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José aposta em Rosa

É manjado o caso do José que, tendo o nome publicado na lista do Serasa, reclamou na Justiça de Pequenas Causas e foi indenizado com o dobro do valor da ação.

Preto, peão e pobre, José andou angustiado esses dias. Mas pouco antes do almoço de hoje tomou um fôlego quando ouviu no rádio que a ministra Rosa Weber, do STF, suspendia a cortina para a lista do trabalho escravo baixada numa Portaria do Ministério do Trabalho.

Os argumentos da juíza, José notou, eram abrangentes. Ela começava citando o “provável efeito prático a ampliação do lapso temporal durante o qual ainda persistirá aberta no Brasil a chaga do trabalho escravo”, e ressaltava que, “a persistir a produção de efeitos do ato normativo atacado, o Estado brasileiro não apenas se expõe à responsabilização jurídica no plano internacional, como pode vir a ser prejudicado nas suas relações econômicas internacionais, inclusive no âmbito do Mercosul, por traduzir, a utilização de mão de obra escrava, forma de concorrência desleal.”

Mas o que intrigava José, que não chegou ao ensino médio, era como ele tinha conseguido se defender de uma injustiça, e a turma rica e poderosa que propôs e defendeu a cortina escravagista não via meios para responsabilizar os fiscais corruptos que, como disse o Presidento, pela falta de “saboneteira no lugar certo” achacavam empresários.

Passou pela cabeça do José entrar na dança e acionar o sindicato para uma ação coletiva propondo o fim do Serasa, SPC e assemelhados. Não tinha cabimento um homem decente como ele ver o nome sujo indevidamente, sobretudo numa lista que seu cunhado frentista acessa com facilidade.

Mas pensou duas vezes. Primeiro quando lembrou de quando o advogado do sindicato aceitou suborno de uma grande empresa para errar. Depois quando viu que isso poderia dar razão aos caloteiros que querem a esculhambação geral, o que seria especialmente ruim para ele.

O risco de demissão o apavorava. Caso a firma perdesse os contratos de exportação numa sanção internacional contra a medida, o passaralho seria fatal. E o que ele faria para continuar livre do Serasa?

Decidiu alertar a chefia, mas vacilou ao notar uma chibata sobre a mesa do RH.

Enquanto a liminar da ministra estiver valendo, José vai jogar parado. Seu avô sempre dizia: “O pessoal da casa grande não era ruim, meu filho, só um pouco ignorante”.

 
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150 anos sem Titila e do pingente da Genésia

Mais do que poder, a gente deve transformar caminhadas ordinárias em experiências lúdicas. Para este pedestre, aliás, é condição de vida. Creio que nada do que eu faço continua se não encontro graça pelo caminho.

Outro dia fui à Cidade atrás de um ourives. Remexendo uns guardados, tia Verinha, que vem a ser minha mãe, encontrou um pingente em prata adornado com um espelho. Foi da minha tataravó Genésia Loureiro. Se a filha dela, a bivó Ophir nasceu em 1900, podemos contar uns 150 anos do mimo, que precisava do ourives porque um dos ilhoses estava danificado.

Lá na Barão de Paranapiacaba, a “rua dos ouros”, encontrei um senhor que pediu quinze reais e trinta minutos para resolver o problema. Tempo livre. Aproveitei para ir ao Terminal Parque Dom Pedro II conseguir um Bilhete Único novo. Não deu certo. Encontrei uma fila enorme e voltei para resolver na SPTrans da XV de Novembro. Mas quem anda a pé nunca perde a viagem.

Na ida passei pelo Solar da Marquesa, que namorou Dom Pedro I durante sete dos seus setenta bem vividos anos. Belo sobrado na antiga Rua do Carmo, atual Roberto Simonsen, esquina com o Beco do Pinto.

A cultura popular imagina que as tábuas do imóvel ainda ecoam os gemidos de Titila e Demonão, que era como o casal Domitila de Castro Canto e Melo e Dom Pedro I carinhosamente se tratava em cartas de furiosa paixão.

Só que não. A Marquesa de Santos voltou para a São Paulo natal quando terminou o romance. Comprou o solar, então conhecido como Palacete do Carmo, e acolheu o Brigadeiro Tobias de Aguiar e a grã-finagem da época em saraus disputados, com direito a Castro Alves e Álvares de Azevedo.

Com os fundos dando para o Glicério, a vista devia ser mais bonita do que é hoje, quando se via o rio Tamanduateí, ou mesmo quando o Parque Dom Pedro II ainda era parque, não terminal de transporte.

