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América Latina

Difícil haver um momento mais infeliz para escrever um artigo em defesa da integração da América Latina do que o dia seguinte da empulhação constituinte promovida pelo governo da Venezuela, que caminha para a consagração da ditadura bolivariana. Mas foi justamente o que Lula, Fernando Haddad e Celso Amorim conseguiram hoje, na Folha. Proeza.

Misturado a relatos de pelo menos dez mortos só no dia da votação, o artigo mostra que a trinca está preocupada com o destino da Unila (Universidade Federal da Integração Latino Americana), em Foz do Iguaçu. Pleito legítimo e importante. Como dizia o governador Franco Montoro, “Para a América Latina a opção é clara: integração ou atraso”. Porém ao ignorar a tirania para a qual tanto colaboraram ao longo da década passada, Lula e seus colaboradores, de defensores de uma causa, se transformam em cumplices de um plano abjeto.

 
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Salão de festas

Aos três anos do Plano Diretor em vigor na cidade de São Paulo, o Estadão celebra o avanço dos prédios com fachadas ativas, isto é, aqueles de uso misto, com lojas e serviços no térreo. A reportagem traz exemplos novos e antigos de uma política pública exitosa, sintetizada numa frase pelo professor Valter Caldana: “A fachada ativa é o retorno da conscientização de que a cidade precisa ser de uso misto. E essa ideia já pegou”

A propósito, pergunto: sabe o salão de festas do seu condomínio? Pra que serve, mesmo? Caberia nele uma escolar de yoga, um cabeleireiro, uma padaria, uma sala de conferências? Antes de responder olhe o boleto do condomínio, que aos 31 dias do mês já deve ter chegado, e pense como o aluguel para algo assim poderia suavizar o número que veio impresso.

 
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Notas soltas

Poda

Vendido quase no plano da panaceia, o fim das coligações proporcionais é hoje mais uma pílula de farinha para curar o sistema político-eleitoral brasileiro. Dizem que vai acabar com as legendas de aluguel e diminuir o espantoso número de partidos. Pode até ser. Mas não passa de poda, deixando o mal de raiz bem protegido no subterrâneo. E pode até fortalece-lo.

A constatação é fácil quando se olha para um dos principais partidos do Brasil, o PSDB, do qual sou filiado, hoje com pouca ou nenhuma relação com os princípios pretendidos na sua fundação.

Era para ser parlamentarista, defensor do voto distrital, da descentralização administrativa, da participação popular, permanecer perto do pulsar das ruas e longe das benesses oficiais.

E o que temos? Quadros importantes agarrados a um governo moribundo e denunciado, cada vez mais centralizador, avançando contra o meio-ambiente e conquistas históricas da sociedade; parlamentares que elogiam ditadores, propõem divisão entre norte e sul e até a volta do trabalho escravo.

Defendendo o Parlamentarismo e o voto distrital pra valer, que poderiam efetivamente descentralizar o poder e sintonizar representantes com o pulsar das ruas, além de diminuir drasticamente o nefasto custo das campanhas eleitorais, muito poucos.

Para mim, que vejo o PSDB como o menos ruim dos partidos em atividade, fica claro que fazer uma poda decorativa e fortalecer agremiações dessa qualidade, não resolve absolutamente nada.

Não e não

A última rodada da Paraná Pesquisas sobre o panorama político mostra a distensão entre a sociedade e a política. Os melhores colocados dos partidos que venceram as eleições nos últimos 24 anos têm índices de rejeição alarmantes. Lula, conhecido pela totalidade dos brasileiros (0,3% não o conhecem suficientemente para opinar) é rejeitado por 55,8% da população. João Doria, mesmo sendo o menos conhecido entre todos os nomes postos (15,4%), já alcança a impressionante marca de 42,2% de rejeição. A um ano do processo eleitoral, estes são os números que contam.

América Latina

Difícil haver um momento mais infeliz para escrever um artigo em defesa da integração da América Latina do que o dia seguinte da empulhação constituinte promovida pelo governo da Venezuela, que caminha para a consagração da ditadura bolivariana. Mas foi justamente o que Lula, Fernando Haddad e Celso Amorim conseguiram hoje, na Folha. Proeza.

