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A culpa é da mandioca

Com bronzeado de humilhar garota de Ipanema, o banqueiro do Leblon desembarcou no gelo de Davos. Mas obviamente o que chamou a atenção dos consócios do clube dos ricos do mundo foi a sagacidade, a originalidade, o tirocínio de Beato Salú. Aquele ringue de patinação jamais será o mesmo.

Nos últimos anos as conversas em Davos giravam em torno da preocupação com a desigualdade econômica. Tão rico convescote se encontrava preocupado com a distância entre o 1% mais rico e a metade mais pobre da sociedade, em como equilibrar a balança, mitigar prováveis convulsões políticas e sociais, amenizar o gasto absurdo que a pobreza acaba criando (ser pobre é o que há de mais caro) e, como ninguém lá é bobo, manter a economia girando.

Na rodada atual o meio-ambiente entrou na pauta, como diferente não poderia ser. A riqueza criada no último século foi parar nas mãos de poucos, mas seu custo é de toda a humanidade. De novo, para além das melhores intenções que existem em toda pessoa, há uma preocupação com o custo econômico das mudanças climáticas e seu impacto sobre a própria sobrevivência do planeta – até porque sem planeta é improvável que alguém continue rico.

Primeiro porque o Paraíso é o único lugar onde o Comunismo foi implementado. Lá ninguém é rico nem pobre. Depois porque pode ser que esteja certo o Lucas (18:24-25): “Mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus.” Oh, que inferno!

Ante a possibilidade de haver algum constrangimento debaixo de tanto ouro, para aproveitar o convescote sem peso na consciência era necessário arranjar um culpado para o caos climático. Tomar pito de uma menina de dezessete anos depois de enfrentar congestionamento de jato particular deve atrapalhar a digestão.

Mas eles não contavam com a astúcia do nosso Chapolin Coloradíssimo, que resolveu o problema, liberando os blinis, o caviar e o creme azedo, fazendo a vida doce de novo.

Ora, segundo PaGue, a culpa pela destruição do meio ambiente é dos pobres, que desmatam para comer. Não é um gênio? Combustíveis fósseis, transporte, indústria, pecuária, produção e consumo desenfreado? Qual o quê! O que destrói o meio ambiente é a roça de mandioca. Simples assim, saúde, tim-tim.

 

 

 
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Deus está nos detalhes e o diabo está em todas

Aquele rapaz bolsonarista que esteve responsável pela cultura, e que caiu depois de interpretar Paul Josef Goebbels numa live, agora enxerga em sua apresentação uma ação satânica.

A tranquilidade com que os crentes resolvem seus problemas é digna de inveja. O distinto faz uma em cima da outra e, na hora de enfrentar as consequências, bota a culpa no sete-peles para livrar a própria.

Faz lembrar de um dos melhores filmes de máfia, A Bronx Tale, onde o pequeno Calogero é o menino que já nos verdes anos percebe uma das delícias de ser católico: a gente faz bobagem a semana inteira, então no domingo se confessa e zera o placar.

Comigo foi diferente. Ainda imberbe, andando sozinho pela praia vazia em Juquehy, tive a sensação de que Deus estaria em toda aquela beleza diante dos meus olhos. O sol, a lua, o mar e os córregos limpos que para ele corriam, a chuva e as estrelas, a mata, do jundú ao alto das montanhas, tantos e tão lindos e tão variados bichos na água, na terra e no ar, consagrando a natureza marechal. Só podia ser Deus.

Os anos rolaram, cumpri a maioria dos rituais católicos, que estão na nossa cultura, mas nunca me livrei daquela revelação. Sigo me confessando direto para a natureza e acertando com ela minhas penitências. Por exemplo: um caldo leve em dia de mar bravo, nas minhas contas, equivale a seis pais nossos e doze ave marias. No sufoco, contabilizo mais ou menos glória ao Pai.

Para reforçar o meu palpite, vejo a turma se afogando em certezas absolutas, tentando escapar do buraco nadando contra a corrente, pra frente ou pra trás, enquanto tomam uma atrás da outra na cabeça. Perdoai! Ignorantes, não sabem que do buraco a gente só sai nadando para o lado.

Enquanto isso, cramunhão nada de braçada. A ação satânica que assaltou o secretário nazista do presidente da República – este que há 22 anos já homenageava Adolf Hitler em discurso na Câmara dos Deputados –, ataca também outros governantes.

