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Upa, upa, UPP

Rola pelas redes um texto que toca o terror para defender os incidentes na Cracolândia. A operação teria descoberto cadáveres, bebês teriam desaparecido, estupros e linchamentos seriam corriqueiros. Obviamente, motivos mais do que suficientes para prender e arrebentar. Será?

No Brasil temos cinquenta mil assassinatos por ano. Estupros? Pelo menos outros cinquenta mil, considerando só os denunciados. Abuso sexual infantil? Diga o Drauzio Varella: “O Ministério da Saúde divulgou dados alarmantes sobre agressões contra crianças no Brasil: o abuso sexual é o segundo tipo de violência mais comum na faixa até nove anos de idade e entre 10 e 14 anos, ficando atrás apenas das notificações de negligência e abandono, no primeiro intervalo, e violência física, no segundo. (…) Estima-se que 64% de todas agressões acontecem dentro da residência onde a criança vive, e a maior parte dos agressores é alguém de convívio próximo, como os pais, outros parentes ou ainda amigos e vizinhos”.

Faz o que? Chama o Exército? Será?

Os fuzileiros navais participaram das espetaculosas tomadas de favelas no Rio de Janeiro. Quem não se lembra das imagens aéreas do campo de batalha? Instalaram as chamadas UPPs e Sérgio Cabral Filho foi reeleito e fez o Pezão sucessor.

Programa exitoso, a violência no Rio despencou, o tráfico e o consumo de drogas idem e os marginais estão presos em Bangu. Ou estou enganado?

Ainda: quem quiser ver a nova filial da Cracolândia, está instalada na Praça Princesa Isabel, a menos de quatrocentos metros da matriz.

 
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Redenção ou redentora?

Já faz tempo, num almoço estendido, juntei duas mesas improváveis. A que eu almoçava reunia amigos mais velhos, dois deles antigos membros da Arena, partido que sustentava os militares. Na outra, turminha mais nova, militantes políticos em fase de idealismo 100%, quase sonháticos.

Causos políticos e muitas risadas. Harmonia. Então um dos cabeças brancas, Luiz Andolpho, contou uma passagem que começava assim: eu era vereador em Lins, naquela época não tinha sequer salário, fazia por convicção, então veio a Redentora. Interrompi dizendo que os cabeças pretas conheciam o episódio por outro nome. E ele: como queiram, Léo… veio a Revolução…

Lembrei disso acompanhando os desdobramentos dos incidentes na Cracolândia. A coincidência do nome do programa Redenção com o nome carinhoso que a ditadura merecia de seus entusiastas prendeu minha atenção.

Já botei aqui, também ontem, em Jogos de Criança 2 – Banco Imobiliário, minha opinião sobre o que está acontecendo. E volto hoje ao tema porque, não fosse a ação imediata das instituições que garantem a Democracia, teria sido ainda pior.

A Defensoria Pública meteu uma ação cautelar pedindo a proibição de internações à força de toxicodependentes e demolições fora da lei. A Justiça, claro, concordou.

Se você de alguma maneira discorda, freguesa, pense na próxima vítima. Digamos você e suas amigas com uma jarra de clericot, cigarros e risadas na calçada. Chega uma viatura e conclui que a patota é toxicodependente. Todo mundo em cana até segunda ordem.

Sobre a demolição sem aviso prévio dos imóveis, olhe agora para cima. Sim, o seu teto. Suponha que aquele puxadinho ainda não foi aprovado pela Prefeitura. Você não consegue regularizar e não quer molhar a mão do fiscal. E o seu IPTU, está em dia ou sendo discutido em juízo? Aquela viela sanitária que você resolveu cuidar – e cercar? Tudo muito frágil. Ouça o barulho das máquinas. Chispa daí antes que a parede caia.

 
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(In) Continência

Publiquei ontem meu palpite sobre quem seria o Coronel Mostarda na remota possibilidade de uma conspiração política por trás da delação assada pelo famigerado Joesley. Está aqui: Jogos de criança 1 – Detetive.