Misturado a relatos de pelo menos dez mortos só no dia da votação, o artigo mostra que a trinca está preocupada com o destino da Unila (Universidade Federal da Integração Latino Americana), em Foz do Iguaçu. Pleito legítimo e importante. Como dizia o governador Franco Montoro, “Para a América Latina a opção é clara: integração ou atraso”. Porém ao ignorar a tirania para a qual tanto colaboraram ao longo da década passada, Lula e seus colaboradores, de defensores de uma causa, se transformam em cumplices de um plano abjeto.

Salão de festas

Aos três anos do Plano Diretor em vigor na cidade de São Paulo, o Estadão celebra o avanço dos prédios com fachadas ativas, isto é, aqueles de uso misto, com lojas e serviços no térreo. A reportagem traz exemplos novos e antigos de uma política pública exitosa, sintetizada numa frase pelo professor Valter Caldana: “A fachada ativa é o retorno da conscientização de que a cidade precisa ser de uso misto. E essa ideia já pegou”

A propósito, pergunto: sabe o salão de festas do seu condomínio? Pra que serve, mesmo? Caberia nele uma escolar de yoga, um cabeleireiro, uma padaria, uma sala de conferências? Antes de responder olhe o boleto do condomínio, que aos 31 dias do mês já deve ter chegado, e pense como o aluguel para algo assim poderia suavizar o número que veio impresso.

 
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Dela, só dela

Pobre de quem não tem um amigo árabe. Neste quesito, entre outros tantos, Deus me abençoou. Saravá. Já na verde idade tive o privilégio de tratar por vovó a avó de um amigo meu. Na casa dela, na rua Estados Unidos, podia tudo e a gente só tinha uma obrigação: comer.

Na adolescência fui muito e amiúde (obrigado, Poetinha) a outra casa, na rua Orobó. O domingo era um ágape ininterrupto e plural. Tinha de tudo. Se acabasse, pediam pizza. Se não acabasse, também. Quando a gente não aguentava ingerir mais nada sólido, a dona da casa oferecia cigarros.

Para pagar o casamento de uma amiga, seu pai vendeu um terreno. Me lembro bem porque, entre outras coisas, foi no dia do meu aniversário. E além do bolo da noiva, com o noivo e o anjo, tinha outro com velinhas para mim, trazido pela própria noiva. Os charutinhos de folha de uva, servidos em forma de pirâmide, anunciavam a eternidade do jantar: foram repostos inúmeras vezes pelo menos até as seis da manhã, quando me retirei. E no dia seguinte a Kombi do CAML rodou mais de vinte quilômetros distribuindo a soca pelas casas dos padrinhos.

Daí que fico pensando a quantidade de comida que encalhou na kibada organizada pelo Presidento na última quinta-feira, no Jaburu. Mesmo com a cerca viva e o misturador de vozes instalados para não comprometer ainda mais o anfitrião e os convidados que ainda arriscam visita, nem dez pessoas compareceram.

Se o poder já é solitário por natureza, o poder cambaleante é o próprio vácuo. A turma quer e recebe verba e assinatura para as propostas mais indecentes, mas não se presta ao trabalho de ir buscar.

Por aí a gente pode calcular como será a votação da denúncia. Ainda que nem os mais ferrenhos opositores do “governo” duvidem que ele escape da primeira rodada, é prudente considerar o fator desinfetante da luz do sol.

Mudar de ares também não ajuda. Poucas missões presidenciais foram tão constrangedoras como a de Temer à última rodada do G-20. Tratado como leproso pelos coleguinhas, tudo o que conseguiu o Presidento foi uma conversa sobre serpentes com Vladimir Putin. Envenenado, gravou um vídeo exaltando o aumento do desemprego. Gafe que de alguma maneira homenageou o legado da Presidenta, sua companheira de chapa.

Na volta de Hamburgo não pôde receber os amigos no Jaburu e abriu o Alvorada. Talvez porque Dona Marcela tenha vetado a convivência de Michelzinho com a gang do pudim. Prudência materna?

