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A 40tena e o sexo

É impossível, nesta primavera eu sei, é impossível pois longe estarei, mas pensando em nosso amor, amor sincero. Ai, se eu tivesse autonomia, se eu pudesse gritaria: não vou! Não quero! Escravizaram assim um pobre coração, é necessária a nova abolição, pra trazer de volta a minha liberdade. Se eu pudesse brigaria, amor; seu pudesse gritaria, amor: não vou! Não quero!

Acima está o Cartola, em Autonomia. Na minha versão predileta, quando Angenor segura, Radamés esmerilha o piano num arranjo que, executado em qualquer parte do mundo hoje, será entendido como o lamento da necessária quarentena.

Já tive entes queridos que viajaram para o longe e por lá ficaram, deixando saudades. Eu mesmo, durante um tempo me retirei, não para tão longe, mas distante o bastante. Outros foram ao estaleiro convalescer. Mais raros e também queridos, há aqueles que ficaram em Cannes. E o pior, que o Carlito Maia atribuía a São Paulo, cidade que afasta amigos e aproxima inimigos. Acontece. E a vida segue.

Porém não com todo mundo de uma vez só. Coisa mais estranha. Converso com um amigo que está na China há dez anos. Quero muito saber como é o dia em que abrem a porteira. Fico imaginando um carnaval retumbante, apogeu da liberdade. Mas não é bem assim. A abertura, ou abolição como disse o Cartola, é gradual. Pode não parecer, mas é um modelo muito brasileiro.

A vida seguirá depois de tanta dor. Resta saber se, já que me tiraram o carnaval,  posso continuar otimista com as lições que ficarão depois da surra, do sangue, do pranto. Se a doença aguda servirá para o tratamento de problemas econômicos (sociais, ambientais, financeiros) crônicos.

Tem gente boa tratando disso. O que era aceito como normal não mais será. Que seja para melhor, para o justo, para o franco. Para a satisfação geral da nação.

Quero tratar do sexo. Logo na minha primeira aventura desta quarentena, quando fui ao mercado para abastecer a casa, senti alguma lascívia no ar. As pessoas algo ofegantes, olhando de soslaio. Saca gordo em dieta? Passa um ano sem comer feijoada; começou a dieta, sonha com a feijoada. E da completa, com a cumbuca do fetiche toda, pé, orelha, rabo.

Comentei num grupo de amigos que estudam a sociedade e devolveram que eu sou maluco. Semanas depois, pego o Sérgio Augusto no Estadão contando do psicólogo italiano que publicou seu número de telefone ofertando papo gratuito. Falou com uma viúva de Malta, que em quarentena brava aos setenta e tantos anos, viu ressurgir a libido.

No instagram, sabe-se lá por que, o algoritmo me oferece um perfil novo, de compartilhamento de nudes, feito para a quarentena. Chama-se @nudecasa. Entrei e curti o que gostei, sem dizer nada. Mas depois fecharam o perfil e fui excluído. Quer dizer, no mundo virtual, repeti o Peréio, que já foi expulso de suruba por mal comportamento – com o agravante de bem ter me comportado.

Hoje abro a Folha e lá está o Anderson França contando que armou uma live (ele também… creio que não demora a surgir a curadoria de lives) que derivou em bacanal. Gente do mundo inteiro, até de Bangu, fez da sala um rendez vous e dele entravam e saíam para os reservados, em duplas, trios, publicando nudes, trepando no virtual e marcando os tête-à-têtes da anistia.

Para o celim (incel no acrônimo em inglês) que considera mera devassidão, fruto da podridão da sociedade contemporânea etc., etc., avisa o F5: um casal de pandas gigantes, enfim a sós com o fechamento do zoológico de Hong Kong, copulou pela primeira vez em dez anos.

Já contei aqui que meu avatar é praticamente imaculado. O único nude a sério que recebi chegou ainda em celular analógico, meu saudoso Motorola Pebl. A conexão era tão fraca que precisei de meia-hora para conferir os mamilos.

Na quarentena me pus a pensar sobre o sexo virtual. E o vejo uma vantagem alfabética: a meia-dúzia de vogais que temos são evidentemente importantes, mas o tesão deve estar nas consoantes, muito mais numerosas e variadas, com destaque para as longas, sem prejuízo da agressividade saudável das curtas.

