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Seguiremos pelo caminho torto, recebendo de cima o mau exemplo

Muito dos nossos problemas atuais têm a ver com a confusão entre os papéis de Estado, de governo e de Nação. Comportamento típico brasileiro, que não tem partido ou sequer fica restrito à coisa pública. É comum ver em clube, condomínio, sindicato, S.A., igreja. Nego se entrona e acha que é dono. Sabe aquele executivo brasileiro mais bem-sucedido no mundo? Então.

O caso atual do desconvite ao presidente da Venezuela para a posse do presidente eleito no Brasil mostra que seguiremos pelo caminho torto, recebendo de cima o mau exemplo. Maduro é ditador? Sim. Cuba é ditadura? Também. Tanto quanto a Arábia Saudita. A diferença é que esse último país segue convidado.

Se o motivo fosse não haver fome na Arábia Saudita como despista Eduardo Bolsonaro, peão diplomático da BolsoFamília, quantos outros países onde cidadão passam fome deveriam ser desconvidados?

O fato é que Venezuela e Cuba mantém relações diplomáticas com o Brasil. Relações de Estado, onde governo ou partido não deveriam interferir. O lulopetismo nos ensinou sobre como isso não funciona. E o próprio Jair Bolsonaro insiste que não quer um Itamaraty ideológico. Está claro que é o velho “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.

Misturar Estado, governo e partido sempre dá errado. Para piorar, só incluindo família e igreja. E a BolsoFamília, apesar de marginal, segue falando não só pelo governo, mas pelo Estado brasileiro, além de criar confusão no partido do presidente eleito.

A única utilidade da família no caso é para desenhar como tudo fica mais delicado com laços parentais envolvidos. As ceias de Natal da família brasileira prometem ser constrangedoras. Os grupos de WhatsApp ferveram nas eleições. Agora o tio bolsonarista terá que comer rabanada da mesma travessa da sobrinha #elenão, a sogra que está “torcendo pelo Brasil” vai receber o genro da “resistência”.

Pois é. O jeito de uns não encontrarem os outros seria romper com a família inteira. Quem está disposto? Com Estado e governo é a mesma coisa. Sua vida você governa, mas o estado familiar é maior do que os indivíduos.

Os problemas não param por aí. Se a finada D. Mariza Letícia foi reprovada por mandar plantar um carteiro de folhagens vermelhas em forma de estrela no jardim tombado do Palácio da Alvorada, em óbvia interferência a favor de seu partido, D. Michelle, que é da Igreja Batista, mandou recolher obras de arte com motivos religiosos, como uma tela de Djanira com orixás. Ou transferir para o Jaburu do casal Mourão uma imagem de Santa Bárbara. O general, por sinal, tirou de letra: “Ela é inclusive a padroeira da artilharia” – escola militar tanto dele quanto do ex-capitão eleito. E tudo isso na área pública do palácio, museu de fato averto à população, não na residencial.

Graças a Deus não contaram ao casal que vai morar no Alvorada a partir de janeiro que o arquiteto era comunista.

Ernesto Geisel, que era luterano e ditador, fez parecido. Mandou pintar de branco os afrescos no entorno dos painéis de Athos Bulcão na capela. Só perto deste século o restauro veio a ser realizado.

Sobre a interferência da religião e da família no acervo do Estado, Dona Michelle não quis falar à Folha, que apurou as notícias e aspas no penúltimo parágrafo. Provavelmente porque sabe que para além da própria família, acabaria perguntada sobre os queirozes e os cheques depositados em sua conta.

ERRATA 19/12 – a tela com os orixás de Djanira está no Palácio do Planalto, não no Alvorada.

 
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Amor, poder e o mundo novo

Em 1991 D. Lily Marinho casou-se com doutor Roberto, dono das Organizações Globo e um dos homens mais poderosos de sua época. Alemã, filha de mãe francesa e pai inglês, foi criada em Paris e veio ao Brasil pelo primeiro casamento com o quatrocentão descendente de barões Horácio Gomes Leite de Carvalho Filho, dono de vearias fazendas, mina de ouro e um jornal carioca.