Que pena desta senhora. A vida toda me compadeci das namoradas dos surfistas, condenadas ao deserto da areia enquanto os amados se dedicavam a infinitas séries de ondas. Talvez seja despeito. O espírito feminino, riquíssimo, encontra motivos mil para adorar e esperar o bem-amado, que retorna quente, túrgido e salgado, bate uma tigela de açaí e desmaia, exausto e dela, exclusivamente dela.

Pobre Marcela, condenada a um tipo errado de bem-amado, um Odorico frio, mórbido, insosso, sem pinguela e lamentavelmente dela, só dela.

 
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Parabéns a todos os envolvidos

Ainda sobre as aulas de publicidade de Sir Washington, a reboque da última na BBC, tão polêmica, lembro de outra, no Centro Acadêmico da FGV, há muitos anos.

Dizia o Olivetto que os interessados em fazer comunicação deveriam ter claro que o que a gente acha importa pouco em relação a forma. Isto é, para transmitir uma mensagem, ainda que o conteúdo seja ideológico, o recado só alcançará seu destino se a forma falar com o destinatário.

Vamos ao exemplo do Olivetto que é muito melhor. Os militares desprezavam o rock n roll. E evidentemente, pela obtusidade própria dos ditadores, acreditavam que a opinião deles era a de todos. Então tiveram a ideia jenial (sim, o jota é ironia) de usar um clipe dos Rolling Stones para mostrar aos jovens o que acontecia com quem usasse drogas. O resultado esta freguesia pode imaginar.

Passado tanto tempo, nota-se que a turma pouco aprendeu. Tenho amigos que ainda acreditam na pinguela do Presidento. E naturalmente quem é capaz de acreditar que o governo atual pode dar certo, tende a acreditar em qualquer coisa. Uma delas é a teoria da conspiração que une JBS, Lula, Janot e TV Globo para derrubar um homem bom como Michel Temer. Tempos incríveis.

Cegos, são incapazes de enxergar que quem mais faz pelo Lula é o próprio Temer e a turma do pudim no Palácio. Quanto mais ficarem, cobertos da lama em que não se cansam de chafurdar, com direito a biombo na entrada e misturador de vozes para as quibadas, mais a narrativa do golpe e do “são todos iguais” se fortalece. E se é assim, a conclusão popular num extremo é pela saudades do Lula e da picanha no fim de semana, como as pesquisas vêm demonstrando. No outro que a tábua de salvação é a igreja ou a polícia.

A mais recente, do Ibope, mostrou que nunca antes na história deste país a Presidência República foi tão desacreditada. Sob Temer a instituição tem menos crédito que os famigerados partidos políticos. É um feito.

E não é que a turminha foi fuçar e desenterrou um clipe de 1989? Esparramaram pelas redes sociais. Um coral de estrelas brasileiras, em maioria artistas da TV Globo, cantando um dos mais celebrados jingles do marketing político: Lula lá.

O que eles acham que plantam? A prova de que a Globo, aliada ao Lula, conspira contra o Presidento.

O que devem colher? Um aumento drástico da nostalgia de um tempo em que havia esperança no futuro, época em que pela primeira vez depois de vinte anos pudemos fazer campanha e votar para presidente.

Antes de recusar o óbvio, freguesa, lembre-se que o apelo é emocional, não racional. E que aquela constelação de artistas mexe exatamente nesse campo do espírito humano com êxito há muitos anos. Não adianta dizer que muitos deles hoje pensam diferente. Que a diretoria da Globo pensava diferente e editou o último debate a favor do Collor. Ou que depois o lulopetismo não foi bom para o Brasil. Nem que o Temer foi eleito junto com a Dilma. Tudo isso, no coração ou no estômago, conta muito pouco. A emoção que fica é: “são todos ladrões, mas com o Lula eu tinha esperança, podia votar e comia picanha”.

Parabéns a todos os envolvidos. Seja o que Deus quiser. E chame ladrão! Chame ladrão!

 
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E por falar em Porsche ou Maquiavel Olivetto

Deu o que falar a entrevista do Olivetto à BBC. Igual ao Nicolau, o Maquiavel, tudo o que sir Washington fez foi constatar a verdade sobre a publicidade, que só funciona quando encontra sintonia com a sociedade. Se a sociedade é machista, a publicidade também será, ainda que sem perder a ternura.