Também pensei na etiqueta. Quem trepa pessoalmente deve telefonar no dia seguinte, dizer uma sentimentalidade (obrigado, Eça). E não tem por que ser diferente no virtual. Claro que não pelo zoom, nada disso. Mas um zap é o mínimo. E o máximo. Emojis! Que delícia os emojis. O que é o coração flechado entalhado no tronco de árvore se não um emoji?

 
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Franco Montoro, um clássico

Uma definição de clássico é “aquilo que serve de modelo”. A qualquer tempo, em qualquer contexto, o clássico é uma referência a ser considerada.

O pensamento de Franco Montoro, filósofo, político, professor, é um clássico.

Já nos anos 1950, vereador em São Paulo, falava da importância da água. Seus pares, que legislavam no Palacete Prates, ali na esquina do Viaduto do Chá com o Vale do Anhangabaú, córrego canalizado no início do século 20, ouviam com surpresa e alguma ironia. Só podia estar louco o edil, diante de tanta água disponível no Brasil.

Setenta anos e muita poluição depois, temos rios e praias imundos, 50% dos domicílios sem saneamento básico (básico!), e campanhas implorando para que as pessoas lavem as mãos ainda são necessárias nas favelas, rincões, universidades, hotéis e hospitais cinco estrelas.

A preocupação do Montoro com o meio-ambiente ia muito além da água, e veio muito antes de surgir termo ecologia. Governador do estado de São Paulo, tombou a Serra da Cantareira inteira, impedindo um colapso econômico (social, ambiental, financeiro) semelhante ao que abateu o Vale do Paraíba, e a semente vingou tão firme que derivou no tombamento da Serra do Mar décadas mais tarde (obrigado, Zé Pedro Oliveira e Costa).

Em tempos de coronavírus, com a vista chinesa nas grandes cidades de novo possível pela limpeza da atmosfera, canais cristalinos e visita de golfinho em Veneza, estrelas visíveis na noite paulistana, acalanta ver que a Natureza se regenera quando a gente para de maltrata-la.

Montoro insistia na importância da participação, da atenção e ação das pessoas na vida política, algo absolutamente atual dada a primeira resposta à pandemia, que brotou na sociedade, solidária antes de medidas governamentais.

Descentralização também lhe era algo caro. Muito antes do “mais Brasil, menos Brasília” virar modinha, Montoro repetia, repetia, repetia: Ninguém vive na União ou nos estados, as pessoas vivem nos municípios. Hoje, é antes nos estados e municípios do que em Brasília que a população confia para conter o avanço da Covid-19.

A convergência política, Montoro fez com maestria. Eleito governador em 1982, na primeira leva pelo voto direto que anunciava a redemocratização, harmonizou ampla aliança partidária. Um cético perguntou: como governar atendendo à ideologias diversas? Montoro: temos um programa de governo pactuado, os partidos poderão indicar listas tríplices e eu escolho os indivíduos. Seu secretariado era um ministério. E agora, ante à calamidade, vemos com satisfação adversários e até inimigos declarados, de mãos dadas pelo bem comum, o bem maior, reconhecendo uns nos outros a boa vontade.

Segurança alimentar, desde hortas comunitárias até apoio à agricultura, tanto da porteira pra dentro com crédito e investimento em pesquisa, quanto da porteira pra fora, com estradas vicinais e luta pelas hidrovias, passando pela descentralização do fornecimento das merendas para a rede pública de ensino. Montoro fez.

Trabalho e renda. Fundamentais, lógico. Mas não inseparáveis. Na falta do primeiro, é fundamental arranjar meio público de garantir a segunda para manter a economia funcionando.

Convém encerrar. Até para falar do Montoro é importante ouvir ouvi-lo. “Fala bem quem fala pouco.”

Só mais um: tudo isso pode parecer óbvio agora. Mas como dizia o Nelson Rodrigues, só os profetas enxergam o óbvio. Às vezes penso que Montoro viveu à frente do seu tempo. Engano meu. Montoro é clássico.

 
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Samba-crônica da (minha) quarentena

Longe de casa eu choro e não quero nada. Como é que pode? Trancado em casa e com saudades de casa? Pois longe do chão ninguém quer e não pode nada. Assim estou, quiçá você também, freguesa. Sinto falta de São Paulo, de escutar na madrugada, uns bordões e violões, e uma flauta a chorar prata.

