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Já para a academia

De um a nove de agosto o Rio de Janeiro será a capital mundial da matemática. É o prazo de realização do Congresso Internacional de Matemáticos, ou ICM na sigla em inglês, com direito a entrega da medalha Fields, considerada o Nobel da área e que laureia a cada quatro anos, desde o século dezenove, quem se destaca na matéria.

Há vasta reportagem na imprensa para a gente se divertir. O que eu mais gostei relato em três pontos: saber que é no Rio, que o anfitrião é o Instituto de Matemática Pura e Aplicada e que o congresso abre no 1º de Agosto.

Explico: o Rio é o recheio de um sanduíche de maré e floresta, que são pura matemática, assim como a música está para a matemática como a poesia para a gramática.  Se contassem isso para a gente na escola, invés do decoreba utilitário tradicional, muito provavelmente gostaríamos mais dos números. Juntando tudo, maré, floresta, música, poesia e o Rio, só posso concluir que o Tom Jobim deve estar pra lá de contente.

Mas e o primeiro de agosto? Bom, é o meu dia de volta às aulas. Como parte desta freguesia sabe, fugi da escola na adolescência. E um dos motivos foi o utilitarismo da escola.

Ainda nos verdes anos andei perguntando para que servia aquela rotina massacrante. E a resposta era invariavelmente tenebrosa: porque aumenta suas chances de arranjar emprego. Ocorre que me esfolar naquele rame-rame para então, depois de formado, ampliar a rotina, me levou a primeira crise existencial. Faltava beleza. Faltava propósito. E eu preciso de beleza e de propósito. Custa caro, eu sei, mas é da minha natureza.

Mais recentemente, já oficialmente velho e incentivado pela minha Neguinha, entrei num madureza no colégio Lapa e não perdi a viagem. Concluído o ensino médio, prestei Filosofia no Mackenzie e já cumpri o primeiro semestre. E, quem diria, agora veterano, estou doente de saudades da escola. Saudade da beleza que é estudar com um grupo de colegas e professores que estimam justamente a beleza de saber antes de qualquer sentimento de utilidade – ainda que este esteja presente.

Turma corajosa que rema contra a corrente utilitarista fazendo questão de pensar e questionar antes de fazer. Todos ouviram em algum momento o palpite vulgar de que Filosofia não serve para nada, que é coisa de vagabundo, e seguiram em frente. O sujeito que se recusou a carregar uma pedra e parou para descobrir a roda, ou o outro que inventou os aquedutos, devem ter escutado coisas semelhantes e, sorte nossa, não deram ouvidos.

Com o avanço das tecnologias a Filosofia se torna mais e mais necessária. O debate em torno da singularidade tecnológica, que é a fusão da biologia e da tecnologia, passa por questões éticas. E os esquemas filosóficos são fundamentais para as soluções.

Vamos ter que decidir até onde a inteligência artificial e a internet das coisas poderão conduzir a sociedade. Quanto poderemos misturar seres vivos e máquinas. Teremos nano-robôs no sangue que permitam comer e não engordar? Teremos células vivas capazes de cicatrizar um furo numa calça? Os jeans serão eternos?

Naturalmente há quem se apavore com tais perspectivas. Entram questões políticas, morais, religiosas. Mas, de novo, não deve ter sido diferente na roda do primeiro humano que controlou o fogo. Aposto um milhão de dólares do Zimbábue que alguém disse que aquilo era brincar de deus.

De volta ao Congresso Mundial de Matemáticos no Rio de Janeiro, a beleza de saber e estudar vai pautar o encontro. E servirá de norte para todos nós.

Caso outro milhão na aposta seguinte: se as máquinas inanimadas nos livraram do esforço físico compulsório e nos levaram a suar por prazer na academia de ginástica, as máquinas inteligentes, nos livrando do pensamento utilitário, nos levarão à velha academia, aquela de saber por prazer, aquela do Platão.

 
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Bolsonaro no Roda Viva

Jair Bolsonaro deu um baile no Roda Viva – enquanto lutou no porão, onde é imbatível.

É tecnicamente impossível debater racionalmente com quem relativiza a ditadura, tortura, estupro, assassinato, direitos humanos. E é também inútil, porque quem concorda não vai mudar de opinião e, quem discorda, acaba vítima de um processo orgânico, onde todo o sangue vai para o aparelho digestivo, embrulhado com as atrocidades verbalizadas.

