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Inês pode ser a sua filha

Já estive em Paraisópolis e andei pelas vielas e becos onde morreram pisoteadas nove jovens na madrugada de sábado para domingo. Posso afirmar que até o ar tem dificuldade de circular por elas. Agora imagine cinco mil pessoas desesperadas, correndo de tiro, porrada e bomba.

Passadas 24 horas, surgem análises dizendo que à polícia militar, responsável pelo tumulto, falta treinamento e preparo. Nada mais falso. Do ponto de vista da estratégia de guerra, o massacre foi um sucesso. O absurdo é tratar civis como adversários de guerra.

Os vídeos gravados por moradores mostram que os policiais envolvidos na operação conheciam bem o local. Encurralaram o baile e criaram a panela de pressão perfeita. Deu no que deu. Ou no que queriam que desse.

Daí que falar em falta de treinamento é no mínimo equivocado. O problema é o tipo de treinamento. A forma de comando e a cultura dentro dos quartéis, historicamente violentas e dirigidas para pesar sobre pobres, pretos, periferias.

Pelas condições da vida que tive, desenvolvi ótima relação com policiais. Cresci frequentando palácios. Em alguns períodos tive que andar escoltado por militares à paisana, dos quais fiquei amigo.

Talvez por isso, quando converso com policiais desconhecidos, haja um reconhecimento, um respeito mútuo que vai além do que ocorre entre pessoas com tipo físico e CEP semelhante ao meu. Faço piada com PM que finge não ver maconheiro rico na Maria Antônia e beleza. Reclamo tranquilo de viatura impedindo calçada, sobre piso tátil para orientação de cegos, quando deixam o motor ligado sem necessidade, ou quando passa ciclista na calçada e a autoridade não se manifesta. Por isso dizem que sou um irresponsável. Sou, mas não por isso.

Faço elogios e sugestões também. Por exemplo usar o que há de lúdico na força para criar elos com a sociedade civil. Como? Relações públicas. Animais da cavalaria e do canil,  motocicletas e outras viaturas de cerimônia, se disponíveis para selfie aos finais de semana, sobretudo para crianças em parques, poderiam desenvolver uma relação melhor para todos dentro de alguns anos.

E para já é fazer valer a propagada hierarquia militar para mudar a orientação. Se funciona para evitar massacre em pancadão ou rolezinho na Vila Olímpia, tem que funcionar nas periferias. Mas enquanto a posição oficial for que a abordagem na Oscar Freire não pode ser igual a de Parelheiros, as coisas só vão piorar.

Para encerrar, se por acaso alguém desta freguesia defende o excludente de ilicitude do ministro Moro, que a rigor é licença para matar, pense de novo ou admita que é demofobia. Não passou nem deve passar no Congresso. Mas já chegou ao guarda da esquina. E quando o monstro cresce, a PUC vira Paraisópolis e as meninas da classe média morrem queimadas. Então você vai chorar como se o cheiro do gás lacrimogênio chegasse pela TV a cabo. Mas será tarde. Inês será morta. E Inês pode ser a sua filha.

 
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Música, a língua universal

Tive uma passagem rápida pela propaganda. Modéstia fora, tinha talento. Mas não tenho vocação. E guardo lembranças mais agradáveis do que desagradáveis daquele então.

Com muito carinho, por exemplo, me lembro de uma convivência que em menos de um mês se tornou inesquecível. Um craque do setor chamado Toninho Neto trabalhava na Fischer Flórida e veio ao Brasil cobrir as férias do Silvio Mattos, que era diretor de criação em São Paulo.

Toninho foi o cara que botou “É melhor ser alegre que ser triste” do Vinícius de Moraes para vender hambúrguer. Os críticos da multinacional podem estrilar à vontade. O filme era lindo e nutria a alma de quem o assistia entre uma e outra novela.

Naquele período enfrentamos uma concorrência interna para a campanha de lançamento de um aparelho de telefone celular asiático, cuja maior virtude era ser pequeno e muito fino. Vejam como mudam as coisas: hoje tais atributos são secundários.

O conceito do Toninho era lindo e tive a lisonja de ser escolhido redator para criar os títulos das peças. Ele queria um clima refinado e lúdico, onde coisas grandiosas da humanidade refletissem a nossa pequeneza, o imensurável valor de um instante de beleza, para afirmar que o celular era minúsculo.

E as peças ficaram mais ou menos assim: Trabalho de pouso / Minha alma canta / Vejo o Rio de Janeiro / Pequena é a janela / O celular é minúsculo. E seguiam variações com outras referencias de vida boa.

