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Prepare-se para o impacto

Chegou a hora da torcida. Torcer para eu estar errado. Porque a corda esticou e estamos por um fio.

A Medida Provisória 966 (que bem poderia ser 666), publicada no Diário Oficial da União deste 14 de Maio, é um filhote de AI-5.

Pelo texto, assinado pelo ministro Paulo Guedes, Wagner Campos da Controladoria-Geral da União, e pelo presidente da República – que nesta manhã declarou que só tomaria pé do assunto chegando ao Planalto –, “Dispõe sobre a responsabilização de agentes públicos por ação ou omissão em atos relacionados com a pandemia da Covid-19”.

A rigor, o agente público que se exceder ou se omitir no desempenho de suas funções, fica relativamente liberado de responder civil ou administrativamente.

Por exemplo: se o responsável por transferir irregularmente R$ 600 do auxílio emergencial para as contas correntes de 73,2 mil jovens militares, enquanto milhões de necessitados esperam nas filas fúnebres diante das agências da Caixa, estivesse coberto pela medida, não poderia ser responsabilizado.

Mais: se cada um desses militares, num muxoxo inflado por ter que devolver o dinheiro, de alguma maneira se omitissem ou se excedessem ao comando, também estariam livres de responder fora das instâncias militares.

Ainda: se, sob ordem dos governadores, policiais se omitirem ou se excederem em suas funções no controle de fechamento de certas atividades do comércio ou em prováveis conflitos decorrentes da desobediência civil, teriam vasta margem para se defender de um processo administrativo ou civil.

Lembra, freguesa, da tentativa do Excludente de Ilicitude, também conhecido como licença para matar? Pois é. Agora temos a versão licença para se matarem.

Nas condições atuais de temperatura e pressão do país, o ato tem potencial explosivo. Este é meu receio. Meu pavor. E some-se a ele o efeito telefone-sem-fio: a ordem que sai do comando sempre chega com mais força, muito mais força, no agente que está na ponta.

Como tem efeito de lei imediato, urge que a medida seja derrubada pelo Legislativo ou Judiciário.

Mas talvez seja tarde. Então, prepare-se para o impacto.

 
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Varal de números

881 vidas perdidas para o coronavírus em 24 horas no Brasil. Não faz tempo, Bolsonaro afirmou que seriam no máximo 800 – durante toda a pandemia. Quantas mais ele desejará estimular?

3 generais ministros depuseram ontem no inquérito BolsoMoro. Em Brasília insistem que o trio tem reputação a zelar, portanto não estariam dispostos a troca-las pela de um capitão pra lá de enrolado. Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo, assim parece.

Já Braga Netto, que em 2018 foi interventor federal no Rio de Janeiro, atualmente ministro-chefe da Casa Civil, não viu, apesar do acesso a todos os dados de Segurança do estado, as súcias milicianas da família Bolsonaro, tampouco que o vizinho e ex-cossogro do presidente eleito e suspeito do assassinato de Marielle e Anderson tinha 117 fuzis.

Augusto Heleno, do GSI, que já mandou um “foda-se o Congresso” e considerou “azar” a apreensão de 39 quilos de cocaína num avião servindo à Presidência, era assessor de comunicação no COB sob Carlos Arthur Nuzman, delatado por Sérgio Cabral na corrupção das Olimpíadas. Ganhava muito acima do teto e se disse ignorante ao impedimento.

10 é o total de recursos pedidos por Flavio Bolsonaro, o 01, para paralizar a investigação sobre as machadinhas do Queiroz, Michelle e cia. 10 é o total de negativas.

2 ministros da Justiça e 1 ponte: segundo a CNN Brasil, na reunião para avaliar o impacto da apuração sobre o conteúdo do vídeo da reunião ministerial que pode vir a público a pedido da defesa do ex-ministro Moro, o ministro André Mendonça comparou o caso ao Watergate, escândalo que levou Richard Nixon à renúncia nos EUA. Marreco tem garganta profunda.