Curiosamente, Rodrigo Maia enviou ofício ao Palácio do Planalto pedindo que a Força Nacional, integrada por policiais e reservistas, garantisse a ordem. Quem sabe num ato falho, o Presidento entendeu Forças Armadas e botou o Exército na rua.  Ato contínuo, Renan Calheiros disse que “Se esse governo não se sustenta –é verdade, ou não é–, não serão as Forças Armadas que vão sustentar esse governo. E não dá para passar para o país a ideia de que o governo de Michel Temer vai dar certo por causa do Legislativo. Seria muita pretensão dizer isso. Vai dar certo ou vai dar errado por seus gestos”.

Isso não acontecia desde que, a ditadura militar, em seus estertores, derrotou na Câmara a emenda Dante de Oliveira, que previa a volta das eleições diretas para presidente. A rua estourou e os quartéis reagiram. O resto da história esta freguesia conhece.

Eco 92, Copa do Mundo, Jogos Olímpicos, leilão de petróleo, parada do Sete de Setembro e quaisquer outras passagens de tropas do Exército por uma cidade brasileira foram programadas, não cabendo paralelo.

 
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Jogos de criança 2 – Banco Imobiliário

Neste caso eu gostava de imaginar que o dinheiro de brinquedo valia na cantina da escola, no balcão da padaria, no Frevo, no New Dog. Não haveria, como se diz, garçom triste nos meus sonhos infantis.

Avançar pelas casas, aquele vaivém, de modo geral não me interessava. Mas gostava de imaginar cidades boas para viver. Não na dimensão de São Paulo, claro. Era tudo algo como as colônias das fazendas, com casas pequenas, jardim na frente, quintal no fundo, pomar e galinheiro comuns, pracinha, campo de futebol com a terra batida, cães sem dono queridos por todos, a reunião dos velhos e dos vagabundos na mercearia. Talvez seja o mesmo traço de personalidade que me me faz gostar dos centros históricos, dimensionáveis, compreensíveis.

Ontem chegaram as notícias dos desdobramentos da operação policial na Cracolândia matriz. Só para constar, um exagero absurdo. O chamado fluxo se concentra em duas quadras, vizinhas das sedes da Rota e do Deic. E no entorno os dependentes químicos vagam ou se amontoam sob as marquises. Creio que impedir a chegada de armas e drogas não seria tarefa impossível. Ou que pelo menos haveria maneira mais eficiente de desbaratar aquele drama humano do que espalhando dependentes químicos com bombas e cães.

Passei por lá, a pé, várias vezes, de dia e de noite, indo ou voltando do teatro Porto Seguro, do restaurante Gema, da Sala São Paulo, da Pinacoteca, da escola Tom Jobim, do Bar Leo, da Folha de São Paulo. É uma tristeza abissal a condição das pessoas. Mas não há ameaça de violência física. Havia, aliás, um acordo tácito da Guarda Civil com o fluxo. Diariamente organizava-se o “recuo da bateria” e um caminhão desfilava recolhendo lixo, seguido pela ala de varredores, finalizado por um caminhão pipa. Todo santo dia antes de escurecer. Diálogo possível, portanto.

Fizeram o que fizeram. No dia da Virada Cultural. Que aliás foi a menos feliz desde que começou. Com direito a uma carta do Ministério Público proibindo manifestação política, produzida numa reunião com um vereador do PMDB. Mas vamos adiante, insistindo só numa pergunta: existe manifestação cultural apolítica?

O que se seguiu foi uma ainda mais desastrada tomada da região, com a Prefeitura atropelando imóveis sem aviso prévio. Um casal dormia quando uma parede tombou sobre leito. No imóvel vizinho um bebê de dez meses ouvia as máquinas no colo da mãe. O dono de um bar teve que deixar pra trás seu negócio, seus pertences. E uma inquilina perguntava se seria indenizada com o valor correspondente a antes ou depois da Cracolândia.

