Facebook YouTube Contato

A Ambev e o liberalismo ChiChi

Creio que a maioria dos pertencentes à minha bolha gostam de defender o tal livre mercado. Comem com gosto o prato pronto cuja receita diz que o mercado se autorregula e não deve ter interferência Estatal. E regam tudo com o que alguém chamou de “champanhe da indiferença”.

A Ambev, por exemplo, é uma beleza para tantos. Menos do que já foi, é claro, os fatos estão aí e a cerveja não existe mais. Mas como o dono ainda é muito rico, merece aplausos, não pelo que faz, mas porque é muito rico.

Gostam dele e de todo rico a ponto de defenderem que o êxito financeiro avaliza qualquer outra atividade que se empreenda, inclusive política. Tanto faz se o dinheiro vem de agiotagem de automóvel, especulação monetária, falsificação de bebida. É sagrado o solo onde o capital se acumula.

Sob esses critérios elogiaram o Chile durante os últimos anos. O país mais próspero da região era um modelo a ser seguido. Privatizaram tudo, diminuíram o poder de barganha dos operários, assim como o dos políticos, e concentraram poder entre os donos do capital – “gente honestíssima, tão rica que não precisa roubar”.

Agora o mundo caiu. O Chile não tem mais o que vender para bancar o teatro do absurdo. Dos trabalhadores, tiraram até o medo, como se diz nas ruas de Santiago. E a primeira-dama, em telefonema com uma amiga grã-fina como ela, flertava com a guilhotina admitindo que terão que renunciar a alguns privilégios.

Na Ambev é parecido. A desigualdade que a empresa simboliza é vertiginosa. Das seis maiores fortunas brasileiras, equivalentes a todo dinheiro que têm os cem milhões mais pobres no país, três são da Ambev.

Tal feito só foi possível porque o tal mercado que se autorregula comprou tanto poder político que permitiu-se juntar todas as fábricas em uma e não só: ficaram até com a distribuição e com alguns pontos de venda, como por exemplo no carnaval, quando compram exclusividade. Não contentes, ainda têm subsídios para envasar água com açúcar em garrafa PET na Zona Franca de Manaus.

Com tamanha verticalização e concentração, fizeram o que quiseram das receitas tradicionais das nossas cervejas para aumentar a margem de ganho. Esfolaram clientes e fornecedores. E sapatearam na cara dos consumidores.

Agora, igual ao Chile, a Ambev não tem mais coelho para tirar da cartola. Diminuir ainda mais a qualidade dos produtos é impraticável. Refazer a respeitabilidade e o carinho pelas marcas destruídas, improvável. Apertar ainda mais fornecedores, suicídio em cadeia.

Nas operações mundo afora, acabou a mágica. Em um dia, perderam quase R$ 22 bilhões. E as ações seguem no modelo urso, em baixa. A única saída será finalmente começarem a trabalhar. Ou fazer cerveja.

Alguém poderá dizer, com razão, que este é o verdadeiro livre mercado. Saúdo! Mas terá que escolher entre uma das duas: defender o mercado ou elogiar o liberalismo ChiChi (Chile-Chicago), que produz monstros como a Ambev.

 
Tags: ,
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Nunca serão

A Nova Previdência geral passou do jeito que o mercado queria e combinou com Rodrigo Maia. E, curiosamente, foi avalizada nas urnas que elegeram Bolsonaro, naquele então dando plenos poderes ao Posto Ipiranga.

Os militares, como queriam, ficaram de fora do regime geral. O texto deles correu por fora e, agora apresentado, não agradou a base, que de repente descobriu que nunca serão.

O bordão do Tropa de Elite é a cara da classe média militar ou civil. Nunca serão. Peão esculhambando peão. Nunca serão. A sensação de esculhambar o peão debaixo compensa. Mas nunca serão. Nunca serão. Nunca serão.

