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Mate as saudades de você

Há quanto tempo você não sente saudades, freguesa? Não saudades de alguém querido, um momento, comida, um lugar. Saudades de você. De quem você é. Ou de quem quis ser antes de sucumbir aos padrões inventados sabe-se lá por quem.

Na tranca, me desespero com o futuro imediato no Brasil. Receio que será tétrico, pior do que tem sido alhures. Nosso pacote nacional de enfrentamento à pandemia é o mais tímido do mundo, mesmo considerando que todas as medidas anunciadas serão realizadas.

Mas para além da devastação estou otimista. E é justamente por sentir que as saudades de nós mesmos afloram na intimidade forçada com nós mesmos.

Insisto: noves fora velocidade e potência, o novo coronavírus nada traz de novo. Desde sempre os pobres, as minorias, os mais vulneráveis pagam as contas da humanidade. Pobreza é o que há de mais caro. A novidade é que talvez agora, obrigados a estacionar, a gente pare para pensar sobre o que fizemos das nossas vidas.

Quando foi que nos rendemos ao individualismo, ao egoísmo dos últimos tempos? Meu palpite é que por conveniência social fomos nos entregando, e a cada passo nos distanciando de nós mesmos, do que queríamos, desejávamos, sonhávamos.

Igual a tudo na vida, o combinado geral tem seu lado bom. Receio porém que tenhamos exagerado na dose. O remédio virou veneno.

Em algum momento cruzamos a fronteira do contrato coletivo e partimos para o salve-se quem puder. Simulando urbanidade, adotamos um instinto de horda selvagem e primitivo, abandonando a individualidade e caindo na vala comum do individualismo.

Como pode alguém que sufoca as próprias vontades reconhecer as vontades alheias? Como pode alguém que não se conhece, e portanto não se gosta, carece de amor próprio, ter amor pelo próximo?

Como nos deixamos nos humilhar tanto por sobrevivência financeira e social, ou econômica? A lógica do humilhado é a do dia da caça e do caçador: aceito hoje porque minha vez há de chegar. Medo e vingança. Não podemos ser feitos destes sentimentos.

Agora, em quarentena, a solidariedade nos impõe a viver com o básico – proporções guardadas. Quem ganhar numa loteria cuja fé foi depositada há semanas fará o que do prêmio dentro de casa? No máximo, planos, sonhos. Ou filantropia. Mas para planejar e sonhar ninguém precisa acertar o milhar.

E minha aposta num futuro  melhor vem desses sonhos íntimos. Se nos descobrirmos, nos reconhecermos, se matarmos as saudades de quem um dia sonhamos ser, com efeito poderemos entender, reconhecer e conhecer melhor os demais.

Tarde da noite desço para o térreo do meu prédio. Através das grades olho a rua. Quantas saudades. Vou ao pátio, respiro o ar fresco e inacreditavelmente leve da São Paulo da quarentena. É um deleite. E é de graça. Ou antes: de graça não é, vai custar caro, já está custando.

A pergunta é: qual conta vamos preferir pagar depois que tudo isso passar? A dos últimos cem, duzentos anos, ou a dos séculos por vir? A resposta está dentro de cada um de nós. Mate as saudades de você.

 
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Nossas fuças mascaradas

A voga na minha bolha é o elogio aos paroquianos que mantém o numerário dos empregados domésticos e demais prestadores de serviço sem a prestação do serviço. E o auge da popularidade vai para o crente que, repleto de cutículas, afirma pagar a manicure e estar caprichando na gorjeta do rappi.

Na conjuntura atual o jeito é engrossar o coro na esperança de que a moda pegue. Pode salvar vidas. Mas eu não consigo deixar de pensar no problema estrutural, que é em pleno 2020 haver na sociedade gente que, mesmo empregada, não sobreviveria a três meses sem receita.

Isto é, o problema agora é o novo coronavírus e toda ajuda para combate-lo será bem-vinda. Mas a existência de um estrato social submetido a considerar luxo algo básico para a sobrevivência como a quarentena ante uma pandemia é de amargar. Pior: a convivência com tal situação está normalizada.

Desenhando, o salário dos empregados domésticos é um escárnio. Tais empregos só existem graças à miséria. São filhos da miséria. Não raro, aqui na catedral do privilégio uma família consome em um mês de supermercado o equivalente aos treze meses de salario de uma doméstica. E ai dela se pedir aumento ou aceitar trabalhar no vizinho por um pouco a mais.

Me lembro de 2015 como se fosse agora. O debate nacional era a PEC das Domésticas. No meu entorno, sempre que o assunto entrava, o ar saía, dada a solidez da indignação com a sugestão de estender aos empregados domésticos os direitos trabalhistas então garantidos a todos. Não por acaso, veio uma reforma bárbara com a mudança de governo. E logo em seguida o país elegeu presidente da República o único deputado federal que votou contra a PEC.

