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Será salto?

Era 1922 quando o Paulo Prado, que não era artista mas era rico e sabia a arte de gastar, contratou uma claque para vaiar a abertura da Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de São Paulo.

A vaia, calculada, era a favor. Criando resistência, criou polêmica e botou a modernidade na pauta da cidade e do país. A Paulicéia Desvairada tem hoje um PIB maior que o da Argentina em função desse salto.

95 anos depois vemos um banco multinacional, muito mais rico do que os Prado foram, e que vem lá da terra do Picasso, do Dalí, do Cervantes, arregar para meia dúzia de reacionários mirins, cancelando uma exposição em sua sede de Porto Alegre. Guto Lacaz, artista genial, fez uma homenagem aos banqueiros. Está nas redes.

Minha esperança? Que esses passos à ré sejam tomada de impulso para um novo salto. Se a cultura é cíclica, os anos vinte hão de voltar.

 
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A pendura do prefeito

Ontem a Prefeitura de São Paulo chamou coletiva de imprensa para dizer que não vai aumentar o IPTU. Ou, antes, que o imposto de 70% dos imóveis será corrigido dentro dos 3% correspondentes à inflação, enquanto o outro terço terá aumento de dez a quinze por cento. Em qual grupo você se encontra, freguesa? O prefeito não soube dizer.

Para o secretário municipal da Fazenda, engavetar a revisão da planta genérica de valores, base do IPTU, seria justo enquanto a economia mostra incerteza. O mesmo secretário aposta que a perda de receita será compensada pelo ISS, que a curto prazo responderá bem à, pasme, recuperação da economia.

Vereadores governistas compareceram. Entraram mudos e saíram calados.

A presença de jornalistas no auditório fazia parecer uma coletiva. Outro olhar veria um palanque eleitoral com todos seus achaques: promessas, dados vagos, palpites convenientemente antagônicos, presença de apoiadores fazendo número e claque – ainda que virtual.

Por coerência, quem se levanta contra a ideia de maior financiamento público para fundo eleitoral, deveria continuar de pé para vaiar a plataforma. Porque a renúncia fiscal anunciada pela mesma gestão que alega falta de caixa para suspensão de atividades essenciais, em nada difere da transferência de recursos do Tesouro para os fundos partidários pagarem suas despesas. A rigor o paulistano está pagando a conta de uma campanha nacional.

Se esta freguesia estranha ver a crítica ao não aumento do IPTU aliada a ideia de que vai custar mais caro para o cidadão, faço questão de explicar. Investimentos em saúde, educação, mobilidade, zeladoria, habitação, quando não realizados, viram uma bola de neve, a cada momento maior e mais custosa de ser enfrentada.

O João sabe disso. Traído pela excitação da vitória retumbante, congelou a tarifa de ônibus. Daí teve que aumentar o subsídio para as empresas. Então meteu um teto para o rombo, pendurando a conta. Isto é, entrou no cheque especial. A pessoa física que já cometeu esse desatino sabe quanto custa. Até a Dilma sabe. Para ela custou a cabeça.

Mas este cronista tem proposta ou só palpite? Tem propostas. Duas: 1) Condicionar o PPI (Programa de Parcelamento Incentivado) de dívidas aos imóveis onde as pessoas residem, excluindo os ociosos e aqueles com dívidas acumuladas há mais que dois ou três anos, anteriores ao galope da crise econômica; 2) Fazer valer o IPTU progressivo, que acelera o valor do imposto para imóveis ou terrenos desocupados.

E duas notas relacionadas: 1) sete dos dez maiores caloteiros da cidade são bancos, que passam ao largo de qualquer crise, junto deles faculdades e hospitais que só os muito ricos usam; 2) Ninguém mais se atreve a defender terra improdutiva, logo, não tem cabimento tolerarmos imóveis desocupados em áreas onde todos pagamos caro pelas melhorias urbanas.

