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O Messias trocou água por água

O Google me disse que Weintraub, em alemão, significa uva de vinho. E no Gênesis a Bíblia diz que Abraão recebeu de Deus a dica para viajar à terra prometida de Canaã. Foi por ali que, muito mais tarde, Jesus Cristo, a pedido da mãe, teria realizado seu primeiro milagre, transformando água em vinho e contribuído para que as bodas de Caná continuassem animadas.

Hoje o presidente Jair Bolsonaro substituiu o ministro da Educação. Abraham Weintraub, leitor dedicado do Velho e do Novo Testamento, entra no lugar de Ricardo Velez Rodriguez. Mas ao contrário do primeiro parágrafo, nada indica que o Messias tenha transformado água em vinho.

Vale aqui um parêntese temporal. Eliane Cantanhede tinha razão. Se lá no primeiro parágrafo demoraram mais de 1500 anos entre a dica de Deus e a chegada do Filho com seu primeiro milagre, poucos dias foram necessários para confirmar a notícia da demissão.

Velez Rodriguez foi uma das indicações de OakLavo para o ministério de Bolsonaro. Porém, com o mapa astral contraposto à realidade da gestão da pasta, o astrólogo da Virgínia passou a rogar praga no afilhado. E sabe-se que praga de padrinho pega.

Ocorre que Abraham Weintraub é tão ou mais olavista do que Velez Rodriguez. Água da mesma bica. No ano passado, durante a Cópula Conservadora da Américas, versão direitista do Foro de São Paulo, Abraham apresentou sua bússola aos conservadores: “Quando um comunista chegar para você com papo “nhonhoin”, xinga. Faz como o Olavo de Carvalho diz para fazer. E quando você for dialogar, não pode ter premissas racionais.”

Será interessante ver lição aplicada na audiência que o novo ministro terá em breve na comissão de Educação da Câmara, aquela que alçou seu breve antecessor ao estrelato.

Abraham trabalhou o primeiro escalão do Banco Votorantim entre junho de 1994 e maio de 2012. Foi CEO e economista chefe por mais de dez anos. Em 2009, por problemas na seção de financiamento de automóveis, o banco balançou. Quem salvou a operação foi o ex-presidente Lula, mandando o Banco do Brasil comprar 49,9% por R$ 4,2 bilhões. Coisa de pai generoso isso de encher o caixa mantendo o controle com o filho pródigo.

Feito Cosme e Damião, ou Bertrand e Luiz, Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub anda grudado com o irmão Arthur. No governo de transição ambos foram responsáveis pela área de Previdência.

O curioso no dado acima é a influência da dupla em um tema que era tratado como técnico pelo governo Bolsonaro, mas talvez explique o aroma ideológico cada vez mais forte nas falas do ministro Paulo Guedes.

PaGue, por sinal, ao conhecer OakLavo na missão bolsonarista aos Estados Unidos, tratou de puxar a orelha do astrólogo. Para ele não fazia sentido ter indicado Velez e estar trabalhando contra em tão pouco tempo, emendando algo como “ajusta aí seu GPS astral, véio”.

Bolsonaro, porém, dobrou a aposta, confiando mais uma vez na indicação olavista, quiçá agora em comunhão com PaGue, além de Onyx Lorenzoni, primeiro elo dos irmãos Weintraub com o governo. Se patinar como o antecessor, pode contaminar outras áreas que ainda emprestam alguma sustentação ao governo.

E o efeito político não termina aí. A ala militar do governo foi contrariada. Os generais apanham diariamente de OakLavo e não são defendidos pela BolsoFamília. O ministro da Secretaria de Governo, general Santos Cruz, e o vice-presidente, general Mourão, são os alvos mais frequentes.

Mourão, por sinal, disse em Harvard que receia um eventual fracasso do governo para além do problema em si. Segundo ele, apesar das Forças Armadas não estarem no governo, é claro que há uma identificação e assim, se Bolsonaro errar demais, a fatura do prejuízo popular será entregue nas casernas.

 
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Rememorar 1964 requer força e prudência

No começo dos anos 1960, seduzido por uma campanha repleta de factoides do populismo mais baixo, o Brasil elegeu um maluco para a Presidência.

Ele não passava leite condensado no pão nem despachava calçando chinelos, mas em comício sacava sanduíches do bolso do paletó, em cujos ombros usava caspa artificial. E falava em varrer adversários, a corrupção, a bandalheira.

