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Rolé internacional do constrangimento aleatório

01)

Na segunda-feira Damares Alves foi à Suíça discursar na ONU. Finda a apresentação, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos reuniu-se com jornalistas e, emocionada, reclamou da chacota que sofre no Brasil pela história de Jesus na goiabeira: “Era uma menina de 10 anos em cima de um pé de goiaba querendo morrer. Eu sei o que é ser menina no Brasil. E quando falo que o Brasil ganhou o título de pior país da América do Sul para ser menina, um dos motivos é o abuso. Eu fui vítima do abuso. Eu sei o que estar no colo de um algoz. Eu sei o que é estar no colo de um pedófilo.”

Na terça-feira Jair Bolsonaro foi à Foz do Iguaçu e também discursou. Na fronteira com o Paraguai, forçou a Ponte da Amizade e declarou que a hidrelétrica de Itaipu só foi possível porque “do lado de cá (paraguaio), um homem de visão, um estadista” governava, e estendeu as homenagens rendidas aos presidentes da ditadura militar no Brasil ao ditador Alfredo Stroessner, que fez o que quis durante 35 anos. Foi aplaudido.

O general Stroessner foi expulso do Paraguai em 1989. As investigações sobre abusos, tortura, desaparecimento de adversários políticos e corrupção em seu período acontecem desde os anos 1990. Inclusive seu filho Gustavo foi processado por corrupção, peculato e venialidade.

De 2016 pra cá são investigados casos de pedofilia e estupro em série cometidos pelo próprio ditador, que deflorava em média uma menina por semana. Encontradas na área rural e sequestradas por agentes da guarda presidencial, serviam ao general como escravas sexuais. Os critérios para a captura eram virgindade e idade entre dez e dezesseis anos.

Nesta quarta-feira a ministra Damares volta ao Brasil. Na agenda oficial ainda não consta audiência com o presidente Jair Bolsonaro.

02)

Na terça-feira o ministro da Educação Ricardo Vélez Rodriguéz enviou carta a todas as escolas do país pedindo que as respectivas diretorias botassem os alunos para cantar o Hino Nacional e, sem atentar para a necessidade de autorização dos pais, que fossem filmados e os vídeos enviados ao MEC. Pior: o pedido incluía a leitura de uma carta do ministro que se encerrava com o slogan da campanha eleitoral de Jair Bolsonaro.

Num levantamento rápido apurou-se que, segundo o Censo Escolar 2018, mesmo que se dispusessem a contrariar as leis brasileiras, 30% das escolas do ensino fundamental não poderiam atender ao ministro, porque não têm internet.

Nesta quarta-feira o ministro recuou admitindo o erro.

03)

Na segunda-feira o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo foi à Bogotá, na Colômbia, para o encontro do Grupo de Lima, que busca uma solução para a Venezuela.

Perguntado pela reportagem da Globo News sobre negar diálogo com o país vizinho e manter com a Coreia do Norte, o chancelerado sacou a estopa e caprichou no brilho de suas já reconhecidas brilhantes ideias. A seu lado, um contido vice-presidente general Mourão parecia se esforçar para não rir. Em outra oportunidade Mourão insistiu em manter diálogo com os militares venezuelanos e buscar uma saída pacífica para o início da reconstrução da Venezuela, sugerindo o exílio do ditador Maduro e seu grupo mais próximo.

Na terça-feira o chancelerado fez fumaça dizendo que a imprensa não tratava a Coreia do Norte como ditadura antes desta negociar com os Estados Unidos, provando “não ser contra ditaduras, mas contra o Ocidente democrático”. Falso 1: a Coreia do Norte é tratada como ditadura há uns quinze anos. Falso 2: a Coreia do Norte sempre negociou com os Estados Unidos, mas nunca cumpriu os acordos e nada indica que agora será diferente.

Nesta quarta-feira o presidente americano Donald Trump está reunido em Hanói com o ditador norte-coreano Kim Jong-un. Na ONU, em Genebra, o chanceler venezuelano Jorge Arreaza pediu a mesma possibilidade ao governo dos Estados Unidos.

O cavalo está encilhado diante de Mourão, militar e político que já morou nos EUA e serviu na Venezuela. Sua experiência pode ser um torrão de açúcar. E Trump voltando do Vietnã, onde os EUA levaram uma surra vexatória do Supremo Exército do Povo de Gal. Giap, pode ser o chicote.

 
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Messias, Bispo, Moro, Bebianno, três problemas, três perguntas

Ontem à noitinha o ministro da Justiça Sérgio Moro e o diretor-geral da Polícia Federal Maurício Valeixo se reuniram com o presidente da República Jair Bolsonaro para comunicar que, depois de cinco meses de investigações, a conclusão do segundo inquérito sobre o atentado de Juiz de Fora é igual a do primeiro: Adélio Bispo agiu sozinho e o caso deve ser encerrado no mês que vem, restando apenas detalhes técnicos.