No meio militar a coisa vai mudar para continuar como sempre foi. Altas patentes ganhando bem, se aposentando bem, protegida da violência das ruas ou dos horrores dos fronts e trincheiras em seus gabinetes, legados de pai pra filho. E a peãozada seguirá na linha de frente, matando e morrendo para proteger os de cima, militares e civis, na esperança de um dia pertencer. Só que não. Nunca serão.

Pelo menos entre os fardados a ficha caiu. Como o repórter Fabio Victor mostrou na Piauí, a base está insatisfeita e não aceitará o novo regime de Previdência e podem se rebelar. “A única coisa que eu penso é em fazer o mesmo que o Bolsonaro fez no passado, me revoltar e correr atrás dos meus direitos”, disse a militar da reserva Rosemira Marques Lopes. O então capitão chegou a planejar um atentado a bomba contra o Exército por melhores soldos.

Já a classe média civil continua em seu universo genérico. Tudo em suas vidas é falso como a sensação de que pertencem a um estrato superior – grande coisa, quando o inferior é miserável. Da comida à casa, passando pelas roupas e acessórios, incluindo educação e saúde. Tudo na classe média brasileira é falsificado para parecer coisa de rico. Mas não. Nunca serão.

Principalmente o discurso político é falsificado para afetar riqueza. Sempre foi. Na Abolição ajudaram a derrubar o Império. Na adequação trabalhista para o peão da roça ajudaram derrubar João Goulart. Do PT perdoaram mensalão e petrolão, mas a PEC das domésticas, não. Complexo de Sinhazinha estrilou. Mas sinhazinha pra valer nunca serão. Podem ter dois, três escravos. Babá, faxineira. Podem usar o rappi, andar de uber no banco de trás. Mas não. Nunca serão.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Quem lavou os R$ 51 milhões do Geddel foi a Polícia Federal

A Segunda Turma do STF condenou ontem os irmãos Geddel e Lúcio Vieira Lima por lavagem de dinheiro e associação criminosa. Dona Marluce, mãe da dupla, foi denunciada pelos mesmos motivos mas por não ter mandato teve seu processo desmembrado e remetido à primeira instância.

No entendimento dos ministros a Procuradoria-Geral conseguiu provar como todo o esquema funcionou, atribuindo os valores a esquema na Caixa, propina da Odebrecht e a célebre rachadinha com assessoria parlamentar.

Ocorre que, ao contrário da cueca que na marchinha de carnaval virou pano de prato, o dinheiro não estava lavado. A lavagem completa só aconteceu quando as caixas chegaram para a contagem na Polícia Federal.

Enquanto esteve no bunker dos Vieira Lima, os pacotes de reais estavam envoltos com as fitas bancarias que são o DNA ou o remetente do dinheiro. Seriam fundamentais para o clássico “follow the money”. Através delas chegaríamos aos bancos e às contas correntes de onde foram sacados. Mas curiosamente, na hora de soltar e botar na máquina contadora, as fitas desapareceram.

É capaz que ainda existam. Cada uma delas deve valer pelo menos o dobro do valor que envolvia na boca do caixa de onde um dia saiu. Terá alguém realizado os saques?

Piada clássica sobre a plutocracia: na posse de um governo novo o mandatário saúda o plutocrata: você por aqui! Resposta: estou sempre por aqui, a novidade é vossa excelência.

Neste momento o STF julga a prisão após condenação em segunda instância. Entendo cada integrante desta freguesia que esteja com sangue nos olhos para ver o fim dos recursos sem fim que mantém quem pode pagar advogado em liberdade eterna. Mas a solução não é prender de qualquer jeito. (Geddel está preso PREVENTIVAMENTE desde setembro de 2017!)

O Elio Gaspari errou hoje ao comparar o arbítrio do futebol com o Direito à Justiça. Mas acertou na sugestão de um meio-termo que obrigasse o Estado, pelo STJ, a julgar em até 120 dias a apelação sobre uma condenação em segunda instância – que deveria ser resolvida no Parlamento.

