folha, escreveu hoje: “Se houver uma caçada à imprensa, supressão de ONGs, retrocessos para os índios, fim de pactos ambientais; se o aparato estatal for usado para identificar e punir opositores, se os gays voltarem para o armário, se o fosso salarial entre mulheres e homens se aprofundar, se o ministro e guru da economia ficar de saco cheio e pedir para sair, se for possível gravar uma cena de faroeste por dia no trânsito… Se isso ocorrer, ninguém poderá dizer que não sabe de onde veio o tiro na democracia. Foi o eleitor quem puxou o gatilho.”

Para além disso, à elite financeira, vendo o verde dos seus cofres sumindo simultâneo ao da Amazônia, entre barreiras comerciais e barragens do século passado, restará reclamar com alguém vestindo verde-oliva. E a história ensina que é um papel indigesto.

E a elite política que se omitiu, apostando no caldo entornado para recomeçar depois, terá que enfrentar o humor de clientes famintos e revoltados no salão.

 
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Conservador ou progressista? O legado da gestão de Olavo Setúbal

Crônica publicada no projeto Esquina Encontros Sobre Cidades do Estadão

Numa enquete entre amigos, o paulistano que perguntar qual foi o prefeito que criou as ruas de lazer, os calçadões do Centro, a secretaria da Cultura, promoveu bicicletas e passeios a pé, museus de rua, futebol nas praças, abriu os primeiros corredores de ônibus e entregou o Parque do Carmo, primeiro da Zona Leste, muito provavelmente a resposta será Fernando Haddad.

Porém a resposta certa é Olavo Setúbal. Indicado pela ARENA, foi eleito em 1975 por unanimidade, isto é, com todos os votos da oposição, então representada pelo MDB. Seu secretário de Esporte e Turismo, responsável por grande parte das gestões listadas no primeiro parágrafo, era Caio Pompeu de Toledo, que anos depois, no começo da redemocratização, ocupou o mesmo posto no gabinete do governador Franco Montoro e concorreu a vice-prefeito na chapa de Fernando Henrique Cardoso em 1985, ambos do MDB.

Note: banqueiro, empresário e conservador, Olavo Setúbal adotou uma agenda que hoje, no Brasil, é tida como progressista. Num paralelo entre o cenário político atual e o daquela época, em que vigorava o bipartidarismo, poderíamos dizer que o prefeito que tinha sobrenome de cidade portuguesa antecipou o que hoje os portugueses chamam carinhosamente de “geringonça”, um governo exitoso composto por forças políticas ideologicamente antagônicas.

O bacana é ver que o banco Itaú, controlado pela família Setúbal, continua o legado do doutor Olavo investindo em políticas públicas que ele inaugurou quando prefeito, sendo o apoio à mobilidade ativa pelo Bike Itaú o mais evidente.

No dia 24 de setembro o Esquina e o Itaú formalizaram uma parceria para o lançamento do canal do Esquina no YouTube, num encontro especial sobre bicicletas no auditório do Itaú Cultural na Avenida Paulista, com representantes da POLI-USP, da Iniciativa Bloomberg para Segurança Global no Trânsito e do próprio banco Itaú. O vídeo está no ar e merece o seu passeio.

Ao final, com o microfone aberto para a plateia fazer perguntas – que nunca faz, sempre são comentários – aproveitei para palpitar sobre bicicletas na cidade de São Paulo. Foram três sugestões:

1)   A ciclovia da Faria Lima está saturada, diariamente congestionada ao fim da tarde. Algum tipo de duplicação, pontual ou estrutural, deve ser pensada;

2)   O Jardim Paulista merece uma ciclo-faixa na Alameda Lorena. E como não há opção transversal de transporte coletivo entre a Paulista e a Faria Lima, alguma alternativa precisa ser pensada.

3)   Aos domingos o Parque do Ibirapuera transborda. Fica ainda mais bonito. Mas falta espaço e os acidentes com bicicletas são corriqueiros. Transformar a faixa lindeira das avenidas do entorno em rua de lazer aos domingos, proporcionando mais espaço para o pedal, seria ótimo.

