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Moro X Bolsonaro em janeiro?

Os jornais aproveitaram a cena numa manchete histórica: Violada no auditório. Mas quem supunha violência sexual, no texto descobriu que a referencia era ao músico Sérgio Ricardo que, vaiado a ponto de não conseguir se apresentar no festival de MPB de 1967, rachou o violão e lançou os pedaços à plateia.

Cinco anos depois, em Maringá, nascia outro Sérgio Ricardo. Se o nome do artista influiu no batizado, só a família do superministro Moro pode dizer.

Nossa preocupação, no entanto, tem um paralelo com a violada no festival da Record. Como reagirá Sérgio Ricardo à iminentes vaias que tem pela frente? Rachará o violão na estátua de Têmis?

Quando juiz, Sérgio Moro foi muito mais aplaudido do que vaiado e, aparentemente, não só se acostumou como quer mais. Natural e legítimo. Quase todo mundo gosta de aplausos.

Sua claque até agora se mostrou dedicada a ponto de relevar qualquer pênalti. Paulo Guedes esteve com Moro em algum momento ainda durante a campanha eleitoral? O que é que tem? O sigilo da delação de Antonio Palocci foi parcialmente – parcialmente! – levantado a uma semana do primeiro turno? Ah, mas era contra o Lula e a Dilma. O presidente eleito ficou no vácuo ignorado no aeroporto pelo juiz superstar? Está perdoado e nomeado. O reitor Luiz Carlos Cancellier suicidou-se depois dos exageros da delegada Erika Marena, que vai com Moro para a Justiça? “Ela não tem culpa.”

No governo de transição Moro se encontrou com Onyx Lorenzoni, corrupto confesso na prática de caixa dois de campanha, crime que Moro considera mais grave do que corrupção para enriquecimento pessoal. Perguntado sobre o coleguinha, Moro respondeu “mas ele pediu desculpas”. Portas abertas para outros tantos investigados no governo Bolsonaro, que seguiu o raciocínio declarando que “a qüestão ideológica é muito, muito mais grave do que a corrupção”.

Ontem, Jair Messias e Sérgio Ricardo, ao saberem que o ministro do STF Edson Fachin abriu processo para investigar Onyx, comentaram respectivamente assim: “Olha só, havendo qualquer comprovação obviamente ou uma denúncia robusta contra quem quer que seja do meu governo que esteja ao alcance da minha caneta bic, ela será usada”e “Ele tem minha confiança pessoal”.

Moro promete conduzir o superministério da Justiça no sentido de perseguir organizações criminosas pelo rastro do dinheiro. Isto é, crime de lavagem. Está certo e oxalá consiga. As ferramentas estarão à sua disposição, incluindo o COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).

Ontem o COAF emitiu relatório sobre uma quadrilha que opera na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, apontando movimentação atípica, “incompatível com patrimônio, atividade econômica ou ocupação profissional e capacidade financeira de um PM, ex-assessor, motorista e segurança do deputado e senador eleito Flávio Bolsonaro. Coisa de R$ 1,2 milhões dos quais R$ 24 mil em um cheque a favor de Michelle Bolsonaro, madrasta de Flávio e próxima primeira-dama da República. A notícia é do repórter Fausto Macedo, do Estadão.

Em menos de um mês o relatório estará sobre a mesa de Moro. Só então saberemos como vai ele proceder. Se os indícios virarem provas robustas, o chefe Bolsonaro continuará com a caneta Bic ao seu alcance, mas esta só servirá contra o ministro da Justiça, posto que o presidente não pode demitir a primeira-dama ou um senador.

É cedo para dizer. Mas no festival de 2019 me parece que Sérgio Ricardo vai interpretar Ney Matogrosso: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. É melhor já ir se acostumando com as vaias.

 
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Lewandowiski e o Papai Noel de Aricanduva

Igual a todo shopping, o de Aricanduva contratou um Papai Noel para animar as vendas de Natal. Igual acontece em todo shopping, pais levaram seus filhos para tirar foto com o bom velhinho. Mas lá no Aricanduva deu ruim.

Comprando o caso pelo valor de face, Santa deveria ficar no trono até as 20h, mas quando o relógio bateu 19h57, pegou o trenó e voou.

A reação do público foi sensata. Os adultos explicaram para as crianças que, sendo velhinho e tendo muitos presentes para fazer com seus duendes, ele estava cansado e no dia seguinte haveria outra oportunidade. Arranjaram um picolé para o filho e, discretamente, registraram reclamação no balcão do shopping.