Da classe média tradicional ou recém nascida para cima, perdoou-se tudo do PT. Lula foi reeleito depois do Mensalão. Dilma, eleita e reeleita com Petrolão diariamente nas manchetes. Claro, o consumo grassava, havia picanha, cruzeiro, TV de plasma. Mas a PEC das Domésticas foi demais. “Peraí! Uma festa danada!” O complexo de sinhazinha não suportou.

De novo, sem novidade. O Império caiu quando, depois de quarenta anos de passos lentos, finalmente o Brasil tomou vergonha e fez a abolição. Com João Goulart foi igual. Imagina estender direitos trabalhistas ao peão do campo? Coisa mais sem cabimento. Coisa de comunista. E a marcha da família com deus pela liberdade derrubou Jango, entregando o país a uma ditadura militar. Qual família, deus de quem e o significado de liberdade continuam sendo questões marginais.

Nos acostumamos a isso. Talvez sejamos assim. Há um desprezo profundo do 5% que detém 95% da renda nacional pelo andar de baixo. Todas as atenções neste estrato são voltadas ao 0,1% que possuem 48% da riqueza brasileira. Receio que só vivem no Brasil para poder tomar café da manhã na cama e não terem que limpar a própria privada. E seguem assim, de joelhos esfolados, 99,9% da Nação, metade na esperança de receber convites para um garden party, metade por quaisquer migalhas, ora traduzidas no salário de fome mantido para que a doméstica não traga ao lar o coronavírus contraído no trem lotado.

É emblemático que o primeiro óbito no Brasil tenha sido o da doméstica de 63 anos, diabética e hipertensa, que continuou servindo a patroa que chegou da Itália, testou positivo e se deitou provavelmente em plumas de ganso.

Essa mulher vai puxar o grande féretro nacional que passará sob as nossas fuças mascaradas. Se alguém chorar, que pelo menos tenha a decência de evitar a selfie para as redes sociais.

 
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Na tranca e no tranco

O coronavírus mata. Aparentemente isso vai ficando claro inclusive para os negacionistas de tudo. Vide o homem que fala do gabinete mais poderoso do mundo, Donald Trump, que num espirro correu do “não estou preocupado, relaxem, vai passar”, à admissão da “pandemia que pode durar meses” e adoção da renda básica universal para todos os americanos.

Quer dizer, além de pessoas, o cononavírus mata a mentira, a desfaçatez, enquadra a irresponsabilidade. É um horror. Não precisava ser assim. Porém, igual a tudo na vida, o bem e o mal andam de mãos dadas. É a história da humanidade.

Com as crenças e religiões foi assim, da empatia às mais diversas cruzadas, passando pelo controle social. Com a ciência foi assim, desde a pólvora até a internet, passando pela tecnologia nuclear. Com a biologia diferente não seria. Tampouco com a economia.

O mundo está apavorado com o coronavírus, que espalha dor, sofrimento e morte pelo mundo. E também nos presenteia com imagens emocionantes de reconhecimento e solidariedade. Entre um meme e uma notícia, vamos do pranto às gargalhadas.

Vejo amigos empresários tendo que decidir entre seguir em frente ou baixar as portas. Escolha de Sofia. Pode parecer óbvia a decisão entre o desemprego e a vida. Mas e quando o primeiro também significa a morte? Soltamos as mãos uns dos outros ou assumimos o risco juntos? Eu não queria estar na pele de quem tem que decidir.

Alguns desses amigos empresários passaram os últimos tempos amaldiçoando a Política, assim mesmo, com P maiúsculo. Pois guardadas as proporções, faz parte do cotidiano dos políticos tomar decisões assim, escolher prioridades. Haverá reconhecimento a quem se doa à vida pública? (sim, canalha tem em tudo quanto é canto.)

Outros tantos, não raro os mesmos, falaram muito contra o Estado. Tinha que diminuir, tinha que acabar. E o que fazer agora que ele e só ele pode nos salvar? Ciência e tecnologia, rede de proteção e controle social, distribuição de renda, Justiça, quem mais poderia fazer? Alguns setores, exata e literalmente como quem está se afogando, desistiram da mão invisível do mercado para agarrar a mão forte do Estado. Pergunto: por que não ambas?

Entre as pessoas físicas é igual. Que fazer sobre empregados domésticos? Manter o salário sem trabalho e menor risco de contágio; peitar o risco mútuo, ainda que desigual de contaminação, continuando como antes; ou o famigerado lessefér, também conhecido como “cada cachorro que lamba a sua caceta”?

O novo coronavírus, ou vírus coroado, faz parecer que a questão é nova. Mentira! Mil vezes mentira. A gente é que fingia não enxerga-la. Ou o que é pagar um dólar para receber hambúrguer sentado no sofá? Ou aproveitar o desequilíbrio entre oferta e demanda para fazer uma viagem baratinha de carona até ali? Ou condicionar a manutenção da empregabilidade ao arrocho salarial e cortes de benefícios?

Voltando às empresas: o lucro da mineradora que segue bem cotada em bolsa, pagando bônus e dividendos gordos a executivos e acionistas, mesmo tendo um passivo enorme social e ambiental, é de verdade? Não é! É mentira!