Já quando foi chamado à luz do sol, acabou severamente magoado. Não conseguiu responder sobre saúde, economia e até segurança, supostamente sua área de especialidade. Se enrolou todo tentando explicar a tática de invasão de favelas ocupadas pelo crime organizado armado.

Sobre gestão foi hilário vê-lo citando o exemplo do Antonio Ermírio de Moraes na Beneficência Portuguesa como modelo para a Presidência da República. Segundo ele o segredo está em assinar todo e qualquer cheque superior a três mil reais. Haja pulso…

Infelizmente, ao perguntarem sobre insubordinação, preferiram citar os oficiais do Exército do que o Paulo Guedes, posto Ipiranga (sic) do candidato para economia. Cadastro positivo e bomba fiscal, onde respectivamente o deputado votou contra ou simplesmente faltou, eram essenciais para o entendimento da atuação dupla.

O agronegócio também foi preterido. Paulo Guedes se diz contra subsídios. Mas aparentemente os produtores rurais que vêm carregando o Brasil nas costas não sabem disso.

Em questões políticas também fracassou. Bolsonaro se lembra com orgulho do aliado Eduardo Cunha no apoio à aprovação de um dos dos dois projetos de lei que conseguiu passar em quase trinta anos de mandatos políticos. Segundo ele, não teria como saber das traficâncias do hoje presidiário Cunha.

Então, quando perguntado o que teria feito pelo Rio de Janeiro, que tantas vezes o elegeu e se encontra em estado de calamidade, disse que nada, porque não se aliaria a Sérgio Cabral. Como assim? Não sabia do Cunha mas sabia do Cabral e não denunciou? Isso é prevaricação, capitão.

Por fim, a TV Cultura já pode preparar uma segunda carta mea-culpa, qual fez sobre a entrevista com Manuela D’Ávila. A direção da entrevista com o ex-governador Geraldo Alckmin foi nitidamente favorável, com direito a desfile de apoiadores, cortes em momentos de pressão e até intervalos curtos com anúncios de realizações do governo do estado de São Paulo. Nenhum outro candidato mereceu tal deferência. A ameaça do autoritarismo se combate dentro da democracia, cujos princípios fundamentais são igualdade de condições e liberdade (e responsabilidade) de imprensa.

 
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Bela Vista, SP

Sessão flor de laranjeira hoje cedo. Cartório da Bela Vista cheio de noivos.

Elas todas de vestido, no capricho, madrinhas inclusive.

Já os noivos… um de camiseta e, entre os padrinhos, maioria em bermudas e um de roupa de ginástica, para não perder a viagem.

No bar em frente, grupos de meninas tomavam as penúltimas da noite de lua vermelha às nove da manhã.

Na volta, a pé pela Brigadeiro, missão de jovens mórmons do Colorado.

Todos muito simpáticos, de gravata e crachá, dizendo que o nosso inverno está mais quente que o verão deles e respeitando nossa pluralidade religiosa.

Antes de saber que eram mórmons, fiz uma brincadeira relacionada a álcool por conta do sobrenome de um deles. Depois pedi desculpas e o rapaz assentiu com um sorriso e um tapa fraterno nas minhas costas.

Impressionante adaptação. Chegaram há quatro semanas sem saber uma palavra na Língua do Camões e pregavam em português.

Viva São Paulo!

 
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A bossa nova portuguesa

Às dez horas da noite do Sete de Setembro de 1964 Vinicius de Moraes estava num quarto de hotel, que dava para uma praça, que dava para toda solidão do mundo. Sozinho e em tristeza profunda, ampliada pela consciência da festa brasileira na embaixada em Paris, não muito longe do Porto do Havre, donde o poeta e diplomata aguardava o navio que o entregaria de volta aos amigos, ao tutuzinho com torresmo, à galinha ao molho pardo, ao doce de coco.

Para segurar o bode o Poetinha escrevia uma carta ao Tom e lembrava grandes feitos da turnê com Baden Powell pelo Velho Continente. Sem qualquer modéstia afirmou: “Agora o tremendão aconteceu mesmo, a Europa teve que curvar-se.”