O cliente gostou mas achou refinado demais, pontuou que o público alvo, mesmo sendo gente endinheirada, não entenderia, e acabou escolhendo a proposta de outra dupla, que também era boa.

Mas o deleite foi o argumento que o Toninho usou para defender a nossa campanha: ninguém precisa saber inglês para entender Cat Stevens cantando “It’s not time to make a change / Just relax, take it easy / You are still Young / That is your fault / There is so much you have to know…” Como discordar? O lúdico nos torna mais permeáveis e compreensivos, me parece óbvio.

Hoje abro os jornais e encontro duas evidências para a teoria do Toninho. No Estadão o biólogo Fernando Reinach traz uma pesquisa baseada no trabalho do filósofo e linguista Noam Chomsky e sua equipe, que demonstra que “as línguas faladas nas mais diversas culturas possuem estruturas comuns compartilhadas por toda população”.

Os pesquisadores cruzaram dados e canções de 315 diferentes sociedades e notaram que quatro tipos de canções são comuns: amor, dança, ninar e cura. E convidaram leigos e especialistas para ouvir canções produzidas por culturas com as quais jamais tiveram contato, sem informar origem e contexto, e avaliar os diferentes graus de religiosidade, excitabilidade e formalidade. Resultado: 70% de acerto.

Então abro a Folha e, de carona com o repórter Igor Gielow, vou a Hong Kong conhecer o tenor italiano Stefano Lodola, que sem saber patavina de cantonês gravou Glória a Hong Kong, hino não oficial do Movimento dos Guarda-Chuvas, que incluem canções diversas em seus atos. Viralizou na internet e emociona a juventude que o assiste cantando nos protestos.

Mais: o Movimento dos Guarda-Chuvas usa canções que falam de liberdade ou revoluções que vão de uma adaptação de Os Miseráveis para o musical até o hino dos Estados Unidos. Como não reconhecer que a música é de fato a linguagem universal? Quem, sem falar palavra em italiano além de pizza, não se arrepia e entende perfeitamente o significado de Bella Ciao?

 
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ABC

Me lembro do Pelé cantando aquele jingle da alfabetização, abecê, abecê. Nos fazia acreditar que com educação o país seguiria em frente. Ou melhor, sairia do buraco. Hoje receio que não, nem assim.

O jingle afirmava: quem bom vai ser, o nosso Brasil, quando todo mundo souber ler e escrever. Pois é. Parece lógico. Mas grande coisa. No meu círculo pessoal, todo mundo sabe ler e escrever. Sempre soube. Sequer se lembram como era antes de saber. E a fase de alfabetização da criançada é só uma fase. Por tão dado, o aprendizado é tido como natural, algo que vai acontecer dum ou doutro jeito, como a dentição.

Então todo mundo sabe ler e escrever. Mas não lê nem escreve merda nenhuma. Ficam feito uns patetas olhando uma tela qualquer. E antigamente sabiam escrever valores em cheques. Mais recentemente, e-mails. Hoje, nem isso. Basta ler as mensagens que ainda vêm por escrito no whatsapp para verificar que grande coisa é a alfabetização funcional. Grande merda.

Sabem ler, escrever, mas não sabem pensar e muito menos explicar por escrito o que teriam pensado, se capazes fossem. São uma cambada. Sociedade, não são. Nunca serão.

Por outro lado nasci com sorte e conheci gente que assinava em cruz ou com o dedão, mas sabia de tudo. Sabiam principalmente perguntar. E eram generosíssimos para explicar o que sabiam e absolutamente claros para dizer o que pensavam.

Obviamente é melhor não precisar escolher entre ter saúde ou dinheiro. Mas no extremo é preciso dizer: saber ler e escrever sem saber pensar, perguntar e explicar é muito parecido com ser rico e doente.

 
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Frescobol filosófico

O Millor dizia que o frescobol é o retrato esportivo do Brasil. Ou do Rio. Mais ou menos por aí.

Impreciso, sem regras claras, porém esperto, bonito e solidário, porque no fim não há competição.

É claro que não combina com quem manda no país ou na Cidade Maravilhosa. Mas a gente é mais assim do que assada.

Talvez Millor pudesse ter acrescentado que há uma pegada filosófica fortíssima no frescobol. Tempo, espaço, energia, beleza, dialética, reflexão, reconhecimento. Não sei se disse.

E, se não disse, é porque provavelmente tinha um assunto melhor, o que não é o meu caso.

Bom dia.

