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Desestatização Doria e o PL404/17

Excelente editorial sobre o Plano de Metas do prefeito João Doria Jr. (15/7, A3). Elogia a parte boa e ilumina a grande falha da nova gestão, que é a insustentável manutenção da tarifa de ônibus. Não cabe mais esse modelo de gestão pública que com uma suposta solução cria diversos outros problemas. O PL 404/17, da desestatização, tem esse pecado original. Apresenta parâmetros gerais sobre áreas passíveis de privatização e nominalmente destaca uma única, a melhor delas, que são os 50 mil metros quadrados que abrigam a Prefeitura Regional de Pinheiros e a CET, na beira da Marginal Pinheiros e atendida por todos os modais de transporte de massa: trem, metrô e ônibus. Vender para fazer caixa e gastar os recursos com passivos criados por promessas mal calculadas é outro erro crasso, que gera novos passivos, uma bola de neve. Lembrando que a região de Pinheiros tem 300 mil habitantes e população flutuante que chega a 2 milhões de pessoas, a melhor solução para a área é destiná-la à habitação popular via parceria público-privada, no mesmo modelo do bem-sucedido Complexo Júlio Prestes, na Nova Luz, conforme exposto na reunião ordinária do Conselho Participativo Municipal de Pinheiros do dia 13/7/17.

Carta publicada no Estadão

Assista aqui parte da reunião ordinária de 13/07/2017 no Conselho Participativo de Pinheiros

 
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Onde estão as escadas?

Ouvi alguém dizendo que os sapatenis são uma evolução natural da febre das academias de ginástica. Com cada vez mais gente malhando, a moda logo se adaptou. Aquela cena no Diabo veste Prada em que a editora mete um esculacho na assistente que ria do que se discutia explica bem a indústria.

Dos pés à cabeça a turma anda cada vez mais esportiva. Outros setores acompanha. Bebidas, alimentos. Até os automóveis agora se vendem dizendo da possibilidade de você guiar quilômetros até encontrar um lugar selvagem para andar a pé.

O que me estranha é a arquitetura não acompanhar. Os prédios antigos todos têm escadarias logo no hall, com degraus civilizados, um convite para um passeio. E entre os antigos incluam os modernos, com o Niemeyer fazendo rampas sinuosas para a gente se divertir. E mesmo escadas. A do Itamaraty em Brasília é um tratado de urbanidade.

Daí que não sei o que aconteceu na pós-modernidade. Ou antes, sei: o elevador. Bacana era ter vários, e as escadas, “inúteis”, passaram a precisar de um mapa para serem descobertas.

Porém veio a moda fitness e a arquitetura continua escondendo as escadas. É intrigante. Já dizia o Mujica que algo de estranho acontece quando sonhamos em ter automóveis sofisticados e com amplos porta-malas para levar a tralha da academia, onde se vai fazer esteira, ou caminhar parado.

Me lembro de duas anedotas. Uma amiga querida, ultramaratonista, levou os filhos ao parque do Ibirapuera e encontraram uma tropa do segundo exército fazendo cooper. O mais velho, compadecido, pergunta: – “Mamãe, eles não tem esteira?”

Outra é do Zé Loco, meu amigo do sertão da Barra do Una. Um dia me chamou de canto para tirar uma dúvida. “Léo, essas pessoas de São Paulo que tem casa na fazenda passam de manhazinha pedalando. Voltam só à tarde, suados que só. Mas não trazem nada. Nenhum botijão, um saco de arroz. Aonde eles vão?”

Resta a mim, que gosto tanto do Mujica, que ninguém lhe diga das escadas rolantes que se vê nas academias. Para um senhor tão vasto seria uma decepção maior do que a da criança que descobre a charla do papai noel.

 
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60000 negões

Quem entra numa das raras salas de cinema brasileiras para ver uma fita policial pode contar pelo menos dez mortes violentas. É este o número de filhos deste solo que a mãe gentil assassina diariamente. Por ano são sessenta mil. Sessenta mil negões. Dez a cada duas horas.