Encerrado pelo Estado brasileiro, diga-se, cujo chefe é o presidente da República, vítima principal do atentado. Porém, nas redes da BolsoFamília, tudo nos leva a crer que o assunto ainda vai render. Como ZeroUm e Cartucho me bloqueiam, só vou acompanhar o presidente e o ZeroTrês, que por sinal é policial federal escrivão.

A narrativa é manjada. Como o criminoso foi filiado ao PSOL, a BolsoFamília inflama as paixões partidárias para aquecer a claque virtual. Sendo exitosa, pode parecer esperteza.

Problema zero um: a chance de começar a parecer administração de vacina aumenta conforme surgem evidências das súcias bolsonaristas com milicianos fluminenses, e destes com o assassinato da vereadora Marielle Franco, do PSOL e seu motorista Anderson Gomes.

Problema zero dois: o argumento mais usado pela BolsoFamília é sobre quem estaria pagando os advogados de Adélio Bispo. Meu palpite: a publicidade. O que não falta é advogado disposto a aparecer num caso assim, verdadeiro passaporte para o estrelato.

Problema zero três: o presidente Jair Bolsonaro tem uma conta a ver com seu advogado Gustavo Bebianno. Pelo cálculo do próprio presidente, reveladas num telefonema com o ministro-chefe da Casa Civil Onyx Lorenzoni vazado para O Globo, o valor dos honorários seria equivalente ao de uma casa.

Pergunta zero um: considerando que o doutor Bebianno abriu mão de receber o valor correspondente a “casa”, pode o presidente da República receber presentes de tal monta?

Pergunta zero dois: o Código de Conduta da Comissão de Ética Pública da Presidência da República trata de muitas possibilidades na sessão sobre Presentes e Brindes, mas não fala de honorários advocatícios. Porém como o próprio presidente estabeleceu o valor de uma casa como referência, em qualquer circunstância seria vedado ganhar um imóvel de presente. Como tal qüestão será resolvida?

Pergunta zero três: Temos hoje um ex-presidente preso em Curitiba por conta de reformas em um tríplex no Guarujá, e já condenado em primeira instância também por reformas em um sítio em Atibaia. Terá o ministro Sérgio Moro abordado o assunto na reunião com o presidente Jair Bolsonaro?

 
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17 perguntas a Olavo de Carvalho

Recentemente voltei ao Twitter e estou me divertindo. No balaio geral das chamadas redes-sociais, a reunião de microblogs talvez seja a mais plural.

Dentre as coisas que mais me diverte está acompanhar os palpites anotados pelos baluartes da nova direita brasileira. Como é próprio das chanchadas, o constrangimento é corriqueiro, o que torna fundamental estar de bom humor para acompanha-los. Em dias de bode, não recomendo. É deprimente ver como estamos mal se comparados ao primeiro mundo. Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa, considerada grosseira em toda Europa, no Brasil atual seria símbolo de refinamento, e inclusive nega pertencer ao mesmo campo político de Bolsonaro.

Esses dias peguei um vídeo no perfil do Olavo de Carvalho. Estava num bom dia e abri para ver. Assinado por um canal chamado Spotniks, tem por base sugestivas 17 perguntas oferecidas de colher ao Bruxo da Virgínia. Considerei um caminho razoável para conhecer melhor a figura, posto que as seletas de textos reunidas em livros ou as 440 horas de vídeo que ele gravou estão pra lá do horizonte na minha lista de prioridades.

O que descobri foi um tipo vulgar, disponível em qualquer salão ou quebrada brasileira. Tipo esperto que se entregou à sedução da facilidade que é enganar trouxa por aqui. Está para a filosofia como Silas Malafaia para o cristianismo – e inclusive não perde uma chance de tentar angariar fiéis para seu canal no YouTube.

A primeira pergunta é sobre como OakLavo gostaria de ser lembrado. Ele responde estar satisfeito por ter educado “uma pá de gente e essa pá de gente estar educando o Brasil”, mas que ainda gostaria de publicar em livro suas 440 horas de vídeos “uns trinta ou quarenta volumes”. Até agora nenhum Platão se candidatou.

Sobre o que o assustaria, jacta-se de grande valentia. Diz que vem de outra época e que não fazem mais gente como ele, que hoje são todos covardes e cagões, ressalvando que dez mil covardes juntos ficam valentes a ponto de enfrentar um homem corajoso. Como prova de coragem, oferece a própria em usar palavrões, emendando que na metade do século passado Jorge Amado e Nelson Rodrigues escandalizavam a sociedade com o mesmo artifício. Falso. Jorge tem palavrões em sua obra, não na própria boca. Nelson nunca precisou, usou um ou outro, raríssimas vezes. Talvez fosse melhor Olavo dizer da influência de Dercy Gonçalves em sua vida.