Empossado, não soube lidar com os demais poderes. Esperava governar com apoio popular. Como não havia twitter, renunciou falando em forças ocultas a fim de chocar o povo e em seus braços retornar absoluto. Deu ruim.

O vice era eleito por votação independente e não tinha afinidade com o presidente. Mas também não tinha tanto apoio popular. A solução que o Congresso tirou da cartola foi o Parlamentarismo.

Em convergência rara, cada partido recomendou o que havia de melhor em seus quadros. De UDN a PTB, em pacto selado através da política governavam Tancredo Neves, Walther Moreira Salles, San Tiago Dantas, Ulysses Guimarães, Armando Figueiredo, Gabriel Passos, Virgílio Távora, Franco Montoro. Reformas históricas passaram em tempo recorde, como só uma convergência ampla assim permite. (Em português da Virgínia, todo mundo com o cu na reta.)

O problema é que durou menos de um ano. Inflamado pelo cunhado carbonário, o presidente João Goulart – a despeito do avanço de agendas tão suas, tão óbvias, como décimo terceiro salário, direitos trabalhistas no campo, lei contra abuso de poder econômico etc – passou a trabalhar pela volta do presidencialismo e conseguiu. O poder concentrado tornou-se seu veneno, foi alçado à ameaça nacional e chamou o golpe de 1964, que deu numa ditadura militar de 21 anos, cuja ressaca ainda sentimos.

A turma que volta de Brasília nesta sexta-feira só fala em um assunto: Parlamentarismo. Porque ninguém aguenta mais o presidente maluco, bêbado de sono, que só faz jogar para suas galeras no twitter, atacando a política, apoiando quem ataca militares do primeiro escalão, incapaz de organizar uma base no Congresso.

Por “ninguém” leia-se autoridades civis e militares, parlamentares, governadores, mercado e o próprio eleitorado, que se mostra insatisfeito e frustrado, como as seguidas quedas de popularidade confirmam.

Por mais que repitam mentiras sobre o golpe de 1964 – e que tenhamos chegado ao absurdo de ver um ministro da Educação, sendo nascido na Colômbia, ter a audácia de propor mudar a história do Brasil contada em livros escolares –, os parlamentares  conhecem bem a história e sabem como acaba.

O dever de casa para este final de semana é obediente à ordem presidencial do final de semana passado, isto é rememorar 1964 e calcular qual será a saída: ficar até 2022 num Parlamentarismo oficioso ao modelo Dilma-Cunha, sob risco do maluco meter um novo 1961; forçar nova troca de comando, que em 2017 deu em Parlamentarismo viciado sob Temer-Maia; ou arriscar um Parlamentarismo combinado com Mourão, velado ou oficial como o de 1961-62, lembrando que historicamente o gaúcho não reconhece os limites da cadeira e que, dessa vez, o presidente teria o mesmo sobrenome e a patente daquele que deflagrou o golpe de 1964.

Força aí, excelências. Força e prudência.

 
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Direita e esquerda ou transformar a ferradura em aliança