Ricardo Negão é o nome do “carroça” executado a queima-roupa na rua Morato Coelho, em Pinheiros, no fim da tarde de 12 de junho em São Paulo. Testemunhas afirmam que foi um policial. Vídeos gravados mostram que foi um policial. Mas como dizia o Nelson Rodrigues, “O vídeo-tape é burro”.

O assassino usava a farda da Polícia Militar paulista, foi acobertado por dezenas de homens com a mesma indumentária e talvez tenha usado no crime uma arma da corporação – o que fica difícil afirmar porque ele teve o requinte sórdido de limpar a cena recolhendo as cápsulas do chão. Três cápsulas. A primeira de um tiro a média distância e outros dois à queima-roupa quando Ricardo, já no chão, urrava por socorro. Mas não é policial. É um assassino.

Alguém há de dizer, não sem razão, que isso é muito comum. Não em Pinheiros, bairro rico, mas nas periferias das grandes cidades e nos rincões brasileiros. As nossas polícias são as que mais matam no mundo. E morrem também. Milhares.

Porém é importante dizer que evidentemente nem todos os policiais são assim. Se fossem, provavelmente já seriamos a pátria em coturnos, para repetir o Nelson. Exclusivamente em coturnos.

Um psicopata resolver sair do armário é algo que infelizmente, amargamente, acontece. Da mesma maneira que padres um dia abusam sexualmente de um menino. Ou uma médica ocorra em omissão de socorro a uma criança, que morre.

O que não entra na minha cabeça é o silêncio dos demais. Na quarta-feira, minutos após o assassinato, dezenas de viaturas tomaram a Morato Coelho. Contiveram a população, revoltada mas compreensivelmente acovardada, recolheram o cadáver e se mandaram. Nenhum foi capaz de dar voz de prisão ao assassino. Isso talvez tenha a ver com o regime militar. A tal da hierarquia. E talvez seja a hora de rever.

Mais urgente, e disso eu tenho certeza, é uma revisão de conceitos de toda a sociedade. Com estatísticas iguais a sessenta mil assassinatos e aproximadamente cem mil estupros por ano, não há Nação que não se desumanize.

É Hanna Arendt puro. A filosofa alemã de origem judaica teve a grandeza de olhar para os soldados nazistas e entender que eles não eram capazes de enxergar o que tinham feito. O regime havia desumanizado cada um deles. Apanhou dos dois lados. Primeiro dos nazistas que fizeram o que fizeram. Depois dos judeus cegos por vingança.

Estive na Morato Coelho durante o “velório” do Ricardo Negão. Seus companheiros fecharam a quadra com as carroças para uma homenagem protesto. A vizinhança se solidarizou. Negão era conhecido e respeitado no bairro. Até onde eu vi foi um ato pacífico. Mas não demorou para a desumanização provar que já tomou conta.

Primeiro pelos gritos de protesto dos próprios carroças, ecoados pelos demais, que repetiam: “carroça não é ladrão”. Ora, se fossem ladrões a PM poderia assassinar?

Depois contra o dono da pizzaria que chamou a polícia para o Negão. Ele fez exatamente o que qualquer pessoa deve fazer quando se sente ameaçada (com ou sem motivo): chamar a polícia. O papel de consertar a situação é o do policial, que foi treinado e tem autoridade para tanto. Porém as pessoas olhavam para a porta fechada como se o pizzaiolo tivesse contratado um matador de aluguel.

Imagina. Recear chamar a polícia por medo que tudo piore. Sim, eu sei, acontece. A única novidade de ontem é o endereço, que por sinal não contou com uma escassa viatura sequer. Rua tomada, manifestação, risco de tumulto e nenhuma polícia por perto. Só lá na Fnac, 700 metros distante, fui encontrar uma guarnição a postos.

Portanto a PM, como numa confissão de culpa assumiu, assumi a face de um criminoso que mata a sangue-frio. Mas não está só

Ricardo Negão, em seu último ato, legou às classes privilegiadas dos bairros ricos a as feições da tragédia cotidiana e desumana dos bairros pobres. Que seja lembrado diariamente antes que ninguém sobre.