Da parte do doutor Roberto a paixão era antiga e aconteceu à primeira vista, nos anos 1940, quando ambos se conheceram na casa do Cosme Velho. Mas como Horácio era seu amigo, a paixão ficou guardada por mais de quarenta anos.

Nos anos 1980 D. Lily ficou viúva. Contava mais de sessenta anos e reencontrou Roberto, duas vezes divorciado e já na casa dos oitenta. Diante de Lily, descreveu com riqueza de detalhes o que ela vestia, quais joias usava, como se portava no primeiro dia em que a viu, quarenta anos antes. Deu namoro, claro.

Doutor Roberto gostava de mulheres com unhas compridas e D. Lily era pianista. Impasse? Não. Ela abandonou o piano e deixou as unhas crescerem.

Um dia, lendo sobre um circo que chegava ao Rio de Janeiro equipado com uma leoa que havia dado cria, comentou sobre a beleza dos filhotes com o marido. Na manhã seguinte, os filhotes estavam em seu jardim, quiçá brincando com o bando de flamingos cubanos, presente de Fidel Castro.

Se ainda não ficou claro, acho linda essa história de amor e troca. E me lembrei dela hoje ao saber que o príncipe Harry, pelo segundo ano consecutivo, não vai à caçada tradicional em Sandrigham House. Charles, William e o bebê George estarão lá.

Segundo o jornal The Telegraph, o motivo é Meghan Markle. Ativista dos direitos dos animais, a duquesa de Sussex – que usa as unhas curtas – teria se sentido desconfortável quando no ano passado Harry foi com a família caçar javalis na Alemanha. A Coroa desmente: “Completely false”, ou #fakenews, como prefere o vulgar.

Fato indiscutível é que o mundo está mudando e depressa.

Agora é esperar o José Roberto de Toledo voltar das férias para saber como o movimento javaporquista paulista vai se posicionar no tocante a esta qüestão.

 
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Quatro notas soltas porém atadas

Vexame histórico

Onze deputados. Em 513, onze. Sendo um de sentinela, interessado em outro assunto. Assim a Câmara Federal marcou a sessão em memória do AI-5, que oficializou o horror no Brasil e esvaziou e fechou o Congresso. 300 marcaram presença e se mandaram para o aeroporto. Suas excelências estão de parabéns.

Michel Trump?

Outro vexame no apagar das luzes deste exercício vêm do ministério da Fazenda, que preparou para o governo de transição um relatório recomendando o fim dos incentivos para construção de usinas de energia renovável – solar, eólica e de pequenas hidroelétricas. Se a ideia do presidento era tentar sair menos mal do que se confirmou, nem dona Marcela, colosso de simpatia como madrinha do submarino Riachuelo hoje de manhã, poderá ajuda-lo.

Que tiro foi esse, Bebianno?

Gustavo Bebianno esteve na Central da Transição, na Globo News. Na forma, não foi mal, o que já é um baile considerando a estética do governo eleito. Mas no conteúdo é mais do mesmo. Um exemplo: citando o modelo de gestão do consultor Vicente Falconi, que bancado por empresários terá acesso a dados do Estado para tentar aplicar sua receita à máquina, comparou o tempo de internação nos hospitais do SUS e do Albert Einstein. É mais ou menos como comparar o resultado escolar de um doutor das melhores universidades com o de uma criança que na escola aprendeu a deitar quando ouve tiro.

Lugar errado

Era para nascer histórico o voto-discurso do ministro Barroso sobre a corrupção que mata, a torpeza do pacto oligárquico. Brilhante, necessário, urgente, elegante. Mas sendo no plenário do Supremo, deu ruim. No Brasil a corte é técnica e idealmente não deveria ter discursos eminentemente políticos. Mais distante e não menos importante, todo discurso político hoje em dia deveria conter autocrítica, e nesse sentido o ministro falhou em não refletir sobre as lamentáveis decisões monocráticas que ele e seus colegiados vêm tomando amiúde.