De qualquer maneira, enquanto não vier o entendimento de que a raiz do problema é o plutocrata de sempre, que sequer denunciado é e sequer cogita condenação em primeira instância, poderemos prender Deus e todo mundo, que os patrões de Deus e todo mundo continuaram livres, leves e soltos.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Desconfiança

Nunca vi um sinal de que o presidente Jair Bolsonaro já tenha ido ao teatro. Sobre livros, o máximo que alcança é elogiar as memórias delirantes de um monstro, reconhecido como pior torturador da ditadura-militar. E as organizações Globo são alvo frequente de suas provocações.

Isto posto, é de se imaginar que ele não conheça a máxima de Nelson Rodrigues atribuída a Roberto Marinho “prefiro ser traído a desconfiar de todo mundo”.

Um dos problemas centrais na família Bolsonaro é a desconfiança de tudo e todos. Vivem num círculo vicioso onde desconfiam uns dos outros em família, e a atmosfera de paranoia interna os impede de arriscar confiar em alguém de fora, obrigando-os à concentração no núcleo familiar, até porque não se arriscam a dar as costas sequer para os seus e acabam medindo os demais pelas próprias réguas.

O tratamento entre Jair Bolsonaro e seus filhos, incluindo o mais moço, é de “vagabundo” para baixo. O pai já escreveu ao filho 03, quando este faltou à votação de sua candidatura à Presidência da Câmara dos Deputados, que este fazia “papel de filho da puta”, e que não teria moral para falar do filho 04, ao que o filho respondeu: “não me compare com esse vagabundo.”

Quando o 01 decidiu disputar a Prefeitura do Rio de Janeiro, teve um mal estar num debate. Uma adversária, médica, correu para socorre-lo, mas foi impedida pelo pai: “comunista não encosta em filho meu.”

Naquela disputa, desconfiados das alianças do 01, 02 e o pai sequestraram as senhas de suas redes sociais, impedindo grande parte da campanha. Só liberariam dias depois. A senha era USTRA.

Os dois parágrafos acima anoto de memória a partir do angustiante perfil da família escrito pela repórter Malu Gaspar para a revista Piauí, e o das mensagens entre Jair e 01 é uma matéria da Veja também bastante conhecida.

Não consigo imaginar como alguém pode viver num clima assim. Imagino o tiroteio que seria se num almoço de domingo um Bolsonaro aparece com a mão coberta. Mas aparentemente eles estão acostumados. O problema é que agora o Brasil inteiro vive nesse sufoco. Todo santo dia é uma confusão.

A tragédia da escolha do líder na Câmara para a legenda que abrigou o bolsonarismo é emblemática. Entre mais de cinquenta deputados, não conseguem confiar em nenhum, e no círculo vicioso voltam  ao nome do Bolsonaro com mandato na Casa, no caso o 03. É inacreditável.

Em menos de um ano de governo já mandaram para o microondas diversos aliados com diferentes graus de importância em seu plano de poder. Outros, que seriam superministros, foram desidratados. Há paranóia até contra a Polícia Federal e o general fiel que comanda o GSI e a segurança pessoal do presidente. Os dois melhores ministros, Tarcisio Freitas e Tereza Cristina, respectivamente escaparam por pouco das milícias virtuais do 02 ou trabalham constrangidos por auxiliares celerados. Elogios são restritos aos que adotam a linha carbonária da família.

Quanto tempo as instituições resistirão a essa gente não sei dizer. Mas convém lembrar a definição de um observador atento: a Democracia é uma planta tenra que requer cuidados. E definitivamente não é com essa pelada de várzea que ela poderá continuar.

