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Os patos do agronegócio

Tido como um sábio, dotado de sobre-humana paciência e capaz de simular o próprio óbito para comer o coveiro, o caipira vem levando sucessivas bolas nas costas.

Ocorre, meus caros, que sempre haverá alguém mais esperto do que vocês. Onde? Em Brasília, por exemplo. Ou nas igrejas.

Com os militares acontece mais ou menos a mesma coisa. A tropa fica lá na caserna e nas ruas, lutando a guerra perdida contra o tráfico de drogas, enquanto seus deputados, bancados pelos fabricantes de armas, querem ver mais e mais chumbo voando. Com os crentes é a mesma coisa. Quanto pior, melhor. Quando o paraíso na terra enfim puder ser enxergado, eles perdem o dinheiro – e o mandato.

Volto aos fazendeiros com uma história boa para provar que sempre tem alguém mais esperto que vocês, no caso, os padres. Dizia um conhecido pároco do interior: “Bom para a igreja é quando a safra é ruim, porque a paróquia fica cheia. Quando a safra é gorda, o que enche é a zona.”

Meus caros ruralistas, amanhã a operação Carne Fraca completa sete meses. Que sufoco! Até que deu uma abafada com a confusão que os joesleys arrumaram. Mesmo assim, a costela ficou dura de roer. Ah, e como vocês se lembram, eles eram senhores de toda a esperteza. Pois é.

Para superar a crise o que fizeram os senhores? Meteram ficha na chamada bancada BBB, da bala, da Bíblia e do boi, é claro. Até para os meninos belicosos do tal MBL sobrou crédito. Agora que grande parte dos cinquenta países que não queriam mais falar com o Brasil, suspendendo ou dificultando importações, começaram a amolecer, o que seus deputados arranjaram? Uma carta que dificulta enquadrar, mostrar e punir os senhores de escravos que mancham o nome do agro.

Bonito, né? Como se não bastasse o ministro da área ser investigado por desmatamento, agora essa.

Deixa eu contar uma coisa pra vocês: gringo não gosta. Pega muito mal. E tudo o que a peãozada desses cinquenta países mais querem é um pretexto para acabar com a concorrência brasileira mantendo, ampliando ou criando suspeitas e embargos. Escravidão e desmatamento? Perfeito para eles.

Quem ganha com isso? Creio que a essa altura vocês já adivinharam. Sim, os congressistas que vocês financiam e que vão cobrar caro por cada almoço e jantar com diplomatas estrangeiros e o valhacouto do Planalto – já descontado o vinho datado.

Acordem, seus patos! Vocês estão fazendo papel de bobo.

 
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Bolinha chateado

Bolinha ou Botafogo na boca de delatores da Odebrecht, Rodrigo Maia é hoje vice-presidente da República e presidente da Câmara dos Deputados.

No domingo 15/10 deu entrevista à Folha e, simulando mágoa profunda com o Palácio do Planalto, afirmou que daqui pra frente, tudo vai ser diferente. Ou, entre aspas para não deixar dúvida, “Daqui pra frente vou, exclusivamente, cumprir meu papel institucional, presidir a sessão”.

O problema, para este cronista, não é a dúvida, mas a certeza: qual papel além do institucional Botafogo ou Bolinha teria desempenhado até então.

O enredo do caso é a segunda denúncia da PGR contra Michel Temer, Eliseu Padilha e Moreira Franco por obstrução de justiça e organização criminosa.

Na CCJ, como diria o Noel Rosa, a peça foi posta no prego por Bonifácio. O resgate deve custar caro ao Governo. E o interesse de quem pode avalizar, isto é, as senhoras e os senhores congressistas, é cobrar o maior valor possível.

Plano perfeito: colocar num escaninho virtual da Câmara os vídeos com a delação do doleiro Lúcio Funaro e dar a dica a um jornalista, que levaria ao grande público em forma de furo.

O Presidento mordeu a isca e, por meio do seu advogado de defesa, repetiu a estratégia de atirar no mensageiro, chamando de criminoso o suposto vazamento das gravações.

