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Notas soltas

A renca do Presidento

O Presidento não mostrou o extrato, mas garantiu que está com a aljava repleta de flechas para resistir à nova denúncia do procurador geral, Rodrigo Janot.

Se mostrasse, a Nação saberia do que são feitas as flechas do cacique Temer: madeira de lei colhida em reservas de proteção, bem melhores e mais resistentes do que as de bambu usadas pelo PGR. E ainda uma vantagem adicional: o Presidento não precisa gastar o braço sustentando o arco. Basta assinar umas emendas e decretos que os arqueiros BBB (bíblia, boi e bala) se viram. Custa caro, é verdade, mas não é ele quem paga. É você. E o mercado de futuros continua pensando só nos presentes.

Renca

Na minha infância, renca era como chamávamos um bando de moleques impertinentes. Exemplo: a mãe de um prometia um bolo para o meio da tarde, ao que o filho orientava: “quando ficar pronto não grita pela janela, se não cola aquela renca e já era”.

Graças ao Presidento fiquei sabendo que Renca também é um acrônimo para reserva de cobre na Amazônia. Não gostei. Digo, preferia não ficar sabendo, notadamente através de um decreto que extingue a Renca.

Longe de mim propor uma ode à ignorância. A gente cuida melhor daquilo que conhece. Longe também quero estar de propor que o cobre continue lá enquanto pode ser extraído com cuidado. Seria como ter um galinheiro e não colher os ovos.

Mas então voltamos à renca da minha infância. Todo moleque pode prever o trágico destino do bolo amazônico com este Presidento gritando pela janela ou, pior ainda, cochichando no subsolo do Jaburu.

Séries cabeça

O Canal Meio avisa que a Netflix, na Califórnia, cultivou dez tipos de maconha para serem harmonizados com dez das suas produções originais. Comédias, por exemplo, devem ser combinadas com a Cannabis indica. Já a Cannabis sativa queimaria melhor acompanhando dramas.

Para House of Cards, creio que seja um charuto, que o distinto fuma sem tragar. E na bula, uma recomendação: pode causar dor de cabeça se usado em brincadeiras com estagiárias no Salão Oval ou estocados antes de assinaturas de embargo.

Feijoada, bife e batata frita

Essa coisa de harmonização não é frescura. O Elio Gaspari nos brindou, no domingo, com um causo de em almoço na casa de Antonio Carlos Magalhães.

O primeiro prato era feijoada, seguido por filé com fritas. Só podia acabar mal. Contrapondo o genro Cesar da Mata Pires, que se gabava do crescimento da OAS, Toninho Malvadeza objetou: “Deixe de besteira, as obras que você tem deve a mim.”

Depois do café o genro chamou o sogro para uma salinha e meteu o seguinte: “Governador, da próxima vez que o senhor fizer o que fez durante o almoço, eu quebro a sua cara.”  Quem contava a história era Toninho Ternura, e emendava: “Gostei do garoto.”

Outro genro de Toninho, aqui de novo Malvadeza, foi encontrado morto com um tiro na nuca e a arma no coldre. A polícia da Bahia preparou o atestado de óbito cravando “suicidou-se”. Alguns dizem que mais correto seria “foi suicidado”. Devem ser os mesmos que apelidaram a OAS de Obras Arranjadas pelo Sogro.

Deve ser por isso que no House of Cards brasileiro, Felizes para sempre?, o personagem central é um empreiteiro, não o político.

 
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O Brasil entre o urubu e a inanição: cui bono?

Ensaio há algum tempo escrever o que segue. E evitava, porque sei que vai doer. Paciência. Ou por outra: melhor assim. Igual o clichê do massagista, “sem dor não tem resultado”. Dividi em quatro notas para aliviar.

Cui bono?

A expressão latina se tornou mais conhecida numa das operações recentes da Polícia Federal. Significa “a quem beneficia?”.

Pergunta fundamental para ler a pesquisa do instituto Ipsos divulgada no final de semana pelo Estadão. 27 figuras públicas foram avaliadas. Só uma não é ou foi autoridade: o apresentador Luciano Huck, que “passou raspando”, sendo aprovado por 44% e desaprovado por 42% dos brasileiros. Ao lado de Huck destacam-se Joaquim Barbosa (47X36%) e Sérgio Moro (55X37%).

