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Delfim em forma

Delfim Netto está em plena forma. Aos noventa anos pensa e escreve como se estivesse na flor da idade, digo, saindo da academia ou no máximo entrando no ministério da Fazenda do ditador Costa e Silva, isto é, com a cabeça em 1968.

Grande frasista, a favor do aumento da produtividade o Professor anotou na Folha do 15 de agosto:

“Um agricultor com uma enxada é mais produtivo que sem ela. O que é enxada?

Um dia, um agricultor inventivo e habilidoso deixou de plantar milho e aplicou a sua inteligência e o seu trabalho para forjar uma lâmina de metal à qual se associou um cabo de madeira. “Congelou” o seu trabalho num bem de produção (a enxada). Reproduzido, ampliou a produtividade de todos.”

Vá lá que em 1968 a humanidade já estivesse muito além da enxada, mas vamos dar um desconto. Porém em 2018 é preciso avisar ao Professor que nos salões do agronegócio só se fala em tratores sem tratorista e drones que passam o dia na lida.

Na indústria não é diferente e hoje, n’O Globo, a Cora Rónai contou a história do casal de camareiros Cleo e Leo que a atenderam num hotel em Chicago. Encantada com o serviço, inventou necessidades para ser atendida. Escova de dentes num dia, sabonete no outro. E não foi a única. Na recepção confirmaram que desde o ingresso do casal o consumo supérfluo de itens básicos disparou. Ainda assim, todo mundo continua com apenas um corpo e no máximo 32 dentes para lavar, donde podemos prever que a alta tem limite. Ah, já ia me esquecendo de contar: a Cleo e o meu xará são robôs.

O que eu gostaria de dizer, Professor, é que o mundo mudou e não haverá mais oferta mão de obra. Que o estoque de capital de enxada passou a robô, e prescinde do trabalhador para produzir. Mas vai continuar dependendo do consumidor para funcionar. Ocorre que este, sem trabalho, não terá renda. E assim a economia para e o robô enguiça.

Não por acaso lá nos Estados Unidos a produtividade voa e a remuneração da mão de obra manca, numa diferença que chega a ser maior que dez vezes em alguns setores. Para manter o pleno emprego e a economia funcionando eles rasgaram o Protocolo de Kyoto e insistem em consumo desenfreado, o que obviamente não é sustentável. Quem está pagando a conta? O resto do mundo.

A equação é simples, Professor, e nem precisa de tabela: o modelo de produção e consumo americano ou chinês, que garante pleno emprego para 1,7 bilhões de pessoas, se ampliado para sete bilhões de pessoas, explodiria o planeta. A concentração de renda no chamado 1% já passou do estado de emergência. E com as novas tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos. O que fazer?

(Entendo que lá nos anos 1960 a expectativa de vida era de 48 anos e o senhor já está com quase o dobro disso e em plena forma. Mas como estaria se trabalhando no cabo da enxada?)

Também não por acaso, pessoas que têm dimensão do problema, de Davos a Porto Alegre, começam a considerar e testar a possiblidade da Renda Básica Universal. São elas: Mark Zuckerberg, Ellon Musk, Richard Branson, Barack Obama, Fernando Henrique Cardoso, Monica de Bolle, Marina Silva, Eduardo Jorge e, sempre, Eduardo Suplicy. Junte-se a nós, Professor.

 

 
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A marajá do Bolsonaro

Não chega a ser marajá, mas Walderice Santos da Conceição, também conhecida como Wal do Açaí, até ontem era funcionária do gabinete do deputado Jair Bolsonaro, e pelas contas da Folha de São Paulo recebeu, desde janeiro, R$ 17.240,00, sendo que, em pleno horário de expediente da Câmara Federal, atendia no balcão de sua loja e, nas horas vagas (ou não), dava água para os cães que o deputado diz ter abandonado em Angra dos Reis: “Tem dois cachorros lá e para não morrer de vez em quando ela dá água para os cachorros, só isso. O crime dela é esse aí, dar água pro cachorro.”

Falso. Ou por outra: o crime dela pode ter sido esse, mas a falta do deputado é de compromisso com o Erário. Logo Bolsonaro, crítico feroz do Bolsa Família e outros programas de transferência de renda e equilíbrio social, acha normal que todos nós paguemos o salário de quem dá de beber aos cachorros que ele abandonou.

Não é o único caso. Tercio Arnaud Tomaz, segundo O Globo, trabalha produzindo vídeos para a campanha de Bolsonaro mas quem paga a conta (R$ 3.641) é o Rio de Janeiro através do gabinete de um dos seus filhos, o vereador Carlos Bolsonaro.