Os gatos com cartões corporativos da Presidência nos três primeiros meses de 2020 foram os maiores desde 2013. Total de R$ 6.214.967,31 segundo apuração do Estadão. Se tudo isso for leite condensado e pãozinho, mais que o passado, está confirmado o presente de atleta de Jair Bolsonaro.

 
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Está quente

Não tem nada de novo no absurdo conhecido por Jair Bolsonaro. É o de sempre. E depois de um ano e meio presidente da República, sequer a Presidência é novidade. É eita atrás de vixe? É. E estava na cara que assim seria.

Para manter a sanidade mental, tanto a minha quanto a desta freguesia, vou deixar a lista dos fatos que pontuam o caos brasileiro para outros canais.

Porém, até por solidariedade a quem, por um momento, e com boas intenções acreditou no projeto Bolsonaro, admito, mais uma vez, que em relação a ele meu maior receio atual estava na minha cara e eu também não vi.

Bolsonaro é miliciano. Pode não ser o cara que acerta o arrego ou instala o gatonet, Mas é miliciano. Tanto quanto é ruralista o membro da bancada do boi que que nunca pisou num pasto.

Sua longa trajetória política se alimentou da base miliciana formada por membros insubordinados e corruptos das forças armadas, às quais pagou com discursos, homenagens e, valendo-se da imunidade parlamentar, foi naturalizando o escárnio, o autoritarismo, a violência que são tão nossos.

Agora, receio, Inês é morta. O que não falta é gente pelas ruas, ensandecida, violenta e armada, parte falando em nome da lei, disposta a defender seu capitão.

Todos os levantes policiais recentes ocorridos em diversos estados têm alguma relação com o bolsonarismo.

Há, inclusive, na Praça dos Três Poderes, um acampamento montado, chamado 300 do Brasil, com gente armada que se diz representante do povo e, sofismando a Constituição, ameaça subjugar os poderes constituídos. A tropa de choque da PM-DF esteve lá e nada fez. Será daí o receio de tantos governadores em decretar medidas mais duras de isolamento?

Sua líder é uma ativista que já foi capaz de se pendurar pela pele das costas, nua, em pleno Vale do Anhangabaú, para defender outros pleitos. Em suas redes sociais diz que é boa pistoleira, treinada na Ucrânia, e que sua missão é a ucranização do Brasil.

A permanência dessa gente na Praça dos Três Poderes, ameaçando os poderes, sem resposta ou providência das autoridades, pode ser a cartada final do plano de poder de Bolsonaro. É o vale tudo autorizado para todo o país.

O problema é que talvez seja tarde para qualquer providência. Mas estamos perto de saber. Isso não é feito para durar meses e o tom do jogral do bando com o presidente da República não para de subir.

Depois de se aliar às manifestações antidemocráticas, hoje Bolsonaro ameaçou em suas redes sociais: “o afrontar o estado democrático de direito é o pior caminho, aflora o indesejável autoritarismo no Brasil [sic].”

Ele falava sobre o próprio decreto que torna academia de ginástica e cabeleireiro atividade essencial, e das respostas de governadores dizendo que será ignorado ou, como manda a Constituição, que governadores e prefeitos governam estados e municípios.

Está quente.

 
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Amanhã tem sol

Nunca fui de seguir o sol. Não tem motivo especial. Talvez a noção de que ele estaria lá, mais cedo ou mais tarde, meio que me deixava sem pressa. Se não tem hoje, amanhã terá. E segue o baile.

Meu gosto pela lua pode confirmar a hipótese. Como varia muito, ou pelo menos tem ciclos mais longos, quanto ela pinta no céu, e também quando some, o bom é aproveitar de uma vez.

O sol, porém, faz das suas. Peguei cem dias de chuva ininterrupta uma vez em Juquehy. Mais de cem. É de enlouquecer. Desanda tudo. Mofa a casa, as roupas não secam, a turma vai se deprimindo. Os pássaros se recolhem e sequer gato vadio se vê.