O âncora do jornal ganha um milhão por mês. O repórter assistente, enfrentando enchente ou apanhando no curral do presidente, o equivalente a 0,05%. É verdade ou fakenews?

E mais uma vez a vida privada. Costumávamos a nos preocupar com suntuosas festas de aniversário para crianças. Hoje o que pais e avós não fariam para estarem juntos em torno de um bolinho de chocolate com uma pequena vela espetada cantando parabéns para suas crianças?

Passei a vida ouvindo de uma tia querida: o que você não aprende em casa com carinho, aprenderá no tapa fora dela. Eis que aos 41 anos me encontro em quarentena, na tranca, no tranco, aprendendo com dor e tristeza profunda lições que a rua mais agressiva seria incapaz de impor.

 

Com alguém que me lê tem sido diferente?

 
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RBU: Renda Básica de Urgência

No começo de 2017 meu amigo Tomas Biagi Carvalho, que edita a revista Amarello, enviou mensagem com o tema de orientação para a próxima edição: perspectiva.

Sem nenhuma, seja pela depressão que me acometia, ou por racionalizar a impossibilidade do mundo continuar sob o modelo vigente, fui procurar um norte – taí um lado bom das obrigações.

Rolava naquele então nos estados Unidos uma edição da Conferência Brasil, organizada por Harvard e MIT. E uma das mesas improváveis reuniu o vereador paulistano Eduardo Suplicy e o ideólogo reacionário Olavo de Carvalho.

Decidi acompanhar porque uma das minhas preocupações essa o binarismo político-social. E para minha alegria aconteceu o improvável: convergência. Obviamente não integral, mas num tema específico: Renda Básica Universal.

Foi um sopro de esperança que me deu fôlego. Passei a estudar a ideia com entusiasmo. Arranjei uma audiência com o Suplicy, defensor histórico e quase temático da Renda Básica de Cidadania – como ele prefere, ganhei uma aula e seu livro autografado.

Convencido e apaixonado, passei a defender a ideia. Escrevi muito nesta página – o conteúdo está nas tags. Amolei dirigentes de think tanks por uma conferência. Não rolou. Mas tampouco foi em vão, porque com ou sem minha ajuda a ideia brotava aqui e acola em declarações de gente destacada.

A estrutura para o meu convencimento tinha quatro pés: com as novas tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos – que fazer?; a concentração de renda acabaria matando os consumidores e, com efeito, o capitalismo; o modelo chinês ou americano de produção e consumo, se escalado de 1,5 bilhão de pessoas para sete bilhões, explodiria o planeta; tudo isso somado à ao binarismo político poderia acabar com a democracia.

Quatro anos depois surge um quinto e trágico motivo: coronavírus ou COVID-19. E de desejável a Renda Básica passou a ser urgente. É o debate econômico global. Seja por perdão fiscal como na França, ou pela determinação do governo Trump de fazer um cheque de mil dólares para cada cidadão americano.

Aqui no Brasil quem capitaneia o debate é a economista Monica de Bolle. Hoje no Estadão vai um artigo seu com os cálculos necessários para a implementação. Leitura fundamental. E acalantadora ante o pavor de ver morrer tanta gente de gripe ou de fome.

Leigo, meu argumento sobre o custo da renda Básica era inverso: a pobreza é o que há de mais caro. E as condições brasileiras amargamente provam isso. Se os hospitais Albert Einstein e Sírio Libanês já não dão conta de atender suspeitos de infecção, imaginem os demais. Imaginem a situação de uma população onde metade das casas não tem saneamento básico. Imaginem como farão para comprar comida os milhões de subempregados. Não por acaso, os dois primeiros óbitos (um ainda dependente de confirmação da causa) são de um porteiro e de uma empregada doméstica.

Mas a professora De Bolle fez as contas: As medidas de caráter imediato – saúde, proteção social e setorial – somam cerca de R$ 310 bilhões ao longo de 12 meses, ou uns 4% do PIB. Isso é metade dos cerca de 8% do PIB que gastávamos com os juros altos de 14% há poucos anos.

Vamos em frente. O caminho é claro e cada segundo pode custar uma vida.

 
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Pavor e papel higiênico

Não é só o papel higiênico. Os adjetivos também estão acabando. Como tratar o estado de coisas a que chegamos no Brasil?

O que aconteceu ontem em São Paulo é um absurdo. O senador major Olímpio, policial que fez carreira política ao estilo Bolsonaro, por pouco não saiu no tapa com o governador João Doria.

Ambos se estranham pelo menos desde a eleição de 2018. Na reta final do primeiro turno, quando Doria escancarou o voto BolsoDoria, traindo seu padrinho Geraldo Alckmin, Olímpio, que presidia o PSL e coordenava a campanha de Bolsonaro em São Paulo, reagiu brabo: oportunista, traidor e daí pra baixo.

De lá pra cá ensaiaram um armistício, que só durou enquanto o flerte BolsoDoria vigorou. Chegaram até a formar um casal de três com a deputada Joice Hasselmann, quando esta, doriana, tomou a presidência do diretório paulista do PSL de Eduardo Bolsonaro, o ZeroTrês.