Não, péra. Estou sonhando. Na verdade foi um estouro de boiada. Um freguês sacou o celular a gravou a retirada do Papai Noel e suas duendes, protegidos pela segurança. “Denúncia! Baderna! Descaso! Acabou o Natal para as crianças!”, bradava o homem. Uma senhora exibia provavelmente a neta, aos prantos, e gritava contra o Papai Noel: “Vai, seu ridículo! Tem que morrer, filho da puta!” Tudo na frente da criança.

Pano rápido, voo São Paulo/Brasília, terça-feira 4/12. Vendo o ministro do STF Ricardo Lewandowiski sentado na mesma primeira fileira do avião, um advogado saca o celular e começa a gravar um vídeo com as seguintes palavras: Ministro Lewandowiski, o Supremo é uma vergonha, viu? Eu tenho vergonha de ser brasileiro quando vejo vocês. O ministro respondeu perguntando: Vem cá, você quer ser preso? E chamou a Polícia Federal, que entre outras atribuições tem a de manter a ordem dentro dos voos domésticos no Brasil, impedindo que um passageiro incomode ou constranja outro e/ou os demais. Fez bem o ministro.

Meus votos para este Natal é que o freio de arrumação do Lewandowiski sirva de lição a todos os brasileiros. Temos instituições e canais estabelecidos para exercer nossos direitos e cobrar as autoridades. Vigiar eternamente a democracia inclui não admitir que esqueçamos dos nossos deveres ou que abandonemos a urbanidade.

 
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Das cinco estrelas do governo eleito, quatro estão com o passaporte de saída carimbados

Das cinco estrelas do governo eleito, quatro já estão com o passaporte de saída carimbado. Sérgio Moro é investigado, Paulo Guedes é investigado, Onyx Lorenzoni é corrupto confesso e investigado, Jair Bolsonaro teve as contas de campanha aprovadas com ressalvas e os indícios de caixa-dois no zap continuam aparecendo. Só o general Mourão se salva.

Se tudo isso vai fenecer nos escaninhos da corte ou se transformar na Elba do Collor ou na pedalada da Dilma, depende de como cada um vai se comportar.

Nas Armas Nacionais do Brasil temos cinco estrelas simbolizando o Cruzeiro do Sul. Como se sabe, entre as cinco tem uma mais intensa, mas não consta que cause incomodo às demais. Em Brasília é diferente. General Mourão incomoda Jair Bolsonaro.

E não tem como não incomodar. Entre os tantos militares nomeados para o primeiro escalão, só ele foi eleito. E sua afinidade com os demais vem de longa data. Como o próprio Mourão já disse em entrevistas, militares tem um tipo de trajetória peculiar. Convivem a vida inteira, pelo menos desde a adolescência. Comem quilos e quilos de sal juntos ao longo dos anos.

A mesma coisa não se pode dizer dos civis que formam o primeiro escalão. Somando todo o sal que partilharam, não juntaríamos cem gramas.

Bolsonaro conheceu Paulo Guedes há menos de um ano. Sérgio Moro, em 31 de março de 2017, ignorou o agora chefe ao ser assediado para um vídeo selfie no aeroporto de Brasília. De Onyx Lorenzoni foi colega por muito tempo, mas nunca demonstraram afinidade publicamente.

Olavo de Carvalho, que indicou o chanceler e o ministro da Educação, conta que falou com Bolsonaro duas ou três vezes. E muito provavelmente em uma delas o presidente eleito ouviu falar de um e outro pela primeira vez.

Com Gustavo Bebianno a coisa é parecida. A primeira vez que esteve com Bolsonaro foi em 2017. Com Onyx Lorenzoni a relação deve ser ainda mais recente, o que não impediu o ministro de convida-lo para padrinho de casamento. Padrinho de casamento!

Em família também não há harmonia ou sequer o mínimo de respeito. Quando disputou a eleição para presidente da Câmara, Jair não teve o voto do filho Eduardo, que faltou à sessão. Onde estava é um mistério. Mas seu pai não gostou. Por whatsapp, escreveu ao filho: “Papel de filho da puta que você está fazendo comigo. Tens moral para falar do Renan (quarto filho)? Irresponsável.” E seguiu: “Compre merdas por aí. Não vou te visitar na Papuda.” Ainda: “Se a imprensa descobrir que você está aí, e o que está fazendo, vão comer seu fígado e o meu. Retorne imediatamente.”

Eduardo até hoje não disse onde estava. Mas respondeu ao pai: “Quer me dar esporro tudo bem. Vacilo foi meu. Achei que a eleiçãoo só fosse na semana que vem. Me comparar com o merda do seu filho, calma lá.” Note: Eduardo é o filho “diplomata” da família, que viajou aos EUA para bajular o entorno de Donald Trump.