Em seguida ele ataca o analfabetismo funcional como epidemia nacional no Brasil. Tendo a concordar. Só lamento que ele não faça autocrítica, como impõem as referencias erradas a Jorge e Nelson. Ou quando diz que Maquiavel é uma besta quadrada, cuja obra é de uma inutilidade gigantesca, justificando: fui estudar direitinho a obra de Maquiavel, que não entende nada de política, esteve sempre do lado errado, terminou a vida dependendo da caridade de seus inimigos.

Ora, confundir obra com biografia não é exemplo de analfabetismo funcional? E o que dizer do fim de Sócrates ou Jesus Cristo? Seria o fim trágico de um e outro prova de idiotice?

A favor do OakLavo, diga-se, ele afirma que jamais baniria os livros de Maquiavel ou quaisquer outros.

Outro exemplo de dificuldade de entendimento: ele acerta ao dizer que fascista no Brasil, só Getúlio Vargas, mas supõe que, portanto, a legislação trabalhista, por ter sido inaugurada no Brasil por Getúlio, seria também fascista.

Mais curiosidades. Primeiro ele diz que o PT é um partido comunista (!) e que seu maior erro foi não consultado o jovem esquerdista de Carvalho nos anos 1980, caso contrário ainda teria alguma chance eleitoral. Se a alguém parece ranço de quem não foi convidado para o baile, admito que a mim também.

Critica o PT pela obsessão em querer tomar o poder e pelo desapreço pela alternância democrática, mas quando perguntado se a “direita” pode se perder num “fanatismo cego e imprudente, perdendo o ceticismo com a concentração de poder”, responde que não, que já escolheram Bolsonaro, um homem “muito equilibrado, muito sensato, um homem bom… não é nada disso do que os caras estão falando”.

Oferece então a cereja do analfabetismo funcional (na melhor da hipóteses): “Dizem que ele faz apologia da tortura. O que eu vi foi ele defender um acusado de tortura… Você defender o sujeito de uma acusação de crime é fazer apologia do mesmo crime?” É improvável que tenha escapado a OakLavo os vídeos de Bolsonaro afirmando que é favorável à tortura e que defende que os criminosos sejam tratados com “energia”.

Antes de encerrar com seu palavrão predileto, diz não achar grande coisa ser considerado o maior intelectual brasileiro quando é o único.  Tá serto.

 
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Corrigindo Mourão ou e então, Capitão?

Não digo cortar relações, mas tendo a “dar um tempo” com quem se atrever a dizer que não tenho boa vontade com o general Mourão. Aliás, Mirreneral, com quem gostaria de tomar um Cutty Sark antes do almoço no Álvaro’s ou no bar Degrau qualquer dia.

Desenvolvi simpatia pelo cavaleiro e deposito nele todas minhas fichas para os próximos anos, notadamente agora com esse esgarçamento na fronteira com a Venezuela. Situação delicadíssima que já conta com uma mulher morta e diversos feridos pelas tropas da ditadura de Nicolas Maduro. Mourão tem experiência internacional e conhece particularmente nossos vizinhos venezuelanos por lá ter servido por dois anos. Pernas de aço, mãos de seda e cintura de borracha, Mirreneral!

Simpatia porém não significa cheque em branco. E as declarações de Mourão publicadas hoje pela Mônica Bergamo na Folha merecem um “alto lá”.

Mourão “afirma que há militares rangendo os “dentes” por causa da reforma da Previdência —mas diz que todos têm disciplina e vão aceitar as mudanças”. Mas sabe que não é bem assim. A tão falada disciplina militar é uma falácia. Toda a instabilidade política no Brasil desde a República e durante o século 20 nasceu dentro dos quartéis ou contou com participação de seus oficiais. Papa Gaspari tem um resumo aqui, incluindo o próprio Mourão.

Dadas as circunstâncias, o caso mais emblemático de indisciplina e incoerência é o próprio Bolsonaro, que em 1986 liderou protestos muito além do razoável por aumento de salários, e só não foi expulso porque um general amigo passou pano no STM. Palavras do tenente-coronel e ex-presidente do Senado Jarbas Passarinho.

Pano morno que rende. Em 1988, aos 33 anos de idade e portanto 15 de serviço, Bolsonaro foi eleito vereador e, tomando posse, foi transferido para a reserva remunerada, recebendo desde então perto de R$ 10 mil por mês em dinheiro de hoje. Por ter sido deputado federal, recebe agora mais R$ 27 mil de aposentaria, além dos R$ 30 mil do salario de presidente.

A pergunta agora é como fica tal situação. Se pretende comunicar a importância da reforma, Bolsonaro deve dar o exemplo. Não digo devolvendo o para trás, mas minimamente abrindo mão do para frente.

E então, Capitão?

 
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LoBebianno

Anteontem, aflito com as consequências do BebiLeaks, um amigo me chamou. Igual a tantos brasileiros ele está meio Tereza Batista, cansado de guerra. E o ex-ministro Gustavo Bebianno surgira no Instagram armado com um rifle, mirando a gente pode imaginar quem. A imagem, somada a uma frase do filme Rambo sobre intimidade com o capeta, parecia ameaçadora.