Tremenda inabilidade do criminalista, que revela a falta que faz uma assessoria de comunicação. Um telefonema ao jornalista e mesmo uma consulta ao Google evitariam o drama.

Agora Inês é morta. Tudo o que Botafogo ou Bolinha e seus aliados precisavam era de uma desculpa para acirrar os ânimos contra o valhacouto do Planalto. E poucas coisas nessas ocasiões vestem – e despem – tão bem quanto a injusta carapuça de criminoso.

O valor do aluguel do Planalto disparou. Para evitar o despejo, sobretudo com a possibilidade de mudança para a Papuda, Michel, Moreira e Eliseu hão de assinar qualquer contrato de renovação.

 

Preparem-se para pagar a conta, brasileiras e brasileiros.

 
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Carminha e o marido da piada infame

A improvável freguesia desta página por favor perdoe a insistência em trazer o Vinícius de Moraes. Mas não encontro citação melhor para definir o placar de 11 de outubro do Supremo, quando Carminha decidiu não decidir.

O Poetinha dizia que para viver um grande amor é preciso ser “doce conciliador, sem covardia”. Não foi o que vimos.

O ideal, já botei aqui, seria que a República funcionasse com seus três poderes em harmonia e independência. Se não funciona, isto é, se Legislativo não assume suas responsabilidades, alguém tem que falar. No caso de um senador em flagrante delito, o Supremo. Se não, pra quê Supremo?

Me lembro do ministro Barroso dando o exemplo do casamento homoafetivo. Pegou os Estados Unidos para evitar enrosco por aqui. Lá, uma vez que o Congresso não conseguia decidir sobre o assunto, demanda crescente e relevante para a vida de diversas pessoas e para o próprio funcionamento da Justiça, a Corte Suprema teve que assumir a responsabilidade.

A toga não é leve, muito pelo contrário. Mas seu peso é sabido por cada um dos ministros que aceitam enverga-la. E o funcionamento do tribunal é pensado para distribui-lo. Daí serem onze para decidir, e não só um, como no Executivo. Há os acordos tácitos, como o rodízio na presidência. E a figura do decano, que é obra do acaso.

Na sessão que entrou pela noite da quarta-feira, o relator, ministro Edson Fachin, votou por manter no Supremo a palavra final sobre afastamento de parlamentares. Foi acompanhado por quatro colegas: Luiz Fux, Luis Roberto Barroso, Rosa Weber e o decano, Celso de Mello.

Contrários ao relator ficaram outros cinco ministros: Alexandre de Moraes, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Marco Aurélio Mello.

Sobrou para a presidente da Casa desempatar. E o que vimos foi a ministra Carmen Lúcia mostrando que não aguenta o peso da toga e menos ainda da Presidência.

Ela poderia ter votado com convicção e legitimidade com ambos os lados. Havia bons argumentos de parte a parte. Mas apelou tentando driblar a responsabilidade dizendo que concordava com o relator, que imunidade parlamentar não se confunde com impunidade, que caberia sim ao Supremo decidir, mas que a palavra final da decisão deve ser dos parlamentares.

O relator Fachin entrou de sola. Não se deixou driblar. De pronto, disse à presidente que seu voto era na verdade contra o relatório, posto que divergia do ponto central. Perdeu a bola, mas perdeu de pé.

À Carminha restou entrar para a História como aquele marido incapaz de ser doce conciliador sem covardia e vive condenado à piada infame: “aqui em casa a última palavra é minha – sim, meu amor”.

 
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Choveu pesquisa

A semana começou com um toró de pesquisas. Dados suficientes para alagar a Paulista. Contei pelo menos três e vou palpitar.

1)

Aquela dita cervejaria encomendou um levantamento sobre preconceito. Mulheres, negros, gays, gordos. Como o brasileiro enxerga quem se enquadra nestas categorias?

Segundo a diretora do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari, responsável pela pesquisa, o resultado é que não temos consciência do preconceito embutido no léxico popular. Como discordar?

Sem querer puxar a brasa para a minha sardinha, falo como gordo que sentiu na vasta camada de pele os efeitos do preconceito. Tenho dois exemplos.