Pênalti mesmo só a observação sobre o Porsche. Ele disse que todo mundo que tem Porsche tem mulher, e nem todo mundo que tem mulher tem Porsche. Trecho bobo. E falso. Conheço gente com mais de um Porsche – ou coisa que o valha – que não consegue uma gatinha sequer. Também conheço nego pedestre que as minas disputam a tapa e ainda pagam o chope. Paciência. Ninguém é 100%. Nem os cavaleiros da rainha.

Indo direto ao ponto, ele propôs um basta aos clichês. Está certo. Beijo no coração é de matar. Simplesmente parem. E o tal empoderamento feminino… Ora, ao longo de toda a história nunca houve ser mais poderoso do que a mulher. Os homens compram Porsche por causa disso. Mas se as mulheres também flertam historicamente com o machismo, fazer o que? A musa Fernanda Lima disse isso outro dia e ninguém chiou.

 
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Por falar em grelha

O ex-presidente do Banco do Brasil, Ademir Bendine, verá o sol deste 29 de julho nascer atrás da grelha. Há vasta reportagem sobre o banqueiro nos jornais. As mais divertidas falam da Val do Frango, ou Marchiori, uma dama do café soçaite que se destacou pela ostentação.

Churrasco de frango é ótimo. Asinhas, drumetes. Fecha parenteses.

Segundo a Folha apurou, Bendine aprovou no BB financiamento de caminhões e um Porsche Cayenne S para Val. Juros de 4% ao ano. E você aí pedalando no cartão. Ela, que já dera calote no banco, precisou da ajuda do amigo para liberar o dinheiro que viria do BNDES.

 
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Grelha nele?

Todo churrasqueiro precisa de uma grelha, que não é outra coisa senão uma grade. Joesley Batista, o rei da carne, me parece bem próximo dela.

Nos últimos setenta e poucos dias o Brasil tentou compreender o que foi sua delação. Misturamos tudo. Acordo de leniência, que é da pessoa jurídica. Fatores políticos. Compra de moeda estrangeira que rendeu milhões. Comparação com outros delatores que estão presos enquanto ele, Joesley, se pirulitou para os Estados Unidos.

É complicado mesmo. E como se não bastasse, de hora em hora a coisa piora.

Hoje soubemos que as contas Lula e Dilma, que somavam 150 milhões de dólares na Suiça, estavam em nome de uma offshore controlada por Joesley e que foram usadas para pagar despesas e investimentos pessoais da família Batista. Apê em Nova York, duas lanchas, o suntuoso casamento para o qual ergueram um Taj Mahal na Vila Leopoldina (Michel Temer estava lá).

Parece que a gaita toda foi repatriada e rendeu à viúva algo em torno de vinte milhões de dinheiros. (Estranho. Parente de político não pode repatriar, mas comprador de político pode?) E que, na verdade, as tais contas Lula e Dilma eram uma reserva para alimentar os jacarés lulopetistas.

Ocorre que, se não me engano, um acordo de delação implica em dizer a verdade absoluta. Uma mentira isolada basta para melar o todo. Então pergunto aos amigos criminalistas: com a nova versão sobre as contas não é o caso do Janot suspender o acordo e guardar o Joesley atrás da grelha, digo, das grades, até saber o que de fato é fato?

E mais distante mas não menos importante, cadê a CVM que não fala sobre a compra dos dólares na véspera do estouro da boiada?

 
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Notas Soltas

Grelha nele?

Todo churrasqueiro precisa de uma grelha, que não é outra coisa senão uma grade. Joesley Batista, o rei da carne, me parece bem próximo dela.

Nos últimos setenta e poucos dias o Brasil tentou compreender o que foi sua delação. Misturamos tudo. Acordo de leniência, que é da pessoa jurídica. Fatores políticos. Compra de moeda estrangeira que rendeu milhões. Comparação com outros delatores que estão presos enquanto ele, Joesley, se pirulitou para os Estados Unidos.

É complicado mesmo. E como se não bastasse, de hora em hora a coisa piora.