 
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O atraso do atraso ou quem chora sou eu

Banco um

Dono de banco concede uma entrevista sobre compra de novas empresas. Fala em diversificação lembrando que para eles é difícil porque quase nenhuma atividade dá o lucro ao qual eles se acostumaram. Eles que cobram dois reais por depósito em conta corrente. Puxado, né? Sem dúvida é um cidadão esclarecido. Mas como pode não perceber que estranho é o lucro obsceno dos bancos brasileiros e não a rentabilidade que outros negócios ainda conseguem ter?

Banco dois

Outro banco, ora estrangeiro radicado no Brasil, cancela uma exposição de arte que aprovou e bancou com recursos da Lei Rouanet. Não sei quem decide isso na tal instituição. Digo apoiar e depois mandar cancelar. Sei que não é um processo simples. E fica claro que quem quer que seja, é incompetente para decidir sobre a destinação de tais recursos. Tentando avançar em meio a tanto atraso, não seria o caso de criar um conselho eleito pela sociedade para deliberar sobre a aplicação do dinheiro.

Mãe Gentil

Mães brasileiras não deixam mais seus filhos nas cadeirinhas de bebês que podem salva-los de um dos tantos acidentes de carro, que no Brasil matam 47 mil pessoas por ano. Motivo? Poder sair rapidamente em caso de assalto.

Drama nacional

Em frente ao shopping que é considerado o mais chique do Brasil trabalham atores de primeira qualidade. São crianças que esmolam chorando copiosamente. Não que motivo lhes falte. Mas quero crer que há talento desperdiçado. Estou fugindo da realidade? Pode ser. Porém acrescento que sofro mais ainda imaginando quantos bons atores perdemos para a miséria nacional. Elas são melhores que diversos adultos que trabalham ganhando bem na teledramaturgia. E vendo que outras crianças nas mesmas condições se viram de outro jeito, como falar em idioma estrangeiro – de novo, melhor que muita figura pública –, ou fazendo espetáculos circenses nos semáforos, minha nostalgia do país que poderíamos ser com tamanhos recursos humanos é devastadora. Quem chora sou eu. E não sou ator.

 
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Carma nacional

Tenho um amigo que gostaria de ser vegano e não consegue. Adora carne. Eu não penso muito nisso. Digo sobre comer carne. De modo geral tenho comido menos, mas creio que seja um fenômeno ligado à qualidade do que há por aí. Se encontro coisa boa a preço razoável, traço sem traço de remorso.

Mas eu queria dizer de algo que eu gostaria de ser e não consigo. Queria ser cético. Em vão. Diante do inexplicável cada vez mais frequente, só me resta acreditar em razões que ultrapassam a compreensão humana.

O Brasil é um caso exemplar. Há uma força qualquer, um carma que nos condena ao atraso. E uma coisa puxa a outra.

Notem o caso dos doentes mentais que atacaram mulheres nos ônibus de São Paulo. Já falaram muito a respeito e eu não gostaria de ser mais um.

Trata-se de fato isolado? Não. Calculam algo em torno de cem mil casos de estupro por ano no Brasil. Dá mais ou menos uns dez por hora. E a maior parte acontece na esfera privada, entre entes ditos familiares, não no transporte coletivo.

A compreensão do que é estupro varia muito, como vimos na decisão do juiz que soltou o maluco para assisti-lo repetindo o ataque no dia seguinte. Para um magistrado, ejacular em outra pessoa sem consentimento seria um tipo de constrangimento, mas não chegava a ser violência sexual.

Vale lembrar que, não faz tempo, para configurar estupro era necessária a penetração convencional. Anal ou oral não eram considerados. Dizem que mudou. Não tenho certeza.

Enquanto isso, em países desenvolvidos como o Canadá, um beijo roubado já é estupro. Mão boba também. Nos últimos jogos Pan-Americanos de Toronto, três atletas brasileiros foram denunciados. Não tenho procuração para defender nem acusar ninguém. Mas me parece um caso típico de conflito cultural exportado por um país onde as mulheres ainda são educadas para simular virtude dizendo não mesmo quando querem dizer sim. E em geral um em cada quatro cidadãos acredita que a mulher que usa decote merece ser atacada. Daí uma gringa diz não, o brasileiro duvida e avança o sinal.