Depois da cirurgia bariátrica, já emagrecido, recebi um bilhete repleto de ofensas. A história inteira está no meu livro, Gordo Pensando, e as quatro pessoas que leram se divertiram. Resumindo, ao ler os palavrões, minha Neguinha ficou tensa e estranhou o fato de eu rir da situação. Ao que expliquei: Pela primeira vez na vida quem quer me ofender não começa a frase com “gordo”.

Outro exemplo é o episódio da banana atirada em campo para agredir um jogador de futebol negro. Cena lamentável. Todos foram solidários. Mas pergunta é: um bombom para um gordo provocaria a mesma comoção?

Então é óbvio que precisamos continuar na luta contra todo o preconceito, porque tem funcionado. E o primeiro passo é admitir que ele está em nós, reconhecer a carga cultural e meter ficha na intolerância ante a discriminação, que ao contrário do preconceito, pode e deve ser dizimada já.

2)

A Transparência Internacional verificou que 11% dos brasileiros admitem praticar corrupção para ter acesso a serviços públicos. É o segundo menor índice entre os países da América do Sul e Caribe.

Parte do meu trabalho é ler pesquisa e fazer análise. Mas não precisa ser do ramo para concluir que a observação da Márcia Cavallari cabe aqui também. Só há uma tradução para este número: não reconhecemos o conceito de corrupção (estou de bom-humor).

3)

Terceira e última pesquisa: Datafolha sobre o governo João Doria. Como era previsto, a aprovação desaceleraria. É sempre assim. Anotei aqui. Me espanta é que o prefeito tenha posto no próprio caminho cada uma das cascas de banana em que escorregou.

A queda chegou a dez pontos. O motivo principal é claro e guarda um paradoxo: a marquetagem exagerada infla expectativas, que acabam frustradas ante a realidade, derrubando a avaliação.

Por outro lado, ela resiste no extrato mais rico e menos dependente dos serviços públicos, justamente o que se mantém fiel à audiência do reality-show do prefeito, onde a vida é bem melhor do que no Terminal Capelinha. Contudo, há uma cratera à vista.

Os que aprovam o João são em maioria usuários de automóvel e ainda estão dispostos a culpar a gestão passada. Porém, amplamente insatisfeitos com a buraqueira (perceptível até para quem assiste aos vídeos que o prefeito grava a bordo do carro), querem asfalto novo para ontem. As obras para sanar o problema, muito aquém da necessidade, foram prometidas para o verão, caso não chova. Será que chove?

Para encerrar, há que se considerar o efeito bola de neve das pesquisas. Um prefeito disposto a manter uma agenda polêmica, que inclui fantasia de gari semanal, campanha nacional, viagens constantes e privatização atropelada, precisa ter sobra de apoio na Câmara.

Para tanto há duas moedas: popularidade e dinheiro (verbas, emendas, cargos). Antes da pesquisa verificar a queda da primeira, a segunda já estava inflacionada. Na véspera da última votação importante foram 160 cargos numa canetada, verdadeiro trem da alegria, símbolo da velha política, oposto do que Doria propõe.

Com o prefeito impopular os vereadores passam a disputar dinheiro. A briga pela grana trava a agenda do governo na Câmara. Parado, o governo perde mais popularidade. Sem popularidade, o prefeito fica mais isolado. E o preço dos vereadores dispara.

 
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Somos todos Catalunha

A Catalunha não está só. Mobilizações independentistas crescem em toda parte. Ainda na Espanha, no País Basco e na Andaluzia há grupos assanhados. Na Bélgica, alguns flamengos. Na Alemanha, os bávaros. No norte da Itália, Lombardia e Vêneto. No sul do Brasil, paranaenses, catarinenses e sobretudo gaúchos. Na cidade de São Paulo, Santo Amaro sempre quer voltar a ser município.

No Reino Unido, embalados pelo Brexit, escoceses elevam o tom pela independência da Inglaterra. (Lembrando que suas reservas em uísque superam em valor todo o outro britânico. Com a vantagem de que uísque se bebe.)