Com o Tom e o João Gilberto ele tinha feito a Bossa Nova. Mas na Europa, com o Baden, atacou com os afro-sambas, mais próximos da forma tradicional, o que atribuiu às raízes, emprestando o termo do Lúcio Rangel.

Fiquei pensando nesses brasileiros fantásticos ao ler n’O Globo a reprodução da matéria do NYT sobre Portugal e o êxito da Geringonça, coalisão política que desafiou a troika europeia e recusou o modelo de austeridade sem desleixar no rigor fiscal. Ou, como diria o Vinícius, o primeiro-ministro Antonio Costa fez doce conciliação sem covardia.

Dez anos depois os resultados são festejados a ponto dos europeus entregarem ao ministro das Finanças Mario Centeno a presidência do Eurogrupo, colégio de ministros de finanças da zona do euro. Isto é: a Europa teve que curvar-se.

Não é a primeira vez que Portugal aposta na receita doméstica e criativa para se livrar de um problema grande causando o menor sofrimento possível. Mas talvez seja a primeira vez que a vizinhança reconhece o feito.

Já li meia-dúzia de biografias sobre o Napoleão e em nenhuma delas o drible português que o desnorteou é reconhecido. Aliás, mesmo aqui no Brasil pouca gente reconhece a proeza de Dom João VI, que com apoio da Inglaterra e do diplomata Dom Rodrigo de Sousa Coutinho deixou as tropas napoleônicas à toa em Lisboa, sem ter que tocar fogo na cidade como fizeram os russos. Simplesmente Portugal não era mais ali e, se o grande estrategista corso quisesse anexa-la a seu império, teria que cruzar o Atlântico. Algum tempo depois tudo voltou a ser como dantes.

Os críticos, muito bem-vindos, dirão que ainda não se pode festejar, porque há muito trabalho pela frente e uma dívida alta. Ora, trabalho pela frente temos todos e o primeiro a reconhecer o fato é justamente o primeiro-ministro Antonio Costa. E dívida é igual a remédio, boa na dose certa, antes de virar veneno. As maiores economias do mundo devem uma barbaridade, com China, Japão e EUA, segundo o FMI, responsáveis por mais da metade dela.

O importante é a Europa ter reconhecido que Portugal encontrou uma alternativa, uma bossa nova, que não sacrifica o povo. Como diria o Vinícius naquela carta do Porto do Havre, “afinal, é para ele que a gente compõe”.

 
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No jogo entre o público e o financeiro, eu torço para a cidade

Crônica publicada no projeto Esquina Encontros Sobre Cidades do Estadão

Contexto: Estamos todos preocupados com o que será das lojas de rua ante o crescimento do comércio on-line. Em 2017, nos Estados Unidos, quase sete mil lojas foram fechadas, superando as pouco mais de seis mil que baixaram as portas em 2008, com uma diferença fundamental: 2008 era o auge da crise dos derivativos e em 2017 o PIB americano cresceu 2,3%. Atento, o bilionário Warren Buffett vendeu quase um bilhão de dólares em ações do Walmart. Buffett já foi o homem mais rico do mundo. Hoje o posto é de Jeff Bezos, fundador da Amazon, gigante do comércio on-line, com US$ 50 bi na frente do segundo colocado, Bill Gates, da Microsoft.

No jogo entre poder público e financeiro, eu torço para a cidade. Falo de Billions, uma das minhas séries prediletas no Netflix, onde um membro do órgão equivalente ao nosso Ministério Público e um operador do mercado de capitais se antagonizam às últimas consequências.

O roteiro é caprichado, fruto de pesquisa profunda. Para mostrar aonde o poder e o dinheiro podem chegar, mostram a autoridade, no limite, ameaçando o cidadão que não apanha o cocô do cachorro, e foram buscar uma receita francesa altamente sofisticada, atualmente proibida, onde a matéria-prima é um passarinho de seis centímetros chamado ortolan, e cujo preparo faz a engorda dos gansos para o foie gras, comparativamente, parecer um cafuné.

O ortolan do bilionário é preparado em casa por um cozinheiro particular, que entre outras atribuições tem a de repetir com aromas e sabores as sensações mais caras ao patrão, como o hambúrguer ou a pizza que ele gostava de comer na rua quando podia passear livremente.