Até que um dia, sem mais, lá vem ele. Quando desponta, sente-se uma leve esfriada antes de começar a esquentar. Então os bodes vão se evaporando,  o mato surge lindo, lavado, brilhando entre a névoa que se esvai.

E há uma trégua geral. As garças, aos bandos, se deixam nos gramados mais quentes por horas, convivendo em paz com os cães e gatos que se espreguiçam. Perto deles, urubus fazem o desjejum limpando o acumulado que surge na maré baixa do rio. As gaivotas celebram na beira na praia em evoluções contentíssimas. E os passarinhos coloridos parecem crianças ao soar da sirene do recreio.

Os velhos vão saindo com calma. Espiam a luz com cuidado parecido com o de quem entra numa sala escura. Um pé, outro pé, esticam as pernas, espalham os dedos para absorver o calor pelas raízes.

E também os jovens não saem em louca disparada. O humor vai se ajustando, como nas músicas que demoram a começar e a ansiedade própria da idade recusa.

Perto do meio-dia, portas e janelas abertas, juntas todas estaladas, bate uma sede generalizada e o sorriso do dono do boteco – ou da padaria – se espraia. A gente vai chegando, se reconhecendo, desce uma, duas, desce mais. A prosa recomeça de onde havia parado e, de repente, antes do sol se pôr, a lembrança dos cem dias guardados vai morar num passado distante. O que fica é a certeza de quem amanhã tem sol de novo.

Fique em casa. E, se puder, não espere para aproveitar um pouco de sol.

 
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Debaixo de vara e com pijamas molhados

Generais de pijamas toparam servir ao capitão expulso no Palácio do Planalto. Agora estão apavorados e provavelmente arrependidos.

Com justiça, muito se elogiou recentemente a boa formação dos quadros das Forças Armadas. Tem gente boa em todas elas. Porém os melhores que estiveram no governo federal foram saídos pelo capitão terrorista.

Cena interessante: sendo bons como são alguns, por quê não foram absorvidos pela iniciativa privada? A resposta é simples: os realmente bons, por princípio. Outros, nem tanto, porque nem tanto – ainda que por conveniência tantos conselhos tenham os requisitado desde a posse do governo atual. Iniciativa, né, minha filha? Privada.

Agora, pela decisão do decano do Supremo, que mandou a Justiça ouvir cada um deles sobre a denúncia do ex-ministro Moro, com previsão de condução coercitiva em caso de falta injustificada, até “debaixo de vara”, estão amuados.

Pois que fiquem. Assim é na vida civil que eles escolheram. Sabiam o que estavam fazendo quando aceitaram jantar com o capitão. Sabem o que viram e ouviram. Têm que responder, como todo cidadão.

Se o pijama está molhado, general, problema seu. Você que se enxugue. Ouço agora, às oito da manhã, o clarim do Ibirapuera. Saudades, minha filha?

Hoje vocês têm medo das tropas insubordinadas e das milícias criadas dentro do governo ao qual servem. Que beleza de movimento. Belos estrategistas. Castello Branco mandaria todos vocês prum rincão qualquer, onde a única tarefa seria engraxar coturno.

Os coleguinhas civis de Esplanada estão na mesma. Se não pela decisão do STF, pelo aparelhamento dos escalões inferiores determinado pela turma do Centrão. O Boy (Valdemar da Costa Neto) vai se vingar do Tarcísio de Freitas por não ter feito o que sempre fez no Dinit e assim por diante. Força na peruca, general. Geral.

Finda tanta dor, quando isso passar, porque há de passar, vocês terão que responder. E quiçá será um mundo novo, pós pandemia, onde anistia não teremos. Teremos consequências.

Se segura, minha filha. Bota o pijama no vinagre, mijão. Se não for agora, este país voltará a ser uma República. E você terá que responder. Se debaixo de vara é uma escolha. Faça a sua.