 
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Pra casa do Carainho

Geddel Vieira Lima tirou visto para ficar em casa com tornozeleira. Tradução: vai pra casa do Carainho. Isto é, a dele, que esta freguesia pode imaginar como adquiriu.

Evitei comentar sobre esse personagem tão patético e infeliz. Mas não aguento.

Outro dia o Dráuzio Varella, que há mais de vinte anos faz trabalho voluntário em presídios, notou que, se para a chamada “gente de bem” a palavra empenhada, o fio do bigode caiu em desuso, entre a malandragem continua em vigor. Na cadeia ninguém se atreve a descumprir um combinado. No café-society o nego assina, confirma a firma e não cumpre.

Num botequim de favela você pode ir para uma partida de sinuca com a sua senhora ao braço. Ninguém vai bulir com ela. Nos clubes mais exclusivos, não garanto.

Daí que o Carainho repetir que ligou dez, vinte ou trinta vezes à mulher do Funaro para tratar de amenidades, coisas da vida, gastar saliva, pode custar caro. Se no PMDB tudo bem, no partido que manda na cadeia é diferente.

Essa esculhambação não é de hoje. Nas cortes vale tudo. Historicamente, título é sinônimo de privilegio. Quer dizer, uma lei privada ou VIP.

Teoricamente eu acho lindo. A gente tem mais é que romper com certas convenções e promover o livre arbítrio. Mas na prática tem que valer para todo mundo sem prejudicar ninguém. Aí é que emperra.

Nas cortes a peruca é acessório de distinção. Na cadeia elas não entram. Seja na versão contemporânea como o implante do Carainho ou numa mais próxima da clássica, padrão Eike. Franjão estilo Esteves? Máquina. E nem o calvo Cabral arranjou escusa.

Piolhos fora, Ruy Castro hoje foi profético. Com minha melhor tesoura recortei para vocês. Aqui está O barbeiro da papuda.

Entre as duas e meia da manhã, hora que a Folha circula, até o anuncio da condenação do Lula, correram doze horas. O ex-presidente, que já teve oferta da marca de lâminas de barbear para tirar a barba revolucionária, perdeu a chance. Senão definitivamente, em primeira instância.

 
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O Parlamentarismo e a mulher para casar

“Parágrafo único. Todo o poder emana do povo,
que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente,
nos termos desta Constituição.”

O jovem Luís Roberto Barroso voltava de um debate sobre Constituição Cidadã. Sua mulher o encontrou trabalhando no escritório de casa, notou um volume sobre a escrivaninha intitulado O Espírito Santo na Constituição e comentou: – “É, botaram tudo”.

Não era pra tanto. Fora em Vitória o debate, lá no Espírito Santo. Mas ainda assim a senhora Barroso tinha razão e nos últimos 29 anos anos ninguém discordou. O livrinho está aqui para quem quiser se perder na incerteza.

Na edição mais recente do seu Diálogos na Globo News, o Mario Sérgio Conti recebeu o senador Ronaldo Caiado, cousa que sempre me preocupa. Quando ele está na TV minha Neguinha fica suspirando. Acha o médico-doutor-rural lindo. Elogia o vozeirão, a basta cabeleira prateada. E o sotaque. (Donana, minha sogra querida, é de Uberlândia e fala parecido. Conto com ela para tudo. Mas também ela acha o Caiado um pedaço.) Indefeso, arranjei programa externo e só assisti depois, escondido, pelas redes.

Direitos iguais. Fazer o que? Quando aparece a Paloma Tocci eu acho que disfarço, mas mulher percebe. Sexto-sentido.

Caiado fez uma defesa boa no sentido de rabiscar a Constituição por eleições gerais já. Ainda que eu discorde, que prefira respeitar o calendário seja lá como for, evitar a qualquer preço a anedota profética do Millor (Cidadão entra na livraria, pede o livrinho, e o vendedor devolve: perdão, cavalheiro, não trabalhamos com periódicos.), os números não mentem ou, antes, provam que é tarde: de 1988 pra cá a CF foi alterada 102 vezes. Tramitando no Congresso há 1600 propostas de emenda.