Também há corsos propondo a independência da França. Napoleão, que nasceu na ilha quando a Córsega ainda fazia parte da Itália, era considerado corso, não francês nem italiano. E tentou dominar toda a Europa. Por que não deu certo? Pelo mesmo motivo que a turma agora se anima em ser independente: cultura. Lorde Nalson só resolveu a questão.

Alguns séculos depois do ocaso napoleônico, a Europa, recém saída da segunda grande guerra – que aconteceu pela loucura de outro tirano que tinha um plano ainda pior para a humanidade –, conseguiu se unificar. Mercado comum, fronteiras livres, moeda única. Mas com respeito à preservação das culturas locais. Proeza de políticos estadistas e diplomatas.

O que entorna o caldo cultural é o de sempre: crise econômica e medo. Falta dinheiro para manter os ingredientes tradicionais do caldo. E a ameaça de diluição de algo apurado por tantos anos, causada pelas ondas migratórias, apavora os povos. Sopa rala ninguém quer.

Piorar um quadro assim é tarefa para políticos populistas e autoritários – ambos disponíveis na Catalunha e em Madrid, respectivamente. Deu no que deu. Os primeiros ferveram o caldo e meteram um plebiscito propositalmente mal negociado. E o governo central reagiu com uso inaceitável da força, descendo a borracha em idosos, atirando mulheres escada abaixo, chutando cidadãos no chão. Se havia dúvidas sobre a presença do DNA da ditadura franquista no Partido Popular que governa a Espanha, ela se esvaiu naquele domingo.

Para o mundo é importante aprender com a Catalunha. Principalmente sobre o que não fazer. Gente populista e/ou autoritária é perigo. Mais castanhola e menos touro à unha.

Como está posto nos primeiros parágrafos, o fenômeno é global e tende a crescer com o desejo das pessoas por maior participação nas decisões de governo, impulsionado pelas novas tecnologias. Desejo legítimo e de realização inexorável. Não há meio para frear o debate. E não é separar, mas libertar para juntar mais.

A questão é como fazer. E a resposta pode estar no modelo da União Europeia. Política, diplomacia, diálogo, tolerância e respeito à diversidade cultural. Para descentralizar o poder e noção de responsabilidade universal.

No plano econômico vamos precisar da renda básica universal. E é fundamental ouvir o nosso diplomata mais querido, que também era poeta e não gostaria de muro na Escócia:

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim

Que nada nesse mundo levará você de mim

Eu sei e você sabe a distância não existe

Que todo grande amor só é bem grande se for triste

Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer

Pois todos os caminhos me encaminham pra você

Assim como o oceano só é belo com o luar

Assim como a canção só tem razão se cantar

Assim como uma nuvem só acontece se chover

Assim como o poeta só é grande se sofrer

Assim como viver sem ter amor não é viver

Não há você sem mim, eu não existo sem você

 
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Ivan Lessa acelerando

“A cada quinze anos, o Brasil esquece os últimos quinze anos”, dizia o Ivan Lessa. Em tempos acelerados, o prazo diminuiu.

Um aluno célebre do Ivan Lessa serve como exemplo. Diogo Mainardi, a propósito do twitter ter dobrado a quantidade de toques por palpite, disse que nos antigos 140 havia menos chance de escrever bobagem. É o estilo homeopático do seu Antagonista. Mas será que funciona? Digo, afasta as bobagens? O lacerdismo que o site adotou na repercussão da fala do general insubordinado mostra que não – além de revelar falta de memória.

Vá lá, são mais de cinquenta anos… Mas o Mainardi mora em Veneza, na Itália, que teve Berlusconi recentemente. Daí que o apoio a um candidato novo, só porque é novo e dito não político, deveria passar pela peneira da lembrança.

Eu não queria falar do Mainardi. Até acho que o exemplo é forçado. Mas sinto uma invejinha da relação que ele teve com o Ivan Lessa.

Vamos ao Ivan, que é o que interessa.

