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O PT venceu

Etiqueta às favas, o senador eleito Cid Gomes foi à casa do PT e, de um altar cercado pro dezenas de fiéis, meteu o dedo na ferida, cobrando autocrítica dos anfitriões. Ato contínuo, veio a reação dos devotos que não admitem a possibilidade de nosso senhor padim Lula ter pecado.

Os desdobramentos do bate-boca circularam em vídeo o bastante para dispensar descrição. E continuou nos bastidores. Jacques Wagner, que anteriormente chegou a defender que a chapa ideal era Ciro presidente e Haddad vice, trucou. Perguntado sobre a possibilidade da chamada frente democrática, devolveu com ironia: “Que frente?”

Gleisi Hoffmann, senadora reeleita, foi ainda mais longe, dizendo acreditar que quem tem um terço dos votos não deve pedido de desculpas. E deixou escapar que sua expectativa era que a união democrática contra Jair Bolsonaro se desse por gravidade.

É muito provável que o Newton jamais tenha conversado com uma maça, convencendo-a de cair sobre sua cabeça. Ocorre, que, diferente da física ou da biologia, a política é ciência humana.

Gleisi combina com o general que Bolsonaro convocou para cuidar da Educação, defendendo revisionismo histórico e ensino do criacionismo nas escolas. Para eles, quem move a maçã é a serpente. E tanto faz que a serpente esteja lá no Butantã de Curitiba. Se 30% querem comer a maçã, a luta continua, seja para matar ou para salvar a serpente.

E Fernando Haddad enquanto isso? Segue cada vez mais tucano, abusando dos punhos de renda. De possível poste de luz, passou a poste de trancar bicicleta.

Fato é que o PT venceu. Como todo mundo que rejeita Bolsonaro é esquerdista, a chance da frente democrática se encontrar passa pela máxima do Gal Mourão, anotada pela repórter Andrea Saddi, da Globo News: “A esquerda só é unida na cadeia, porque é obrigada a andar junta. “

 
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Jair e José: feitos um para o outro

Jair e José foram feitos um para o outro.

Ontem pela manhã, após visitar o Bope, provando que a fuga dos debates é por deficiência moral, não física, Bolsonaro disse em entrevista a uma rádio de Barretos-SP que seu objetivo é fazer o Brasil voltar a ser o que era “há quarenta, cinquenta anos”.

Música para os ouvidos de José Dirceu, que em 1968 era o galã carbonário da rua Maria Antônia e deve sentir uma saudade tremenda.

Por música para Dirceu entendam tiro, porrada e bomba. Quem lembrou de Geraldo Vandré pode voltar a vaiar o Chico e o Tom por Sabiá. Aliás, turba para vaiar o Chico é tudo o que Bolsonaro mais quer.

Desde 2010 eu acho que a gente deveria ter virado a página de 1968. Cheguei a sugerir, mas não teve jeito. Concorreram Dilma Rousseff e José Serra, ambos de 1968.

Oito anos depois, continuamos condenados ao mesmo debate. Jair finge que não gosta, mas até seus fãs sabem que ele não teria outro tema para batucar. E José agradece, porque o apelo histórico, tão caro à sua biografia, chama os holofotes.

Seguimos assim. Igual a tudo na vida, tem o lado bom, que é o choque de realidade. Já conhecíamos os protagonistas do festival de sandices, mas não imaginávamos que no sofá, nos encontros de família, ao nosso lado, havia gente disposta a tolerar o intolerável. Por outro lado, gratas surpresas. Um parente mais conservador, que defensor da moral conservadora, em privado se mostra cristão pra valer e diz que não vota em quem elogia tortura.

Enquanto isso, os dois depositários da confiança nacional do que derivou de 1968, Lula e FHC, qual Jair e João, seguem mais preocupados com as próprias biografias.

O primeiro, que surge nacionalmente num efeito retardado com dez anos de atraso, no final da década de 1970, podia ter cedido já no primeiro turno, ajustando seu poder à conjuntura, mas preferiu desfilar a capacidade de, mesmo preso, embrulhar a eleição.

FHC, na Europa, espera receber em duas semanas vinte anos o que tem a haver com o PT. Mesmo sendo amigo pessoal e geneticamente mais pai político de Fernando Haddad do que o próprio Lula, deixa estar.

