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Enem, o exame do Brasil

Nascido no Senado, que é a casa de representação dos estados, o adiamento do Enem 2020 teve 75 votos favoráveis e um contrário. Quem votou sozinho contra? Flávio Bolsonaro. O Zero Um.

Na Câmara, casa que representa a população, a ideia foi recebida e encaminhada para votação com urgência, com previsível derrota do governo, que se antecipou e adiou oficialmente o exame.

O ministro da Educação, analfabeto funcional, que marca em seu currículo ter dormido na casa de Olavo de Carvalho, foi contrariado. Por ele, o exame seria mantido, alheio à realidade de grande parte dos estudantes brasileiros, vítimas da pandemia aguda que escancara nossa desigualdade crônica.

A vitória, contudo, foi concebida na sociedade. Pressão, participação, comprometimento, solidariedade que sacudiu o Congresso e dobrou o governo. Acredito que tenha sido a aula mais importante não da pandemia ou de 2020, mas do nosso tempo. Guardem bem a lição, estudantes. Guardem para a vida toda.

O problema geral foi a necessidade de estudar remotamente, desde casa, de um dia para o outro. Ninguém estava preparado, seja técnica ou pedagogicamente. Uma ou outra escola conseguiu se adaptar, um ou outro aluno também. Mas, no todo, ficaram todos perdidos: alunos, professores, pais (mães, né, minha filha?).

Houve destaque para a dificuldade de estrutura da maioria dos estudantes. Casas pequenas, amontoadas, conexão de internet fraca, máquinas compartilhadas com outros familiares e muitas vezes aquém dos sistemas das escolas.

Mas a verdade é que ainda temos muita gente com dificuldade de acesso a lápis e borracha. O drama dos pais no começo do ano para compra de material escolar sempre é notícia. Vai ano, vem ano, há avanços, mas em geral pouca coisa muda. O drama está lá, escandaloso, disputando manchete com enchentes e deslizamentos. E nos acostumamos a um e outro.

O adiamento, que a princípio deve ser de trinta ou sessenta dias, não é nada se comparado ao nosso atraso histórico.

 
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Tucanaram o lockdown

Bruno Covas e João Doria sabem que a gente precisa de lockdown. Mas falta coragem para decretar. E a solução não podia ser mais PSDB: tucanaram o lockdown. Só falta o Zé Simão cravar.
Inventaram a antecipação de alguns feriados para um batidão de seis dias. A ideia é baseada no domingo, quando o isolamento social chega a 56%, míseros 56%, mas é o que se consegue com conversa.
Espero que ajude, cada vida salva contenta, mas duvido que funcione. O domingo em casa é antes cultural do que pontual. Porém domingo só é domingo quando espaçado por outros seis dias. Seis domingos seguidos são férias.
Dos serviços autorizados a funcionar, chamados essenciais, quais ficarão fechados? Restaurantes funcionam normalmente em feriados e não vão parar as remessas por viagem por ser feriado. Talvez a demanda aumente – afinal, feriado é dia de festa e permite um e outro gosto.
Em domingos e feriados a oferta de transporte coletivo diminui. Mas quem tem que sair de coletivo na quarentena vai continuar saindo durante o super feriado, só que mais apertado.
E o problema central é do exemplo dos andares de cima. O que tem de cretino por aí usando a dificuldade de isolamento nas favelas e o desespero das pessoas pelo pão de cada dia para furar quarentena e tomar vinho na casa dos amigos é uma barbaridade.
Os costumes dos andares superiores são de uma escrotidão atroz. A cultura é de uma cretinice sem tamanho. Com a maioria em home office, como se fizesse diferença de onde se trabalha, usaram o Primeiro de Maio para esparramar corona no litoral e interior em caravanas fúnebres. Na metade do mês, as taxas de contaminação na capital era de 700%, e 3.300% no litoral e interior. Gente assassina.
Combinam festinha presencial para ver live show na internet! E a desculpa é: ah, com tanto pobre, quarentena é impossível. Pois é. 50% não têm saneamento básico, então parem de lavar as mãos e vão cagar no mato.
O feriadão tucano só não será mais do mesmo se houver bloqueio nas estradas. Passam os essenciais, abastecimento, socorro etc. Os demais não só não passam como são multados.
Mas sequer para tanto há peito no governador. O prefeito de São Sebastião, vendo a população apavorada, disse à CNN que tenta falar com o governador para combinar como fazer o bloqueio e não é atendido.
Previsível. A imagem de Doria derreteu nessa classe media deslumbrada. E ele sabe que, entre gente que não se importa em matar, não será reconhecido pelas vidas que conseguir proteger.
É de amargar. Hoje superamos as mil mortes diárias no Brasil. 1.170 mortes nas últimas 24h. E mesmo assim há desinformação, nagacionismo, desdém com a pandemia e com a vida alheia.
Dá vontade de desistir. Vamos todos para a vala comum de uma vez. Antecipem o carnaval e faremos uma super quarta-feira de cinzas.
 