Dor de amor não me magoa. Para mim o amor é essencialmente livre, ao contrário de mim, que estou preso. A saudade da garoa é que me mata. (Pois não) saio pra rua. Assobiando cumprido, um samba comovido, que Silvio Caldas cantasse. E me iludo que a garoa vem molhar a minha face.

Cada vez mais sinto que moro na rua. Mas é pranto e eu choro tanto. Não devia, não sou desabrigado, tenho todo conforto material. Quem me dera hoje mesmo eu voltasse pro chão que eu adoro. Calçadas, esquinas, botequins. Pois longe de casa eu choro e não quero nada. Mentira: daria uma falange, ou até duas, de qualquer dedo, por uma gafieira, um cordão com dez metais.

 

 
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20h30 é o horário do Jornal Nacional, não de panelaço

O panelaço foi importado da Argentina. Sim, hermanos, da Argentina. E por aqui foi adaptado. Como alguém bem definiu, diante da Casa Rosada o rufar da bateria significa “temos hambre”; nas janelas brasileiras, “não quero ouvir”.

Às 20h30 do 31 de março de 2020, 15º dia consecutivo de panelaços da classe média contra Bolsonaro, tivemos o maior de todos. É justo. Naquela manhã o presidente dizia ao curral diante do Alvorada que a data marca o “dia da liberdade”, em referência ao golpe de 1964, que instalou a ditadura militar, falseava a mensagem do diretor-presidente da Organização Mundial da Saúde, destratava repórteres presentes. Ora, com o perdão do sacrilégio, é melhor provocar auto-surdez do que ouvir coisa parecida.

Cá da quarentena maltratei o aço, enquanto acompanhava pelas legendas o pronunciamento do presidente em cadeia nacional. Ah, aprendi que é mais eficiente bater na tampa da panela do que na própria panela. É mais leve e barulhento. Porém, a princípio, não repetirei o ato e exponho meus motivos.

Primeiro, fazer barulho ajuda a extravasar. Entendo. Ficar na janela, areja a quarentena. Também entendo. Mas todo dia vai acabar incomodando e cevando o ódio do gado que resta. Noto pela minha paróquia. É começar o panelaço para meia-dúzia de garrotes saírem às janelas para xingar os músicos e defender o mito.

Ora, eles precisam de um atalho para escape. Encurralado, o espírito humano tende à teimosia. Sendo reaça, tanto pior. Deixemos estar. A suavidade civil agora é boa aliada.

Segundo, o Jornal Nacional e demais noticiosos da TV Globo vêm fazendo um trabalho impecável na cobertura da pandemia e dos movimentos dos governantes. Nasceu histórica a edição do Jornal da Globo do 26 de março, com Renata Lo Prete desmentindo, ponto a ponto, cada mentira contada por Jair Bolsonaro logo após seu pronunciamento. No dia 27, os demais jornais da casa reprisaram o conteúdo do “desenho” com as respectivas formas.

Quando Luiz Henrique Mandetta disse que a imprensa é sórdida, Ana Paula Araújo respondeu com altivez no Jornal Nacional, levando o ministro a se desculpar com grandeza.

Sendo a maior audiência a do Jornal Nacional, que começa justamente às 20h30, me parece mais eficiente que o gado esteja diante da TV do que nas janelas gritando “vai pra Cuba, vai pra Venezuela, petista vagabundo etc.”.

Craque que só, Lo Prete encontrou o veio para combater a desinformação que elegeu e suporta o bolsonarismo: explicar didática e minuciosamente cada sandice proferida pelo presidente. Os efeitos são perceptíveis.

O pronunciamento de ontem foi bem recebido pela imprensa e alguns formadores de opinião. Lamentável. Parece que não aprendemos nada. Dizer e desdizer é o método da comunicação bolsonarista. Os que o seguem pelas redes não conseguem se entender com quem lê ou assiste jornal justamente por isso. E a cizânia cresce, o que não interessa a ninguém.

 

 
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Como ajudar Mandetta

Luiz Henrique Mandetta é um abnegado. Se não é, está. Mas talvez seja mesmo.