Há pouco mais de um ano o Brasil tirou a Presidenta. Motivo alegado: pedaladas. Motivo real: exaustão e enganação. A gerentona não política congelou tarifas, jogou para a torcida e, reeleita, fez o inverso do que pactuou em campanha, muitas vezes usando a desculpa da “herança maldita” de FHC, mesmo depois de doze anos de governo Lula-Dilma. A turma, desiludida, cassou seu assento.

O gerentão não político da vez é João Doria. Ou, como ele prefere, gestor. O que tem feito na Prefeitura de São Paulo? Diz que encontrou um rombo no caixa, já desmentido pelo Tribunal de Contas. Congelou a tarifa de ônibus (já estourada e pedalada para 2018) e o IPTU. Prometeu participação, descentralização, enxugamento da máquina, e faz justamente o inverso, esvaziando ou extinguindo conselhos e distribuindo 160 cargos a pedido dos vereadores em véspera de votação.

Se Dilma foi traída e delatada pelo marqueteiro quando a Justiça chegou, ninguém há de dizer que João Santana foi incompetente em seu ofício. Doria não tem a mesma sorte com a assessoria.

Comprou uma pré-campanha nacional com seguidas viagens pelo Brasil. Resultado? Estancou nas pesquisas de intenção de voto e sua avaliação em São Paulo sofreu o efeito suflê: murchou na mesma velocidade que subiu. Motivo: os brasileiros veem mais um político em campanha e os paulistanos se sentem órfãos do prefeito que elegeram.

O projeto “Centro Novo”, anunciado para ser entregue em doze anos, teve o prazo cortado para oito anos durante a entrevista coletiva. Quem se lembra da célebre citação: “Não vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta.”

Como é possível? Nos responde professora da FAU-USP Raquel Rolnik. No dia seguinte ao anúncio, representantes da Prefeitura estiveram no Ministério Público Estadual e afirmaram que “o projeto apresentado era apenas uma ideia, que sequer foi analisado ou passou por qualquer desenvolvimento e que, portanto, não era algo que seria realmente executado”.

Nada mais parecido com o PAC, inclusive no “acelera”. Para quem estava com saudades da Dilma, deve ser um bálsamo.

Mais distante e não menos relevante, vale lembrar que nos primeiros meses de mandato Dilma não chegou ao cúmulo de se fantasiar de gari e sair varrendo a Esplanada dos Ministérios, mas se vendeu como “a faxineira da República”.

 
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Notas soltas

Nos termos da Lei

Uma lei recente mudou o Código Penal. Desde então, para configurar organização criminosa, no mínimo três devem estar combinados. Antes eram quatro ou mais. Daí o termo formação de quadrilha.

Por isso a denúncia da PGR contra Michel Temer, Eliseu Padilha e Moreira Franco é sobre organização criminosa (e obstrução de Justiça). De qualquer maneira, valesse a regra anterior, para usar termo quadrilha bastaria aos procuradores incluírem os já encarcerados membros do PMDB da Câmara: Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima e Henrique Eduardo Alves.

A casa de todas as casas

Fernando Collor, Renan Calheiros, Roberto Requião, Romero Jucá, Jader Barbalho. São quatro, não, cinco de outros tantos senadores carbonários que votaram por incendiar a Praça dos Três Poderes.

O arrepio que subiu pela sua espinha, freguesa, enquanto lia os nomes, economiza a minha tarefa de anotar o por que. Não foi para salvar Aécio Neves.

O bom senso prevaleceu. E a razão de existir do Senado, a casa de todas as casas, é o bom senso – ainda que dele façam parte figuras que se comportem no Salão Azul como se estivessem naquela outra casa de todas as casas.

Black Friday

Foi uma terça-feira. Mas teve promoção a la brasileira. Tudo pela metade do dobro. O Senado Federal concluiu mais uma parte da reforma eleitoral.

Para alegrar a freguesia, botaram já para 2018 a cláusula de barreira, que impede a representação e, por consequência, o acesso ao fundo partidário que, com efeito, mata a maioria das legendas que não alcançarem pelo menos 1,5% do total de votos. Em 2030 chegará a 3%. O ideal era 5% pra já. Paciência.