“Tá legal, eu aceito o argumento. Mas não atrase o samba tanto assim…”
Esquerda e direita é um conceito político de duzentos e tantos anos, que surge numa divisão física e pontual entre dois grupos numa sala. Mas incrivelmente permanece válido e muito além de seu momento. Inegavelmente é um clássico.
Agora, sendo clássico, tem que valer a qualquer tempo. Há dois mil e tantos anos, como seria? Sócrates, por exemplo, era de esquerda? Platão, seu discípulo, de direita? Aristóteles no centro, tranquilamente.
Mais recentemente, Jesus, o Nazareno? Esquerda, claro. Sua biografia é igual a do Sócrates. São Paulo é direita, óbvio. Daí Lutero era esquerdista? E o Calvino?
Voltando às aulas no começo do ano imaginei pedir autorização ao Mackenzie 1870 para instalar na escadaria que fica no umbigo do campus de Higienópolis uma escada Santos Dummont filosófica. Colar adesivos com pensadores de esquerda e de direita nos degraus correspondentes.
Enrosquei já no Agostinho. Não consigo saber onde ele está. Tomas de Aquino, suspeito, está no centro. Maquiavel mereceria dois degraus, com o jovem à direita e o velho à esquerda (contrariando Churchill, que fez o caminho inverso). Com os contratualistas é moleza. Hobbes na direita, Rousseau na esquerda, Locke no centro. Kant direita, Hegel esquerda? E o Marx? A turma acha que comunismo é de esquerda, mas é de centro.
Deixei pra lá ao ouvir a conversa de dois colegas na Maria Antonia. Um deles se encantou com a política em 2013 e debutou no ativismo aderindo ao Movimento Passe Livre. Foi black bloc, filiou-se ao PSOL, mas se desencantou com o partido quando virou aluno do Olavo de Carvalho. Hoje está no PSL e seguiu carreira militar depois do serviço obrigatório. Em duas horas de conversa com um amigo, gastou uma atacando homossexuais. A um colega que descobriu seu passado psolista se justificou dizendo que Daciolo também foi filiado, falando do Cabo como referência de integridade moral. Como não sentir compaixão por uma pessoa que enfrenta uma barra assim durante a juventude?
Sobre torta e direita o que prevaleceu até outro dia foi a definição do Bobbio: “A direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A esquerda encara como uma aberração a ser erradicada.” Suspeito que seja por isso que, entre um e outro, a turma de esquerda gosta de se reunir no Arpoador para ver o poente, enquanto a turma da direita tem que ficar dentro da classe, olhando para a lousa, bem ali em frente, no colégio São Paulo.
No Brasil a melhor análise é do Antonio Prata. Por exemplo: catchup é de direita e mostarda de esquerda. É brilhante principalmente por causa das cores, para confundir bocó.
Particularmente e sem qualquer modéstia eu adoro a minha: esquerda é caviar e direita é bandejão. Por falar em bandejão, militar marcha assim: esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita. E o general Santos Cruz disse ao Roberto D’Ávila na Globo News que não pode existir na mesma sociedade uma pessoa ganhando mil e outra cinquenta mil. Vai encarar?
Na França, onde a turma costuma pensar, tem um movimento de jovens de direita que defende a família, o regionalismo e o meio-ambiente, atacam a União Européia e os capitais voláteis e são fãs do… Bernie Sanders. Ah, também são católicos – e francês contemporâneo religioso é algo tão revolucionário que pode ser de esquerda. (Ler Mark Lilla numa Piauí recente.)
Maravilha mesmo é a Geringonça portuguesa. Terrinha dando um baile.
Enfim, eu queria dizer dos rótulos que lamento muito cada um deles. Igual a tudo na vida tem um lado bom, mas no fim das contas servem para confortar os idiotas, o tal individuo contemporâneo, centrado em si e especialista em um troço qualquer, condenado a viver cercado, protegido e confortável no berço da idiotice.
Porém, igual ao príncipe Paulinho da Viola, o De Tocqueville do samba, aceito o argumento. Mas, por favor, não atrase o samba tanto assim. Vamos lá: Nazismo é o horror, ditadura nunca mais e a Tábata Amaral é uma deputada preparada e bem-intencionada. Teve formação bancada pelo Jorge Paulo Lemann mas aposto que, quando tiver que falar sobre subsidio para envasar em garrafa pet água com açúcar na Zona Franca de Manaus, votará contra os interesses do padrinho.
Ainda: tem um deputado federal chamado Paulo Guedes que é do PT de Minas. No mínimo é divertido. Só não ganha de ouvir o ministro PaGue ontem da Câmara elogiando o Bolsa Família, como não poderia ser diferente para quem vira e mexe fala em renda básica. Sabe aquela das pontas da ferradura? Pois então, a renda básica é uma das raras agendas universais capazes de transformar a ferradura em aliança.
 
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Minha esperança morreu em Israel – Bolsonaro quer guerra

Infelizmente – e bota infelizmente aí –, perdemos os motivos que havia para considerar paranoia o receio de que o plano Bolsonaro é arranjar motivo para endurecer. Escrevi a respeito em dezembro, tomando o cuidado de torcer e até rezar para estar errado. Mas minha esperança morreu em Israel.

Para além da esperança morta, urge acusar de conivência quem relativizar o movimento do senador Flávio Bolsonaro que, estando em Israel, escreveu numa rede social uma provocação ao grupo terrorista Hamas. Caprichando no verbo, ZeroUm gritou em caixa alta: “Quero que vocês se EXPLODAM!!!”