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Miudinho

Ouço muito na voz do príncipe Paulinho, mas talvez seja do craque Martinho, ou ainda, qual a Teresa da Praia, não é de ninguém o partido alto Miudinho – ô devagar miudinho, devagarinho…

É o que tem embalado minha quarentena. Vou, finalmente, aprendendo a fazer as coisas com calma. Tirado o rancão inaugural, quando suava na faxina da casa toda de uma vez, nos outros dias suava com os exercícios atrasados desde muito, tentava fazer andar a fila da leitura que se acumulava na cabeceira, tomava todo sol possível no dia, cumpria quaresma severa ou, finda esta, me entregava a bebedeiras profundas, e muito, muito cigarro, redes sociais, TV, os excessos foram amainando e a moderação vai se tornando o costume.

Começou quando resolvi cortar o cabelo. Acho que foi, apesar de tudo, uma sensação de falta do que fazer. Cabelo ondulado tem a vantagem de entregar a ponta que pode ser podada. Meti a tesoura. Gostei. Não porque precisasse, nunca dei muita bola e menos ainda em quarentena. Mas pareceu terapêutico. E como não é todo dia que tem ponta se entregando, levei um três dias cortando. Semanas depois, repeti a dose ao longo de mais três ou quatro dias.

Influenciou a faxina. Pra que fazer a casa toda no mesmo dia? Exaure e, claro, os últimos cômodos acabam não merecendo a atenção dos primeiros. A coisa evoluiu a ponto de dividir os próprios cômodos em parte. Cozinha, por exemplo. Um dia é uma bancada, outro a geladeira, num terceiro o fogão, depois dele a pia, o piso e por aí vai. Miudinho.

Com ginástica é mais fácil. Sempre um prazer adia-la. Devagarinho. Tem dia que vale só se espreguiçar longamente. Com sol também. Ajuda em várias frentes, inclusive o humor. Mas não precisa ser todo dia, como ele mesmo sugere, se escondendo de vez em quando atrás das nuvens.

Orgulhoso mesmo estou do controle etílico. Pela primeira vez na vida passei a seguir a linha do final de semana. Sempre preferi beber desde segunda-feira, quando só tem profissional na rua, e deixar os finais de semana para os zé festinha. Agora, porém, alguma rotina parece interessante e vou esperando as vontades clarearem até quinta ou sexta, quando descubro quem mais quero rever.

Os gostos seguem parecidos. Com gin, vinho e cerveja estou civilizadíssimo. Sábado e domingo pela manhã fiquei em três gin-tônicas respectivamente. Um lorde. Vinho, idem. Começo pouco antes da refeição e encerro logo depois para a sesta. O fim da garrafa vai durante um zoom ou tevê no fim da tarde. Ah, a cobertura jornalística, que vem sendo primorosa especialmente na TV Globo e me absorveu na largada, também já está controlada. No Netflix maratonei Fauda na largada e agora nada me anima pra valer.