Tenho um amigo que, como ele, é ortopedista. Certa vez, entre umas e outras – lá se vão uns quinze anos – brincou festejando o futebol ter voltado à voga. Molecada se estrupia e o consultório lota. E com efeito, sua conta bancária agradece.

Daí que Mandetta ter posto de parte o consultório particular para se dedicar à Política, à coisa pública, para mim é prova de abnegação.

Na crise do Covid-19 o ministro juntou o técnico e o político. Tem se saído bem no todo. Quem tem chefe sabe como é difícil. Quem tem chefe cretino, mais ainda. E todos podem imaginar com clareza como é ter Jair como chefe.

É feliz a combinação do doutor ortopedista com o político gestor de crise. Apalpa áreas sensíveis pelo melhor tratamento, tomando cuidado de minimizar a dor. Assim procede o ministro, segurando a bronca na Esplanada e palmeando poderes políticos, financeiros, judiciário e a aflição da sociedade.

No sábado o doutor fez um apelo à maior participação das empresas no combate à pandemia. Nominou os três bancões privados Itaú-Unibanco, Bradesco e Santander. Pela agilidade que a iniciativa privada tem e o governo não, eles podem importar testes sem tanta burocracia. E parece que assim o farão: importarão cinco milhões de testes, respiradores e outros insumos hospitalares.

Papel de ministro é dizer assim, com jeito, na manha, qual o ortopedista que apalpa uma fratura. Mas nós, a sociedade, podemos e devemos apertar sem dó.

Doações são importantes, beleza, que venham. Mas é pouco. Muito pouco. Itaú-Unibanco, quando da fusão, tiveram perdoados pelo CARF R$ 25 bilhões em impostos devidos ao Tesouro. Qualquer coisa aquém deste montante neste momento é esmola, ou pior que esmola, porque ofende.

Para os municípios, na linha de frente, no contato imediato com a população, também temos pendências em haver. Aqui em São Paulo, minha casa, os bancões deviam fortunas em ISS, graças à chicana de registrar serviços em CNPJ de cidades vizinhas que despudoradamente entraram na guerra tributária. Sonegaram um caminhão. Uma frota de caminhões de dinheiro.

Então fizeram uma CPI na Câmara e combinaram acordos, alguns nebulosos, sem sequer avisar acionistas. Escárnio. Vá você, contribuinte, dever ISS ou IPTU à prefeitura para ver o que é bom pra gripe.

Sou a favor de cancelar todos esses acordos. Estamos numa encruzilhada. Nada será como dantes. Nada pode ser como dantes. Chega. O Covid-19 é agudo, mas nossos problemas são crônicos e devem ser tratados simultaneamente. Ah, é quebra de contrato! Sim, é. Tanto quanto quebrar patentes sobre medicamento contra a AIDS que José Serra fez quando estava na cadeira ora ocupada por Mandetta.

Outras empresas também devem marchar. A Ambev fabricou e esparramou álcool em gel. Ótimo. Mas alguém poderia fazer a conta do total de isenções que receberam na Zona Franca de Manaus para produzir água com açúcar em garrafa PET, onerando o SUS com obesidade e diabetes e o meio-ambiente com tanto plástico? Hora de devolver, senhores. Coca-Cola idem. Seria importante que o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), barão do xarope de Atlanta e também beneficiado, tomasse a iniciativa.

Atenção à turma da desoneração da Dilma, montadoras à frente, que acordaram descontos em troca de criar empregos e não cumpriram. Vocês também, ordinários: marchem.

E acelera, Senado, na análise da proposta de criação de imposto sobre Grandes Fortunas, que pelo texto do senador Plínio Valério (PSDB-AM) terá corte acima de R$ 22 milhões líquidos, podendo engordar o Tesouro em R$ 80 bi ao ano. Igual ao sorriso para o Mario Quintana, é Pouco para quem paga, muito para quem recebe.

Imposto sobre herança também deve ser analisado e votado logo. Ficar elogiando o êxito da Coreia do Sul em testar a população e controlar a pandemia, sem se lembrar que por lá o imposto sobre herança é de 65% e, aqui, de 4% a 8% dependendo do estado, não passa de hipocrisia.

Vamos nessa. O melhor que podemos fazer para ajudar o ministro Mandetta é ficar em casa e aproveitar o tempo livre de trânsito para pressionar os congressistas por revisões urgentes e históricas.