Bolsonaro tem impressionado grandes empresários por não pedir doações para sua campanha e prometer ruptura com o modelo político vigente. Quem sabe, pelos exemplos acima, eles descubram que já estão pagando a conta e que o deputado usa e abusa do modelo político vigente.

 
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Marajá apoia Collor

Na eleição de 1989 Fernando Collor do então PRN saiu de Alagoas para se apresentar ao Brasil como “o caçador de marajás”. Com menos da metade do tempo de TV disponível a Ulysses Guimarães do então PMDB, 10 minutos contra 22 respectivamente, foi ao segundo turno e venceu Lula. Nota: no primeiro turno Collor teve 28% e apenas 16% foram suficientes para Lula passar de fase. Coisa de eleição fragmentada.

Naquele primeiro turno o estreante PSDB chegaria em quarto lugar com Mario Covas que, na definição de apoio no segundo turno, bateu o pé, deu uns berros e garantiu que os tucanos se alinhassem contra Collor – apoiando Lula.

Hoje o candidato do PSDB é Geraldo Alckmin, que repete sem parar pertencer à escola Covas. Há fatos para sustentar a afirmação. Mas isso não quer dizer que ele tenha ido a todas as aulas, como prova o apoio do PSDB a candidatura de Collor ao governo de Alagoas. Covas deve estar muito, muito aborrecido.

E esse não é o único conflito no balaio geral que viraram as composições. Nos anos 1980 a hoje senadora Ana Amélia, vice na chapa de Geraldo Alckmin, teve cargo comissionado no gabinete do marido, o falecido senador Otávio Omar Cardoso, ao mesmo tempo em que trabalhava numa rede de televisão. Ela se defende dizendo que dava conta dos dois empregos. Acredite se quiser. Mas o Collor de 1989 provavelmente a colocaria na lista da caça aos marajás.

 
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A narrativa do exagero

Há uma técnica narrativa que o vulgar chama de “vamos para as cabeças”. Quer dizer, na beira do precipício você começa a sapatear na esperança do arrepio geral que acalma a todos.

O mito Zé do Pé teve uma assim com o delegado Nerval Ferreira Braga. Chegou à casa do amigo e disse que queria matar fulano. O Nerval obviamente tentou até onde pôde tirar a ideia da cabeça do Zé. Gastou saliva e quase um litro de uísque. Mas não tinha jeito. “Xerife, vou matar o canalha!” Daí o Nerval foi no quarto, pegou um revolver e entregou ao Zé – que com o ferro na mão desistiu na hora da ideia.

A aposta é arriscada e nem sempre tem êxito, como prova a presença do fio-dental nas praias e banheiros de restaurantes. A civilização já estava contemplada com o biquíni comum e fio-dental em casa. Mas algum reaça teve a ideia de radicalizar achando que poderíamos retroceder. Deu ruim. Há fio-dental para todo lado.

Anteontem quando o Supremo votou o aumento dos salários dos próprios membros, e com a consciência do efeito em cascata sobre os demais numerários dos funcionários públicos, fiquei com essa sensação. Só podem estar querendo um levante, seja do Congresso, seja da sociedade.

Outro exemplo que me ocorre é o do menino que esparrama projetos de armas de fogo que podem ser fabricadas em impressoras 3D. Parece loucura mas funcionou a ponto de obrigar os defensores do liberou geral a reconhecerem a necessidade de limites para o direito constitucional dos americanos possuírem armas.

Por fim, resta o cabo Dacioclo. (Para não falar do Alckmin apoiando o Collor – Covas deve estar revirando na cova.) Pena o debate da Band não mostrar os pés dos candidatos. É muito divertido ver o cabo batendo o pé direito para pontuar suas frases em nome do senhor. Para mim tem todo jeito de candidatura auxiliar. Só não sei a quem ele serve melhor. Digo, se foi ideia de alguém que queria dividir os votos do Bolsonaro, o tiro pode ter saído pela culatra. Se foi ideia do Bolsonaro ou do Paulo Guedes, a aposta foi arriscada, e melhor seria usar um tempo extra no horário eleitoral da televisão.

 
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Antiguidade é posto (Ipiranga)

Para os militares, antiguidade é posto. Isto é, para além da hierarquia, o tempo de serviço conta para definir quem manda e quem obedece.

