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Aspectos da paralisação – Trabalho

O mesmo Jorge Paulo, nos Estados Unidos, já entregou uma carga de cerveja a duzentas milhas de distância em caminhão autônomo. Há controvérsia sobre se o que ele fabrica é cerveja. Mas que o caminhão entregou com êxito e sem precisar do motorista, não resta dúvida.

Perguntas: quanto demora para isso ser padrão no mundo inteiro? Como vão reagir os nossos irmãos caminhoneiros?

 
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Aspectos da paralisação – Economia

Para pagar o aluguel do Palácio do Planalto, Michel Temer não economiza. Na primeira denúncia gastou mais de trinta bilhões de reais. Na segunda, já completamente liso, lançou filipetas para os deputados candidatos a reeleição. Custo imensurável. Só o fundão eleitoral vai custar R$ 1,7 bilhão.

A greve dos caminhoneiros aumentou a conta. Estima-se que o subsídio ao diesel vá custar pelo menos mais R$ 10 bi – sem contar os prejuízos de dez dias sem abastecimento, até porque ainda não dá para fazer a conta.

De onde vai sair o dinheiro? Segundo o decreto assinado pelo Presidento e publicado em edição extra do Diário Oficial da União da quarta-feira 30, o dinheiro vai sair de cortes na Saúde, Educação, Segurança (prevenção e repressão ao tráfico de drogas e policiamento nas estradas federais), Infraestrutura e indústrias química e de refrigerantes. (Acho que o Jorge Paulo não gostou.)

 
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Aspectos da paralisação – Cultura

Entre as “mais pedidas” nos acampamentos dos caminhoneiros pelas estradas não estava a Sula Miranda. Curiosamente, junto com faixas pedindo intervenção militar, cantavam Para não dizer que não falei das flores, do Geraldo Vandré, ícone da luta contra a ditadura… militar!

Também foi divertido ver os carbonários pulando a fogueira e se queimando. Os mas exibidos membros na quadrilha do atraso nacional chamuscaram-se sozinhos. Jair brigou com Joice, que virou comunista junto com Sherazade, Constantino, Kim e companhia.

 
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Aspectos da paralisação – Religião

O que falta para São Pedro interromper a paralisação?

 
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Aspectos da paralisação – Meio-ambiente

A poluição na cidade de São Paulo caiu 50% em dez dias de paralisação dos caminhoneiros. Os dados são da Cetesb e impressionaram muita gente.

A mim, nem tanto. Freguês da Paulista, aberta ou fechada, uma das primeiras impressões que tive, logo que o programa dominical começou, foi a rapidez da melhora do ar – e da temperatura – com  poucas horas sem emissão de fumaça.

Talvez por ser o ponto mais alto da cidade e de alguma maneira formar um corredor de vento, o clima melhora muito quase que instantaneamente.

A pergunta que fica é do que podemos abrir mão no cotidiano. Dos caminhões, está claro, é impossível. Ônibus idem – mas podemos melhorar muito retomando os elétricos que foram abandonados e, por sinal, já avançaram uma barbaridade em tecnologia. E os carros, dá para viver sem? Pedestre há mais de dez anos, afirmo que sim, em coro com pelo menos um terço da população.

Mas qual é o caminho? Pedágio urbano. Na prática, já existe. Não para rodar, mas para estacionar. Basta ir à Paulista e estacionar e verificar.

Se a ampla maioria que, segundo o Datafolha, apoia a greve dos caminhoneiros e, ao mesmo tempo, rejeita a ideia de pagar a conta do diesel, tomar noção de quanto custa em Saúde pública o ar que respiramos, quem sabe a gente avança.

 
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Notas soltas

Sarney voltou

Se a eleição prevista para outubro já se parecia muito com a de 1989 pela pulverização de candidatos, a crise ampliada pela paralização dos caminhoneiros deve acrescentar o fator econômico entre as semelhanças.

Marca da política econômica do governo Sarney, com desabastecimento e inflação, os preços tabelados voltaram à ordem do dia sem cerimônia. Agora só faltam as fiscais do Temer. Aliás, o Presidento parece ter sido profético quando definiu, no primeiro Dia da Mulher do seu mandato, o papel da mulher no controle de preços.

O slogan do Governo Federal, dizendo que o Brasil voltou vinte anos em dois, já sofre os efeitos inflacionários. São pelo menos trinta.

Gatilho e gasolina

O aplicativo carioca que mapeava tiroteios na Cidade Maravilhosa foi adaptado. Agora também avisa onde tem gasolina.

Como escrevi aqui, mantido o gatilho do Parente, que atrela automaticamente o preço da gasolina à variação do dólar, assim que a gasolina voltar aos postos os usuários do aplicativo poderão marcar dois em um.