Outro dia assisti a um filme francês, lindo e triste, com o Omar Sy, aquele que fez o enfermeiro carismático do Intocáveis. Chama-se Uma família de dois. O homem leva a vida que pediu a deus na Riviera Francesa, até que uma namorada do verão anterior aparece com um bebê, manda que ele embale e faz a pista. Olhar progressista, não é? Mãe abandonando filho com o pai?

Na segunda parte entra um amigo dândi, gorducho e gay, para quem todos os outros homens, notadamente os entregadores de pizza, também são gays e não se importam em ser cantados – o que ele pratica despudoradamente. Algo inimaginável entre homem heterossexual e mulher num fita prafrentex.

Voltando à realidade brasileira, onde o atraso não tem limites, algo chamou minha atenção. Numa reportagem de televisão, a sordidez dos ataques sexuais nos ônibus serviu para alimentar a ideia de que a presença do cobrador nos coletivos é importante para manter a ordem dentro do carro. A atualidade clamando por uma sociedade franca e o subemprego ressurge exaltado, onde o cobrador, que depois do Bilhete Único quase nada tem a fazer, é promovido a fiscal de tarado. Só pode ser carma.

 
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A crise não tem feriado

Era uma vez um país onde a crise tirava férias. Com as luzes de Natal a turma relaxava e compreendia que, antes da quarta-feira de cinzas, nada aconteceria. Esse país acabou.

Lembram do primeiro de janeiro, com degolas e esquartejamentos nos presídios? Pois é. Agora, em pleno feriadão, sol a pino, os jornais continuam chegando gordos. Quem lê tanta notícia?, perguntaria o Caetano. Pelo que ouvi na rua durante esta sexta-feira, creio que todo mundo. Talvez não nos jornais, mas por outros tantos meios que surgiram.

Vou tentar comentar duas declarações que li no Painel da Folha. Tenho um problema de incontinência. Se deixarem, acabo falando tudo que acho e não concluo. Com Aquarius deu certo, tirou prêmio por todo lado. Mas não acredito que funcione num blog.

Carainho, também conhecido como Geddel Vieira Lima, aquele que guardava 51 milhões de alpiste num apê da Fonte Nova, voltou para a gaiola. Pousou hoje em Brasília e na manhã deste sábado já verá o sol despontar quadrado.

Lembra daquela música do sabiá que na gaiola fez um buraquinho e voou, voou, voou, voou? E a menina que gostava tanto do bichinho chorou, chorou, chorou, chorou? Por é, ontem assisti Aquarius e acordei musical. Mas o Carainho é um tipo de passarinho que concentra as duas personagens da canção. No depoimento à Justiça chorou, chorou e conseguiu ir para casa sem tornozeleira eletrônica, porque na Bahia só tem aquela artesanal, com búzios ou miçangas. Agora voltou pra gaiola. Chorar não vai adiantar. Vai ter que cantar. E quem vocês acham que vai inspirar o canto do Carainho? Palpite: um bicho que voa mas não é pássaro, é mamífero, e mora num palácio com nome de outro pássaro, onde instalou um misturador de pios. Quem duvida que se tome pelo Mantega, que derreteu ouvindo o Palocci e correu para falar antes que seja tarde.

Mas vamos ao Painel, primeira e única nota: Cada um na sua.

O Presidento e seus aliados disseram que o áudio do Joesley em dueto com o “Ricardinho” Saud é “nojento, sórdido, desmoralizante”. Antes tarde do que nunca. Isso o Brasil inteiro já achava, desde o lançamento das primeiras faixas. Quem não curtiu a célebre parceria “Tem que manter isso aí”, gravada na garagem do Jaburu com o próprio Presidento? E a moda “Mata o Fred”, em dupla com Aécio?

A Presidenta também desabafou. Chamou seu ex-ministro Antonio Palocci de “canalha”. De novo, antes tarde do que nunca. E foi além, o comparando ao que considera “cachorros”, que era como tratava guerrilheiros que, uma vez presos pela ditadura militar, cantavam as marchas que os militares gostavam de ouvir.