Os deputados eleitos por partidos que não superarem a marca ainda poderão assumir, desde que acertem filiação a qualquer outro que tenha alcançado. Note: depois de eleitos, sem combinar com o eleitor. Se na última reforma inventaram a janela da infidelidade, agora abriram a porta.

O fim das coligações, que juntam de jairs a jeans Brasil afora, naquela abjeta sopa de letrinhas, só passa a valer em 2020, na eleição de vereadores.

Não reclama, freguesa. Do jeito que a coisa vai, havendo eleição já está muito bom.

Terrorista americano 

Procuro evitar esse tipo de comparação. Mas é óbvio que usando um turbante e/ou tendo a pele negra, seria impossível ao terrorista de Las Vegas chegar ao quatro do hotel com tantas armas longas e dois tripés.

Botem as crianças na sala

Uma agência chamada Madame Bovary, que atende os museus D’Orsay e da Orangerie, vai retomar o esforço para incentivar a visita das famílias. Notícia da Folha.

Exitosa em 2015, “a campanha foi muito bem recebida pelo público, apreciada e reproduzida”, garante Amélie Hardivillier, que dirige a comunicação das entidades. Destacando as joias de ambos acervos, nove cartazes serão espalhados pela cidade mais uma vez.

Nos conta, pela Folha, a repórter Daniela Franco, da RFI: “Sucesso nas redes sociais, a peça que mais teve êxito utiliza a tela ‘Femme Nue Couchée’ (Mulher Nua Deitada), realizada em 1907, pelo pintor francês Auguste Renoir. Na obra, uma jovem é retratada em uma cama, seios à mostra, o sexo coberto com um lençol. Mas foi a mensagem utilizada no cartaz que chamou a atenção do público: ‘Tragam seus filhos para ver gente nua’.”

 
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#SomosTodosCorleone

Eu nunca quis isto para você. Eu trabalhei minha vida inteira, eu não peço perdão, para tomar conta da minha família. E eu recusei – a ser um tolo – dançando em uma corda, sustentado por todos esses figurões. Eu não peço desculpas, essa é a minha vida, mas eu pensei que quando fosse sua hora você fosse quem sustentasse essas cordas. Senador Corleone. Governador – Corleone, ou algo assim.

Triste e pragmática, a mensagem do pai ao filho mafioso é um retrato da humanidade. É de um romance que se passa nos Estados Unidos com uma família de imigrantes europeus. E é universal.

Don Corleone queria uma família legalizada, não um filho honesto. Alguém com poder de fato para conseguir seguir seu trabalho. No mundo corporativo é o que chamam de plano de carreira e otimização de custos.

Voltarei logo ao Poderoso Chefão. Antes quero comentar a última pesquisa Datafolha, que é mais sobre sobre o espírito humano do que uma projeção eleitoral brasileira.

87% dos brasileiros dizem que valorizam muito um candidato a presidente que nunca tenha se envolvido em casos de corrupção. Ao mesmo tempo, Lula alcança 48% das intenções de voto no seu melhor cenário, que seria disputando um segundo turno com João Doria.

Mauro Paulino, diretor geral do Datafolha, explica. “Da análise conjunta de uma matriz com seis frases, quatro de correlação direta com o tema, percebe-se que essa taxa elevada de eleitores que condenam tal crime cai praticamente pela metade quando ele é associado a determinados fins.
No total, apenas 40% dos entrevistados mantêm-se firmes na posição de condenar a corrupção sob qualquer aspecto. A maioria (60%) a admite, mesmo que em parte, em algum momento, dependendo da finalidade a que é associada.
Entre os que pretendem votar em Lula, eleitorado de menor renda e baixa escolaridade, esse percentual chega a 77%. Também é elevado entre os mais jovens.”

A íntegra está aqui. E eu gostaria de acrescentar que, num recorte entre os uber-escolarizados, os MBAs, CEOs, gestores e outros bichos do chamado mercado, o número deve estar perto da unanimidade, como prova o apoio ao governo Temer em troca das reformas que mais lhes convém.

Paulino ainda nos conta, na conclusão, que “a maioria dos entrevistados concorda, mesmo que em parte, com a frase: ‘Tanto as qualidades quanto os defeitos dos políticos brasileiros são um retrato da população do país’”.