Vindo do Bolsonaro menos desequilibrado entre os que têm mandato eletivo, a mensagem é um atestado da intenção de endurecimento da súcia miliciana que governa o Brasil, cujos sinais se revelam também em outras frentes.

Por exemplo na divulgação do vídeo que celebra a ditadura militar. Ninguém pode ser ingênuo a ponto de imaginar que a provocação revisionista causa em todas as pessoas o mesmo efeito.

Se a maioria dos indignados respondeu com mensagens de paz nas redes sociais ou numa linda caminhada silenciosa no crepúsculo de um domingo, como no Ibirapuera em São Paulo, também tivemos mensagens de ódio, revolta, sugestão de violência.

O candidato Bolsonaro foi esfaqueado por um psicopata em Juiz de Fora. A Polícia Federal investigou o caso a fundo duas vezes e concluiu que Adélio agiu sozinho. Não há razão para duvidar. Mas com tanto ódio no ar, quem afirmaria que outros psicopatas individualmente não intencionam atentado parecido contra a vida do presidente?

Ódio este que está por todo lado. Cartucho, o filho ZeroDois, em rara entrevista à jornalista Leda Nagle, confessou, chorando, que sente raiva dos que sugerem que o atentado a seu pai foi uma farsa, como que justificando seu comportamento carbonário nas redes sociais. Ninguém é isento de sentir raiva, sobretudo em situação parecida, mas de uma pessoa pública se espera autocontrole.

De um vereador esperamos que seja minimamente capaz de processar sua raiva e reconhece-la no outro, especialmente o cidadão ordinário que não tem a mesma responsabilidade. Cartucho não se pergunta como se sentem os descendentes das pessoas mortas, torturadas e especialmente dos tantos desaparecidos vítimas da ditadura militar? Não se preocupa que entre tantos eles exista um raivoso a ponto de trocar a própria vida pela de algum Bolsonaro? Ou mesmo pela de um ou mais cidadãos do Estado cujo chefe é seu pai?

Os terroristas do Hamas já foram especializados em atentados usando homem-bomba. Botaram a prática de parte não por princípio ou falta de voluntários, mas pelas dificuldades que a sofisticação tecnológica de Israel criou. Obviamente eles têm gente disposta a se explodir pela causa onde não se encontre a mesma dificuldade.

A BolsoFamília ainda faz provocações ao sicário Nicolas Maduro, notadamente na voz do ZeroTrês, o filho ChanCelerado, descaradamente disposto a cumprir a guerra de Trump na Venezuela.

Através de seus correligionários milicianos os Bolsonaro também duelam com narcotraficantes por territórios no Rio de Janeiro há bastante tempo. Como sabemos, a diferença entre milícias e organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho é que os primeiros contam com o apoio do Estado por meio de policiais e políticos criminosos.

O presidente Jair Bolsonaro não é inteligente, mas de bobo não tem nada. Sabe que,no todo de seu eleitorado há pouco músculo. Teto de 15% da população no meu palpite. Não é pouca coisa, mas é insuficiente para manter um governo sem agenda e em crise econômica.

Com a popularidade em queda, sem apoio parlamentar e sofrendo censuras diárias dentro do próprio governo, a alternativa que lhe resta para a manutenção do poder é endurecer o regime num plano de exceção. Para tanto precisa encontrar um motivo popular o bastante para que, apavorada, a sociedade peça por um capitão bravo no comando do país. E este motivo a BolsoFamília não para de procurar.

Em Israel, no momento em que ZeroUm provocava o Hamas, Bolsonaro testava uma submetralhadora. Na entrevista que se seguiu, o porta-voz general Rego Barros alertava: “Não fiquem na frente do presidente. Ele acertou todos os tiros.”

 
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1964: Quem cala, consente

Comentar o vídeo exaltação distribuído pelo Planalto sobre o golpe de 1964, mostrando o que ele tem de mentiroso e abjeto, muita gente já fez bem feito. Espero que as providências legais sejam tomadas pelos demais poderes e/ou pelas instituições que restam em pé.

Dentro do absurdo, dois detalhes chamaram minha atenção. Primeiro a menção ao “povo de verdade” que teria pedido o golpe, descrito como “pais, mães, igreja”. Quem não se enquadra em um dos três deve ser “povo de mentira” e temer ser “varrido”, conforme a proposta do candidato Bolsonaro? Depois a ênfase dada ao Exército, em detrimento da Marinha e da Aeronáutica, coincidentemente as duas armas menos alinhadas com o governo do ex-capitão e seus generais. Teriam sido esquecidas a pedido?