Feio, né? Comparar gente que foi torturada com o rei da ervilha ao molho, falando tranquilamente, em sessão gravada, numa sala repleta de advogados em Curitiba? Não pode.

Eu perguntaria ao Genoíno o que ele acha disso tudo. Ele que, torturado, abriu o bico e entregou os companheiros no Araguaia.

Me lembro agora da CPI dos Correios e prometo que encerro. Genoíno foi depor. Até que um “jênio” chamado Jair Bolsonaro entrou na sessão acompanhado do torturador que foi o algoz do depoente. Os demais presentes, compadecidos, aliviaram nas perguntas.

Como teria sido a história sem mais essa imbecilidade do Bolsonaro? Teria o Genoíno falado tudo que sabia sobre o mensalão? Teria o Brasil férias e feriado até hoje?

 
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Nada de novo

Proporções guardadas? Além de recordes históricos, nada de novo aconteceu hoje. Vejo amigos espantados e me lembro dos meus avós estupefatos com o fax. Meus pais idem. E, pensando bem, eu mesmo. Mas a verdade é que, a rigor, mudou pouca coisa entre o pombo-correio e a carta por telefone. Num espectro mais amplo podemos ir do sinal de fumaça ao WhatsApp.

O que há de diferente nos escândalos que os jornais trouxeram hoje? Gravações de quadrilheiros combinando o capitalismo brasileiro, bravatas e negociatas envolvendo autoridades, malas de dinheiro. Clichê tropical.

Neste momento faltam quinze para a meia-noite e a contagem do dinheiro encontrado no apartamento do Geddel Vieira Lima, o Carainho da Odebrecht, passa de cinquenta milhões de reais. Um volume contendo exclusivamente dólares, considerando o câmbio, deve acelerar a conta. É de fato impressionante. Mas para usar outro clichê, tanto quanto é a percepção da parte submersa de um iceberg. A ponta havia emergido nos primeiros áudios gravados no Jaburu, no vídeo do Rodrigo Rocha Loures correndo em frente ao Camelo com outra mala. Vale lembrar que Michel Temer só indicou Rocha Loures para cuidas das malas quando Geddel foi preso.

Sobre os joesleys, motivos não faltam para botar a quadrilha toda em cana. Qualquer mentira em delação premiada pode levar uma das únicas instituições que emergem com boa reputação no Brasil para o brejo. No volume que eles alcançaram, somando os crimes cometidos após o acordo, como a especulação com dólares na véspera do estouro da boiada e tentativa de obstrução de Justiça, é motivo mais que suficiente.

Para encerrar meu enfado, que já vai longe, a proposta dos congressistas de criar uma CPI da JBS é tão tosca que nem risos provoca. Imagine você, freguesa, o que seria uma CPI tendo como alvo os caras que compraram e delataram mais de 1.800 políticos com mandato. O que eu tinha para rir desse tipo de ameaça gastei com o novo velho presidente do BNDES Paulo Rebello Castro, que assumiu prometendo fazer valer cada letra pingada nos empréstimos concedidos ao grande açougue. De empedernido ponteiro de boiada revelou-se um reles bezerro mamão.

Dica? Assistam Sob Pressão, novelinha boa da TV Globo que está no ar. Roteiro e cenários fantásticos. E emendem com Os Dias Eram Assim, que vem com o melhor personagem atual, vivido pelo agricultor Marcos Palmeira.

 
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Esquerda, direita, frisson e medo

Esquerda caviar e direita bandejão: nós temos um problema.

Esquerda

A leitura mais importante do final de semana chegou pelo Estadão. A primeira frase do colunista Helio Gurovitz merecia ser manchete: “Há tantas variáveis na política que as palavras direita e esquerda têm mais sentido emocional do que racional.”

Ele apresenta dados a quem ainda depende de rótulos para debater política. O Centro de Pesquisas em Ciências Sociais de Berlim apresentou o Manifesto Project, que avaliou 4.214 programas eleitorais de 1.086 partidos desde 1945 em 56 países. É provavelmente o mais amplo political compass já feito.