Quer dizer, não contentes em botar de um tudo na largada, insistimos. Talvez uma coisa seja efeito da outra. Vício de origem. Passa boi, passa boiada. E agora tira.

Ainda assim, todos esses palpites não foram capazes de prever o cenário atual. Em caso de eleições indiretas, como previsto, vamos ter que combinar a regra na véspera. Os constituintes e os congressistas atuais não têm culpa. Sequer uma bancada formada pelos roteiristas de House of Cards escreveria uma história assim.

Antes disso, o Senador disse o óbvio: “Um presidente que não tem 170 deputados num universo de 513, não tem condições de governar.” Sim, um dos mais aguerridos presidencialistas no plebiscito de 1992 agora é parlamentarista. É onde eu queria chegar.

Respeito e celebro direitos iguais entre casais. Fui criado assim. Mas sou do tempo em que diziam haver dois tipos de mulher: para trepar e para casar. Nossa Constituição tem um pouco disso. É eminentemente parlamentarista e manda obedecer um regime presidencialista. Isto é: o Parlamentarismo (e o voto distrital, a própria Democracia até) parecem mulher para trepar. Na rua todo mundo canta, mas ninguém jura.

O fenômeno político que assistimos também guarda paralelo. Se as mulheres equilibraram o jogo na marra, o Parlamentarismo segue a trilha.

Vamos lá: Rodrigo Maia, vulgo Bolinha ou Botafogo, deve assumir a Presidência da República em breve. Não se sabe até quando fica. Seu vice na Mesa Diretora, Fábio Ramalho, o Barrigudo, promete ser o novo Severino ou Maranhão. O segundo vice, deputado Fufuca, deve explicações sobre captação ilícita de votos e corrupção eleitoral.

A parte boa dessa Casa Verde em se transformou o Salão Verde é que o hábito de trocar governo vai tornando a tarefa menos crisenta, exatamente como no Parlamentarismo. Como disse o pai do livrinho, doutor Ulysses, oportunamente lembrado pelo Ibsen da Costa Manso, “Na política, o que parece fácil torna-se impossível, e o que parece impossível, resolve-se”. Ele sabia o que estava fazendo.

 
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De mtb@god.eden para antonio@marizdeoliveira.adv

De mtb@god.eden para antonio@marizdeoliveira.adv

Meu caro Mariz,

Há quase três anos vim viver ao lado do Criador. Não foi fácil. Além das dificuldades que nós criminalistas enfrentamos para conseguir o visto, o apelido que vocês me botaram aí na Terra causou mal estar e agravou minha condição. God, o genuíno, não gosta de rivalidade. Porém caprichei um habeas anima e cá estou.

Vi sua sustentação oral na Câmara hoje. Notei a imensa tela com o Tiradentes no cenário. Igual a este seu amigo ele incomodou na chegada, só que pela aparência. Hoje estão conciliados. O Otto Lara disse que o mineiro só é solidário no câncer. A recíproca Divina é verdadeira. A traição e o sacrifício público sofridos uniram o mineiro e o Nazareno.

Sei que aí embaixo também causei mal estar porque ganhava mais do que os colegas. Paciência. Na vida mundana cada um faz o que pode. Melhor seria vocês olharem por outro lado: quando estive na Esplanada sacudi a Polícia Federal e desde então a turma toda está faturando ainda mais do que já fazia. Até poderia, mas não sei quanto você cobrou do Michel e nem quero saber. Peguei trauma com aquele caso do caseiro. Que tipo ordinário aquele Italiano… Mas espero que seja muito. Tem tudo para ser.

Voltando ao Tiradentes, ele perdeu a cabeça por causa de um amigo que o delatou. Coisa feia. Você não gosta e não topa. Nem eu topava. Vejo orgulhoso que meus pupilos também não.