De lá pra cá a relação entre todos eles se deteriorou. Mas curiosamente só Hasselmann e Doria foram para o microondas virtual das milícias bolsonaristas. Major Olímpio, nunca.

O major tem uma trajetória semelhante a do capitão. Militares indisciplinados, incomodavam os superiores e inflamavam as bases militares, respectivamente a da PM paulista e a do Exército.

Bolsonaro escreveu um artigo para a revista Veja e Olímpio um livro que recomendava ao cidadão reagir em caso de assalto. Quando Veja publicou o croqui do atentado a bomba que o capitão planejou contra o Exército, este foi convenientemente convidado a se retirar da arma. Por conta do livro que assina como coautor, Olímpio foi afastado mas arranjou guarida na escolta do então governador Fleury.

Mais: os dois entraram para a política após o desligamento, com apoio das baixas patentes militares. Os dois passaram por todo tipo de partido e até com o PT marcharam juntos, seja em eleições, articulações ou votações. Os dois têm por ídolo figuras marcadas pela barbaridade: Bolsonaro adora o torturador Brilhante Ustra; Olímpio foi peixe e depois sócio de Ubiratan Guimarães, lembrado pelo massacre dos 111 do Carandiru. Os dois fizeram do estardalhaço e da inflamação das bases militares um modelo político-eleitoral.

Talvez tanta afinidade explique o major ser poupado pelas milícias digitais do capitão. Talvez haja mais lama sob as solas de seus coturnos.

O que aconteceu ontem em São Paulo: na agenda oficial do governador constava visita ao Departamento de Operações Policiais Estratégicas, o DOPE, da Polícia Civil. Era para ser uma visita em companhia do diretor do departamento e do secretário de Estado da Segurança.  Convocado pelos policiais, que disseram ter sido escalados para estarem no local desde as sete da manhã, o senador arranjou um carrinho de som, armou tocaia em um portão vizinho ao que o governador usaria e, quando a comitiva chegou, partiu para cima aos berros potencializados pelo alto-falante.

Doria reagiu com seu tradicional “vai trabalhar”. Olímpio devolveu com “você não tem respeito”. Como praticamente todo mundo era segurança, deu-se um impasse e as autoridades mais altas do chão paulista quase entraram no tapa. Até que Olímpio foi retirado do prédio.

O Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo tomou partido do senador em nota: “Major Olímpio, uma das vozes mais atuantes da Segurança Pública paulista, foi hostilizado e agredido por ecoar os anseios de todos os policiais civis do estado de São Paulo.”

Já o governador apelou para o coronavírus, dizendo que o momento é de zelar pela Saúde – como se visita de cortesia em “batalhão” lotado fosse algo prudente em véspera de pandemia.

O desenrolar do dia é ainda mais grave. Quinze cadeias e presídios paulistas “viraram”. A contagem oficial ainda não saiu, mas a estimativa é que das rebeliões restaram 1.356 foragidos. Para dizer o mínimo é raro, se não inédito, rebelião com número tão alto de fugitivos. Do maior levante de todos, ocorrido em 2006 em dezenas de presídios, não consta sequer um fugitivo.

A versão difundida pelo Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional de SP (Sifuspesp) é que os presos se levantaram contra as novas regras para visitas e saídas temporárias para contenção do coronavírus. Pode ser, pode não ser.

Não sendo, ficamos diante da possibilidade de que a rebelião seja também policial, ou uma reação miliciana contra o Estado, como vem acontecendo em menores proporções, porém não menos graves, em outros estados, como Espírito Santo, Bahia, São Paulo, no cotidiano do Rio de Janeiro.

O fio que liga todas elas tem nome: Jair Messias Bolsonaro, seja diretamente, através de seus filhos, aliados, correligionários ou de um ministro.

Vale lembrar que desde domingo Bolsonaro nunca se viu tão isolado institucionalmente. E que o esperto João Doria declarou-se arrependido de votar no capitão.

De qualquer maneira alguém precisa parar esse processo miliciano, que começa com a insubordinação policial. Mas quem? As Forças Armadas? Ora, quando as milícias tomam conta das cidades, nem as dos Estados Unidos resolvem – vide Vietnã, Iraque, Afeganistão.

Apavorado, sinceramente não sei mais o que fazer. E já não há papel higiênico nas prateleiras.

 
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#União

Antes das sete da manhã o dia já prometia, com a revelação de Paulo Guedes sobre a projeção do Banco Central para o impacto do coronavírus no Brasil. Sem qualquer responsabilidade ou exatidão sobre os números, o ministro disse que “na Itália a previsão era de 60% de contágio e aqui, 80%.” O governo sabia disso desde quarta-feira e só agora a informação vem a público e assim, esculhambada.