Há convulsão social em todos os continentes, notadamente aqui na vizinhança. E justo o Chile, onde o Estado reagiu com mais força, tendo botado o Exército na rua e matado onze revoltosos em cinco dias, mereceu o comentário mais revelador da visão de mundo de Jair Bolsonaro. Para ele, o problema do Chile começa quando a ditadura sanguinária de Augusto Pinochet acaba. Talvez, por ele, o ideal seria que o rio Mapocho já estivesse colorido de vermelho pelo sangue dos chilenos. Quiçá dissesse sobre os onde mortos: acho pouco.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Redes sociais: terra de todos ou terra de ninguém?

Mark Zuckerberg caminha em área perigosa. Mas parece que não reconhece o risco ou, pior, não demonstra vontade de querer entender.

Suas últimas três falas circuladas, uma vazada de evento fechado, outra pública na universidade de Georgetown, e uma terceira em vídeo transmitido pelo seu Facebook estão desalinhadas e indicam uma personalidade que acha que pode tudo.

Sem dúvida ele tem muito dinheiro e poder. A potência do trio Facebook, Instagram e WhatsApp é algo inédito. E tendo uma inteligência rara mesmo no Vale do Silício, deveria saber que quem pode mais, pode menos. Mas nada indica que nutra tal noção.

Em Georgetown, comparou o Facebook a um quinto Estado, depois da imprensa, que seria o quarto. Equívoco crasso para qualquer pessoa, mas que na boca de alguém tão poderoso chega a atormentar. Ele poderia ter usado quinto poder, ou mesmo Nação. Mas talvez acredite que é mesmo um chefe de Estado, como a vontade de controlar a vida das pessoas e ter uma moeda própria auto arbitrada indicam.

Em privado desdenhou de governos que o convidam para explicar como funcionam seus algoritmos e como se dão as decisões sobre tal funcionamento. E afirmou que não cogita pulverizar ou democratizar o poder conquistado.

Com os pré-candidatos do partido Democrata nos Estados Unidos em seu pé, cobrando medidas para que não se repita em 2020 a campanha oculta de anúncios dirigidos, muitas vezes falsos, quase sempre apócrifos, criados sob medida para causar convulsão social, Zuck lava as mãos. Diz que a liberdade recomenda que o individuo seja responsável por avaliar o que lê. Pode ter razão. Não é uma questão fácil. Mas que no mínimo o indivíduo saiba quem está falando, principalmente se é a campanha de alguém que concorre à Presidência do país mais poderoso do mundo ou qualquer outro.

A imprensa tem uma fronteira ética bastante clara. O leitor sempre sabe quem está falando, pode diferenciar notícia de opinião, sabe quando a opinião é do articulista e quando é do jornal, sabe quem faz o jornal, sabe quando o informe é publicitário. E, na versão impressa ou virtual de um jornal, ou nos jornalísticos transmitidos via rádio ou televisão, o conteúdo chega igual para todo o público, a partir de quando cada um escolhe o que quer saber e tirar suas conclusões.

Talvez seja isso, que não é outra coisa se não a melhor forma de liberdade de pensamento e circulação de ideias que conseguimos atingir, os populistas que tanto atacam a imprensa detestam.

As chamadas redes sociais têm seu valor. Deram voz a quem talvez não tivesse. E é justo reconhecer o avanço que há nisto. Mas urge que façam a escolha entre ser terra de todos ou terra de ninguém.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

O Brasil no microondas

Foi um dezessete de outubro impressionante no PSL17. Mesmo para quem se preparou para o impacto deste governo, o desastre impressionou a ponto de gente sensata supor que era tudo combinado para abafar algo ainda pior – igual a esmola excessiva que faz o pobre desconfiar, tamanha balbúrdia pareceu incrível até para os mais experimentados e pessimistas. Nunca se viu algo parecido.

O rolo é atribuído à disputa intestina pelo controle da legenda. O combustível é, pela ordem, o caixa de aproximadamente R$ 700 milhões que o partido terá no ano que vem, somando fundos partidário e eleitoral, e o poder de organizar as candidaturas nas principais cidades em 2020 – desde a escolha dos nomes até a distribuição do tempo de televisão – sempre fundamentais para as eleições gerais dois anos depois.