 
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Memória de Bragança

Outro dia escrevi lembrando da infância em Juquehy e citava o tio Edgard de Queiroz Ferreira. Baita figura. Desde pequeno sou fã dele. Uma das brincadeiras em casa, dia de chuva, era brincar de tio Edgard.

Tudo muito simples. Para imitá-lo só precisava de um bigode de rolha queimada, sunga, camiseta branca e havaianas. Então eu dispunha os sofás em forma de lancha e pegava o timão decorativo na parede para navegar. E imaginava a companhia de uma namorada bonita, que ele também sempre teve.

Se não me engano a lancha era uma Cabrasmar 19, casco clássico, muito feliz. Chamava Veroca, também salvo engano. Depois foi para uma Chris-Craft preta e vermelha chamada Rata. Ninguém tinha barco nessas cores.

Me lembro do dia em que a gente estava puxando o Edgard Neto no esqui. Famoso Degas, gostava de slalom a 23 milhas por hora. Eu gostava de ficar a bordo, com castanhas de caju, tremoço etc. Tio Edgard um dia se viu sem copo e bebeu na lata de castanhas. Que vida boa.

As filhas dele são Bibi e Vevé. Duas mulheres lindas, de personalidade fortes, seguras de si  e, com efeito, suaves, amabilíssimas.

Os apelidos do tio Edgard são Espingarda, pelo físico, ou Bobaginha, este herdado do pai, Edgard Bobagem, porque falava muita coisa proibida, e curiosamente era casado com D. Elaí, uma das mulheres mais refinadas que já conheci. Curioso: tia Vera, irmã do tio Edgard, refinada igual a mãe, casou-se com tio Zé Roberto de Ferreira Martins, também dado a falar e fazer bobagens de rolar de rir.

Ontem o tio Edgard apareceu no Facebook. Nascido em 1944, entrou agora para as redes. E postou um retrato na frente da sede da fazenda em Bragança ao lado da Elisa, sua namorada.

Quanta lembrança! Bragança é a terra da minha família materna. Meu tataravô Capitão Vieira era cafeicultor por lá. Depois foram para Santos, onde o café é comercializado.

A fazenda do tio Edgard também era de café. Uma delícia acompanhar os grãos chegando pela vala ao terreiro para a secagem. Andar a cavalo no cafezal também era delicioso. Tinha um cavalo mais querido que todos chamado Turdilho. Tinha um outro, esperto, que estufava a barriga no encilhamento. E quando a gente ia montar ele recolhia, fazendo a sela girar.

Do terreiro de café eu subia para a sede, passando antes de limpar a botina na garagem que guarda o jeep Willys azul e o Galaxão velho. O jipe era usado. Íamos ver como estavam os eucaliptos, e o tio Edgard explicava como se apaga incêndio em floresta com fogo de encontro.

Fogo, muito fogo. Nos churrascos, ele brincava comigo que eu era o “rei da carne crua”. Desde pequeno sou dos mal passados. Nas noites de frio havia lareira. E num dia de raclete tivemos que reabastecer o réchaud, que explodiu na minha cara. Sei lá como dei um pulo para trás do sofá e fiquei só com as sobrancelhas chamuscadas.

Século 20, né? De fogo também havia umas tardes onde os homens iam para um barranco testar armas de fogo. Os adultos disparavam e depois os mais novos iam com facas e canivete procurar o chumbo no barranco.

A delícia das mesas começava no café da manhã. O cheiro do leite fresco e quente me deixava louco. Ficava disposto na mesa comprida na ponta oposta a de onde a gente se sentava. E eu ficava lá, perto do cheiro e longe de todos.

E o caminho para os quartos era um corredor fresco, todo de lajotas, gostoso de estar nas tardes quentes. Antes de subir para o sono, o bom era passar para uma colher do brigadeiro que sempre tinha no aparador.