 
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A vergonha é fundamental

Tenho palpite, mas é difícil definir como chegamos a tal ponto.

Assisti esses dias a um documentário sobre a independência da Catalunha onde gente moderada chorava ao comentar como a sociedade espanhola degringolou por conta de políticos demagogos, irresponsáveis, autoritários e seus seguidores. Está no Netflix.

Hoje, com o vídeo em que João Doria é apontado como protagonista, também senti vontade de chorar. Não é algo propriamente novo na lama eleitoreira – até muto pelo contrário. Mas a proporção e a velocidade do boato são assustadoras. Literalmente, ganhou o mundo em horas. Considerando que há famílias envolvidas – a dele e a das moças em cartaz, é de amargar.

Então veio o debate UOL/Folha/SBT. João Doria e Márcio França, que já tinham ultrapassado os limites do embate saudável (muito por culpa do João, que se revelou um tarado político nesta eleição, diga-se), surgiram em clima ameno.

Horas antes, Doria acusava França de ter falsificado o vídeo para prejudica-lo, algo tão grave e baixo quanto se a acusação fosse embasada. Só que não é. E debater serenamente com alguém que momentos antes você acusou de tal torpeza, é um traço de psicopatia.

No plano nacional, Fernando Haddad pega carona na afirmação de um músico e acusa general Mourão de ter praticado tortura no regime militar. Sequer fez as contas para verificar a idade que o militar teria à época. Logo ele, que foi acusado de ter incentivado a pedofilia por um YouTuber pernóstico e mentiroso.

O nível é inimaginável. Não se trata de divergência ideológica ou sequer de caneladas, mas de tortura e pedofilia.

(Vá lá que Mourão integrou e defende uma ditadura que torturou e matou. Já é inaceitável. Mas daí a ter torturado com as próprias mãos vai uma distância enorme.)

Ainda no plano nacional, Jair Bolsonaro, esfaqueado em campanha e com larga vantagem nas pesquisas, mostra não alcançar a dimensão que sua vida pode tomar oficialmente neste domingo. Do quintal de casa fez discurso fascista para uma vexatória multidão reunida para apoia-lo na Av. Paulista, prometendo banir ou exilar divergentes e botar a polícia para fazer valer a lei no lombo dos mesmos.

As consequências são naturais. De algum porão surge cheio de marra um coronel da reserva do Exército ameaçando de golpe e acusando de corrupta a ministra do STF e presidente do TSE Rosa Weber.

O nome do coronel de pijamas é Carlos Alves de Lima Filho. Imagine, freguesa,  que o Duque de Caxias, patrono do Exército, chamava-se Luís Alves de Lima e Silva, e tinha apelido de O Pacificador.

Desejo? Que a gente volte a ter vergonha do que os velhos vão achar do que fazemos, e se não pudermos entregar o país a eles, que pelos menos voltemos a seguir os exemplos. Meia-dúzia? Fernanda Montenegro, Paulo Mendes da Rocha, Dráuzio Varella, Marcos Azambuja, Fernando Penteado Cardoso, José Arthur Gianotti. Aceito sugestões.

 
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O que a reserva não aprendeu com a Globo

Quando Luciano Huck era pré-candidato a Presidência, sobrava pelas redes gente concluindo que a candidatura seria do interesse da TV Globo. Raciocínio tosco.

Ora, a TV Globo sempre teve o bônus do poder, próprio de todo grande veículo de comunicação, em qualquer parte do mundo, a qualquer tempo na história. Por quê desejaria assumir o ônus de um eventual fracasso tendo o presidente da República diretamente associado ao plim-plim?

Como todo brasileiro nato com no mínimo 35 anos de idade pode se filiar a um partido político e disputar a eleição, pré-requisitos que Huck dispõe, a família Marinho chamou o contratado ao Jardim Botânico e traçou a fronteira: teria que escolher entre a candidatura e o Caldeirão.