Presente no local, o prefeito João Doria pirulitou-se. Horas depois não participou da coletiva de imprensa, deixando para os subordinados descascarem o abacaxi do 23 de maio. Fato raro, seu perfil-exaltação no Facebook foi dormir com um post sobre a restauração do Viaduto Santa Efigênia, o mais bonito da cidade. Ótima notícia. Adoniran deve ter compartilhado com Eugênia. Sobre a Cracolândia, nem um pio. Acho que Mato Grosso quis gritar, com razão. E quando Zeca diria que Deus dá o frio conforme o cobertor, reparou que a GCM recolhera os cobertores.

Defesa Civil, Direitos Humanos, Patrimônio Histórico, conselhos e outras autoridades precisam se posicionar. Arthur Pinto Filho, membro da área de saúde do Ministério Público classificou o conjunto de ações como um desastre. E revelou a existência de um planejamento pactuado que foi descumprido pela polícia e pela Prefeitura.

Mais distante e não menos importante, a MP que reduz a área de proteção ambiental na Amazônia passou no Senado e segue para sanção do presidente da República – seja lá quem for. Definitivamente, o molho ficou mais caro que o frango.

PS: Ao Reinaldo Azevedo, minha solidariedade. A Procuradoria Geral da República feriu a Constituição.

AVISO: o conteúdo foi alterado (o segundo parágrafo havia sobrado na publicação).

 
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Jogos de criança 1 – Detetive

Diante do tabuleiro, minha torcida era pelo Coronel Mostarda com o candelabro, quiçá no salão de jogos. Não me lembro das regras e tampouco se torcia para o Mostarda ser culpado ou inocente. Com exatidão só posso afirmar que gostava do candelabro pela forma e sonoridade da palavra. Talvez a sonoridade do Coronel Mostarda também agradasse. Curiosamente, anos mais tarde alguns amigos, Zito, Nabuco, Gui, Sérgio, montaram um bar com o mesmo nome na rua Araçari. Que em tupi significa tucano de bico curto e pouca plumagem. Fui assíduo.

Hoje, jogando Detetive diante dos jornais, considerando a hipótese do Joesley ter apoio político na construção da sua delação, digo, ser parte de uma conspiração maior do que a vontade de salvar a própria pele, meu palpite seria Renan Calheiros com o Rodrigo Maia numa salinha qualquer.

Explico: Renan vinha se distanciando do governo e chegou a romper publicamente com o Presidento. No Congresso tem força. Pode ser oculta, mas existe e é grande. Basta lembrar da votação secreta que enfrentou no processo de cassação no Senado. Consta que se valeu de dossiês robustos no discurso em que enquadrou até o mais probo e eloquente dos senadores, seu adversário, hoje aposentado.

Maia, minimamente, foi eleito presidente da Câmara. E é o primeiro na linha sucessória em caso de vacância da Presidência da República.

Ambos não aparecem nas gravações apresentadas pelo Joesley. Será tudo sagacidade? Serão menos ingênuos que Michel Temer?

PS: Ao Reinaldo Azevedo, minha solidariedade. A Procuradoria Geral da República feriu a Constituição.

 
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Os castelos de areia do Presidento

Em 2009 o escândalo da vez chamava-se Castelo de Areia. Chegaram à Polícia Federal gravações que mostravam esquemas de corrupção no Grupo Camargo Corrêa.

As investigações avançaram sem os chamados “vazamentos seletivos” que acontecem na Lava Jato. Mesmo assim alguns nomes vieram à tona. O ex-governador José Roberto Arruda, aquele do alface, preso hoje pela PF na Operação Panatenaico, que investiga o rolo no estádio Mané Garrincha; Elton Zacharias, secretário de Habitação do então prefeito e atual ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações Gilberto Kassab; Adhemar Palocci, irmão de Antonio Palocci, que está preso pela Lava Jato; e… Michel Temer, citado 21 vezes.

Dizem que era batom na cueca. Mas em 2011 o processo foi encerrado porque as gravações (ou a cueca) não serviam como prova por serem ilegais. E, obviamente, os personagens acima e outros tantos negavam as denúncias.