Pouco se explica sobre o clima nacional em 1964. Na tentativa de justificar o golpe, usam as recorrentes “ameaça comunista” e “ditadura deles”, tempero vulgar das receitas totalitárias, somado ao exagero da ameaça terrorista – esta inflacionada por atos do próprio regime, seja na instituição ou na manutenção, como aconteceu na explosão do Rio Centro.

É verdade que o mundo vivia sob a Guerra Fria e havia grupos guerrilheiros tocando o terror nas cidades brasileiras. Mas em um número já engordado não passavam de mil pessoas (Elio Gaspari), absolutamente incapazes de tomar o Brasil como fizeram com a ilha cubana ou criar naquele ermo tropical um Exército Vermelho de camponeses e operários ao modelo chinês. A narrativa de “guerra” do general Mourão não cola. Com inteligência seriam facilmente neutralizados. Porém, o Estado preferiu inchar a ameaça e usa-la como desculpa para prender, arrebentar, torturar, matar e roubar, impedindo as chamadas Reformas de Base de João Goulart.

Lamento frustrar quem imagina que Jango instalaria o socialismo no Brasil. O que ele propunha naquele então foi tratado como consenso desde a Constituinte até a ascensão, anteontem, dos celerados que hoje governam o Brasil.

Quem acha que discorda por favor tente encontrar alguém sensato que, na Educação, seja contrário à erradicação do analfabetismo, valorização dos professores e matriz curricular orientada pelo Método Paulo Freire. Ou que não reconheça a necessidade de uma reforma Fiscal mais justa para quem ganha menos. Ou que se oponha à reforma agrária pela distribuição de terras cultiváveis esquecidas, de propriedade da União, e direitos trabalhista iguais no campo e na cidade. Ou que seja contra habitação digna para todos. Ou ainda que ache natural a maquiagem da contabilidade de empresas multinacionais para permitir a remessa de lucros obtidos no Brasil sem tributação.

A Constituição de 1988 mostrou que Jango estava certo no conteúdo, mas errou na forma deixando prevalecer o discurso carbonário de seu cunhado Leonel Brizola sobre o tom moderado do ministro da Fazenda San Tiago Dantas, que defendia um avanço gradual. Foi a senha para que o establishment, combinado com os EUA, orquestrasse o golpe e apoiasse a ditadura militar que ficou 21 anos.

Como aparentemente a gente não aprende, de novo surgem grupos apoiando o mesmo processo. É importante lembrar que muitos dos apoiadores do golpe de 1964 em pouco tempo se viram perseguidos pela ditadura. E que, se arrependimento não mata, sempre resta um cabo e um soldado para fazer o serviço.

Não tenho a menor esperança em mudar o olhar de quem defende ditadura. Mas faço questão de cobrar os que calam por conveniência, como Sergio Moro, que quando juiz dizia que a ditadura foi um grande erro, e agora ministro se recusa a afirmar que os termos “golpe” e “ditadura” são historicamente precisos. Ditadura é o novo caixa dois.

Ou Paulo Guedes, que quando Chicago boy serviu à ditadura de Pinochet, e agora Chicago elder se cala ante as celebrações do chefe. O silêncio fala alto. Também vale para cada membro dos supostos liberais que integram sua equipe. Joaquim Levy, Roberto Campos Neto, Marcos Cintra, Paulo Uebel, Caio Megale, Salim Matar… calados os senhores são coniventes.

 
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A marcha fúnebre do governador

João Doria acelera sua marcha fúnebre. E não falo aqui da reforma do Palácio dos Bandeirantes, sombria sob qualquer ponto de vista, mas dos programas culturais para crianças e jovens.

A previsão de contingenciamento de 23% do orçamento proposto para a secretaria de Cultura e Economia Criativa no estado de São Paulo ameaça fechar 170 das 340 unidades do Projeto Guri, no interior e no litoral, e 20 mil vagas nas Fábricas de Cultura, instaladas na periferia da Capital. Também já comprometeu a programação da temporada 2019 do Theatro São Pedro.