 
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Sobre crenças e goiabeiras

Cresci trepando numa goiabeira que tinha lá no fundo da casa dos meus pais em Juquehy. Era, digamos, uma goiabeira imaculada, dava goiaba de polpa branca, não vermelha. Não era boa a goiaba. Mas a goiabeira era.

Ainda assim, nunca vi Jesus sobre ela. Graças a Deus. E graças também por ter tido uma vida onde o mais próximo que cheguei de ver crianças tomando veneno foi lendo Romeu e Julieta – que, aliás, na cultura brasileira também é goiabada com queijo.

De modo que, se a ministra Damares, pensando em suicídio aos dez anos de idade, tendo sido abusada sexualmente quatro anos antes, viu Jesus no pé de goiaba da casa paterna, só posso respeitar. Teologicamente, para o pentecostalismo a experiência da revelação é sagrada. Se com Daciolo aconteceu no monte, com a ministra aconteceu na goiabeira.

Uma das coisas boas da goiabeira é a forma dos galhos, que formam-se em forquilhas, ensinando que a vida tem caminhos diversos. Forquilhas essas que servem ao melhor bodoque e são capazes de encontrar água sob o solo, como num scanner natural. Vai explicar…

E o que dizer dos milhares de católicos que vão a Fátima ver de perto a azinheira onde Lúcia (10 anos), Francisco (9 anos) e Jacinta (7 anos) afirmam ter visto Nossa Senhora? Da turma que acredita piamente na história de Adão, Eva, a serpente e a macieira? Ou dos jet setters secularizados que foram à Índia mergulhar no Ganjes poluído porque o Prem Baba assim orientou, ou afirmam terem se curado em Abadiânia, mas agora estão calados ante centenas de denúncias sobre abusos sexuais?

Dito isso, respeitemos a experiência de revelação da ministra, até para podermos cobrar dela o que é essencial: não misturar sua crença pessoal com questão de Estado. Grave é quando ela, já indicada, diz que “não é a política que vai mudar esta Nação, mas a igreja”. Ou quando usa não a experiência própria da revelação, mas taras pessoais para distorcer a realidade e atacar o que chama de cultura pansexual.

É aí que mora o perigo. Na mistura de crença pessoal e questões de Estado. Preocupante é ver gente falando em “torcer” para o Brasil dar certo, sugerindo com efeito o famigerado “ame-o ou deixe-o”. (Depois do caso do motorista, que por sinal dirigia mas lá na terra da azinheira do que aqui no Brasil, mais do que torcer, já tem gente tida como esclarecida falando em orar pelo governo eleito.)

Que o cidadão comum acredite e ore pelo que bem entender. O papel das autoridades deve ser o de garantir que todos se respeitem e que suas crenças pessoais não interfiram nas questões oficiais.

Hoje é o jubileu do AI-5. O único signatário vivo do documento que oficializou o horror no Brasil é Delfim Netto. O ex-ministro diz que assinaria de novo, bem como assinou a Constituição de 1988. Ecumênico de conveniência, serviu tanto à ditadura militar quanto apoiou os governos Dilma e Temer. Ele afirma que não sabia que havia tortura no governo Médici. Acredite quem quiser.

 
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Tucanos, nem isso

Tucanos querem oferecer a cabeça de Aécio Neves à galeras. Há entre membros do partido gente tida como esclarecida que chega a dizer que a derrota fragorosa nas eleições de 2018 foi culpa dele.

Vá lá que Aécio seja indefensável desde o áudio com Joesley. Não pelos palavrões, como disse alguém que depois, por conveniência, relevou cada um deles. Mas pela chantagem implícita no trecho onde, ao ouvir a recusa dos dois milhões pedidos, o senador reage dizendo “porque os dois que eu tava pensando era trabalhar (no processo)”. Acho difícil algo mais evidente para configuração de oferta de venda de serviço parlamentar.

Mas daí a dizer que Aécio concentra os problemas do PSDB vai um exagero brutal.