O diabo continua sendo a paixão. Uísque, quando diz alô, demora a se despedir. É aquilo que o Tom Jobim definiu tão bem: a primeira cerveja é uma delícia, a última, uma merda; o primeiro uísque é uma merda, o último, uma delícia. E haja últimos.

 

 

 
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Medidas de isolamento de Bolsonaro

É inexato dizer que Bolsonaro trabalha contra o isolamento. Temos que adjetivar isolamento para ficar exato. Sim, ele trabalha contra o isolamento social no plano doméstico, nacional, atacando governadores, prefeitos, juízes e outras autoridades sistematicamente. Já no plano internacional, diplomático, trabalha firme pelo isolamento do Brasil.
O presidente da Mercedes-Benz para a América Latina disse que o Brasil perdeu em poucos meses a credibilidade que conquistou, segundo ele, com as reformas trabalhista e previdenciária. Que sua indústria aguarda a liberação da Anvisa para ajudar produzindo respiradores, mas a falta de coordenação e burocracia atrasam o processo e colaboram para a pandemia.
Na América Latina somos vistos como párias por nossos vizinhos. Os paraguaios não podem ouvir falar em brasileiros. Somos responsáveis por 90% dos casos de contaminação por lá. Argentinos têm medo de contato com a gente, assim como todos os demais. Não é de hoje, o governo atual vem arranjando enrosco no continente desde antes da posse, com Paulo Guedes, ChanCelerado e o próprio presidente, que já conseguiu arrancar nota de repúdio até do seu colega chileno pelas declarações que fez contra Michele Bachelet.
O Fundo Soberano da Noruega excluiu de sua carteira qualquer possibilidade de investimentos em duas gigantes nacionais, Vale do Rio Doce e Eletrobras, por desrespeito ao meio ambiente. E olha que eles ainda caçam baleias.
Os países que começam a se abrir no pós quarentena estudam medidas para turismo e abertura de fronteiras. Todos eles, porém, adiantam que trabalham focados na necessidade de medidas de contenção, desde atestado de não contaminação ou imunidade até quarentena remunerada para visitantes. A principal preocupação, porém, é com turistas vindos de países onde a pandemia está descontrolada. Dentro deste quadro, nenhum país vai querer receber brasileiros.
No mercado de capitais, investidores internacionais fogem do Brasil há meses. Quando parecia que já tinha ido todo mundo embora, um ou outro desavidado que continuava por aqui se mandou na pandemia. Tem a ver com a taxa de juros? Também. Porém, mundo afora o que há são taxas ainda menores e até negativas. Logo, o que os espanta é a condução do governo atual.
Tampouco os Estados Unidos nos veem com bons olhos. Ninguém gosta de bajulação. Nem Trump, que por sinal já conversou com o governador da Florida e o prefeito de Miami, publicamente, considerando proibir a aterrissagem de voos vindos daqui por lá.
Não entramos no grupo de países que se juntaram para desenvolver uma vacina contra o novo coronavírus. Ficamos à sombra dos Estados Unidos, que também não entraram e também atacam a OMS. Quando tiverem a vacina, estaremos no fim da fila.
A farmacêutica Gilead, dos Estados Unidos, publicou uma lista com 127 países, em maioria pobres, em desenvolvimento ou com problemas de acesso à saúde, para receberem o Remdesivir, medicamento aprovado pela Anvisa de lá, o FDA, para tratamento da Covid-19. Aqui nem é caso de fim de fila – o Brasil sequer está na lista.
Será necessário falar da China? Claro. Os ataques ao gigante asiático são frequentes no entorno do presidente, de ministros à prole. A diplomacia chinesa reage indignada e nada acontece. Digo, sequer tentamos reparar ou minimizar os danos. Mas comercialmente acontece que somos preteridos na compra de insumos hospitalares pelo nosso parceiro principal, que compra o que ainda produzimos, comida, motor da nossa economia há anos e que continua funcionando na pandemia.
Entre a comunidade científica internacional, obviamente o cenário não é diferente. A revista inglesa The Lancet, uma das mais prestigiadas da área, publicou um editorial grave afirmando que Bolsonaro trai o povo brasileiro e é a maior ameaça no combate ao coronavírus.
O jornal estadunidense Washington Post foi na mesma linha, mas condenando as declarações de Bolsonaro sobre a OMS, que segundo ele incentiva a masturbação e a homossexualidade entre crianças, e ressaltou sua despudorada e contínua campanha de notícias falsas, tendo post removido por uma rede social. E ainda destacou como a Presidência arranja briga com entes federativos e até auxiliares, incluindo dois ministros da Saúde em plena pandemia.
Enfim, parece que conseguimos. Elegemos um marginal. É ele quem nos representa e isso é apavorante. Quantos Bolsonaros, Guedes e Damares há entre nós, em nossas famílias e círculos sociais? É terrível imaginar. Um em cada cinco brasileiros acha ele bom ou ótimo. É muita gente. E, agora, sequer podemos fugir dessa gente. Não há para onde correr. Somos parias mundiais. Brasileiros, marginais.
 