A voz do povo é a voz de Deus. Não somos diferentes de Vito ou Michael Corleone. Muito pelo contrário, somos os próprios Corleone. Do pai, que no princípio topou esconder as armas de Pete Clemenza por favor, e do filho, que no auge se torna um grande empresário, filantropo, sócio de um dos maiores bancos imobiliários do mundo, no Vaticano.

A legalização da família, como define Kay Adams, mãe dos filhos de Mike, a tornou mais perigosa. É exatamente o que assistimos hoje.

O presidente do Congresso Nacional, com razão, diz que nenhum Poder é superior ao Legislativo. É uma mensagem ao Judiciário, que suspendeu o senador Aécio Neves, despertando o sentimento de corpo do que há de pior no Salão Azul. Falam na legitimidade do voto popular, que os juízes não têm. Um passeio da turma pela Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, capitaneado por Aécio, socorreria os senadores na compreensão do que o povo está sentindo, desobrigando o Poder Judiciário da intervenção.

No mundo empresarial, dos seis brasileiros mais ricos, que concentram o mesmo dinheiro que os cem milhões de patrícios mais pobres, três são sócios e estão entre os maiores financiadores de campanhas eleitorais desde a volta das eleições diretas. Outro teve o banco, quebrado, salvo pelo Governo Federal. O quinto é investigado por fraudes na operação Zelotes. O sexto ficou rico fora do Brasil.

Fora do pódio, outros empresários continuam correndo, e propõem criar um fundo cívico para financiar candidatos e eleger entre setenta e cem congressistas no ano que vem. Serão fortíssimos, sobretudo ante a baixa expectativa de caixa. E a presença entre eles de um suspeito de pagamento de propina, que nomeou para diretor de boas práticas de sua empresa um acusado de fraudes, que hoje está preso, aparentemente não incomoda. É o mais rico do grupo.

Mais abaixo, sabemos que 75% dos diretores de recursos humanos já dispensaram candidatos a emprego depois de flagrar mentiras. E mesmo os militares se esquecem da primeira lição, que é a hierarquia, quando revelam interesse, vejam vocês, em botar as coisas em ordem.

Adhemar de Barros, vulgo Rouba mas faz, vive. E também o Millor Fernandes, que encerrou o conceito de negociata: “Todo bom negócio para o qual não fomos convidados.”

 
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Tudo tem limite

Sempre recusei as insistentes comparações entre o prefeito de São Paulo e o presidente americano. Nem a Bruxa do Mandaqui foi capaz de me convencer.

O Aprendiz, os ataques à imprensa e à política, o risca-faca continuo, a estética, o populismo, o ego inflado. Tudo para mim era coincidência.

Ontem, porém, tive um estalo. No Manhattan Connection o Lucas Mendes contava como os russos manobram as redes sociais para bagunçar os Estados Unidos. Basicamente, usam a tecnologia para inflamar conflitos. E há indícios cada vez mais fortes de que dar uma mãozinha na eleição do louco foi parte da estratégia.

Trump enxerga em Putin um motor. Não percebe que o russo é seu ventríloquo.

No fim de uma semana triste, quando museus tiveram que defender seus prédios reais e virtuais da turba ensandecida, percebi o óbvio ululante: o MBL está para João Doria como Putin para Donald Trump.

Fiquei ainda mais triste. Mas como dizia o Bruxo do Cosme Velho, “é melhor cair das nuvens do que de um terceiro andar”.

Não eram poucas as notícias desfavoráveis à agenda MBL. Do obscuro modelo de financiamento, passando pela segunda denúncia contra o governo Temer que o movimento apoia, muita coisa teria que ser explicada e debatida.

Solução? Pauta bomba. Tática antiga, velhaca e fatal. O batedor de carteiras grita pega ladrão enquanto foge. Até que se torna conhecido e tem que mudar de freguesia ou de crime – sempre algo mais e mais grave.

Para se esquivar dos problemas que são seus e não consegue resolver, Trump é capaz de brincar com uma granada atômica. Doria grava um vídeo sucumbindo à banalização da pedofilia.