Tratei de tranquiliza-lo e já direi como. Antes convém conhecer meu amigo e o próprio Bebianno.

Financista, no primeiro turno meu amigo votou no Alckmin. No segundo, tapou o nariz e cravou 17. Sabia que seria ruim. Sequer do PaGue ele gosta. Mas o PT ele odeia e Fernando Haddad não dava sinais de mínima autonomia. Tolerou janeiro dizendo que começo de governo é sempre tumultuado. Com o presidente internado, achou que fevereiro foi calmo até Cartucho disparar no Twitter e receber o endosso paterno-presidencial, deflagrando o BebiLeaks na Veja, que o fez temer pela estabilidade da República.

Gustavo Bebianno é um sonhador que se empenha em relacionamentos pessoais, área onde é campeão e recordista. Antes de passar pela Esplanada em tempo recorde, seu posto de maior prestígio foi como advogado júnior da banca Sérgio Bermudes Advogados, firma prestigiada no Rio e em Brasília. Tentou o sonho americano com uma academia de jiu-jitsu em Miami. Não deu certo. De volta ao Brasil sem ter onde pousar, pediu penico à ex-mulher e dedicou-se a seguir Bolsonaro até fazer amizade em tempo recorde. Em tempo recorde alugou e presidiu um partido, coordenou e venceu uma campanha, assumiu como advogado contenciosos jurídicos pessoais de Jair Messias. Pelo pacote eleitoral cobrou R$ 10 mil oficialmente. O serviço advocatício fez pro bono.

Tranquilizei meu amigo dizendo que Bebianno tinha dois caminhos: Pedro Collor ou Zé Dirceu. Na primeiro, explodiria o governo e acabaria sem nada, quiçá morto. No segundo, tornar-se-ia um dos lobistas mais requisitados de Brasília.

Meu amigo contrapôs incrédulo: lobista inimigo declarado do presidente da República e de seu filho pitbull? Ele vai explodir tudo! Não tem o que perder.

Insisti argumentando: há um ano Bebianno morava de favor na casa da ex-mulher, talvez esperando para usar o banheiro de manhã; hoje e para sempre será tratado por ministro em qualquer dependência da corte; tem cópia da chave do armário e conhece pelo nome cada esqueleto do presidente e de uns cinquenta deputados federais; tem a simpatia dos generais, de Rodrigo Maia e bom trânsito com Paulo Guedes; segue amigo íntimo de Paulo Marinho (suplente do senador Flávio Bolsonaro) e do Dr. Bermudes; é atendido de pronto por qualquer editor da imprensa brasileira; é o inimigo número um de Cartucho, que todos – noves fora o pai – querem ver de longe e pelas costas.

Alguém sem brio nem ambição talvez trocasse tudo isso por uma sinecura de um milhão por ano em Furnas. Alguém sem brio mas com talento para bon-vivant aceitaria tranquilamente a embaixada na Piazza Navona. Já alguém sem brio mas com ambição e talento para relacionamentos pessoais abriria uma portinha em Brasília.

É o que Bebianno deve fazer. Com a vantagem de poder dar nota de advogado e estrear ostentando no portifólio de clientes: Jair Messias Bolsonaro – pro bono. Lembrando que o pro bono foi combinado com o ministro-Chefe da Casa Civil, que ouvimos falando alto com o presidente da República no vazamento d’O Globo.

Como diria o Woody Allen, a diferença entre sexo grátis e sexo pago é que o pago é muito mais barato.

 
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Reformas

Reforma é sempre desagradável. Passei por uma na casa materna há uns vinte anos. Inventaram umas arandelas e, para tanto, era preciso cavar as paredes para instalar conduites. Ar crocante logo de manhã. A poeira era mastigável. E eu, que tinha cabelo e usava gomalina, chegava ao trabalho com um reboco grisalho na cabeça.

Recém-casado fui morar num apartamento lindo e velho. Troca o encanamento, o pedreiro varre o refugo para o ralo, volta o encanador, que trabalha o ralo se segurando na maçaneta da porta e estoura a dobradiça. Chama o marceneiro. Negocia tudo com a proprietária. O horror.

O ideal seria que a gente se mudasse enquanto rola a reforma, igual fazem com os carros. Deixa na oficina e pega quando estiver ok. Mas nem sempre é possível fazer isso onde se vive. Com o corpo, por exemplo. Não dá para deixar o coração no hospital e passar para buscar depois. Se precisar juntar um osso quebrado, tem que carregar o gesso durante algum tempo.

Com o país não é diferente. Vamos ter que reformar com ele funcionando (não é a palavra exata, eu sei). Será um transtorno mas não tem outro jeito. O mínimo que se espera de quem foi escolhido para tocar as obras é que eleja prioridades. Primeiro a cozinha, depois o banheiro e assim por diante. E muito, muito importante: explicar para o Carlinhos que pelo menos durante esse período ele não poderá brincar na sala.