Ainda que as qualidades pessoais que notamos em Luciano Huck faltem a Jair Bolsonaro, este goza dos mesmos direitos políticos, e as Forças Armadas nada poderiam e menos ainda deveriam fazer contra sua candidatura. Bastou o bom papel de manter distância institucional da candidatura e do processo eleitoral.

A mesma coisa não podemos dizer dos oficiais da reserva. Com liberdade individual para tomar posição política, e inclusive concorrerem, como é o caso do general Mourão, cada vez mais a turma do pijama entra no processo eleitoral, dando entrevistas para expor seus projetos de país, falando como ministros pré-empossados.

Sem entrar no mérito das declarações, suficientes para colocar qualquer governo em estado de crise permanente aqui e alhures, a festa do pijama na campanha já é o bastante para a associação das Forças Armadas com o governo que provavelmente será eleito no domingo. A sociedade não percebe a diferença entre membros da ativa, da reserva ou reformados.

Disso deriva que, um eventual fracasso de um provável governo Bolsonaro prejudicaria a boa imagem que as Forças Armadas reconstruíram depois do ocaso do regime militar.

Para piorar, o candidato-capitão reformado, que “foi saído” do Exército por planejar uma série de atentados terroristas contra o próprio Exército, se inspira no que há de pior na história da instituição. Faz questão de manter sua imagem associada ao torturador Ustra. Olhamos para ele e pensamos na bomba do Rio-Centro ou nos porões do DOPS, não nas missões de paz e muito menos na defesa da Amazônia.

Na Folha de hoje o Celso Rocha de Barros escreveu citando Elio Gaspari: os militares e policiais que controlavam do porão logo se tornaram bandidos comuns, que os generais temiam que instaurassem a baderna na hierarquia. Aproveitaram-se do direito de atuar à margem da lei para ganhar dinheiro. Um célebre torturador tornou-se chefe do jogo do bicho no Rio de Janeiro. Outros se envolveram com esquadrões da morte, aquela turma que cobra dez para matar bandido e vinte para matar seu cunhado e mentir que ele era bandido.

Bolsonaro representa a turma que não admitia voltar dos palácios para a caserna e, para impedir a adequação, se dispuseram a tocar o terror. Votar nele, mais do que devolver os palácios à caserna, é entregar os palácios aos porões. Aderindo ao provável governo, a reserva se confunde com o pior do passado das Forças Armadas.

Não por acaso, na entrevista ao Jornal Nacional o ex-capitão só falou do apoio da TV Globo à ditadura militar, fingindo desconhecer a autocrítica que as organizações Globo com grandeza e responsabilidade fizeram – e que ele jamais fará.

2018 prova que a Globo aprendeu com os erros. A reserva, não. Senhoras e senhores membros da ativa, tremei.

 
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Meu voto e por que – 2º turno

Respeito o modelo brasileiro de jornalismo ou análise que não revela posição eleitoral. Mas prefiro o europeu ou americano, que sem abrir mão da imparcialidade, toma partido.

Minha escola política é a do meu tio-avô Franco Montoro e tem a democracia como princípio fundamental.

Montoro era parlamentarista, defendia voto distrital, promovia participação popular através de conselhos e, sempre que pôde, descentralizou as decisões de governo, abrindo mão de poder para oferecer o máximo de autonomia às cidades, que sabem mais e melhor das suas necessidades e soluções.

O conceito é simples: “Ninguém mora na União ou nos estados – as pessoas vivem nas cidades.” Isto é: tudo o que os estados puderem fazer, a União não deve fazer; tudo o que as cidades puderem fazer, os estados não devem fazer; tudo o que a sociedade puder fazer, a cidade não deve fazer.

Votarei em candidaturas alinhadas com estes ideais, consciente de que 100% de concordância, notadamente em segundo turno, é impossível.