Os SUV a diesel, blindados, estão protegidos pela nova política de preços da Petrobras. Já os taxis, ubers, motoboys e aquele corretor de seguros que depende do corsinha financiado para visitar a freguesia vão continuar ganhando em real e gastando em dólar.

Ninguém precisa ser bidu para prever no que vai dar.

++ Química, sociologia e a explosão iminente – ou Parente, ouça o Montoro

Angorá foi pro brejo

Moreira Franco, ministro de Minas e Energia, também conhecido como Angorá e teoricamente responsável pela relação do governo com a Petrobrás passou a semana passada escondido. O deputado governista Heráclito Fortes foi cirúrgico: “Quando o pasto pega fogo, a preá foge pro brejo.”

Mas ontem ele reapareceu afiado em entrevista na Folha. Explicou que a demora do governo em responder às demandas do setor de transporte de cargas se deve à quantidade de cartas que a Presidência e os ministérios recebem. Incrível.

Enquanto isso, os caminhoneiros nas estradas, igual a todo mundo, se comunicam por WhatsApp. É um delay considerável.

Oremos

Sobre a crise, disse ontem o Presidento: “Se Deus quiser, logo superaremos”. E para provar que dá importância a botar em prática o que diz, deu posse ao deputado Ronaldo Fonseca como ministro da Secretaria-Geral, responsável pela Comunicação, Assuntos Estratégicos e Programa de Parcerias e Investimentos.

Fonseca, que não tem partido, comandava a bancada da Assembleia de Deus na Câmara.

++Terá a ponte para o futuro unido o país?

Terceiro eixo vem de 2013

Muitos governadores não gostaram do acordo entre o Governo Federal e os caminhoneiros. Já estão quebrados e não querem abrir mão do ICMS. Vai dar bode.

Em São Paulo, que não está quebrado, é ainda mais grave. O custo de pedágio alcança o valor total de um caminhão zero quilometro antes que seu financiamento seja quitado.

E a coisa piorou em 2013. Com o levante contra os vinte centavos em 17 de junho, que incluía a tarifa de metrô e CPTM, a solução do governo do estado foi passar a cobrar pelo eixo que não está rodando, ou o terceiro eixo que vai suspenso quando o caminhão está descarregado.

Agora, por que o pedágio é tão caro? Porque o concessionário, prevendo essas idas e vindas, a insegurança jurídica dos contratos com governos, aumenta sua margem para compensar o risco.

Se a gente conseguisse cumprir pelo menos um combinado, talvez o custo Brasil fosse diferente.

 
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Química, sociologia e a explosão iminente – ou Parente, ouça o Montoro

Combustível espalhado havia. Muita palha seca por aí. Faltava uma faísca. Ou um gatilho. E foi justamente o que o governo fez: criou um gatilho para reajuste de preços de combustíveis na Petrobrás. Quer dizer, misturou gatilho com combustível. Deu no que deu.

Só no ano passado foram mais de cem aumentos no preço dos combustíveis. Desses mistérios inexplicáveis, a população aguentou quieta. Mas bastou o dólar disparar – Argentina, taxa de juros nos EUA etc – para deflagrar a revolta.

Como de costume, quem depende diretamente do preço se levantou antes: os caminhoneiros. E como o Brasil depende diretamente dos caminhoneiros, o país parou. Em três dias o desabastecimento colapsou as cidades. Falta gasolina nos postos, aeroportos e até alimentos e remédios em algumas praças. No campo, leite literalmente derramado por falta de distribuição e produção proteína ameaçada por falta de insumos (a ração que não chega). Na indústria, todas as montadoras pararam de produzir. Exportação, nem pensar. E até a cerveja está ameaçada.

Mas calma, freguesa, porque deve piorar. O que há nas ruas é efeito de quem depende do óleo diesel, que tem mais força porém menor potencial explosivo. Com o acordo feito entre o governo e os caminhoneiros, basicamente o imposto sobre o diesel deve cair e os reajustes serem anunciados com um prazo maior.

Deve piorar porque, além do acordo não garantir o fim do incêndio, a hipótese de normalização do abastecimento vai manter o gatilho sobre a gasolina, combustível que, apesar de gerar menos força, tem maior poder de explosão. Como a chance do dólar se acalmar é pequena ou quase nula, o preço vai continuar subindo. E aqui a química encontra a sociologia: donos de automóveis, motoboys, taxistas, uberistas vão explodir.