Mas vocês têm que entender que o bônus traz um ônus. A delação premiada é uma realidade e vai avançar. O tal Joesley já ia muito à Nova York antes do acordo. E nessas idas e vindas tropicalizou a whistleblower, conforme previsto pelo Elio Gaspari, que um cronista de São Paulo agora deu para imitar despudoradamente. Eu hoje “só toco harpa, de camisola e sandália”. Mas aí na Terra os apitos vão tocar alto. Acostumem-se. Serão eles ou as trombetas.

Olha, no trecho de exaltação ao MP você foi brilhante. Promover a Justiça! É isso! “Nada impede e tudo obriga” (que os promotores e procuradores, sem nenhum demérito, abandonem a acusação se a investigação provar a inconsistência) ficou lindo. Que construção!

Mas a bem da verdade devo lhe dizer que a carolada por aqui leu da seguinte forma: para promover a Justiça, nada melhor que autorizar a investigação. Para lavar o nome do seu freguês, hoje sentenciado a uma “cadeia não física, mas da mácula da honra” (lindo, lindo), a apuração irrestrita dos fatos é o caminho.

Sabe aquele Agostinho, o santo? Está aqui me atucanando. Diz que um amigo de fé tem o dever de criticar o outro. Então peço vênia e lá vai. Dizer que a entrada do Joesley no Jaburu não foi clandestina porque o carro do Rocha Loures estava cadastrado, comprometeu o argumento anterior de que os quinhentos mil lá do Camelo não eram do Michel. Desculpa, mas você se atrapalhou.

E repetir o Molina, que já estava com o filme e a fita queimados desde aquela coletiva, também foi pênalti. Ora, o problema é o preço do gravador? Primeiro você diz que talvez, depois que exatamente ele economizou no aparelho para se beneficiar. Cá entre nós, minha impressão é que o ruído anterior ao “tem que manter isso aí” mais atrapalhou do que ajudou – eles  Joesley, não o Michel.

Preciso encerrar aqui. O Chefe é rígido com horário. Mas tenho a obrigação de lembrar da nossa desavença. Os croissants do Freddy abriram tão bem aquele almoço. Não precisava terminar daquele jeito.

Olha, se eu consegui melar a Castelo de Areia alegando a ilegalidade das provas, hoje não cabe mais. Agora no âmbito da Lava Jato a Camargo vai delatar e legalizar tudo o que está gravado. Se bobear inclusive a parte do Michel, então citado com trezentos mil dinheiros.

E pensar que o Caco me pagou quinze milhões em honorários e não durou dez anos. Pelo menos o susto serviu para os Camargo tirarem a família dos postos executivos. Nas grandes empreiteiras, só o Marcelo Odebrecht não entendeu que os tempos haviam mudado. As demais continuaram os esquemas, mas usando os empregados. Os eleitos inclusive. Mas tudo tem limite. O sujeito tem que saber escolher entre tomar a Presidência da República e continuar cafetinando o baixo-clero. Por isso cobre caro. Muito.

Meu melhor discípulo, Luiz Fernando Pacheco, o primeiro que conseguiu livrar o freguês no caso do Mensalão, gosta de uma frase que eu sempre dizia. Repetiu para a revista Piauí e fez o título do meu perfil: “Um caso tem que dar pão ou glória. Se der os dois, melhor”. No caso do Michel glória é difícil. Fique com o maior filão que você puder.

 
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Bola de carne

O hambúrguer do Presidento

A quebra da Bolsa de Nova York em 1929, que meteu o ocidente em doze anos de depressão, tem trilha sonora do Josh White: One Meat Ball é o emblema do problema. Uma bola de carne de quinze centavos era tudo o que um homem podia pagar para enganar a fome.

No Brasil a música ganhou versão do Jô Soares e o sexteto com arranjo do Tomati. Traduziram para Um Croquete. Ficou ótimo. Tenho o disco e estou ouvindo já na manhã desta sexta-feira em homenagem ao Presidento.

Explico. O distinto está em Hamburgo, terra do hambúrguer, para a reunião do G20. E não contente em tentar enganar a Nação dizendo que nunca recebeu bola do rei da carne que ajudou coroar, lá da Alemanha afirmou que no Brasil não há crise econômica. Isto é: sem dó, moeu, prensou e fritou cada um de nós brasileiros. Impossível não notar um segundo trocadilho: o hambúrguer é antes de tudo uma bola de carne.