Pena é o Fernandinho, que em 1968 contava cinco anos de idade, seguir obediente à época esperando os mais velhos saírem do fumoir com um acordo. Não consegue vestir calças compridas. Não percebe que tem não um, mas dois Sérgios Motta no Ceará, prontos para meter o pé na porta.

Por trás do pano, general Mourão, recém casado, aproveita a lua de mel observando os delinquentes, a espera da desculpa derradeira para acionar as esteiras do Aerotanque, como fez o Mourão ainda mais antigo, aquele de 1964.

 
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O NOVO tucano

Se o PSDB pode aprender com seus erros históricos já não é a questão. Reflexão teórica é sempre bom, mas o partido chegou a um ponto em que a questão é prática: adianta?

Geneticamente parecido com o PT e diferente do malufismo, a estratégia tucana de ascensão e exercício do poder foi procurar se distanciar do parente escandaloso, topando passar as datas festivas em companhia dos conservadores que recusavam Maluf, a autointitulada Frente Liberal.

A recíproca petista foi igual. Acentuaram a gritaria deixando prevalecer o lado mais histriônico da legenda, que usou e abusou da narrativa “primo pobre, primo rico”, só aliviando na hora H eleitoral.

O ambiente chegou a um ponto de Caim e Abel. FHC estabilizou a economia, fez a maior reforma agrária, começou os programas de transferência de renda, universalizou o ensino. Lula promoveu acesso a bens de consumo, melhorou a infraestrutura nos sertões, consolidou o Bolsa Família, criou o FIES. E mesmo assim, Lula insistia na herança maldita de FHC, que respondia com ironia e não era defendido dentro do PSDB.

No meio do caminho ocorre um evento determinante: o ocaso malufista, baseado em corrupção. Seus órfãos, vexados pela falta de argumentos contra os fatos, jamais pelas ideias atrasadas de doutor Paulo, perfilaram-se aos tucanos não pelas ideias do partido, mas contra o PT.

Inebriado com o adesismo, o PSDB se deixou seduzir, cedendo dia após dia às agendas dos agregados por pura conveniência. Foi de colher para a parentada petista, que em festas cada vez mais distantes, caprichavam em maldizer  o “primo rico”, associando os “primos pobres” à virtude, à ética, combate irrestrito à corrupção.

Nessa guerra fratricida, PT e PSDB passaram a privilegiar as caríssimas máquinas eleitorais, deixando em segundo plano o trabalho de pactuar com a sociedade suas razões de ser. Sabemos como acabou. Todo mundo difamado ou em cana, junto com o Maluf.

E os malufistas, o que fizeram? Resgataram o discurso moral de três, seis ou até dez décadas passadas, invariavelmente recheado de ameaça comunista e combate à corrupção, ora enfeitado com o chamado liberalismo econômico que nenhum deles compra de verdade, porque detestam o Estado desde que sejam mantidos os privilégios que consideram direito adquirido.

Na eleição de 2018 essa turma se dividiu, basicamente, entre Bolsonaro e partido NOVO. Como Bolsonaro não tem agenda nem partido, é impossível identificar um sentimento comum entre seus seguidores para além do ódio ao PT.

Já o NOVO, gestado ao longo de anos e até com excesso de zelo programático, ao subir no muro neste segundo turno, atacando a candidatura petista sem dedicar as mesmas críticas a Bolsonaro e seu estatismo, corporativismo, nacionalismo e intolerância, que em teoria o NOVO repudia, mostra que, além do eleitorado do PSDB, absorveu também os vícios. Sabemos como acaba.

 
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Código coelho: relato pessoal sobre a ditadura militar

Cresci com um código de alarme na cabeça: Coelho. Numa situação de risco, eu deveria tentar telefonar para minha mãe e dizer: Coelho.

Continuo sendo um tipo privilegiado. Mas quando criança talvez fosse mais. E com efeito, era mais ameaçado, por estar na berlinda.

Minha mãe trabalhava no cerimonial do Palácio do Governo desde o período Paulo Egydio Martins, um dos melhores governadores do estado de São Paulo. Passou por Paulo Maluf e José Maria Marin, até que o voto direto para governador voltou e meu tio-avô André Franco Montoro foi eleito. Mas ainda era ditadura militar.

Aqui em São Paulo a resistência de quem não queria perder o poder sem limites era enorme. E por continuar dentro do governo, onde já era conhecida, ela sofria ameaças veladas ou diretas.

