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Cidade e cerveja

Crônica publicada no Esquina/Estadão em 16/03/2018

Incrédulo, vi um amigo pedindo caipirinha com cachaça Anísio Santiago, que ficou conhecida tanto pela peleja com a marca de rum que leva o nome da cidade de Havana em torno do registro da marca, quanto pelo preço que atingiu embalada pelas qualidades reconhecidas. Na casa havia limão galego e gelo de primeira qualidade, donde não seria razoável supor que o resultado tenha sido ruim. Por outro lado, é óbvio que, considerando os fatores envolvidos, o resultado seria equivalente usando uma cachaça bem mais modesta.

As coincidências entre cidades e bebidas não ficam nos nomes de origem ou no desperdício derivado do exagero. Há, por exemplo, uma piada famosa envolvendo as cidades e suas bebidas mais conhecidas. Quem conta é um escocês simpático que trabalha como embaixador do uísque Johnnie Walker. Palestrando em Atlanta, ouviu uma provocação: “Aqui gostamos de misturar o seu uísque com Coca-Cola.” Diplomaticamente, o escocês devolveu o seguinte: “Well, lá em Glasgow eu diria que estraga o uísque. Aqui em Atlanta, afirmo que estraga o refrigerante.”

Em São Paulo, minha dor de cabeça mais frequente tem um endereço: o final da Avenida Paulista. Aquele platô que marca o encontro com a Consolação é minha rebordosa. A arquitetura do entorno é inebriante. Dos clássicos edifícios Gibraltar e Anchieta e os recém-nascidos IMS e o projeto novo do escritório Botti-Rubin – talvez ainda pagão. Tem o bar Riviera, o cine Belas Artes, horta comunitária na Praça do Ciclista. E debaixo, o túnel que vem da Doutor Arnaldo mostrando o que a avenida seria caso ele continuasse até o platô lá do começo, no Paraíso.

Mas o século vinte escolheu o inferno. A ressaca. De espaço público pensado para as pessoas há uma passagem subterrânea. Já para os carros a composição é tão diversa e absurda que foi parar num monólogo do Juca de Oliveira. Ele cita uma por uma as pontes, alças e passagens e conclui: “Claro que o Hospital das Clínicas e o cemitério do Araçá tinham que estar ali.”

Fico imaginando como foi agradável parar ali ao longo dos tempos. Descansar e contemplar a vista depois de subir o morro no caminho do Centro até Pinheiros. Córregos correndo até rio sinuoso lá embaixo, o charco fértil, quiçá as copas das araucárias. Olhar e imaginar aonde os caminhos poderiam nos levar. E hoje olhar pensando se chegamos ao ponto de não-retorno ou se haverá consolação possível.

Quero acreditar que salvação há. Inclusive para chegarmos a terras estrangeiras viajando pelos nossos rios. Cem metros Paulista abaixo embarcamos no rio Pinheiros, navegamos até o Tietê rumo ao sertão, chegamos ao Paranazão e, quando percebemos, estaremos no rio da Prata, alcançando Buenos Aires. Que tal? Falta uma obra ou outra, de despoluição à eclusa em Itaipu. Nada demais… O que importa é que eu estou procurando um jeito de chegar lá desde o primeiro parágrafo, para falar de bebidas e cidades.

Outro dia o Blog do Empreendedor do Estadão trouxe o problema do vinho na Argentina. Estão perdendo espaço para as cervejas. A hipótese levantada é que a sofisticação inventada pelos novos gerentes de marketing acabou por constranger e afastar os bebedores de sempre, gente comum, que bebia por prazer e sem frescura, misturava o vinho com soda, juntava os amigos em volta do garrafão, da brasa e era feliz. Agora com isso de taça adequada à uva, aromas imaginários, cores psicodélicas e outras afetações, além de preços injustificáveis, a turma ficou com preguiça e mergulhou na cerveja.

Não há motivo para duvidar. Gente sensata vem fazendo o mesmo alerta há anos. O Julio Iglesias, que já nasceu espanhol e rico, e ganhou mais dinheiro com futebol e música, reúne todas as ferramentas para beber o que há de melhor no mundo. Dizem que no Caribe envelhece suas garrafas numa adega submersa. Mesmo assim, numa entrevista à Marília Gabriela, perguntado sobre como identificar um grande vinho, foi sucinto: “Abra uma garrafa e compartilhe com os amigos. Se a conversa melhorar o vinho, é bom. Se piorar, abra outra.”