Os 23% equivalem a aproximadamente R$ 150 milhões de reais, troco para um orçamento total de R$ 230 bilhões do governo do estado. A título de comparação, no primeiro semestre do ano passado, entre João Doria e Bruno Covas, a prefeitura gastou R$ 73,8 milhões em propaganda.

Mas governar é estabelecer prioridades e João Doria acelera à ré. Segue com o desmonte na Cultura, enterrando sonhos de milhares de jovens, justamente num dos raros setores capazes de criar perspectivas mais atraentes do que a contravenção juvenil, infelizmente sempre sedutora e tão onerosa para a sociedade.

Aos empresários, Doria oferece outro tratamento. Talvez inspirado em Dilma Rousseff, cedeu à simples ameaça da GM em baixar as portas com um pacote de bondades sob medida, disfarçado de política setorial. Foram 25% de desconto em ICMS em troca de investimentos que, sabemos bem, sempre vêm capengas. Velho modelo brasileiro onde o lucro é de alguns e o prejuízo, de todos.

Sua contribuição para a música será lembrada pelos pulinhos constrangedores que repete a cada carnaval que passa.

 
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Cinco Estrelas Brasileiras nos “sem dias” de Bolsonaro

A troca de pele do significado da “nova política” é evidente. A cobra está fumando e vai descascando acelerada. Sérgio Rodrigues, jornalista e autor de Viva a Língua Brasileira, traçou na Folha um panorama histórico do embuste: palavra-fetiche, “novo” serve para engabelar a humanidade há séculos.

Na cena política brasileira, a “nova política” se confirma com a figura de um parlamentar youtuber lacrador de redes, criança mimada incapaz de ceder em seus caprichos que não mede as consequências de acusar das piores coisas quem pensa diferente dela.

Quando o bobo, feio, chato cansam, vilão, “do mal” e capeta não servem mais, o clássico “ladrão, corno ou viado” é reeditado para fascista, assassino, pedófilo.

Para nossa sorte, o poder civilizador da presença feminina surte efeito. Quando Luluzinha entra no clube do Bolinha, a rapaziada trata de recolher as meias e cuecas pelo chão, evita a flatulência, modera nos palavrões.

No calendário, a marca dos cem dias do governo Bolsonaro é dez de abril. Mas o trocadilho dos “sem dias” já está valendo e foi celebrado ontem. Aliás, com a fundação do Movimento Cinco Estrelas Brasileiras, que deu de dez a zero no italiano. Ei-las:

Tabata Amaral deu uma surra doce no ministro Vélez Rodriguez. Simples e direta, a jovem cientista política se valeu de um manual básico de gerência para questionar o plano Bolsonaro para Educação no Brasil. Ficou sem resposta, porque esta não há. Mas serviu para mostrar ao país a acefalia no MEC.

Aliás, o ministro colombiano, que já chamou brasileiros de canibais, citou seu conterrâneo Pablo Escobar para defender a eficiência da hierarquia militar no ensino. Emblemático. Ordem militar associada a crime organizado é a tradução perfeita de milícia.

Sâmia Bomfim perguntou ao ChanCelerado qual motivo o Brasil teria para recusar apoio a uma orientação da ONU sobre saúde da mulher. O infeliz se enrolou, apelou para assombrações ideológicas e mostrou ignorar o texto.

Aliás, Ernesto Araújo negou a ditadura militar no Brasil, ao qual ser pai serviu como PGR do ditador Ernesto Geisel (tem homenagem aí?) e associou o nazismo a um movimento de esquerda, repercutindo mal na Alemanha.

Katia Abreu bateu boca com Paulo Guedes. Defendendo sua agenda histórica de mulher do campo, demonstrou a importância do Agro para o país, explicando que da porteira para dentro o setor funciona, e se precisa de subvenção é pela ineficiência governamental e de infraestrutura da porteira para fora. Foi bonito ver que, contra as sandices de Beato Salu, Viúva Porcina superou Sinhozinho Malta.

Aliás, a bancada ruralista na Câmara Federal articula a votação do repasse de R$ 39 bilhões aos estados, como forma de compensar governos regionais pela desoneração do ICMS causado pela Lei Kandir.

Mackenzistas, em maioria meninas universitárias, se juntaram para protestar contra a visita de Bolsonaro ao campus da Consolação. Reação natural a quem fala o que fala sobre mulheres, professores e universidades. O presidente deu uma fraquejada e fugiu para o quartel da Tutóia.