Por algumas vezes, sem entender por que, na saída da Escola Nova Lourenço Castanho quem estava me esperando eram policiais à paisana. Só mais tarde fui entender o motivo: ameaças identificadas como reais vindas de grupos paramilitares que davam suporte à ditadura.

Tais grupos são o pior da ditadura. Não é o presidente, mas como a mensagem que ele passa chega na base.

Minha mãe, aparentemente, até hoje não superou o trauma. Chora copiosamente quando a lembrança vira assunto. Neste momento está chorando.

Ocorre que por conta de discursos que negam o período, como o do candidato Jair Bolsonaro, voltamos a falar sobre. É muito duro. E inevitável. A chance de ele ser eleito é real.

Sim, Lula defendeu a expulsão de um jornalista americano que comentou sobre seu etilismo. Sim, José Dirceu ordenou suas hordas a apedrejarem Mario Covas. Sim, uma amiga jornalista ficou detida pela PF sem direito a telefonema na apuração do mensalão. Sim, o caso Celso Daniel é um absurdo.

Mas Lula está preso e o jornalista não foi expulso, por obra do Marcio Thomaz Bastos, que acalmou o chefe. Mario Covas saiu pela porta da frente, levou pedrada, porém não se curvou ao autoritarismo de José Dirceu. Minha amiga segue fazendo jornalismo de primeira linha e cada vez melhor. E a conclusão do caso Celso Daniel continua intragável.

Meu ponto é este: o PT aparenta ter desejado um governo autoritário. Por quê não fez? Porque não pôde. Jamais poderá.

A mesma coisa não posso dizer dos autointitulados “profissionais da violência” Jair e Mourão. Ainda no ano passado, perguntado sobre o problema da Saúde, questão central para o povo brasileiro, Bolsonaro falou de sua defesa da não comprovada “pílula do câncer” e cravou: “Sou capitão do Exército. Minha especialidade é matar, não é curar ninguém.”

Não sei o que seria de mim agora velho num governo de um tipo assim. Nos últimos anos critiquei o PT dia sim outro também. Na maior parte da vezes fui contra, mas quando achei que acertaram, elogiei. Como será o amanhã? Quando criança, tive proteção. Hoje, não teria. Nem aceitaria.

Cogito sim votar em Haddad contra Bolsonaro. Mas o prazo para ele dizer, mais do que demonstrar, com todas as letras que não é parte desse PT sórdido, está acabando. E se não deixar bem claro, demonstrando na prática, já neste começo de semana, pode entregar a história ao José Dirceu, que está babando por uma revolução.  Nada garante que Haddad terá êxito – até pelo contrário. Mas ele tem a obrigação de acenar, e não o contrário, como sugerem alguns de seus apoiadores.

 
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Haddad no cadeirão

Digerir o resultado do primeiro turno não foi fácil. Azia brava. Mas é a democracia e fora dela voltaremos à inanição crítica que imperou na ditadura militar e que até hoje nos impõe consequências.

Isto posto, a alternativa que resta é enfrentar a má digestão votando contra o candidato que faz apologia da ignorância, ataca o pensamento crítico e, assim sintonizado, não reconhece o horror da ditadura militar a ponto de elogiar torturador e perseguir minorias, escandalizando até a extrema-direita mundo afora.

Para sobreviver, terei que almoçar Fernando Haddad, que apesar de não ser minha preferência, individualmente não me incomoda no prato. Já os acompanhamentos, são intragáveis.

Por conta das traquinagens que fez no primeiro turno, bancando o boneco de ventríloquo, poste, advogado, assinando um plano de governo recheado de bílis, chegando ao segundo turno foi recusado à mesa dos adultos. Eleitoralmente falando está mais alto do que os derrotados. Só que este “mais alto” significa o cadeirão destinado às crianças até que demonstrem saber se comportar.

Ciro Gomes foi para a Europa namorar e só volta na quinta-feira. FHC também. Torcida? Que o Velho Continente, palco do acordo de paz mais importante do século passado, os inspire.

Marina Silva foi para o mato. Eduardo Jorge aguarda posição do PV. Henrique Meirelles, depois da fono, planeja carreira de Youtuber. Katia Abreu, calejada pela segunda derrota em um ano, toca o berrante. Geraldo Alckmin só consegue lamber as feridas (nas costas, o que é um feito).