Ora, Marconi Perillo foi preso. Beto Richa foi preso. Eduardo Azeredo está preso. Geraldo Alckmin é investigado. José Serra tem contra ele a pior das delações, com extrato e tudo, feita por um ex-tucano, o banqueiro Ronaldo Cezar Coelho. João Doria e Bruno Covas são réus e estão cercados de gente ainda mais enrolada. Antonio Imbassahy foi flagrado trocando liberação de emenda por voto em plenário na denúncia contra Michel Temer. Tasso Jereissati, barão da Coca-Cola, ainda outro dia usava o mandato de senador para defender os interesses da própria empresa em pleno Salão Azul.

Mas o problema, obviamente, é o mineirinho.

O PSDB precisa fazer autocrítica, doa a quem doer. Ao supor que oferecendo uma vaca premiada para o sacrifício poderá acalmar a sanha dos bárbaros, erra fragorosamente. Pior: o gosto de sangue é algo que, uma vez experimentado, nunca sacia. Muito pelo contrário, faz quem experimenta querer sempre mais.

Em Brasília dizem que Lula e Dilma em algum momento acreditaram que a cabeça de um salvaria a do outro. O resultado está aí.

Otto Lara Resende dizia que “o mineiro só é solidário no câncer”. Tucanos, nem isso.

 
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Governo Bolso no xadrez II

Eu queria evitar o assunto, mas tem gente séria falando a respeito. Professor da FGV e presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima escreveu para a Folha um artigo alarmante. Literalmente.

Segundo ele, o movimento de mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém nada tem de tresloucado. Seria uma estratégia sofisticada para provocar uma reação de extremistas árabes no Brasil e justificar o endurecimento do regime.

Parece teoria da conspiração, eu sei e tendo a concordar. Ou rezo para concordar. Mas Renato Sérgio é uma figura respeitada e merece atenção, o líder do Hamas já reclamou nas redes, a Liga Árabe enviou carta a Bolso aconselhando reconsideração, sabemos da nossa vulnerabilidade nas fronteiras, na infraestrutura e do poder do crime organizado.

Pano rápido para São Paulo: com todo respeito ao coronel, não pega bem para o governador eleito colocar na secretaria de Administração Penitenciária um policial que esteve no massacre do Carandiru. Tem cara de provocação. Proporções guardadas, tanto quanto a mudança da embaixada.

Voltando no tempo: 1999, Seattle, reunião da OMC. Dezenas de milhares de pessoas protestaram contra a precarização das relações entre trabalho e capital. Posições reconhecidas, surgiu a proposta do Pacto Global, esforço mundial entre entidades, estados e empresas para alinhar a vida contemporânea ao combinado na Declaração Universal dos Direitos Humanos (que completou 70 anos ontem, muito bem lembrada pela ministra Rosa Weber). Em 2001 atacaram as Torres Gêmeas. E contra o terrorismo tudo passou a ser permitido.

Dezenove anos depois os protestos não estão mais em Seattle, mas no mundo todo. Desigualdade galopante. Imigrações em massa, independencionismo, xenofobia, guerra comercial, Brexit, coletes amarelos, desabrigados, fome, miséria.

Quem está por cima não quer sair. Por outro lado está difícil conter a ira das pessoas e a crença no diálogo segue perdendo fiéis. Solução para quem quer manter “manter isso daí”: Endurecer.

 
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Governo Bolso no xadrez

Na guerra e no xadrez, os peões vão na frente. Até o pacato ponteiro de comitiva, que na vida nunca viu um tabuleiro, sabe disso e sangra um novilho para atravessar rio que tem piranha.

No governo Bolsonaro, cinco das peças principais já estavam comprometidas. PaGue, Moro, Onyx e o próprio Bolso. Só Mourão se salva. Escrevi aqui.

Porém, fosse um tabuleiro de xadrez, seriam oito peças, assim distribuídas: Duas torres (Mourão e PaGue); dois cavalos (Onix e Heleno); dois bispos (Moro e Olavo); uma dama (Michelle) e um rei (Bolso).