O prefeito do Rio, por exemplo. Pastor Crivella assinou um artigo para O Globo no domingo que passou. Logo para O Globo, célula mater da empresa que outro dia ele censurava. Melhor que isto, só o conteúdo. O prefeito que detesta a maior festa de sua cidade, a ponto de preferir passar o carnaval no estrangeiro, elogiava a orgia momesca, a diversidade, a música popular, debates, exposições, a ONU e a UNESCO, o IAB e a UIA. Por tão contraditório, só pode ter sido o tinhoso que o fez assinar sem ler.

A mesma coisa vale para o MBL, Joice, Frota, Bebianno, Santos Cruz e outros generais e tantos outros políticos estreantes e seus representados humilhados e afogados pelo capitão de milícias.

Ubíquo, belzebu também está na ponte aérea e em voos internacionais. Está em todas. O governador de São Paulo, que passou rapidamente pela prefeitura da capital, deixando por legado dois muros – aquele que secou na 23 de Maio e o estilhaçado da Marginal –, logo mais estará em Davos, onde falará sobre urbanismo. Que Doria. Nos resta rir e reconhecer que o capeta anda em fase muito bem-humorada.

Mas é rir pra não chorar. Mesmo em terra firme, diante da tragédia que nos acomete, sob a regência do maldito ninguém está seguro.

 
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Eu institucional x Eu individual

Feito vaca na horta, as instituições vêm apanhando 24/7, notadamente no quebra-queixo-exaltação-matinal-diário armado pelo governo federal no portão do Palácio da Alvorada. Todo santo dia, e nem dia santo escapa.

Me alio aos que consideram que, de “vaca na horta”, nossas instituições já alcançaram o estágio do “bife de pensão”. É quase incrível que ainda resistam entre a tábua e o martelo. Porém convém lembrar que não são de aço os nervos dos bifes.

Pode-se compreender o papel dos jornalistas que se submetem à sova despudorada aplicada pelo governante, apanhando inclusive na pessoa física e, não raro, com injúrias estendidas às próprias mães. Ganhar o pão está puxado. Mas os editores deveriam ter piedade dos ossos subordinados, esfarelados para muito além do ofício.

Também é preciso relevar o papel do gado confinado física e mentalmente no curral oficial. Perdoai! Perdoai!

Não quero ser cruel. Entendo que estamos todos perdidos. Que individualmente, quando a farinha é pouca, a prioridade é o próprio pirão. E que, massacradas, mesmo as instituições merecem piedade.

Porém é urgente reagir. Até quando vamos tolerar a intolerância? Qual será o alarme? Faremos como a comunidade judaica, que simula acreditar em apoio neopentecostal à Israel? Não são poucos os que já identificaram, há tempos, o crescimento de um sionismo antissemita. Mas precisaram de uma paródia de Paulo José Goebbels para reagir institucionalmente. E se contentaram com uma demissão.

Não estão sozinhos. Há pais de mulheres e de homossexuais que seguem firme o toque do berrante. Há inclusive muitas mulheres que seguem. E até índios, negros, homossexuais entregues ao transe da boiada.

Pior: o chamado mercado, feliz em seus ganhos imediatos, exclusivamente financeiros, trata a economia sob mero cálculo financeiro.

Individualmente, repito, com esforço consigo entender. A indústria cultural conhece bem o instinto de sobrevivência e trabalha o inconsciente coletivo desde o “meu pirão primeiro” até o carro blindado, a própria caixa-d’água, a casa murada, o plano de saúde, a escola que consome 1/3 do orçamento. O sonho da arma-própria é cada vez mais comum.

Puxado. Nesse transe coletivo, adotamos a lógica cínica de quem trepa escondido com cônjuge (ou conge, conforme atualização recente) de ente querido porque, inexoravelmente, alguém acabaria fazendo.

Mas as instituições têm a obrigação de gritar basta. Chega. Se não der pra gritar, digam. Com firmeza, tanto melhor.

Sei que não é fácil. Diariamente me olho no espelho e admito que, não tivesse eu perdido a mega da virada, já teria adotado o esquema Zé do Pé. Explico.