O filho Carlos, que cuidava das redes sociais, impedido de integrar o governo voltou ao Rio de Janeiro, onde é vereador. Parou de administrar o twitter do pai, mas na sua conta pessoal segue firme e irresponsável. Na quarta-feira 28/11 postou: “A morte de Jair Bolsonaro não interessa somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto. Principalmente após de sua posse (sic)! É fácil mapear uma pessoa transparente e voluntariosa. Sempre fiz minha parte exaustivamente. Pensem e entendam o enredo diário!”

O post do vereador Bolsonaro foi entendido como indireta para o general Mourão, segundo na linha sucessória do governo eleito. Perguntado a respeito, o vice respondeu “pergunta para ele”.

Há duas horas Mourão escreveu que “a mídia tradicional insiste em criar antagonismos na equipe vencedora do pleito”. Sei não, general, mas acho que não precisa.

 

 
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Police, police, polícia

A cena sempre volta à minha lembrança. Após o massacre no Charlie Hebdo, os terroristas voltam às ruas de Paris e matam um guarda desarmado. Em seguida, fugindo por uma viela, encontram uma viatura policial. Saltam do carro e disparam contra os policiais, que estavam armados. Ato contínuo, a viatura foge em marcha à ré. Prudência. Policia urbana não é preparada para enfrentar terroristas armados com fuzis AK47. As forças especiais localizaram e executaram os dois terroristas.

Atravessando o Canal da Mancha e chegando ao dia presente, a Scotland Yard, uma das polícias mais prestigiadas do mundo, pode passar a usar armas de fogo em Londres. Sim, tradicionalmente a polícia londrina não usa arma de fogo.

A possibilidade vem na esteira do crescente número de atentados a faca na cidade. Há oposição, inclusive do prefeito e de vários especialistas, que temem o agravamento da violência.

Vale lembrar o desdobramento trágico dos atentados de sete de julho de 2005, no Metrô de Londres, quando, também no Metrô, a SCO19, unidade armada da Yard, executou o brasileiro Jean Charles de Menezes, confundido com um terrorista.

No Brasil, o buraco é mais embaixo. Temos setenta mil assassinatos por ano, a polícia que mais mata e talvez a que mais morre.

Estatisticamente, o brasileiro tem mais chance de morrer baleado pela polícia do que como vítima de latrocínio, respectivamente segunda e quarta causa de assassinato.

E o policial tem muito mais chance de morrer fora de serviço. Em 2017, 385 policiais foram mortos. 91 estavam em serviço e 294 em horário de folga, talvez fazendo bico, vítimas de vingança, por envolvimento com a criminalidade, intervindo em uma ocorrência sem apoio mínimo.

Há um traço comum entre os casos francês, inglês e brasileiro: preparo e treinamento das polícias para evitar situações limite.

O caso mais recente com grande repercussão aconteceu num restaurante japonês no Itaim Bibi, em São Paulo. O roteiro, com desfecho trágico, tinha tudo para ser diferente.

Um sushiman com seis anos de casa e 26 de idade surtou e ameaçou um colega com sua faca de trabalho. Clientes tentaram intervir, em vão. O salão só foi esvaziado depois da chegada da PM. Eram dez os agentes e ficaram sozinhos com o sushiman, que acabou sendo executado com quatro tiros pelas costas ao fugir para o mezanino e lançar a faca contra os policiais. Balas de borracha e choque elétrico, estranhamente, não funcionaram. E aparentemente a nenhum dos dez policiais ocorreu a ideia de imobilizar o sushiman quando já estava desarmado. Fim.

 

 
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Plano B para livrarias e cidades

Crônica publicada no projeto Esquina Encontros Sobre Cidades do Estadão

A loja dobrando a Esquina (The Shop arround the Corner) é uma fita de 1940, com Budapeste por cenário e baseada numa peça de teatro de três anos antes. Conta a história de um casal que namora por correspondência sem imaginar que são colegas de trabalho com péssima relação profissional.

Há vinte anos ganhávamos uma releitura no cinema de Hollywood. A grande novidade era o correio eletrônico, que acabou batizando a obra como Mensagem para Você (You’ve Got Mail), muito provavelmente pelo merchandising do provedor AOL, que usava a mensagem para avisar seus assinantes sobre a chegada de um novo e-mail.

A questão da nova tecnologia rouba parte da tensão da trama. Meg Ryan, mocinha que flerta anonimamente por e-mail, tem um namorado conservador tarado por máquinas de escrever. O curioso é que seu fetiche maior está no gemido do circuito eletrônico da máquina elétrica. Quer dizer, ele é saudosista, mas tem limite.