Dito isto, vamos à escala de mão de obra. O pedreiro só deve entrar depois que o encanador concluir o seu serviço. Desenhando: Paulo Guedes e Sérgio Moro deveriam combinar o que vai primeiro. Reforma da Previdência ou pacote anticrime? Foram juntos, tumultuando. Agora 513 deputados e 81 senadores terão que organizar a fila. Na Câmara o líder do não-governo já mostrou que não lidera. No Senado, receando que a vaca vá para o brejo, chamaram o Bezerra do MDB (desculpem, não resisti). E o papel do Onyx, me parece, foi botar o caixa dois no pacote dois. Tudo isso com o Carlinhos, ou Cartucho, brincando de bodoque na praça dos Três Poderes, rodeada de vidraças.

Tendo a acreditar que a reforma da Previdência é urgente. Porém insisto que é paliativa e que a longo prazo só a Renda Básica Universal pode equilibrar a sociedade. Mas sendo o que temos para hoje, comento a seguir alguns pontos.

Afirmo que PaGue não viu o filme Eu, Daniel Blake. Tivesse visto, não apostaria que vai economizar R$ 10 bi ao ano criando uma gigantesca máquina burocrática para avaliar idosos e pessoas com deficiência que recebem o BPC. Meu palpite é que o molho vai sair mais caro que o frango.

Tratar como direito adquirido os privilégios de servidores da União, estados e municípios, e principalmente do Judiciário e militares (média de R$ 28 mil no legislativo federal e R$ 2 mil no setor privado), é uma excrescência, assim como é excrescente a dívida de R$ 500 bi de empresas públicas e privadas, equivalente ao dobro do déficit atual, e abjetos são os recorrentes Refis e perdões e desonerações parciais ou integrais a diversos setores.

Ocorre que, para cortar na carne, precisaríamos de uma carnificina ao modelo dos Estados Unidos na Guerra da Secessão. E o modelo brasileiro de reforma econômica-social é de transição longa. Para usar o exemplo correlato – até porque escravizar era defendido como direito adquirido –, por aqui precisamos de quarenta anos entre fim do tráfico de escravos, lei do ventre-livre, sexagenários e enfim a abolição. A pergunta que fica é: foi sem carnificina?

Olhando as estatísticas sobre homicídios, afirmo que não. Os negros são 71% das vítimas de homicidas no Brasil. No recorte paulista, estado que tem os índices menos ruins, a Ouvidoria da Polícia verificou que entre 756 civis mortos pelas polícias, 99% eram pobres e 65% eram negros com até 24 anos.

E então chegamos ao pacote anticrime do ministro Moro, que afrouxa ainda mais os limites para letalidade policial. É assombroso e já causa efeitos sociais, como o do projeto de policial que estrangulou até a morte um jovem no supermercado Extra, na frente de colegas e da mãe da vítima, a quem dizia: “Cala a boca, puta!”

Curiosamente, alheio às evidências científicas e aos alertas de estudiosos, o ministro Moro insiste no afrouxamento, mas botou de parte a criminalização do caixa dois para políticos que, ainda outro dia, dizia ser pior que a corrupção.

A integração das polícias, tão falada na transição de governo e fundamental para melhorar a segurança pública, acabou marginalizada.

Quem puder se mudar do Brasil e evitar o transtorno, aproveite para reparar como funcionam os aeroportos. Da porta para a rua, quem trabalha é a Polícia Militar. No saguão entre a porta e o portão de embarque, é a Polícia Civil. Passando o portão de embarque é a Federal. Se roubarem sua bagagem em algum momento, torça para que o ladrão tenha a bondade de aguardar os policiais dentro do limite onde cometeu o furto, porque se mudar de ambiente, babau: as três polícias não se falam.

 
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Interlagos levanta a bandeira amarela

Já eleto prefeito mas antes de tomar posse, João Doria tirou da cartola uma de suas grandes ideias: levar a Virada Cultural para Interlagos. Justificou dizendo que no autódromo a festa ocorreria “com conforto e sem os transtornos que, infelizmente, pela dimensão que assumiu, ela proporciona”.

Hoje é sabido que foi mais uma bravata do João, cuja serventia foi mostrar que ele não tinha entendido o conceito da Virada, que começou com Serra, firmou com Kassab e cresceu com Haddad.

Mas também serviu para revelar o preconceito do atual governador com festas democráticas, plurais. Na cabeça dele, em cercadinhos e marcados com pulseirinhas e crachás, o gado se comporta melhor.

Eu, que tenho memória, sou obrigado a discordar. Em 1998, sábado de véspera da reeleição de FHC, João Doria promovia em Indaiatuba o Porsche Polo Day, um Garden Party que, como diz o nome, oferecia Porsche e polo equestre para gente de bem.

Os carros eram uns duzentos e seguiram em fila pela rodovia dos Bandeirantes. O polo se resumia a uma partida onde a estrela maior era Ricardo Mansur Filho. Para os convidados era servido champanhe Moët & Chandon e uísque Johnnie Walker Blue Label (palavra, eu trabalhei no convescote e não estou exagerando).