Enquanto isso Haddad ficará no cantinho do pensamento. Fez alguns gestos para mostrar que entendeu o recado. Afastou José Dirceu e Sérgio Gabrielli de sua campanha, tirou Lula e o vermelho do PT do santinho. Passou a destacar o papel de seu avô como líder da igreja Ortodoxa e o enraizamento católico do PT – ambos verdadeiros.

Dizem que é charla para ganhar sobremesa. Pode ser. Mas do outro lado acontece a mesma coisa. Bolsonaro agora propõe 13º para o Bolsa Família, ampliação do Minha Casa, Minha Vida, contemporiza as com minorias que sempre achincalhou. Irá reconhecer, assim como os próprios ditadores, que houve ditadura militar? Que pagar a cuidadora dos seus cães com dinheiro público é corrupção? Passará a respeitar o trabalho da imprensa?

E Haddad? Reconhecerá que o PT tem muita responsabilidade sobre o caldo social entornado? No discurso do nós contra eles? Que no angu das ditaduras os caroços cubano e venezuelano ou nicaraguense não podem ser escondidos? Que houve mensalão e petrolão? Passará a respeitar o trabalho da imprensa?

A ver. Fernandinho, anota aí: é isso ou passar os próximos anos condenado ao babador.

ATUALIZAÇÃO: Entre as figuras importantes deste segundo turno está o deputado federal Onyx Lorenzoni, do DEM, já anunciado como ministro-chefe da Casa Civil de um eventual governo Bolsonaro. Delatado pela JBS por ter recebido R$ 100 mil reais para quitar dívidas de campanha, admitiu o caixa-dois, chorando. Gesto positivo. A confissão liberta.

Porém, meses depois, tendo o inquérito sobre seu envolvimento com o caixa-dois da Odebrecht arquivado pelo ministro Luiz Fux, do STF, o novo Lorenzoni escreveu que “escolheu nunca se meter em corrupção”, e que iria perseguir o delator Alexandrino Alencar: “Esse vagabundo vai perder qualquer benesse que teve, porque ele mentiu.”

Em qual dos dois acreditar?

Em tempo: Alexandrino Alencar, companheiro de Lula em suas “palestras”, segue desfrutando da delação premiada. Como será a relação do possível ministro Lorenzoni com a operação Lava Jato?

 
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João, Jair e as facadas

Duas facadas marcaram o primeiro turno das eleições de 2018. A primeira, em Juiz de Fora, atentou contra a vida do candidato Jair Bolsonaro. A segunda, no estado de São Paulo, acertou Geraldo Alckmin.

Há diferenças essenciais entre uma e outra. Adélio Bispo atacou pela frente. João Doria, pelas costas. O ferimento em Bolsonaro foi físico, ele teve a sorte de ser prontamente socorrido pela Santa Casa e se recupera bem. Saravá! Alckmin, ferido na alma e nas urnas, talvez jamais se recupere.

Nelson Rodrigues atribuía a Roberto Marinho uma frase que é excelente conselho: “Prefiro ser traído a desconfiar de todo mundo.” Procuro exercer e recomendo.

Mas admito que no plano doméstico o verbo preferir pode soar exagerado. Se viver desconfiado das pessoas queridas é o inferno na terra, a traição dentro de casa é ferida que nunca fecha, notadamente se acontece por motivo torpe, como sanha eleitoral.

A facada de João Doria em Geraldo Alckmin acontece em três tempos. Começa quando o ex-prefeito, politicamente apadrinhado pelo ex-governador, logo que empossado mete o louco e inicia campanha nacional para a Presidência da República, causando, além do constrangimento da traição aos olhos de todos, abalo à imagem de seu fiador.

Frustrado o plano A, principalmente pelo declínio da popularidade entre o eleitorado abandonado, o plano B se revela a segunda etapa da punhalada. Candidatando-se a governador, deixou o padrinho com dois palanques, ou um pé em cada canoa, e sabemos como acaba quem pisa em canoas distintas que se afastam.

Para piorar, a parte B-2 da traição foi atacar abaixo da linha da cintura Márcio França, atual governador de São Paulo, que foi vice de Alckmin leal e discreto, e articulador da aliança ampla que elegeu Doria prefeito. Mais constrangimento para Alckmin, que aos olhos dos simpatizantes do afilhado, não teria sido capaz de escolher o próprio vice.