Bola, bolinha, bolão 

E quem está com a bola toda é o Bolinha, também conhecido como Rodrigo. A melhor piada é do Sensacionalista: “Brasil retrocede tanto com Temer que pode voltar ao império Maia”. O Presidento, que conspirou contra sua companheira de chapa em cartas e áudios vazados, e com dinheiro do Funaro via Yunes para Padilha e 140 deputados pró Eduardo Cunha, agora prova do próprio veneno. “Os mercados” que o sustentaram até agora já botam todas as fichas no bolão do Bolinha, que apesar de também ser acusado de levar bola, nos próximos dias deve assumir o Planalto por seis meses ou outro impeachment – o que vier primeiro.

Baile

No mesmo dia em que o Presidento afirmou que no Brasil não há crise econômica, e com os nauseantes dedinhos em riste, feito uma Eliana para velhas e obedientes crianças, negou que sua crise política afete o que resta, o Brasil registrou deflação.

Aguardo os jênios das análises econômicas explicando o fenômeno. Se a inflação controlada era bom sinal, deflação merece um baile de gala com foguetório.

 
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Eu te disse, eu te disse

É no mínimo desagradável aquele personagem de desenho animado que fica repetindo “eu te disse, eu te disse”. Meu avô Coutinho, que era médico, não gostava da palavra chato, por se tratar de “termo vulgar para um para um piolho que dá nas vergonhas”. Porém tem dia que ser chato é irresistível. Que vovô Chico me perdoe, mas hoje eu serei a motoquinha chata e desagradável. Ao quadrado. Sim, freguesia, eu te disse, eu te disse.

Venho dizendo e escrevendo há tempos que no governo do Presidento o molho ficaria mais caro do que o frango. Dias antes da Presidenta ser afastada disse ao professor Delfim Netto e publiquei a história aqui. O grande frasista respondeu que eu partia do princípio que daria errado. Contudo, era só questão de lógica.

Elementar, freguesia caríssima: um sujeito fraco, historicamente sem votos, cujo passado o condena, que pedalou tanto quanto a antecessora e colega de chapa (que por sua vez era processada no TSE e acabou absolvida por excesso de provas), para governar precisaria do apoio de um Congresso que não pensa em outra coisa se não se livrar do atoleiro criminal, teria que pagar caro para atravessar a pinguela que construiu com ardil e ainda creditou a obra à empresa Celestial.

Não contente, uma vez Presidento, Temer continuou sendo Temer, se esqueceu que pode menos quem pode mais, e arranjou para o presente rolos maiores do que os do passado. Com efeito, é o primeiro presidente da República da história denunciado durante o mandato. E note que a concorrência não é fraca não.

Ainda assim, igual ao Delfim, amigos ilustrados sucumbiram ao wishful trhinking e teimaram na defesa do denunciado. Pelas reformas, pelo Brasil, contra o Lula, trololó, nhenhenhém. Todos perdoados. Não se pode condenar alguém que, morrendo de sede em pleno deserto, vê uma poça de lama e enxerga um oásis. Mas agora chega. Basta.

Modéstia às favas, esta freguesia, muito bem servida de análises grátis, tem motivos para processar com reservas o que lê por aqui. Afinal, esta página tem pouco mais de uma década, e em que pese o trabalho duro e diligente, pouco significa ante a credibilidade de um jornalão centenário ou uma folha prestes aos três dígitos de idade. Também conta – ou desconta – o fato de ser grátis. E a gente não valoriza o que é de graça. Mas que não seja por isso. Neste link você pode contribuir pagando pelo que lê aqui. Avaliação livre.

Então vamos lá. Farinha pouca, meu pirão primeiro. Aqui, aqui e aqui você leu que o molho do Presidento custaria mais caro do que o frango. Agora está provado em números. A agência Reuters analisou os dados do Siafi e a professora Laura Carvalho repercutiu na Folha de São Paulo: “o total de recursos liberados em 2017 para emendas parlamentares e restos a pagar passou de R$ 959 milhões para R$ 1,5 bilhão só no mês passado”. Isso falando em grana. O custo imaterial do retrocesso político-social com a agenda da bancada da BBB (Bíblia, Boi e Bala) é incalculável.