Importante notar que a tomada foi feita antes do juiz Moro ter um padrinho acusado de atuar oficiosamente em acordos da Lava Jato, ao que respondeu usando o mesmo modelo de todo acusado: descredibilizando a palavra de “um foragido da Justiça”.  Rodrigo Tacla Duran, teve a prisão decretada por Moro e chegou a ser detido na Espanha, mas foi libertado e assim permanece por ter dupla cidadania. O Brasil pediu extradição e a Espanha negou.)

As 24 demais figuras públicas levaram bomba. Do Judiciário, Presidente Carminha, Dellagnol, Janot, Fachin e, claro, Gilmar Mendes. Entre os políticos, o pódio da desaprovação, acima dos 90%, ficou com Temer, Aécio e Eduardo Cunha – nesta ordem.

O menos machucado – e que estrategicamente nega ser político – é o prefeito de São Paulo, João Doria. Recém lançado e ainda no prazo de garantia, segue desconhecido por quase um terço da população (28%) e já contabiliza 52% de avaria.

Outros cinco cotados para 2018 são desaprovados: Alckmin (73%), Lula (66%),  Marina (65%), Ciro (63%), Bolsonaro (56%).

Vale notar duas coisas: desaprovação não chega a ser rejeição (isto é, você desaprova uma sobrecoxa de urubu, mas comeria para não morrer de fome); em rejeição 40% bastam para inviabilizar uma candidatura.

Então voltamos à pergunta: cui bono? Vale a pena chegar na próxima eleição tendo que escolher entre urubu e inanição?

Prévia

Ontem o estado do Amazonas elegeu Amazonino Mendes governador mais uma vez, com 33% dos votos possíveis. Dez pontos atrás de abstenções, brancos e nulos, que somaram 43%. Mas ainda assim eleito.

Há trinta anos, quando foi eleito governador pela primeira vez, Amazonino teve 54% dos votos prometendo “uma motosserra para cada caboclo”.

Quem poderá nos defender?

Imagino que entre esta freguesia se encontre gente satisfeita com tais números. Há, a vingança! Todos destroçados. Finalmente não temos ninguém que nos represente. É a glória.

Em que pese o resultado “amazonino”, vamos supor que amanhã surja um Emmanuel Macron (ou um incrível Hulk) para nos salvar (descontando o fato de ele já estar apanhando feito ganso.

Políticos vêm da sociedade, não são alienígenas. E a quantas andam os processos eleitorais na vida privada? Mal. É o que diz o estudo da consultoria de RH Robert Half, publicado pela Folha.

75% dos 303 diretores gerais de recursos humanos entrevistados afirmaram já terem dispensado um candidato após descobrir que ele havia mentido para ser eleito – ou contratado.

As mentiras mais frequentes seriam bizarras se não fossem tão comuns na vida pública e, agora sabemos, também na privada. De inflacionismo de experiência e realizações a só responder o que lhe convém, está tudo lá. E estelionato, falsidade ideológica, bajulação.

Caso você prefira não abrir o link, faça a experiência empírica, disponível em qualquer praça de alimentação. Encare um bandejão e ouça as conversas das mesas das firmas. Fofoca e gente tentando derrubar o chefe ou não deixar o coleguinha subir é o que mais tem. E diante da oportunidade de superfaturar uma nota-fiscal para reembolso… Tudo igual Brasília, só que mais medíocre.

Aquilo que rejeitamos nos delata

Um estudo da universidade de Wake Forest, nos EUA, mostra que tendemos a projetar nos outros traços que rejeitamos na nossa própria personalidade. A chamada vergonha alheia que você sente ao apresentar a paquera à família é antes própria do que alheia. É natural que você nunca reconheça. Mas convém não atirar pedra: quebrar espelho dá sete anos de azar.

 
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Quando Getúlio encontrou Lacerda

Salto ornamental é minha nova modalidade. Não, infelizmente o trampolim do Paulistano, assinado pelo Gregori Warchavchik,  não foi reinaugurado. Tampouco eu seria capaz das piruetas. Inclusive minha ancestralidade não recomenda. Meu pai, cabulando aula, saltou e caiu na borda molhada, esfarelando os pés.