Hoje soubemos que as contas Lula e Dilma, que somavam 150 milhões de dólares na Suiça, estavam em nome de uma offshore controlada por Joesley e que foram usadas para pagar despesas e investimentos pessoais da família Batista. Apê em Nova York, duas lanchas, o suntuoso casamento para o qual ergueram um Taj Mahal na Vila Leopoldina (Michel Temer estava lá).

Parece que a gaita toda foi repatriada e rendeu à viúva algo em torno de vinte milhões de dinheiros. (Estranho. Parente de político não pode repatriar, mas comprador de político pode?) E que, na verdade, as tais contas Lula e Dilma eram uma reserva para alimentar os jacarés lulopetistas.

Ocorre que, se não me engano, um acordo de delação implica em dizer a verdade absoluta. Uma mentira isolada basta para melar o todo. Então pergunto aos amigos criminalistas: com a nova versão sobre as contas não é o caso do Janot suspender o acordo e guardar o Joesley atrás da grelha, digo, das grades, até saber o que de fato é fato?

E mais distante mas não menos importante, cadê a CVM que não fala sobre a compra dos dólares na véspera do estouro da boiada?

Por falar em grelha

O ex-presidente do Banco do Brasil, Ademir Bendine, verá o sol deste 29 de julho nascer atrás da grelha. Há vasta reportagem sobre o banqueiro nos jornais. As mais divertidas falam da Val do Frango, ou Marchiori, uma dama do café soçaite que se destacou pela ostentação.

Churrasco de frango é ótimo. Asinhas, drumetes. Fecha parenteses.

Segundo a Folha apurou, Bendine aprovou no BB financiamento de caminhões e um Porsche Cayenne S para Val. Juros de 4% ao ano. E você aí pedalando no cartão. Ela, que já dera calote no banco, precisou da ajuda do amigo para liberar o dinheiro que viria do BNDES.

E por falar em Porsche ou Maquiavel Olivetto 

Deu o que falar a entrevista do Olivetto à BBC. Igual ao Nicolau, o Maquiavel, tudo o que sir Washington fez foi constatar a verdade sobre a publicidade, que só funciona quando encontra sintonia com a sociedade. Se a sociedade é machista, a publicidade também será, ainda que sem perder a ternura.

Pênalti mesmo só a observação sobre o Porsche. Ele disse que todo mundo que tem Porsche tem mulher, e nem todo mundo que tem mulher tem Porsche. Trecho bobo. E falso. Conheço gente com mais de um Porsche – ou coisa que o valha – que não consegue uma gatinha sequer. Também conheço nego pedestre que as minas disputam a tapa e ainda pagam o chope. Paciência. Ninguém é 100%. Nem os cavaleiros da rainha.

Indo direto ao ponto, ele propôs um basta aos clichês. Está certo. Beijo no coração é de matar. Simplesmente parem. E o tal empoderamento feminino… Ora, ao longo de toda a história nunca houve ser mais poderoso do que a mulher. Os homens compram Porsche por causa disso. Mas se as mulheres também flertam historicamente com o machismo, fazer o que? A musa Fernanda Lima disse isso outro dia e ninguém chiou.

 
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A perspectiva da formiga

Ao longo dos séculos a fábula da formiga e da cigarra foi revista, atualizada e traduzida ao gosto da moral vigente ou da preferência dos autores. Esopo, La Fontaine, Bocage, Monteiro Lobato. Em prosa e verso muitos contestaram o caráter da cigarra, depois do da formiga, o valor do trabalho duma e de outra. Mas nem nas versões mais recentes enxergou-se a perspectiva real da obsolescência do suor da formiga. Ou pelo menos da ampla maioria delas.

Alguém poderá dizer que na Revolução Industrial, primeira ou segunda, o tema foi debatido. Houve uma migração do campo para a indústria e os serviços, que é relativamente recente e vem se acentuando com a explosão urbana. Só que nem ao longe o que se passou pode ser comparado com o que temos no horizonte. Além de emprego, renda, tecnologia, bem-estar social, somam-se ao debate questões de sustentabilidade, comunicações e conhecimento, democracia, natalidade, nutrição.

Porém façamos como a formiguinha. Apesar de longo o caminho precisa ser percorrido sem pressa.