Agora a Camargo Corrêa está na Lava Jato. Suponho que a PF, de posse de todo esse material, usará as informações para inquirir os acusados ou, como parece que vai acontecer, negociar o prêmio dos delatores. E a ordem dos fatores vai alterar o produto. Isto é: provas novas e válidas serão geradas com base nas provas velhas e inválidas. A ver.

O escândalo da vez envolve Michel Temer, Joesley Batista e uma gravação clandestina feita na garagem do Palácio do Jaburu. Igual no caso da Castelo de Areia, o Presidento tentar desqualificar o valor de prova da gravação para se safar. Mas se esquece de negar o conteúdo que revela diversos crimes. Tudo o que alcança é se incluir na desqualificação, dizendo-se ingênuo, sonolento, sem memória.

Quer dizer, mesmo que o áudio tenha sido editado, a relação entre os casos também foi. O enredo do filme da Castelo de Areia, que durou anos, virou uma minissérie de uma semana com a JBS, especialista em cortes. Ou seja, no final, com gravações válidas ou não, os fatos vencerão.

Nota extra: minha paciência com a teoria da conspiração que grassa na cracolândia das redes sociais acabou. Volta Lula? JBS, Globo e PT unidos contra Temer? Nem Jó aguenta. Joesley falou das contas suíças com cento e cinquenta milhões de dólares para Lula e Dilma.

Não serve? Lembre, freguesa, de Lula e Dilma, há pouco mais de um um ano, também numa gravação, com ela mandando o tal Bessias e ele profetizando o “tchau, querida”. Era a tentativa de tornar Lula ministro e garantir foro privilegiado. Sabe qual é a pauta urgente hoje no Congresso? Reforma da Previdência? Não. Votar a medida provisória que garante privilégio de foro a Moreira Franco.

Pense que, renunciando, Temer perde o foro e pode ser preso. Se ficar no Planalto, fazendo o país sangrar, sangra e enfraquece também a Justiça, fortalecendo o discurso do Lula de que são todos iguais.

E num raciocínio inverso, julgado e preso pelos crimes revelados na gravação serviria como pá de cal sobre o discurso de que a Justiça é parcial e, Lula, perseguido político.

O que você acha que Luís Inácio prefere? a

 
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Confiscar a JBS Friboi?

Professor de Direito do Mackenzie e advogado falencista destacado, Jeremias Alves Pereira Filho criou um grupo para debater se cabe confiscar a JBS. Eis a mensagem:

“Sou pelo confisco liminar das empresas, afastamento e prisão dos controladores e diretores, nomeação de administrador privado idôneo, continuidade dos negócios e reversão do lucro líquido ao Tesouro Nacional.

Alguém teria legitimidade e culhão para requerer à presidente do STF????

Aliás, igualmente quanto TODAS empresas envolvidas em corrupção e com pedisos de leniência.

‘Sesse’ nos USA…”

Pelo WhatsApp compartilhei a mensagem e recebi três respostas interessantes. Um amigo do mercado financeiro disse que não há legislação prevista e que os acionistas precisam ser protegidos. Concordo. Não sou especialista mas entendo que os acionistas preferenciais (sem direito a voto no conselho) não devem pagar o pato.

Outros dois amigos, estes advogados, um criminalista e o outro societário, concordam que não há base legal. E o criminalista, que tem um viés forte de militância política, acrescentou que abriria um precedente perigoso para a ditadura civil.

Repito: sou palpiteiro, não especialista. E de pronto emendo que os acordos de leniência, desde que equilibrados e feitos com empresas que, apesar de envolvidas em corrupção, não são essencialmente feitas dela como no caso da JBS/Friboi, podem ser benéficos.

Sobre base legal, vejamos. Uma fazenda improdutiva pode ser desapropriada e entregue à reforma agrária. Se tiver desmatamento ilegal e/ou trabalho escravo, salvo engano, também pode.