Meus mergulhos são literários. E para o alto. Estou gamado no livro do Raul Juste Lores, São Paulo nas Alturas, recém lançado pelo selo Três Estrelas.

Já disse em vídeo gravado ainda na livraria e repito aqui: se você leu A Capital da Vertigem, do Roberto Pompeu de Toledo, que fica na primeira metade do século vinte, e quer continuar pelos anos 1950, o caminho é pelas linhas do Raul. O périplo invertido também vale. Comece com Raul e pegue em seguida o Pompeu, chegando até A Capital da Solidão, que marcha entre a São Paulo colonial e 1900.

Mais uma vez traído pela ansiedade, volto a falar do livro antes de chegar ao fim. Sendo 25 de agosto, 63 anos e um dia depois de Getúlio Vargas deixar a vida para entrar na história, compartilho aqui um encontro inusitado que para mim é novidade: de Getúlio com seu algoz, Carlos Lacerda.

Já na página vinte Raul nos conta que a forte desvalorização do café, causada pela quebra da bolsa de Nova Iorque em 1929, abalou várias fortunas paulistanas, mudando o cenário de Piratininga. Para manter a renda, famílias se mudaram para os novos subúrbios do Jardim América e Jardim Europa, cedendo os terrenos dos palacetes em Higienópolis para a construção dos chamados “prédios renda”.

Período turbulento. Não havia correção monetária e o reajuste dos aluguéis acabava judicializado, abarrotando os tribunais.

Foi quando Getúlio Vargas interviu, “assinando em 1942 a Lei do Inquilinato, que congelava o valor dos alugueis por dois anos e dificultava bastante os despejos, mesmo de inadimplentes”.

Com efeito, construir para alugar passou a ser mau negócio. O mercado então construía para vender. Sem oferta de aluguel em áreas centrais, quem não tinha dinheiro para comprar no centro foi buscar um teto mas barato ou construir com as próprias mãos nas periferias, aumentando o custo e diminuindo a qualidade de vida na cidade.

Era Vargas. O ditador “pai dos pobres” incentivou o patrimonialismo e a construção desenfreada nas periferias.

Mas e o Lacerda? Duas décadas depois ele assume a Guanabara e inicia uma política de remoção de favelas da Zona Sul. A Barra da Tijuca ainda era um ermo total e milhares de famílias foram transferidas para Jacarepaguá, distante de tudo, principalmente do trabalho. O resultado está aí. Na telona com Cidade de Deus, nos jornais com o caderno especial de guerra do Extra, na TV com o diuturno bangue-bangue traçante, estado e município quebrados, hotéis fechando para, não demora, serem ocupados pelos moradores das tantas novas favelas da Zona Sul.

Notícia boa, nenhuma? Sim. Pelo menos em teoria está estabelecida a noção de que os cobertores públicos nunca darão conta de cidades espraiadas. Adensar é urgente. E o modelo original do Minha Casa, Minha Vida, inspirado nos fracassos acima, abre espaço para habitação concentrada, verticalizada, perto de onde já existe infraestrutura, distribuída sob o critério do endereço do emprego e com aluguel social calculado pela porcentagem do salário. Agora falta os prefeitos botarem em prática.

 
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Quem tem boca vaia a Rota

Dizem que a gente não deve vaiar estreias ruins, porque mais ajuda do que atrapalha. Igual a água que, vertendo da mangueira, quando encontra um dedo polegar esguicha e vai mais longe.

Porém tenho que abrir uma exceção para o policial Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo, que no quatro de agosto estreou no comando das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar. Sim, é o novo comandante da Rota.

O augusto Ricardo, em entrevista ao UOL, declarou o seguinte sobre a periferia: “É uma outra realidade. São pessoas diferentes que transitam por lá. A forma dele abordar tem que ser diferente. Se ele (policial) for abordar uma pessoa (na periferia), da mesma forma que ele for abordar uma pessoa aqui nos Jardins (área nobre de São Paulo), ele vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado”

Talvez eu seja ingênuo, mas acho é caso de afastamento imediato. Não vejo alguém que pense assim em condições de comandar uma tropa de elite com trânsito livre no estado.