Ainda existe o trabalho do frentista de posto de gasolina. No mundo desenvolvido acabou faz tempo, tanto o frentista quanto o espaço do posto de gasolina. Mas no terceiro mundo automóveis com alta tecnologia aplicada estacionam e são atendidos por uma ou mais pessoas. Isto simultâneo ao carro elétrico. E ao avião que pode ser abastecido por outro em pleno voo – com combustível líquido. Ou ao ônibus elétrico que recarrega a energia a cada parada para embarque e desembarque. Aliás, já existe o carro autônomo, que quando chegar ao mercado deve ser elétrico e vai prescindir da gasolina, do frentista e do motorista.

Os primeiros carros autônomos deverão ser os ônibus com suas linhas regulares e pistas exclusivas. Isto é, não haverá motoristas. E só agora as grandes cidades no Brasil começam a discutir o que fazer com os cobradores. Em São Paulo eles atendem apenas 6% dos passageiros. Nos Estados Unidos um caminhão autônomo entregou cerveja a quase 200 quilômetros de distância. Logo veremos uberistas e taxistas unidos contra o carro autônomo. É inexorável.

Se você está aflito com o tamanho da plateia para ver a sessão da tarde no formigueiro, acalme-se, porque a sala sequer começou encher.

Estima-se que nos países desenvolvidos, onde não há frentistas nem cobradores de ônibus, 30% da força de trabalho empregada já está obsoleta. Gente que, na falta de carimbos e papéis para grampear e arquivar, troca alguns e-mails para combinar o horário de fazer um telefonema, ao qual chamam de “call”, e que se tiver êxito vai culminar em algumas reuniões presenciais, sobre as quais serão produzidos relatórios minuciosos que ninguém vai ler.

Essa gente, quando promovida, passa a frequentar conferências, palestras e outros eventos onde se apresentam todo tipo de gurus. Dizem que tem a ver com motivação. É compreensível. Fundamentais para a economia, eles garantem o trabalho da menina vestida de preto que fica com um rádio cuidando para que todos os convidados sentem-se nas cadeiras disponíveis.

No terceiro-mundo a essa turma juntam-se os porteiros, muitos caixas de banco,  seguranças e até ascensoristas de elevador. Portaria remota é cada vez mais comum, o seu telefone é esperto o suficiente para saber onde e com quem você está, assim como pode realizar a maioria das transações bancarias e, pasme, telefonar à polícia em caso de emergência. De dentro do bolso poderia até informar o elevador sobre o seu andar de destino, e só não faz isso porque lhe não custa nada apertar um botão.

Ainda no terceiro-mundo há os empregados domésticos, cozinheira, arrumadeira, babá. Quem usa diz que seu tempo é valioso e por isso precisa da “assessoria”. Sofisma. Obviamente o tempo do empregado é que tem pouco valor. Mas o custo é alto. Porque se a babá está criando o filho da patroa, quem estará cuidando do filho da babá?

No campo os grandes temas tradicionais definham. Trabalho e posse da terra passaram a ser secundários. A produção depende fundamentalmente de tecnologia.

Quem acha que o trabalho intelectual se salva deveria olhar a tecnologia cognitiva. Há estudos em que pareceres jurídicos feitos por robôs superam em muito a qualidade dos advogados mais bem pagos.

Assim, não é exagero concluir que, no mundo todo, pelo menos metade das pessoas empregadas, se fossem demitidas, não fariam a menor falta ao processo produtivo. E ainda temos os aposentados, as crianças e os jovens e uma massa enorme já desempregada. Haja rede e cadeira de balanço nos formigueiros.

Os maiores formigueiros do mundo como China e Estados Unidos, onde ainda há o chamado pleno emprego, parecem nortear a humanidade. A receita para haver emprego e renda é produzir e consumir mais. O problema é que os recursos naturais disponíveis na Terra são insuficientes para sete bilhões de pessoas viverem como o bilhão e meio de chineses e americanos.

Não bastasse a natureza das formigas, que não sabem viver sem trabalhar, há um aspecto ainda mais primitivo, que também é das cigarras: ambas não podem viver sem comer. Que fazer?