E canja! A canja era um espetáculo. Os cachorros, quando não queriam comer, ganhavam uma concha sobre a ração e matavam a vasilha. E eu me esbaldava. Aprendi a botar ervas frescas sobre a sopa fumegante com o tio Edgard. Hortelã era a predileta dele.

Tem um retrato meu saindo da piscina em Bragança ainda bebê, completamente pelado. Só não compartilho porque a foto não fala bem de mim.

 
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Se somos ordinários, melhor saber logo

Anteontem foi mais um domingo no país do Bolsonaro, que amanheceu na segunda-feira com popularidade em baixa e rejeição em alta, aferidas por dois institutos de pesquisa. Porém não se anime você, democrata, porque dentro das margens de erro ele mantém entre um terço e um quarto de ótimo e bom.

Pesquisas são sempre bem-vindas. Mas o que se lê nos gráficos pôde ser visto nas ruas, nas redes e nos jornais. O comportamento de parte expressiva da população repete o do presidente da República. Isto é, se preocupa com o seu curral e só com o seu curral, num misto atroz de indiferença e irresponsabilidade com a vida.

Na véspera do feriado do Primeiro de Maio, Dia do Trabalho, com desemprego em alta e clara tendência de agravamento no mundo inteiro –  que tanto pior será quanto durar o controle da doença , vimos estradas para o interior ou litoral congestionadas por carreatas fúnebres.

A semeadura da morte será colhida nessas localidades dentro de quinze dias. Pobres frentistas, caixas de pedágio, mercado, padaria e outros que tiveram que olhar nos olhos dos mensageiros da morte e ainda dizer “obrigado, volte sempre”, e então levar o corona para casa, para os seus.

Saí no sábado depois de muitos dias sem pisar nas calçadas que adoro. Vi a padaria e o boteco servindo cerveja e com gente aglomerada. Atordoado e muito aborrecido, resolvi minha necessidade e voltei correndo.

Domingo: moro entre a Av. Paulista e o Ginásio do Ibirapuera. A primeira é acesso de vários hospitais e foi fechada nos dois sentidos, e o segundo ora é hospital de campanha. E o barulho das carreatas da morte, incentivadas pelo presidente de República, durou o dia inteiro.

Em Brasília, na rampa do Palácio do Planalto, algumas centenas de pessoas em fim de carreata se aglomeravam em festa para saudar seu Messias numa farra ensandecida.

No dia da Liberdade de Imprensa, jornalistas foram agredidos. Nas ruas, física e moralmente. Orlando Brito e Giba Sampaio. E nas redes, são agredidos e ameaçados dia sim, outro também. Assim como prefeitos, governadores, cientistas e, mais recentemente, até policiais e enfermeiros.

Coloquei a carreata toda num engarrafamento só de propósito, porque me parece ser o mesmo grupo. São os cafonas, reacionários, indiferentes que se sentem representados pelo cafona, reacionário, indiferente mor.

A diferença entre eles está entre o matar e morrer. Os que vão às praias e botequins são indiferentes em relação aos demais, tanto fez como tanto faz, exatamente como faz o presidente, até em relação à própria filha, criança sordidamente exposta, junto com outras duas ou três. Se matarem, e daí? Não são coveiros, enfermeiros, “quer que eu faça o quê?”.

Os que se juntam em protestos, ao que tudo indica, mais do que dispostos a matar, estão dispostos a morrer pelo Messias. Não são muitos, mas são violentos. Não há instituição no Brasil que não os tema hoje.

O Judiciário os teme. O Legislativo, idem. Prefeitos e governadores também. Todos receiam decretar lockdown para evitar o prolongamento e agravamento da dor. Temem o estouro dessa boiada que está disposta a ir para rua matar ou morrer.

E inclusive as Forças Armadas os temem. Reconhecem entre eles milicianos ou insurgentes presentes nas polícias e nas próprias bases. Todos os casos recentes de levante policial nos estados têm alguma relação com o bolsonarismo. E contra milícias e polícia insubordinada não há exército eficaz. Nenhum. Nem se houver comando.