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Acorda, amor

Acorda, amor

Impossível não ouvir Acorda, amor, do Chico Buarque, com aquela sirene na abertura. Era a dura, numa escura estranha viatura. Dá pra ver a Veraneio na porta. Chico cantava a repressão da ditadura-militar contra gente que criminosa não era. E clamava: chame ladrão!

Que fazer quando o mocinho vira bandido? Recorrer a quem? Chame ladrão? Confusão. Aflição.

Nesta manhã a Polícia Federal visitou um dos seus. O deputado federal Delegado Pablo (PSL-AM), bolsonarista de carteirinha, licenciado da PF, é suspeito de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. A notícia é do Painel da Folha.

Não conheço Pablito, mas conheço o tipo. Moralista eleito com discurso contra tudo que está aí. Se é criminoso, dirá a Justiça. E depois tem que ver como fica politicamente. O eleitorado que acreditou no discurso e foi dormir em paz, como fica? Será que acorda?

ZeroQuatro e os vizinhos

Rafael Augusto Alves da Costa Ferraz só existem dois: o de verdade e o de um dos exames do presidente da República. O primeiro é um moço que mora em Brasília, em apartamento vizinho ao de Jair Bolsonaro, onde hoje vive seu filho ZeroQuatro, Jair Renan, contemporâneo de Rafael Augusto.

ZeroQuatro não tem sorte com vizinhos. Muito descuidado. Descuidado a ponto de ter namorado até a filha do ex-PM Ronnie Lessa, estrela miliciana e traficante bélico que tinha 117 fuzis e está preso suspeito de matar Marielle e Anderson.

Sobre o namoro com a filha do miliciano, Bolsonaro disse que o filho namorou metade do condomínio. Será que mantém a prática na zona residencial brasiliense? A ver com o pai, nada descuidado, sabedor das intimidades da prole por escutar o que dizem atrás da porta.

PF

Previsivelmente, Bolsonaro disse hoje de manhã que não mentiu sobre o vídeo da reunião quando afirmou não haver no áudio as palavras “Polícia Federal”. Daí apareceu “PF”. E ele: “São duas letras.” Que serão? Palpite: Prole Fodida.

PF 2

A Polícia Federal segue zelosa de seu papel institucional. Não quer saber de interferência de quem quer que seja. Pode ser família, amigo, correligionário, um dos seus. Se deve, paga.

Por dentro ou por fora – antes por dentro, o Exército deveria aprender com a PF. Acorda, amor.

 

ATUALIZAÇÃO: fui injusto com o Exército, que está quieto como deve estar e, em que pese a associação previsível da instituição com o governo pela presença de tantos de seus quadros reformados, a rigor nada tem a ver com o que vem acontecendo, tampouco deve interferir.