O mocinho Tom Hanks, que corresponde ao flerte, é herdeiro de um livreiro cuja descendência se fez de empresários vorazes e pragmáticos, e onde fundador ainda participa como conselheiro. O velho guarda boas lembranças da época onde a caligrafia era um traço relevante das personalidades.

A loja dobrando a Esquina, título original do texto, acaba batizando a livraria que a mocinha também herdou da avó. Uma lojinha simpática, especializada em literatura infantil e bem enraizada no Upper West Side, tipo de Vila Madalena ou Laranjeiras de Nova York, bairros que mantém o clima de comunidade.

Eis a parte central da trama original. Os namorados virtuais são concorrentes, o que empresta profundidade à personagem do mocinho, fazendo dele também vilão. Com o sugestivo nome Fox Books (Livros Raposa), o mocinho é dono de uma imperial rede de shoppings de livros.

Já nos tapumes da pré-inauguração a megaloja de livros provoca despudoradamente a livraria de bairro: Em breve, dobrando a esquina, Raposa Livros.

Previsivelmente, a crise pessoal e profissional do casal protagonista se torna conjugal, e seus namoros desmoronam, assim como desmorona a livraria de bairro. A solidariedade e a resistência romântica da livreira tradicional e do bairro não resistem aos descontos oferecidos pela raposa.

Depois da separação, raposa pai – que também se divorcia, pela enésima vez – e filho vão morar em seus barcos. O filho tem um veleiro e o pai, um iate, equipado com bar inglês, onde celebram as mágoas em torno de um invejável Dry Martini, algo que só o capitalismo raposa pode proporcionar.

Seria falso dizer que não me sinto atraído pela imagem. Mas posso viver sem a possibilidade de ter um iate com bar inglês. A mesma coisa não posso dizer sobre viver em um bairro sem livraria na rua.

Chegamos enfim ao assunto do momento para quem gosta de letras. A morte e a morte das livrarias Saraiva e Cultura/Fnac que ameaçam todo o mercado editorial no Brasil. Gente boa já escreveu como e por que o nosso modelo de negócios editoriais está ameaçado pela quebra iminente de ambas.

A primeira morte dessas livrarias foi quando se afastaram do ideal de ser. Escrevi aqui meu temor e tristeza em ver o Pedro Herz, nosso livreiro mais conhecido, substituindo pouco a pouco sua presença no Conjunto Nacional. Invés de estar na loja diariamente, inclusive aos sábados, numa animada mesa com leitores, autores e editores armada nas ruas internas desenhadas pelo David Libeskind, onde estaria o Pedro? Em aviões visitando filiais? Lendo relatórios dos fundos de investimento? Nunca conversei com ele, mas sentia saudades imensas.

A favor do dinheiro dos fundos de investimento é preciso dizer que eles livraram o cine Astor de virar uma igreja e ainda mantiveram duas salas de exibição anexas à livraria, bem como espalharam lojas e vastos catálogos por cidades onde não havia tantas possibilidades para os leitores. Mas quantas livrarias “dobrando a esquina” terão falido?

Sabe-se que as livrarias da Vila, Travessa, Martins Fontes e outras tantas vão bem, obrigado. Assim como os sebos, do Messias ao Desculpe a Poeira, ou as amazônicas vendas on-line. Tudo leva a crer, pois, que o problema está antes no modelo dos fundos de investimento do que no mercado de livros.

Com outros negócios aconteceu algo mais ou menos parecido. A churrascaria Fogo de Chão, nas mãos dos másters business boys, foi seriamente chamuscada. Devolvida à velha direção, renasceu das cinzas. Exemplos por aí não faltam. De cervejeiros ao pessoal que adora roupas, sobram lamentos pela queda de qualidade de marcas consagradas.

Não por acaso, cervejarias de bairro e alfaiatarias ganham espaço e apreço. Gráficas que podem imprimir um livro na hora sob demanda surgem alhures. Problema: o preço. Como tornar sustentáveis e acessíveis esses negócios feitos com carinho e atenção é a pergunta. Meu palpite é que a resposta pode estar nas políticas para cidades que incidem sobre o mercado de locação imobiliária, como escrevi nesta Esquina. É uma das reclamações centrais das livrarias e outros comércios e serviços.

Nos Estados Unidos, vinte anos depois do e-mail como novidade e desmoronamento das livrarias de rua, a roda girou mais de uma vez. Cresceram os shoppings de livros, o comércio on-line avançou barbaramente, o livro eletrônico é uma realidade. Agora parece que bateu saudade e dobrando a esquina a gente volta a encontrar livrarias independentes, especialmente em Nova York, que tem investido em ruas mais agradáveis para as pessoas.