Zé e Julinho Toledo Piza certa vez embarcaram no navio português Verdes Mares para um cruzeiro pelo Nordeste. Ainda em Santos, logo no treinamento de salvatagem, Julinho sobrou com dois coletes, denunciando a ausência do amigo. Interpelado pelo comandante, saíram juntos à procura do faltante, que encontraram bebendo uísque no bar da piscina. Zé reconheceu a bronca, mas argumentou: Comandante, me desculpe, mas quando percebi que essa merda ia afundar, achei melhor beber.

 
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Paulo Guedes é um número

Os antigos diziam das pessoas fanfarronas: fulano de tal é um número. Número no sentido de entretenimento, de alguém que diverte as rodas. A minha geração usava “uma peça”. A turma dos anos 1970, com os motivos daquele então, preferia “um barato”.

PaGue sempre divertiu os colegas de academia com seus palpites apocalípticos. Ganhou a alcunha de Beato Salú, em referência ao louco da praça que pregava o fim do mundo.

Dada a bagunça que o mundo vive desde que a realidade chegou em 2008, com tanta gente bancando o bêbado que, na ressaca da manhã seguinte pede um chope para rebater – ou seguir pedalando pra não cair –, chegamos a tal estado de consciência que Paulo Guedes passou a ser alguém sensato. É da vida. Paciência.

A política econômica atual é a mesma desde 2015, quando Dilma 2 nomeou Levy, cedendo à pressão do chamado mercado, que depois de se esbaldar no chope do dia seguinte oferecido por Lula para furar a “marolinha” de 2008, e continuar se esbaldando nas pedaladas de Dilma como se não estivessem vendo a falsa ciranda que alimentava o Tesouro, implorou por internação e abstinência. Desde então é isso: dureza, austeridade – e tome privatização ao modelo de quem vende a prataria para jantar fora.

O fato inescapável é que vivemos a retomada mais lenta da história, mas como no curral VIP da Faria Lima vai tudo muito bem, obrigado, o establishment aplaude e afirma que as coisas estão melhores. Balela. Mas é crença, fé cega, e como vimos na repercussão do insosso especial de final de ano da Porta dos Fundos, não se pode brincar com a fé.

Daí que o sujeito está lá todo atrapalhado, pagando o Visa com o Mastercard, mas não deixa de acender uma vela para o Beato Salú. E ai de quem disser que rezar – ou torcer – para dar certo é a mesma coisa que ficar em casa deprimido, tomando milk-shake, torcendo para emagrecer.

De verdade, não surpreende. Dilma 1 fez sim uma lambança na economia, mandando dinheiro de um banco estatal para outro até voltar ao Tesouro para simular caixa e responsabilidade fiscal. Mas a bem da verdade é justo dizer que os números reais estavam claros, só não via quem não queria. Cansei de falar aqui, mas eu era o pessimista.

Tal cenário, que imagina-se impossível de piorar, piorou. Com PaGue sequer nos números podemos confiar. Divulgaram a alta do PIB (pibinho) no final do ano passado depois de uma revisão dos números na mesma semana, e o mercado brindava enquanto o dinheiro estrangeiro fugia.

Foi quando o jornal conservador inglês Financial Times, que uma semana antes elogiava PaGue em editorial, botou o gato no telhado dizendo que o PIB não condizia com a realidade. Naquele dia a fuga de de dinheiro estrangeiro foi recorde. E como reagiu a equipe econômica? Dizendo que sim, pode ser, e que no primeiro trimestre de 2020 o número seria mais uma vez revisado.

O efeito dessa escuridão equivale para a economia como o guarda da esquina para o AI-5, momento tão prezado por Paulo Guedes. Ora, se o Ministério da Economia cascateia, os demais players econômicos acompanham. Cara dura, cara dura.

As vendas de Natal são um exemplo. Uma associação cravou que as vendas aumentaram. Em seguida outra disse que não, ou muito pelo contrário, mostrando que as vendas caíram.

Metidos numa situação assim, em quem devemos confiar? Quem pode estar falando a verdade? Talvez o próprio ministério da Economia, através do IBGE, que a ele é vinculado.

Eis os números: inflação acima da meta – apesar da estagnação. Mesmo com a previsão bastante parecida com a nossa meteorologia, estimando fechar entre 2,75% e 5,75% (parece ou não máxima de 30 e mínima de 18 graus?), a meta, que era fechar em 4,25%, acabou em 4,31%. Repetindo: isso sem consumo. E como ser pobre é o que há de mais caro, para o estrato econômico mais baixo, que mede o IPC-Classe 1, a inflação bateu 4,6%, segundo o IPCA da FGV.