Resultado? No Brasil o único programa que pode ser considerado “de direita” é o de FHC em 1994. Levando em conta que era baseado no fim da inflação alcançado com o Plano Real, que a inflação é a primeira e mais cruel injustiça social, que uma vez no governo FHC realizou a maior reforma agrária da história, além de começar os programas de transferência de renda como Bolsa Escola e Vale Gás, que unificados viraram o Bolsa Família, esta freguesia calcule o que seria a “direita” brasileira.

Direita

A chamada direita que sai do armário pelas redes sociais e chega às ruas em protestos contra imigrantes e as variadas formas de sexualidade, religião e até de mobilidade, é antes atrasada do que conservadora. E creiam: pelo, digamos, programa que apresenta, estaria à esquerda do próprio Lula. Algo como um getulismo 2.0, ainda mais nacionalista e autoritário.

Jair Messias Bolsonaro acredita num Estado forte e intervencionista, repudia o capital global, defende privilégios para militares na Reforma da Previdência, elogia o nacionalismo e os horrores da ditadura, escorrega quando o tema é a privatização de estatais de energia como Petrobrás e Eletrobrás e, com receio de ser criticado, ficou em cima do muro na votação da terceirização.

Frisson

O frisson direitista atrai cada vez mais gente. Nem todos concordam com as ideias do mito-messias mas se retroalimentam em sua obtusidade que escolheu o lulopetismo como único e exclusivo adversário.

Caso do antropólogo carioca Flávio Gordon, que depois de tanto tempo aparece com um livro propondo que os intelectuais que apoiaram o PT (ele, que foi saudar a posse de Lula em 2002, estaria incluído?) sejam responsabilizados pela corrupção do partido.

Pergunto onde estava essa turma que não teve peito para remar contra a maré durante o auge do lulopetismo, mas que agora pede preferência para surfar a onda antipetista.

Medo

Se há um motivo atual para se contrapor ao petismo politicamente – casos de corrupção há em todos os partidos e estão aos cuidados da Justiça – é o financiamento privado de campanha por parte de empresas, que o PT recusa.

Pode-se concordar com o STF no entendimento que pessoas jurídicas não votam e por isso não podem participar de uma campanha eleitoral. Mas também é verdade que pessoas físicas não têm essa cultura e, mais amplamente, pensar na artimanha tributária da pejotização das classes mais altas, notadamente as que têm recursos disponíveis.

Se o sistema eleitoral não for alterado até o fim do mês, as campanhas continuarão milionárias e não haverá dinheiro legal para fazê-las em 2018. Nessa seara o dinheiro não contabilizado, mais difícil de ser rastreado, hoje verte em seitas religiosas e milícias. São estes grupos que terão força eleitoral.

Numa projeção simples, os 120 deputados da bancada evangélica serão 200 em 2019, o que lhes dará 20% do tempo de televisão para 2022, quando alcançarão 300 membros com facilidade.

Daí você que toma um drink, brinca o carnaval e/ou é gay, vá preparando um disfarce. Se for judeu, católico, umbandista, budista, ateu, também, ou se acostume com a ideia de ser chutado como a imagem de uma santa no altar.

 
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O que a Eurasia não falou sobre Johnny Carter

Eurásia é uma consultoria de risco político nos Estados Unidos que atende especialmente o chamado “mercado”. Modestamente, o que eles fazem lá eu também faço cá. Este blog é, entre outras coisas, uma vitrine do meu trabalho. Artifício que eles também usam, com maestria. Repercute pelo mundo todo cada piu que eles soltam. Foi assim esta semana quando fizeram projeções para as eleições presidenciais programadas para o ano que vem no Brasil.

Hoje pela manhã dois dos seus analistas fizeram um live no Facebook comentando o boletim semanal. A conclusão deles é baseada na pesquisa Ipsos, que apontou a falência das figuras públicas cá da terra de Vera Cruz. Comentei aqui.