A peãozada que vai na frente seriam seus filhos, os bolsominions, parte da bancada BBB, Bebbiano, alguns do PSL etc.

O valor de cada peça pode variar, mas de modo geral a rainha é a mais valiosa. Com Michelle Bolsonaro diretamente envolvida no caso do motorista do primeiro-filho Eduardo Bolsonaro, o governo está em xeque. Coisa mais fácil no estágio atual é emplacar uma CPI, na Câmara ou na Alerj, e convocar a primeira-dama para depor. Não digo que vai acontecer, mas obviamente o instrumento será usado para chantagear o governo, o presidente eleito sabe disso, e uma dona de casa, nascida em Ceilândia e morando na Barra com rotina lar-igreja, ficaria muito mal na arena.

Peões, que para alguns enxadristas sequer merecem a consideração de peças, neste caso têm valor. Os filhos são parlamentares eleitos e os bolsominions, Bebbiano e BBBs foram decisivos na eleição. Sabemos a situação de cada um deles: Carlos escanteado, Eduardo extrapolando em política externa e devendo explicações sobre onde estava e fazendo o que no dia da eleição para a mesa da Câmara, Flávio no COAF. No Palácio, Bebbiano quase contínuo. Nas redes, bolsominions constrangidos. PSL e BBBs em chamas.

Os bispos foram ridicularizados. Olavo colocou dois ou três ministros e, quanto mais fala, mais recolhe a batina, já acima dos joelhos. Moro, coitado, perdeu até a voz. A cada dia fala mais fino. Virou um ex-juiz em falsete.

Onyx é um cavalo de rodeio. Quem ficar em cima dele por quatro segundos é um herói. Imagina quatro anos. Heleno é um cavalo de guerra. Guerra de Tróia, alguém já observou.

Depois da dama, as torres são as peças mais valiosas. Mourão é torre por definição e tem proteção dos militares. PaGue também é torre, mas daquelas da Faria Lima, das sedes do mercado de capitais, que do dia para a noite podem ser reduzidas a pó.

O que eu acho? Quem move as torres manda no jogo. Não por acaso, são as duas peças mais sólidas no tabuleiro. As demais serão movimentadas de acordo com a conveniência de quem move as torres. Quais seriam os movimentos? Roer o restante da roupa do rei em reformas ríspidas. E então endurecer. (O por que vai no post a seguir.)

 
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Bandeira amarela

Coletes amarelos, na França, são um dispositivo de segurança no trânsito. Todo carro é equipado com um. Tipo de triângulo refletivo de vestir. Pneu furou? Veste o colete. Faltou combustível, pane seca? Veste o colete.

Foi mais ou menos o que deflagrou as manifestações recentes. Franceses têm o hábito de protestar pelo menos desde 1789. No 14 de Julho botam fogo em carros mesmo se não houver um motivo pontual. É cultural.

Seis centavos de euro a mais por litro de combustível foi a faísca que incendiou o país desta vez. Mas o problema de fundo não é muito diferente do que derrubou a Bastilha. Basicamente, desigualdade econômica.

Dos miseráveis do século 18 até a atualidade, a vida em geral melhorou para a maioria. Notadamente na Europa, o estado de bem-estar social garantiu o básico, equilibrou as relações de trabalho, o aumento do poder aquisitivo proporcionou conforto, longevidade.

Mas nos últimos quarenta anos os retardatários vivem sob bandeira amarela, isto é, como na Fórmula 1, giram, giram, e não saem do lugar. O problema atual é que o combustível está faltando – em todos os sentidos –, mas só para eles, enquanto a turma do pódio continua estourando champanhe magnum e fazendo cascatinha.

O presidente Emmanuel Macron reduziu impostos sobre grandes fortunas. A turma engoliu a seco. E agora, numa medida que é antes ecológica do que fiscal, aumentou o preço dos combustíveis fósseis para incentivar a energia renovável. Tudo junto e misturado virou uma bomba. Os coletes amarelos querem mudar “tudo isso daí”, quer dizer, as elites econômica e política. Macron encarna ambas.