 
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Pais e filhos ou Piu!

Não quero ouvir mais nem um pio, Piu!

Quem não teve pelo menos uma passagem dessas com os pais não foi suficientemente criança e provavelmente acabou graduado na Fundação Getúlio Vargas.

Parênteses: o estilo na primeira frase foi roubado do Ensaio sobre a cegueira do xará Saramago. Tinha cá na estante e admito sem vergonha que é minha primeira vez. Estava lendo dois livros ótimos porém graves, Escravidão do Laurentino e Tormenta da Oyama, que por sanidade mental tive que adiar a conclusão. Sigamos.

Das piadas correntes nesta quarentena está a dos filhos e netos que não conseguem segurar seus velhos em casa. Neste aspecto mais uma vez sou privilegiado. Meus pais estão trancados e mesmo os tios bolsonaristas-negacionistas que emigraram para a terra plana nas redes sociais, cá, na esférica, estão cada vez mais em casa e obedientes ao isolamento. Quem tem bofe, tem medo.

Uma das piadas boas é a da filha que proíbe a saidinha da mãe e ouve, Mas todo mundo está saindo, Você não é todo mundo. Vingança!

Inacreditável é ver as piadas, que na vida privada têm graça, acontecendo oficialmente e justo na Presidência da República.

Na semana passada houve uma reunião ministerial. Dois dos ministros mais populares, trabalhando horizontal e harmonicamente pelo isolamento social a fim de arrefecer a curva de contaminação da Covid-19, Mandetta da Saúde e Moro da Justiça, estavam presentes.

Mandetta disse ao chefe, que em uma entrevista ameaçara o Brasil de estar presente no transporte público em São Paulo, Se o senhor for a ônibus ou metrô, serei obrigado a criticá-lo, E eu vou ter que te demitir.

Sem poder vir a São Paulo, Bolsonaro foi ao comércio da Ceilândia, onde vivem os velhos da família da primeira-dama, que ele não visita nem recebe, e abraçou a gente que estava pelas ruas.

Traduzindo para a vida doméstica, Não quero ouvir mais um pio, Piu!

Doutor Mandetta, um técnico diligente que vem fazendo um esforço tremendo trabalho político para equilibrar a relação com a chefia, quando por ela deveria ser obedecido numa pandemia, enviou à sua equipe, bastante insatisfeita e desestimulada pelos desmandos e desatinos, Carlos Drummond de Andrade, No meio do caminho havia uma pedra.

Se Bolsonaro é uma toupeira que estaciona diante da pedra, Mandetta tem sabido contorna-la. Mas até quando? E quanto tais contornos, que de alguma maneira endossam as sandices planaltinas para o grande público, podem ser letais?

O mesmo vale para o subjugado super-ministro Moro, que baixou portaria avisando que os desobedientes poderiam sofrer sanções que chegam a pena de até dois anos de quarentena no xadrez.

Enquanto isso, ZeroUm apresentou como curado por um remédio que ainda está em teste um idoso que não contraiu o novo coronavírus, ZeroDois afirma que o artista Daniel Azulay morreu de leucemia e não da Covid-19, ZeroTrês festeja a ida do pai às multidões.

A formação de caráter dessa família mostra o que Jair, como messias, criminosamente pode fazer do Brasil. Pela vida de milhares, urge que seja impedido de continuar.

 
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Seremos ricos como nunca antes

O presente é amargurante, desesperador. O futuro imediato será tétrico, deprimente. Mas a tempestade há de passar, a primavera vai chegar, e o mundo que restará para ser vivido pode ser combinado. As notícias que temos para já apontam um porvir longínquo e alvissareiro.

Posso estar otimista demais. Mas igual ao ficar em casa se possível é questão de sobrevivência, física e psicológica, respectivamente. (100% de isolamento não teremos. Então meu muito obrigado às turmas da saúde, da ciência, abastecimento, distribuição, mobilidade, garis, policiais, bombeiros, porteiros, governantes responsáveis.)

Minha esperança vem de uma constatação: o covid-19 causa uma doença aguda, potente, avassaladora, que não pode nem deve ser medida pela necrocontabilidade da proporção de mortes em relação a outros males. Estes são muitos, crônicos, a começar pelos problemas causados pela desigualdade social perversa e pelo descaso também perverso com o meio-ambiente.