Obviamente, com um bar assim, a beleza dos carros e dos cavalos acabou algo ofuscada. Resultado: na hora da premiação para carro mais bonito, carro mais velho, carro mais original, cavaleiro artilheiro, cavaleiro mais bonito etc, ninguém deu bola.

Então João teve uma ideia brilhante. Anunciou ao microfone que as dez primeiras pessoas que se aproximassem da tenda da premiação ganhariam os cobiçados calendários de modelos nuas produzidos pela Pirelli. Foi um estouro de boiada. O gado rompeu os currais e levou absolutamente tudo: garrafas de champanhe, litros de uísque, relógios de ouro, baldes de prata, taças, troféus, medalhas.

Outra bravata do João prefeito foi a privatização de Interlagos aliada ao tal arco do Jurubatuba. De novo, falta de compreensão. Sendo a região de São Paulo mais precária em infraestrutura de transportes, imaginar ceder parte do autódromo para construção de habitação, quando outras áreas, melhor equipadas, demandam justamente esse esforço para vingarem, é um erro atroz que só pode piorar a cidade.

Ideia ruim que carrega o estigma do erro, antes de nascer já começa a trazer prejuízo. Como se não bastasse o orçamento de 2019 ser o menor para investimentos em corredores de ônibus desde 2013, o atual prefeito Bruno Covas ainda tirou mais R$ 12,3 milhões para gastar… na pista de Interlagos.

Desnecessário lembrar que corredores de ônibus são os equipamentos mais eficientes para fazer menos ruim a vida de quem mora longe e tem que usar transporte público para trabalhar. Cada corredor significa milhares de “meias-horas” a mais de sono, milhares de pais que podem estar com seus filhos no final do dia, milhares de cervejas com os amigos no final de um dia de trabalho, sei lá quantas tromboses a menos por menos problemas de circulação.

Em 2014 o orçamento chegou a quase dois bilhões de reais. Para 2019 teríamos dez vezes menos e, mesmo assim, já começaram a morder. Prioridades. Enquanto isso, a mobilidade segue em bandeira amarela.

 
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O não-governo é oficial

O governo Bolsonaro não irá acabar jamais, e por uma qüestão lógica: para acabar, qualquer coisa precisa antes começar. E o governo Bolsonaro não vai começar.

Na versão brasileira do modelo Trump, ou trompical, a paralisia do não-governo Bolsonaro seguirá como estamos vendo até que algum iluminado, ou um grupo deles, consiga chegar a um acordo para consertarem a bobagem que foi eleger um boçal completo para a Presidência da República. O fato da eleição ter sido legítima e democrática nos limites do que temos no Brasil antes agrava do que ameniza o problema.

Para usar mais uma imagem trumpista, o não-governo é aquele menino paralisado sobre o muro em que subiu não sabe como e muito menos vê por onde descer.

Gente para concluir que é fácil resolver não falta. Tivessem razão, Gustavo Bebianno já estaria no chão, em segurança. Mas a edição extra do DOU acaba de rodar sem a exoneração. Se não é possível tirar um ministro fraco, imagina o governo inteiro – por mais não-governo que seja.

(Atualização: o porta-voz da PR comunicou a exoneração do ministro Bebianno em nota à imprensa. Na secretaria-geral da PR ficará o general Floriano Peixoto.)

O espírito de Di Cavalcanti, pintor boêmio que resolvia seus problemas com não contundentes barrigadas, explicou ao país o tamanho do problema que arranjamos. A foto da primeira reunião sob seu mural no Alvorada é autoexplicativa: moleques babacas jactando onipotência com braços cruzados por não terem a mais remota ideia do que fazer com as mãos. Até o paletó que o menino empresta do pai e veste sobre a roupa da escola para brincar de adulto estava lá.

Onyx Lorenzoni não merece comentário. Paulo Guedes, tendo uma reforma da Previdência para entregar, lançou meia-dúzia de balões de ensaio e viu todos serem abatidos. Sérgio Moro sem toga só é levado a sério em redes sociais. Augusto Heleno sonhou em ser o bruxo que reabilitaria os militares depois de trinta anos, mas já percebeu que, perdida a Vice-Presidência, sua vassoura serve no máximo a fazer faxina. Resta o Mourão.

Neste cenário, temos duas alternativas:

1)   Seguir o modelo trompical e o tripé tuítes, paralisia e emergência, lembrando que não temos as notas dos americanos para passar de ano brincando, e que justificar emergência por aqui só através de uma treta séria com PCC ou Venezuela;

2)   Botar um adulto na sala, oficial ou oficiosamente. Sendo oficial, tem que ser Mourão e esperar que ele se comporte com a moderação de vem demonstrando desde a posse. Oficiosamente seria uma junta, não muito clara e, portanto, imprevisível.