Uma ideia começa a reunir gente boa pelos quatro cantos. Não é propriamente nova, mas cresce aliada às circunstâncias e experiências contemporâneas. Melhor ainda, une gente que historicamente discorda sobre quase tudo.

Socialistas e capitalistas, conservadores e progressistas, esquerdistas, direitistas, centristas, isentões e, sobretudo, cigarras e formigas convergem sobre a saída pela renda básica universal.

No Brasil o militante número um é o vereador paulistano Eduardo Suplicy, que passou décadas no Senado Federal repetindo a cartilha, conquistou avanços e reconhecimento internacional. Recentemente ele esteve nos Estados Unidos para a Brazil Conference, organizada por Harvard e pelo MIT, e topou com um aliado improvável: Olavo de Carvalho, oráculo da chamada “nova direita”.

A ideia é que as nações garantam a cada um dos seus cidadãos uma renda básica. Do Jorge Paulo Lemann ao mais pobre dos brasileiros, todos receberiam o numerário. E gastariam como bem entendessem.

Mas quanto isso custaria? Não dá para precisar, porque depende do modelo. Porém uma coisa é certa: nada pode custar mais caro do que a pobreza.

E de onde sai o dinheiro? Bom, primeiro o Estado economiza com os males causados pela pobreza, que começam com a saúde, nutrição (o filho da babá), passam pela educação (evasão escolar, impossibilidade de aprender com fome e outras preocupações), fiscalização dos programas seletivos de transferência de renda (ver Eu, Daniel Blake), a Previdência como um todo (algo mais atual?), o aumento da marginalidade.

Alcança a própria democracia, melhora da representatividade pela diminuição do clientelismo, que arrefece a corrupção, aumenta a noção cidadã, gera coesão social com limites para a desigualdade, faz justiça valorizando financeiramente trabalhos fundamentais que não são remunerados, como o da dona de casa, do parente cuidador de idosos, serviço voluntário.

Mais: programas parciais de transferência de renda, como o Bolsa Família, provam que botando dinheiro em circulação a economia cresce e, com ela, a arrecadação de impostos.

É legítimo ganhar sem trabalhar? Sim, e são muitos os casos. Aposentados ganham. Trabalhadores rurais, mesmo sem terem contribuído com a Previdência, recebem auxílio na velhice. Pescadores contam com o Seguro Defeso. Uma fazenda arrendada, um imóvel alugado, ações e outras aplicações financeiras, geram renda sem a contrapartida do trabalho. E nenhum dos casos é motivo de vergonha.

A felicidade enquanto ativo também deve ser considerada. Tristeza tem um custo social altíssimo. A renda básica permitiria às pessoas exercerem sua vocação, trabalharem e contribuírem com o que podem fazer melhor, sem se desesperar por qualquer salario. E o aumento da qualidade dos serviços está diretamente ligada ao aumento da qualidade dos produtos, e consequentemente à diminuição da necessidade de tantos recursos naturais para alimentação, vestuário, moradia, transporte.

Isso também diminuiu o risco da inflação de preços. O consumo consciente é próprio de quem precisa de menos. Duvida? Vá ao supermercado com fome e faça o teste.

Competição sempre haverá, inclusive financeira. Só que seria mais saudável, ou minimamente mais ampla, ante a possibilidade de não desperdiçar talentos. Mordomos ingleses têm paixão pelo seu ofício. Estudam, preparam-se, se dedicam à excelência. Bilionários pagam caro e com prazer pelo seu trabalho.

Quantos bons médicos a sociedade perde todos os anos para a dificuldade que cinco anos de dedicação exclusiva à universidade exige? Com a renda básica eles se multiplicariam. Assim como os artistas e os esportistas. E por que não dizer dos bebês, cada vez mais raros no Ocidente.

Bom, já vou longe e creio que está explicado. A equação da formiga e da cigarra foi invertida. O esforço de grande parte das formigas só encontra razão de ser na necessidade de fazer girar a roda da economia e, mais distante mas não menos importante, na memória afetiva de alguns serviços. Quer dizer, tem muita formiga fazendo papel de cigarra e não se dá conta. A renda básica universal pode botar as coisas em seus lugares e merece ser debatida.

 
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