 
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Paulo Guedes assume a canalhice antidemocrática

O que foi a reação da polícia fluminense para dispersar a comemoração rubro-negra nas ruas? Armas de fogo em punho mirando civis desarmados, alguns acompanhados por crianças.

A resposta clássica é atribuída a Pedro Aleixo, vice-presidente do marechal Costa e Silva, único membro do gabinete que se recusou a assinar o famigerado AI-5. Interpelado pelo ditador sobre o que receava de sua parte, Aleixo teria respondido politicamente: de vossa excelência, nada; receio o efeito no guarda da esquina.

Se não ficou claro, vou desenhar: o esculacho da polícia, primeiríssima instância do Judiciário, costumava ser exceção para quem é branco e pelo menos remediado economicamente. Com os exemplos que ora vêm das autoridades mais altas, passou a ser regra e, não demora, vai te pegar, freguesa.

Mais explicitamente: calçada de boteco lánamariantônia. Este que vos fala, com a tez ainda mais rosada pelo circular do uísque no sangue, brinca com os oficiais do tribunal de Polícia Militar que fica do outro lado da rua: daqui pra lá vocês não passem, caso contrário terão que prender algumas centenas de jovens ricos que estão fazendo a cabeça. Os PMs riem e devolvem: não, não, claro que não; atravessamos só para um cafezinho. Já em Cidade Tiradentes, conjuntivite no branco dos olhos de um jovem preto dá flagrante – e esculacho.

Hoje amanhecemos com tendência de piora acelerada. Em viagem à Washington, o ministro da Economia, figura com popularidade em alta no governo Bolsonaro, disse sem qualquer pudor: “Não se assustem se alguém pedir o AI-5.” E insistiu obsessivamente, como quem revela um desejo profundo, que receia manifestações de rua contra o governo a que serve.

Ato contínuo, ao se dar conta que, da sandice costumeira, tinha entrado no campo da canalhice antidemocrática, pediu off aos jornalistas. Isto é, que sua fala não fosse publicada. Porém era morta a Inês: a coletiva era oficial, estava na agenda e as agências internacionais transmitiam a entrevista ao vivo.

Pois é. Achamos que tínhamos nos livrado do vexame internacional de ter na capital dos Estados Unidos um filho do presidente da República como embaixador e exportamos Beato Salú. Alô, Faria Lima! Um brinde à vossa prudência.

Sérgio Moro fala em excludente de ilicitude desde a transição. Bolsonaro agora fala em GLO rural. E Paulo Guedes, que serviu à sanguinária ditadura de Augusto Pinochet até o dia em que encontrou os meganhas do general revistando seu gabinete dentro da Universidade e achou por bem dar no pé, agora flerta com o pior período da ditadura militar brasileira.

Suas sandices costumavam ficar no plano econômico, escalaram para o filosófico naquela salada que fez com Hobbes e Rosseau, e a fronteira cafajestagem só rompeu atacando a primeira-dama da França. Agora, ao falar em AI-5, assumiu o campo da canalhice antidemocrática. PaGue é um canalha. E daqui pra frente, quem o apoia em qualquer atividade pública também é.

 
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Viva o Uruguai

Com turbulências em grande parte da vizinhança, o Uruguai atravessou o período eleitoral com estabilidade e garantiu bom debate. Chegaram ao final com o país dividido porém sereno. Nas urnas a eleição está praticamente empatada (diferença de 1,2%) e o resultado agora depende dos chamados votos observados, que são os dos cidadãos que, por necessidade, votam acompanhadas, como idosos ou pessoas com deficiência.

Tudo indica que o candidato de oposição, Lacalle Pou, sagre-se vencedor.  Este inclusive já se declarou eleito, mas falta a contagem final e o reconhecimento do adversário Daniel Martinez, candidato da situação que governa o país há quinze anos pela Frente Ampla, coalizão de partidos do campo progressista, cuja principal liderança é o ex-presidente Pepe Mujica.

Lacalle Pou se coloca como liberal-conservador e no segundo turno costurou o apoio dos candidatos que ficaram em terceiro e quarto lugar no primeiro turno, o liberal Ernesto Talvi e o nacionalista Guido Manini Rios. E no Parlamento a nova composição também deve pender para este campo.

Gosto muito do Mujica e aplaudo tudo o que ele e seu grupo conseguiram fazer nesses quinze anos. E a própria derrota, nas condições em que acontecem, pode ser vista como fruto do bom trabalho realizado. Reconhecimento de metade da população somado à alternância de poder atestam a boa saúde e vitaminam a democracia.