A miséria é o que há de mais caro no mundo. Nada custa mais dinheiro do que a pobreza. E destruir recursos naturais não é o caminho para combate-la. Insisto: o modelo econômico de produção e consumo desenfreados que fazem dos EUA, China e Japão grandes potências, se escalado de 1,7 bi de pessoas para sete bilhões, explodiria o mundo.

É triste que tenha que ter sido assim, na marra, por causa de um vírus. Mas é o fato, irrefutável, e teremos que lidar com ele.

A parte alvissareira é que as respostas na sociedade, parte das empresas e dos governos minimamente esclarecidos – exceções talvez sejam os presidentes do Brasil e do México, tidos como “de direita” e “de esquerda” respectivamente – vão no melhor sentido.

Ontem a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade um pacote de renda básica emergencial por três meses. Ampliou à realidade a proposta do governo que era de R$ 200. As transferências serão de R$ 600 a R$ 1.200 para proteger as pessoas mais vulneráveis.

Importante registrar os parabéns pela luta antiga da Rede Brasileira da Renda Básica, presidida pelo Leandro Ferreira e vice-presidida pela Tati Roque, que esteve nos últimos dias à frente da campanha deflagrada pelo debate que a Mônica De Bolle colocou. A RBRB tem como presidente de honra o sempre senador Eduardo Suplicy, que dedicou a vida ao tema. A canção que hoje me embala é Eduardo e Mônica. E quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?

Os efeitos depressivos do covid-19 na economia estão postos e são inexoráveis, aqui e alhures. Marginais também são, dado que o importante é a vida e sem ela a economia perde a razão de ser.

Pode ser a maior crise econômica de todos os tempos, dividindo o pódio com a quebra da Bolsa de NY em 1929 e a crise dos derivativos em 2008. Uma e outra tiveram respostas governamentais diferentes. A primeira foi pelo New Deal, botando dinheiro nas mãos das pessoas. Alicerçou a economia, que quando foi retomada no macro encontrou bases sólidas. Não fosse assim, o mundo provavelmente teria acabado na Segunda Guerra, sem saúde para se reabilitar. Tão sólidos foram seus efeitos que chegou até quase o fim do século. Tão sólido que permitiu a aventura neoliberal das últimas décadas.

Em 2008 quem mandava era o mercado e o socorro dos governos foi para bancos,  montadoras, firmas imobiliárias, grande capital enfim. Os principais culpados se salvaram e já no ano fiscal seguinte distribuíam bônus e dividendos gordos. Custou caríssimo. A desigualdade galopou, a miséria se esparramou, o 1% vertiginoso e despudorado ficou flagrante. Há alguns anos tentamos pagar a conta, queimando até a democracia e o combinado histórico sobre direitos humanos.

Agora temos uma oportunidade única. A pandemia tornou imperiosa a solidariedade, que vem de solidez, da noção de quem é impossível ser feliz sozinho. Quando for possível voltar às ruas, duvido que tenhamos estomago para passar por alguém com frio depois de gastar quinze minutos combinando o casaco com a calça.

Sem querer abusar de vossa quarentena, freguesa, só mais um parágrafo para conclusão, porque é necessário atar meus palpites confusos por tanta alegria e esperança neste 27 de março.

A imensa riqueza produzida pelo mundo no século 20 foi possível graças ao New Deal do Franklin Dellano Roosevelt, ora redesenhado quase no mundo inteiro. Precisamos mais do que nunca aproveitar o baque e o retiro para pensar o que vamos querer quando a pandemia passar. É nossa oportunidade para sermos ricos pra valer, ricos no que importa, e fundamental para ser rico e viver em paz é saber que ninguém, absolutamente ninguém passa por necessidades básicas.