Enquanto isso as torcidas organizadas do jogo político insistem em direita e esquerda, como se ainda houvesse um meio de campo em Berlim. Ficam na briga eterna entre Estado e mercado, como se a convivência fosse impossível. Não é. A saída é pela terceira via, ou como dizia o Franco Montoro: “nem o punho cerrado da luta de classes, nem os braços cruzados da indiferença burguesa, mas os braços abertos da solidariedade cristã.”

Traduzindo, Parente caríssimo, a lógica cega do gatilho de preços num país que depende fundamentalmente dos caminhões, funcionou tanto quanto os punhos cerrados da luta de classes que quebrou a Petrobrás na primeira metade desta década. É preciso um meio-termo. Ouça o Montoro. Aliás, se ele tivesse sido ouvido, teríamos hidrovias e ferrovias, dependendo menos de ferrovias e petróleo.

 
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Transporte de carga é transporte coletivo

Meu sogro Manoel Sousa Lima tomou posse no Setcesp decidido a ser o presidente da transição, isto é, marcar o mandato com a transmissão do comando entre a geração dele e a atual – o que acabou se confirmando e, hoje, o presidente é meu amigo Tayguara Helou, (bem) mais novo do que eu.

Palpiteiro incansável, soprei para o Mané que ele poderia acrescentar uma utopia à gestão: construir a narrativa de que transporte de carga, ou abastecimento, é transporte coletivo. Lógico: o que determina a coletividade é o número de pessoas atendidas no final do transporte, e não quantas pessoas vão a bordo.

Óbvio, mas sequer os empresários do setor acreditavam. Caminhão era o vilão do trânsito e assim seria para sempre.

Porém fiz as contas e insisti que, com a determinação do então prefeito Fernando Haddad em privilegiar o transporte coletivo sobre individual em seu mandato, era o momento ideal para botar o bloco na rua.

Com hábil suavidade o Setcesp estreitou laços com a prefeitura, apresentou dados mostrando que, além de fundamental, o caminhão representa muito pouco no espaço viário, principalmente se comparado aos automóveis e, bingo, Haddad comprou e bancou a ideia.

Hoje o transporte de carga é reconhecido como transporte coletivo no Plano Diretor.

E hoje também aprendemos, na marra, que sem transporte de carga, não há vida nas cidades.

 
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Burrice humana e inteligência artificial

Crônica publicada no Esquina/Estadão em 23/05/2018

A burrice como barreira para a inteligência artificial. Para não ser indelicado, notadamente nesta Esquina sempre tão simpática, adianto que, por burrice, entenda-se teimosia. Até porque, por ora, quem desenvolve a inteligência artificial somos nós, os humanos – ou alguns dos nossos pares mais inteligentes.

A notícia que sacudiu o setor neste início de maio foi o êxito do Google Duplex no Teste de Turing. Conforme afirmou John Hennessy, ex-presidente da Universidade de Standford e membro do conselho da Alphabet, holding que controla o Google, o robô se provou capaz de fazer por telefone uma reserva em um restaurante. É a segunda vez na história, desde que o matemático britânico e pai do computador Alan Turing criou o teste, nos anos 1950, que um computador passa na prova. O primeiro foi o robô Eugene Goostman (homem fantasma?), que simula um garoto de treze anos trocando mensagens de texto. No Brasil chamar-se-ia Gasparzinho :-)

De carona com o Duplex recebemos outras duas grandes novidades. Dentro de alguns meses, na cidade de Phoenix, a Waymo, também controlada pela Alphabet, deve começar uma operação semelhante a do Uber, só que em carros autônomos, isto é, sem motorista. E o Google Assistant anunciou uma função que permite ao usuário encomendar um café na Starbucks.

Voltemos, pois, ao Duplex. O que ninguém informou é quem avisa o robô onde, quando e com quantas pessoas o ser humano pretende jantar. Suponho que seja o próprio ser humano e, em se tratando de jantar fora, embalado por seus instintos mais primitivos: fome, amor, sociabilidade.

Daí que me pergunto por que não informar diretamente à pessoa do outro lado da linha ou mesmo um robô do próprio restaurante.

Entendo, é claro, que é só um teste. E que seria muito bom ter um robô para falar com os robôs que os bancos, telefônicas e outras empresas já usam para falar com a gente, frequentemente nos levando à loucura, ainda que, neste quesito, ainda estejam muito distantes dos operadores de telemarketing. Mas continuo me perguntando se melhor não seria que os bancos, telefônicas e outras empresas se empenhassem no princípio de fazer a nossa vida mais fácil, e não mais difícil.