E como não querer passear na cidade escolhida para a série? Se Billions tem o poder de esnobar, é quando desfila a riqueza da diversidade de Nova York. Tida como centro do mundo, a cidade faz o meu bairro, no centro expandido de São Paulo, parecer um subúrbio monótono e carente.

Sauna russa com especialistas para lanhar a freguesia com ramos de ervas especiais? Tem. Academia chinesa de tênis de mesa com treinadores campeões do esporte? Também tem. Livraria pequena com títulos novos ou raros e dono atendendo no balcão? Várias.

Para não ficar só em Billions e Nova York, vou botar mais uma série, a catalã Merli, que empresta o nome de um professor de filosofia boêmio e popular que adora as praças e parques, churros e chouriços de Barcelona. O que mais me chamou a atenção na cidade foi ver que, depois da aula, no meio da tarde, as meninas se reúnem num salão de bilhar.

Fiquei imaginando qual seria a chance de um salão de bilhar acessível para estudantes do terceiro colegial no meu bairro. Sob as regras atuais, creio que zero e, de fato, não há nenhum. Como manter um serviço que demanda tanto espaço para tão pouca gente por exemplo na Lorena, onde o aluguel de uma loja com 500 m2 está em R$ 50 mil mensais?

A gente fala muito das companhias aéreas, necessárias para visitar Nova York ou Barcelona, e do aperto que elas vêm impondo aos passageiros. Mas me parece que o problema não está só a bordo. Em São Paulo os lugares em terra estão na mesma linha, trabalhando com overbooking ou inviáveis. Pior: em qualquer estrato econômico, a pasteurização é absurda. Todos vendem a mesma coisa. Nos pontos de ônibus e terminais, bombonieres; nas esquinas, botecos idênticos; nas calçadas, churrasquinho, milho, café com leite e pão doce. Nos três casos, o empreendedorismo individual fica na aparência: a maior parte é controlada por esquemas industriais.

Nos bairros caros, ondas passageiras: bolo caseiro, paleta mexicana, iogurte gelado e, no momento, hambúrgueres. Perenes e crescendo, de novo, só os impessoais esquemas de rede: farmácia, açougue, padaria, agências bancárias – que agora planejam oferecer café. Melhor que nada, mas no meu sonho a diversidade era diferente. Tinha teatro, cinema, sinuca, cerveja, quitanda, modista, florista, galeria, livraria, cabaré.

Assisti pela internet ao debate promovido pelo Esquina sobre O Comércio na Cidade. Pro meu gosto, o Mauro Calliari abordou o tema essencial, citando Jane Jacobs. Como é sabido por esta freguesia, ela falava da importância da diversidade para a vida na cidade, de misturar áreas residenciais e comerciais. Eterno descontente, creio que não basta e sonho com a diversidade residencial, isto é, possível a múltiplas faixas de renda, mais a diversidade comercial, como a de Nova York, e ainda a diversidade individual, única capaz de criar identidade local, tudo junto e misturado.

Mas será possível aliar o poder público ao financeiro para fazer uma cidade melhor? Mestre Calliari apontou alguns caminhos (com trocadilho), que podem evitar o futuro sombrio que o app de entregas anuncia como positivo avanço tecnológico: a volta do escravo que entrega tudo na sua casa enquanto o senhor anda na esteira ergométrica, mais ou menos como acontecia na São Paulo colonial.

As ruas Oscar Freire e João Cachoeira foram transformadas pelos comerciantes aliados à prefeitura. Às duas, somo Avanhandava e Amauri e, mais recentemente, um trecho da Jerônimo da Veiga, que teve vagas de carro substituídas por calçadas mais largas a pedido, pasmem, dos restaurantes. Não sei se alcança o quarteirão da filial do Ritz, mas deveria. No original, assim como no Frevo e no Bar Balcão, não há e nunca houve facilidade para estacionar carro. São três dos mais longevos do Jardim Paulista.

Mauro também falou da Operação Urbana da Faria Lima, que rendeu R$ 2 bilhões aos cofres municipais, parte deles investidos em melhorias no Largo da Batata e em calçadas da região, com destaque para a rua Guaicuí, que dobrou a largura dos passeios. Resultado: em um ano a rua bombou, ganhou vários estabelecimentos e virou ponto de encontro e destino obrigatório em Pinheiros.