Sete da noite e nada melhora, tampouco se acalma. Em coletiva de imprensa PaGue surge autoritário como sempre e ensaia um chilique, chega a se levantar como quem ameaça não brincar mais. Então encarna o Cebolinha, desenhando os planos infalíveis que aprendeu na Chicago dos anos 1970. E sobe o tom ameaçando contingenciar orçamento básico ante a pandemia que vamos enfrentar. É de se perguntar quem é o chantagista.

E é claro que o eterno Beato Salu não desencarna. Se não for do jeito dele, o mundo acaba. Mas coitado, não está bom da cabeça. À Folha, na entrevista publicada hoje, diz que crescemos “1,7%, quase 2%”. Agora na coletiva, admitiu o pífio 1,1%. Talvez seja o caso do doutor Reale Júnior estender o pedido de sanidade mental que sugeriu ao presidente da República ao seu Posto Ipiranga.

Completamente fora da realidade, o ministro sequer falou no BPC, que o Congresso aprovou e o TCU, seu órgão auxiliar, contrapôs. Assunto do momento, um dos cernes da crise política, importante para garantir alguma dignidade a tantas pessoas com deficiência, idosos ou acometidos por invalidez, especialmente diante do que temos pela frente.

Porém admito que no geral há boas medidas, ainda que o próprio Guedes admita que insuficientes. Fora a charla. Acrescentar um milhão ao Bolsa Família é importante, mas além de não se lembrar de dizer se trata-se de pessoas ou de famílias, se esqueceu de dizer que expulsou mais de um milhão de famílias do programa, sendo regiões pobres do Nordeste as mais prejudicadas.

PaGue parecia muito preocupado com as pessoa jurídicas, e de fato deve estar. E a Caixa Econômica sinaliza que está preparada para acudi-las. Grave é o desdém do ministro pelas pessoas físicas, sem as quais as primeiras não podem existir nem teriam razão de ser.

Mais grave é ver que o descontrole é a tônica deste governo. Acima de Guedes está Bolsonaro, que não pode ver um balde que já corre para o tiro de meta. De manhã deu uma entrevista a José Luiz Datena, que ganha a vida inflamando as massas no horário nobre, mas que ao telefone com o presidente era a exata imagem do adulto na sala.

Desde ontem, nas entrevistas que deu para justificar o injustificável, só envergonhou a Presidência da República, como se dele fosse, como se institucionalidade não houvesse. Não entende ou não quer entender que o chefe de Estado e de Governo não se pertence. E por óbvio não pode assumir risco de contaminação e muito menos dar o exemplo do risco de contaminar.

A situação é muito grave. Para além do Estado e do Governo é urgente sacudir o chefe de ambos para lembrar que existe uma Nação. Imaginem o que será dos milhares de entregadores de aplicativos que estão sobrevivendo pelas cidades. Dormindo nas calçadas entre uma e outra corrida com as cabeças dentro das caixas, depois rolando entre restaurantes, supermercados e residências e circulando de mão em mão maquinas de cartão de crédito, são verdadeiros polinizadores do conoravírus. Mas sem isso, morrem de fome. Urge uma renda básica pelo menos para eles e as dezenas de milhões de desempregados, desalentados e subempregados brasileiros.

Só em São Paulo há estimados 25 mil desabrigados. Destes, sete mil são idosos. Grupo de risco, portanto. O que faremos? E quando esfriar? A Itália decidiu deixar morrer quem tem mais de oitenta anos. Qual sociedade sobrevive a uma decisão assim?

Precisamos urgentemente de união. Chefes do Legislativo e do Judiciário se reuniram hoje na sede deste último. Do Executivo, Luiz Enrique Mandetta, ministro da Saúde. O presidente da República não foi. Assim como não participou da videoconferência com sete presidentes de países vizinhos, alguns deles combinando fechamento de fronteiras enquanto o nosso chama a pandemia de histeria. Com o perdão do trocadilho, cadê o líder da União? Quem é esse líder da União que se conflagra pessoalmente com os governadores dos estados-membro?

Para encerrar: o fechamento de fronteiras é preocupação de muitos pelo risco de incentivar ultranacionalistas. Mas se é combinado, se é pelo bem comum, fronteiras fechadas antes nos unem do que nos separam. Quem sabe ao cabo dessa calamidade que enfrentaremos, e oxalá vamos enfrentar juntos, possamos continuar assim quando tudo passar.

 
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É ainda mais grave do que já parecia

Todo santo dia é a mesma coisa: acontece um absurdo no governo federal e a gente se pergunta como chegamos a tal estado de coisas.

Ontem não foi diferente. Com recomendação de resguardo do próprio governo dada a possibilidade de estar infectado pelo coronavírus, o presidente da República interagiu com manifestantes que pediam a volta da ditadura em frente ao palácio do Planalto.

Hoje piorou. Conseguiram piorar. Ainda não são sete horas da manhã e já piorou. É inacreditável.

O ministro Paulo Guedes, em entrevista à repórter Alexa Salomão Folha de S. Paulo, deixou claro que, na reunião da quarta-feira 11 de março entre membros do Executivo e do Legislativo, representantes do Banco Central mostraram que Brasil e EUA têm uma taxa de contagio da população pelo coronavírus mais rápida que a da China e até que a da Itália. E emendou: “foi alarmante”.