Como no Brasil também vivemos cada vez mais nas cidades, precisamos de algo parecido, talvez um plano B, em alusão a bazar, boteco, barbeiro, bomboniere, bicicletaria, borracheiro, banca, barraca, bilhar, boxe, balé, bainha, bordado e, por que não?, biblioteca, bosque, banheiro, bebedouro, banco (para sentar e sacar a vida passando).

 
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Um Capitalismo para o Povo é da escola de Chicago

Ex-presidente do Banco Central, Affonso Celso Pastore nos trouxe, pelo Estadão de ontem, dados alvissareiros da ora celebrada escola de Chicago, cujo membro mais ilustre no Brasil é Paulo Guedes, o Posto Ipiranga da Economia do governo eleito.

PaGue, no Chile do ditador Augusto Pinochet, integrou brevemente os Chicago Boys como pesquisador universitário. De lá retornou depois de uma batida dos meganhas da ditadura em seu gabinete e antes que os efeitos ruins do programa liberal viessem à tona.

Desde então ficou na iniciativa privada, reclamando amiúde de todo plano econômico que surgia, muitas vezes com razão, como confirmado posteriormente, algumas outras com exagero, como na ocasião do Plano Real. De qualquer maneira, fez bom papel, porque contraponto crítico é sempre bom, nada tem a ver com o que gente excitada chama de torcida contra ou a favor.

Agora, depois da conversão de Jair Bolsonaro ao liberalismo econômico, que ainda não completou um ano, PaGue é o superministro da Economia e vai escalando um time que, em suas palavras, mais exatamente seria chamado Chicago Elders, porque de boys, ou meninos, com muito boa vontade, só poderíamos apontar Roberto Campos Neto e Paulo Uebel.

A boa notícia que o professor Pastore traz da matriz mora nas conclusões de Luigi Zingales, “ilustre representante da nova geração da Universidade de Chicago” e autor do livro Um Capitalismo para o Povo, onde defende que “a essência do sistema capitalista não é a propriedade privada nem a motivação para o lucro, e sim a concorrência”. Capitalismo brasileiro, tremei.

O recado do Chicago boy tem endereço certo: o capitalismo de compadrio e a monopolização ou cartelização de setores, só alcançável quando empresários e governantes mantém encontros “fortuitos” nos hotéis das cortes.

Abro parênteses para lembrar ao próximo secretário especial da Receita Federal Marcos Cintra que não lhe será conveniente insistir em bola dividida com funcionários de carreira da entidade. Sei lá, vai que um deles gosta de jogar golfe e acaba passando lá em Porto Feliz.

Voltando aos Chicago Boys, segue o Pastore: “Zingales nos proporciona muitos temas para reflexão, e utiliza um gráfico mostrando que apesar do sensível aumento da produtividade do trabalho, desde 1975 a renda real média dos norte-americanos não cresce, e isso ocorre ao lado do significativo aumento da renda dos mais ricos, principalmente depois da hipertrofia do sistema financeiro. O capitalismo norte-americano, que é bem mais eficiente do que o nosso, tem sido incapaz de resolver o problema da distribuição de rendas.”

Fosse o capitalismo ou o liberalismo fossem uma religião, a revista The Economist e o jornal Financial Times seriam dois dos seus livros sagrados. E ambos estão preocupados em salvar o capitalismo.

A notícia boa para o Brasil é que os Chicago Boys do PaGue prometem adotar esse caminho. Little Bob, seguindo na prática a linha teórica do avô, deverá enfrentar o capitalismo de compadrio com bravura. A ver. E do Paulo Uebel eu já ouvi, em audiência pública na Câmara dos Vereadores, opinião francamente favorável à Renda Básica.

Para encerrar, é no mínimo divertido saber que um Chicago Boy escreveu Um Capitalismo para o Povo em pleno bicentenário de nascimento do Karl Marx. Seria bom que Chicago ajudasse a sociedade no esclarecimento da dialética: a antítese do capitalismo é o socialismo e, a síntese, o comunismo. Isto é, num mundo ideal, perfeito e improvável, com Sociedade Anônima e seus conselhos funcionando pra valer, o capitalismo seria praticamente a mesma coisa que o comunismo.

 
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Operação Dia D – Normandia seria melhor do que Campos Elíseos

A operação Campos Elíseos 2 – Linhas Cruzadas, ontem na Cracolândia e hoje na Zona Leste da capital e outras cidades da Grande São Paulo me parece inócua.

