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Contrato sexual

Caso real: um atleta galã, membro da seleção brasileira de sua modalidade, viajou para disputar torneio mundial no Canadá. Enredo que todos podem imaginar: corpos bonitos, hormônios transbordando, vila olímpica só deles. Jogos concluídos, medalhas deixam de ser importantes, o tesão deságua numa pororoca e começa o lelê.

Muito bem. O atleta que abre a crônica foi parar numa festa no apartamento de uma colega canadense e entre eles pintou um clima. Trocaram beijos e sabe-se lá mais o que. Em algum momento a menina foi dormir, o rapaz entendeu que era convite para uma alegria extra e a acompanhou até a cama para ver se consumava a alegria. A canadense, porém, não estava afim, e o brasileiro, como podemos imaginar, achou que era manha e insistiu. Configurou estupro na lei de lá e o nosso conterrâneo só não foi preso porque embarcou para casa antes das autoridades canadenses botarem as mãos nele.

Pano rápido para 2019. Outro atleta, não tão galã, em Paris combina um encontro num quarto de hotel com uma conterrânea brasileira. O caso acaba mal e vem a público, com BO dela reclamando estupro e as conversas e fotos íntimas dos dois publicadas por ele numa rede social com milhões de seguidores.

A sociedade, com espanto ou revolta, trata de julgar o caso antes da Justiça. Dois partidos se destacam: os que acham que, dadas as conversas, a mulher não pode reclamar estupro; e os que entendem que estupro pode ser configurado a qualquer momento a partir do “não” de uma das partes.

Nas minhas relações há um corte geracional muito claro entre um e outro partido. Para velhinhos da minha idade ou mais antigos, mulheres incluídas, conversas por escrito naqueles termos e com aquelas imagens são raríssimas ou inexistentes, donde se conclui que a moça não pode reclamar.

Os mais jovens, mulheres destacadas, entendem que uma coisa nada tem a ver com a outra. Até porque entre eles conversas assim são comuns. Isto é, mesmo entre um casal estabelecido, que trepa com frequência, namora ou até vive junto, pode acontecer de um nude pidão no fim da tarde perder a validade antes da noite. E não é não. Pode acontecer a caminho ou já no local combinado, e até durante o ato. Deu um mal estar e um quer parar, parou. Não é não.

Receio que para a cultura brasileira, machista e impregnada de culpa católica, onde sexo é tabu, só o homem tem que querer e a mulher, no máximo, ceder, tal ideia vai demorar para ser absorvida. Por alguns, jamais será.

Pense em como funciona a moral concebida numa sociedade onde é comum ouvir de homens e mulheres que fulano é frouxo porque pediu licença para um cotoveteta (quando o cotovelo roça no seio), ou porque ficou encabulado ou intimidado com uma peitovelada (o inverso, quando o seio é roçado no cotovelo alheio). Agora calcule a subjetividade envolvida, lembrando que em alguns países cotoveteta e peitovelada configuram abuso.

Urge estabelecer a fronteira entre consenso e dissenso sexual. Mas como fazer quando só há duas pessoas envolvidas e suas respectivas versões sobre o que aconteceu entre ambos, entre quatro paredes? Poderemos contar com a boa índole de todos ou por via das dúvidas é melhor ficar no botequim?

Os sadomasoquistas adotam uma palavra ou gesto (para quando amordaçados) alarme, dado que pedir para parar, dizer “não, por favor” ou “tende piedade”, é parte da brincadeira. Porém receio que escrever um contrato sexual geral venha a ser o método contraceptivo que poderá extinguir a vida humana na terra.

Sinceramente, não sei o que fazer.

 
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Previdência dada como certa, começa a reforma eleitoral

Havia uma goiabeira no jardim da nossa casa em Juquehy. Talvez ainda exista, mas a casa foi vendida. Dava goiaba de polpa branca, cor de paz, inocência e pureza, e talvez por isso Jesus nunca apareceu por lá. Preocupado que era em confortar as almas dos fariseus, prostitutas, ladrões e pecadores em geral, deve preferir as polpas vermelhas.