E a indústria, pobre indústria nacional? Diga o IBGE: “Em novembro de 2019, na série com ajuste sazonal, o setor industrial teve queda de 1,2% em relação a outubro. Houve redução das quatro grandes categorias econômicas e em 16 das 26 atividades pesquisadas nessa comparação. A queda de 1,2% elimina parte de 2,2% acumulada no período agosto-outubro de 2019. Com esses resultados, o setor se encontra 17,1% abaixo do nível recorde alcançado em maio de 2011.”

O que fará o governo? Publicar um vídeo escatológico nas redes do Presidente? Demitir um diretor do IBGE como fez com Galvão do INPE? Buscar um santo diferente de Salú para os devotos orarem? A ver.

 
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Calma (?!) que não acabou

O alívio durou pouco. Na noite de terça-feira Nessum Dorma ficou tocando na minha cabeça. Como alguém poderia dormir com a escalada da tensão entre EUA e Irã? Mas a quarta-feira amanheceu mais leve, com o desvanecer das estrelas apontando a alvorada.

Assim eu quis acreditar, apesar do sussurro interno que soprava “nem tanto, nem tanto”, sugerindo que os pontos de luz se apagando no céu não eram outra coisa se não mísseis caindo por terra, e o clarão consequente explosões, não a alvorada.

Pessimismo? Não. Racionalidade contra a torcida. Ora, como comprar de barato um cessar fogo capenga, sugerido por notas, declarações e tuítes, quando sequer o que está escrito em tratado é cumprido entre dois países?

Mais: como acreditar que o governo do Irã teria controle sobre as milícias criadas e coordenadas pelo general Suleimani ao redor do planeta, notadamente depois de assistir ao seu funeral, com milhões de pessoas pelas ruas queimando bandeiras dos EUA e de Israel? Funeral com direito a pausa para recolher cinquenta mortos pisoteados. Dá pra sentir o clima?

Se não, tome-se pelas redes sociais no Brasil. Incrivelmente assistimos a uma polarização cretina entre EUA e Irã, como se lado certo houvesse, ou como se um imbecil anulasse o outro, tornando a soma de dois erros algum acerto. Agora imagina lá no Oriente Médio, onde a paixão está no sangue.

Pensando assim concluí que era improvável que o sentimento das pessoas acompanhasse o arrefecimento da bravataria entre os governantes. Atacar uma estrutura física marginal do país mais rico do mundo equivale a riscar o carro do sujeito que matou seu pai. É quase óbvio que a coisa não vai parar por aí.

Muito bem. Hoje o comandante da força aérea da Guarda Revolucionária do Irã Amirali Hajizadeh, que era subordinado ao general Suleimani, declarou que os ataques de terça-feira foram só os primeiros de uma série e que a sofisticada divisão cibernética iraniana já realizou ataques contra a infraestrutura militar dos EUA.

Igual a tudo numa ditadura, não está claro se o governo iraniano apoia Hajizadeh. Mas quem se importa? Se nem nas democracias as Forças Armadas conseguem manter o controle sobre seus subordinados, imaginem grupos paramilitares cevados por ditaduras sanguinárias.

Infelizmente não acabou. Pior: aparentemente ninguém tem controle sobre os desdobramentos. Durma quem for capaz.

Oremos.

 
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Panela de pressão

Uma delícia para mim é usar panela de pressão. São vários os motivos. Primeiro,  lembra minha irmã Maria Cláudia, que nas férias em São Paulo preparava doce de leite cozinhando a lata de Leite Moça fechada.

Além de gostoso pro paladar era também para o espírito, uma aventura para as crianças, sozinhas, lidarem com aquela panela estranha, lúdica, ameaçadora. Fora o risco de sermos traídos pela ansiedade, errando o ponto de esfriamento e metendo o abridor com o interior ainda quente. Espirrava um jato que podia causar queimaduras sérias. IMPORTANTE: não tentem fazer em casa.

Outro motivo é a Dona Onça, maior especialista na tecnologia. A coleção de panelas de pressão da Janaína Rueda só não é maior e mais interessante que a das receitas que ela é capaz de executar. Minha predileta é o acém com legumes, praticamente um cafuné no prato.