No cenário 1, habitat da BolsoFamília e olavistas, Onyx, Moro e Heleno cabem perfeitamente; mas PaGue e equipe pedem pra sair antes de lançar os cheques sem fundos.

No cenário 2 pode ser que PaGue e equipe peçam para ficar até concluírem a reforma possível, seu gol de honra, mas em seguida darão lugar a um grupo de economistas com perfil nacional-desenvolvimentista, mais alinhado aos militares, onde Heleno obviamente teria espaço e algum protagonismo, Moro poderia permanecer sendo obediente, mas a BolsoFamília, ministros olavistas e Onyx Lorenzoni iriam para um chuveiro morno, com choques térmicos de água fria para lembrarem que tudo sempre pode piorar.

 
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Bolsonaro, barriga e furo

No jargão das redações, “barriga” acontece quando uma notícia falsa é publicada, e “furo” quando o jornalista sai na frente de todo mundo iluminando algo que estava no escuro.

Em 2013 a jornalista Andreza Galiego escreveu para o Observatório da Imprensa uma boa definição barriga e furo. Está aqui. Já no primeiro parágrafo faz um jogo de palavras divertido sobre o possível encontro de ambos: “Um furo pode se transformar em uma barriga, mas uma barriga nunca será um furo.”

Estamos em 2019 e definitivamente a regra foi prescrita. Em um mês e meio de governo Bolsonaro, a praxe oficial passou a ser dizer, desdizer, voltar atrás, embolar tudo e, nesse-meio tempo, usar as redes sociais para chamar de barriga o que na verdade era furo. Os casos são tantos que dispensam exemplos.

Trocadilho inescapável para um presidente que acabou beneficiado por um furo na barriga literal, em atentado sofrido durante a campanha, o furo na barriga de Bolsonaro o protegeu de se mostrar ao país em entrevistas e debates justamente quando se tornava conhecido para além das redes sociais.

E aqui chego ao ponto central, me valendo de outra expressão idiomática: comi barriga. Mesmo acompanhando com atenção e dando meu melhor para entender Bolsonaro e seu entorno, não percebi algo que era claro e evidente: suas ligações com as milícias e o crime organizado no Rio de Janeiro.

Ora, a base eleitoral de Bolsonaro é militar. Nasce no Exército, mas ganha capilaridade e força falando à Polícia Militar do Rio de Janeiro, rendendo trinta anos de mandatos consecutivos com gordura para eleger filhos e até amigos que adotassem seu sobrenome.

Hoje, no Brasil, é mais fácil defender o movimento terraplanista do que negar que a corrupção e o crime organizado miliciano andam de mãos dadas com a Polícia Militar do Rio de Janeiro. Há vasto material em reportagens, entrevistas, livros e filmes, cultura de massa enfim, donde emerge uma figura principal, Rodrigo Pimentel, ex-comandante do BOPE, policial honesto que, exausto, pediu para sair da tropa e hoje se dedica a explicar o problema em sua dimensão mais profunda.

Trabalho ingrato. Pimentel é tido como o “Capitão Nascimento” da vida real, título que recusa, em vão, porque o Brasil não entendeu Tropa de Elite. Continuamos achando que o Capitão é um herói, não percebemos que é bandido. Exemplos da falta de reconhecimento há muitos, como provam as eleições de tantos representantes defendendo que “bandido bom é bandido morto”, ou os aplausos ao segurança do supermercado Extra que estrangulou até a morte um rapaz, na frente da própria mãe, colegas e câmeras.

Ainda assim, prefiro acreditar que entre a maioria que escolheu Bolsonaro para presidir o Brasil, grande parte se vê escandalizada, constrangida e arrependida da escolha feita, e agora se perguntam o que fazer.

Entendo os motivos desse grupo e acredito nas palavras dos amigos e familiares que diziam “ah, mas Bolsonaro não vai fazer as coisas que diz”. Isto é, foram avisados sobre os filhos e Olavo de Carvalho, sobre o general Mourão não reconhecer os limites da própria cadeira, sobre os malucos do PSL que hoje formam a maior bancada da Câmara dos Deputados, sobre a fragilidade das relações com Gustavo Bebianno e Paulo Marinho, sobre a dificuldade que Paulo Guedes teria em impor sua agenda sonhadora. Mas não podiam imaginar Damares, Ernesto Araújo, Ricardo Velez e, sobretudo, não podiam imaginar Queiroz.

E então repito que comi barriga. Os discursos de defesa e as propostas de homenagens a milicianos presentes no histórico de mandatos dos Bolsonaro, somados à amizade de quarenta anos com Fabrício Queiroz, multiplicados pela base eleitoral formada por policiais militares fluminenses estavam na nossa cara e eu não vi. Ninguém viu.

Mas é improvável que dois grupos que hoje integram o núcleo duro do Governo Federal também não tenham visto as evidências: militares e Judiciário. Nominando, general Augusto Heleno, general Villas-Boas e ministro Sérgio Moro.