Para começar, o nome é um erro. Campos Elíseos é disparado o nosso melhor bairro, em localização, infraestrutura, topografia e talvez arquitetura. Trata-se de um belo móvel em madeira de lei que está empoeirado. Isto é, um bom trato resolveria. Não merece ser atrelado a uma operação policial.

Ontem o saldo da operação foram sete quilos de maconha, um pouco de coca e crack, R$ 1.200 em dinheiro e quatro traficantes presos. Beleza, né?

Como já escrevi aqui, a Cracolândia de SP serve como referência para quem precisa entender a inutilidade de tratar drogas como problema de polícia e não de saúde. Vale para as cidades e para o país.

A praça Princesa Isabel tem 270×100 metros e é plana. Ainda assim, as polícias e a Guarda Civil não conseguem impedir que as drogas sejam consumidas ali. Imagina no Brasil, com dezessete mil quilômetros de fronteiras secas e molhadas, com selvas e topografia acidentada.

Nós paulistanos costumávamos nos ufanar de não haver por aqui territórios controlados pelo poder paralelo, principalmente em contraponto às favelas cariocas e Baixada Fluminense. Papo. Nos Campos Elíseos há a favela do Moinho, cujas claras protegem os líderes do tráfico, instalados na gema. Lá a polícia não entra. Não entra porque não quer. Talvez para evitar o drama.

Noves fora evitar o drama ser uma decisão acertada, ela conflita com ações midiáticas e inúteis como a operação de ontem. Fosse verdadeiro o interesse em desbaratar o núcleo do crime nos Campos Elíseos, uma tropa de elite desembarcaria de madrugada no miolo da favela do Moinho. Como? De trem.

Milhões de paulistanos que usam a Estação da Luz sabem que os trens passam pelo interior da favela. Se os vidros das janelas pudessem ser abertos, o passageiro, sentado, poderia alcançar os muros. De modo que, embarcando uma tropa numa estação próxima, a polícia tomaria de assalto o Moinho de dentro para fora, como num Dia D tropical.

Para deixar a homenagem em termos francófilos, a operação deveria se chamar Dia D – Normandia, e não Champs Élysées.

ATUALIZAÇÅO 30/11/18 – 12h00 Segundo matéria do repórter Rogério Pagnan na Folha, o departamento de narcóticos da Polícia Civil (Denarc) prendeu 21 suspeitos de ligação com o PCC, entre eles um troféu: Gilberto Vieira Ferreira, o Beto, anunciado pelo Denarc como o “Pendrive nacional”do PCC, “um marco” segundo o delegado Alberto Pereira Mateus Jr. A veracidade e profundidade da notícia deve ser comprovada logo. Sabe-se que a quadrilha de Al Capone ruiu quando prenderam seu guarda-livros, equivalente do pendrive há cem anos. O fim do crime organizado relacionado ao contrabando de bebida alcoólica, porém, só chegou aos EUA com o fim da Lei Seca.

 
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O nariz de Cleópatra e a civilização ocidental

Admito que encasquetei com essa história de “civilização ocidental”. Já escrevi aqui com crédito para o Guga Chacra, amigo que me introduziu à expressão. Estamos de acordo no principal, que é não dar importância a definições assim.

De modo geral procuro me controlar porque sei que às vezes encasqueto com assuntos que não merecem tanto. E evito sobretudo me desgastar fazendo o inverso do que o Churchill ensinou: interromper a caminhada para espantar cada cachorro vadio que aparece.

Porém o cachorro vadio da vez é o governo eleito e sua cruzada internacional pela “civilização ocidental”, notadamente nas Relações Exteriores e na Educação. O quiproquó entre Bolso e seus auxiliares sobre a desistência do Brasil em sediar a Conferência do Clima – COP 25 em 2019 foi só mais um capítulo.

Levando Churchill ao pé da letra, o melhor conselho seria o da Malu Gaspar na Piauí, bem sintonizado com o cenário atual: procurar conhecer e entender o elenco novo, até porque espanta-lo, já vimos que não funciona.

No sentido figurado, contudo, sigo incomodado com a latição e receio aquela espuma que escorre junto às declarações dos novos ministros.

Para agravar minha situação, Roberto Pompeu de Toledo, que tanto me ensinou sobre São Paulo, escreveu sobre a latição na Veja. Seu argumento ia na mesma linha do meu, separando etnia de geografia, mas emperrou na questão racial. Meu historiador querido considerou que, se somos em maioria pretos e pardos, não seriamos ocidentais. Discordo. Primeiro porque etnia não está exclusivamente ligada à raça. Depois porque a Argentina também é considerada subgrupo da “cultura ocidental”, e pelo menos Buenos Aires é basicamente espanhola, italiana e inglesa; enquanto os EUA, no grupo A, tem muito de seus índios e vizinhos mexicanos, bem como dos imigrantes chineses e africanos. Cherokee, tequila, woton, jazz.