A França não está sozinha. Os EUA têm um problema parecido. Donald Trump também reduziu impostos para os mais ricos, mas pegou a contramão das matrizes energéticas incentivando minas de carvão. Em vão. A política anterior de Barack Obama, que incentivava a energia renovável a longo prazo, se mostrou mais eficiente e deu resultado rápido. A conta do carvão já não fecha como antigamente.

A diferença nos EUA é que o próprio presidente veste colete amarelo em tempo integral, inebriando a população com suas fogueiras diárias. Trump é elite econômica e política, mas joga com sinais trocados, como se fosse contra o establishment. Vem funcionando. Mas até quando?

Em Los Angeles há 50 mil pessoas desabrigadas, vivendo nas ruas, porque não conseguem pagar aluguel, em alta com o crescimento dos supersalários, cada vez mais restritos, e nem querem sair de sua cidade. Em Nova York são 75 mil sem-teto. No país todo, pelo menos meio milhão de pessoas. Notícia da BBC.

Outros países enfrentam os mesmos problemas. Na Alemanha, o fim da era Angela Merkel antecipa uma crise política simultânea à econômica. Para competir globalmente, as empresas tiveram que arrochar os salários. Há emprego, as pessoas trabalham, mas a vida não melhora. E elas querem respostas. Notícia do New York Times.

Espanha, Itália, Turquia, América Latina. Todos têm problemas sérios, com efeitos sociais aparentemente distintos, mas muito parecidos na causa. Nem a China se salva. Por lá a dívida aumenta e a economia também é baseada em consumo, que não proporciona retorno financeiro ou espiritual, como um negócio individual ou conhecimento.

Tim Lee, economista que previu a crise mundial de 2008 e a derrocada da lira turca, está pessimista e falou à Folha. Acredita que o cenário atual tem todos os elementos para o estouro de uma nova crise global, pior que a de 2008, que não se dará nos bancos, mas nas empresas, no mercado financeiro e nos bancos centrais – que ao contrário de 2008 não poderão resgatar o mercado, porque não terão dinheiro – previsão dele. Mas também porque não haverá clima político ou social – previsão minha.

E nesse caso o Brasil está especialmente complicado. A carestia tomou as ruas, a economia informal chegou à classe média e, o operário que ainda tem emprego ganha 34 vezes menos do que o alto escalão das empresas (Estadão). Na Previdência, 41% dos benefícios vão para os 20% mais ricos, e apenas 3% vão para os 20% mais pobres (O Globo). Motoristas de caminhão ensaiam nova paralisação enquanto o motorista do filho do presidente eleito, nomeado em cargo de confiança, movimentou R$ 1,2 milhões em sua conta. É insustentável.

Só não vê bandeira amarela quem não quer. Se continuarmos ignorando, a próxima será vermelha.

 
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Bolsonaro em dia casmurro. Previsão de ressaca

Convalescendo de uma facada nas tripas, ponto de encontro de tantas emoções, e capitão do governo de transição, palco de tantas outras pra lá de acaloradas – sob qualquer ponto de vista –, o presidente eleito não precisava ter mais um bode dentro do próprio lar, e que sequer está na sala, mas no quarto de dormir.

O assunto do dia é o cheque de R$ 24 mil que a futura primeira dama Michelle Bolsonaro recebeu do motorista do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro, o primeiro filho.

Oito horas atrás, pelo twitter, Bolsonaro cancelou sua agenda de compromissos alegando ordens médicas e regressou para a Barra da Tijuca, onde provavelmente encontrou Michelle.

Convenhamos: a cada minuto que passa fica mais difícil entender o silêncio do presidente eleito sobre o caso envolvendo sua própria mulher. Se há explicação plausível, já deveria ter sido divulgada. Mas no lugar de defender a mãe de sua filha, uma hora atrás Bolsonaro preferiu usar o twitter para um post indignado sobre um comentário lamentável de uma suposta professora da Unicamp.