Mesmo admitindo não se lembrar de números de tamanha importância, registrou que “na Itália a previsão era de 60% de contagio e aqui, 80%”.

Perguntado sobre quais providências tomou, voltou a falar de reformas, privatização e da articulação política. Chamou a pandemia de sopro. E o importante é que, com milhões de brasileiros no corredor da morte, PaGue admite que não só não tomou providências efetivas como o próprio governo omitiu os dados de projeções da população. Faço minhas as palavras do ministro: é alarmante.

É estarrecedor. Tendo dados graves assim em mãos, depois de cinco dias, o governo, mais do que calado, segue relativizando o problema como fez o presidente ontem na CNN, e dando o péssimo exemplo de não se resguardar tendo uma dúzia de infectados em suas relações mais próximas.

Sinceramente eu não sei mais o que ou como fazer. Dentro do possível, todos devemos ficar em casa. E Jair Bolsonaro e Paulo Guedes devem ir para suas casas e nunca mais voltar. A cena para tamanha irresponsabilidade é clara: consequência ou morte.

 
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TALVEZ NO GRITO

Luís Fernando Veríssimo nos ensinou que só devemos gritar com quem está correndo risco de vida. Exemplo: “OLHA O TUBARÃO!”.

Aprendi a lição, tenho certo êxito no exercício desde então e hoje vou estende-la para “ou com quem está botando em risco a vida alheia”. Então como na linguagem das redes sociais caixa alta é grito, lá vai:

NÃO SAIAM DE CASA PARA NADA SUPÉRFLUO! É DESAGRADÁVEL, EU SEI, MAS TODA ESTA FREGUESIA MORA EM RESIDÊNCIAS CONFORTÁVEIS, COM WI-FI, TV A CABO, NETFLIX, QUIÇÁ BONS LIVROS. COMO UM AMIGO COMENTOU, COLOQUEM-SE NO LUGAR DE QUEM MORA NUM QUARTO E SALA COM DUAS CRIANÇAS, UM IDOSO E SEM AR-CONDICIONADO. PESARÁ MENOS.

AO QUE TUDO INDICA O NOVO CORONA VÍRUS CHEGOU AO BRASIL IMPORTADO DA ITÁLIA, NO ORGANISMO DE UM SENHOR QUE POR LÁ FOI APROVEITAR AS FÉRIAS. SE ESPALHOU NUM CASAMENTO GRANFINO NA BAHIA. E DEPOIS A BORDO DO AVIÃO PRESIDENCIAL ENTRE OS MEMBROS DA COMITIVA, GANHANDO BRASÍLIA. FOI A FASE DE TRANSMISSÃO INDIVIDUAL, QUANDO AINDA É POSSÍVEL ACOMPANHAR A CADEIA DE CONTAMINAÇÃO.

AGORA, PELO MENOS EM SÃO PAULO E NO RIO, JÁ ESTAMOS NA FASE DA TRANSMISSÃO CHAMADA COMUNITÁRIA, QUE É QUANDO SE PERDE O CONTROLE DOS CAMINHOS DA EPIDEMIA, ISTO É, ESTAMOS A UM PASSO DA PANDEMIA.

PARA AGRAVAR O QUADRO AMANHÃ É DIA ÚTIL, E APESAR DE DIVERSAS ENTIDADES E EMPRESAS PRUDENTEMENTE TEREM CANCELADO ATIVIDADES, HAVERÁ MAIOR CONTATO ENTRE AS PESSOAS, NOTADAMENTE OS MAIS ESTRATOS MENOS FAVORECIDOS, OBRIGADOS AO TRANSPORTE COLETIVO, DEPENDENTES DO SISTEMA PÚBLICO DE SAÚDE (que bem ou mal pelo menos existe), E QUE TÊM EMPREGOS OU FAZEM TRABALHOS QUE NÃO PODEM SER REALIZADOS DE FORMA REMOTA. GENTE QUE TRABALHA E MORA COM MUITO MAIS CONTATO PESSOAL. NÃO SE ENGANEM: VAI ESCALAR.

HAVERÁ DOR, SOFRIMENTO, MORTE. HAVERÁ QUEBRADEIRA TAMBÉM, ESPECIALMENTE DE PESSOAS FÍSICAS QUE TRABALHAM POR CONTA PRÓPRIA E NOS SETORES QUE JÁ FUNCIONAM COXOS DEPOIS DE CINCO ANOS DE RECESSÃO (2) E CRESCIMENTO PÍFIO (3). COM EFEITO, TEREMOS MAIS DESEMPREGO E, AO CONTRÁRIO DE QUANDO A FARIA LIMA VAI BEM MAS OS RESULTADOS NÃO CHEGAM AO DIA-A-DIA DAS PESSOAS COMUNS, O INVERSO NÃO É VERDADEIRO: QUANDO A ECONOMIA COLAPSA NO ANDAR DE BAIXO, O BARULHO, COMO SEMPRE, SOBE LOGO PARA O ANDAR DE CIMA, QUE JÁ PASSOU UMA SEMANA TERRÍVEL E TERÁ MAIS ALGUMAS. SENÃO MESES.