Funcionou, não há dúvida. Mas o que sobra depois de uma e outra?

As narrativas chegaram ao limite. E dele não podem passar.

 
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O MAM, a laje e a primavera

Um homem, peludo, suado e pelado, se encontra com uma menina, também nua. A saúda, pergunta se ela aproveitou o dia e mete outras amenidades. O pai, só de cuecas, a incentiva a responder. Notadamente está preocupado com a educação da filha. Despedem-se.

Assisti a esta cena enquanto falava do orelhão do vestiário do meu clube, só com a orelha vestida. Lá se vão uns vinte anos. Era incomum. Intrigado, chamei por e-mail uma tia psicanalista craque, especializada em questões de família.

O fenômeno, verde naqueles anos, derivava do crescente número de separações conjugais. Os pais, nos dias em que ficavam responsáveis pelos filhos, experimentavam uma tarefa nova, isto é, cuidar dos filhos. E das filhas.

Minha tia ainda não havia enfrentado algo parecido. Na troca de e-mails, notou que tanto para meninos quanto para meninas, o corpo nu feminino era algo comum, dada a amamentação, seja da própria mãe ou das mães de leite, ou a hora do banho, em casa ou em ambientes coletivos, como os vestiários.

Já o nu masculino permanecia um tabu, especialmente para meninas, que na nossa cultura pouco ou nada conviviam com os homens como vieram ao mundo – salvo um irmão, primo ou coleguinha ainda puro e imberbe.

O que mais espantou minha tia foi a realidade dos vestiários. Nos masculinos as pessoas andam sem roupa, cobrem no máximo um ombro para carregar a toalha. Nos femininos há pudor e as toalhas viram vestidos.

Passadas duas décadas, descontando o meu estranhamento e o aumento de meninas acompanhadas pelos pais, pouca coisa mudou. Não consta que qualquer uma daquelas meninas, hoje adolescentes ou adultas, tenha sequelas pela convivência com homens pelados das mais variadas formas.

A quem imagina que pertenço a um clube nórdico, naturista ou elitista, acrescento que me refiro a um clube paulistano, que pode ser considerado elitista, mas que o vestiário em questão é o geral, ou seja, aberto a visitantes de todas as classes sociais, nacionalidades, raças.

Hoje, a caminho do MAM, sentindo a pressão da retumbante marquise do Ibirapuera e a tensão do barulho das rodinhas, notei um paralelo com a atualidade. A mesma laje que sufoca é completamente aberta, sem saída ou entrada, alagada de luz, um fim de túnel possível em qualquer circunstância. E há ipês, primaveras, helicôneas, bailarinas patinadoras, cavaleiros de skate.

Na porta do museu, uma tristeza tremenda: diversas viaturas da guarda municipal para garantir a continuidade tranquila do 35º (!) Panorama de Arte Brasileira. Por outro lado, foi bacana ver que a Prefeitura cumpre seu papel de Estado sem ceder ao populismo e à histeria de um governo passageiro ou das redes.

A performance La Bête, do coreógrafo Wagner Shcwartz, que combinou o corpo nu a um origami em homenagem a obra Bichos, da Lygia Clark, só aconteceu no primeiro dia. Tinha aviso de nu na entrada. E uma mãe entrou com a filha e permitiu que a menina interagisse com o artista, conforme a proposta. A cena que ganhou as redes é singela. Quem sentiu tesão precisa procurar ajuda. Urgente.

Impactante e revoltante são duas outras instalações. Mão na lata é uma coletiva de jovens moradores da favela da Maré. Gente da melhor qualidade que tenta respirar sem nenhuma atenção da sociedade ou do Estado. E outra, a última que vi, da Dora Longo Bahia, mistura Brasil e Argentina. Florestas transformadas em carvão, a Patagônia derretendo e as crianças orientadas pela rivalidade das arenas do futebol.

Para encerrar, acabo de saber que o MAM, o nosso MAM, acaba de sediar um quebra-pau de porta de estádio.

Vem, primavera! Venham, anos 1920!

 
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