O caso é que a safra da nossa goiabeira era bienal. Não me lembro se par ou ímpar, mas lembro que dava goiaba ano sim, ano não.

A mesma coisa acontece com a regra eleitoral no Brasil. Disfarçado com o nome de reforma Política, porque pega bem junto à sociedade propor mudança num modelo de representação insatisfatório, ano sim, ano não, suas excelências metem um puxadinho nas regras. Reforma pra valer, que seria a primeira de todas, picas.

Como a gente tem eleições nos anos pares, e qualquer mudança deve ser feita pelo menos um anos antes da largada da corrida, os anos ímpares são reservados para o puxadinho eleitoral.

Tida como certa a reforma da Previdência, só faltando ajustar aqui e ali, a pauta agora é a eleição de 2020 nos municípios.

Bolsonaro, que com os filhos e aliados não perde uma eleição há décadas, tratou de jogar para seu eleitorado levando ao Congresso um pacote para aumentar o limite de pontos na carteira de habilitação de maus motoristas / gente de bem. Acelera!

E os deputados e senadores, de olho em fazer prefeitos e vereadores, passaram a debater mudanças neste sentido.

No puxadinho de 2017, feito sob pressão da sociedade, entre outras coisas avançamos com a proibição das coligações proporcionais. Cada legenda teria que formar o próprio elenco e contar com seus votos para fazer bancada. Quer dizer, votando no Tiririca do PRB, o eleitor não correria mais o risco de eleger Beto Mansur do PR. O exemplo é da Câmara Federal mas vale para as de vereadores.

Porém, como a polarização que já era grande aumentou, entregando em 2018 as maiores bancadas para petistas e bolsonaristas, e fragmentando a rapa em um nível inédito, as demais legendas, antevendo que a safra de 2020 pode vir bichada, se misturaram num tacho para preparar a goiabada geral e depois fatiar como melhor lhes aprouver.

Para quem olha o Congresso e as Assembleias hoje, com petistas perdidos ou viciados no Lula Livre, bolsonaristas ineptos mais perdidos ainda se dedicando à lacração infinita, e o Centrão fisiologista mandando como sempre mandou, pode parecer tentador dar um passo atrás e permitir a volta das coligações.

É uma pena. Ou, escrevendo pelo lado bom, melhor será seguir adiante, aprender com os erros e cobrar dos congressistas a manutenção da regra, que embora não seja o melhor dos mundos, aproxima a formação das câmaras da vontade popular e fortalece a democracia interna dos partidos à medida que impõe a seleção dos melhores candidatos, isto é, aqueles mais sintonizados com os anseios dos eleitores. Com efeito, a maioria dos partidos de aluguel, sem bandeiras ou bons quadros suficientes, tendem a desaparecer por decantação virtuosa, separando a polpa que a sociedade quer na goiabada das cascas e sementes que não interessam.

 
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O mercado no pico do Everest

Se formar fila no quilo, em porta de boate ou para desembarcar de avião ainda com as portas fechadas já perece estúpido, no pico do Everest, com pouco oxigênio, frio de matar e cadáveres ao pé para deixar claro que não é força de expressão, passa a ser incompreensível mesmo considerando a dificuldade de raciocínio em tais condições.

Entendo que a vontade de um feito distintivo afete o espírito humano a ponto de colocar a própria vida em risco. Não pretendo pular de paraquedas, pegar garupa no globo da morte nem confiar juba de leão. Mas vá lá, estando logo ali, o sujeito faz, registra, goza e bota no insta – ou bota no insta e goza? Quem nunca? No máximo digo que jamais pegaria fila para qualquer coisa assim.

Fila só para o que é imprescindível, como pronto-socorro, ver a Mona Lisa ou votar contra o Bolsonaro. No Everest é muita estupidez.

Por outro lado, ou numa analogia com a vida da perspectiva da planície, não é difícil encontrar casos semelhantes. Tome-se por exemplo o caso da Faria Lima, cume financeiro do Brasil ali na várzea do rio Pinheiros.

O país congelando, cadáveres da carestia se amontoando, 14º boletim de mau tempo consecutivo para projeção de crescimento e a turma do mercado segue apostando no trilhão do PaGue, exatamente como os imbecis na fila do Everest.

Dizer que eles não sabem o que fazem é falso. Em janeiro 86% apostavam no êxito de Bolsonaro. Hoje são apenas 14%. Mas o dólar volta para baixo de quatro reais e a Bolsa segue perto dos cem mil pontos. Com o que estão brincando?

Com a reforma da Previdência não é. Esta já passou. Coisa boa na segunda-feira é aproveitar o tédio de quem espera os voos para Brasília e prosear pelo WhatsApp. Todos garantem que está tudo certo e agora é questão de prazo e algum ajuste, a começar pelo pedido da primeira dama e, no máximo, incluir ou excluir os estados – coisa de 100 bi ou os 10% do garçom.

O trilhão sempre foi imaginário, volúpia do Beato Salú. Em Brasília, algo pouco acima da metade disso é satisfatório e dado como garantido. Tanto é que o assunto já mudou. Missão cumprida, agora tratam da reforma eleitoral para 2020 (volto a falar dela amanhã).

Os grandes do mercado já sabem disso e começam a mudar de assunto. Note como daqui pra frente os artigos e entrevistas abordarão a necessidade de outras reformas caras ao jogo financeiro, como tributária e fiscal, antes do investimento prometido a partir da Previdência.

Mas os médios e menores investidores continuam olhando para o trilhão do PaGue como se fosse o pico do Everest. Todo mundo comprado, acreditando no sonho grande de pisar no topo.

Enquanto isso, a situação no pé da serra, ou na economia real, que nem sabe onde o Everest fica, segue dramática. Minha Casa, Minha Vida, Funrural e outros programas sob ameaça de avalanbche, e o despudor é tamanho que nem Bolsa Família escapa. Emprego, Educação, Saúde, sem esperança nem plano.

Como fomos nos meter nessa fria?

 
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Explosão na Lorena

Ontem no caminho de casa passei por uma mãe que botava a filha para dormir num passeio de carrinho pela calçada.

A menina já era grande para o carrinho, mas aparentemente era o jeito, até porque a menina dormitava e a mãe parecia confiante em alguns momentos seus na noite de sábado. Quem sabe um vinho, um livro, sei lá. Uma amiga minha diz que para mãe de criança um cigarro inteiro na varanda equivale a dez dias de férias na Bahia.

Foi quando houve a explosão. Barulho de dez trovões. Tapa no pé d’ouvido. Em mim doeu. Olhei para trás. A mãe nem brava conseguiu ficar, tratando de tentar acalmar a filha que, aos prantos, já no colo materno, tremia.

Mas qual explosão? Brava por quê?

O barulho era de uma motocicleta nova mas com o escapamento aberto, cujo dono, na Lorena, desfilava tentando completar a virilidade que obviamente lhe falta.

Ao cretino, em nome da mãe que não conheço, agradeço.

 
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Um evangélico no STF?

Recentemente voltei à escola e aprendi umas coisas. Por exemplo: um Estado laico não está necessariamente apartado de religião. O que define a laicidade do Estado é a garantia de liberdade e manifestação para toda e qualquer fé.

Daí que o dinheiro mais famoso e cobiçado do mundo poder vir impresso com um “em Deus a gente confia”, sem levar qualquer ateu ao voto de pobreza. Ok, talvez não seja o melhor exemplo, porque tem deus pra todo gosto e nenhum recusa dólar. Então melhor dizendo, o STF pode conviver em harmonia com um crucifixo e dois ministros judeus. O que não pode é o ministro judeu decidir monocraticamente pela circuncisão obrigatória no SUS.

Sei que parece papo de louco para quem vive em ambiente secularizado, onde é corriqueiro encontrar rabino em feijoada, jovens senhoras católicas conversando naturalmente sobre técnicas de sexo oral mas ruborizando se o assunto é petit-gateau, deputado evangélico em roda de enologia fumando charuto. Mas é o assunto do dia no Brasil.

Tudo porque o presidente da República, falando mais que a boca para dispersar notícias graves numa semana difícil – pibinho, irmão miliciano da sogra preso, filho ZeroUm e Queiroz sem conseguir escapar da Justiça – disse que talvez seja chegada a hora do STF ter um ministro evangélico.

Ora, as igrejas evangélicas se firmaram no Brasil do século XX com o discurso de que as minorias deveriam ser respeitadas. Amém. E mantiveram-se afastadas da política até o final da ditadura militar. “Crente não fala de política.” Não falavam.

Na Constituinte, ante a previsão de grande influência católica, resolveram se coçar. Logo em seguida veio a negociação de mais um ano para o Sarney, e o ACM, então ministro das Comunicações, entrou de sola trocando voto por concessões de rádio e TV. Foi o milagre da multiplicação de denominações. Oremos a Painho. Se Toninho é Ternura ou Malvadeza, tenham liberdade para dizer.

Com efeito, de eleição em eleição, na composição do Congresso Nacional que saiu das urnas em 2018, os evangélicos deixaram de ser minoria. Hoje a bancada evangélica na Câmara conta com 120 membros contra aproximadamente oitenta da bancada católica. “Contra” não é a palavra exata, porque, juntas, as bancadas formam a frente cristã.

Em números quantitativos, na sociedade os evangélicos ainda não são maioria. Mas qualitativamente falando, se compararmos o engajamento da maioria católica com o dos evangélicos, isto é, quem é de fato praticante, envolvido com a igreja e sua comunidade, provavelmente os evangélicos já são maioria.

Na eleição de 2018, 68% dos evangélicos escolheram Bolsonaro contra 50% dos que se declaram católicos.

Juntando os três parágrafos anteriores esta paróquia poderá apostar que a vontade do ministro PaGue emagrecer o Censo 2020 não alcançará a verificação da fé nacional.

Outra coisa que aprendi na escola, quando os cursos de Filosofia e Teologia se encontram em classe, foi da multiplicidade das igrejas pentecostais, que se de fora parecem um conjunto, por dentro são divididas em muitas partes que disputam poder entre si.

Daí que a declaração prematura de Jair Messias sobre um ministro evangélico no STF deve ser lida primeiro como diversionismo geral e apelo à base muscular numa semana especialmente difícil.

E num distante segundo plano como um “o gato subiu no telhado” para Sérgio Moro e pré-aquecimento da cadeira para o ministro do Tribunal Superior do Trabalho Ives Gandra Martins Filho, cuja irmã Angela é secretária da Família de Damares “Cinira” Alves, enquanto o pai declara que Olavo de Carvalho “é o professor de todos nós”. Membro da Opus Dei, prelazia católica ultraconservadora, a família agrada aos evangélicos em bloco sem desagradar à CNBB. E a sociedade que aguente o silício.

 
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Brasil e China

Perguntado se bebia, o chinês respondeu: só profissionalmente.

A piada é do diplomata Marcos Caramuru, ex-cônsul-geral do Brasil em Xangai, onde ainda vive e presta consultoria. Em passagem pelo Brasil, falou ao Roberto D’Ávila na Globo News.

Somos diferentes dos chineses, mas o humor é universal e, lá como cá, o melhor contém um fundo de verdade.

Ocorre que para o chinês ainda vale o fio do bigode. Advogados e contratos para eles são coisas marginais numa relação comercial, mera burocracia. Bem diferente daqui, onde tudo começa com o contrato, que a turma assina e então não cumpre.

Então como fazem os chineses para estabelecer confiança mutua? Bebem. Pega bem tomar um pileque e se mostrar completamente despido de pose antes de avançar em qualquer negócio. In vino veritas. E nós, que somos cultura latina, desperdiçamos a lição.

Outra coisa curiosa é o apreço pelo equilíbrio. As partes sempre vão procurar a harmonia. Se durante o percurso houver desequilíbrio, é comum que a parte que está levando vantagem procure a prejudicada e proponha um ajuste.

Para o homem cordial aqui dos trópicos pode parecer tão estranho quanto comer gafanhoto frito. Mas assim vivem e prosperam os chineses.

Em algumas das nossas semelhanças, o Brasil leva vantagem sobre a China. País continental somos ambos, mas clima bom e terra agricultável somos mais. Também somos miscigenados de maneira mais plural. A capacidade de esquecimento – no sentido de superação, de olhar pra frente, não por amnésia alcoólica –, que custou revoluções culturais por lá, aqui parece ser inata e funcionar como um relógio (Salve, Ivan Lessa).

Se eles são bons falsificadores, dizem que o revólver Smith & Wesson feito em Campina Grande era melhor que o original. A piada é que a sofisticação era tamanha que um dia alguém pediu troco para uma nota de noventa dólares e saiu com três de trinta. Aqui sufocaram. Lá deixaram rolar e hoje eles combinam acordos de desenvolvimento tecnológico conjunto com o mundo inteiro. Meu dilema é saber quem está certo.

Mas deixa pra lá. Hoje é sexta. Só queria dizer do meu receio: nossa decadência começou quando trocamos o fim de tarde no boteco pela academia de ginástica.

 
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Santo Padre não é santinho

Noves fora o furor intestino que nos faz odiar, e considerando que o ódio cega, da perspectiva racional são incompreensíveis as reações negativas ante a carta enviada pelo papa Francisco ao ex-presidente Lula.

Se você, freguesa, é cá da minha paróquia, provavelmente casou-se na Igreja, frequenta Cabala e tem Buda enfeitando o pichiche sob relicário de Iemanjá. Assim, fez catecismo, teoricamente conhece o cristianismo e não poderia esperar algo diferente vindo do papa. Ou, no máximo, que se Lula estivesse preso em Roma, não em Curitiba, que invés de escrever Francisco usasse as mãos para lavar os pés de Lula, exatamente como costuma fazer com outros presidiários diversos.

Do ponto de vista político, um chefe de Estado do Vaticano, se provocado, escrever para um ex-chefe de Estado do Brasil – maior Nação católica no mundo –, preso ou não, também não deveria surpreender. Mesmo o Temer, com supostas relações com o tinhoso, se pedir recebe a sua, aposto. Até porque a mensagem fica nos planos pessoal ou universal, fala de solidariedade com quem sofreu duras provas de vida – isto é, a perda de entes queridos, incluindo um neto de apenas sete anos –, ou de temas essenciais à humanidade, como política e Justiça.

A vontade original do PT era uma carta papal que pudesse ser usada como santinho nas eleições de 2018. O ex-chanceler Celso Amorim esteve com o papa em agosto daquele ano, portanto véspera dos registros eleitorais, e aparentemente tentou, mas só conseguiu um manuscrito não oficial com uma benção – que autoridade católica não nega a ninguém – e um pedido de orações.

Francisco é o melhor político em atividade no mundo e fez a coisa certa. Afastou-se do plano eleitoral e esperou a Páscoa para se manifestar como chefe de Estado. Ponto para ele.

A mensagem do papa que importa ao Brasil é o encontro com o cacique Raoni, que esteve em périplo europeu falando sobre o clima e sua floresta natal, onde a Igreja Católica vai realizar o Sínodo da Amazônia em outubro.

De novo, ao contrário de outros chefes de Estado, o papa só recebeu o cacique no dia seguinte às eleições para o Parlamento Europeu, que teve forte campanha para os partidos verdes, alcançando bom resultado. Calculado ou não, excesso de zelo com um tema universal ou não, fez diferente. Santo Padre não é santinho.

Lá na Europa, o que ainda se entende por esquerda ou direita é bem diferente do Brasil. A direita na França, por exemplo, defende o Meio Ambiente e se alia ao socialista americano Bernie Sanders contra os capitais voláteis. No Brasil, a direita aplaude liberação de defensivos agrícolas proibidos em todo canto (ganhou), luta pelo desmonte do Código Florestal (perdeu), quer privatizar companhias de água e saneamento (tende a perder), que a Inglaterra, berço liberal, está reestatizando.

E palmas para o físico e astrônomo brasileiro Marcelo Gleiser, que tirou o Prêmio Templeton 2019, considerado o Nobel da espiritualidade. Na solenidade de premiação, disse o seguinte: “Mantenho a mente aberta para surpresas. Depende do que você chama de Deus. Tem gente que diz que é a natureza. Então, se Deus é a natureza, eu sou uma pessoa religiosa.” Viva a razão, coração de mãe onde cabe todo mundo, basta querer.

 

 
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Confiança

Confiança é uma das coisas que a gente aprende desde pequeno. Primeiro em quem confiar, depois em como despertar a confiança alheia.

O pai que diz ao filho que fará tal coisa e não cumpre, perde a confiança e, com efeito, a autoridade. Pode ser segurar no colo quando a menina pula da árvore, que vai ter pudim se o menino arrumar o quarto, aplicação de castigo. Escreveu não leu…

Vale também o inverso. Num segundo momento, os pais ensinam aos filhos que pedir socorro sem estar em perigo é extremamente perigoso. Uma, duas, três vezes. Na quarta a criança se afoga.

Entre os adultos, sempre muito preocupados com dinheiro e sexo, as assombrações, por tão evidentes, têm suas máximas. “Você compraria um carro de fulano?” é uma pergunta fatal. E quem escolhe ser galinha não pode reclamar quando passa a ser visto como refeição. Quando esfria, vira acompanhamento de farofa.

Na velhice o corriqueiro é mania de doença e lamentação. Contra a falta de atenção, o velho que apela para uma ou outra agrava a solidão. O resultado é a versão sênior da criança afogada.

Se não tem afeto envolvido, a coisa piora. Constituição de crédito financeiro demora, mas a destruição vem num sopro. Vale o mesmo para marcas de produtos ou serviços, com destaque para a imprensa, jogo de azar e moeda.

Em política o troço se multiplica. Bravateiros, alarmistas, quem promete e não entrega e, acima de tudo, os traidores, serão tratados na mesma moeda, tanto pela população quanto pelos adversários e principalmente pelos aliados de turno.

Mas o ponto alto, em qualquer lugar, é a figura do governante. Passada a campanha, onde tropeços e exageros podem ser relevados, para quem tem a caneta na mão o menor garrancho é borrão. Em um ou outro dá-se jeito. Mas o exagero acaba com a confiança até em papel timbrado, carimbado, assinado e com firma reconhecida.

O caso do governo Bolsonaro é o mais grave que eu já vi. Em cinco meses de mandato, a desaprovação popular já supera a aprovação (Atlas Político). Entre os agentes do mercado financeiro, o índice de ótimo e bom despencou de 86% para 14%; ruim e péssimo saltou de 1% para 43% (XP). Vertiginoso? Pouco se comparado à relação com o Congresso.

Ontem vimos algo inédito. Dois dias após conseguir manifestações populares pedindo, entre outras pautas, que o COAF ficasse com Sérgio Moro na Justiça, o governo trabalhou para que o conselho fosse mantido com PaGue na Fazenda.

Ante tamanho absurdo, foi necessário um ofício assinado pelo presidente da República e seus ministros para que os deputados da suposta base acreditassem na articulação. E mesmo assim, naturalmente, a turma desconfiou. Para quem governa e pretende continuar governando por decreto, o que já é uma temeridade em si, calcule como fica quando a palavra não basta e a assinatura é desconfiada.

Juntos nessa trilha, os dois ministros ainda populares, Moro e PaGue, não demora serão reconhecidos como Damares “Cinira” Alves, ChanCelerado, Salles ou o doidinho do MEC. Motivos já existem e vão além do COAF.

PaGue não diz qual Previdência realmente quer, elege Alexandre Frota como estrategista, embanana a Regra de Ouro, promete gás a dois dólares em sessenta dias, adota o SPCiro na Caixa, desfaz as instâncias de controle na Petrobrás, ameaça ir embora e fica. Quem é do ramo já desconfia. PaGuedes virou PaGodes. Brindemos ao Beato Salu.

Moro quer seu pacote aprovado sem apresentar dados e, quando a FIOCRUZ entrega um estudo sobre drogas que custou R$7 milhões, três anos e o trabalho de 500 profissionais, ele discorda e censura. Desconfia da FIOCRUZ, pelo amor dos vacinados! Coisa de maluco anti-vacina. Fosse vivo, doutor Oswaldo Cruz mandava tranca-lo e aplicava injeção à força, com gente na rua e tudo.

 
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Notre-Chico

O debate sobre o que deve ser feito da Catedral de Notre-Dame depois do incêndio aos poucos substitui o diz que diz que as doações instantâneas para reconstrução provocaram. Projetos divertidíssimos estão nas redes e valem algumas horas de lazer on-line.

Para mim o que vale é notar que as duas fases são inseparáveis para muito além da questão financeira. A Igreja tem dinheiro para refazer a Catedral? Sim e nem cócegas faria no caixa de São Pedro. Mas Notre-Dame é ainda mais importante para a França secular do que para a religião católica. Daí as doações.

A cultura construída ao longo da história francesa é a explicação para grande parte do valor que alcançam as coisas feitas por lá. Perfumes, queijos, vinhos, bolsas, malas, roupas com qualidade igual ou superior podem ser feitas em qualquer lugar do mundo. Mas um sapato feito na França será sempre mais valioso do que um similar feito em Franca. O mesmo vale para um vestido feito em Paris e não no Pari. Um queijo vagabundo metido numa lata azul, branca e vermelha, tende a ser mais valorizado do que algo bem feito que venha sem a tal denominação de origem controlada. Até a vodka deles vale mais que a russa.

Daí que a LVMH ter se prontificado em botar dinheiro num dos símbolos da cultura francesa não deveria espantar ninguém. Trata-se de consciência de valor. Mercado. Negócios. E respeito ao valor que a cultura agrega. Para religião os franceses não dão bola há mais de 200 anos. Já para arquitetura, urbanismo, beleza, história, arte, artesanato, moda, comida, turismo, tecnologia sempre houve apreço. Por acaso, são também as indústrias do futuro.

Mas uma coisa não elimina a outra. Notre-Dame sozinha recebia duas vezes mais turistas do que o Brasil inteiro somado e, receio, deve manter ou aumentar o número depois da tragédia. É quase o dobro dos visitantes do já superlotado Museu do Louvre que, também sozinho, ganha do Brasil. Talvez porque, aí sim, além de cultura a catedral contenha apelo religioso a milhões de devotos de Nossa Senhora espalhados pelo mundo.

Os franceses são gente boa e deram de presente uma estátua para o Brasil, o Cristo Redentor. A vista deslumbrante do Corcovado sobre a natureza do Rio de Janeiro, presente do Pai do Cristo, bastaria para atrair tantos visitantes? Talvez não. Agradeçamos à França, pois.

E melhor ainda se pudermos aprender um pouco com eles, que conseguiram sobrepor nacionalidade à política e separar esta da religião.

Na semana passada o Chico Buarque recebeu o Prêmio Camões, título mais  importante da Língua Portuguesa. O presidente de Portugal o parabenizou. O presidente do Brasil não deu um pio.