Falou ainda do Plano Diretor, que cria incentivos para prédios que preveem fachadas ativas, com vitrines ou a permeabilidade do Jan Gehl, animando a cidade e tornando as ruas mais convidativas e seguras.

Eu acrescentaria o IPTU Progressivo, oficiosamente congelado pela gestão atual. Com ele, o imposto sobre o imóvel sem uso galopa, de modo a cobrir o custo da função social não exercida. Em alguns casos o montante alcança o valor da desapropriação. Em outras palavras, ele empurra o mercado para o mercado, encarecendo a especulação e aproximando o preço de venda ou locação do valor de… mercado. Assim, quem sabe, aquele salão de bilhar na Lorena poderia ser possível.


Léo Coutinho, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie

 
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A seleção do voto distrital

No último domingo o doutor Modesto Carvalhosa foi o entrevistado do Canal Livre. Lá pelas tantas o voto distrital entrou na pauta. Modesto quer o puro como transição para o misto. É conceito novo. Geralmente fala-se em começar a transição pelo misto até chegar no puro.

Fernando Mitre, diretor nacional de jornalismo da Rede Bandeirantes fez a ponderação clássica a favor do voto distrital misto: evitaria o risco que muitos veem em transformar a Câmara Federal numa grande câmara de vereadores.

Ao que o doutor Modesto replicou com a também clássica lembrança do Churchill, sempre eleito por distritos e, quando derrotado, mudou de distrito e recuperou o mandato, de onde pôde salvar a civilização e a humanidade.

Parênteses: doutor Modesto conversa bem com Janaína Paschoal. Poderia mandar um zap para ela lembrando uma frase do Churchill: “Conciliador é aquele que alimenta o monstro na esperança de ser devorado por último.”

Voltando ao Canal Livre, o craque Mitre citou outro na tréplica, dizendo que Churchill era Pelé, tipo raro.

Pelé nasceu em Três Corações mas, vá lá, é rei, e rei não disputa eleição.

Já Ulysses nasceu em Itirapina. Juscelino em Diamantina. Getúlio veio de São Borja. José Bonifácio, de São Vicente. A população das quatro cidades somadas não deve chegar à metade da gente que mora em Copacabana.

 
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Notas sobre as convenções 2018 – Bolsonaro

Ossos do ofício. Assisti à convenção do partido que vai botar o nome Bolsonaro na urna disputando a Presidência da República. O candidato costuma dizer que não entende o básico de economia e que pretende deixar na mão de um economista que ele conta ter arregimentado nos seguintes termos: “Sabe o que você sente quando entra em uma sala e vê uma mulher gostosa? Vai atrás até pegar.” Pegou.

Trata-se de Paulo Guedes (PaGue), destacado pensador liberal, fundador do banco BTG, do Ibmec (atual Insper), sócio de sites de relacionamento e com pendores para o esoterismo – seu candidato original era Luciano Huck e, de acordo com matéria da revista Piauí, um dos fatores para ser escolhido por Guedes era o fato de ter sobrevivido a um acidente aéreo.

O deputado Bolsonaro não demonstra compromisso com o que diz. Votou contra o cadastro positivo, apoiado pelo PaGue, e confirmou ausência na votação da pauta bomba bilionária que passou pela Câmara, acabando de moer as contas brasileiras.

Voltando à convenção, o agora candidato Bolsonaro falou sobre sua agenda econômica: “Quando converso com Paulo Guedes e sua equipe… O ministério, que será fundido, Fazenda e Economia…”

Achei interessante. Confesso que não sabia que eram dois. Mas tomando por base o terceiro parágrafo, fiquei receoso dele não cumprir a promessa e, se eleito, resolver cuidar da Fazenda enquanto o PaGue cuida da Economia ou vice-versa.

Outra coisa notável da convenção foi a presença da Janaína Paschoal. Não rodou a bandeira, mas foi por pouco. Disse que com o radicalismo que os distingue, apoiadores do Bolsonaro caminham para se tornar um tipo de PT ao contrário. A plateia não gostou. E não deixou barato.