Como se não bastasse, concluo hoje o curso de Filosofia Medieval do segundo semestre no Mackenzie. Meu professor Jorge Gutierrez foi taxativo: O grande acontecimento da Idade Média foi a chegada da cultura árabe ao coração de Roma, dando origem à Escola de Paris.

Nesse contexto, dois polímatas se destacam: Avicena e Averróis. O primeiro, persa nascido onde hoje é o Uzbequistão e morto em Hamadã, hoje Irã, é considerado o filosofo mais importante da era pré-moderna e o primeiro grande filósofo islâmico. Influenciou São Tomás de Aquino e seu tratado sobre medicina era o padrão nas universidades.

O segundo, Averróis, espanhol nascido em Córdoba, na Espanha, e morto em Marrakesh, no Marrocos, misturou física, matemática e racionalismo ao “espírito da humanidade” e propôs sua possibilidade transcendental. Negou a imortalidade da alma sem abandonar o islã, sendo precursor dos filósofos heréticos do islamismo e do cristianismo, legando esta influência até o princípio da Renascença. Sustentou que a filosofia não só poderia conviver com o islamismo como deveria ser obrigatória às elites. Seus comentários sobre a obra de Aristóteles, traduzidos para o latim e o hebraico, reascenderam o interesse pelo grande filósofo. O contraponto de Tomás de Aquino ao averoismo mudou o destino da igreja católica.

A gente se acostuma a acreditar que o mundo poderia ser outro se o nariz de Cleópatra tivesse outra forma qualquer. Júlio Cesar, Marco Antonio e a lama do mar Morto o digam. Bela figura para mostrar o tamanho da influência árabe sobre a Europa e vice-versa.

Mas também pode servir para sugerir aos governos do mundo que procurem olhar um pouco adiante de seus narizes e, se não for possível, que pelo menos os mantenham distantes de onde não forem solicitados.

 
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Feliz Natal a todos os envolvidos

Os panetones já estão nas gondolas dos supermercados há alguns meses e o bosque com as árvores de Natal decorativas brilha nos lares e cidades brasileiras. Até a da Lagoa Rodrigo de Freitas, suprimida nos últimos dois anos por falta de dinheiro – não que agora esteja sobrando –, será reinaugurada dentro de uma semana. É festa! O Brasil mudou!

Mas a grande coisa do Natal 2018 é continuação do Natal 2017. Há um ano o presidento Temer, vestido de Papai Noel, atendia aos pedidos de seus coleguinhas presos por corrupção abrandando e muito o indulto natalino. Na carceragem todos tinham enfim se tornado bons meninos e se comportado bem.

Houve gritaria e o ministro Barroso, relator do caso, cassou as passas do arroz. De modo geral, impediu a ceia de presos por crimes de colarinho branco. De plantão, a então presidente do Supremo Carmem Lúcia mandou estacionar o trenó.

Só agora, um ano depois, o tema volta à tona, exatamente igual ao que era, e na semana seguinte ao aumento dos salários do STF, aprovado pelo Judiciário, pelo Legislativo e sancionado pelo Executivo, isto é, Michel Temer.

Dizem que foi um acordo para compensar o fim do auxílio moradia para juízes que têm casa própria na cidade onde servem, como teve Sérgio Moro ou seu genérico carioca Marcelo Bretas, que mora numa suntuosa laje de 500m2 no Flamengo e, sendo casado com juíza, conta com R$ 9 mil para ajudar no fim de cada mês. Papo. Além do molho sair mais caro do que o frango, ou peru, a decisão do ministro Fux é clara ao dizer que atende à conjuntura econômica. Quer dizer, se as contas um dia forem equilibradas, a porta para a volta do auxílio estará aberta.

A turma da Lava Jato, notadamente o procurador Deltan Dellagnol, diz que a proposta de indultar o preso que tenha cumprido 1/5 da pena vai acabar com a delação premiada. E o ex-juiz e próximo ministro da Justiça Sergio Moro ontem repetiu que o indulto é “excessivamente generoso”, pedindo para que sejam excluídos pelo menos os presos por corrupção.

Difícil discordar de um e de outro em tese. Mas na prática, para defender a delação premiada, Dellagnol deveria cobrar provas dos beneficiados, como Ricardo Pessoa da UTC, que provou menos do que falou porém goza do prêmio inteiro; e Moro se lembrar que “excessivamente generoso” foi ele, dizendo que, por ter pedido desculpas, está tudo bem com seu coleguinha de Esplanada e corrupto confesso Onyx Lorenzoni.