Aliás, a visita, que seria prestigiosa considerando se tratar de um chefe de Estado, soa populista. Primeiro porque as pesquisas sobre grafeno vão bem, obrigado, e só precisam do governo que não atrapalhe. Está bastante avançada, tem recursos e o Brasil é riquíssimo em grafite. Depois porque, dizendo-se “estudioso” do assunto há dez anos, o deputado Bolsonaro jamais destinou um centavo em emendas para pesquisas.

Hildegard Angel conta que vem recebendo pedidos de desculpas de amigos que, contra o PT, votaram Bolsonaro convictos de que ele não falava a sério ao defender a ditadura e torturadores. Foi bom saber.

Mas é incrível imaginar que alguém, tendo relação de amizade com uma mulher cuja mãe e irmão foram assassinados pela ditadura militar, tenham em algum momento arranjado meios de relativizar as declarações nefastas de Jair Bolsonaro.

 
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Notas soltas

PaGue não é da Escola de Chicago, mas da Brexit School: ameaça mas não sai.

Para ser ruralista, um membro da bancada do boi não tem que laçar boi no pasto. O mesmo vale para miliciano. Ele não pega o $ do gatonet. Seu papel é propor a legalização da atividade, nomear e laurear comparsas.

Furo da Thais Bilenky na Folha: PSL avisa que fechou “qüestão” a favor da reforma da Previdência. Lembra muito a turma da firma decidindo almoçar no quilo, onde de feijoada a sushi, cada um come o que quer.

Bolsonaro disse que briga com Maia foi chuva de verão. É verdade. Aliás, pelas proporções dos deslizamentos, não poderia ser mais exato.

Sobre a notícia da demissão demissão do ministro Vélez Rodriguez, furo da Eliane Cantanhede, que de fato circulou quentíssima, Bolsonaro negou para fustigar a Globo e a Folha, depois disse “Vamos conversar e, se tiver qualquer coisa que não esteja dentro da normalidade, a gente acerta”. Resumindo, se mantiver o ministro, o presidente afirmará que a situação no MEC está dentro da normalidade. O período de experiência já passou.

 
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É uma brasa, Moro?

O ministro Sérgio Moro criou um grupo de trabalho para redução de impostos sobre o cigarro. A ideia é que, diminuindo o imposto, o preço também diminuirá, levando a esquadrilha da fumaça, onipresente nas calçadas brasileiras, a preferir o produto nacional ao importado contrabandeado.

Pelo inusitado, a proposta desperta curiosidades, a começar pela posição das entidades internacionais que se dedicam a combater o fumo. Todas elas dizem o justo contrário, isto é, que elevar impostos combate o tabagismo.

Para ficar em uma, a secretaria da Organização Mundial da Saúde responsável pelo tratado internacional para controle do tabaco, comandada pela pneumologista brasileira Vera Lúcia da Costa e Silva, coloca o combate ao fumo sobre quatro pilares: veto à propaganda, proibição em lugares fechados, advertência nos maços e aumento de impostos.

O Brasil enfrenta problemas sérios com contrabando, inclusive de cigarro. Mas nas cidades o problema vai além. Como nas teias do crime organizado o cigarro costuma aproveitar, já na etapa do contrabando, o frete das drogas, armas e outros produtos, chegando ao consumidor final a súcia se estende aos pontos de venda, controlados por quem negocia drogas e armas, ou seja, narcotraficantes e milicianos.

Há uma parte que vai para camelôs, que vendem em pontos controlados pelo Estado oficial, mas nas áreas controladas pelo crime, notadamente milícias, o poder paralelo implode os quatro pés do combate internacional.

Daí que, ainda que reduzir impostos ajudasse no combate ao contrabando, considerando os milhões de pessoas que vivem nessas áreas subjugadas pelo poder paralelo, ainda haveria o problema de roubo de cargas, e o efeito da medida seria marginal. Se o ministro quiser de fato combater o contrabando, deve começar combatendo o crime organizado.

Outra dúvida sobre a ideia de Moro é se o afrouxamento da regra significa um reconhecimento da incompetência do Estado no combate ao crime relacionado a demandas de consumo de estratos sociais, legando o controle ao mercado. Se confirmado, tal posicionamento deve servir para legalização das drogas.