Ainda tem a piada sobre a fantasia de carnaval que meu pai repete há décadas, mas esta é muito coisa de tiozão do século vinte e hoje em dia não encaixa nem durante a folia. Gosto mesmo assim, só não uso mais estando sóbrio.

Mas o que me enterneceu neste começo de ano foi o preparo da única receita que desenvolvo bem na pressão: feijão. É tão bonito quando a válvula começa chiar. É música. Vai perfumando a casa, trazendo lembranças, aquecendo a alma.

A sensação equivale a um passeio de maria-fumaça. Pena que dura pouco. O risco no caso é a gente se encantar com o clima e deixar rolar. Feijão queimado fede pra danar e impregna. Evite a todo custo. Tenha o Trenzinho Caipira do Villa à mão se quiser prolongar o prazer. Faz bela harmonia.

E já que estou viajando, embarquei agora numa estação no Rio Grande do Sul. Deixei a bagagem na cabine e fui ao vagão restaurante pedir uma bebida para acompanhar a viagem. Esta ferrovia percorre toda a BR-101, quatro mil e tantos quilômetros de litoral, chegando ao Rio Grande do Norte. E logo será ampliada até o Amapá, onde haverá conexão com a hidrovia da Bacia do Amazonas, que passa por Belém e Manaus, depois desce pelo Centro Oeste e volta ao Sudeste pelo Tietê e ao Sul pelo Paranapanema/Paraná. Será um passeio e tanto.

Sim, estou sonhando. Dormi bem mas acordei com cheiro de feijão queimado. Abri a Folha e li que, aos quinze meses de operação, o trem que liga a Estação da Luz ao aeroporto internacional Governador André Franco Montoro, em meia-hora por R$8,80, tendo capacidade para dois mil passageiros viaja, em média, com 36 pessoas a bordo.

Motivo principal: invés de alcançar os terminais, como seria lógico e acontece em qualquer lugar civilizado, os governos do PSDB condenaram os viajantes a desembarcarem num ermo e esperarem um ônibus, dobrando o tempo de viagem e principalmente ofendendo a inteligência do cidadão.

Como diria Vavá, ex-prefeito do interior de São Paulo, “governo é igual feijão, só funciona na pressão”.

 
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Cafeína pode dar cadeia

Por unanimidade, o Supremo Tribunal de Justiça decidiu que posse de cafeína pode dar cana por tráfico de entorpecente. Mas calma. Ninguém está arriscado a ser preso tomando um cafezinho e nem transportando um quilo do supermercado para casa. Inclusive as cápsulas de café continuam legais, pode consumir tranquilo que o azar é seu.

A decisão contrariou o pedido de habeas corpus de um cidadão preso com vinte quilos de cafeína pura, processada, em pó, com base na acusação que diz que a substância costuma ser utilizada por traficantes de cocaína como mistura para aumentar a margem de lucro, e que este seria o caso do distinto.

Por sua vez, o preso se defendeu dizendo que guardava aquela cafeína toda para um terceiro, que a consumiria a fim de emagrecer e ganhar muque. E que, ademais, cafeína não está no cardápio das proibições da Lei de Drogas. Apesar da cafeína estar presente em diversos produtos legalizados, como energéticos e remédio contra a gripe, não colou e segue a cana.

Da minha parte, tanto faz o que cada um consome. Pode até comer macarrão instantâneo ou leite condensado com pão. Sinceramente, não ligo. E definitivamente não acho que qualquer pessoa deva ser presa por consumir o que quer que seja, desde que não prejudique o próximo. Casos de prejuízo pessoal são problema de saúde, não de justiça.

É claro que o que está acima trata de indício de tráfico e não de consumo, e que a cafeína é personagem marginal. Fosse Maizena ou fermento Royal talvez acabasse na mesma.

O que me pareceu curioso antes de ler a notícia inteira foi pensar que, enquanto a cafeína in natura – como a que está nos cafezais, ou a pouco processada – como encontramos nas xícaras de café, é legalizada, a ultra-processada pode dar cana; enquanto com a maconha acontece o justo inverso: in natura pode dar cadeia, mas se processada – como no canabidiol, tão bem-vindo para tantos enfermos, está legalizada.