O fenômeno não é exclusivamente argentino. Um amigo que é do ramo me contou que o consumo de vinho arrefece no mundo inteiro, inclusive na Europa. E acrescenta que em Paris já há mais brasseries do que na Bélgica. A exceção são os Estados Unidos, onde tudo cresce: cerveja, coquetelaria e vinho. Dada a polarização política por lá, pode ser que metade do país esteja bebendo para esquecer, e a outra metade para comemorar.

Meu palpite vai além. Penso que a explosão do mercado de cervejas (e gins) artesanais guarde alguma relação com a urbanização no mundo. Sabemos que cada vez mais pessoas moram nas cidades, e tanto a cerveja quanto o gin são bebidas essencialmente urbanas. Podem ser feitas e consumidas em pequenos estabelecimentos, precisando, além de cereais, respectivamente de água e álcool, e dispensam envelhecimento. Enquanto o vinho requer espaço, vasto e específico, em todos os estágios de produção, impondo uma condição rural e distante.

Outros fatores que podem contar são a sensação de pertencimento, de vizinhança, um apelo semelhante ao da “comida caseira” ou das padarias, tão próprio das paróquias; o custo-benefício para o consumidor, posto que a maior parte do preço de uma cerveja está na embalagem e no transporte; e mais distante mas ainda relevante, a sustentabilidade que vem da economia de recursos naturais que a mistura de todos esses fatores, incluindo o viver em cidades, proporciona.

O caminho inverso também é verdadeiro. Nesse universo distrital o produtor ganha em sensibilidade e sintonia com o consumidor, e não sendo uma grande companhia, tem mais agilidade nas adaptações, driblando com facilidade os movimentos lentos das gigantes multinacionais.

Londres, que chega a emprestar o nome à mais conhecida receita de gin, esteve perto de uma revolução contra a monarquia em 1736. A turma estava bebendo demais e a Coroa quis proibir. O povo respondeu: “No gin, no king”. Vá lá que a estratégia foi algo desastrada. A fim de inflamar as massas, os produtores e donos de bar serviram uma rodada mais generosa na noite de véspera, e o resultado foi que ninguém acordou para a manifestação. Mesmo assim, a coroa perdeu. E hoje a cidade assiste satisfeita a volta das destilarias aos bairros centrais.

Em Nova York, as chamadas breweries se proliferam e recuperam bairros isolados. Os galpões das antigas fábricas que deixaram a cidade são alugados pelos cervejeiros, atraindo turistas e moradores, que além de beber, assim como as fábricas preferem estar perto das linhas de trem.

São Paulo segue pela mesma serpentina. O Plano Diretor de 2014 pela primeira vez autorizou a instalação de cervejarias no perímetro urbano, com algumas variáveis relacionadas ao porte. O efeito é que os produtores, antes obrigados às fábricas compartilhadas, sentam praça. Como mostrou a Heloisa Lupinacci no Paladar Estadão, a Tarantino instalou seu galpão no Limão. Nas Perdizes, a Trilha já produz pequenos lotes, assim como a Dogma em Santa Cecília.

Se a cerveja é mesmo a melhor amiga da cidade, só o futuro dirá. O passado aponta que sim. No tempo em que o platozão da Paulista era um ermo alto no caminho para Pinheiros, a cervejaria Antarctica entregava o parque homônimo na Pompéia, o hospital alemão Oswaldo Cruz no Paraíso, o Bosque da Saúde. Em Buenos Aires há o Parque de la Cerveceria Quilmes. E aqui no Estadão tem mais história, no papo do Edison Veiga com o Diógenes Sousa no blog Paulistices.

Para o presente o que temos é conversa de botequim e um trocadilho: cerveja serve tanto para consolação quanto para inspiração.

 
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Aonde não vamos parar

Crônica publicava no Esquina / Estadão em 14/02/2018

No fundo do coração da cidade de São Paulo pulsa uma biblioteca. Literalmente. Quem passa pelo número 140 da Praça João Mendes, a poucos metros do marco zero instalado em frente à Catedral da Sé, pode não se dar conta, mas ali sob o quase cinquentão Sebo do Messias, estão organizados mais de 300 mil livros, além de revistas, discos e aparelhos de som capazes de reproduzi-los. É o maior sebo do Brasil.