Um dos filhos do candidato foi ao púlpito e comparou Janaína a um militar torturador. Curiosamente, a professora de Direito da USP, ora licenciada para pensar se topa ser vice, não se ofendeu. Afirmou que é preciso saber conviver com as diferenças. Fico imaginando como reagiria uma professora da Universidade Humboldt de Berlim se comparada a um oficial nazista.

 
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O casamento de Alckmin e Centrão em números – Análise TUEL | Consultoria Política

Entrou água no chope do tal Centro Democrático Reformista Popular ou coisa que o valha. Lido como uma tentativa de aglutinar forças políticas moderadas em torno da candidatura de Geraldo Alckmin a Presidência da República, foi atropelado pelo chamado Centrão, bloco de partidos despudoradamente fisiológicos que, às 17h00 do 19 de julho, resolveu caminhar pela nave central em direção ao altar do tucano.

A noiva é Josué Gomes e Valdemar “Boy” da Costa Neto, dono do PR, o vigário. Em 2014, preso na Papuda, Boy namorava com a chapa Dilma-Temer por telefone. Consta que, em junho daquele ano, chegou a ordenar troca do ministro dos Transportes de dentro da cadeia.

O pai da noiva é José de Alencar, empresário mineiro do setor têxtil que foi vice de Lula e faleceu em 2011. Seu nome estará nos convites acompanhado da carinhosa expressão latina “in memoriam”.

Para padrinhos, como de praxe, foram escolhidos aqueles que podem dar os melhores presentes, notadamente grandes empresários e gente do “mercado”.

Padrinhos assim gostam de afilhados obedientes. Com um olho nas pesquisas eleitorais e projeções baseadas na realpolitik, chegaram a pensar em abençoar Ciro Gomes, mas o comportamento do noivo não ajudou. Restou Alckmin.

Curiosamente, um dos motivos para os padrinhos rifarem Ciro foi sua promessa de revogar a reforma Trabalhista e posições anti-privatização. Mas no acerto de dotes com Alckmin ficou consignado, a pedido de Paulinho da Força, uma alternativa ao financiamento compulsório dos sindicatos, estrela da reforma. E duvido que alguém tenha se esquecido de quando, em 2006, Alckmin surgiu com um capote estampado com os logotipos de todas as estatais.

O bloco que se forma é um colosso de força. Aos números:

Tempo de TV – 4’46” ou aproximadamente 38% do total;

Fundo eleitoral – aproximadamente R$ 730 milhões;

Prefeituras eleitas em 2016 – 3.037

Para se ter uma ideia, em tempo de TV Lula/PT tem 1’31”, Meirelles/MDB 1’27”, Ciro/PDT 28”, Marina/Rede 4” e Bolsonaro/PSL 3”.

Na repartição do fundo eleitoral, Meirelles tem R$ 234 mi, Lula R$ 212 mi, Ciro R$ 61 mi e Marina e Bolsonaro aproximadamente R$ 10 mi cada.

Em prefeituras eleitas em 2016 o Centrão venceu em 3037 das 5561 cidades. O PSDB sozinho ganhou em 28 das 92 cidades com mais de 200 mil habitantes e governa quase ¼ dos munícipes brasileiros.

E ainda há a possibilidade do MDB largar Meirelles sem sequer um vale-empada.

Mas tudo isso só vai contar quando as trombetas tocarem. Isto é, quando a campanha começar, na TV e nas cidades. Antes disso, dada a popularidade dos envolvidos, mais provável é que a maledicência nas paróquias atrapalhe o namoro.

Vale lembrar que em São Paulo, a mais populosa das cidades, em 2016 o PSDB venceu no primeiro turno com 53% dos votos para João Doria, mas após a renúncia com apenas um ano e três meses de mandato, dos quais dois viajando, a balança virou e, segundo o DataFolha, ele terminou a gestão com 47% de ruim e péssimo na capital e em abril 33% do eleitorado paulista declarava não votar nele “de jeito nenhum”.

Também vale notar que o próprio Geraldo Alckmin, mais longevo governador paulista, quando disputou eleição na capital nunca acabou bem, ficando fora do segundo turno por duas vezes (2000 e 2008).