Jair Bolsonaro, presidente da República, quer o controle do partido. Mas Luciano Bivar, dono do PSL – que rompeu com o próprio filho e o movimento Livres para absorver o bolsonarismo – não quer abrir mão.

A centelha que deflagrou a explosão veio na terça-feira 15. A Câmara votava uma MP administrativa de interesse do Planalto e o delegado Valdir, líder do PSL e aliado de Bivar, orientou obstrução. De colher, ainda deu um tapinha nas costas do correligionário major Vitor Hugo, líder do governo.

O movimento que pode dificultar o dia-a-dia do governo é tido como reação à busca e apreensão da Polícia Federal nos endereços de Bivar por conta das denúncias de candidaturas laranjas que envolvem o ministro do Turismo, protegido de Bolsonaro.

Engraçado: no painel daquela votação PSL e PT estavam juntos em obstrução. E naquele mesmo dia a deputada Dra. Manato, do PSL, fazia a união definitiva. Subiu à tribuna e mandou “Só para avivar a memória da esquerda. Provados candidatos laranjas em 2018: PSL 15%, PT, PP 12%…” E concluiu “Não tem ninguém santo aqui dentro.”

No dia 16 o ponto de não retorno na relação BB (Bolsonaro e Bivar) já era dado. Aliados de um e outro começaram movimentos para tirar a liderança do delegado Valdir. O plano, pra lá de imprudente e não só avalizado como liderado por Jair Bolsonaro, era botar Eduardo Bolsonaro em seu lugar.

O que se seguiu foi uma lambança bizarra. Presidente da República gravado e vazado, reunião de bancada idem, ameaças e gente falando em não se reunir para evitar confrontos físicos – que não aconteceram.

Os termos usados estão pra lá do que nos acostumamos a chamar de fogo no quengaral ou cabaré. Até nos lupanares mais rústicos é incomum que as pessoas se tratem assim. Del. Valdir sobre Bolsonaro: vou implodir esse vagabundo. Joice Hasselmann ainda sobre Bolsonaro: inteligência emocional menos vinte. Eduardo sobre Joice: nota de três (meme).

E ainda: o áudio vazado com Bolsonaro mascateando a candidatura do filho tem um ponto gravíssimo. Ele explica ao deputado ou deputada que gravava as funções do líder do partido: verba, cargos etc. Quer dizer, das duas, uma: ou o presidente estava sugerindo compra de apoio ou o PSL não se preocupou em transmitir o básico do regimento parlamentar a seus membros.

Considerando que o partido botou R$ 800 mil num convescote reacionário internacional de Eduardo Bolsonaro, justificando com razão que o dinheiro do fundo partidário é para isso, resta perguntar por que não fizeram antes o básico.

O resultado foi péssimo para o governo. Derrota fragorosa para Bolsonaro. O vexame foi tão grande que, prudentemente, o presidente retirou a indicação do filho à embaixada nos Estados Unidos. E agora procura outra legenda qualquer para não ficar na chuva.

Tudo isso não só era previsível como foi aqui. Essa turma toda se aproximou da vida pública inspirada num deputado de baixíssimo nível, que junto com seus filhos se dedicou a defender milicianos, bananeiros e a ralé da agricultura e da mineração, praticar rachadinha com funcionários e lacrar nas redes sociais. Hoje não só estão no centro do poder como para lá levaram os maus modos que têm na vida pessoal. É de amargar ver o Brasil nesse microondas.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Receita para sobreviver ao 17

Confortável neste 17 de outubro seria ficar ausente, evitar discussões que, como dizia o Otto Lara Resende, produzem perdigotos, não a luz.

Mas a verdade é que calar num momento assim é imprudente. Quando temos o general mais prestigiado do país ameaçando o Supremo Tribunal Federal, em sintonia com o grupo de maior influencia sobre o presidente da República, que por sua vez está longe de ser um modelo de moderação, falar é imperioso.