Por último, a pergunta fundamental para começar qualquer investigação: a quem interessa?

A indústria do tabaco ganha em qualquer cenário. Se o imposto é alto num país, instala uma fábrica no país vizinho e produz oferta além da demanda local para atender aos contrabandistas, sem botar a mão diretamente no cinzeiro.

Dado o consenso sobre os males causados pelo fumo, sob a perspectiva do lucro uma segunda indústria teria interesse em quem acaba com os pulmões prejudicados, exatamente os laboratórios farmacêuticos. Quanto mais gente fumando, mais gente precisando de tratamento, maior demanda de remédios pelo SUS ou o setor privado.

Um dos remédios mais avançados indicados para tratamento de uma doença rara, a deficiência congênita de AAT, que pode levar à enfisema pulmonar, é o Ventia, produzido em Israel pela Kamada High Quality Pharmaceuticals. Quem sofre desta doença é particularmente suscetível a lesões causadas pela fumaça do cigarro.

Deve ser coincidência, mas não deixa de ser curioso o fato de no Brasil o Ventia ser importado pela PanAmerican Medical Supply, que em 18 de janeiro de 2019 entrou com uma ação levantando suspeitas de corrupção na Anvisa. A advogada da empresa, que diz trabalhar com doenças raras há sete anos, é a doutora Rosangela Wolff Moro, mulher do ministro Sérgio Moro.

Insisto que deve ser coincidência, porém o inusitado da proposta de um ministro será sempre proporcional ao potencial que terá para despertar dúvidas.

Da minha parte, só tenho uma: É uma brasa, Moro?

 
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Feliz 1964

Neste domingo tem festa para celebrar o golpe de 1964. Digo, o alvorecer da Redentora. Foram 21 anos gloriosos sem comunismo, mamadeira de piroca ou golden shower.

O busto do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra não ficou pronto. Posto Ipiranga não pagou a entrada. E sem lei Rouanet a loja Havana não topou a despesa.

Não há de ser nada. O roteiro da festa está sendo executado à perfeição. Missão dada, missão cumprida.

Representando Ustra teremos Nathalia, filha do interventor de Rio das Pedras Fabrício Queiroz, funcionária-assombração no gabinete do então deputado Jair Bolsonaro, que na verdade dedicava-se a aplicar choques elétricos em clientes famosos na Guanabara.

Para corrigir o senador Auro Moura Andrade, presidente do Congresso em 1964, que ousou afrontar as Forças Armadas dizendo que “japona não é toga”, o governo tomou as seguintes providências:

O Planalto enviou retratos do comandante-em-chefe das Forças Armadas, o excelentíssimo senhor capitão presidente da República, para que os membros do STF e do STJ instalem em seus gabinetes. Foi uma advertência. Se chiarem, tem um cabo e um soldado sempre às ordens.

O Congresso Nacional continua servindo café para aquela cambada, mas o povo já sabe que composição política é sinônimo de toma-lá-dá-cá e com este governo não tem conversa. Afinal, quem o presidente da Câmara pensa que é para desobedecer o ministro da Justiça?

Aliás, através do pacote anticrime do ministro Sérgio Moro, rende-se homenagens ao ideólogo dos atos institucionais do regime militar, o grande Chico Ciência, ministro da Justiça que jamais se furtou ao dever pátrio de legislar, como bem anotou o doutor José Roberto Batochio no Estadão do último dia dezesseis.

Representando o AI-5, auge da Redentora, será laureada a premonição do vice-presidente Pedro Aleixo, aquele udenista mineiro, contradição em termos. Foi ele quem alertou o marechal Costa e Silva sobre o perigo do guarda da esquina.

Para começar, o juiz Bretas, num mandado marombado, trancou um ex-presidente antes do processo legal. Imagina você, ordinário.

Chega de mimimi. Acabou a frescura. Agora é botar pra quebrar. Jornalistas, professores, cientistas, mulheres, índios, gays, imigrantes e toda essa corja já vem sendo enquadrada nas redes e nas ruas, mostrando a sintonia do povo com o governo. Até o desmatamento aumentou 54% pra calar a boca de ongueiro xiita.

Então chega de mimimi. A regra é coerência. E Brasil acima de tudo e Deus acima de todos. Ame-o ou deixe-o. E se reclamar, a vassoura vai cantar. Talkey?

 

 
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