Na opinião deles os brasileiros estão cansados dos políticos estabelecidos, entre os quais obviamente está Geraldo Alckmin, com quatro décadas de política, sendo metade governando o estado de São Paulo. “Quintessência do stablishment”, algo como Hillary Clinton, candidata derrotada por Donald Trump. E previram o mesmo resultado por aqui caso Alckmin seja o candidato do PSDB.

O Governador respondeu numa entrevista que, se combinada, não seria mais feliz. Num trocadilho, considerou o palpite hilário, lembrando que, pelo sistema eleitoral brasileiro, os três milhões de votos populares que Hillary teve sobre o adversário teriam feito dela a inquilina atual da Casa Branca.

“Caras novas”, dizem os eurásios, é o que os eleitores esperam, citando além do presidente estadunidense o colega francês, Emmanuel Macron, ambos virgens nas urnas até as últimas eleições. Se esqueceram de dizer como vai a popularidade dum e doutro. Vai mal – ainda que por motivos bem diferentes.

Algo que vale comentário antes de caminharmos para o final é a leitura que a Eurásia fez sobre a pesquisa Ipsos. Entenderam como rejeição o que foi publicado como desaprovação. Para um pesquisador há uma diferença fundamental. Haverá para quem é pesquisado? Como o Ipsos não abriu o método, não sabemos.

Entre as caras novas previsíveis, a Eurásia vê o prefeito de São Paulo João Doria. Acreditam que para o tal “mercado”, ansioso pelas reformas, é o melhor nome para contrapor Lula. E o compararam com o presidente Jimmy Carter, um fazendeiro que foi senador e governador pelo estado da Geórgia e levou a Casa Branca num cenário parecido com o atual, quando os americanos, cansados de guerra, procuraram uma “new face” para seguir. De novo, se esqueceram de dizer que a pesquisa Ipsos também mostra o Prefeito desaprovado.

Por outros motivos eu gostei da comparação entre João Doria e Jimmy Carter. Até hoje só dividi com uma freguesia mais restrita, mas creio que chegou a hora de compartilhar com todos.

Jimmy Carter foi o primeiro ex-presidente americano a criar um instituto e sair pelo mundo dando palestras. Elegeu Direitos Humanos como a bandeira mais representativa do seu legado e ofertou sua experiência. Teve êxito e foi seguido por Clinton, FHC, Lula, Obama.

Palpite: este é o plano Doria. Prestes a completar sessenta anos, ele pula do Palácio Matarazzo para o do Planalto, faz lá umas reformas e privatizações, acaba ainda jovem e muito bem avaliado, para então voltar ao Lide, cuja estrutura está pronta para ser o iJD, mundialmente requisitado. Wall Street toda pagando mensalidade. O céu é o limite.

Só falta combinar com os russos, digo, os brasileiros e, antes, com Geraldo Alckmin, seu criador.

 
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Resta fufucar

Dez entre dez políticos, se perguntados sobre a intenção de ser presidente, responderão, com ou sem metáfora, que todo boleiro sonha em jogar na Seleção.

Daí que pouca gente entendeu o deputado Fufuca ter assumido a Mesa quando Rodrigo Maia (Bolinha ou Botafogo), virou presidente da República interino, devido a viagem do Presidento à China.

Fufuca é o segundo vice-presidente da Câmara. Chegou lá com a ajuda de Eduardo Cunha e José Sarney. O primeiro é Fábio Ramalho, ou Fabinho Liderança, conhecido e requisitado em Brasília pelas festas que promove em seu apartamento funcional, onde oferece galinhadas, leitoas, uísque e boas companhias.

Dizem que, autointitulado “amigo de tod@s”, o bom anfitrião convida as deputadas para seus jantares, mas que estas respeitam um acordo tácito e só ficam até começar a chamada “ordem do dia”, quando moças jovens, bonitas e sem mandato começam chegar.

O que há de intrigante na presidência do Fufuca é justamente a ausência do Liderança. Dos 513 deputados não se encontra um que perderia a chance de presidir a Casa por pelo menos alguns dias. O próprio Fabinho já bateu boca com o colega Molon por conta da cadeira.