O Exército comandou a intervenção militar no Rio de Janeiro desde fevereiro de 2018, com acesso aos dados de Inteligência. Como poderiam não saber das relações de Queiroz e dos gabinetes de Jair e Flávio Bolsonaro com próceres do Escritório do Crime e milicianos de Rio das Pedras?

A investigação do COAF chegou ao MP-RJ em janeiro de 2018, alimentando a operação Furna da Onça. Vários processos andaram, quatro governadores e muitos deputados estaduais do Rio de Janeiro foram presos ao longo do ano, mas o caso de Bolsonaro e Queiroz só veio a público em novembro. Quem pode imaginar que, sendo desdobramento da operação Lava Jato, os responsáveis pela Furna da Onça no Rio de Janeiro não informavam seus parceiros em Curitiba, principalmente Sérgio Moro?

 
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Geração Chuck Norris chega ao poder

Desde muito novo receio meus contemporâneos que cresceram inspirados em filmes de justiceiros endeusados como Rambo, Dirty Harry, Chuck Norris – este que acabou mais conhecido pela pessoa física do que pelos personagens e hoje é um astro dos memes.

Aqui em São Paulo os efeitos da inspiração foram nocivos – como não poderia ser diferente com uma geração que somou o “sabe com quem está falando?”, comum ao zeitgeist de qualquer ditadura, com as referências culturais de justiceiros protegidos pela autoridade constituída.

Em visita rápida a qualquer delegacia de bairro “nobre” você poderá conferir, freguesa, que meu receio infelizmente se confirmou. Jovens de classe média viraram agentes da Polícia Civil e andam fantasiados como personagens de filme. Usam armas próprias importadas, roupas e relógios de grife, enfeitam as viaturas conforme o gosto da equipe, sem dar bola para o padrão oficial. Aparentemente, nenhum superior pergunta quem paga a conta.

Como tudo sempre pode piorar, membros da geração justiceira tornaram-se protagonistas da chamada “renovação política”. Incluindo gente que defende a ditadura militar, como o próprio presidente da República, a sociedade elegeu dezenas de representantes ligados à segurança pública ou forças militares.

A aprovação democrática dessa turma naturalmente impulsiona as escolhas dos governos para os primeiros escalões. Na Esplanada nunca se viu tantos militares – mas estes não são os exemplos mais eloquentes da geração Chuck Norris. Gustavo Bebianno e Sérgio Moro, sim.

Ontem o Bolsonaro ZeroDois, vereador Cartucho, publicou no twitter um áudio do pai dizendo ao secretário-geral da Presidência Gustavo Bebianno que só trataria a qüestão do laranjal de seu partido chegando a Brasília. Problema: Bebianno havia dito aO Globo que tratara do assunto com o presidente. Isto é: Cartucho afirmou que o ministro mentiu. E o presidente retuitou endossando, deflagrando o processo se fritura. Ou, como dizem os policiais milicianos de Rio das Pedras, Bebianno foi mandado para o microondas.

Mostrando que é um baluarte da geração Chuck Norris, o ministro Bebianno, nascido em 1964, respondeu com uma frase do Coronel Trautman sobre seu pupilo Rambo: O que eles chamam de inferno, eu chamo de lar. Faca nos dentes.

Bebianno, que presidiu o PSL durante o contrato de locação eleitoral, conhece as entranhas da campanha que elegeu Bolsonaro. E tudo leva a crer que guarda outras duas frases do Coronel Trautman para uso eventual. “Se resolverem enfrentar Rambo, não se esqueçam de uma coisa: levar muitos sacos para mortos”; e, perguntado se achava que Rambo era Deus, respondeu assim: “Não. Deus costuma ser piedoso.”

Outro exemplo é Sérgio Moro. Com tenros 45 anos, o garoto de Maringá ganhou projeção internacional como juiz da 13a Vara em Curitiba. Chegou a ser dito herói nacional por enfrentar poderosos. Com mão pesada, acertou muitas vezes, errou outras tantas, mas deixou saldo positivo.

Ao trocar oficialmente a magistratura pela política, porém, parece ter endoidecido. O paladino de outrora deu lugar a um bagre ensaboado que escorrega toda vez que é chamado a se posicionar sobre suspeitas envolvendo colegas de ministério ou membros do partido e da família do presidente Bolsonaro. E a frustração que vem causando é proporcional à expectativa que alimentou.

De novo, como tudo pode piorar, é ao responder sobre os próprios atos que o ministro Moro mostra ter o DNA do “sabe com quem está falando?” Requerido a responder se teve ou não reunião com representantes da indústria bélica Taurus antes de assinar o decreto sobre armas, respondeu oficialmente dizendo que não responderá por tratar-se de assunto privado e pessoal. Pois é. Ao requerimento eu acrescentaria pedido sobre o inteiro teor da audiência que a advogada Rosangela Moro, mulher do ministro e representante de indústria farmacêutica, teve com o atual ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta durante o governo de transição.

 
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