O QUE AS NAÇÕES MAIS AFETADAS ENSINAM É QUE A REAÇÃO VEM PELA MÁXIMA CLÁSSICA DA MEDICINA: ANTES PREVINIR DO QUE REMEDIAR.

O MINISTÉRIO DA SAÚDE MERECE PARABÉNS PELO ESFORÇO QUE VEM FAZENDO. TRABALHA COM INFORMAÇÃO SÉRIA, NEGOCIA COMPRA DE INSUMOS COM A CHINA QUE É A MAIOR PRODUTORA, TROCA EXPERIÊNCIAS COM OUTROS GOVERNOS.

JÁ O PRESIDENTE DA REPÚBLICA REMA EM SENTIDO OPOSTO. ANTE A POSSIBILIDADE QUE AINDA RESTA DE ESTAR INFECTADO, E A EVIDENTE DE PODER INFECTAR OU VIR A SER INFECTADO, COMPARECEU ÀS MANIFESTAÇÕES GOLPSTAS QUE CONVOCOU, DEPOIS DESCONVOCOU, E HOJE PELA MANHÃ INSUFLOU NAS REDES SOCIAIS. CUMPRIMENTOU APOIADORES, FEZ SELFIES, SAUDOU MANIFESTANTES QUE PEDIAM DITADURA.

O MINISTRO DA ECONOMIA, INVÉS DE TRABALHAR, FALA EM REFORMAS CONTRA O CORONAVÍRUS E SE METE ONDE NÃO É CHAMADO, COMO SEMPRE CHUTANDO SEM OLHAR PRA ONDE, DIZENDO QUE “COM 3, 4 OU 5 BILHÕES A GENTE ANIQUILA O CORONAVÍRUS”. É O CEBOLINHA DE SEMPRE, COM SEUS PLANOS INFALÍVEIS.

PARA NOSSA SORTE TEMOS ECONOMISTAS SÉRIOS QUE TRAVAM BOM DEBATE, TODOS DEFENDENDO RECURSOS EXTRA PARA MINIMIZAR O IMPACTO. LEIAM MÔNICA DE BOLLE, FELIPE SALTO, LAURA CARVALHO, ANDRÉ LARA RESENDE. SEJA COM REVISÃO DA PEC DO TETO OU ACIONAMENTO DE DISPOSITIVOS DESTA QUE PERMITEM INVESTIMENTO EXTRAORDIÁRIO, TODOS CONCORDAM NO DIAGNÓSTICO: PRECISAMOS BOTAR DINHEIRO PARA DIMINUIR O SOFRIMENTO DA POPULAÇÃO.

CIENTISTAS, TÃO ATACADOS PELA ONDA NEGACIONISTA QUE CONTESTA VACINAS, PESQUISAS E ATÉ SE A TERRA É REDONDA, ATACA A UNIVERSIDADE COM IMPROPÉRIOS E CORTE DE VERBAS, MERECEM MUITOS APLAUSOS. DESTAQUE PARA JAQUELINE GOES DE JESUS, ESTER SABINO, INGRA MORALES CLARO E EQUIPES DOS INSTITUTOS DE MEDICINA TROPICAL DA USP E ADOLFO LUTZ, QUE SEQUENCIARAM O GENOMA DO CORONAVÍRUS 48 HORAS DEPOIS DA CONFIRMAÇÃO DO PRIMEIRO CASO. RECORDE MUNDIAL.

NINGUÉM PRECISA ESTOCAR NADA. NO SUPERMERCADO, UM DIA NÃO TINHA FEIJÃO. DOIS DIAS DEPOIS, LÁ ESTAVA ELE. O ABASTECIMENTO ESTÁ FUNCIONANDO.

INDIVIDUALMENTE NÃO PODEMOS FAZER MUITA COISA ALÉM DE HIGINENE, RESTRINGIR AO MÁXIMO QUALQUER CONTATO SOCIAL E SE DISPOR A AJUDAR QUEM ESTIVER PRECISANDO. O SIGNIFICADO DISSO, COMENTOU UMA AMIGA QUERIDA QUE PROCURA O LADO BOM EM TODAS AS COISAS, É AMOR AO PRÓXIMO, RESPEITO AO COLETIVO, NOÇÃO DE URBANIDADE.

TEMOS UM PERÍODO GRAVÍSSIMO E INFELIZMENTE INEXORÁVEL PELA FRENTE. FAZER A NOSSA PARTE, PENSANDO NO TODO, É O MÍNIMO.

 
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Irresponsável, inconsequente

A irresponsabilidade do presidente da República parece ser um poço sem fundo. Mesmo com declarações das mais absurdas que permeiam sua vexatória biografia, Jair Bolsonaro ainda consegue nos surpreender dia sim, outro também.