Jair Bolsonaro é ex-capitão porque foi convidado a se retirar das Forças Armadas por mau comportamento. E o general Mourão, candidato a vice em sua chapa, mesmo com mal comportamento só foi transferido de lá pra cá, de cá pra lá, jamais expulso. Mesmo recentemente quando, em clara afronta à Constituição, sugeriu intervenção militar, mais que perdoado foi elogiado pelo chefe como bom “soldado”.

Tenho muitos amigos na reserva, alguns há décadas, e todos eles, sem exceção, continuam tratando os superiores como superiores.

No começo da semana Bolsonaro esteve na Firjan e disse que Mourão seria seu ministro-chefe da Casa Civil. Perguntado se cabe um militar na Casa Civil, Bolsonaro “exonerou” o general.

Então o general Mourão, em entrevista, disse que o brasileiro herdou a indolência do índio e a malandragem do africano. Infeliz. Mas se um ex-capitão relativa a escravidão, um general não pode ficar por baixo. E ficou mesmo por cima. Bolsonaro declarou que cada um responde pelo que diz.

E o posto Ipiranga da economia Paulo Guedes (PaGue) deixou claro como fazer para conseguir apoio parlamentar. Diálogo? Não. Convencimento? Também não. Canhões? Ainda não. Como, então? O bom e velho toma-lá-dá-cá. [""O sujeito que for eleito lá em São Paulo, vai precisar conversar com o Jair. É daí que vem a governabilidade. Seja o [Paulo] Skaf, seja o [João] Dória, vai sentar com ele e falar: ‘Ô Jair, eu estou lá em São Paulo, é como se fosse uma Alemanha. Me dá um recurso aí para eu para eu atacar o problema de saneamento, saúde, educação’. O Jair vai: ‘Então me apoia aqui também. Me dá governabilidade. Apoia o meu programa. Se eu fizer essa reforma, economizar aqui, cortar aqui, etc, eu consigo mandar recurso para você’”, declarou o economista.”]

 
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O rei de Curitiba

Lula diz que Fernando Haddad está em “estágio probatório” e reafirma: “o candidato sou eu”.

Luís XIV disse “o Estado sou eu”, e ficou conhecido como Rei Sol. Luiz Inácio ficará conhecido como o Rei Sol Quadrado.

Sem medo de ser feliz foi o slogan de uma das campanhas de Lula. Haddad, submetido a tal vexame, poderá adapta-lo para “sem vergonha de ser feliz”.

A distância não existe – Haddad e João Amoedo, que já concordam sobre vouchers como solução para Educação, ficam ainda mais próximos quando repetem a Luiza Erundina de 2016 prometendo ir à Justiça para garantir presença nos debates entre os presenciáveis. O primeiro é amanhã, na Band. E a regra é clara: só participam os candidatos cujos partidos ou coligações com bancada de pelo menos cinco deputados federais. A rigor Haddad não é candidato, e o partido de Amoedo não existe na Câmara Federal. Mas a regra, que segue o conceito da cláusula de barreira, fundamental para melhorar a democracia… ora, a regra…

Xadrez padrão Lula - A Veja nos diz que Lula melhorou nesses cem dias de prisão. Faz esteira diariamente e ouve canto gregoriano. O debate sobre o caótico sistema carcerário brasileiro deveria se pautar por este padrão. Padrão Lula.

 
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Quiprocó

Geraldo Alckmin chamou Angélica de Eliana no evento sobre governo digital organizado por Luciano Huck. É chato, mas não chega a ser grave. No máximo, não será convidado para um passeio no Joá, mesmo tendo se desculpado sem mais delongas.

A memória é traiçoeira para qualquer pessoa, notadamente para candidatos que vivem cheios de dados e nomes na cabeça. Uma técnica comum é usar associações para organizar as informações. Por exemplo: governo digital, impressão digital, dedos, dedinhos.

Pois é. Muito frequente, mas não infalível.

Sobre o evento em si, ao qual também compareceram Marina Silva, Henrique Meirelles, Guilherme Boulos e João Amoedo, segundo a cobertura do G1 pude concluir que o conjunto de propostas caberia num disquete. Ou por outra: se rolasse num grupo de WhatsApp seria mais sustentável e teria a mesma eficiência.

Nada de novo, tudo mais ou menos igual. Dignos de nota só próprio Geraldo Alckmin, que exultou as PPPs, e Guilherme Boulos, que lembrou a importância do Estado em desenvolvimento tecnológico.