A conclusão da traição vem com a chapa bolsodoria, ajudando a enterrar a campanha de Geraldo Alckmin no estado que o elegeu por quatro vezes. A candidatura de Alckmin acabou na quarta colocação, tanto no Brasil quanto em São Paulo, abaixo de 5% e de 10%, respectivamente. É claro que outros fatores contribuíram, porém são todos digeríveis.

Não satisfeito, Doria ainda sapateou sobre o caixão, acionando o plano “Miami-Orlando”. Na primeira reunião dos tucanos, realizada dois dias após o primeiro turno, ensaiou defesa da tese exposta por Orlando Morando, prefeito de São Bernardo do Campo, de abreviar o mandato de Alckmin na presidência do PSDB.

Voltando a chapa bolsodoria, a torpeza do cálculo, logo identificada pela tropa, levou à recusa do apoio. Primeiro colocado para o Senado em São Paulo e aliado do ex-capitão, Major Olímpio gravou vídeo desancando o oportunismo, rechaçando o apoio e lembrando que, em passado recente, Doria desprezava Bolsonaro.

O militar pode não conviver muito com seus cachorros de Angra dos Reis, até porque tinha a Val do Açaí para trata-los, mas deve lembrar da frase de outro Roberto, o Jefferson: “Não brinco com cachorro que já mordeu a mão do dono.”

Jânio Quadros, onde estiver, que se cuide. Seu legado de demagogo-mor sem limites para criação de factoides, cujo auge foi o auto-golpe que descambou para a ditadura militar, está seriamente ameaçado pelos candidatos líderes nas pesquisas em São Paulo e no Brasil, João e Jair.

Esta crônica é uma homenagem a Moa do Katende, mestre de capoeira assassinado na Bahia na madrugada da segunda-feira 8/10/18, aos 63 anos, com doze facadas desferidas por um apoiador de Jair Bolsonaro.

 
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A escolinha do professor Jair

Se o Congresso Nacional já era ruim, conseguimos a proeza de piorar o elenco. E muito.

Gente boa e necessária não conseguiu se reeleger ou voltar a Brasília. Entre outros tantos, Cristovam Buarque, referência em Educação; João Paulo Papa, craque em Saneamento Básico; Eduardo Suplicy, profeta da Renda Básica; Roberto Freire, moderador nato; Luiz Carlos Hauly, que estava bem adiantado com a reforma Tributária.

Literalmente, na intenção de limpar Brasília, mandamos pelo ralo a criança junto com a água suja da banheira. Haverá consequências.

Em apenas 48 horas após a promulgação do resultado, alguns dos novos eleitos, notadamente os que figuram entre os mais votados, já mostram a que vieram. Antes de cita-los, porém, analiso a causa.

Jair Bolsonaro, maior vitorioso do domingo, franco favorito a inquilino do Alvorada, fez escola. As urnas fizeram de seus alunos um não-partido, o PSL, a segunda bancada da Câmara Federal, com 52 representantes.

O trabalho de um deputado é, se não injustamente, no mínimo precariamente avaliado pela sociedade. As sessões plenárias acontecerem três vezes por semana tem uma razão prática: custo. Seria improdutivo levar a Plenário todas as propostas, impondo um debate sem fim.

Por isso as casas funcionam com filtros, chamados comissões temáticas. É nelas que os parlamentares mais trabalham, de acordo com suas capacidades e possibilidades partidárias.

Então vejamos a atuação de Bolsonaro em comissões. O levantamento é do Estadão.

Na chamada “comissão militar”, oficialmente Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, tema dito caro ao candidato, o deputado faltou a 70% das sessões. Sequer no dia em que seu único projeto de lei tramitou ele compareceu. Tratava de novas regras de combate ao terrorismo e foi retirado da pauta. Resta saber se, “saído” do Exército por planejar atentados terroristas, o ex-capitão fugiu constrangido.

Em outra ocasião, a comissão aprovou relatório que propõe alteração em artigos dos códigos Penal e Militar, bandeira do candidato Jair. Sabe aquela coisa do policial ter que atirar para matar? Mais ou menos por aí. Mas onde estava Bolsonaro? Gravando para as redes sociais.

A cereja do merengue vai agora: mais uma vez cabulando, Bolsonaro desperdiçou a chance de se manifestar sobre duas moções aprovadas: uma de louvor aos soldados brasileiros que atuaram no Haiti, e outra de repúdio ao governo da Venezuela por descumprimento da ordem democrática. Tá ok?

O efeito da escola parlamentar bolsonarística é a Câmara que elegemos no domingo. Desde então, Kim Kataguiri se lançou candidato à presidência da casa, ameaçando os pares com pressão pelas redes; Alexandre Frota publicou que seu filho foi concebido numa suruba com a mãe do garoto, a bartender de um hotel e alguma cocaína; Vinicius Poit avisou que, ante um hipotético, e apenas hipotético aumento de salário dos deputados, votará contra e, se perder, abrirá mão da diferença.

Tudo leva a crer que os distintos aprenderam atuação parlamentar pelo YouTube assistindo as performances do professor Jair – que no caso de Kim e Poit ainda conta com João Doria. Estarão a serviço dos interesses das pessoas ou dos likes e oclinhos que poderão receber a cada lacração virtual?

Se Bolsonaro já tinha dificuldade em controlar a si próprio, Gal Mourão e Paulo Guedes, agora tem uns cinquenta para se ocupar. Haverá tempo para governar?

 
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Eleição intestinal

Foi uma eleição regida pelo sistema gástrico, em todos os sentidos.

Lula, impedido de concorrer por estar preso, condenado em segunda instância, liderou as pesquisas de intenção de voto enquanto insistiu que poderia ser candidato. A razão da sua popularidade é estomacal. Seus eleitores sentem saudades da geladeira cheia que foi possível durante seu período. Por isso, perdoam qualquer coisa, até os flagrantes casos de corrupção.

Seu poste, Fernando Haddad, sabe disso e joga para a torcida, mesmo constrangido pelo PT raiz, que preferia Jacques Wagner na disputa e não se furta em atrapalhar a campanha do candidato com declarações absurdas, vide as falas Gleisi Hoffmann e José Dirceu.

Contudo, no primeiro turno a estratégia petista funcionou. O “filho do Lula” herdou grande parte do capital eleitoral do pai e passou para a segunda fase com quase 30% dos votos válidos.

Seu desafio agora é mostrar que geneticamente é mais parecido com Fernando Henrique, que se eleito estará emancipado pela força do cargo, sem correr o risco de ser deserdado. Difícil. Amanheceu em Curitiba nesta segunda-feira para despachar na cela de Lula, mal sinal para os eleitores que temem a ascendência de um presidiário sobre o um possível presidente da República, bom sinal para os lulistas que não gostariam de ver o filho abandonando o pai.

Jair Bolsonaro chegou ao fim do primeiro turno com votação consagradora: 46,3%. É um colosso para um deputado de histórico parlamentar medíocre que sequer partido tem e vive se desentendendo com os poucos aliados políticos que conseguiu atrair, a começar pelo próprio vice, Gal Mourão.

O atentado a faca sofrido em Juiz de Fora rasgou seu intestino, mas o protegeu do debate eleitoral, inconveniente para alguém despreparado. Resguardado na UTI, só falou o que quis, sendo o auge a “entrevista” encomendada pelo bispo Edir Macedo, duplo atentado ao jornalismo e à lei eleitoral.

A dinâmica do segundo turno é outra. Os dez minutos diários de televisão não devem fazer diferença grande em sua campanha, cuja base é um sofisticado esquema de comunicação calçado nas redes sociais e WhatsApp, pensado para parecer amador. Aparecer mais profissional na televisão poderá minar sua imagem se outsider. E não poderá fugir dos debates na TV, que entre dois e não dez adversários, tente a ser menos intestinal.

Por tudo isso, o segundo turno provocou muxoxo entre seus eleitores, crentes numa vitória já no primeiro turno, e receio entre seus aliados, que reconhecem a dificuldade do ex-capitão em debater no plano racional.

No eleitorado é espantoso ver as entranhas sociais expostas. As candidaturas centradas em argumentos e propostas, à exceção de Ciro Gomes, foram fragorosamente derrotadas, talvez por representaram a política tradicional, que vive seu ocaso. João Amoedo e Cabo Daciolo surpreenderam, vencendo Marina Silva e Henrique Meirelles. Agora terão que se posicionar, algo especialmente desconfortável para Amoedo.

Mas nada expõe tão bem as nossas entranhas quanto a eleição para a Câmara Federal. No voto que elege o representante ideal de cada um, destacaram-se policial, pastor e palhaço, além de pseudojornalistas dados ao escândalo.

Minha conclusão é que a artista plástica Adriana Varejão é uma profeta. Sua obra mais conhecida, os azulejões, circulam pela imprensa em imagens bidimensionais, que significam o que a gente prefere ver, enquanto a ideia central, que são as entranhas para além do belo ampliado, só são percebidas por quem se dispõe ao desconforto de olhar de perto. E a imagem é terrível.

 
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Apatia e vergonha eleitoral

Em dezembro de 2017 a apatia eleitoral me preocupava e publiquei uma nota com estudo a respeito.

Era véspera do segundo turno na eleição chilena e, na primeira rodada, 46% dos eleitores não votaram. Em números absolutos, 6,6 milhões dos 14 milhões de habilitados. No 17 de dezembro, tendo que escolher entre dois rivais, a expectativa era de maior participação, que se confirmou, mas timidamente: sete milhões votaram.

As últimas eleições no Brasil mostraram crescimento da apatia, como nas eleições suplementares do Amazonas e Tocantins, quando 24% e 51% não compareceram às urnas, respectivamente.

E mesmo nas eleições municipais de 2016 o não-voto se destacou. Em São Paulo, maior cidade do país, o prefeito eleito teve onze mil votos a menos do que a soma de brancos, nulos e abstenções.

Como será no domingo é difícil prever. A última pesquisa Datafolha (TSE|BR-02581/2018) mostra que o índice de brancos, nulos ou nenhum despencou de 22% para 4% desde o começo de setembro. Os que não sabem somam também 4%. E a abstenção oscila para cima desde 2002 (17%), tendo alcançado 19% em 2014.

A chance de não haver segundo turno é alta. Jair Bolsonaro manteve o crescimento, chegando a 39% dos votos válidos, e o chamado voto duro, aquele que não vira de jeito nenhum: 86%.

O chamado voto envergonhado, gente que votará no ex-capitão mas tem pudor em admitir, é um fator de incerteza.

A mesma pesquisa trouxe um dado que vem sendo celebrado: 69% dos brasileiros afirmam preferir a democracia, índice mais alto desde 1989, data da primeira aferição do Datafolha, contra 12% que preferem a ditadura e 13% que dizem “tanto faz”.

Entendo quem olha o copo meio cheio, notadamente num período em que o candidato que lidera as pesquisas nega que houve ditadura militar no Brasil e defende a tortura. Mas para mim é alarmante que um em cada quatro brasileiros pensem assim. Entre estes, os seguidores de Bolsonaro se destacam: 22% dos que declaram votar no militar dizem preferir a ditadura.

Também entendo quem vota contra o PT sob qualquer circunstância. Lula e sua gangue fizeram por merecer e têm parte da responsabilidade na ascensão da direita reacionária. O que me assusta, e muito, é notar a falta de argumentos propositivos entre os eleitores do Bolsonaro, o que me leva a crer que sejam motivos inconfessáveis.

 
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Minha chapa e por que

Respeito o modelo brasileiro de jornalismo ou análise que não revela posição eleitoral. Mas prefiro o europeu ou americano, que sem abrir mão da imparcialidade, toma partido.

Minha escola política é a do meu tio-avô Franco Montoro e tem a democracia como princípio fundamental.

Montoro era parlamentarista, defendia voto distrital, promovia participação popular através de conselhos e, sempre que pôde, descentralizou as decisões de governo, abrindo mão de poder para oferecer o máximo de autonomia às cidades, que sabem mais e melhor das suas necessidades e soluções.

O conceito é simples: “Ninguém mora na União ou nos estados – as pessoas vivem nas cidades.” Isto é: tudo o que os estados puderem fazer, a União não deve fazer; tudo o que as cidades puderem fazer, os estados não devem fazer; tudo o que a sociedade puder fazer, a cidade não deve fazer.

Votarei em candidaturas alinhadas com estes ideais, consciente de que 100% de concordância é impossível. Considerando os melhores aspectos que enxergo em cada uma, apresento minha chapa.

Deputado Federal: João Paulo Papa 4522 PSDB – engenheiro e ex-prefeito de Santos (2005-2012 reeleito com 77% dos votos), referência nacional em saneamento básico. Conhece os problemas dos municípios, tem experiência parlamentar, sabe realizar mesmo sendo oposição. Trabalha por São Paulo e pelo Brasil, orientando os pares sobre como melhorar o saneamento básico em suas cidades.

Deputado Estadual: Ricardo Mellão 30100 NOVO – advogado jovem e aplicado, é liberal pra valer, não por conveniência. Filho do ex-deputado e articulista do Estadão João Mellão, tem o liberalismo no DNA e pode sacudir a Assembleia Legislativa, verdadeiro Triângulo das Bermudas do Poder Público. Na prefeitura, trabalhou nas regionais de Parelheiros e Cachoeirinha, conhecendo de perto as necessidades de quem mais precisa. Mais recentemente, trabalhou na desburocratização da máquina, revogando mais de quatro mil portarias e decretos obsoletos.

Senadora: Mara Gabrilli 457 PSDB – psicóloga e publicitária, foi a primeira secretária municipal da Pessoa com Deficiência, vereadora e deputada federal. Força da natureza, depois de vinte anos tetraplégica, reconquistou o movimento de uma das mãos, fruto de esforço pessoal e abnegado, muitas vezes servindo como cobaia para estudos científicos. Corajosa, enfrentou a quadrilha que operava no governo do prefeito Celso Daniel do PT em São Bernardo do Campo, que acabou torturado e assassinado. Tem um olhar amplo para os problemas sociais, mas com especial atenção para as pessoas com deficiência, que somam ¼ da população. Se para os mais favorecidos algum tipo de deficiência já é um transtorno, nos estratos desprotegidos a situação chega a ser medieval, e por isso é urgente. Relatou a Lei Brasileira de Inclusão, que lhe rendeu uma vaga no comitê da ONU sobre o tema.

Senador: Eduardo Suplicy 131 PT – economista e referência internacional na defesa da Renda Básica Universal, que já lhe custou muita chacota, mas que hoje é pactuada entre liberais e socialistas, do Fórum Econômico Mundial de Davos ao Fórum Social de Porto Alegre. Convenhamos que neste mundo polarizado não é pouca coisa. A conta é simples: com as novas tecnologias trabalharemos menos e viveremos mais; a concentração de renda no mundo ameaça as democracias e a própria civilização; o modelo de produção chinês ou americano, expandido para sete bilhões de pessoas, explodiria o planeta. Suplicy estava certo e merece reconhecimento. “A Cesar o que é de Cesar.” Será meu primeiro voto no PT e fico tranquilo em saber que ele é honrado. Entre os planos de governo dos presidenciáveis, só os de Marina Silva, por sugestão do vice Eduardo Jorge, e Jair Bolsonaro, por influência de Paulo Guedes, citam a Renda Básica.

Governador: Márcio França 40 PSB – advogado e político com orgulho de dizer que é político. Foi vereador, deputado e prefeito de São Vicente, reeleito com 92% dos votos. É o atual governador de São Paulo e representa continuidade sem continuísmo, construção sem destruição. Tem realizações em segurança, educação e turismo. E para mim sua característica fundamental é a vocação para o diálogo franco: é o mesmo jantando, despachando, no centro do Roda Viva ou nos debates. Sabe escutar, fala o que pensa e cumpre a palavra – algo básico porém raro hoje em dia.

Presidente: Ciro Gomes 12 PDT – advogado e professor, é a terceira via possível. Foi prefeito de Fortaleza e governador do Ceará com recordes nacionais de aprovação popular. Ministro da Fazenda no governo Itamar Franco, consolidou o Plano Real. Na Integração Nacional sob Lula, tirou do papel a transposição do rio São Francisco, planejada por Dom Pedro II e retomada entre Itamar e FHC. Conhece o Brasil e causa surpresa quando fala, não quando faz, o que é um fator de estabilidade. Tem a melhor ideia de urgência para a economia, o chamado SPCiro, programa extensivo à iniciativa privada que, por sinal, já adota prática semelhante. Sua proposta nasceu entre acadêmicos e com participação deles foi estruturada.

(Gostaria muito de votar no Eduardo Jorge, meu político predileto em atividade, mas infelizmente a Rede não resistiu à campanha.)

 
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