Mas o que o flaneur aqui gostaria de dizer é que no 3 de novembro próximo celebraremos 150 anos da morte de Titila. A festa que ela daria, segundo o Estadão, está por conta do Luiz Antonio Pereira dos Santos, dono do restaurante São Paulo Cama & Café.

O aniversário coincide com a idade aproximada do pingente que me levou a descobrir o Beco do Pinto, lateral do Solar da Marquesa, hoje está fechado na parte baixa em condição de sítio arqueológico. Mas não foi sempre assim.

Houve um período em que o beco era aberto a todos. A turma do Glicério usava para acessar o Triângulo e, nos dias de chuva, para lavar roupas na cascata que se formava entre os paralelepípedos.

Conta uma placa do Patrimônio Histórico que o Brigadeiro José Pinto de Morais Leme, que deu nome ao beco e vendeu o solar à Titila, não gostava do trânsito e mandou fechar a passagem em 1821. O povo reclamou e conseguiu a reabertura em 1826 – o que a poderosa Marquesa de Santos reverteria em 1834.

Mas ela deve ser lembrada pelas coisas boas que fez. Protegeu jovens estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ajudou financeiramente a construção da Santa Casa de Misericórdia e do cemitério da Consolação.

Pessoalmente, foi vítima de um marido violento que chegou a esfaqueá-la, divorciou-se, frequentou a cama do imperador – pelo que sofreu acusações de ter contribuído com a morte da imperatriz Leopoldina e chegou a ser ameaçada com exílio quando “o Libertador” arranjou o casamento com a princesa Amélia de Luchtenberg –, veio para São Paulo, casou-se novamente, pediu e obteve licença de Dom Pedro II para morar junto ao segundo marido quando este foi preso na Revolução Liberal, dedicou-se à cultura e benemerência inclusive para as prostitutas da cidade, pelas quais é tida como santa.

Se em 2017 São Paulo registra um feminicídio a cada quatro dias, imagina uma biografia assim há 150 anos.

Fico contente que, por acaso, uma peça com idade aproximada tenha atravessado cinco gerações de mulheres da minha família e ido parar no colo da minha Neguinha, que manda em mim mais do que Titila mandou no patrono da Rota.

 
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Adeus, PSDB

Em 2001 me filiei ao PSDB. Mera formalidade. Preencher a ficha e cumprir a burocracia não me fizeram tucano.

Eu já acreditava na agenda política proposta e praticada pelo meu tio-avô André Franco Montoro. Basicamente, descentralização e participação, com Parlamentarismo e voto distrital. Escrevi e falei bastante a respeito e aqui não convém repetir.
Infelizmente não vi o partido lutar por esta agenda. Pelo contrário, acompanhei um afastamento cada vez maior, acentuado com a ida para a oposição em 2002.
Para combater a ascensão do chamado lulopetismo, simultâneo ao ocaso malufista, os tucanos entraram num vale-tudo que incluiu a negação da proposta original em favor do antipetismo.
O maior exemplo talvez seja o combate aos programas de transferência de renda, unificados no Bolsa Família. O partido do Magalhães Teixeira, o saudoso Grama, que na cidade de Campinas inaugurou a renda mínima no Brasil, e da Ruth Cardoso, que levou o conceito para o plano federal com o Bolsa Escola no governo FHC, rasgava a própria história.
Acompanhando a conjuntura, que mostrava a sociedade cada vez mais afastada da política e o partido desnorteado, senti que era preciso fazer alguma coisa além de falar e escrever. Democracia sem partido é impossível. E o partido em que eu acreditava não estava cumprindo sua função. Para tentar ajudar, subi no caixote e me lancei candidato a deputado estadual em 2014. Recebi doze mil votos, sendo dez mil na cidade de São Paulo. Em respeito a cada um eles, voltei a carga em 2016 como candidato a vereador. A votação caiu pela metade.
Guardo com carinho as lições das duas campanhas. Me sinto aliviado em não ter pecado por omissão e gosto de pensar que de alguma maneira contribuí para que o interesse pela participação Política ressurgisse. Tem muita gente boa aparecendo e participando do debate.
Enquanto isso, no PSDB, vi o processo inverso. Invés de se aproximar da sociedade e defender a Política, o partido se entregou à politicagem. Órfãos do malufismo adotados para engrossar as fileiras do antipetismo oportunista, não programático, se destacaram.
O efeito, previsível, foi no plano parlamentar estadual um campeão de votos defender “bandido no saco” e muro contra o Nordeste. No federal, redução da maioridade penal e cortina para o trabalho escravo. No municipal, desde 2012 convivemos com um vereador estelionatário confesso, que foi capaz de falsificar a assinatura de um Covas e a declaração de voto de um Montoro. Repetiu a dose em 2016, ludibriando o eleitor com uma malandragem na mala-direta, no que foi repreendido pelo TRE. Internamente, porém, o partido calou e ainda o elegeu vice-presidente da Câmara Municipal. O distinto é membro do diretório zonal que eu integrava, e nem lá consegui sequer uma advertência.
Para mim era demais. Mas quando o escândalo do Aécio Neves surgiu, tentei pelos canais disponíveis incentivar que ele fizesse a confissão que a sociedade merecia. Em vão. Decidi sair.
Com a ascensão do Tasso Jereissati ao timão partidário, suspendi a decisão. Voz solitária, elogiei o programa em que o PSDB reconhecia seus erros. A maioria crítica venceu e o exame de consciência morreu naquilo.
Na semana que passou sofri em ver o Tasso, líder dos tucanos no Senado, encaminhando voto fechado pela absolvição do Aécio. Nitidamente seu estômago estava mais prejudicado do que o do colega que, ainda com os pontos da cirurgia que extraiu parte de seu intestino, evoluía animadamente no Salão Azul trabalhando pela redenção geral.
Notei que, do diretório zonal ao nacional, pessoalmente nada do que eu fizesse podia ajudar o partido.
Repeti então a romaria burocrática, agora pela desfiliação. Na quinta-feira protocolei a carta no diretório estadual e na sexta informei a Justiça Eleitoral. De novo, mera formalidade. Eu já não pertencia ao partido, até porque é impossível pertencer a algo que inexiste.
Minhas convicções, no entanto, continuam vivas, pulsando, e seguirei com elas, livre, leve e desprendido de qualquer conivência.
 