Qualquer comando funciona mais ou menos como aquela brincadeira do telefone sem fio. A mensagem original sempre acaba desvirtuada. O fenômeno é humano, serve para qualquer categoria. Na polícia, se da tranquilidade do gabinete o comandante orienta “sejam cordatos”, na tensão das ruas o policial pode acabar berrando.

Agora imagine você, freguesa, como deve chegar nas ruas a orientação do comandante Araújo. Governador, Secretário de Segurança, se preparem. Dias interessantes pela frente.

Nascido e criado no morro (do Jardim Paulista), tenho o costume de cumprimentar as pessoas pela rua. Boa tarde, boa noite, opa, oba e, com menor frequência, bom dia. A maioria corresponde. Mas os policiais, curiosamente, se surpreendem.

Quando vou à periferia noto que, de modo geral, igual acontece nas cidades pequenas, o hábito de cumprimentar os vizinhos é mais comum. Há um espírito comunitário no ar, que favelas é ainda mais presente. Deve ser por isso que chamam de comunidade. A não ser por parte dos policiais. Na periferia os cumprimento do mesmo jeito e nunca tenho a recíproca. Pelo menos agora sei o motivo. E a culpa é minha. O policial não tem como saber de onde eu venho. Vou fazer um crachá escrito “made in jardins” para ajudar.

Sobre o comportamento da PM “nos Jardins”, tenho algumas sugestões: parem de estacionar sobre calçadas (Av. Paulista, todo dia) e faixas de pedestres (ontem à noite na esquina da Batatais com a Eugenio de Lima), em local proibido (diariamente na Bela Cintra com a Lorena), e desliguem as viaturas quando não estiverem em trânsito. Tais medidas devem melhorar a imagem da força. Vocês vão precisar.

Obrigado. Com licença, boa tarde, lembranças à família, passar bem.

 
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Pois é, Brasil. Infelizmente, não deu

A imagem é escatológica, mas não me ocorre outra. Então por favor releve a indelicadeza, freguesa.

Falo da minha sensação com o cenário político nacional. Estás exausta? Eu também. Enojada? Eu idem. Tanto quanto alguém que chega cansado, revirado depois de noites mal dormidas e dias mal comidos, usa a privada e, quando parece que aquilo tudo vai-se embora, algo entupido lá dentro faz a lama emergir, transbordar, se esparramar. Vencida, aterrorizada, a pessoa fica inerte, com receio de que qualquer movimento piore a situação.

Subir na pia, no bidê, sair na ponta dos pés e deixar estar não é solução. Em casa ainda tem quem encare a faxina. Mas se o banheiro é público, a turma deixa estar. Mesmo os que têm boa vontade e respeito pelo coletivo, sem as ferramentas necessárias para arrumar a cena, sentem que pouco podem fazer. E… deixam estar.

A bem da verdade é preciso dizer que o problema do entupimento muitas das vezes é de nossa responsabilidade. Gente que bota na privada – e nas urnas – papel e outros bichos inadequados. Gente que sequer a descarga puxa.

Sinto que esta é a única explicação para o que estamos vivendo. Inércia que vem da impotência. “Não tem jeito, desisto, assim está menos mal, vou defender o meu.” A velha solução doméstica.

Em 2013 puxamos a descarga e em 2014 reelegemos o governo. Passamos 2015 jogando água com as panelas. Em 2016 uma parte desceu e ficou outra tão fétida quanto, mantida por várias e vexatórias vezes em 2017 sob ameaça de transbordar e melar tudo de uma vez, com o encanamento entupido por malas e malas de papel moeda.

Não há perspectiva de mudança a qualquer prazo. O sistema eleitoral é feito para que tudo continue assim e qualquer reforma só poderá ser feita até setembro, programado para daqui a uma semana. Quer dizer: a partir de 2018 vai continuar entupido.

As reformas exaltação são superficiais. Na Previdência não mexeram nem vão mexer no que importa. Por terem passado a PEC do Teto antes, a explosão de todas as contas é questão de tempo: um ano. Não há orçamento possível para o próximo ano.