 
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Fica em casa

Curioso como ainda tem maluco defendendo o maluco maior, aquele do Planalto.
Parte dos malucos são uns velhinhos reacionários que afirmam ter saudades da ditadura militar. Obviamente a afirmação só vale com trocadilho: as saudades são do tempo em que conseguiam ereção e os joelhos não doíam. Não tem relação com o regime.
De qualquer maneira, é de chorar. Choro igual chorou o Guga Chacra. Choro igual chorava o Churchill vendo hospital lotado sob a fumaça londrina ou após uma blitz nazista.
Mas como a quarentena é bipolar e nos leva do pranto à gargalhada entre uma notícia e um meme, para os velhinhos cabe a piada do Napoleão de hospício que é louco mas não é burro: atacam o tempo todo no grupo de família. Mas encarar um trem lotado e gravar um vídeo de apoio ao xarope do Planalto, gravam não.
Fazem muito bem. Fiquem em casa. Podem pirar à vontade, a gente aguenta. Mas fiquem em casa.
Beijos
 
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Tarado, psicopata, facínora – país nenhum aguenta isso

A novidade no pronunciamento de ontem de Jair Bolsonaro é o meio. O ódio escancarado, misturado a cinismo e deboche são uma constante em sua trajetória, assim como sinais trocados que alimentam e confundem apoiadores cegos que mimetizam o discurso tornando impossível qualquer debate consequente. Disseminação de fakenews e guinadas irresponsáveis a la Jânio Quadros, que por sinal usava e abusava da mesma estética populista idem. De novo, nada de novo.

Anda assim, nunca um presidente da República valeu-se de cadeia nacional de rádio e televisão para tamanha irresponsabilidade. Trata-se de um tarado, psicopata, facínora.

Se o que deseja vai dar certo a prazo é outro assunto, impossível de responder agora. O fato é que até aqui o ajudou, o elegeu, e mantém acesa a brasa em sua base muscular, que é a seita que segue o mito, não importa o que ele faça ou diga.

Esse músculo, calculo, significa aproximadamente 18% do eleitorado, índice de intenção de votos à véspera do atentado à faca em Juiz de Fora. A ele somam-se mais uns dez, quinze por cento de enrustidos que o seguem à distância. Trata-se no total de um terço do eleitorado, ou o bastante para estar no segundo turno e vencer o inimigo da vez, seja lá quem for desde que seja “de esquerda”, pecha que vale para a maioria de seus opositores.

Porém há os xaropes reacionários como ele correndo na mesma raia. E receio de perder apoio nesse campo é um dos motivos da fala improvisada de ontem, elaborada com ajuda do filho ZeroDois, o Cartuxo, e seu aparelho palaciano conhecido como gabinete do ódio.

Explico: desde o começo da crise do coronavírus o descompasso entre União e entes federativos ficou evidente. Pelo menos 22 governadores se afastaram da Presidência, assim como Legislativo e Judiciário.

Para compensar e tentar reestabelecer a harmonia, o capitão foi aconselhado a abrir diálogo com os governadores via teleconferência. Fez com todos, e ontem só faltava a do Sudeste, incluindo os governadores Doria PSDB-SP, Witzel (PSC-Rj), Zema (nOVO-MG) , Casagrande (PSB-ES). Deu ruim.

Como Doria e Witzel se movimentam para disputar a Presidência em 2022, e por terem ligações eleitorais e ideológicas com o bolsonarismo, o capitão sabe que o maior risco para sua reeleição está dentro de casa, a chamada direita reacionária, não no que é tido por esquerda progressista. A leitura é recíproca, daí os ataques continuados de parte a parte.

O Br Político do estadão, da brava jornalista Vera Magalhães, conta que a teleconferência do Sudeste nesta manhã foi tensa. Doria teria feito críticas, às quais Bolsonaro respondeu com adjetivos pra baixo de oportunista, traidor, demagogo.

Outro motivo foi levantar poeira em torno de Paulo Guedes, fiador e interface do bolsonarismo com o grande capital. Completamente perdido e fora de sintonia com a própria equipe, PaGue se mandou de Brasília para Ipanema e segue em quarentena trabalhando de casa.

Porém, a escalada das falas do ministro, cada vez mais malcriadas e indiscretas, são lidas por velhos conhecidos como pavio aceso – vasto e manjado é o histórico de explosão do distinto.

PaGue tem falado o que quer e demonstra desprezo crescente pela coerência, revela dados sigilosos, imprecisos e incompletos do Banco Central sobre o coronavírus sem compromisso com as consequências, torna público diálogos de articulação com o chefe, como no caso da MP da fome, que permitiria suspensão de contratos de trabalho, encaminhada e depois retirada pelo ministro, que invés de assumir responsabilidade culpou o estagiário pela redação e botou a suspensão no colo do populismo do chefe.