 
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Prepare-se para o impacto

Chegou a hora da torcida. Torcer para eu estar errado. Porque a corda esticou e estamos por um fio.

A Medida Provisória 966 (que bem poderia ser 666), publicada no Diário Oficial da União deste 14 de Maio, é um filhote de AI-5.

Pelo texto, assinado pelo ministro Paulo Guedes, Wagner Campos da Controladoria-Geral da União, e pelo presidente da República – que nesta manhã declarou que só tomaria pé do assunto chegando ao Planalto –, “Dispõe sobre a responsabilização de agentes públicos por ação ou omissão em atos relacionados com a pandemia da Covid-19”.

A rigor, o agente público que se exceder ou se omitir no desempenho de suas funções, fica relativamente liberado de responder civil ou administrativamente.

Por exemplo: se o responsável por transferir irregularmente R$ 600 do auxílio emergencial para as contas correntes de 73,2 mil jovens militares, enquanto milhões de necessitados esperam nas filas fúnebres diante das agências da Caixa, estivesse coberto pela medida, não poderia ser responsabilizado.

Mais: se cada um desses militares, num muxoxo inflado por ter que devolver o dinheiro, de alguma maneira se omitissem ou se excedessem ao comando, também estariam livres de responder fora das instâncias militares.

Ainda: se, sob ordem dos governadores, policiais se omitirem ou se excederem em suas funções no controle de fechamento de certas atividades do comércio ou em prováveis conflitos decorrentes da desobediência civil, teriam vasta margem para se defender de um processo administrativo ou civil.

Lembra, freguesa, da tentativa do Excludente de Ilicitude, também conhecido como licença para matar? Pois é. Agora temos a versão licença para se matarem.

Nas condições atuais de temperatura e pressão do país, o ato tem potencial explosivo. Este é meu receio. Meu pavor. E some-se a ele o efeito telefone-sem-fio: a ordem que sai do comando sempre chega com mais força, muito mais força, no agente que está na ponta.

Como tem efeito de lei imediato, urge que a medida seja derrubada pelo Legislativo ou Judiciário.

Mas talvez seja tarde. Então, prepare-se para o impacto.

 
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Varal de números

881 vidas perdidas para o coronavírus em 24 horas no Brasil. Não faz tempo, Bolsonaro afirmou que seriam no máximo 800 – durante toda a pandemia. Quantas mais ele desejará estimular?

3 generais ministros depuseram ontem no inquérito BolsoMoro. Em Brasília insistem que o trio tem reputação a zelar, portanto não estariam dispostos a troca-las pela de um capitão pra lá de enrolado. Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo, assim parece.

Já Braga Netto, que em 2018 foi interventor federal no Rio de Janeiro, atualmente ministro-chefe da Casa Civil, não viu, apesar do acesso a todos os dados de Segurança do estado, as súcias milicianas da família Bolsonaro, tampouco que o vizinho e ex-cossogro do presidente eleito e suspeito do assassinato de Marielle e Anderson tinha 117 fuzis.

Augusto Heleno, do GSI, que já mandou um “foda-se o Congresso” e considerou “azar” a apreensão de 39 quilos de cocaína num avião servindo à Presidência, era assessor de comunicação no COB sob Carlos Arthur Nuzman, delatado por Sérgio Cabral na corrupção das Olimpíadas. Ganhava muito acima do teto e se disse ignorante ao impedimento.

10 é o total de recursos pedidos por Flavio Bolsonaro, o 01, para paralizar a investigação sobre as machadinhas do Queiroz, Michelle e cia. 10 é o total de negativas.

2 ministros da Justiça e 1 ponte: segundo a CNN Brasil, na reunião para avaliar o impacto da apuração sobre o conteúdo do vídeo da reunião ministerial que pode vir a público a pedido da defesa do ex-ministro Moro, o ministro André Mendonça comparou o caso ao Watergate, escândalo que levou Richard Nixon à renúncia nos EUA. Marreco tem garganta profunda.