Privatizações ou desestatizações seguem a mesma linha. Nas cidades, perfumaria. Em São Paulo o spray de “bom ar” é pulverizado com promessas de concessões e vendas à iniciativa privada – sem trocadilho –, que teriam retorno de publicidade em suas ações, por exemplo em parques e praças.

Mas simultaneamente a Lei Cidade Limpa, principal vetor de valorização da propaganda regulamentada, foi abandonada. A procuradora que investigava a máfia foi afastada. Assim como o secretario do Verde e Meio-ambiente, que denunciou supostas irregularidades de construtoras, que em conluio com agentes municipais estariam se apropriando do Estado – a pior estatização que existe.

No plano Federal anunciam privatizações do sistema de telefonia, dos Correios, de aeroportos, da Eletrobrás. As ações disparam e nada acontece. Enquanto isso, áreas de proteção ambiental são diminuídas e entregues a quem não demostra nenhum compromisso público.

A leitura clássica dos governos imediatistas mostra que, construir redes de esgoto, não interessava aos populistas porque leva tempo, dinheiro e não aparece, por serem enterradas. Continuamos fazendo tudo igual. Com 50% dos domicílios sem saneamento, temos crianças na primeira infância premiadas com duas ou mais diarreias, que comprometem a formação do cérebro para a vida toda. Não há  educação nórdica que dê jeito nisso.

Pois é, Brasil. Infelizmente, não deu.

AVISO: o conteúdo foi alterado. O prazo para a reforma política é setembro, ou um ano antes das eleições.

 
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Fernandona, a redentora

Fernanda Montenegro, em entrevista ao Estadão, chamou a ditadura militar de “Redentora”. Ninguém se atreveu a um pio.

Ary Oswaldo Mattos Filho, falando ao professor Humberto Dantas para o canal Um Brasil, tratou Dilma Rousseff por “presidenta”. De novo, silêncio nas galerias.

Ótimos sinais. Ninguém pode imaginar que a nossa diva maior seja simpática ao horror daqueles anos, nem tampouco pode alguém supor que o doutor Ary sinta saudades dos anos Rousseff no Palácio do Planalto.

Note: trata-se de imagens obrigatórias no panteão Nacional. É impossível falar em dramaturgia no Brasil sem citar Montenegro. Impensável debater Direito excluindo Mattos Filho.

Daí um tolo pode imaginar que silêncio das galeras seja por respeito. Pode ser. Mas eu, o tolo do copo meio cheio, prefiro acreditar em evolução, uma compreensão além dos frascos.

Fosse só respeito ao conjunto da obra, não estaríamos ouvindo o zumbido contrário à Tua Cantiga do Chico Buarque, uma das coisas mais delicadas que surgiram recentemente. Chico está tão em forma quando Mallu e Jeneci.

Voltando a fazer lindas canções de amor estando enamorado, Chico contraria os poetas que precisam sofrer. Inclusive ele próprio, que fez obras primas contra a “redentora” enquanto penava. Neste momento me ocorre que pode ser o Presidento, posto que o compositor não parece ter sofrido por amor jamais. Besteira. Claro que sofreu.

Implicaram com a Tua Cantiga por conta do verso que promete largar mulher e filhos se o capricho da nega exigir. Seria machismo. E o que responde o autor pelo twitter? Que machismo é ficar com ambas. Dureza.

Tudo isso 51 anos depois de Dona Flor, Vadinho e doutor Teodoro terem compartilhado o leito em harmonia total. E simultâneo a Maria, Monique e Toni se dando bem em Os dias eram assim, onde até o Palhares é bom caráter e o único tarado é o empreiteiro defensor da “família tradicional”.

A impressão que passa é que Chico de fato não escreveu as rimas nem ninguém nunca amou. Estão lá coisas sublimes que sepultam machões sob plumas. Tolera o vigia que pode levar a nega pela estrada afora, aceita a hipótese de um desalmado arrancar-lhe lágrimas – ele próprio, inclusive? –, engole um nome estranho escapado num suspiro, homenageia e condena Antonio Maria no espelho com Danuza e, mais que tudo, ainda arruma a cama.