Por mim, até para facilitar a vida da justiça, da polícia ao STF, a gente legalizava tudo. Se praticamente 1/3 da população carcerária é de presos por tráfico, imagina o tempo e o dinheiro que sobrariam para o Estado cuidar do que importa, que são as pessoas.

 
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O otimismo filho da angústia

Hoje é dia de Reis, meu quadragésimo, e continuo me dando mal com o ouro, detestando incenso e sem a menor ideia do que é ou para que serve mirra.

Mas a data é boa, festiva e combina com uma segunda-feira que marca a chegada dos anos vinte. (Sim, eu sei que não é bem por aí, estou uma semana atrasado de um lado e antecipando ansiosamente 360 dias do outro.)

Por incrível que pareça, e apesar das tantas e tamanhas estultices que os governantes, aqui e alhures, já conseguiram falar e fazer aos seis dias do ano, me sinto otimista. Pode ser instinto de sobrevivência, até porque racionalmente não tenho para hoje nenhum motivo para tanto, mas vira e mexe me pego otimista.

Algo egoísta, tenho pensado em mim mesmo nos seguintes termos: vivi mais tempo no século 20 do que no 21. Dentro de alguns poucos anos, se tudo der certo, a equação vira, e estarei há mais tempo neste do que no século passado. O problema é que, por maior que seja meu esforço de adaptação, me sinto completamente fora de sintonia com o mundo atual e duvido que a virada fará diferença.

O chiado só não é maior do que o barulho do passado, que ecoa da cultura que está em mim e pela qual conservo afeto, mesmo sabendo que já não mais se encaixa em qualquer lugar, em contexto nenhum.

Ver com clareza que o problema é geral ameniza a sensação de egoísmo. Mas notar que, por ser geral, a falta de sintonia permanecerá, eleva o ruído que tudo aquilo que não se encaixa provoca – e que pode até escalar dadas a velocidade projetada das mudanças e a resistência natural às grandes velocidades.

Donde brota otimismo diante de um cenário assim? Creio que da história da humanidade. Sempre que as finanças explodiram, para combater ou evitar o colapso o mundo serenou e arranjou solução. Nos casos mais conhecidos do século passado, a solução pós 1929 foi bem melhor que a de 2008, mas a verdade é que em ambas as experiências a turma se acalmou e houve saída. O mesmo vale para as duas grandes guerras. A angústia é pensar em quando afinal a turma vai se tocar que é urgente parar para combinar uma saída.

Hoje, debaixo de nossos narizes, temos vários problemas e de potencial ainda maior, e não só financeiros ou bélicos, mas sociais, culturais e ambientais, todos juntos e misturados. É improvável que o inconsciente coletivo opte por seguir rumo ao precipício definitivo. Sempre freamos antes. Então, que assim seja. Mas logo.

Que venham os anos vinte, e que sejam leves e belos para todos nós.

 
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Terra

Crônica publicada na #34 edição da revista Amarello – Terra que está nas bancas, pelo site http://www.amarello.com.br ou whatsapp 11-982770764

 

No princípio era a verba. A terra. A terra era a verba, o capital. E o dono da terra era o senhor. Há quem diga que uma maçã fora de hora era motivo para expulsão. Minha terra, minhas regras.

Com o tempo as coisas mudaram. Não que os donos da terra tenham assentido. Mas das transas entre os expulsos, os preteridos, nasceram novidades. Ciência, tecnologia. Surgiu a máquina, que virou capital.

A partir daí a velocidade e a potência de tudo aumentou muito. Inclusive o tempo passou a ser capital. E a indústria já não dependia só da máquina. O poder de transformar a cultura passou a reger o capital. Principalmente quando os homens se valiam de máquinas para brigar por terra, regia o baile quem detinha o poder transformador da cultura.

Na História, os parágrafos acima são inversamente proporcionais. O primeiro dura milênios. Os demais foram um suspiro. Literalmente um suspiro, intangível, imprevisível, inexorável.

E do suspiro fez-se a ofegância, que é o suspiro acelerado, potencializado em sua intangibilidade, imprevisibilidade e inexorabilidade. Ninguém está livre dela. Seduzidos pelo conforto proporcionado pela evolução, nos encontramos num limbo nem-nem: nem conseguimos religação com o passado, nem conseguimos aguardar o futuro.