Ontem, na Cracolândia matriz em São Paulo, houve uma operação policial que dispersou o fluxo e desocupou hotéis e pousadas que se destinavam ao tráfico de drogas. A promessa da Prefeitura é desapropriar, demolir e destinar as áreas à habitação popular. (Sobre direitos humanos, uso social de imóveis em geral e patrimônio histórico falamos depois.) Se é possível proceder assim com hotéis e pousadas envolvidas com crimes, por que não com uma S.A.?

 

Quem quiser contribuir, o e-mail do professor Jeremias é: jeremiasadv@jeremiasadv.com.br

 
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Tchau, querido

Apoio, apoio mesmo, se é que teve algum dia, o Presidento não tem mais. A quadrilha palaciana que o conforta não conta. Se alguém achar diferente, por favor se manifeste.

O próprio Temer, advogado constitucionalista, não tem defesa melhor do que alegar que estava com sono, que é uma figura ingênua, ou que o Joesley Batista é um bandido falastrão que age nos subterrâneos. Deve ser por isso que o ora revelado bidu de Alto de Pinheiros o recebeu às 22h30 no subsolo do Jaburu.

Parenteses para lembrar que José Yunes, que de falastrão não tem nada, afirma ter contado a seu melhor amigo Temer a história da compra de 140 deputados no esquema Cunha-Funaro-Padilha.

Sobre achar “ótimo, ótimo” um empresário polinvestigado manter na algibeira dois juízes, um procurador e esquemas diversos que vão do CADE ao FGTS, nada.

Pior: mentiu dizendo que a famigerada visita naquele sete de março foi motivada pela operação Carne Fraca – que só viria a acontecer no dia 17. Mesmo que Temer estivesse informado, Joesley não poderia estar. E, se estivesse, ou se o Presidento supôs que estivesse, a situação fica ainda mais grave.

O que há em torno do governo atual são dois argumentos emocionais. A eles.

Primeiro o medo da volta do Lula baseado numa teoria de conspiração envolvendo Globo, JBS e PT. Tudo arquitetado pelo Zé Dirceu, que está “solto”. Pausa para gargalhada. Estou com a Monja Coen: rir ajuda aguentar a dureza.

N’O Poderoso Chefão III don Corleone aconselha um sobrinho paranoico, obcecado por um inimigo: “Não odeie seu inimigo. Prejudica o raciocínio”.

Você que odeia o Lula, pense nisso por gentileza. O ódio e o medo podem estar te cegando, estreitando seu raciocínio. Não é razoável contratar um vilão para te proteger de outro. Por sinal, assim começou a máfia, séculos atrás, e até hoje não conseguiram se livrar dela.

O segundo argumento é a manutenção da agenda reformista. Ok, o governo não foi eleito com esta agenda que aliás é reprovada por dois terços dos brasileiros. Mas ninguém pode negar que pelo menos é uma agenda. Um norte.

Pergunta: o Presidento é a pessoa adequada para liderar essa agenda? Você o contrataria para pilotar um navio? Com Moreira Franco, Eliseu Padilha e Rodrigo Maia na galera?

Eu não. E duvido que você sim. Então bola pra frente. Quanto menos tempo o Temer durar, melhor. Tchau, querido.

 
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Temer, Joesley, Aécio, Doria e o vocabulário

Um dos meus martírios é ter memória. É irritante, constrangedor. E o pior é que se sobra em alguns temas, conferindo certa reputação, em outros falta. Nomes de lugares e pessoas, por exemplo, me escapam com frequência. E isso, sabe-se, pode magoar alguns. Ser bom fisionomista com predileção por detalhes e situações agrava. Gente se decepciona quando nos lembramos de passagens sem registrar os nomes próprios. Faço o que posso para corrigir mas a luta é inglória.

Dito isto, vamos à passagens recentes que emergiram neste hipocampo na quarta-feira passada após o furo do Lauro Jardim, n’O Globo.

O mesmo Lauro, no fim de fevereiro, publicou uma entrevista com José Yunes, então assessor especial da Presidência e primeiro-amigo do Presidento. Comentei aqui.