 
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Convenções e chapas 2018 – análise TUEL | Consultoria Política

Convenções realizadas, chapas praticamente definidas – porque a rigor o prazo é 24h além último dia para convenções, isto é, hoje, mas há, como sempre, interpretação plural da lei e, portanto, na prática a coisa pode rolar até 15 de agosto, prazo para registro das candidaturas.

Para as gerais Lula não largou o osso e vai buscar as negativas da Justiça até a última instância, e só então avisar que seu preposto é Fernando Haddad. Combinaram com o PC do B que até lá Manuela D’Ávila aguardará no banco. Cenário no mínimo curioso. Se Haddad ascender (ou acender, tanto faz), em 2019 poderemos ter um presidente da República que vai regularmente a Curitiba despachar com um presidiário.

Jair Bolsonaro aguardou Janaína Paschoal no altar mas a noiva deu o cano, assim como o astronauta e o príncipe. Acabou ficando com um colega de caserna, o general Mourão, aquele que propunha intervenção militar e xará daquele que começou o golpe de 1964. Outro cenário curioso. Militares tendem a respeitar hierarquia. Capitão obedece general. Esta equação, com o histórico de golpes do Brasil e das Forças Armadas, sendo o general notória vivandeira alvoroçada, superior ao capitão e ainda vindo de um partido mais conhecido pelo Aerotrem, que em São Paulo virou Fura-Fila, tirem suas conclusões.

Marina Silva chegou a cogitar o ator e produtor rural Marcos Palmeira para a vice, mas acabou fechando com médico Eduardo Jorge, do PV. Ganhou o mínimo de tempo de televisão para se tornar competitiva e um equilíbrio ideológico sui generis. Nenhuma outra chapa é tão igual e tão diferente. Ambos foram do PT mas saíram a tempo. Ambos foram para o PV, de onde ela saiu para fundar a Rede e ele permanece. Ambos são conhecidos como ambientalistas. Ambos já disputaram a Presidência da República e têm bom recall. Ambos têm experiência no Legislativo e no Executivo mas não tem a cara da velha política. Ela é do Acre mas tem pinta de cidadã do mundo. Ele é baiano e fez carreira em São Paulo. Ela é progressista na vida pública e conservadora na privada. Ele é completamente progressista. Ela é de trato difícil. Ele é o gente-fina mor, campeão dos memes em 2014, foi secretario de Erundina, Marta, Serra e Kassab. Incluindo Marcos Palmeira, o trio forma a única chapa que fala para além do seu quadrado, notadamente o eleitorado feminino, que representa 52% do total de votantes e dos quais 80% ainda não tem candidato ou pretende votar branco ou nulo.

Ciro Gomes, que prefere ter razão do que ser feliz, ficou sozinho no PDT. A seu lado perfilou-se Katia Abreu, aguerrida ruralista e ex-presidente da CNA que se desentendeu com o agronegócio quando virou a melhor amiga de Dilma Rousseff. Foi candidata ao governo do Tocantins nas eleições suplementares de junho e acabou em quarto lugar mesmo tendo o apoio de Lula. De temperamento forte, chegou a atirar uma taça de vinho no senador José Serra por conta de uma piada inadequada, o que não ajuda a amenizar a deficiência mais destacada em Ciro. Do mesmo PDT de Ciro, não agrega um segundo de TV nem um centavo de fundo eleitoral. Parece antes um mandacaru de espinho, que não dá sombra nem encosto, do que postulante a vice.

Geraldo Alckmin escolheu Ana Amélia do PP para representar o Centrão. A ideia é usar a popularidade da gaúcha direitista para recuperar os votos que migraram para Bolsonaro e Álvaro Dias. Aposta arriscada. Se der certo no primeiro turno, o foco no Sul conservador pode custar caro no segundo turno, quando o Nordeste, os lulistas e o eleitorado moderado passam a ser fundamentais. Ana Amélia é mais um perfil curioso. Histórica defensora da ditadura militar e com vapores nacionalistas, apoiou a comunista Manuela D’Ávila do PP para a prefeitura de Porto Alegre.

Álvaro Dias do Podemos se juntou com Paulo Rabello. Num retrato falado o mesmo desenho serviria para os dois. O discurso também é gêmeo. Juntos com os banqueiros Henrique Meirelles do MDB e João Amoedo do Partido Novo o trio forma a grateia que pode encalhar o crescimento de Geraldo Alckmin, previsto para quando a propaganda começar nas cidades (16/8) e na televisão (31/8)  – se o tucano vai caçar os bolsonaristas, os liberais caçarão os alckmistas.