Governador: Márcio França 40 PSB – advogado e político com orgulho de dizer que é político. Foi vereador, deputado e prefeito de São Vicente, reeleito com 92% dos votos. É o atual governador de São Paulo e representa continuidade sem continuísmo, construção sem destruição. Tem realizações em segurança, educação e turismo. E para mim sua característica fundamental é a vocação para o diálogo franco: é o mesmo jantando, despachando, no centro do Roda Viva ou nos debates. Sabe escutar, fala o que pensa e cumpre a palavra – algo básico porém raro hoje em dia.

Para presidente votarei contra Bolsonaro e contra o PT porque ambos apostam no atraso e na hegemonia como ferramentas de poder e fizeram o diabo para chegar ao segundo turno.

Por isso votarei em Fernando Haddad que, sendo filiado ao PT, é o menos petista entre seus pares, e sofreu tanta oposição dentro do próprio partido quanto de seus adversários. O fogo amigo de José Dirceu e Gleisi Hoffmann, o egoísmo de Lula e a cegueira da militância “raiz” são evidências do que afirmo. Haddad paga o preço por não ter se curvado aos bolcheviques que controlam a legenda, inclusive fazendo individualmente a autocrítica que esperamos de todos os partidos – incluindo Bolsonaro, que no lugar de autocrítica sobre as barbaridades que já fez e falou, se limita a dizer que estava brincando ou que é mentira.

Haddad fez muito papelão durante a campanha, disse coisas inaceitáveis e aqui eu critiquei todas elas. Mas seu currículo político, como ministro e prefeito, é incomparavelmente melhor do que o de seu adversário, este sim, repito, muito mais alinhado ao PT do atraso do que o próprio Haddad.

Fiz oposição a ele na prefeitura dia sim, outro também, inclusive no Conselho Participativo. E continuarei fazendo oposição se um milagre acontecer e ele for eleito.

Presidente: Fernando Haddad 13 – professor, político, advogado, é mestre em economia e doutor em filosofia. Foi ministro da Educação, criou o FIES e o ProUni. Prefeito da cidade de São Paulo, criou a Controladoria independente que desbaratou esquemas de corrupção, aprovou um Plano Diretor equilibrado, priorizou o transporte coletivo e a mobilidade ativa. Em 2016 venceu o “desafio internacional de prefeitos” da Bloomberg Philanthropies por um projeto de agricultura familiar em Parelheiros (Olha o Montoro aí #HortasComunitarias) , que rendeu prêmio de US$ 5 milhões à prefeitura.

 
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Da síndrome de vira-lata para a síndrome de chihuaua

Lula se valia da máxima “complexo de vira-lata”, cunhada pelo Nelson Rodrigues, para atacar toda e qualquer pessoa que ousasse divergir de sua volúpia de grande líder.

Não reconhecer que ele era “O Cara” bastava para o diagnóstico. No auge do delírio, 87% dos brasileiros concordavam com ele. Nas redes e nas ruas, os mais exaltados debochavam dos fatos e espantavam os divergentes como cachorros vagabundos.

A economia ia bem, o país crescia, os pobres ficavam menos pobres, os ricos ficavam mais ricos, e todo o mais era irrelevante. Lula foi reeleito depois do mensalão, elegeu e reelegeu Dilma com Lava Jato, com tudo.

Delfim Netto tem uma definição ótima: “O nível do mar que subiu e o barco acompanhou, mas Lula acha que fez a maré-cheia.”

Em 2008 veio a crise global e Lula chamou de marolinha. Distribuiu lanchas para ricos e pranchas de isopor para pobres, financiadas a prazo. Quando as faturas começaram a estourar, vieram os primeiros caldos, e alguns naufrágios, até que em 2013, nadando cachorrinho, a turba começou a rosnar.

Das areias da Barra da Tijuca um cachorro-louco começou a latir. Ninguém deu bola. Achávamos folclórico. Mas a atenção em seu entorno crescia. O que não falta nesses casos é cachorro louco para latir em coro.