Há malucos esparramando mensagens que exaltam o resultado de popularidade adquirido pelo presidente do Peru desde que este fechou o Parlamento e, com efeito, acuou o Judiciário. Uma pena. Ocorre que por lá a Constituição prevê esta possibilidade e aqui é crime fazer apologia contra a Democracia.

Tivéssemos nós dado consequência legal aos elogios irresponsáveis do ora presidente da República – o principal, mas que não está sozinho – ao totalitarismo, esta situação quiçá pudesse ter sido evitada. Mas não é tarde. Nunca é.

A revolta da sociedade é compreensível, mas não cabe imaginar que a solução seja preterir a razão e a lei em favor da força. Sob o domínio desta ninguém está seguro.

Dito isto, me exponho aqui para me juntar aos que estão dispostos a defender as instituições e as mudanças e reformas necessárias para que estas se equilibrem com o zeitgeist, sempre respeitando o combinado anteriormente.

Calar agora seria fortalecer a apatia, primeiro mal que corrói a Democracia. Ausentes os democratas, restam os radicais e extremistas dispostos a tudo destruir, a começar pelas próprias vidas. Se desprezam a própria integridade, o que fariam com a do próximo?

Nesta e em toda guerra todos perdem, mas os que menos perdem acabam prevalecendo e, num segundo momento, historicamente buscam anular possíveis futuros grupos adversários, mesmo que não declarados. Esta é a raiz do fascismo, já escancarada.

É obrigação de todos, independentemente de lado ou partido, defender o Estado de Direito. Sem ele não há contrato social e a selvageria volta a imperar. Tenhamos isto claro sempre que a suposição de que pior do que está não fica acenar como alternativa.

Amemo-nos uns aos outros e sobretudo ao coletivo. Tenhamos a prudência de nos defender em grupo sem nos atacar individualmente.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Entre Mario Covas e João Doria, quem Bruno escolherá?

Em duas semanas saberemos o destino político escolhido pelo prefeito Bruno Covas. Neto de Mario Covas e vice de João Doria Jr., ele poderá escolher entre o DNA do avô e o do companheiro de chapa que, abandonando a cidade, o fez alcaide.

Infelizmente, tudo indica que fará a segunda opção. Desde que assumiu, quinze meses depois empossado o governo, abriu mão de empregar uma agenda própria. Até aí alguém poderá dizer, com razão, que seguir o programa eleito é o correto. Vá lá. Mas ninguém pode ter compromisso com o erro, como o próprio cabeça de chapa dizia – e não cumpria. Exemplando: insistir no legado dos dois muros, o verde que secou na 23 e o de vidro que quebrou na Marginal, seria imprudente.

Mais: me parece que quem assume a partir de uma quebra de compromisso apalavrado publicamente fica desobrigado de seguir os passos de um notório vai-da-valsa atravessado. La Doria è mobile!

Ainda: a continuidade, notadamente dos programas estruturais, deve prevalecer sobre o poder de turno, e para tanto a cidade tem um Plano Diretor. Este é o ponto principal do meu palpite.

Igual João Doria, que rasgou o Plano Diretor (PD) e apontou a cidade para o sul, quando o combinado era seguir rumo leste, o líder do governo Bruno na Câmara enfiou despudoradamente duas palavras no PL 513/2019 que, rigorosamente, quebram uma cláusula do PD.

Ei-las: “Vias estruturais”. Desenhando: incluídas no texto, na surdina, porque a votação tratava de outro assunto, a malandragem permite que o terço de recursos do Fundurb carimbado para mobilidade a pé, transporte coletivo ou cicloviário, seja enterrado em asfalto. Coisa de R$ 400 milhões.

Problema 1: o pactuado no Plano Diretor, com todo caminho que ele percorre ao longo de dois anos de debates, incluindo a sociedade, especialistas, entidades e autoridades, é feito para durar quatorze anos ou três governos e meio, com possibilidades de revisões conjunturais em datas marcadas. A próxima seria no ano que vem.