Os gatos com cartões corporativos da Presidência nos três primeiros meses de 2020 foram os maiores desde 2013. Total de R$ 6.214.967,31 segundo apuração do Estadão. Se tudo isso for leite condensado e pãozinho, mais que o passado, está confirmado o presente de atleta de Jair Bolsonaro.

 
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Está quente

Não tem nada de novo no absurdo conhecido por Jair Bolsonaro. É o de sempre. E depois de um ano e meio presidente da República, sequer a Presidência é novidade. É eita atrás de vixe? É. E estava na cara que assim seria.

Para manter a sanidade mental, tanto a minha quanto a desta freguesia, vou deixar a lista dos fatos que pontuam o caos brasileiro para outros canais.

Porém, até por solidariedade a quem, por um momento, e com boas intenções acreditou no projeto Bolsonaro, admito, mais uma vez, que em relação a ele meu maior receio atual estava na minha cara e eu também não vi.

Bolsonaro é miliciano. Pode não ser o cara que acerta o arrego ou instala o gatonet, Mas é miliciano. Tanto quanto é ruralista o membro da bancada do boi que que nunca pisou num pasto.

Sua longa trajetória política se alimentou da base miliciana formada por membros insubordinados e corruptos das forças armadas, às quais pagou com discursos, homenagens e, valendo-se da imunidade parlamentar, foi naturalizando o escárnio, o autoritarismo, a violência que são tão nossos.

Agora, receio, Inês é morta. O que não falta é gente pelas ruas, ensandecida, violenta e armada, parte falando em nome da lei, disposta a defender seu capitão.

Todos os levantes policiais recentes ocorridos em diversos estados têm alguma relação com o bolsonarismo.

Há, inclusive, na Praça dos Três Poderes, um acampamento montado, chamado 300 do Brasil, com gente armada que se diz representante do povo e, sofismando a Constituição, ameaça subjugar os poderes constituídos. A tropa de choque da PM-DF esteve lá e nada fez. Será daí o receio de tantos governadores em decretar medidas mais duras de isolamento?

Sua líder é uma ativista que já foi capaz de se pendurar pela pele das costas, nua, em pleno Vale do Anhangabaú, para defender outros pleitos. Em suas redes sociais diz que é boa pistoleira, treinada na Ucrânia, e que sua missão é a ucranização do Brasil.

A permanência dessa gente na Praça dos Três Poderes, ameaçando os poderes, sem resposta ou providência das autoridades, pode ser a cartada final do plano de poder de Bolsonaro. É o vale tudo autorizado para todo o país.

O problema é que talvez seja tarde para qualquer providência. Mas estamos perto de saber. Isso não é feito para durar meses e o tom do jogral do bando com o presidente da República não para de subir.

Depois de se aliar às manifestações antidemocráticas, hoje Bolsonaro ameaçou em suas redes sociais: “o afrontar o estado democrático de direito é o pior caminho, aflora o indesejável autoritarismo no Brasil [sic].”

Ele falava sobre o próprio decreto que torna academia de ginástica e cabeleireiro atividade essencial, e das respostas de governadores dizendo que será ignorado ou, como manda a Constituição, que governadores e prefeitos governam estados e municípios.

Está quente.

 
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Amanhã tem sol

Nunca fui de seguir o sol. Não tem motivo especial. Talvez a noção de que ele estaria lá, mais cedo ou mais tarde, meio que me deixava sem pressa. Se não tem hoje, amanhã terá. E segue o baile.

Meu gosto pela lua pode confirmar a hipótese. Como varia muito, ou pelo menos tem ciclos mais longos, quanto ela pinta no céu, e também quando some, o bom é aproveitar de uma vez.

O sol, porém, faz das suas. Peguei cem dias de chuva ininterrupta uma vez em Juquehy. Mais de cem. É de enlouquecer. Desanda tudo. Mofa a casa, as roupas não secam, a turma vai se deprimindo. Os pássaros se recolhem e sequer gato vadio se vê.