Latia contra mulheres, gays, negros, índios, e a turma ria como costuma fazer com o cachorro que persegue bicicleta. Ganhou simpatia, entrou em algumas casas e, mesmo roendo ou sujando o estofado que custou tão caro para ser conquistado, continuávamos achando uma piada.

O resultado é que dentro de nove dias o cachorro-louco Jair Bolsonaro deve ser eleito presidente da República. Sem receber alta do complexo de vira-lata, adotamos o complexo de chihuahua: mesmo insignificantes, estamos convencidos de que dá para resolver os problemas latindo.

Para piorar, lá dos Estados Unidos vem o exemplo do pitbull que late para qualquer coisa diuturnamente. Se ninguém reage é porque sabe que o pitbull morde.

O ridículo buldogue inglês rosnando para o continente europeu ninguém daqui percebe, logo não considera que ele tem dez vezes o peso de um chihuahua.

Como no mundo globalizado o Brasil não termina depois da arrebentação, o mundo olha para as nossas praias sem acreditar no que está acontecendo. Liberal americano, ultradireitista francesa, o Santo Papa, artistas, intelectuais, imprensa conservadora e progressista: todos chocados.

Elogios vindos de fora, só o do presidente do Chile, com ressalvas no campo humanista, e o de um ex-líder da Ku Klux Klan, a seita extremista que defende o terrorismo para extermínio dos diferentes, sobretudo dos negros e também católicos e judeus – motivo pelo qual o KKK critica a proximidade de Bolsonaro com Israel.

Para piorar, a matilha cresce e a latição aumenta. Só os ecos da semana que passou seriam suficientes para destroçar nossas relações internacionais:

. O general para a Educação defendeu criacionismo da escola e revisionismo histórico;

. O general reeleito deputado federal propôs prender ministros do Supremo;

. O civil que fala pelo agronegócio comparou o Acordo de Paris pelo Clima com papel higiênico;

. O mesmo civil do agro considera um absurdo falar em desmatamento zero;

. O general candidato a vice disse que a Nação herdou a indolência do índio, a malandragem do africano e a cultura do privilégio dos ibéricos;

. O general para infraestrutura se disse saudoso do seu tempo de tenente (ditadura militar), quando não havia Ministério Público e Ibama para “encher o saco”;

. O general da energia elétrica quer retomar Angra 3 e mais usinas da Amazônia;

. O cotado para a Casa Civil nega o rombo na Previdência;

. O ex-capitão candidato a presidente apoia Jerusalém como capital de Israel e fala em mudar para lá a embaixada brasileira;

. O mesmo ex-capitão compara hidrelétricas a um galinheiro no fundo do quintal para dizer que, se vendermos para os chineses, corremos o risco de ficar sem ovos;

. O ex-capitão ainda anulou a imprensa, dizendo que seu contato é direto com as pessoas e, dada a legislação eleitoral, o jornalismo reproduz o que ele escreve nas redes sociais sem direito a contestação;

. O civil da Economia, desautorizado pelos militares em seu plano de privatizações, oferta uma estrelinha chamada golden share para ver se dribla os tanques;

. O único que não late costuma ser o que morde: General Heleno está cada vez mais eminência parda.

As consequências de tantas sandices e incertezas, com o mundo em crise e à beira de uma guerra comercial, são imprevisíveis.

O mínimo que dá para prever é que, desse jeito, passaremos mais alguns anos correndo atrás do rabo ou nadando cachorrinho até que apareça um salva-vidas. Ou por outra: já apareceu. Ashanagará!

 
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Fraude e fakenews 2018 – dez dias que podem durar anos

A pedido da campanha de Fernando Haddad, o TSE se coçou e abriu investigação para apurar indícios de caixa-dois na campanha de Jair Bolsonaro, por compra de disparos de mensagens de WhatsApp em massa, conforme denúncia da repórter Patrícia Campos Mello, da Folha de São Paulo.