Onde cabe tamanho acervo num sobrado quase todo ocupado por estantes de loja? No subsolo, que já foi uma garagem. Plano, com pé-direito alto, comunicação por rampas entre os pisos e boa ventilação, o local é ideal para a função. E lá também trabalha o pessoal da triagem, com luvas e máscaras, não para se proteger dos gases de outrora, mas da poeira que por vezes se acumula nas coleções de quem decide vender, proporcionando o incomparável aroma dos ácaros.

Recomendo. Não sendo uma raridade, é o melhor destino que se pode dar a uma edição excedente, desde que se compreenda que do preço de venda será subtraído o valor do serviço de organização e preservação. Se a saudade bater, basta voltar lá e resgatá-lo, o mesmo ou outro exemplar. E a sensação de poder compartilhar, além de boa recompensa, nos encaminha para o assunto proposto.

O compartilhamento de automóveis já passou de tendência à realidade. Claro que o fetiche automotivo, marca do século vinte, resiste. É muito forte e ainda vai se demorar na gente. Mas já teve dias melhores. Ou piores. Cada vez mais se ouve comentários: “Lá em casa ficamos com um carro só.” E o melhor: “Meu filho fez dezoito anos e nem pensa em tirar habilitação.”

Aplicativos de carona, táxi, bicicleta, transporte público, pedestrianismo. Caminhamos, com trocadilho, nesse sentido. Cambaleando, mas com avanços.

A General Motors mundial, que planeja um carro elétrico, quiçá autônomo, para ser alugado e não vendido, é a mesma que no Brasil pressiona o Governo Federal pela manutenção de incentivos arcaicos, como o Inovar-Auto, ora batizado, pasme você, Rota 2030.

Os governos, sobretudo os inebriados por cálculos eleitorais, tropicam proporcionalmente. Com um terço da frota municipal em situação irregular, seja por calote no IPVA, licenciamento ou multas, o xodó do prefeito de São Paulo é o programa Asfalto Novo, pacote que inclui vasta publicidade e sai de 100% dos nossos bolsos. Nada obstante aparecer mais na televisão do que na rua, é uma política antiga e excludente, tanto no plano social quanto no financeiro. Enquanto isso, para o terço da população que é exclusivamente pedestre, sobra o Calçada Nova, uma agenda de factoides reservada a pequenos trechos e postagens dominicais nas redes sociais.

O mercado imobiliário mostra números parecidos. Um estudo da Poli-USP de 2012 mostrou a evolução ano a ano da área construída para abrigar carros em São Paulo. Até 1930, as garagens eram raridade. Trinta anos depois, com o aumento dos prédios de apartamentos, saltaram para 13% da área construída. Até atingir, em 2001, a inacreditável marca de um terço de tijolos assentados para guardar carros, não pessoas. Desde então houve uma diminuição e o número oscila em torno de 25% – que ainda é abjeto.

Porém há o lado bom, que se revela em duas facetas. Desde o Plano Diretor de 2014, que incentiva a construção de moradia com uso misto e no máximo uma vaga por unidade, a demanda por lançamentos livres de garagem, que chegam a custar R$ 60 mil a menos, puxa a tendência, e estes já representam 25% das novas unidades. Os números, de 2015, são da consultoria imobiliária Geoimóvel.

Outro ponto positivo é a transformação das garagens. Qual o Sebo do Messias, um velho estacionamento em Pinheiros, na rua Cônego Eugênio Leite, foi transformado em restaurante. É o Futuro Refeitório, instalado em um galpão que teve as características da função anterior mantidas pelo arquiteto Felipe Hess. O amplo vão, com pé direito de galpão, se transformou em um lugar aconchegante, com direito a lareiras, grandes vasos de plantas e sofás em couro. Aberto desde as 8h00 até o último freguês, vem passando os dias com tráfego intenso.

Outro marco da mudança é o Santos Augusta, prédio que nasce como ícone na esquina que lhe empresta o nome. Mantido como estacionamento por longo período, o terreno recebeu investimento de R$ 80 milhões da incorporadora Reud, dos irmãos Tchalian, que fizeram história no setor calçadista e parecem determinados em ver os paulistanos gastando mais as solas dos sapatos. Com projeto do festejado arquiteto Isay Weinfeld, terá o térreo aberto para a rua, oferecendo bar, café e wi-fi grátis, além de teatro com 230 assentos e palco de 450 metros quadrados sob direção do Emílio Kalil, que já dirigiu os municipais de São Paulo e do Rio. Vapores, ali dentro, só os da família Tatini, velha conhecida da cidade pela excelência do serviço em réchauds nos seus restaurantes.