Bolsas derretendo no mundo inteiro e especialmente no Brasil e onde está o mandatário? Colorindo uma tela em Miami. Ainda lá, ao falar com a imprensa e inclusive com veículos estrangeiros, sem mais nem por que questiona o resultado das eleições que venceu e afirma que tem provas que apresentará em breve.

Se você é um investidor estrangeiro e tem algum dinheiro no Brasil, toma conhecimento de uma declaração delirante dessas e não é louco a ponto de rasgar dinheiro, sua primeira providência será raspar o tacho por aqui e procurar um lugar com gente minimamente equilibrada no comando. É o que vem acontecendo, são dezenas de bilhões de dólares indo embora há meses. Vale para qualquer situação, já acontecia com a Bolsa batendo mais de cem mil pontos, e imagina com mercado em queda vertiginosa e dólar quebrando recordes históricos de alta.

Sobre a pandemia do coronavírus a irresponsabilidade segue uma toada que vai do institucional ao pessoal. No começo da semana Bolsonaro dizia que que o coronavírus não passa de uma “pequena crise”, uma “fantasia” plopalada (sic) pela imprensa.

Naquele mesmo momento a OMS decretava pandemia, parques, igrejas, torneios esportivos, entretenimento, universidades, a Itália inteira anunciavam suspensão de atividades. Fantasia…

Já em solo brasileiro, descobrimos que o secretário de imprensa Fabio Wajngarten testou positivo. Esteve ao lado de Bolsonaro durante toda a passagem pela Florida, jantou e tirou foto ao lado de Donald Trump, Mike Pence e voltou a bordo do avião presidencial.

A confirmação de um caso no seio da comitiva fez com que seus integrantes passassem a ser monitorados. A prudência mandaria recolhimento até o diagnóstico, mas a irresponsabilidade é como que uma tara para o presidente, que manteve agenda de reuniões presenciais com os ministros Paulo Guedes, Jorge Oliveira, Luiz Eduardo Ramos e o líder do governo no Senado Fernando Bezerra, que do palácio foram se reunir no Congresso com demais líderes para debater o plano de ação para conter a pandemia. Fico me perguntando como pode, considerando os postos que ocupam e faixa etária.

O presidente ainda fez a “live” de quinta-feira ao lado do ministro da Saúde e da interprete de LIBRAS, todos usando máscaras. E pior: em seu encontro matinal com apoiadores que se juntam num curral na porta do palácio, cumprimentou várias pessoas e chegou a pegar no colo uma criança.

A inconsequência bolsonariana é geral e irrestrita. Desrespeita a Presidência, o governo, o país e todos os brasileiros, seja no plano da Nação ou no particular, como ficou provado ao pegar no colo a criança.

Não tenho qualquer boa expectativa em relação a Bolsonaro. Mas também não consigo deixar de me espantar com a existência de alguém como ele, especialmente sentado na cadeira da Presidência da República.

 
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Já é autoritarismo

Cerne da crise entre Executivo e Legislativo e bandeira principal das manifestações “espontâneas” convocadas por Bolsonaro, o debate sobre o Orçamento impositivo evoluíra para uma saída intermediária, negociada entre o ministro da Secretaria de Governo e os líderes dos partidos no Congresso:  Congressistas manteriam os vetos do presidente da República e o governo enviaria projetos de lei para regulamentação do Orçamento impositivo.

Porém, sem mais, Bolsonaro resolveu chantagear o Congresso dizendo que os atos por ele convocados poderiam arrefecer caso os presidentes do Legislativo declarassem publicamente que são a favor de concentrar o poder sobre o Orçamento no Executivo.

Acordo desfeito, trabalho da Secretaria de Governo desperdiçado, e possibilidade de votação conjunta no Congresso para aprovação dos textos preparados pelos parlamentares ainda nesta terça-feira.

A verba em debate gira em torno de R$ 30 bilhões para distribuir ao longo de um ano. Parece muito. Ou parece pouco. Entre ontem e hoje o Banco Central ralou US$ 5 bilhões em reservas para conter a alta da moeda americana. Com o câmbio perto de cinco reais, é dinheiro equivalente a quase R$ 25 bilhões. Em dois dias. Haja poder concentrado em uma autarquia.

Jair Bolsonaro, que já foi defensor do Orçamento impositivo quando deputado, hoje é presidente da República e se sente autorizado a governar como bem entende sem reconhecer os demais poderes e as instituições. Sem respeitar decoro ou liturgia. Há quem veja nisto um flerte com o autoritarismo. Mas não é flerte. Chamar manifestações contra o Legislativo e o Judiciário, botar em xeque o resultado das eleições, atacar a imprensa dia sim outro também, já é autoritarismo.

Enquanto isso, temerariamente as autoridades atacadas tentam contemporizar para não criar alavanca para os tarados seguidores de Jair Messias que acreditam em qualquer patacoada. Pode parecer prudência, mas para mim é o inverso. Não podemos nos acostumar ao atual estado de coisas. É para isso que existe uma Constituição e Três Poderes.

Insisto: agora é consequência ou morte. E elas todas estão previstas no livrinho. Cumpra-se.

 
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