Se antes faltava terra para alguns, depois máquinas para outros, hoje pode haver casa, comida, roupa lavada e informação para todos. Ar, para ninguém – o que agrava o problema histórico da repartição básica.

O capital está morto. Sublimado em forma de dados. A terra sem dados não tem valor. Assim como a máquina. Ou a cultura. E até o dinheiro que um dia foi líquido, ora é gasoso. Os dados sabem mais das pessoas do que as próprias pessoas.

Estamos na era do capital gasoso, que é energia, sem dúvida, mas também é tóxico. Quer dizer: já não podemos viver sem ele, mas precisamos de ar para sobreviver. Desesperadamente precisamos de ar para continuar na Terra.

 
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A terceira guerra mundial pode ser um imenso Vietnã

Donald Trump é um irresponsável, inconsequente e mentiroso, não necessariamente nesta ordem.

Sei pouco ou quase nada de Oriente Médio, tenho inclusive que recorrer ao mapa para lembrar a disposição política das fronteiras por lá, mas sou bem dotado de raciocínio lógico e por isso posso identificar um mentiroso com certa facilidade, notadamente um tão vulgar como Trump.

Ao anunciar o assassinato do general iraniano Qassim Suleimani – a quem eu mal conhecia até este ano –, o presidente dos Estados Unidos disse que foi uma antecipação ante a descoberta de planos de ataques a alvos estadunidenses e seus aliados. Papo, claro.

Ora, se há inteligência para prever atentados e tecnologia para matar líderes de forças bélicas tão protegidos via drone em pleno aeroporto de Bagdá, há inteligência para neutralizar os executores escalados para os tais ataques sem causar um problema tão grande e de consequências imprevisíveis.

Em seguida Trump disse que o ataque encerrava uma guerra, não começava uma. Essa é de zombar de qualquer inteligência. Até porque logo em seguida mais tropas dos EUA seguiram para a região do Golfo Pérsico, e há notícia de que os próprios EUA fizeram novo bombardeio contra uma milícia numa estrada ao norte de Bagdá.

Não contente, falando na Florida a milhares de apoiadores de origem hispânica ligados a igrejas evangélicas, Trump disse que, se os terroristas têm amor à própria vida, deveriam temer os Estados Unidos. Pode? O mundo inteiro sabe que o pior ataque sofrido pelos estadunidenses foi realizado por terroristas suicidas, que creem merecer o Paraíso se morrerem como mártires. Mas a plateia, formada por estadunidenses, fingiu que não sabia.

Sobre os riscos econômicos e comerciais para o Brasil e o mundo, ou os erros políticos e jurídicos dos EUA contidos na ação, gente muito boa já falou e vem nos atualizando.

Meu palpite é sobre como o Irã vai se vingar. Esses dias soubemos que Suleimani era considerado um herói para muitos não só no Irã e no Iraque, mas em diversos países pelos quais espalhou e apoiou milícias e sobre elas manteve poder e organização. Se Trump reconhecesse a história, saberia que seu país perdeu a guerra do Vietnã para o general Vo Nuguyen Giap, uma mente militar brilhante que, dispondo de milicianos calçados com chinelos de dedo, botaram pra correr os exércitos da França e dos Estados Unidos.

Meu palpite e receio é que a vingança será parecida, só que em escala mundial. E quem imagina que os devotos de Suleimani estão concentrados no Oriente Médio, pense de novo, principalmente se for brasileiro. Aqui ao lado, na Argentina, já houve dois atentados atribuídos a grupos aliados de Suleimani, como o Hezbollah.

Também acredita-se que até hoje haja presença desses grupos na região, notadamente na tríplice fronteira Brasil-Argentina-Paraguai, que sequer contrabando de cigarro consegue conter.

E enquanto isso o que faz o governo brasileiro? Tão irresponsável, inconsequente e mentiroso quanto o estadunidense, além de bajulador, emite nota de apoio aos Estados Unidos.

Por outro lado, talvez seja essa a intenção de Bolsonaro. Digo provocar um ataque em solo brasileiro. Vale lembrar que seu filho Zero Um, estando em Israel, tuitou que desejaria que o Hezbollah se explodisse. Se eles vierem se explodir por aqui, Bolsonaro pode ter a senha para o “AI-5” que o filho Zero Três e seus ministros Paulo Guedes e gal Heleno gostam de lembrar.

Oremos.

 
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