E ainda o papel do Rodrigo Maia, vulgo BB (Bolinha ou Botafogo), que ocupa o primeiro lugar na fila de reservas do Presidento, começa a ser entendido pela grande imprensa. Os craques Mônica Bergamo, da Folha, e José Roberto Toledo, do Estadão, trataram dele hoje. Aqui e aqui. Mas você leu antes aquiaqui, aqui.

Temer é tóxico, contagioso. Quem teima em apoia-lo, apesar das evidências, seja por convicção ou conveniência, adoece junto. O caso do prefeito de São Paulo é emblemático. Aos seis meses de uma gestão que vinha crescendo em popularidade, chegando a ser considerado imbatível para o Planalto em 2018, perdeu fôlego. Em um mês, sua rejeição disparou de 39% para 52%.

Também porque cria muita expectativa e entrega pouca realidade, lança quimeras mil diariamente no Facebook e se esquece que a maior cidade do país é real, não virtual. Botou de lado a participação e a descentralização pactuadas na campanha, que fortaleceriam a vontade popular e a autonomia das prefeituras regionais, e pouco se dedicou aos urgentes temas metropolitanos, indo mais ao exterior e a outros estados do que a Guarulhos e ao ABCD. Trabalhou para fazer vice-presidente da Câmara Municipal um estelionatário confesso, com prejuízo à história da cidade o presenteou dando o nome da porta de entrada a um parente que foi agente da ditadura militar, a mesma que cassou seu pai e o avô do vice-prefeito, e como retribuição o viu votar contra seu pacote de desestatização. Reverteu depois, mas a que preço? Mais dia, menos dia, pela Reuters, pela Globo, Folha ou Estadão, saberemos. Mas esta freguesia estará avisada.

 
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Notas soltas

Cotas na USP: cui bono?

Ontem, antes tarde do que nunca, a USP inovou aprovando cotas sociais e raciais no vestibular. Já no ano que vem 37% das vagas em todas as faculdades serão destinadas a alunos da escola pública e até 2021 chegará a 50%, sendo que pretos, pardos e indígenas terão uma fatia proporcional ao Censo aferido no estado de São Paulo. É de se aplaudir. Sim, lamentavelmente a escola pública é sinônimo de baixa renda. Sim, a porcentagem de professores pretos, pardos e indígenas na universidade é irrisória. Sim, a formação de base continua uma merda, somos milhões de analfabetos funcionais. Porém, sim, temos que aplaudir o avanço.

Para usar uma expressão da moda, graças ao Carainho, “cui bono?”. Simples: o primeiro beneficio das cotas vai para o ensino. Ou por outra: se uma das virtudes da universidade é preparar o aluno para a vida, e se a primeira virtude da universidade é a convivência, quanto mais a realidade dentro dela se aproximar do mundo aqui fora, melhor para quem está dentro. Os brancos, especialmente. Todos nós, num olhar ampliado.

Para-mão

Netinho, ex-bartender do Astor, tirou prêmio de melhor boteco da Vejinha com seu Paramount. Estou contente por mil motivos. Destaco alguns.

Primeiro porque é uma maravilha ver que um piauiense que adotou São Paulo conseguiu montar balcão próprio onde o maior capital é o próprio talento. Economia criativa pura.

Depois porque a rua dos Pinheiros, que já tem a Choperia São Paulo, o Le Jazz Petit e outras delícias tantas, como Metrô e fiação aterrada naquele trecho, vai ficando mais alegre e viva.