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Cerveja e cidadania

O maior crowdfunding da história começou nos Estados Unidos. Uma associação cervejeira do estado do Colorado lançou uma campanha para arrecadar a US$ 213 bilhões com o objetivo de comprar a AB InBev, dos brasileiros da Ambev.

É um chiste, reconhece a Brewers Association, que promete só realizar as intenções de doação se a captação atingir o valor total. Mas a ideia original é séria. Querem salvar as cervejas artesanais das garras do gigante enquanto é tempo.

Apesar de improvável, é capaz que a presença esmagadora da companhia nos Estados Unidos, sobretudo bulindo com cerveja, tenha despertado a atenção dos americanos para o Brasil. Eles podem continuar chutando que a nossa capital é Buenos Aires, mas devem saber o que foi feito das nossas marcas históricas –  Bohemia, Serra Malte, Original, Brahma, Antarctica – e querem evitar o drama.

A tradução livre de crowdfunding para o português falado no Brasil é vaquinha. Considerando que o modelo de negócio da Ambev é o equivalente a botar água no leite para aumentar a margem de lucro, chega a ser emblemático. Pena que para a gente é tarde. Com o 3G, nossa vaca já foi pro brejo.

 
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O Presidente da Transição

O Presidente da Transição é o título do livro que narra a gestão do Manoel Sousa Lima na presidência do SETCESP – Sindicato das Empresas de Transporte de Carga de São Paulo e Região.

Publicado pela editora DBA em parceria com o SETCESP, foi lançado ontem na Fenatran 2017.

Três pontos se destacam e mostram a importância das entidades na pauta dos governos.

No plano estadual Manoel conseguiu a lei que responsabiliza o receptador de carga roubada com a suspensão do CNPJ.

No municipal, algo pelo que tenho imenso carinho, o abastecimento foi enfim entendido como transporte coletivo e incluído no Plano Diretor da capital paulista, marco cultural que deve cessar tantas idas e vindas que a cada governo só criavam insegurança jurídica e encareciam a vida na cidade.

Internamente, mesmo tendo direito estatutário e apoio político para se reeleger, escolheu garantir a transição para a nova geração, consolidando as lideranças formadas no comitê de jovens empresários do sindicato e transmitindo a boleia para o amigo Tayguara Helou, de apenas 35 anos de idade, que vem continuando o trabalho.

Muitos aplausos para o Manoel, que também merece aplausos no plano pessoal por um motivo especial para mim: é o pai da minha Neguinha.