Segundo pesquisa interna do DEM, um dos pilares do Centrão, nacionalmente o PSDB (pós Aécio e Joesley ao telefone) é rejeitado por 75% dos brasileiros, índice igual ao do MDB e superior ao do PT (62%).

Alckmin disputou a Presidência da República em 2006 tendo DEM (então PFL) e PPS como aliados, somando 41% do tempo de TV. Em 2002 Serra era bem avaliado pelo trabalho no Ministério da Saúde, estava junto com MDB e tinha 41,3% do tempo de TV. Lula, que teve respectivamente 28,8% e 21,3% da TV, venceu as duas. Em 2010 e 2014 Dilma teve 42,5% e 45,6% da TV e venceu ambas.

Igual a todo casamento, esse entre Geraldo Alckmin e Centrão pode sofrer com traições, crises, desenlace e outros bichos. Pode, inclusive, algum impertinente se levantar na hora do sim e dizer de público coisas indelicadas sobre o passado dos noivos (probabilidade alta em tempos de Lava Jato e delações premiadas).

Para encerrar: a chapa é ao mesmo tempo muito forte e muito frágil. E a perspectiva de um governo com marido-presidente fraco e mulher-Centrão empoderada não seria outra coisa se não a extensão da pinguela. Oremos.

 
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Três pedros e uma pedra no caminho

Pedro Taques de Almeida Pais Leme, tetraneto de Brás Cubas e sobrinho-neto de Fernão Dias Paes Leme é o nome central da genealogia paulistana. Escreveu o clássico Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica e a História da Capitania de São Vicente. Morto em 1777, até hoje é o principal historiador dos paulistas de quatrocentos anos, chamados quatrocentões.

Pedro Alcântara Brandão Filho, de 54 anos, xará dos imperadores do Brasil, com este nome poderia avalizar tranquilamente a compra de uma fazenda histórica no interior paulista, do Vale do Paraíba à Alta Mogiana, ou em qualquer lugar.

Pedro da Silva, bem… Eu sou Silva por parte de mãe e sei que o sobrenome é bastante comum. Superou em número até os Cavalcanti que, de Pernambuco, se esparramaram pelo Brasil.

Se vivo fosse, Pedro Taques obviamente seria assinante do Estadão. E, recebendo o periódico na manhã de hoje, estaria confuso com a entrevista do Pedro Alcântara falando do Pedro da Silva.

Ocorre que, ao contrário do que poderia imaginar o Pedro nobiliarquista paulista, Pedro Alcântara era motorista da mulher do Pedro da Silva, Adriane, e por isso falou ao Estadão.

Pedro da Silva foi diretor da Dersa e, junto com Laurence Lourenço, está preso pela Operação Pedra do Caminho, que investiga traficâncias nas obras do Rodoanel. Na casa de um deles a Polícia Federal encontrou cem mil reais e cinco mil dólares em espécie.

Pedro Alcântara, na entrevista ao repórter Luiz Vassallo, conta que, às ordens da ex-patroa, fez muitos depósitos de dinheiro assim, grosso e em espécie, atividade que alternava com levar e trazer as crianças da escola. “Não era em envelope, não. Era dentro de pastas, mochilas”, contou. Informado que a origem da gaita era venda de gado, nunca perguntou nada. Missão dada, missão cumprida. Até que um dia o gerente da Caixa Econômica Federal pediu seu CPF. Desconfiado, avançou: “Olha, dona Adriane, eles pediram meu CPF.” E ela: “Não, isso é só para controle, porque você é o portador do dinheiro.”

Por tudo isso, dez anos depois, Pedro Alcantara acordou, às quinze para as seis da manhã, com as viaturas da Federal na porta de casa, no bairro da Guarapiranga, periferia de São Paulo. O delegado, diante da construção, notou que perdera a viagem. Olhando as instalações da residência, pediu desculpas e cravou: “É, o senhor entrou como laranja.”

De Pedro em Pedro, o mundo gira e o anéis rodam. Só o Rodoanel não fica pronto.

 
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Renda Básica avança com Obama

Dias depois do Robert Reich, ex-ministro do Trabalho do presidente Clinton, meter um belo artigo defendendo a renda básica universal no New York Times, o presidente Obama foi a África ver parentes e celebrar o centenário do Mandela.