Lembrando que entre todos os concorrentes nenhum é um aventureiro. Nenhum prega contra a Política. Todos são políticos experientes e com serviços prestados ao país. Dá gosto de ver, notadamente se considerando o Brasil, alguns países vizinhos e até outros mais distantes.

Mil parabéns aos nossos irmãos da República Oriental do Uruguai.

 
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Meengo

Mussum está vestido de bombeiro, interpretando o burocrata responsável por atender às chamadas de emergência no quartel. Toca o telefone e a voz do outro lado clama: Fogo! Fogo! Contrariado, Mussum devolve: Meeengo! E bate na cara do cidadão que só não morreu queimado porque era uma esquete do humor vigente na minha infância.

Apesar de adorar o Mussum por seu talento e militância etílica, no Rio sou Botafogo. Não por dar pelota ao futebol, mas para prestigiar outro bravo e genial militante etílico, nosso querido Garrincha. Sim, ao contrário da maioria desta classe tão desunida, que são os bêbados, sou solidário.

Outro motivo para escolher o Botafogo foi não magoar dois caras lindos, elegantes e irresistíveis, cada qual à sua maneira, que se chamavam Romeu Montoro e Francisco de Moura Coutinho Filho, respectivamente meus avós materno e paterno.

Ambos torciam para clubes da Guanabara. Curiosamente o Romeu, que era burguês, vestia tricolor, time que encarna o que há de mais aristocrático no Brasil. Curioso porém não contraditório. Sem tostão, Romeu viveu como aristocrata. Talvez nunca tenha tido carteira. Nem precisou. Valendo-se do charme próprio e de títulos alheios, viveu com acesso a tudo que o dinheiro pode comprar e inclusive com o que sequer tem preço.

Chico, que tinha o sangue nobre do Magriço de Moura Coutinho, por sua vez era rubro-negro, time preferido da maior e mais popular torcida do mundo, algo que nunca entendi. Torcedor fanático, escrevia aos cartolas para reclamar e sugerir medidas. Elogios, que eu saiba, só em privado. E contraditoriamente detestava outra torcida popular, a lindíssima fiel corintiana, a ponto de me censurar quando apareci de bermuda preta e camiseta branca, porque lembrava “o uniforme daquele clube cafajeste”.

Hoje, porém, mais que tudo, mais que brasileiro, sou Flamengo. A América Latina pode estar em chamas a ponto do endereço da final ter que ser mudado. Quero que os cartolas responsáveis pelos meninos mortos no Ninho do Urubu se explodam. Mas mais que tudo quero ver o show vermelho e preto no Peru. E gritar, qual o Mussum: meeengo.

 

 

 
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É cultural

Na terça-feira 19 de novembro soubemos que o desmatamento da Amazônia aumentou 29,5% nos últimos doze meses. Os dados são do PRODES, sistema de monitoramento mais preciso que há no país, ligado ao INPE.

Perguntado a respeito, o presidente da República disse que não era com ele. No dia seguinte insistiram e sua Excelência cravou: “Você não vai acabar com o desmatamento nem com as queimadas. É cultural.”

Era portanto 20 de Novembro, dia da Consciência Negra, e a pergunta poderia ter sido sobre discriminação racial. Duvido que a resposta fosse diferente. Quem se surpreenderia se ele dissesse: você não vai acabar com o racismo e com o genocídio negro. É cultural.

E a corrupção? Também não vai acabar. É cultural. Assim como a violência. Quer algo mais natural que a violência? Até os peixes, que são inteligentes e desviam de óleo pra não morrer, se matam. É natural.

Sexismo, então, é naturalíssimo, porra! Olha a selva! Olha o mar. O macho prevalece. A fêmea precisa dele. Tem que obedecer para sobreviver. E a mulher que tem alguma inteligência adotou o comportamento. É cultural!

E você sabe que eu sou favorável à tortura. Sempre teve tortura. Você não vai acabar com a tortura. É natural. A baleia tortura o bebê foca antes de jantar. Ou você acha que a carne amolece se a baleia entregar flores?  Você tem que ler o livro do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. É cultura!

Meu palpite é que entre 15% e 20% dos brasileiros estão plenamente de acordo com tudo o que está acima. Somados aos que concordam, mas não admitem, são 30%. (Você não vai acabar com a moita; é cultural).

Restam outros 70%, que precisam se posicionar antes que se acabem. Não, você não vai acabar com o autoritarismo. É cultural. Mas o autoritarismo pode acabar com você.