 
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Resgate cultural na primeira safra da farinatta

Temos que ser justos com o prefeito de São Paulo. Além de trabalhar tanto (chegou da Itália no domingo, terça estava em Brasília, hoje passou o dia em Goiânia e amanhã vai para um evento do LIDE no Paraguai) ele ainda consegue a proeza de fazer um resgate cultural relevante.

Recentemente propôs vender no mercado financeiro crédito de multas de trânsito sobre infrações que você, freguesa, ainda não cometeu. Por isso seja boa cidadã e não se esqueça de contribuir parando sobre a faixa de pedestres sempre que pegar uma pole Acelera.

A ideia evoca o Paulo Vanzolini, um dos nossos sambistas maiores. Anotei e o Estadão publicou: Aplausos para o editorial Mágica com as multas, de domingo. Inacreditável que na terra de Paulo Vanzolini, compositor de Ronda, Volta por Cima e Samba Erudito, que vai com o verso “soltei filipetas pra te dar um Cadillac”, em pleno 2017 vejamos um governo dito moderno pretender faturar fazendo o que se pode chamar de IPO da indústria da multa. Resta ao paulistano que acreditou na agenda de João Doria render-se à última estrofe do samba: “Então como Churchill/ Tentei outra vez/ Mas você foi demais/ Pra paciência do inglês/ Aí me curvei/ Ante a força dos fatos/ Lavei minhas mãos/ Como Pôncio Pilatos”.

Agora quem está na crista é o Adoniran Barbosa, xará de batismo do prefeito. Na pia, Peteleco foi João Rubinato.

Compositor de Trem das Onze, Saudosa Maloca e Tiro ao Álvaro, Adoniran fez também o No Morro do Piolho, samba que encerra recitando “É como diz o deitado: pobre quando come galinha, ou ele está doente, ou a galinha”.

Algo mais exato para celebrar a primeira safra da farinatta?

 
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Notas soltas: Somalia, Suburra e Pancetti

#DoNotPrayForSomália

O que impressiona mais sobre a Somália? As centenas de mortes ou o nosso silêncio? Ou a vulnerabilidade da desigualdade escancarada até nos números de óbitos de um atentado terrorista?

Releve a indelicadeza, freguesa, mas rezar pelos somalis – pelo Vale do Jequitinhonha ou por Cidade Tiradentes – só ajuda a quem transfere o peso da consciência para os joelhos.

Suburra

Coisa boa no Netflix é Suburra, a série, que deriva do longa-metragem homônimo, por sua vez baseado no livro sobre o escândalo apelidado de Máfia Capital.

O nome vem do vale no interior da Cidade Eterna, onde Aca Laurência, deusa da mitologia romana e mãe de leite dos fundadores Romulo e Remo, gemia enlouquecidamente, fazendo-se confundir com uma loba. Daí vem a palavra lupanar. Lupi é lobo em latim.

Segundo a Wikipedia, Subura era “fervente, clamorosa, um refugio de prostitutas, de revendedores de provisões, iguarias e adornos”.  Segundo a Netflix, continua.

Além do bravo enredo, que narra os diversos estados paralelos que governam qualquer lugar – no caso a máfia, a Santa Sé (que detém entre vinte e 30% dos imóveis na Itália), os ciganos, os sempre nobres, as famílias tradicionais e os novos empreendedores –, tendo como pano de fundo uma disputa imobiliária bilionária.

Tem a vantagem de estar com os dez capítulos disponíveis. Quem aguenta o semanário Designated Survivor?

Giuseppe Gianini Pancetti

Da Itália também vieram os Pancetti, que em Campinas tiveram o filho José, marinheiro, boêmio e pintor. O crítico do Estadão Antonio Gonçalves Filho anunciou a abertura da retrospectiva do artista e concluiu com uma frase deliciosa: “Pancetti jamais pretendeu ser moderno. Simplesmente foi”.

Com 45 telas expostas, a galeria Almeida e Dale apresenta uma curadoria digna de museu, com direito à linha tempo e uma variedade impressionante que amplia o horizonte muito além das marinhas.

Meu avô Francisco Coutinho foi amigo e médico do Pancetti nos anos 1940 em Campos do Jordão, quando ele subiu a Mantiqueira para tratar a tuberculose nos Sanatorinhos. Me emocionei com o inverno nas cores dos plátanos e araucárias da região numa tela que não conhecia. É na montanha e é inverno, mas não é rigoroso.

Saí com a impressão de que a mágica da obra está nesse acolhimento, capaz de ser ameno com intensidade. Como as vagas nas marinhas, que tragam a freguesia sem convidar ao mergulho. Marinheiros raramente mergulham em qualquer coisa.