Este é o cenário atual. Há milícia na cara de todos e agora descaradamente sendo organizada por integrantes do ministérios da Damares. O presidente da República incita a desordem porque lhe interessa. É seu habitat natural. Sob ordem e civilidade nunca conseguiu nada. Sabe disso e nesse sentido e só assim trabalha.

Da minha parte, estou disposto a pagar pra ver. Antes que todo o mais seja ordinário como os domingos no país do Bolsonaro. Se a derrota da República já é irreversível, que saibamos o quanto antes.

 
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Não quero mais nada

Minha infância teve muito de Juquehy. Era um acesso difícil, só quem gostava muito de praia vazia topava.

Para um fim de semana a gente enfrentava uma ou duas balsas, estudava a tábua das marés pela ausência de estrada, levava de SP grande parte do que se comia.

A proteína de lá e era uma delícia. Mariscos, peixe, camarão. O mais era especial do fim de semana, frios, pão italiano, todos comprados por meu pai entre a tarde e a noite de sexta-feira.

Ia ele com seu Opala, ou já com a Veraneio, que foi o melhor SUV de todos os tempos, à padaria Nova Charmosa comprar frios. Voltava com o ambiente perfumado de algo que só vim a saber o que era mais tarde, mas que ajudava a gente pegar no sono.

Na praia era uma delícia. Quase exclusividade. Havia uma tolerância, quase festa cívica pela liberdade. Uma dupla caipira andava nua à beira do mar e ninguém ligava.

A casa vivia de portas abertas. Mesmo quando a gente não estava. E os roubos eram obviamente desagradáveis, mas naturais. Sabia-se quem roubava e por quê.

Das poucas casas forasteiras que havia, das mais divertidas era a do tio Edgard de Queiroz Ferreira. Uma edícula compartilhada com uma família de caseiros e a geladeira repleta de vodca e suco de tomate, com autorização para consumo logo após ou mesmo durante o café da manhã. Infelizmente restrita aos adultos que, estranhamente, às vezes recusavam.

Os meninos de lá eram invejáveis. Sabiam de tudo que importava: andar nas pedras, escolher ostras e mariscos, pegar lagosta com as mãos, andar no mato, catar galhos de guapuruvu para artesanato, bambu para as traves do futebol, costurar rede de pesca, se equilibrar em canoa, manejar facão, transplantar orquídea para as namoradas.

As meninas, algo onírico. Menos acessíveis pela cultura que as invadia, mantinham um sorriso amigo, a pele da cor do bronze, os sovacos, coxas e canelas com pelugens louras, diáfanas e perfumadíssimos, muitos causos das avós na cabeça, pés assustados, em cunha.

Era coisa boa, conflito interessante, educativo. Mas não aprendemos nada. Ainda tem disso por aí. É raro, mas se encontra, ainda que cada vez mais caro, porque fizemos assim, sabe-se lá por quê.

Se eu pudesse sair de casa hoje sem risco, corria para abraçar e aprender sobre a vida com os caiçaras. Só lavava uma sunga, duas camisetas e um par das legítimas. E Blood Mary para o café.

Mais nada. Não quero mais nada.

 
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Féretro aéreo

Associação representante de 300 companhias aéreas no mundo, a IATA disse à repórter Cibelle Bouças, do Valor Econômico, que a Argentina tem o pior cenário para a retomada.

Peter Cerdá, VP da IATA para as américas, criticou as restrições mais duras do governo argentino que, aliado ao lockdown nas cidades, fechou fronteiras, suspendeu voos e proibiu venda de bilhetes mesmo se datados para além da data reabertura projetada.

Em 17 de março, a Argentina contava dois óbitos por covid-19, e o Brasil, um. Em 25 de abril, na Argentina eram 185 óbitos e, no Brasil, 4.045 – fora a subnotificação evidente. Hoje já passamos a China tanto em casos confirmados e óbitos, segundo os dados oficiais não confiáveis aqui ou lá.