Mandela era um craque, com alta noção de oportunidade e capacidade de comunicação, como prova sua vida. E até na morte ele confirmou as habilidades. Em seu funeral, o homem mais poderoso do mundo era preto: Obama.

Ontem, na conferência anual Nelson Mandela, Obama mostrou como também é craque e deu uma aula de narrativa. Desde a África do Sul, país mais desigual do mundo, afirmou, em seu primeiro discurso para grande público desde que deixou a Casa Branca, que a recíproca do trabalho não é só o dinheiro, emendou que o trabalho dignifica, cria estrutura e dá sentimento de pertencimento e propósito. E que, neste sentido, precisamos pensar em como preparar os jovens para serem empreendedores em algum nível, rever a escala de trabalho semanal e considerar a ideia de uma renda básica universal. Concluiu em tom grave: sem olhar para a economia, podemos colocar em risco a democracia.

+ A perspectiva da formiga

Por quê foi uma aula? Pela mensagem indireta. Em narrativa raramente funciona dizer o óbvio diretamente. É aquela piada do telefonema avisando que “o gato subiu no telhado”. Você prepara as pessoas para dar a notícia. E, com habilidade, as provoca para chegarem à conclusão sozinhas. Fornece o lé, o cré e deixa rolar.

Foi exatamente o que Obama fez. Ao escolher o país mais desigual do mundo como palco e se associar ao legado de um líder que paira acima das disputas comezinhas, disse o óbvio sobre o valor do trabalho e da necessidade de diminuirmos a desigualdade no mundo, apenas sugerindo, e não cravando, que é urgente pensar em distribuição de renda.

++ O círculo de Gini

Meu trabalho é construir narrativas. E, sendo a casa de ferreiro, o espeto só pode ser de pau. Na primeira vez que escrevi sobre a renda básica, disse tudo de uma vez: com as novas tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos; o modelo de produção e consumo que promove o pleno emprego para 1,7 bilhão de chineses e americanos explodiria o planeta se elevado para sete bilhões de pessoas; é um dos raros temas capazes de unir campos ideológicos completamente antagônicos, encontrando simpatizantes de Porto Alegre a Davos.

E, confirmando meu espeto de pau, vou dizer o que o Obama não disse, mas sabe, sobre o valor do trabalho: o preço. Lá da África, qualquer mensagem sobre trabalho envolve a história da escravidão no mundo. Ou seja, a mensagem é: vamos pensar no tipo de trabalho que você faria e por que. Você abandonaria os seus filhos e os seus velhos para cuidar dos filhos e dos velhos de outras pessoas por qual preço? Nenhum? Muito bonito. Nobilíssimo. Mas obviamente você não precisa do dinheiro. Se precisasse, toparia, como topam milhões de pessoas. E obviamente elas não topariam se tivessem uma renda básica garantida. Ficariam em casa exercendo a nobilíssima e jamais remunerada tarefa de cuidar dos próprios filhos e dos próprios velhos.

+++ Calça jeans e renda básica

O final de semana está chegando e em algum momento parte desta freguesia pedirá uma pizza em casa. Ou hambúrguer, tanto faz. E parte dos que vão pedir usarão os aplicativos de entrega. Um deles, que promete de ser o segundo unicórnio brasileiro, mostra na TV como funciona: você fica andando numa esteira ergométrica e, de repente, surge o seu hambúrguer na porta de casa. Note a narrativa: você anda de propósito sobre uma máquina que não sai do lugar enquanto o escravo acelera uma moto para ganhar quatro reais. Pelo menos dois deles morrem diariamente no trânsito. É o mesmo modelo da São Paulo colonial, com um agravante: de cativo o escravo passou a ser compartilhado.

A notícia boa é que a agenda da renda básica avança. Junto com Barack Obama , Robert ReichMark Zuckerberg Fan ClubRichard BransonPeter H. DiamandisElon Musk Quotes & News e Fernando Henrique Cardoso estão 55% dos paulistanos, segundo pesquisa da Rede Nossa São Paulo, apresentada ontem. O projeto, pauta histórica do vereador Eduardo Suplicy, tramita na Câmara Municipal de São Paulo e tem o apoio até do colega Fernando Holiday e do secretário de Gestão Paulo Uebel.

Avante, RBU!

 
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