 
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Passamos dos limites

Na semana de véspera 15 de Novembro muito se falou em monarquia. Quem puxou o cordão foi o presidente da República,  em ataque gratuito ao vice general Hamilton Mourão, dizendo-se arrependido por não ter feito Luiz Philippe de Orleans e Bragança seu companheiro de chapa.

O motivo da troca na última hora seria um dossiê envolvendo o príncipe em suruba gay e excursões noturnas para espancamento de mendigos. Assombração bastante comentada mas que ninguém afirma ter visto.

Numa sequência incrível, tão própria da atualidade, o deputado príncipe sentiu-se obrigado a dar explicações públicas e assim foi feito.

Pasmo, comentei no tuíter que, em 130 anos de República, onde não faltaram esforços para ridicularizar a Casa de Bragança – dom João VI bobo, Carlota safada, Pedro I tarado, Pedro II lento etc. – a atuação parlamentar do príncipe, aliado ao que de mais baixo a República já produziu, há de prejudicar a imagem da família imperial mais do que os “republicanos” um dia desejaram. E me solidarizei com o ramo de Petrópolis, cujo expoente maior é dom Joãozinho, e que preserva comportamento de alteza.

E então chegamos onde eu gostaria. Alguém comentou logo abaixo: “solidariedade ao fio da guilhotina”. Pode? Estamos em 2019 e alguém que provavelmente almoçou peito de frango com purê de batatas, sugere guilhotina. Teve várias curtidas.

Quem por algum momento preferir imaginar que trata-se se figura de linguagem, sugiro que pense de novo. Nas rebeliões dentro dos nossos presídios o comum é ver gente degolada, estripada, corações humanos usados como bola de futebol.

Dizer que são marginais que perderam o elo com a civilização é uma resposta fácil e até confortável. Pois vá ao cinema assistir Bacurau. Compre dois ingressos e use o primeiro para ver o filme e o segundo para assistir à plateia. É assustador ver gente tida como esclarecida, que frequenta cinema de rua e circuito cultural, vibrando e aplaudindo a barbárie contra a barbárie.

Ou ver o engajamento de quase quinze mil pessoas em torno de um post absurdo do deputado federal tucano Alexandre Frota, perguntando se no dia do atentado contra Jair Bolsonaro Adélio Bispo foi incompetente ou distraído.

E ainda ver o jornalista Augusto Nunes usando familiares mortos de Lula, inclusive o neto falecido do ex-presidente, uma criança falecida!, para ataca-lo nas redes sociais.

Pro meu gosto a baixeza e a agressividade passaram dos limites. Não tem como continuar assim.

 
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O nome é Paulo Guedes

Paulo Guedes deve ser investigado. Sua trajetória recente está cada vez mais clara. E obscura. O que terá feito a partir da soma do poder econômico e da frustração histórica é de interesse público.

No ano passado, sabe-se, andou procurando um candidato a presidente para chamar de seu. Poder de persuasão ele tem. Convenceu a família Huck que, por sobrevivente de um acidente aéreo, têm uma missão a cumprir pelo Brasil. É incrível, mas colou e Angélica segue repetindo o delírio.

Como os Huck, identificados pela big data de Paula Guedes, filha do ministro, refugaram e adiaram sua missão, PaGue abraçou Bolsonaro e, sem pudor, avança com seu plano de vingança histórica.

O mais louco é ver que inclusive a parte pensante do chamado “mercado” se recusa a critica-lo. Membros dos conselhos do grande capital, pagos justamente para não dar conselhos, os sábios, ou çábios na grafia gaspariana, calam-se enquanto Beato Salú avança com seu plano sórdido.

Quem pode para-lo? Não sei. Todos estão acuados. Imprensa tremendo de medo de morrer de vez, academia idem, com ataques e patrulha deliberada pelo governo, se recusam a dizer com todas as letras quem é o pilar da destruição nacional. E o pilar tem nome e sobrenome: Paulo Guedes.

Segundo a última rodada da pesquisa XP, PaGue é o ministro com popularidade em ascensão. Como pode alguém que propõe taxar desempregado ser popular deveria ser um mistério. Mas não é. Cresce justamente pelo silêncio dos que deveriam ser bons, mas comprados pelo dinheiro fácil da bolsa em fictícia disparada, calam-se.

Hoje soubemos, pelo canal do Pannunzio, como PaGue costurou nos bastidores as contribuições do então juiz Moro para sua campanha. Sim, sua, não de Bolsonaro, que não passa de um fantoche. É no mínimo escandaloso que um banqueiro e um juiz tenham de juntado para tomar o país.

O nome da fera é Paulo Guedes e  é nele que devemos nos concentrar enquanto resta algo por que lutar.

 
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