Sendo esta eleição a xepa da eleição de 2014, vale lembrar que naquele ano o PSDB pediu a cassação da chapa Dilma-Temer/PT-MDB. Segundo Aécio Neves, “só para encher o saco”.

O processo rolou por anos e, ao cabo, o PSDB quis desistir da ação, porque já tinha ajudado a derrubar Dilma e se acertado com Temer. O julgamento foi aquela patacoada de triste memória, que custou caro ao país.

Digo isso para lembrar que se o TSE não falar logo, faltando dez dias para a eleição e pouco mais de dois meses para a posse do candidato que for eleito, perpetuaremos a crise por anos. Então sejam céleres. Se for o caso de aplicar o artigo 222 (!) do Código Eleitoral, que seja logo.

Também para lembrar ao PT que, se há realmente vontade de esclarecer todos os indícios de fraude nas eleições, o partido deveria ter feito o mesmo pedido sobre a eleição em Minas Gerais, porto que lá foi derrotado no primeiro turno e a campanha de Romeu Zema do partido Novo está citada na matéria da Folha.

A Fernando Haddad eu lembraria que não tem cabimento um candidato a presidente dizer que “basta prender um empresário que vão entregar a quadrilha toda”. Isto é sórdido. Pior prática possível, notadamente para o Estado, para a Justiça, que existem para proteger, não para coagir.

Tão sórdido quanto Jair Bolsonaro não ir a debates nem dar entrevistas coletivas por estratégia, considerando que “já está com a mão na faixa”. E se, como tudo indica, vestir a faixa em 2019? Continuará em silêncio ignorando a imprensa e o contraditório?

Ainda a Jair Bolsonaro eu lembraria que as hashtags #CaixaDoisDoBolsonaro e #Bolsolão passaram o dia inteiro na liderança mundial dos trend topics, de modo que não responder objetivamente sobre as denúncias, dizendo que o PT não entende de apoio “espontâneo” por sempre ter comprado apoio, é tão vexaminoso quanto ele fugir dos debates sobre o Brasil que a sociedade gostaria de assistir.

A esta freguesia, eu lembraria que tudo isso ainda vai piorar muito.

 
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A praga do amarelinho no laranjal mineiro

Na eleição de 1998 para o governo de São Paulo a “praga do amarelinho”, que dizimava laranjais, foi tema central. Vinte anos passados, chegou a Minas Gerais, metaforicamente falando.

Focado em plantar bancadas legislativas, o partido Novo, conhecido pela cor laranja,  registrou candidaturas a cargos do Executivo por estratégia ou mera formalidade. Nota-se que funcionou. O candidato a presidente da República teve bom desempenho, alavancando votos na legenda e conquistando oito cadeiras na Câmara Federal.

A maior surpresa, no entanto, foi em Minas Gerais. Candidato a governador pelo Novo, o laranja Romeu Zema passou para o segundo turno em primeiro lugar, e hoje tem o dobro das intenções de voto do tucano Antonio Anastasia: 66% X 34% dos votos válidos segundo o Ibope.

Surpresa por que ninguém acreditava na candidatura. O próprio partido Novo transferiu só R$ 360 mil para o candidato. Troco para campanha de governador. Os controladores da construtora MRV doaram quase dez vezes mais a Anastasia (R$ 300 mil) do que a Zema (R$ 35 mil). A estrutura de campanha era mínima, praticamente virtual.

Virtual até demais. Hoje a repórter Patrícia Campos Mello da Folha de São Paulo revelou os esquemas de disparos por WhatsApp contratados por campanhas eleitorais. No caso de Zema, a campanha declarou ao TSE o pagamento de R$ 200 mil à Croc Services por impulsionamento de conteúdos, aproximadamente 20% do total de gastos. O diretório do Novo em Minas pagou R$ 165 mil à empresa.

Indagado pela reportagem, Pedro Freitas, sócio-diretor da Croc Services, se enrolou para explicar os termos da prestação de serviços. Começou alegando que aspectos legais eram da conta do candidato, depois recuou dizendo não saber se prestara serviços, e então enviou mensagem informando que vendeu pacotes de disparo de WhatsApp em massa.