E é aí que entra a teimosia – ou a burrice – humana. Minha geração é divertida. A gente se conhece pessoalmente e imagina uma possibilidade de relação. Então trocamos algumas mensagens por Whatsapp para combinar data e horário para um “call” via Skype. Data e horário definidos, chega um e-mail para confirmar que haverá o “call”. Este que, se exitoso, nos levará a uma reunião presencial, provavelmente numa loja da Starbucks. Nossa prosperidade tecnológica parece estar transbordando.

Enquanto isso, numa cidade como São Paulo, o abastecimento de água e energia ainda depende da presença física de um funcionário para conferir o consumo e ligar ou desligar o fornecimento.

Das perguntas expostas ante o anuncio das inovações, duas se destacam. A primeira, tão humana, é a financeira. E a Alphabet explica: “com o Assistant, por exemplo, podemos ganhar na intermediação da compra do café.” Fico até emocionado. Descendo de agricultores e corretores de café que talvez nunca tenham imaginado em faturar na corretagem no estágio da xícara.

A outra questão é ainda mais humana, porém esquecida nos últimos tempos: ética. Nos testes, os humanos do outro lado da chamada pareceram nem desconfiar que falavam com um robô – exatamente como já acontece com telemarketing, inclusive com vozes de celebridades, que importunam possíveis clientes sob a lógica de que, por ser tão barato, compensa incomodar 99 pessoas para ganhar um freguês.

E há também a questão da privacidade, que apesar da voga atual, passou ao largo da apresentação. É claro que o seu cartão de crédito já sabe, usa e vende os dados sobre os seus hábitos de consumo. A novidade aqui é que o robô do Google promete ser ainda mais eficiente – e perigoso.

Puxando brasa para a minha sardinha deixo a questão derradeira: quantos filósofos integram o conselho da Alphabet?

 

 
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Olho em Berlim

Crônica publicada no projeto Esquina / Estadão em 03/05/2018

Carles Puigdemont, figura central do independencionismo catalão, está preso. Não mais na cadeia, como chegou a ficar em Neumuenster, norte da Alemanha, e de onde saiu sob fiança de 75 mil euros, mas na cidade-Estado de Berlim, em liberdade condicional.

Posso estar errado e certamente estou sozinho. Mas acho simbólico. E também acho que essa temporada pode ser boa para o mundo inteiro. Só depende de mais e melhor atenção.

Antes de prosseguir, é importante traçar algumas fronteiras: desprezo o nacionalismo, bairrismo me dá preguiça e, entre os raros assuntos que não tolero debater, está o separatismo xenófobo com seus muros e afins.

Do outro lado, sou apaixonado pelas culturas locais, modos, hábitos, tipos, comidas, causos, canções, ares, águas e qualquer coisa capaz de identificar um lugar. Acredito em terroir. Tenho certeza essa disposição em conhecer peculiaridades alhures é parte fundamental da civilização.

Voltemos a Puigdemont. Ele é acusado pela Justiça espanhola de rebelião por ter chamado o referendo separatista e de ter usado recursos públicos para promove-lo quando presidiu a Catalunha. A Justiça alemã achou a acusação exagerada e soltou o catalão em Berlim, negando a extradição pedida pela Espanha – que por sua vez segue insatisfeita e promete recorrer à União Europeia.

Com a escalada do processo, creio eu, ganha a humanidade. Quanto mais gente se envolver no debate, melhor. Porque é inexorável. Temos que enfrentar.

Ainda na Espanha, a voz rouca das ruas murmura no País basco e na Andaluzia. Na Bélgica, flamengos andam assanhados. No norte da Itália e no sul do Brasil renascem movimentos históricos. Assim como no sul da cidade de São Paulo, com Santo Amaro voltando a falar na autonomia que já teve. A lista é longa e vasta. Quebec, Tibete, Saara Ocidental, Zanzibar, Chechênia, Curdistão. E as ilhas? Córsega, Havaí, Groenlândia, Nova Caledônia, Madeira, Escócia – isso sem falar na própria Inglaterra com o Brexit. E há mais. Então é claro que temos que debater o assunto.

A proposta de independência varia tanto quanto o prato típico de cada um desses lugares. Entrar nas particularidades seria gastar energia à toa. E, pior, poderia dar palanque aos radicais e populistas que não o merecem.

Reconheço que soa contraditório meter uma frase como a que encerra o parágrafo anterior numa crônica aberta com o nome de Carles Puigdemont. Mas por outra, ele está em Berlim que, agora sim, deve ter papel igual ao de uma babá alemã na educação de um menino mimado e servir de referência a todas as cidades que se encontram nesse estágio de adolescência procurando afirmar identidade e ganhar autonomia.