Porém tais números talvez não entrem na contabilidade de Cerdá, para quem os melhores exemplos de gestão da pandemia na região são Brasil, México e Venezuela.

No Brasil, temos um presidente que virou estrela da tragicomédia. Bolsonaro é nternacionalmente é tratado como um palhaço assassino de filme B de terror. O presidente do México AMLO também menosprezou a pandemia e viu a escalação da contaminação e das mortes entre mexicanos.

Já o ditador da Venezuela, que largou tão mal quanto Donald Trump e Boris Johnson, dos EUA e do Reino Unido respectivamente, reviu a tempo suas medidas, pediu um armistício à oposição e declarou que pediria ajuda até aos Estados Unidos. Aparentemente funcionou, ainda que não seja seguro confiar nos números de qualquer ditadura.

É espantoso que, com o setor fortemente abalado, prejuízos abissais e sem perspectiva de recuperação a curto ou médio prazo, um representante com a importância de Cerdá fale nesses termos.

A não ser que a aposta seja féretros aéreos, com translado de cadáveres para onde houver cova sobrando, o melhor que a IATA tem a fazer é confinar seu vice-presidente Peter Cerdá em algum lugar sem comunicação.

 
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A destruição do Brasil

A destruição do Brasil, por dentro e por fora. Coisa incompreensível. O que leva alguém a jogar 24/7 contra o país, a Nação? E como pode tanta gente apoiando este governo criminoso?

Admito que, com todo asco que sempre senti por Jair Bolsonaro, dentro de seu programa de governo reconheci pontos positivos, com destaque para atenção ao turismo e menção à renda básica.

O que temos hoje: um pandemônio diário, com multidões em frente às agências da Caixa Econômica Federal para tentar receber a renda básica emergencial, simplesmente pela incompetência do governo para fazer o programa funcionar.

E o turismo, parado no mundo todo pela pandemia, sofre ainda mais com o comportamento do presidente da República, seu chanceler e sua base eleitoral.

Quando as pessoas voltarão a viajar? Impossível dizer. Calcula-se que seja algo próximo da chegada da vacina, prevista para daqui a no mínimo dois anos.

Porém, um dia, voltaremos a viajar. Mas pense num estrangeiro olhando para o Brasil. Os argentinos, nossos hermanos, que lidaram bem com a pandemia, impondo sacrifício a todos, terão vontade de nos visitar? E vontade de receber nossas visitas, terão?

E mesmo em países cujos governos são simpáticos ao governo brasileiro, estamos mal. O presidente dos EUA, em conversa com o governador da Flórida, discutiu a possibilidade de proibir voos de origem brasileira.

Pela declaração absurda do ChanCelerado, que comparou o isolamento social aos campos de concentração nazista, conseguimos arranjar enrosco com a comunidade judaica e, obviamente, com Israel.

No momento em que precisamos combinar cooperação com a China, mais tumulto, seja de um dos filhos do presidente, do ministro da Educação, do olavismo do ChanCelerado.

E está na Câmara dos Deputados a MP 910 do governo federal, que pretende anistiar e entregar terras públicas griladas e destruídas na Amazônia e no Cerrado. Sob o pretexto de regularizar a situação de gente séria, podemos premiar e incentivar grileiros, predadores da pior espécie.

Obviamente, se isso acontecer, toda a comunidade internacional, ora ainda mais atenta aos problemas causados pela destruição da natureza, com razão vai reclamar e, sem ter o que fazer em relação às nossas políticas internas, deverão impor sanções econômicas, erguer barreiras, rever tratados.

Quer dizer, o comportamento irresponsável, debochado, criminoso de Jair Bolsonaro, desde a “gripezinha” até o “e daí?”, passando pelo “não sou coveiro”, piora nossa relação com a pandemia, contagia mais gente, mata mais gente, retarda o momento de retorno. E o mundo, de olho nisso tudo, obviamente não estará interessado em nos ajudar, agora ou depois.

 
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