Ah, Fernandona, dê mais entrevistas, fale mais. Precisamos de você que sacou o Nelson quando achavam que ele era pornográfico, e não largou quando se intitulou reacionário. Só você para nos redimir.

 
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Globo, papa, VW, PSDB e o zeitgeist

Também em agosto, só que há quatro anos, as Organizações Globo admitiram o erro em apoiar o golpe de 1964. Esparramaram o texto publicado no editorial dO Globo pelas várias emissoras de rádio, TV e também nos portais de internet.

O papa Francisco já declarou sentir vergonha pelo passado violento dos cristãos, admitiu que há corrupção no Vaticano, pediu perdão aos negros, mulheres e homossexuais, condenou padres pedófilos.

A Volkswagen, da sua sede na Alemanha, confessou a fraude dos sistemas de controle de emissões de poluentes e, mais recentemente, o apoio à ditadura militar no Brasil.

O que cada uma dessas instituições têm em comum? Atenção ao chamado zeitgeist, que é o espírito do tempo. Quem ainda não entendeu continua apostando nas velhas práticas, distantes do sentimento social.

Outra coisa em comum é que a Globo, a Igreja Católica e a Volkswagen mataram no peito enquanto instituições, sem pretender uma caça à bruxas fulanizando a culpa.

Naturalmente os que vestiram a carapuça berraram. Em todos os casos, chamaram de hipocrisia, oportunismo e outros bichos. Exemplo clássico da atitude reacionária.

Ontem o PSDB usou seu tempo de TV para assumir erros cometidos e defender a carta original da legenda. Já era em tempo. A reação foi semelhante.

Procurando pelo em ovo, chegaram ao ponto de dizer que não existe consenso sobre o Parlamentarismo, que é uma das bandeiras do partido. A rigor, ser tucano e não ser parlamentarista é como ser católico e não acreditar em Deus.

Com boa vontade dá para entender um e outro bico torcido. Remédio é sempre amargo. Mas a alternativa é continuar doente.

O governador André Franco Montoro, que propôs o tucano de peito amarelo como símbolo e foi o autor das primeiras linhas do manifesto peessedebista “longe das benesses do poder mas perto do pulsar das ruas” dizia: “A maior virtude do ser humano é saber reconhecer seus erros.”

Vale para as pessoas e também para as instituições. Oxalá a trilha aberta pelo presidente dos tucanos, senador Tasso Jereissati, seja seguida por todos os partidos e seus filiados.

 
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Vendo vista para o futuro

“A população tem direito também ao nível de conforto adequado, a ter elevadores e habitações maiores. Com isso você tem estruturas melhores, também com lazer, área de esporte e também, área de trabalho, com pequenas lojas, exatamente como é o Casa Paulista.” Palavras do João Doria.

Por falar em Casa Paulista, lembro do Paulo Mendes da Rocha falando sobre a avenida homônima (aqui aos três minutos). Para ele, com a democratização do elevador – e transporte público, esgoto, energia, verticalização -, o conceito de moradia mudou, porque podemos empilhar as casas.

Então não faz sentido continuar pensando o lote sob o conceito da casa térrea, ou dos sobrados, com recuo, jardins e quintais que ninguém usa. Você pensa o coletivo e cria espaços de convivência agradáveis, com moradia, trabalho, lazer, comércio e serviço reunidos, como é o Conjunto Nacional.

Nos demais lotes ao longo da via, que foram pensados sobre os terrenos dos antigos casarões, há um desperdício absurdo de espaço, inclusive em prédios contemporâneos, com gradis que separam os jardins das pessoas.

E por que o Conjunto Nacional teve essa sorte? Porque foi empreendido sobre uma quadra inteira, enquanto seus vizinhos ficaram condenados aos retalhos. A discrepância urbanística causada pela arquitetura possível a cada projeto é brutal.

De qualquer maneira é precioso ver que sem esforço encontramos convergência de conceito entre o Prefeito e o arquiteto. Gostaria de festejar desde já, mas ando meio São Tomé e quero ver concreto.

Especialmente no imenso lote que a prefeitura e o governo do estado têm em conjunto na Marginal Pinheiros. Cem mil metros quadrados que devem ser pensados em também em conjunto, não em retalhos.