Igual a tudo na vida, na falta de uma explicação clara, palpites brotam como mato no verão.

A primeira delas botei aqui ontem. Até a segunda denúncia que a PGR prepara contra Michel Temer sair, absolutamente nada vai acontecer. Reforma Política ou da Previdência, Orçamento 2018, nada. É conveniente para muita gente, porém não há vivalma disposta a decretar o engavetamento geral. Assim, deixa lá o Fufuca ensaboando.

Também é de se supor que, na iminência da denúncia, os pedidos de mais e mais dinheiro comecem a chegar ao Presidento que, estando na China, tem mais chance de se esquivar – a não ser de quem esteja com ele na comitiva. Daí que um assento no avião presidencial vale mais do que na presidência da Câmara.

A terceira, algo maldosa, dá conta de que chineses gostam muito de leitoa e outras especialidades de Fabinho, que na liderança da agenda extraoficial da missão diplomática poderia contribuir muito para os acordos pretendidos.

Saberemos em breve. Até lá, por falta de do que fazer, fufuquemos.

 
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Gin-tônica, ipês e Fufuca; Jango, Janot, flecha e Fachin

Gin-tônica, ipês ou Fufuca

As redações que cobrem política nacional podem decretar ponto facultativo com tranquilidade. Nada vai acontecer em Brasília até o ministro Edson Fachin homologar a delação do operador Lúcio Funaro, que cairá sobre o Planalto como uma chuva de flechas daqueles filmes épicos com cidadelas medievais se defendendo.

Feito isso, o PGR Rodrigo Janot vai acelerar para conseguir apresentar a denúncia antes de limpar sua mesa. Ou por outra: talvez ele já tenha esvaziado as gavetas, porque deve se dedicar exclusivamente ao caso durante os dias que ainda tem.

Até lá os coleguinhas jornalistas podem folgar plenamente. Aproveitar a chegada da primavera para gins-tônicas, flanar entre os ipês amarelos de Brasília – que estão lindos – ou ficar fazendo piada com o Fufuca.

Jango

O Presidento, numa temerária estratégia janguista, se pirulitou para a China, e conforme for deve escalar pelaí para evitar a tigrada da bancada BBB (bíblia, boi e bala), cujo apetite vai se transformar em larica quando a denúncia chegar.

Nem só de grana eles têm fome. Proibição universal do aborto, liberação de reservas de proteção e de porte de arma, trabalho escravo e outras rebobinadas no processo civilizatório hão de se somar aos cargos em agências, estatais e Esplanada, além de uma maleta eventual, como aquela do Rocha Loures.

Há bambu

Não me furtarei ao devaneio de imaginar que alguma freguesa bondosa tenha relações próximas ao Rodrigo Janot e faça as linhas seguintes chegarem a ele. Tenho audiiencia nas Minas Gerais, notadamente em Uberlândia, Juiz de Fora, São João Del Rey e Belo Horizonte, onde nasceu o PGR.

Portanto, aqui há bambu. Se chegar ao Janot, vira flecha.

Em fevereiro, quando José Yunes, primeiro-amigo e assessor especial do Presidento, foi delatado por um dos setenta da Odebrecht e se demitiu, falou ao colunista d’O Globo Lauro Jardim sobre a história envolvendo Eliseu Padilha, Eduardo Cunha, Lúcio Funaro, um pacote de dinheiro com volume inexato e 140 deputados comprados a granel. E que, por precaução, já em 2014 contara tudo ao brimo Temer, que reagiu com “aquela serenidade”.  Escrevi aqui a respeito.

Logo, Yunes está entre as testemunhas principais do caso. Com meio século de estrada percorrida, não poderá ter suas intenções, versão ou reputação colocadas em suspeição pelo melhor amigo, conforme feito com os irmãos joesleys (aparentemente já conciliados com o Governo, o BNDES e a CVM) e o próprio procurador geral da República, que chegou a ter pedido de suspeição requerido por Temer ao Supremo, e que acaba de ser negado pelo ministro Edson fachin.

 
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