Provavelmente, assim como tantos por aí, Jair Bolsonaro não goste do Chico. Mas quanto vale a opinião pessoal do presidente da República neste momento? Como chefe de governo e de Estado de uma Nação que reúne 211 dos 290 milhões de pessoas que falam português ele está obrigado a se curvar ao valor do gênio criativo de um brasileiro que, se colocado em números, e não em letras, criou e esparramou muito mais riqueza do que, sei lá, as Forjas Taurus.

Salve a Construção de Chico e viva a reconstrução de Notre-Dame.

 
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Brasil partido

As manifestações do 26 de Maio serviram sobretudo para revelar quanto e o que é o bolsonarismo muscular, isto é, aquele original, sem a gordura que se acumulou com a exposição e comoção pós facada e levou Jair Messias à vitória eleitoral sem campanha, debate ou projeto.

Naquele então os índices de intenção de voto ficavam em torno de 15% e eram em corpo e alma muito semelhantes ao que se viu ontem nas ruas: não muita gente, mas suficiente para fazer barulho conveniente, principalmente porque muito louca e bem tangida.

São obviamente devotos do “messias”, que não explica a que veio nem para aonde vai. Concordam sobre o que querem destruir mas não sobre o que pretendem construir. Sintetizando, é uma massa reacionária, “contra tudo o que está aí”.

Bem orquestrado, o domingo bolsonarista teve êxito em conseguir organizar uma mensagem oficial, a favor das propostas dos superministros PaGue e Moro e contra os dois demais poderes da República, Legislativo e Judiciário, sendo a primeira com Rodrigo Maia e o Centrão como alvos principais, e a segunda através de uma sugestão de CPI da Lava Toga, sugerindo corrupção no STF.

Êxito este que disfarça o fracasso político no que realmente importa neste momento: construir pontes para governabilidade no sentido de aprovar as reformas pretendidas. Pior do que não conseguir construir novas pontes, abalou algumas que aderiram desde a eleição, em Brasília e no Brasil. Do Partido Novo ao MBL, passando por Davi Alcolumbre, DEM e facções do PSDB, chegando ao cúmulo de rachar de vez o próprio PSL, partido de Bolsonaro. Na sociedade o fracasso também é nítido, com influenciadores diversos que antes apoiavam o governo tratando de se afastar, vide Lobão e Danilo Gentili.

A convocação calculada, mensagem concentrada que de alguma maneira marginalizou pautas que o bolsonarismo muscular também representa, como intervenção militar, armamentismo, desprezo pela Educação e olavices em geral, e o roteiro dominical que amanhece num culto evangélico e termina com entrevista chapa-branca à TV Record, atesta método sofisticado na comunicação. Já o efeito, por ora, é imprevisível.

A razão indica que todo esse esforço seria mais produtivo se investido na organização da base política, numa mensagem mais clara sobre o que quer o governo, sem sinais trocados já na proposta da Nova Previdência, incluindo birra e vaivém do ministro da Economia; verborragia infecunda do ministro da Educação; envolvimento do ministro da Infraestrutura em janices como a do engavetamento de novos radares para melhorar a segurança no trânsito; aplausos a janices espontâneas do ministro do Meio Ambiente na Bahia, na Europa, na Amazônia.

Porém o bolsonarismo é feito de paixão. Se tivemos destacadas mensagens pontuais nas manifestações, o espírito geral que define o bolsonarismo muscular está numa camiseta bastante frequente entre seus adeptos e já desfilada pelo próprio Jair Bolsonaro, inclusive no dia da facada em Juiz de Fora. Sem margem para dúvidas, a mensagem diz “Meu partido é o Brasil”.

Ora, como poderia o Brasil, que é o todo, ser partido de uma parte? Se é partido, ou parte, não pode ser o todo. E quem acha que é mostra como pensa: quem não concorda comigo, está contra o Brasil. Nada é mais perigoso para uma democracia do que um grupo denso, de qualquer tamanho, pensando assim.

A experiência recente de “nós contra eles” que tivemos acabou mal e deveria ser superada, não agravada.

 

 
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