Meu avô teve quatro marinhas, que vendeu nos anos 1980, quando o preço chegou a US$ 4 mil. Hoje valem cinquenta vezes mais. Como lembrança guardamos uma aquarela pequenina, com dedicatória “ao caro amigo doutor Coutinho”.

A vulgaridade do preço só interessa aqui por dois fracassos curiosos, mais graves do que o do meu avô.

Pancetti viveu um tempo como hóspede de uma prima na Praça Júlio de Mesquita, centro de São Paulo. Um coronel pagava a conta do apartamento e do uísque. Um dia, incomodado com o cheiro do óleo e o consumo elevado do combustível, reclamou. Orgulhoso, o pintor decidiu se mandar e deixou várias telas em forma de pagamento. Era um hábito antigo, dos tempos em que serviu na Marinha e trocava trabalhos por cigarros. Mas o coronel, estúpido, disse que não queria a “tralha” e distribuiu as telas entre os funcionários do prédio. Haverá uma ou outra, incógnita, na casa do zelador?

Isaurinha Garcia também era parente do Pancetti. A saudosa Lulu Librandi, produtora cultural e amiga da cantora, contava com tristeza que para pagar contas bobas ela se desfez de marinhas enormes. Uma delas teria trocado por uma caixa de conhaque nacional.

 
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Não ouvi panelas

Em setembro de 2007 Renan Calheiros era julgado em sessão secreta pelo Senado Federal. Acusado de ter contas pessoais pagas por um lobista, o então presidente do Congresso Nacional teria ido ao Salão Azul munido de dossiês contra todos os colegas. E meteu o dedo na cara de cada um de dos seus principais opositores. Foi absolvido. Placar: 40 X 35 com seis abstenções.

Dez anos depois os dossiês não valem nada. Com o que está publicado nos jornais, processos judiciais e, por que não dizer, no site da Câmara dos Deputados, os segredos que parlamentares dessa qualidade guardam sobre seus pares políticos valem pouca coisa.

Posso estar exagerando, eu sei. Sempre que um Eduardo Cunha evoluiu para uma delação premiada tudo pode acontecer. Mas o que há de ser pior do que um apartamento mobiliado com cédulas de dinheiro? É provável que mais uma vez eu esteja enganado. Mas gostaria que de estar certo.

De qualquer maneira, há lama para suficiente para a maioria do alto clero político. Nada além do que já foi publicado pode fazer qualquer um deles parecer mais sujo. E o efeito disto pode ser lido no resultado da sessão de hoje, que livrou a cara do senador Aécio Neves, em sessão aberta. Com o perdão da expressão, completamente elameados, estão todos cagando para a opinião pública. O que a semelhança com o placar da sessão fechada que livrou Renan Calheiros constata: 44 X 26.

O Supremo já lavou as mãos. Restariam as panelas. Mas estas a classe média vendeu para comprar feijão.

Para encerrar, só posso amargar a posição do PSDB, que definitivamente acabou. Em novembro de 2015 este mesmo partido – se é que ainda merece esta classificação – votou sim pela prisão do ex-senador Delcídio do Amaral (59 X 13 e uma abstenção), flagrado numa gravação que contava com todos os achaques do famigerado telefonema entre Aécio e Joesley.

 

 

 
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Indústria da multa

Aplausos para o editorial Mágica com as multas, de domingo. Inacreditável que na terra de Paulo Vanzolini, compositor de Ronda, Volta por Cima e Samba Erudito, que vai com o verso “soltei filipetas pra te dar um Cadillac”, em pleno 2017 vejamos um governo dito moderno pretender faturar fazendo o que se pode chamar de IPO da indústria da multa. Resta ao paulistano que acreditou na agenda de João Doria render-se à última estrofe do samba: “Então como Churchill/ Tentei outra vez/ Mas você foi demais/ Pra paciência do inglês/ Aí me curvei/ Ante a força dos fatos/ Lavei minhas mãos/ Como Pôncio Pilatos”.

Carta publicada no Estadão

 
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Nobel de Economia

Richard Thaler, que ganhou o Nobel de Economia ao introduzir psicologia à matéria, poderia render homenagens aos criadores do Plano Real. A inflação no Brasil foi derrotada num processo emocional, ao deixar os preços correndo em cruzeiros, enquanto a URV se encarregava de reintroduzir a noção de valor real na sociedade.

Carta publicada no Estadão

 
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