Yunes revelou que contou pessoalmente a Temer sobre o plano de aquisição de 140 deputados envolvendo Eduardo Cunha, Lúcio Funaro e Eliseu Padilha. E o Michel? Reagiu “com aquela cara de serenidade (risos)”.

Será a mesma cara que Joesley Batista viu no Jaburu enquanto contava ao Presidento sobre dois juízes, um procurador da força tarefa da Lava Jato, esquemas no FI-FGTS, CADE e outros bichos? Provavelmente.

Não é de hoje que o Presidento, na mais magrela das hipóteses, prevarica. Agora tenta manter a bunda no Planalto alegando cortes na gravação do Joesley. Diz inclusive que atacam seu vocabulário e sua inteligência. Por favor… Os cortes da Friboi são picanha, fraldinha, maminha. Estão incinerados e o Temer querendo discutir se a carne fora bem salgada? Respeite ao menos a inteligência do povo brasileiro. Pede pra sair que dói menos. Principalmente na carne de quem não come churrasco há alguns meses.

E o João Doria, estarrecido com o vocabulário, mas do Aécio Neves? Para ele, aparentemente, a vulgaridade da forma é pior do que o conteúdo. Para mim, pior é a minha memória.

Durante a prévia do PSDB que escolheu João candidato a prefeito em São Paulo, o Painel da Folha trouxe o seguinte Contraponto:

Quarto errado?

Em 2014, Aécio Neves rumou a São Paulo para um evento de campanha. Chovia torrencialmente, mas o então presidenciável havia se comprometido a encontrar com um empresário que fora convencido por João Doria a contribuir com a sigla. Com o discurso de agradecimento ensaiado, Aécio abriu a porta do quarto de hotel reservado na capital para o encontro com o generoso apoiador:

— O que é isso, gente?! — reagiu com sorriso amarelo, ao ver Doria e o empresário trajando apenas roupões.

A chuva os deixara ensopados e eles aguardavam as roupas secarem. Aécio só se acalmou e caiu no riso quando viu seus assessores na sala devidamente trajados.”

Muito bem. Tratando-se de forma, não me parece menos vulgar fazer reunião de doação de campanha em quatro de hotel. E não consta que João, patrocinador de advogados céleres em notificar extrajudicialmente internautas que o ofendem nas redes sociais, tenha processado a Folha por notícias falsas, pós-verdade ou coisa que o valha.

Então ficam as perguntas: 1) Quem era o empresário? 2) Por que a reunião em quarto de hotel e não em um escritório ou lugar público? 3) A doação se confirmou? 4) Quanto foi? 5) Foi declarado? 6) Quem eram os assessores/testemunhas presentes? 7) O senhor costuma fazer esse tipo de ponte entre políticos e empresários?

 
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Sai daí, sai logo, Presidento

Há por aí gente moderada defendendo o governo do Presidento. Quiçá por duplo excesso de expectativas. Primeiro com os efeitos das reformas trabalhista e da Previdência, que mesmo atropeladas, antagônicas e paliativas, sobretudo ante o novo cenário global do emprego e da longevidade, servem para acalmar “os mercados”. Não por acaso, é a mesma turma que crava a promoção do ministro Henrique Meirelles à Presidência da República em prováveis eleições indiretas, como prevê o Livrinho.

Depois pelo destaque que o aval presidencial à mesada da JBS para manter o silêncio dos presos Eduardo Cunha e Lúcio Funaro teve no furo do Lauro Jardim sobre a gravação do Jaburu. Por conveniência ou, na melhor das hipóteses, desatenção, minimizam o fato do empresário notoriamente corrupto ter visitado a intimidade do Presidento de noite, na surdina, e conversado com naturalidade sobre um procurador e dois juízes que mamavam nas tetas da Friboi, acertos no CADE, jeitinhos com Geddel e Henrique Alves “trabalhador”, e inclusive a “interlocução” temerária do Planalto com dois ministros do STF. Quem seriam? Gilmar? Alexandre? Façam suas apostas.