Problema 2: quem pode confiar numa cidade que desrespeita a própria lei? Imagine a pessoa que comprou na planta um apartamento em um dos tantos prédios que sobem atualmente na Rebouças, Consolação, Nove de Julho, Santo Amaro, São Gabriel, Brigadeiro Luiz Antonio, República etc., todos fruto do exitoso PD? E os investidores que botaram bilhões neles? Óbvio que se sentem como patos que se sentaram à uma mesa de jogo onde o combinado seria melhorar as calçadas, corredores e ciclovias da região, nisto botaram suas fichas e, prestes a ver o resultado, deram de cara com um coringa contrabandeado pela banca, afirmando que naquela mesa vale tudo.

Problema 3: programaticamente é fragoroso e literal atraso. Numa breve mensagem de texto para alguém que estude e pense cidades, freguesa, você ficará sabendo que o problema da mobilidade urbana é muito asfalto, muita rua, ponte, avenida, túnel, viaduto, e não muito automóvel.

Problema 4: pragmaticamente é fragorosa burrice. João Doria fez a mesma coisa com a mesma soma de R$ 400 milhões visando dividendos eleitorais com o programa Asfalto Novo. Uma das ruas agraciadas foi a Prudente Correa, que liga a sede de suas empresas à sua chácara na rua Itália. Resultado: levou uma surra de Márcio França nas urnas da capital: 40% a 60%.

Acorda, Bruno! Ou antes: acorde o Mario que deve existir em você. E tire aquele Romero Britto que João deixou na prefeitura. Aquela cidade repleta de helicópteros e sem vivalma não é a São Paulo que queremos.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Da Geringonça é o mar-sem-fim

Houvesse um prêmio Nobel para Política, na esteira do que vai para a Economia, categoria criada posteriormente às orginais, o papa Francisco seria forte candidato. Infelizmente não há. Mas os políticos acabam entrando na lista dos concorrentes à medalha da Paz, que este ano foi para o primeiro-ministro da Etiópia Abiy Ahmed Ali. Seus concorrentes com mandato mais destacados foram Jacinda Ardern e o próprio papa Chico, respectivamente chefes de governo da Nova Zelândia e de Estado do Vaticano. Entre os políticos sem mandato concorriam o cacique Raoni Metukitire e a ativista Greta Thunberg.

Porém considerando que um Nobel de Política seria parecido com o da Economia, por entrar na lista depois de estabelecidas as primeiras categorias, e que este último acaba de sair para um trio preocupado antes com a prática do que com a teoria, ou que chega à causa estudando o efeito, meus candidatos ao prêmio da Academia Sueca, ou do Comitê Norueguês,  seriam os membros da Geringonça portuguesa.

Que beleza conseguiram fazer por lá. Provam que, mais que possível, o entendimento é o único caminho.

A cronologia do poder em Portugal é de dar esperança a qualquer desesperado. Até 2016 o país sofria com a crise derivada de 2008, e acabou elegendo Marcelo Rebelo de Souza presidente ou chefe de Estado. Hoje sem partido mas tradicionalmente um conservador católico filiado à social democracia, o professor de Direito e comentarista de TV foi eleito em primeiro turno.

Ocorre que o chefe de governo era o socialista Antonio Costa, eleito primeiro-ministro em 2015. Como sociais democratas e socialistas por lá são adversários, deu-se o impasse sobre a formação do governo. E a resposta veio da inédita aliança entre socialistas, verdes e bloco de esquerda, logo apelidada de Geringonça.

A maravilha disso para mim está em notar o discernimento do povo português. Ao ver um governo formado em torno do campo progressista, elegeram para chefiar o Estado um exemplar conservador, criando equilíbrio e estabilidade.