Até que um dia, sem mais, lá vem ele. Quando desponta, sente-se uma leve esfriada antes de começar a esquentar. Então os bodes vão se evaporando,  o mato surge lindo, lavado, brilhando entre a névoa que se esvai.

E há uma trégua geral. As garças, aos bandos, se deixam nos gramados mais quentes por horas, convivendo em paz com os cães e gatos que se espreguiçam. Perto deles, urubus fazem o desjejum limpando o acumulado que surge na maré baixa do rio. As gaivotas celebram na beira na praia em evoluções contentíssimas. E os passarinhos coloridos parecem crianças ao soar da sirene do recreio.

Os velhos vão saindo com calma. Espiam a luz com cuidado parecido com o de quem entra numa sala escura. Um pé, outro pé, esticam as pernas, espalham os dedos para absorver o calor pelas raízes.

E também os jovens não saem em louca disparada. O humor vai se ajustando, como nas músicas que demoram a começar e a ansiedade própria da idade recusa.

Perto do meio-dia, portas e janelas abertas, juntas todas estaladas, bate uma sede generalizada e o sorriso do dono do boteco – ou da padaria – se espraia. A gente vai chegando, se reconhecendo, desce uma, duas, desce mais. A prosa recomeça de onde havia parado e, de repente, antes do sol se pôr, a lembrança dos cem dias guardados vai morar num passado distante. O que fica é a certeza de quem amanhã tem sol de novo.

Fique em casa. E, se puder, não espere para aproveitar um pouco de sol.

 
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Debaixo de vara e com pijamas molhados

Generais de pijamas toparam servir ao capitão expulso no Palácio do Planalto. Agora estão apavorados e provavelmente arrependidos.

Com justiça, muito se elogiou recentemente a boa formação dos quadros das Forças Armadas. Tem gente boa em todas elas. Porém os melhores que estiveram no governo federal foram saídos pelo capitão terrorista.

Cena interessante: sendo bons como são alguns, por quê não foram absorvidos pela iniciativa privada? A resposta é simples: os realmente bons, por princípio. Outros, nem tanto, porque nem tanto – ainda que por conveniência tantos conselhos tenham os requisitado desde a posse do governo atual. Iniciativa, né, minha filha? Privada.

Agora, pela decisão do decano do Supremo, que mandou a Justiça ouvir cada um deles sobre a denúncia do ex-ministro Moro, com previsão de condução coercitiva em caso de falta injustificada, até “debaixo de vara”, estão amuados.

Pois que fiquem. Assim é na vida civil que eles escolheram. Sabiam o que estavam fazendo quando aceitaram jantar com o capitão. Sabem o que viram e ouviram. Têm que responder, como todo cidadão.

Se o pijama está molhado, general, problema seu. Você que se enxugue. Ouço agora, às oito da manhã, o clarim do Ibirapuera. Saudades, minha filha?

Hoje vocês têm medo das tropas insubordinadas e das milícias criadas dentro do governo ao qual servem. Que beleza de movimento. Belos estrategistas. Castello Branco mandaria todos vocês prum rincão qualquer, onde a única tarefa seria engraxar coturno.

Os coleguinhas civis de Esplanada estão na mesma. Se não pela decisão do STF, pelo aparelhamento dos escalões inferiores determinado pela turma do Centrão. O Boy (Valdemar da Costa Neto) vai se vingar do Tarcísio de Freitas por não ter feito o que sempre fez no Dinit e assim por diante. Força na peruca, general. Geral.

Finda tanta dor, quando isso passar, porque há de passar, vocês terão que responder. E quiçá será um mundo novo, pós pandemia, onde anistia não teremos. Teremos consequências.

Se segura, minha filha. Bota o pijama no vinagre, mijão. Se não for agora, este país voltará a ser uma República. E você terá que responder. Se debaixo de vara é uma escolha. Faça a sua.

 
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