 

 
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Soldadinho pira

O rei da simpatia e do alto astral Nelson Motta festejou hoje n’O Globo o Dia Internacional do Orgasmo, lembrando da sua importância para a democracia.

Ele questiona: “Quanto estresse, intolerância e violência nascem da frustração sexual? De quanta raiva, inveja e ressentimento seríamos poupados cada vez que alguém, pobre ou rico, branco ou preto, homem ou mulher, crente ou ateu, tivesse um bom orgasmo?”

A História prova que Nelsinho tem a dúvida exata.

Há cem anos, depois de sobreviver à primeira Guerra Mundial, o mundo resolveu gozar. Foram os anos vinte, os anos loucos. Paris era uma festa. Ao piano o Cole Porter insistia: façamos, vamos amar. Assista aqui ao resumo do Woody Allen.

Para a aristocracia entediada nos castelos do interior da Inglaterra era um deleite. Para o proletariado sufocado nas periferias poluídas, brisa. E a Rive Gauche subia o tom do batuque.

Ocorre que nem todo mundo gosta, ou gosta mas não abre. Parte da burguesia e da classe média que prosperara com a revolução industrial queria manter o status. Minha casa, minha vida, Maria Alice e as crianças. Saias para as meninas, calças para os meninos, cerca branca, grama verde e cada macaco no seu galho. Isto é, branco com branco, preto com preto, oriente-ocidente, norte-sul, homens no trabalho ou no bar, mulheres em casa ou na igreja e por aí vai.

Então surge na Áustria um soldadinho exemplar que não bebia, não fumava e, na definição do Nelsinho, era “impotente, gay enrustido, sexualmente frustrado” e prometia organizar a sociedade ao modelo do parágrafo anterior. Teve apoio, foi eleito e deu no que deu: Holocausto e outra Guerra Mundial.

A História é assim. Estica e puxa. Mas é inegável que avançamos. O jeito bom de olhar o lado ruim é lembrando que a gritaria reacionária é sempre proporcional ao avanço.

Para ficar no exemplo das mulheres: criamos leis, delegacias especiais, cada vez mais elas são donas dos próprios narizes, dão para quem quiserem mas não dão para qualquer um (obrigado, Leila). E é aí que os soldadinhos piram e reagem com força. Mundo afora querem um Hitler para chamar de presidente. Esta freguesia sabe de quem se trata e pode notar: o voto deles é essencialmente masculino.

A notícia alvissareira para nós brasileiros é que o mulherio tem maioria eleitoral e está de olho nas candidaturas. Avante! Pode gozar à vontade, mas até outubro convém evitar a gritaria.

 
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O Brasil é o Pará do mundo

Um amigo querido dedicou-se a abrir uma fazenda de gado no Mato Grosso do Sul. Procurou a melhor terra, preparou a infraestrutura de modo a prescindir de mão de obra e livrar ao máximo reparos de manutenção, respeitou declives, cursos d’água, matas ciliares e capões. Plantou e ainda planta mais aroeiras, sua paixão.

Demorou, mas ficou um camafeu. Mais diretamente, um peão sozinho dá conta de engordar até dez mil bois. Ganha acima da média, mora com a mulher numa casa melhor que a do dono da fazenda, usa caminhoneta japonesa.

Sendo bom peão, recebeu uma oferta de emprego onde ganharia mais, teria uma casa maior e uma caminhoneta igual só que zero quilometro. No Pará. Aceitou.

O círculo de Gini

Na demissão meu amigo o parabenizou mas advertiu: “Tem certeza? No Pará a coisa é diferente. Vão botar revolver na sua cara, mexer com a sua mulher…” Em vão. Seduzido pelos bens de consumo, o bom peão partiu.

Seis meses depois pediu penico. E ganhou. Voltou e está feliz da vida enfurnado lá no MS. Conheço a propriedade e confesso que às vezes sonho com a vida que ele leva.

A relação do Brasil com o mundo civilizado é parecida. Aqui o rico acha que vive bem. Considera chique ter carro blindado, segurança armada, viver em cidadelas medievais muradas, ter vassalos às ordens, hospital com hotelaria cinco estrelas, não pagar imposto sobre avião, iate, herança, lucros e dividendos. Seus filhos podem brincar nos condomínios fechados a cem quilômetros de distancia e, quando chegam na idade de conhecer uma calçada, vão a Paris (antes disso só Miami ou estação de esqui).

Sei não, mas acho que, para tirar o Brasil dessa miséria, a gente tem que cuidar primeiro dos ricos. Se a vida deles não melhorar no cotidiano, nunca haverá sociedade.

 
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