São Pedro também está contribuindo. Ainda que cada vez mais distante de qualquer coisa que possa ser classificada como moderação, o porteiro do Céu ajuda o governo. Em pleno maio, mês sem erre, na noite de quarta-feira choveu forte em Brasília. E São Paulo nesta sexta está debaixo d’água e não alcança vinte graus. Sabemos todos que brasileiro não topa chuva. Qualquer garoa esvazia a rua. Bravos são aqueles ucranianos que protestam com neve e menos quinze no termômetro.

A turma que ainda apoia o PT chegou a fazer evoluções na Paulista sob chuva e na Cinelândia. Já a turma dos trios elétricos, vulgarmente conhecida como “movimentos de rua”, se parece cada vez mais com os velhos partidos políticos. Ora ataca, ora apoia, dizem que sim mas que não muito pelo contrário, melhor aguardar. Esqueceram a célebre foto com Eduardo Cunha recebendo o pedido de impeachment.

Parênteses para o Meirelles. Como é que ele explica sua passagem pelo Conselho do grupo JBS? Ficou lá e não viu nada? Assim como a Dilma no conselho da Petrobrás? E antes disso, quando esteve no Banco Central. Foi informado da crescente grana viva sendo sacada nos caixas dos bancos, ora revelada. É automático. Quais providências tomou?

Parênteses para Aécio. Porra, caralho, heim? Que merda, peba. O advogado dizer que era dinheiro emprestado de um amigo para pagar a defesa? Depositar na conta do Perrela? E, pra não dizer que não falei das flores: João Doria, em lamentável entrevista à Jovem Pan, não foi perguntado sobre Rodrigo Rocha Loures, aliviou para Temer e atacou Aécio. Mas para o nosso prefeito, o problema está na forma, não no conteúdo.

Parênteses para Temer, que a aliados teria atribuído deslizes no colóquio palaciano ao sono. Como diria um erudito dado a trocadilhos, flácidos colóquios para acalantar bovinos. Ou conversa mole para boi dormir.

Parênteses para Joesley. Tendo a forma física elogiada pelo Presidento, agradeceu e deu a receita: “não é comer pouco, é comer bem, menos doce, menos industrializado”. Falou o maior produtor de nuggets do mundo.

Ainda o Joesley, incluindo o Wesley, o ministro Meirelles, o presidente do BC Ilan Goldfajn e a CVM: quais medidas serão tomadas sobre a compra de dólares na véspera da crise? O acordo da JBS com a Procuradoria foi generosíssimo, coisa de duzentos milhões de dinheiros em multa (Odebrecht/Braskem morreu com mais de seis bilhões), mas terá incluído permissão para usar informação privilegiada no mercado financeiro? Não pode ser. É crime novo, flagrante, e deve ser apurado.

Coisa boa – e agora a expectativa é minha – é a sagração da chamada operação coordenada da Polícia Federal, onde o delator combina a colheita das provas. Pode ser o caminho para evoluirmos para o que os americanos chamam de Lei do Tocador de Apito (Whistleblower), que por aqui poder-se-ia chamar Lei do Tocador de Berrante. Basicamente, quem vê coisa errada onde trabalha, e cala e consente por medo de perder o emprego, pode recolher provas e levar às autoridades. Ao cabo do processo, fica com uma comissão da multa aplicada.

Para encerrar, o que vem pela frente é o seguinte. Igual a Bolsa que despencou e o dólar que disparou pela baixa imunidade do país, como há muitos anos não acontecia, o Presidento, que já era fraco, está muito mais vulnerável. Se as medidas, mesmo as exitosas, custaram tão caro ao país por pressão dos parlamentares e setores da sociedade, agora ficou mais caro. Muito mais caro.

Sai logo, Michel. Você já está atrasado há anos, desde quando viu o descalabro da Presidenta, calou, insistiu, e só tomou posição quando foi conveniente. Sai daí! Faz as malas, Marcela.

 
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