A Folha apurou que dias antes do primeiro turno os mineiros receberam mensagens vinculando Zema a Jair Bolsonaro, sendo que o candidato a presidente do Novo era João Amoedo.

O problema de acertar sem querer em disputa eleitoral é que, diferente de um cavalo azarão no turfe, onde o ganhador bota o prêmio no bolso e vai celebrar, em eleição, depois da vitória, vem a obrigação de governar, o que é uma responsabilidade vertiginosa.

A começar pela formação de equipe. Os nomes nacionais do partido, Gustavo Franco e João Amoedo, estarão dispostos a trocar Ipanema pela longínqua Cidade Administrativa em BH? É o mínimo que a responsabilidade lhes impõe.

Outro problema é a composição com a Assembleia Legislativa. O Novo fez três dos 77 deputados estaduais mineiros. Para governar, terá que compor com as forças que costuma chamar de “velha política”, abandonar o discurso confortável de que composições não vêm de graça e criam dívidas a serem pagas com cargos.

Como vai reagir o eleitorado? Palpite: a praga do amarelinho, representada pelos manifestantes que se vestiram de CBF e foram para a rua mudar o Brasil sem saber como, pegou fundo no laranjal.

 
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A milícia do WhatsApp – como Cidadão Kane virou gremlin

A máfia mais conhecida do mundo nasceu no sul da itália, na época medieval, como um movimento de revolta de agricultores contra os esquemas criminosos dos poderosos senhores feudais.

Tiveram êxito. Muita gente aderiu como pôde. Doações em dinheiro, armas, apoio moral, grupos de WhatsApp. Não, calma. Isso é mais recente.

Voltando à origem da Máfia, quando os grupos ficaram fortes e conseguiram debelar as ameaças do poderio feudal, toda a gente quis voltar ao seu dia-a-dia, tocar a vida.

Ocorre que, dentro dos grupos, alguns membros, percebendo o poder conquistado e jamais imaginado, não quiseram largar o osso. E de resistência passaram a algozes, cobrando pela proteção contra os ataques que eles mesmos empreendiam.

As eleições de 2018 serão marcadas pela proliferação de grupos de WhatsApp. O conteúdo disseminado, feito para parecer amador, na verdade é sofisticadíssimo. A tecnologia usada é uma verdadeira máquina de guerra, usa computadores para multiplicar as contas. Há tempos não é algo que nasce espontaneamente.

Também vale lembrar que a novidade não está no conteúdo. Assim como as armas de fogo, este continua sendo basicamente pólvora e chumbo. No caso da propaganda de guerra, boataria pensada para apavorar e dirigir o entendimento social. A novidade é a sofisticação das armas, ora capazes de disparar milhões de tiros por segundo e com fina pontaria.

Se no Brasil ainda soa como novidade, vale lembrar que nos Estados Unidos o uso de gigantescos bancos de dados para influenciar a sociedade elegeram o inquilino atual da Casa Branca. Cá, como lá, parece ser caso perdido. O TSE não fala nem tem coragem para falar.

A pergunta que fica é: o que será desses grupos depois das eleições? Com parte da sociedade dando mais credibilidade ao WhatsApp do que ao jornalismo e dados oficiais, alguém imagina que seus controladores largarão o osso?

A história ensina que não. Indica que 2019 teremos milhares de Assis Chateaubriands procurando o que fazer de seus “impérios” de comunicação. Anos depois de banida a ameaça de um novo Cidadão Kane, este virou gremlin. Com um agravante: o WhatsApp não tem sede no Brasil, dificultando a investigação e responsabilização de milícias que usam a plataforma para destruir reputações de Pessoas Físicas ou Jurídicas.

Imagina um caso como o da Escola Base, do hambúrguer de minhoca, ou ainda a volta das campanhas de saques que quebravam bancos nos anos 1980 potencializadas pelos recursos atuais. Ninguém está seguro.

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