Vizinho do metrô, com estação de trem e terminal de ônibus ao lado, parque Villa-Lobos alcançável à pé, vista para o rio, para o arvoredo do Alto de Pinheiros e do Butantã, para a colina da Vila Madalena. Lá do alto é lindo. Já almocei um franguinho atropelado na cobertura da Editora Abril e contemplei a vista.

Com 300 mil habitantes e 700 mil trabalhadores que vêm diariamente de longe ou muito longe, Pinheiros merece um projeto de habitação popular nos moldes apresentados pelo prefeito no primeiro parágrafo.

Estou sonhando? Não. O mais caro, que é o terreno, é nosso (público). Infraestrutura há em profusão, só falta gente para usar. E o dinheiro? Tem também. A Operação Urbana da Faria Lima tem R$ 500 milhões em créditos dos quais ¼ ou R$ 125 milhões são carimbados para HIS (Habitação de Interesse da Sociedade – obrigado, professor Caldana) que devem ser investidos em seu perímetro.

Ali na Berrini com a Roberto Marinho, tem uns dez dias, o prefeito entregou a segunda fase do Jardim Edite. Menos de dez milhões de reais, sendo parte da Operação Urbana Água Espraiada, foram suficientes para entregar teto a quase setenta famílias.

Vamos pensar a solução de moradia para Pinheiros coletivamente. Tomar o elevador e trabalhar do alto, com vista para o futuro da cidade.

 
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Presença concreta – um ano sem Pedro Paulo de Melo Saraiva

Há um ano o nosso querido Pedro Paulo de Melo Saraiva embarcava para o cruzeiro definitivo. Alguns dias depois, seu filho Pedro me chama para dizer algumas palavras na missa de sétimo dia. Lisonja tremenda. Respirei fundo, anotei e encarei.

As linhas estão abaixo e na íntegra. Para falar na igreja tive que suprimir a forma como ele tratava os amigos.

Valeu, Papito! Comentei agora com o Pedro como você permaneceu com a gente nesse ano que passou. Sua presença, com o perdão do trocadilho, é concreta.

Tenho uma teoria particular que manda a gente não se tornar amigo dos nossos ídolos. É a equação expectativa x realidade.

Mas a vida reserva presentes e um dos que ganhei foi descobrir a amizade do Papito antes de saber tudo o que ele significava.

A poucas quadras daqui, onde a Cidade Jardim começa, havia o Pandoro, e um dia fui lá encontrar os amigos e à mesa estava o Papito. Conversa vai, uísque vem, e dia após dia fui me encontrando completamente seduzido por aquela figura elegante, que igual a tudo o que é de fato elegante a gente não percebe no ato, só depois.

Fomos descobrindo afinidades. O mar, o litoral norte, mangueiras enxertadas, coquinho, espada… Echarpes nunca lavadas. Algo simplesmente genial como dois ferrinhos torcidos que caídos de qualquer maneira ao chão param um automóvel. O desgosto com casinhas nas saídas do Metro. Ele dizia: “Se a escada termina na rua, no primeiro degrau já é a rua”. 

Na varanda do Ilha das Flores a gente olhava a praça em frente, com os carros clássicos estacionados. Comentei que, por mim, seriam só árvores e um buraco para o Metrô. E ele: “Você quer viver em Paris, não é, demônio?”

Um dia, ou noite, falando sobre arquitetura, ele citava com naturalidade os colegas mais conhecidos dos leigos como eu: “O Oscar é foda , o Paulinho é craque”. Aquilo me intrigou e fui estudar o Papito. Descobri que era fã dele.

Então era tarde. A amizade já estava completamente revelada. Me restou reconhecer o privilégio que era para um moleque como eu poder ser amigo de uma figura tão vasta. 

No dia dos pais o Pedro publicou uma foto deles dizendo que superariam mais essa. Enviei mensagem perguntando o que havia e soube que o Papito estava internado.