Para completar, o celebrado Dr. Mandetta se encontra em conflito escancarado com o chefe. Não aceita a maluquice do confinamento vertical, que guardaria idosos e deixaria jovens soltos criando defesa imunológica contra a pandemia. O ministro da Saúde segue com a orientação de isolamento horizontal, válido para todos.

País nenhum tem como aguentar essa loucura. Não há governo mas há apoio messiânico ao desgoverno. O que se há de fazer com a Nação prudentemente confinada, ainda que batendo panela diariamente, não se sabe.

A coisa boa é que talvez o Jornal da Globo tenha encontrado a forma de combater a loucura. Ainda ontem, após o pronunciamento, Renata Lo Prete ancorou os fatos tim-tim por tim-tim, contrapondo a fala do presidente com as falas de seus subordinados. Que o exemplo se esparrame por toda a imprensa.

 

 

 
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Seu destino é o bar

Tenho pensado no Washington Olivetto depois do sequestro. Já em casa, depois de um trauma violentíssimo que absolutamente ninguém deveria sentir na pele, ele tem dois pedidos: coxinha do Frangó e cheeseburger da Forneria.

Pediu para comer em casa, porque provavelmente também sentia saudades dos seus, da sua gente, das suas coisas, do seu canto.

Penso no cavaleiro Washington porque também estou confinado, igual a todo mundo que pode e tem o mínimo de noção de sociedade. Posso pedir em casa uma comida saudosa? Posso. Mas não peço. Não é o que me faz falta. O que me faz falta é sair de casa e ver minha cidade.

Quero flanar pelas calçadas. Ir ao parque. Abrigar corpo e espírito numa delícia de museu ou galeria. Esse dia há de chegar. Mais cedo ou mais tarde há de chegar. E quando for, da minha parte será carnaval.

E como em todo carnaval diligente, a primeira parada será num botequim, onde um garçom querido nos espera com as varizes e o sorriso rasgados. Ah, não tem sorriso? Não importa. Meu coração ama inclusive e, não raro, principalmente, os garçons mal humorados. Ama a restauração toda.

Ocorre que, com todo mundo guardado pela quarentena imperiosa, a ampla maioria dos bares e restaurantes estão fechados. Fecho com eles.

Porém, a depender do tempo que durarem as portas fechadas, é quase certo que não encontraremos porta aberta no dia em que portas as das nossas casas finalmente se abrirem. Parece um cenário absurdo, eu sei. Mas quem duvida que o absurdo acontece não está em 2020.

Entendo que pode parecer egoísmo, com tanta dor e sofrimento nas notícias de perto e de longe, ficar aqui pensando aonde vou comer e beber quando puder ir. E pode até parecer otimismo, afinal quem tem garantia de que estará lá no dia?

Mas para quem está preocupado com as pessoas, este é o número: seis milhões de empregos estão ameaçados pela quebradeira que o coronavírus pode impor à categoria. Na escalada padrão, incluindo as famílias, são aproximadamente vinte milhões de pessoas afetadas. Ou dez por cento de toda a população.

Agora, se a preocupação é com a economia, ou meramente financeira, a conta servida fria fica até mais fácil. Ninguém precisa ser especialista para saber o que significa 10% da população, pessoas economicamente ativas, expulsas do mercado de consumo.

Num jogo de palavras, resta saber o que queremos fazer da restauração. Nas cidades, nas estradas, nas praias, no sertão. Se dentro na normalidade todos pagamos para ter calçadas, parques, praças, museus, por que não deveríamos pagar para proteger, na excepcionalidade, nossos bares e restaurantes?

Em tempos recentes pagamos para salvar montadoras, companhias aéreas, bancos. Não uma, mas várias vezes. Com uma diferença fundamental sempre lembrada pelo embaixador da Johnnie Walker: a Escócia tem mais patrimônio em uísque do que a Inglaterra tem em ouro – sendo que uísque a gente bebe.

Escolhemos viver juntos, em cidades, entre outras coisas porque nelas temos um bar ali na esquina. Agora estamos fisicamente separados, confinados, mas juntos em sentimento. Quando a pandemia passar, vamos querer nos encontrar. E o nosso destino é o bar. Vamos salvar os nosso bares!

 
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