Em 2019 voltam às urnas e aprovam o governo, aumentando a votação do partido Socialista de 32% em 2015 para 36% em 2019. Curiosamente, se invertidos, são os mesmo números alcançados pelo bloco Portugal à Frente em 2015, que reuniu PSD e CDS, alcançando naquele então 36% e, em 2019, se somados, teriam 32%.

O equilíbrio português é próprio dos grandes navegantes e merece ser festejado. Sem carta branca para ninguém, o diálogo é imperioso para o bom cruzeiro. Mar de almirante para a Geringonça. Dela é o mar-sem-fim.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

O que as autoridades não falam

É assustador o que os governantes atuais falam. Aqui e alhures. Gente louca sendo tratada com normalidade, encontrando eco em nichos igualmente loucos da sociedade.

Para ficar em alguns exemplos brasileiros, no final da semana passada os próceres do reacionarismo nacional se reuniram num evento onde várias autoridades palestraram. O chanceler do Brasil disse que “o fascismo é de esquerda”, que Voltaire, filósofo francês do século 18, queria “lacrar” quando contrapôs ideologia à verdade e desrespeitou a monarquia e a fé francesa, disse que a ONU não faz nada para diminuir a pobreza no mundo, que os iluministas são os ancestrais dos esquerdistas, chamou a preocupação com o caos climático de “climatismo”, emendando que a preocupação é usada para interferir na educação e na economia e ainda sugeriu que “tem mutreta”.

No mesmo encontro uma ministra achou por bem comentar que, há 24 horas reunida com jovens, ainda não vira cigarro de maconha ou uma mulher introduzindo crucifixo na vagina. Seu colega à frente da pasta da Educação, comparou o ex-presidente FHC à aids.

Longe do encontro mas igualmente celerados, o ministério da Economia pensa em incluir na reforma administrativa um dispositivo que impeça servidores públicos de terem filiação partidária e o ministro da Justiça acredita que amenizou sua portaria arbitrária que alterou a Lei de Migração e o presidente da República, perguntado sobre denúncias de tortura em presídio no Pará, respondeu que jornalistas “só perguntam besteira”. E ainda repete seu abjeto slogan de campanha “meu partido é o Brasil”.

Meu ponto é: se o que está acima é o que essas pessoas dizem em público sem qualquer pudor, o que dirão em privado?

A resposta é mais ou menos conhecida e está nos vazamentos das conversas entre os integrantes da Lava Jato pelo The Intercept, pelos áudios que o deputado Alexandre Frota passou a divulgar ou pela reportagem sobre as milícias virtuais bolsonaristas, do repórter Moura Brasil na revista Crusoé. O desprezo pela democracia é evidente em todos eles.

E o estarrecedor é ver gente tida como civilizada aceitando este cenário como se fosse normal ou minimamente aceitável sob o argumento de que doutro modo seria impossível atuar na esfera pública. Não é! Pelo amor de Deus: não é!

O nome disso é fascismo, sabemos como começa e tolo é quem supõe saber como acaba.

E quem pensa que está seguro numa sociedade assim, ou que não haverá reação oposta de igual ou maior intensidade – porque sociologia não é exatamente igual à física –, recomendo que vá a uma sala de cinema que estiver exibindo Bacurau, mas que invés de olhar para a tela, olhe para a plateia.

Bacurau é um filme para se ver de costas. O retrato fiel de Kleber Mendonça Filho sobre a violência nas periferias e sertões do Brasil, bem distante dos cinemas descolados dos centros urbanos, é recebida com aplausos e gargalhadas pelo público tido como civilizado, mas que torce a favor da barbárie para combater a barbárie.

Se na arte a história se passa no futuro, é um alerta para os centros urbanos que ainda não viram pessoalmente degolas e massacres. Mas na vida real dos sertões e periferias degolas e massacres são o presente. As crianças que vendem pano de prato no semáforo estão acostumadas a ver cadáveres crivados de bala no dia-a-dia. O sangue no cotidiano delas pode ou deve ser banal. Mas obviamente nenhuma delas acha graça nisto.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments