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Marmita é símbolo do nosso fracasso

Que é que você trouxe na marmita, Dito?
Truxe ovo frito, truxe ovo frito
E você Beleza, o que é que você troxe?
Arroz com feijão e um torresmo à milanesa

Tenho horror à marmita. Ou, antes, atendendo ao chamado do embaixador Azambuja, admito que é exagerado dizer horror. Mais exato é dizer que a imagem da marmita me entristece, aborrece, traz sensação de fracasso.

Claro que o bode não é com a própria marmita. Delas mesmo eu gosto e muito, desde as de aço, aparentemente eternas, até as mais desenvolvidas e cheias de bossa como as vendidas na loja do Bento.

Também curto um farnel, cesta de piquenique e esses iglus ou caixas-térmicas, tanto quanto os momentos a eles relacionados. Uma cerveja gelada na praia, um sanduíche no intervalo da leitura no parque, qualquer coisa crocante acompanhando uma conversa molhada ao ar livre. Aliás, o que pode ser mais livre do que apear do cavalo e sacar um canivete para mordiscar linguiça com pão e beber vinho direto de um odre compartilhado com gente querida? Ou mais desobediente e subversivo do que uma hip flask que surge onde era para todo mundo se comportar? Amo muito tudo isso.

E que simpatia os gaúchos carregando cuia e garrafa térmica. Ou aquela foto de camponeses franceses almoçando debaixo de uma árvore num pasto ermo que ficava no banheiro do primeiro andar do Bar da Dona Onça.

Em dias amenos tenho trabalhado em um texto no parque e, às vezes, levo um quibe e duas esfihas do Rosima para acompanhar. Outras, vou de hossomakis.

Me lembro com carinho de uma cesta de vime coberta com um pano que passeou bastante comigo e Fabinho em Paraty. Quem olhava, via a chapeuzinho vermelho. Descoberta do pano, a cesta revelada o plano: tudo para Negroni, incluindo meias-luas de laranja num pequeno tapoé. Me lembro de quase tudo.

Enfim, meu bode é com a marmita urbana. Não com quem a consome, claro. Mas com a cidade em si. Sinto a dor do fracasso de uma cidade quando, essa maravilha que é a aglomeração e organização das pessoas em meio a um espaço comum, se mostra incapaz de prover comida boa e saudável a qualquer tempo para seus habitantes. Para mim não faz sentido que ao cidadão que sai de casa seja preferível, por qualquer razão – notadamente se financeira – carregar a própria comida. Uma cidade que não distribui comida boa renda que a torne acessível aos seus habitantes tem que reconhecer o fracasso retumbante.

Sobre os tantos e tantos que sequer a marmita têm, horror é uma palavra que não só cabe como talvez seja amena – e o embaixador Azambuja há de concordar.

 
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Duas impressões sobre o DataFolha de 2 de setembro

A rodada DataFolha deste 2 de setembro, por ora publicada com os filtros de análise ou reportagem, traz um dado previsível e uma novidade impressionante.

Previsível é consolidação do bolsonarismo. Sim, o governo atual bate recordes históricos de reprovação, que por sinal cresceu de 33% para 38% desde o começo de julho. Mas da aprovação, que caiu de 33% para 29% no mesmo período, o que se pode dizer é que oscilou para baixo, indicando que se fortalece, isto é, perde gordura, mas mostra musculatura.

Meu palpite já antigo é que o presidente Bolsonaro joga para sua base pré-facada, que considero entre 15% e 20% em função do índice de intenção de votos da véspera do atentado, que era 18%. A partir daí ficou livre do debate, ganhou dez minutos diários de Jornal Nacional e manchetes consecutivas em todos os jornais, surfando na comoção popular somada ao ganho de exposição.

Mas como apesar desses oito meses desastrosos, com tantos prejuízos acumulados e em maioria absolutamente evitáveis, ele mantém em torno de 1/3 de aprovação, passo a acreditar que há dois tipos de bolsonaristas: o muscular, exibido, disposto a defende-lo pessoalmente seja lá como for (19% acham que ele está sempre certo); e os encabulados, no mínimo mais 10%, que emocionalmente gostam do estilo mas racionalmente sentem vergonha de assumir e se escondem atrás dos ministros PaGue ou Moro, ou ainda do antipetismo.

É interessante notar como esse terço da população que aprova o governo não raciocina. Entendo quem votou nele contra o PT ou até a favor do combate à corrupção e o fim da mamata. Eu mesmo, que sempre soube da corrupção e das mamatas da BolsoFamília, não notei o que estava na cara: são milicianos. Mas depois desses oito meses só dá para classificar quem aprova o governo como idiota ou cumplice.

Vejamos. No combate à corrupção Bolsonaro interferiu em benefício próprio na Receita Federal, na Polícia Federal, no COAF, protege o filho e seus ministros corruptos, dá nota 10 para o Queiroz.

Na mamata, quer fazer um filho embaixador, manda o helicóptero da Presidência traslar a parentalha para o casamento do mesmo filho, rala o cartão de crédito corporativo, esparrama honrarias para a própria família, demite o fiscal que o autuou.

Na Segurança Pública, bandeira cara à toda população, há índices gerais caindo desde o governo Temer, que especialistas creditam a uma trégua entre o crime organizado, principalmente tráfico de drogas. Mas a letalidade policial disparou, assim como agressão às mulheres e homossexuais, ataques à religiões de matriz africana e imigrantes, rompimento entre amigos e familiares, brigas de trânsito e muito, muito sangue virtual.

A política exterior é um desatino. Já arranjou-se enrosco com Argentina, Irã, comunidade Árabe em geral, Noruega, Alemanha. Com a França, de longe a Nação estrangeira que mais investe no Brasil, o comportamento do governo, incluindo o presidente, seus filhos e o embaixador do turismo internacional fica abaixo de qualquer nota.

Mesmo com governos aliados conseguiu, em seis meses, destruir uma delicada relação de décadas, caso do Paraguai, em função de Itaipu. O presidente paraguaio quase caiu e as investigações a respeito do rolo que por lá rolam começam com o suplente do senador Major Olímpio e alcançam a BolsoFamília.

Na política para o interior, outra lambança. Bola dividida com os governadores do Rio, de São Paulo, todos do Nordeste. Sobram caneladas para ex-aliados, de Frota a Kim MBL, malcriações e impertinências contra os presidentes da Câmara e do Senado.

O modus operandi é baixo. Disfarçados de transparência, dados do BNDES são usados para retaliar potenciais adversários como João Doria ou Luciano Huck. Sobra também para jornalistas e até para membros do governo ou empresários bolsonaristas. Que não reste dúvida: ninguém está seguro.

No meio-ambiente a promessa foi cumprida. O desmonte dos órgãos de controle do setor encorajou o médio-clero da produção rural, que literalmente tocou fogo no país. Os grandes produtores, preocupados com exportações e boa imagem empresarial, e os pequenos ou da chamada agricultura familiar, estão desesperados.

A economia patina. O bom-humor prometido com o avanço da reforma da Previdência não se verifica, talvez por tanta fumaça feita no Palácio, talvez porque seja inócua, tanto quanto foi a reforma Trabalhista de Temer. A milimétrica retração do desemprego colide com a expansão da informalidade e da precarização do trabalho, onde se destacam os profissionais topando um emprego muito aquém de suas qualificações e experiência para não morrer de fome.

O titular do MEC tem a Educação como prioridade terceira, atrás de esculhambar a “esquerda” e a imprensa. Diz o ministro: se não for para me divertir, estou fora. Na Saúde a única coisa que aparece é uma epidemia nacional de ira.

Para encerrar, o dado impressionante é que se a eleição fosse hoje Fernando Haddad venceria Jair Bolsonaro no segundo turno por 42% X 36%. No segundo turno da eleição 2018 o placar foi 55,13% X 44,87% a favor de Bolsonaro, claro. Mas para comentar este cenário só quando a pesquisa inteira estiver no ar.

 
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Mais Mulata

Bate o telefone na nossa casa de Juquehy. É o Edgard Queiroz Ferreira, em tom irritado, que não é comum. Perguntava se eu conhecia o Flávio Mulata. Entre me entregar perguntando por que e mentir, fiz a segunda opção: Só de chapéu, tio Edgard.

Dois dias depois ele aparece em casa. No segundo gole, incisivo, ele diz: Conheci SEU AMIGO Mulata. Fiz cara de relógio sem ponteiros. Ele continuou: a Barra do Sahy e parte da Baleia amanheceram sem água. Porque o Dadau e um amigo, Guga Escobar, numa manhã voltando da noitada em Maresias, resolveram testar um jipe no terreno onde fica a fonte que abastece toda a área. Atolaram. Como o Guga tinha um jipe supostamente melhor, foram buscar para tentar o resgate. Atolaram de novo. Então pediram socorro ao funcionário da prefeitura que operava a máquina que alisava as ruas de terra. Como também patinou, teve que acionar o sistema tarântula, que entrou fundo no chão e rompeu o duto, agravando o lamaçal e interrompendo o abastecimento geral. O terreno é do tio Edgard.

Não foi difícil descobrir onde era a casa do Mulata e lá foi ele, puto. Foi recebido, convidado a sentar, perguntado sobre o que queria beber. Explicou o caso.

Mulata chamou Dadau e Guga, passou um pito, pediu para o tio Edgard enfatizar e mandou os dois pedirem desculpas. Finalizou perguntando sobre o prejuízo e fez um cheque. Nasceu uma amizade.

O senso de justiça do Mulata era fantástico. Um dia ele chega no Zarvos e dá com uma cara desconhecida na recepção do escritório: Pois não? Este cartão é do senhor? Sim, Flávio sou eu. Então leia o verso, por gentileza. Era sua caligrafia (algo garranchada) dizendo: Bati no seu carro (estacionado), por favor me procure para acertar a despesa.

Aquele mesmo portão em que o tio Edgard bateu o Zé do Pé abria receoso, botava só o nariz para dentro e gritava: Flávio! Flávio! Oi, Zé, entra! Mas a Carmita está presa?

Zé do Pé, boêmio matutino e vespertino, raramente notívago, levantava cedo e ia à vila comprar pão, manteiga, leite. Um dia, antes das sete, conheceu um pescador que pedira um rabo de galo. Intrometido, disse: amigo, assim você se prejudica. E o pescador: o que tem hora para tomar é remédio. Virou lema da turma.

Não que fosse novidade. O pintor Clóvis Graciano, que tinha casa por ali, ia de manhã com a enfermeira à barraca da Isabel e pedia uma caipirinha, no que era censurado. Então dizia: ok, me dá uma cerveja antes, porque não me deixam beber em jejum.

Zé do Pé precisava ser simpático com a tia Carmita. Porque fazia muita grosseria. Para a viagem desde São Paulo, propunha: Carmita, eu vou no banco da frente e você volta atrás.

Uma vez foi expulso da casa da Ibsen da Costa Manso. Cozinhando um cordeiro, disse a convidados refinados que o prato proporcionava “bosta grossa”. Revoltado, saiu com a faca de cozinha e acabou com a roseira do jardim frontal. Ocorre que a poda brava resultou numa safra de flores jamais vista. Outra amizade “carne e unha” brotava.

Outro amigo acolhido e depois expulso foi o Julinho Toledo Piza, ou Julinho do Lenço, para distinguir do Julinho Parente. Numa fase de ajuste fiscal, foi morar na edícula da dona Carmita. Tudo correu bem até que a empregada reclamou: Julinho estava espiando a moça na hora do banho. Teve que sair.

Julinho, Mulata e eu entramos juntos para a Confraria do Gato, fundada num voo de longa distância equipado com bar na popa. Carlito Guimarães e Vavá Viacava foram os inaugurais.

Para fazer passar a viagem, cantaram a música-debate sobre o gato que bota ovo. Gentilmente, traduziram aos companheiros de bordo que desconheciam a Flor do Lácio: bitch have a baby / my cat put a egg / cat don’t put egg / bitch have a baby again.

De volta ao Brasil, contaram aos amigos da fundação da confraria e o critério para adesão: trazer uma música com gato. Entramos com a que o Paulo Vanzolini fez para o Adoniran Barbosa. Julinho adora, Mulata tinha afinidades pela “espanhola” e pelo coelho presente. “O pivô, do enguiço foi um gato / pertencente a cidadão / por nome de Rubinato / o miau sumiu, ele botou, o dedo ni mim / Só porque me viu / encourando um tamborim / … / eu provo que o tamborim eu fiz com o gato da espanhola / Seu Rubinato, vou lhe dar um bom conselho / Você arranja outro gato e a Marli lhe ensina a fazer coelho.

Mulata adorava piadas com seu nome. Vestia sempre uma camiseta de gola bem careca estampada com a imagem de uma praia chamada Long Leg. Perguntado sobre onde era a praia, respondia: charada.

Um dia ganhei um cruzeiro de presente. Ismar Freitas tinha comprado para os amigos e o Luciano Fleury Filho não pôde embarcar. Avisado de última hora, fui atrás de um maiô, mas parei para almoçar na Dona Onça. Grande equivoco! Encontrei Mulata e Edmundo juntos. Grande encontro! Eu só tinha que comprar o maiô, mas o Mulata tinha que ir à OAB levar um documento que permitiria à Carmita votar no próximo pleito. Nem um, nem outro plano acabaram realizados.

Na saída, a conta daquele estacionamento no delta entre a Ipiranga e a Araújo, como sempre, era exorbitante. Mulata cravou: não pago! E fugimos.

Ocorre que o carro tinha sido de um flamenguista, que o equipou com um alarme que tocava o hino do clube, e que obviamente o Mulata não sabia desativar. Então fugimos como um trio elétrico, “uma vez Flamengo, sempre Flamengo…” pela Ipiranga, São Luiz, Consolação – que ao encontrar a Araújo impede a gente de continuar. Tivemos que passar mais uma vez pelo estacionamento, e a turma deles querendo pegar a gente na calçada.

A próxima parada foi na Margherita do Esquerdinha. Edmundo, morando em Paraty, queria rever todos os amigos possíveis. Passa uma senhora vendendo flores e a gente arremata, já prevendo que o Mulata precisaria acalmar Carmita.

Problema: na terceira parada, bar do Beto Ranieri, tinha uma moça bonita, que ficou com o buquê.

Mulata é o advogado mais atual do Brasil. Na crise em que se encontra o mercado editorial, incluindo livrarias, sua tese vencedora merece ser lembrada.

Falencista, ele pegou o caso de uma editora cuja falência fora requerida por um fornecedor defendido pelo seu amigo João Câncio Leite de Melo (saudoso professor que me ensinou usar abotoaduras e beber Dewar’s). O hoje desembargador Tasso Duarte de Melo, então menino, lembrou da história. A tese vitoriosa do Mulata foi que não se pode quebrar uma empresa que, num país refratário à leitura, rema contra a corrente. Tasso lembra que, desde então, Mulata chorava sempre que encontrava os Melo pai e filho. Está em tempo de virar lei.

Preciso encerrar. Estou num batidão emocionado e não consegui ir ao velório do meu amigo. Mas bebi bastante negroni enquanto houve sol ontem, e depois uísque, lá no Beto Ranieri, à moda do doutor Edmur Nunes Pereira, onde dormi no colo do Luiz Fernando Pacheco depois de ganhar sanduiche de pastrami na boca.

Mas antes preciso lembrar de quando o Edmundo Furtado foi morar na Bahia, trabalhando no hotel do João Paulo Zumbi Arruda, praia do Espelho. Deixou as roupas urbanas na casa do Mulata, em São Paulo. Um dia, o amigo se acha sem o que vestir com gosto e visita o armário emprestado. Queria um tweed diferente. E havia vários. Experimentou e então, aos poucos, foi levando ao alfaiate para ajustar ao próprio corpo. Hoje Edmundo continua em praia, em Paraty, e não precisa dos paletós.

Mulata adorava subverter canções. Solenemente cantava com Armando Conde, o banqueiro boêmio: é sempre bom lembrar, que um copo vazio, está cheio de ar. E com os hinos fazia o inverso.

Depois do “parabéns a você”, quem quer que fosse o aniversariante, era saudado com o hino da Independência: Já podeis da Pátria filhos / Ver contente a mãe gentil / Já raiou a liberdade / No horizonte do Brasil / E quem não gostar do Mulata, vá pra puta que o pariu!

ERRATA: a história do single malt que o Casarini trouxe dos mestrado no Reino Unido é diferente. Mulata queria tropicalizar e beber com gelo. Casão dizia que bastava uma lágrima de água mineral. Nisso vira a telha e cai um granizo no copo do Casarini. E o Mulata: Falei que era com gelo!

Brasilianista, Mulata defendia nossa cultura mas, respeitando a norma do pai, Luis Lopes Coelho, dizia que “a gente não deve beber folclore”. Quer dizer: uísque não tem erro.

Mas o carro naquela viagem estava perfumado por três caixas de caju do Casarini, que os preparou com cachaça. E o Mulata acompanhou. Acordaram à três da manhã, cada um num sofá, casa fechada, todos recolhidos, Carmita uma arara. E o Mulata: Falei que beber folclore não dá certo!

 
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Ô loco!

Era uma noite de verão dos meus quinze anos. Na véspera eu capotara o carro da minha mãe descendo o morro do Cambury no sentido da Baleia. E para voltar do Flamingo, bar que a turma usava naquele então, arranjei carona com minha amiga Marina Coelho.

Quando entro no carro, percebo dois jovens senhores como que escondidos no banco de trás. Eram Flávio Mulata Lopes Coelho e Carlos Vavá Viacava. Tinham saído escondidos da tia Carmita, num trato com a Marina, que fora flagrada roubando o carro: ninguém cagueta. Mulata, Carmita e Marina são pai, mãe e filha.

Mulata e Vavá falavam da importância de nós, jovens, estudarmos muito, sobretudo matemática – caso contrário correríamos o risco de virar pato em mesa de sinuca.

Logo a prosa evoluiu para o meu acidente, que estava comentado na praia. Contei mais ou menos o ocorrido, mas o Mulata não ficou satisfeito. Faltava saber como eu tinha resolvido os problemas óbvios que decorrem de um capotamento. Respondi que essa parte era da minha mãe, a minha foi só capotar. Ele repetiu a história sempre que me encontrou nos 25 anos seguintes.

Pouca gente era tão amiga dos amigos como o Mulata. Gostava de todos presentes, mas não cobrava ninguém. “Amigo não tira extrato.” E criava eventos para que todos se encontrassem. Por exemplo, copa do mundo. Casa aberta para todos os jogos, não só os do Brasil. Nos dias que ele não podia estar, a turma comparecia mesmo assim. Sei lá, Tanzânia X Sealândia às 15h00. E ainda pediam para a Carmita fazer pipoca e tirar gelo para o uísque.

Outro evento, e com a vantagem de ter todo ano e ser continuado eram os preparativos para o carnaval. Mulata comprava o LP dos sambas-enredo e convidava os amigos para decorar as letras. Ismar Freitas Jr. não perdia uma. Era pelo menos janeiro inteiro, todo dia. E ele próprio era compositor. Quem se lembrar da letra do Samba da Barra do Sahy, por favor anote nos comentários. “Gosto de você mais do que brincar o carnaval” era uma de suas frases para demonstrar ainda mais afeto.

Também dizia, ao ver um casal junto: dá uma namoradinha aí. Ou, para juntar os amigos, propunha: vamos fumar que nem louco? Inquieto, não deixava ninguém sem gelo. Repetia sempre: gelo não pode boiar.

Dedicou-se muito ao etilismo. Em vasta quantidade mas sempre com qualidade sem igual – e aqui não vai exagero. Ou você conhece alguém que já fez Bellini espremendo os pêssegos na hora? Mulata sim, e João Augusto Pereira de Queiroz e Edmundo Furtado podem confirmar.

Seu coquetel predileto era o Negroni. A receita, impecável, fazia as bebidas se juntarem naturalmente, desde que a ordem de entrar no copo fosse respeitada: gin, Campari e Carpano.

Quando o Mulata entregou a mão da Marina ao Germano Fehr, quem celebrou o matrimônio foi o Lelo Gordo e eu fui coroinha. A comunhão teve sanduíche de pernil do Estadão e a benção foi com uísque.

Um dia o Marcelo Casarini chegou da Inglaterra com mania de single malt. Lá na Barra do Sahy a turma já estava bem curtida desde a praia, passando pelo churrasco, quando resolveram abrir os trabalhos de degustação. Carmita foi contra: era o bastante para um dia, e vinha pedir para a turma ir dormir de tempos em tempos. Então deu uma chuva de verão com granizo que virou uma telha da casa de pescador e uma pedra caiu dentro de um copo. Efeito geral: se contar ninguém acredita. E o Mulata: ah, mas a Carmita vai ter que acreditar, ela gostava muito do papai e é claro que só pode ser ele aqui com a gente.

Era o advogado e escritor de contos policiais Luiz Lopes Coelho, grande falencista, de quem Mulata herdou a banca. Seu maior desejo era que a OAB permitisse propaganda de advocacia, quando ele instalaria no Viaduto do Chá um neon piscando alternado: Lopes Coelho – falências / concordatas / falências / concordatas.

Um dia fui à cidade almoçar no Clubinho e encontrei Mulata e Dadau. Eles tinham uma reunião importante e não podiam se estender. Dadau saiu antes para ir preparando as coisas no Zarvos e Mulata ficou. E foi ficando, ficando. De repente, deu um pulo. Estava em cima da hora. E sobrou um protesto para mim, que tinha ido com um parado para trocar a pilha na cidade.

Jogou muita bola. O time do Pinheiros mais famoso contava com ele, Alfredo Alemão Zanussi, Armando Arruda Camargo e Esquerdinha, que tem a foto exposta no bar da pizzaria Margherita.

Quando montei meu restaurante na Barra do Una, batizei de Mulata, e botei no cardápio a farofa de ovos da Márcia, caseira da casa deles na Barra do Sahy.

Já vou encerrar, mas é impossível não falar do Roberto Oliveira Reis, que estagiou no Lopes Coelho e, quando resolveu voar, foi elegante em levar um litro de um uísque fino ao Padock para agradecer. Como não tinha o rótulo na casa, Reis teve que sair várias vezes para encher o vasilhame.

Num aniversário de bodas de data redonda, Carmita e Mulata receberam os amigos para celebrar. Mulata saiu cedo do Zarvos e estacionou no posto da Rua Araújo para abastecer, ver o pneu, a água, essas coisas que ele detestava. Para evitar o tédio em dia de festa, preferiu esperar o serviço no boteco em frente.

Eis que entra um sujeito sujo de tinta e o Mulata puxa assunto: “Amigo, você é pintor? Estou com um problema no escritório, tive um vazamento e tal. Toma aqui meu cartão e passa lá quando puder, por favor. Aceita um gole? E o que mais você faz? Toca cavaquinho?” Resumindo: Mulata quase perdeu as próprias bodas. Quando se deu conta, telefonou à Carmita e disse: “Meu amor, estou a caminho. Vai arranjando uma desculpa para mim porque as minhas acabaram.”

Mulata faleceu na manhã de hoje e as desculpas se acabaram de vez. Ele estará conosco para sempre, em todas as rodas, todos os bares, todos os encontros.

 
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AVISO

Porque é agosto e creio que esta freguesia merece, tentarei passar o mês em férias desta página e especialmente das redes sociais. Espero voltar na primavera. Até.

 
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Sobre grades, fronteiras e gangorras ou vem, Rael

Não sei se a turma da rua queria jogar vôlei ou se a vontade era só aprontar alguma. O fato é que Japa, Júnior, Peão, Peidolfô ou Arrotolfo, eu e outros decidimos pular o portão de uma casa desocupada e usa-lo como rede entre os times da garagem e da calçada.

A casa já tinha sido alugada para diversas atividades. Escola, escritório, puteiro. Mas a maior parte do tempo esteve vazia e sem função, situação que, somada à ociosidade criativa da molecada, acabou em jogo de vôlei.

Corria bem a partida quando um carro estacionou com certa agressividade e dele saltou um casal enfurecido. Eram os donos do imóvel vazio. O time da calçada correu, cada qual para seu prédio. Mas eu e os companheiros que defendíamos o chão da garagem não tínhamos como escapar com o tiozinho muito bravo gritando junto à grade.

Ele dizia que era invasão, que podia atirar, que ia chamar a polícia, que a gente seria preso. Alguns do meu time se desesperaram. Se não me engano, um chegou a ajoelhar e pedir clemência. Em vão.

Sei lá como funciona a minha cabeça, mas desde moleque tendo a sofrer com ansiedade quando prevejo um problema. Depois que acontece, quando a cagada vira um fato, reconhecível, analisável, relaxo e volto a raciocinar com calma.

E assim, nem aí, eu encarava o dono da casa e sua senhora. Quando enfim ele parou de gritar, se mostrou indignado com a minha cara de relógio sem ponteiros. Então pedi desculpas pela invasão, disse que não havia prejuízo e que não faríamos de novo. E que ele podia usar a chave para deixar a gente sair ou poderíamos pular o portão, como havíamos feito para entrar. Talvez por apego à ordem, ele abriu a grade, deixou a gente sair e xingou mais um pouco. Ainda sugeriu que queria conversar com os nossos pais, mas era tarde. Ficou falando sozinho.

Em seguida, reunida a turma, minha calma virou assunto. Logo o gordo ansioso, o mais mimado, na hora da dura, ficara tranquilo. Como?

Hoje eu acho que a soma das fraquezas é que produziram uma força. Por ser ansioso eu sabia que podia dar problema e de alguma maneira me preparei, mesmo que inconscientemente. Por ser gordo, correr não era uma opção, ou pelo menos não se considerando que todos corriam mais do que eu. E principalmente sendo mimado, filhinho da mamãe, eu sabia que era protegido, que com a polícia não daria nada – ou anda ficaria pior para o adulto – e muito menos aquele senhor agrediria meninos brancos, de classe média, usando tênis importados e morando em paróquia “nobre”.

Com a boa notícia que encerrou julho, do brilhante arquiteto e professor de Berkeley Ronald Rael, que instalou gangorras na fronteira entre o México e os EUA, a história da turma da rua foi pescada pelos meus algoríntimos.

Rael e sua equipe pensam no brinquedo há dez anos, lembrando que o muro vem sendo construído desde muito antes de Trump, mas que deixaram de falar sobre. Boa gente, o arquiteto enxerga o lado positivo do muro como discurso eleitoral, porque acende o debate.

Este modo de pensar está no cerne da ideia genial da gangorra: a ação de um lado que provoca uma reação do outro, o equilíbrio que vem do desequilíbrio, o trabalho de um que depende do trabalho do outro, a empatia obrigatória entre as pessoas que nela brincam.

A brincadeira durou pouco, mas não por impedimento dos guardas de fronteira mexicanos ou estadunidenses. Estes não interferiram e alguns até sorriram. Durou pouco porque era mesmo um evento – muito bem sucedido – e a segunda fase é passear com a ideia por aí.

Rael, por favor venha aqui para o Jardim Paulista, na cidade de São Paulo, Brasil. Aqui os chamados bairros verdes, que teriam jardins por toda a parte, estão hoje cercados por gradís muito parecidos com o que divide Ciudad Juárez e o Texas. Pelas calçadas, entre os mais de cem mil desabrigados paulistanos, há muitas crianças, vendendo pano para a classe media passar, pedindo fraldas e leite em pó. Dentro dos condomínios, outras tantas crianças, todas presas e separadas de seus pais, vigiadas por babás. Seria ótimo a gangorra da sua turma para que elas pudessem brincar.

 
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Covarde e cara-de-pau

Nada, absolutamente nada justifica o que saiu da boca do presidente da República ontem. Ele já tinha feito outras dessas em sua lamentável trajetória, mas depois de empossado, mesmo considerando o nível de sandices proferidas todo dia santo, não havia chegado a tanto.

Já comentei o aspecto moral, lamento profundamente o prejuízo emocional da população, e é óbvio que haverá consequências políticas, como atraso da agenda. Mas é o que temos para hoje e para os próximos três anos e meio.

Apesar de não haver justificativa, vale a pena ver como o caso escalou para ter dimensão da fragilidade emocional de quem nos governa.

Bolsonaro queria um resultado diferente sobre o inquérito de Adélio Bispo, que o esfaqueou em Juiz de Fora durante a eleição. A Polícia Federal fez pelo menos duas investigações e concluiu a mesma coisa: Adélio é louco, agiu sozinho e seus advogados atuaram pro bono.

A defesa do presidente finalmente aceitou o resultado, não recorreu e o caso foi encerrado. Porém, contrariado e a fim de inflamar seus seguidores, principalmente aqueles 18% que votariam nele antes do atentado, a receita raiz é atacar covardemente alguém ou uma entidade e elogiar os crimes da ditadura militar.

O alvo escolhido foi o presidente da OAB Felipe Santa Cruz, cujo pai foi torturado, assassinado e teve o corpo incinerado pelos militares. Tudo porque a entidade fez questão de defender a Constituição e garantir que o sigilo entre advogado e cliente fosse preservado no caso Adélio Bispo.

Molho perfeito para o repasto bolsonarista: OAB, presidente filho de preso político na ditadura, advogados criminalistas e o homem que tentou assassinar seu Messias. É claro que a Polícia Federal também tem motivo, enquanto instituição, para se sentir ofendida. Mas isso não ocorre ao presidente e seus súditos.

Mais curioso, no entanto, é a cara de pau de Bolsonaro em fingir que não acredita em advocacia pro bono ou em troca de holofotes. A prática é comum no mundo inteiro. Para os hackers de Araraquara há fila na porta da delegacia. O papa dos criminalistas Márcio Thomaz Bastos dizia: um caso tem que dar pão ou glória – se der os dois, melhor.

E o próprio Bolsonaro ganhou um pacotão de presente e pagou com ingratidão. Gustavo Bebianno advogou de graça em várias ações que o então candidato Bolsonaro respondia e continuou advogando já enquanto foi ministro.

Quando resolveu enviar o auxiliar ao microondas (fritura no glossário miliciano), Bolsonaro usou a Casa Civil da Presidência da República para se acertar com Bebianno. Em telefonema a Onyx Lorenzoni pediu que o ministro interferisse a fim de garantir que não haveria cobrança, caso contrário teria que vender um imóvel para pagar.

De novo, é isso que temos na Presidência da República.

 
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Escroque reincidente

O presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, tinha dois anos de idade quando seu pai desapareceu na ditadura militar. Cresceu sem saber se o pai estava vivo ou morto. Qualquer pessoa que tenha o mínimo de sensibilidade sabe que é o pior e mais torturante tipo de luto. A esperança, que costuma ser a última que morre, neste caso é também a primeira que mata. E mata em vida.

Se acontece por acidente, numa queda de avião que nunca é encontrado, já deve doer uma barbaridade. Se acontece por incidente, distúrbio mental, saiu para comprar cigarro e não voltou, idem. Não desejo tal angustia a pior pessoa que possa existir no mundo.

Mas e quando foi o Estado o responsável? Quando quem deveria proteger o individuo, com poderes legais consentidos inclusive para puni-lo, vira seu algoz? E não importa o que o individuo fez. Toda solidariedade a quem enfrentou a vida nessas condições é o mínimo que se pode esperar de quem tem o mínimo de humanidade.

Hoje o presidente da República falou o seguinte sobre o presidente da OAB: “Se ele quiser saber como o pai dele desapareceu no período militar, eu conto para ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Eu conto para ele.”

É de amargar. Alguém poderá imaginar que é impossível uma pessoa ser mais escroque. Que chegamos no auge da canalhice. Só que não. O presidente é reincidente.

Ao filho da jornalista Miriam Leitão, Mateus, ele disse: sua mãe, grávida aos dezenove anos, foi deixada nua numa sala com uma jiboia? Azar da cobra.

Na homenagem que a Câmara Federal prestou ao deputado Rubens Paiva, também desaparecido na ditadura militar, Bolsonaro apareceu e, diante da família que acompanhava a solenidade, cuspiu no busto.

É isso que temos hoje no posto mais alto do Brasil.

 
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Parlamentarismo branco?

Dado o protagonismo do Congresso, virou moda falar em parlamentarismo branco, cuja definição mais comum é a de um Legislativo que, diante de um Executivo desorientado, chama para si a governança do país.

Está na moda mas não é exatamente a “coleção 2019”. Recentemente o também desorientado governo Dilma Rousseff passou por fenômeno semelhante, com Eduardo Cunha tomando a Câmara dos Deputados e empregando uma agenda acelerada, demitindo por telefone ministro da Educação da “Pátria Educadora” recém reeleita, e culminando no impeachment.

Com Michel Temer, força política essencialmente parlamentar, que nunca teve apelo popular nem destaque no Executivo, houve um átimo de sintonia entre os poderes, encerrado quando veio à tona a insistência do mau-comportamento histórico, tolerado em nome da pretensa “ponte para o futuro”, na verdade uma pinguela mal-acabada que deu com os burros n’água depois do “tem que manter isso aí”. Para não se afogar antes do prazo combinado, pagou caro pelo socorro do parlamento.

Mais para trás o funcionamento era diferente. Variando entre o presidencialismo de coalizão e o de cooptação, o Executivo mantinha apoio Legislativo dividindo o governo com líderes dos partidos no Congresso. Modelo insustentável que teve o ápice com Dilma I, quando o governo tinha 80%+ de base no parlamento, mas não convertia o mesmo índice nas votações de seu interesse. Quer dizer: era o governo que apoiava a base, não o inverso.

Então veio a tal “renovação” de 2018, quando das urnas saíram deputados e senadores eleitos através de muita lacração virtual e pouca ou nenhuma experiência política. Como o governo eleito tinha a mesma origem ou, antes, é a personificação do estilo verborrágico de ruptura inconsequente, restou ao Congresso se adaptar e ocupar o papel de moderador e vetor da governabilidade.

O que foi feito até agora é continuidade da agenda econômica que nasce com Dilma II / Joaquim Levy. Desde então, passando por Temer / Meirelles e chegando a Bolsonaro / PaGue, as diferenças são antes de forma do que de conteúdo.

Mais curioso nesse freio de arrumação é a adaptação comportamental das figuras políticas antigas ou novas. O centrão agora quer ser simplesmente centro e trabalhar com agenda minimamente programática, movimento seguido por improváveis surpresas, como a do ora moderado deputado Alexandre Frota, MBL no divã, Marcelo Freixo convergindo com o plano de Segurança do ministro do STF Alexandre Moraes.

Do outro lado, os “renovadores” que pareciam mais moderados em campanha, agora osculam o pragmatismo radical e o populismo. Respectivamente, partido Novo como a mais governista das legendas, e movimentos como Acredito e Renova Brasil, para atravessar uma crise leve, apelando para o ataque à “velha política” e aos partidos tradicionais.

Seja lá como for, está claro que a mudança emerge da sociedade. Hoje os onze ministros do STF são tão falados quando os onze titulares da seleção. Alguns eleitores agora se lembram para quem deram seus votos e acompanham os mandatos. Também vão aprendendo que o presidente da República não tem todo o poder. Amém. E oxalá ele adquira logo pelo menos esta noção.

Nesse sentido pode ser de fato uma moda, quiçá tendência. Porque tradicionalmente no Brasil privilegiamos quem tem a tal da caneta, preterindo os conselhos e a participação mais ampla, seja nos clubes, nas escolas, nas igrejas, nos condomínios, nas empresas, nos sindicatos, nas associações de bairro, nos governos. Já de uns tempos pra cá vê-se mais o #TamoJunto do que “só diretoria” por aí.

Se cabe um palpite de fã de urbanismo e arquitetura, tem dedo do Oscar Niemeyer e Lúcio Costa nessa construção. Brasília é eminentemente parlamentarista. Quem pega o Eixo Monumental vai dar no Congresso Nacional, não no palácio do governo, como seria esperado num desenho presidencialista. Só depois de atravessar as casas legislativas se alcança a Praça dos Três Poderes, com os palácios do Planalto e da Justiça dum e doutro lado. E eu gosto assim. Valeu, Oscar e Lúcio.

 
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FGTS

Não é exatamente nova ideia de liberar o FGTS  e o PIS/PASEP para botar uns caraminguás na praça, soma que pode chegar a 30 bilhões de reais.

Temer já havia feito em 2017 e não deu muito certo. Me lembro da turma na fila da Caixa dizendo o que faria com a gaita: pagar dívida bancária. No Brasil, para a maioria da gente, isto significa amortizar juros. Mas também compraram umas geladeiras e televisões para alegrar magalu. No prazo, a festa durou pouco, tanto é que foi necessário repetir. Não há motivo para pensar que agora será diferente.

Conceitualmente a versão do PaGue é melhor. Liberou até R$ 500 por conta, ativa ou inativa, atingindo a maior parte da população. Parece que mais de 80% das contas não ultrapassa os quinhetinhos. Dureza.

Pena é que tenha feito a coisa certa pelo motivo errado. Preservar o grosso das contas mais polpudas visa atender aos anseios da construção civil, posto que uma das possibilidades de saque do fuguets é a compra da casa própria. Sua Casa, Minha Vida, meu lobista.

E que crueldade os coachs de investimento sugerindo aplicações a partir de R$ 500. Se o pobre conseguir acertar o atrasado na conta de luz, já alivia.

 

 
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