Para encerrar, uma atualização à crônica Réquiem para Lava Jato: o presidente da Câmara Rodrigo Maia ameaçou enterrar a Reforma da Previdência este ano. Nas entrelinhas se lê que o preço para votar alguma coisa ainda neste exercício é sua reeleição e a votação, em plenário, de alteração da lei de Execução Penal. Moro é contra, mas não deu um pio quando seu chefe Jair Bolsonaro disse que “a qüestão ideológica é muito, mas muito mais grave do que a corrupção”.

Enfim, conforme antecipei aqui, aqui e aqui, a mesa está posta para a ceia d’O Leopardo. “Com o Supremo, com tudo”, o Brasil mudou para continuar igual.

A curto e médio prazo ganha corpo o #CunhaLivre e o #TemerLivre. A longo prazo, o peru petista para as próximas eleições já começou beber cachaça.

ATUALIZAÇÅO 30/11/18 12h22 – Ontem o STF julgou a constitucionalidade do Indulto de Natal. Passou por 6×2 mas Fux matou no peito pedindo vista. Ato continuo, Gilmar Mendes propôs votação sobre a liminar de Barroso, que esvaziaria o pedido de Fux não fosse outro pedido de vista, notadamente o do presidente Dias Toffoli. O voto do decano Celso de Mello, que garantiu maioria pró constitucionalidade do decreto presidencial sobre o indulto, destacou as virtudes do indulto e sua importância para o sistema republicano de equilíbrio entre os poderes. O relator Barroso protestou afirmando que “todos sabem o que está acontecendo aqui”. Na próxima quarta-feira 5/12 o tema pode voltar ao plenário.

 
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Ilusão

Crônica publicada na revista Amarello #30 Ilusão

Montanha ao longe, água corrente, fogo crepitante. Alguém disse que são as três imagens capazes de inebriar o espírito humano.

Na fogueira deste começo de século, a humanidade parece completamente inebriada pela fogueira onde arde a civilização ocidental, onde o quinto museu mais importante do mundo foi reduzido à cinzas e parece servir como exemplo físico do zeitgeist.

Há um sem fim de respostas para como chegamos ao estágio atual, com tantos loucos inebriados, enxergando as realidades mais diversas nas formas do fogo que arde.

Desigualdade social, avanço tecnológico, convivência de mais, convivência de menos, individualismo, consumismo, invasão e evasão de privacidade, alimentação e cuidados com a saúde exagerados, em substância ou critério, para mais e para menos, mudanças climáticas, ciclo ou pêndulo histórico, grandes velocidades para tudo. Eu continuo me perguntando: como?

Da nossa necessidade atávica de crer, seja lá como for, surgem como sempre surgiram novas ilusões, para às quais sempre há público. Há quem diga que a novidade está na velocidade e na capacidade de aglutinação, além da nossa compreensão orgânica e intelectual. Tendo a concordar.

Desde o Renascimento, onde intelectualidade, pluralidade e humanismo prevaleceram sobre a dureza do período medieval, nos convencemos da infinitude das possibilidades da criação humana, da qual não duvido. Mas como indica a Idade Média, uma árvore frutífera ou a gestação, talvez o tempo para absorve-las seja imprescindível.

O papa Francisco, melhor político em atividade, em viagem à Estônia publicou a seguinte mensagem no momento em que eu terminava esta crônica:

“Um dos fenômenos que podemos observar nas nossas sociedades tecnocráticas é a perda do sentido da vida, a perda da alegria de viver e, consequentemente, um lento e silencioso amortecimento da capacidade de maravilhar-se, que muitas vezes mergulha as pessoas num cansaço existencial. A consciência de pertencer e lutar pelos outros, de estar enraizado num povo, numa cultura, numa família pode-se ir perdendo pouco a pouco, privando, sobretudo os mais jovens, de raízes a partir das quais possam construir o seu presente e o seu futuro, porque os priva da capacidade de sonhar, arriscar, criar. Colocar toda a confiança no progresso tecnológico como o único meio possível de desenvolvimento pode causar a perda da capacidade de criar vínculos interpessoais, intergeracionais e interculturais. Em resumo, aquele tecido vital que é tão importante para nos sentirmos parte um do outro e participantes dum projeto comum no sentido mais amplo da palavra. Por conseguinte, uma das responsabilidades mais importantes que temos – nós que assumimos uma função social, política, educacional, religiosa – é precisamente a maneira como nos tornamos artesãos de vínculos”

Logo, devagar com o andor, que o santo é de barro. E o próprio tempo pode ser ilusão.

 
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