E por último pela homenagem póstuma aos Marques da Costa, verdadeira dinastia da boemia brasileira. O José Marques da Costa era o melhor amigo do Vinícius de Moraes, o único que podia entrar na banheira do poeta. E entrava. Os demais conversavam sentados na privada. Dizem que Regra Três foi feita para ele. O Américo Marques da Costa fez o Supremo, na rua da Consolação. Precisa dizer mais? E o Moacyr, irmão do Américo (note que as letras de um e de outro nome são praticamente as mesmas, ainda que os portugas insistissem que era só coincidência), nosso Ciso querido, foi quem primeiro me disse dos paramounts, ou os drinques para o desjejum, fatais para o para-mão: Bull Shot, Screwdriver, Bloody Mary, Bellini, Mimosa.

Muitos parabéns, Netinho!

Enquanto houver bambu ou por falar em bebedeira

Alvo das ilações do Presidento, que sugeriu o etilismo do PGR, Janot, revidou afirmando que “enquanto houver bambu, vai flecha”. Bonito. Mas bem poderia ter usado a clássica do Zé do Pé: “enquanto houver gelo, haverá esperança”.

Adhemar vive

O senador Magno Malta é bom de gogó. Na forma, pelo menos. No conteúdo, vira e mexe, se atropela. Já disse, por exemplo, que toda travesti foi vítima de pedofilia. De onde será que brota uma teoria dessas?

Abilolado, usou uma correligionária para se defender da acusação de homofobia, dizendo que “um travesti chamado Moa” era a vice-presidente do seu partido. Ocorre que Moa faleceu no começo de maio, e o próprio senador fez um live do velório em suas redes sociais.

Questionada, a asscom do parlamentar respondeu a la Adhemar, mais ou menos assim: morreu para você, filho ingrato, no meu coração ela continua muito viva.

Igual a Adhemar, que ficou célebre pelo corriqueiro “rouba mas faz”, pela caixinha e pelo cofrão, Malta é defensor da “família tradicional brasileira”.  Os índios? Não exatamente. No caso, por família tradicional entenda-se uma que inclui Dona Leonor e doutor Rui.

 
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De henry.sobel@miami para aecio.neves@senado CC jose.serra@senado

Meu carro I.S.C.O,

Proporções guardadas, já passei por isso. Ao fardo do meu erro original, somei muitos quilos ao longo de anos carregando fatos alternativos inventados pelos meus queridos amigos psicanalistas da CIP. Até que, exausto, chamei o Estadão e confessei, desmentindo a narrativa do “estreitamento de personalidade”. Você não imagina o alívio. Continuo não tendo o posto que já havia perdido. Mas isso é da vida. Aconteceria mais tarde ou mais cedo. Porém tenho algo que não tem preço: paz. And last but not least, ninguém mais fala nas minhas costas. Voltei a ter exclusivamente conversas francas e diretas. O erro não pode ser apagado. Agora mesmo um cronista lá em São Paulo que gosta de mim, de você e do Elio Gaspari vai se lembrar. Porém minha biografia prevalece.

Ontem pela Globo Internacional assisti ao seu discurso de retorno ao blue room. Quando você disse “Quero dizer que errei. E assumo aqui este erro”, por um momento achei que você seguiria meu exemplo. But not. Você disse ainda: “Não cometi crime algum. Não aceitei recursos de origem ilícita, não ofereci ou prometi vantagens indevidas.” Pode ser tudo verdade. Ou pelo menos, com habilidade, pode-se construir verdades alternativas. Sei como é. E sei quanto pesa. E no seu caso você ainda tem que defender o Presidento, atolado na mesma lama, só que mais fundo, e assim se afunda ainda mais. What for?

Para com isso. Se quiser conversar pessoalmente, aproveite o recesso e venha à Miami. Tem feito sol e calor, podemos beber um Dry Martini no bar do meu condomínio. O bartender é excelente. Se puder traga o José Serra, amigo de tantas batalhas, que nos lê em cópia – esta mensagem também serve para ele. Mas atenção: paguem pelas suas passagens na pessoa física. Nada de jatinho, emprestado ou pago pelo fundo partidário. Aqui na América tem um judeu engraçado que fez uma piada boa sobre o sexo que vale para voos, aeroportos, vinhos, empréstimos: a diferença entre o pago e o grátis é que o grátis custa muito mais caro.

Best regards, H.

 

N.A.: Texto imaginário

 
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