Ainda assim, presto minha solidariedade ao presidente eleito. Para alguém que construiu a persona destacando ser honesto e macho, é um dia casmurro. Primeiro porque, se não tem explicação, a chance de haver delito galopa. Se ele sabia do cheque depositado na conta de sua mulher, é ruim. Se não sabia, tanto pior. Nesse caso, se Jair acordou Bolsonaro, vai dormir Bentinho.

Atualização: segundo matéria do UOL, Jair Bolsonaro disse ao Antagonista que o cheque do motorista foi pagamento de uma dívida acumulada ao longo do tempo, que somava R$ 40 mil, e não R$ 24 mil. O valor teria sido parcelado em dez cheques de quatro mil, depositados na conta de Michelle porque Bolsonaro diz ter “pouco tempo para sair”. Resta saber qual relação isso tem com os depósitos.

A matéria diz ainda que os dois são amigos de longa data, não de seminário, mas de Brigada Paraquedista, quando serviram juntos até o motorista entrar para a PM e deixar o Exército. Agora estão rompidos, segundo Bolsonaro, até que o motorista “se explique ao MP”. Ora, por quê cortar uma relação de amizade se já está tudo explicado?

Ainda: não é incomum empréstimos entre dois amigos. Mas sendo entre um representante eleito pelo povo e um funcionário público por seu filho nomeado, é de se supor que esteja tudo declarado no imposto de renda de ambos.

Previsão de ressaca.

 
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O que o papa Francisco quer vender?

Político habilidoso, disparado o melhor em atividade no mundo, o papa Francisco sugeriu na quinta 29/11 que o valioso patrimônio cultural da Igreja Católica deve estar “a serviço dos pobres”, e que sua eventual venda não pode ser vista como escândalo.

É um craque o Francisco. Falando assim, a gente imaginando que os afrescos da Capela Sistina seriam removidos e entregues a quem desse o maior lance a fim de ter em casa Michelangelo, Rafael, Botticelli, Perugino.

Mas é claro que não se trata disso, até porque o valor do conjunto é inestimável e sua presença no Palácio Apostólico rende muito em turismo ao Vaticano.

Passado o arrepio, a melhor forma de entender a mensagem do papa é pelo em cinema. Jep Gambardella poderá nos guiar pelas maravilhas de Roma e dimensionar quanto valem os tesouros das princesas e dos bispos. Muito provavelmente concluiremos que não têm preço.

A chave para entender onde o papa quer chegar é O Poderoso Chefão. O auge da família Corleone foi a associação com a Società Generale Immobiliare, fundada em 1862 e maior companhia imobiliária da Itália, cujo maior acionista é o Vaticano.

Como a Igreja não revela suas posses, muita gente tratou de calcular por alto o tamanho de seu patrimônio através de escrituras (sem trocadilho). Num calculo conservador, o papa tem entre 25% e 30% dos imóveis na Itália.

Mas o número pode ser maior, dado os indícios de que a Igreja usou as mesmas artimanhas de lavagem de dinheiro que estão por aí à disposição de empresários, políticos e criminosos, todos criminosos.

Em 2013 o jornal inglês The Guardian publicou uma matéria mostrando que através de empresas offshore a Igreja comprou aproximadamente € 500 milhões em imóveis em Londres, além de blocos de apartamentos de alto padrão na Suíça e na França.

Toda essa gaita teria origem no mesmo esquema de Michael Corleone, que doou U$ 100 milhões ao Vaticano em troca de uma medalha que ajudaria na faxina de seu nome. Só que na vida real quem fez a troca – muito mais cara, por sinal – foi outro chefe, mais exatamente il duce Benito Mussolini, contra o reconhecimento do papa ao regime fascista.

Francisco nada tem a ver com isso tudo, mas sendo papa, obviamente se sente responsável e quer remediar. Como ensina a obra de Mario Puzo e Francis Ford Coppola, nosso querido Chico corre um risco tremendo.

 
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