A importância de Berlim como sede do debate supera o poder político e econômico da Alemanha na Europa e no mundo. Está além da efervescência cultural. Ultrapassa o exemplo de ser uma das cidades que mais recebe refugiados. Vem de séculos.

As aspas a seguir são do artigo O Federalismo Alemão e o modelo das Cidades-Estado – Uma abordagem político-jurídica da história e do desenvolvimento do princípio estruturante alemão com enfoque especial nas cidades-Estado, de autoria das pesquisadoras Isabelle Schaal e Lisa Galvano, publicado no caderno Megacidades da Fundação Konrad Adeneuer, cuja leitura recomendo na íntegra.

“Desde a Idade Média, as regiões alemãs encontravam-se divididas entre os chamados príncipe-eleitores, que tinham a incumbência de eleger o imperador. Durante o Sacro Império Romano da Nação Germânica já se podiam reconhecer estruturas federais, se tomarmos como exemplo a Liga Hanseática alemã. Um marco decisivo na configuração de elementos federais foi a Paz de Vestfália firmada no ano de 1648: a partir desse ponto o imperador dependia, no tocante a assuntos importantes que concerniam ao Império, primeiramente do consentimento do Parlamento. Para aqueles que mantinham um assento no parlamento (os chamados estados imperiais), seu domínio territorial continuava a ser reconhecido, o que significava um deslocamento de poder justamente para aqueles senhores feudais; com a continuação, isso resultou em que os estados territor iais de grande porte fossem ficando cada vez mais livres da influência do Império.”
(…)
“Com base nesses dados, pode-se afirmar, de modo resumido, que certamente se pode concordar com a tese de (Karl) Loewenstein [“quem quiser estudar o federalismo em seus últimos requintes (…)” terá de “ater-se ao exemplo da Alemanha, que já o pratica há séculos”]. O federalismo goza de longa tradição na Alemanha e surgiu, ao longo dos séculos, em diversas formas e variantes, em diversos contextos e como base para diferentes objetivos. A estrutura existente nos dias de hoje, que se baseia na Federação e nos estados federados, há muito se encontra consolidada, além de mostrar o elemento regional: interessa também possibilitar uma ‘integração’ em estruturas regionais específicas e com características históricas, assim como criar espaço para especificidades e peculiaridades regionais, o que ganha especial r elevância no âmbito das cidades-Estado”.

Isto é, toda essa tradição alemã, comprovadamente exitosa, pode servir à humanidade como exemplo. Não precisamos nos separar. Muito pelo contrário. O ideal é que haja maior possibilidade de integração, não só entre as nações como também entre os continentes. Mas até por essa escala de relações internacionais vertiginosa, as questões regionais devem ser observadas para servirem como guarda-mancebo às comunidades locais. Como dizia o governador Franco Montoro, “ninguém mora na União ou nos estados, as pessoas moram nos municípios”.

Tudo isso abarca desprendimento dos atuais detentores do poder e dos pretendentes. Descentralização ainda causa calafrios no jogo político. Aproximar as decisões sobre políticas públicas de quem mais interessa, que é a população, é um desafio para estadistas.

O Brasil é um caso de urgência. Na última eleição presidencial a candidata eleita tinha entre suas propostas construir creches. Pode, em sã consciência, alguém delegar à Presidência da República a responsabilidade de identificar e destinar investimento tão particular a cada localidade? Por essas e outras, deu no que deu e o redemoinho continua.

Em entrevista recente para o especial Desafios para 2019 do Estadão, o economista Eduardo Gianetti da Fonseca mostrou como os recursos se perdem nesse caminho tão distante, citando estudo do Banco Mundial que aponta que, em Saúde, poderíamos ter desempenho igual gastando 30% menos.

O problema, segundo o economista, está no “pacto federativo mal resolvido, gerado pela Constituição de 1988. Se tudo tivesse ido bem, o crescimento dos gastos nos estados e municípios acompanharia a redução dos gastos do governo central. Mas os três níveis cresceram ao mesmo tempo. A sociedade passou a carregar dois Estados superpostos, no que chamo de federalismo truncado. A solução do problema fiscal brasileiro passa por corajosa mudança no desenho do pacto federativo. Menos Brasília e mais Brasil. Diminuir o governo central e dar a estados e municípios mais autoridade para tributar. O dinheiro público deve ser gasto o mais perto possível de onde é arrecadado”.

Me arrisco a dizer o seguinte: para o Brasil e para o mundo a saída é clara: seguir a orientação do Gianetti da Fonseca ou enfrentar a onda separatista. Lembrando que a questão é de reconhecimento, não simplesmente financeira. Para usar os alemães, é mais Hegel e menos Marx. Por isso, olho em Berlim.

 

 

 
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