Na segunda-feira fui ao Santa Catarina fazer uma visita. Levei uma seleta de contos do Scott Fitzgerald – que por sinal comprei na Ilhabela – para deixar fazendo companhia durante a internação. Tudo no Scott Fitzgerald me lembrava o Papito. O homem, a obra. Mas nesse livro notadamente há uma história em que ele se materializa já no título: Love At Night. Um príncipe Russo exilado, uma Princesinha Americana, iates, a Riviera Francesa. E também por conta da viagem que ele, o Paulo Mendes da Rocha e o Fabio Penteado fizeram à Rússia e terminaram na costa da Itália. A foto dos três está na abertura do livro que ele autografou com o Museu da Casa Brasileira repleto de amigos outro dia.

É claro que a gente vai sentir muita falta do Papito. Mas a receita que tem me ajudado nesta última semana e que eu ouso compartilhar com vocês é pensar na vida extraordinária que ele teve. Vida invejável.

A dor da falta será imensa, mas nada perto do privilégio de ter convivido com o Pedro Paulo de Melo Saraiva e poder lembrar dele.

 
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Pula que a água está quente

Um governo de centro-direita teve uma ideia para enfrentar o problema do desemprego e dos altos custos da burocracia estatal, notadamente a fiscalização dos programas de bem-estar social. Como era a proposta era polêmica, optaram por começar testando com um pequeno extrato da população.

Ato contínuo, a economista-chefe da central única dos sindicatos de trabalhadores, que com um milhão de filiados, o equivalente a metade da população do país –  se posicionou contrariada. Afirmou que a proposta ia na contramão das políticas sociais e que, sendo absurdamente caro, o programa elevaria o déficit do Estado em relação ao PIB.

A ideia do governo – centro-direitista, você se lembra, freguesa – foi transferir para as contas de duas mil pessoas, incondicionalmente, 560 euros, mais ou menos R$ 2.100,00. Incondicionalmente significa que para ter o benefício o cidadão não precisa ser pobre, estar procurando emprego, ou oferecer qualquer contrapartida, como acontece com os programas de transferência de renda antigos em vigor, como o Bolsa Família.

Começou em janeiro e os efeitos são os seguintes: menos estressados com a grana curta, os contemplados passaram a tomar decisões melhores, se dedicaram ao que sabem fazer – e fizeram bem.

Juha Jarvinem, artista, empreendedor e pai jovem que participa do laboratório, falou à Economist: “É muito louco. Com os programas antigos eu evitava trabalhar por medo de perder o benefício. Era a ‘armadilha do desemprego. Agora, não. Tenho ideias melhores, planos de negócios e voltei a progredir. Além do que, não preciso mais parar o que estou fazendo para ficar prestando contas ao governo.”

Curiosamente, quem não gostou da notícia e reclamou à Bloomberg foi a economista-chefe da CUT da Finlândia – palco do experimento –, Ilkka Kaurokanta.

O Brasil é mesmo abençoado. Aqui da CUT à FIESP, todos concordam com a Renda Básica Universal. Está no livro do Suplicy.

Universal, diga-se, tem a ver com o sentido incondicional da ideia. Todos recebem, sem distinção. Este é o ponto essencial da ideia, defendido por outro governo, o da primeira-ministra Kathleen Wynne, de Ontario, no Canadá. Encontrei aspas dela e um link na reportagem publicada pelo Independent: “Distribuição de renda incondicional economiza dinheiro público diminuindo a burocracia tradicional dos programas de bem-estar social.”

Ela tem o olhar no futuro e acredita que as economias devem se fortalecer para enfrentar os novos desafios do mercado de trabalho, cada vez mais dinâmico.

Voltando ao Velho Mundo, na Inglaterra o Think Tank da Real Sociedade para incentivo de Artes, Artesanato e Comércio propõe oferecer trezentas libras esterlinas (R$ 1.200) a todo cidadão que tenha entre 25 e 65 anos de idade como estímulo para criação e produção.

Uma piada antiga recomendava que, vendo um milionário pulando da ponte, melhor seria pular junto, porque provavelmente ele estaria se dando bem. Hoje bilionários como Mark Zuckerberg, do Facebook, e Peter Diamandis, mecenas do fim da morte morrida, falam publicamente na adoção da Renda Básica Universal. Avante! Pula que a água está quente.

 
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