Do outro lado da calçada as garagens também já receberam sugestão de adaptação. Durante a crise hídrica de 2015, Paulo Mendes da Rocha, nosso arquiteto querido, propôs transformar os subsolos do Conjunto Nacional em cisternas. Há alguns anos, no meu blog, anotei que um bom destino para as garagens seria salas de cinema, teatro, música, exposições e conferências nos bairros. No clube onde sou sócio, vira e mexe algum infante reclama um dos pisos de guardar carro para a prática de skate. No setor de transportes, as dificuldades em manter o abastecimento em harmonia com as paróquias aponta para pequenos centros logísticos, destinados à última milha da carga.

As possibilidades são infinitas. E as perguntas também. Passo diante dos shoppings, vejo os anexos destinados a garagens e me pergunto: quanto valeria o metro quadrado corporativo no Iguatemi, no Morumbi, no Eldorado? Como a transformação impactaria a frequência da freguesia, a curto, médio ou longo prazo? Quando aquelas lajes todas serão transformadas? Sim, a pergunta central é quando. Ou aonde não vamos mais parar os carros.

 
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Notas soltas

Surdo

Sobre economia, Jair Bolsonaro disse que deve chegar a 95% no índice de audição ao conselheiro Paulo Guedes. Sabe-se que, dizer, ele diz qualquer coisa. Daí até fazer, há um périplo longo. Conforme o voto do ex-capitão, contrário ao Cadastro Positivo, provou.

Napoleão

Gênio da estratégia militar, Napoleão dizia que nove entre dez preferidos do rei acabam enforcados. Sobre o Cadastro Positivo, onze entre dez neguinhos do “mercado” concordam.

Neologismo

Geraldo Alckmin registrou nas redes sociais que João Doria é candidato ao governo do estado de São Paulo, emendando que sua possível candidatura à Presidência é fake news. Dica ao ex-governador: neste caso você pode substituir fake news por farinata, aproveitando o neologismo cunhado pela Renata Lo Prete.

Aliás

Por quê nos acostumamos a ler “estado” (os entes federativos) grafados com maiúscula? Estado só tem um; estados temos 26.

Justiça Eleitoral 

O PT insiste que tem candidato a Presidente e que seu nome é Lula. Até aí, nada de novo. É assim desde que voltou a possibilidade de alguém ser candidato. Incluindo Dilma um e dois. Lula sempre concorreu.

A diferença é que agora, por causa da lei da ficha limpa (ou capivara positiva) a Justiça Eleitoral tem que dizer se pode. Deve fazer hoje.

Em termos de Justiça, prazo é vida. Tem de ser respeitado. Mas deve haver algum dispositivo que permita a gente zerar a conta dos candidatos a qualquer posto antes das eleições. Não tem cabimento, no ponto em que o país se encontra, irmos às urnas votar em alguém com possibilidade de condenação posta já antes de assumir.

Notadamente para candidatos ao Palácio do Planalto, cujo inquilino, sem aval do Congresso, só pode ser processado por supostos crimes cometidos durante o mandato.

Fulana

Marina Silva disse em sabatina à Folha/UOL/SBT que as conquistas no Brasil acabam fulanizadas, mas deveriam ser institucionalizadas. Para quem perde aliados, às pencas, por personalismo, pode ser uma evolução. Por ora, fica meio “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.

Má fama

Encontrei um velho amigo que está em férias compulsórias há dois anos. Perdeu o emprego e não arranjou outro depois de se recusar a participar do esquema de bolas organizado entre colegas de trabalho, fornecedores e executivos das empresas clientes. Tudo na iniciativa privada. Definiu assim a situação: “Pegar fama de honesto no Brasil é fogo.”

 
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Um pacto pela empresa-Estado

A narrativa na vidada do século era o papel das empresas na relação com a sociedade. Assustadas com o levante de Seattle, em 1999, onde ativistas de frentes diversas reuniram dezenas de milhares de pessoas contra o encontro da Organização Mundial do Comércio, as multinacionais resolveram se sacudir e combinar uma agenda comum visando responsabilidade social.

Todo mundo correu para ajudar. A ONU, liderada pelo Kofi Annan, chegou a fazer um site para servir como ágora universal da iniciativa, que reunia perto de cinquenta corporações e bancos multinacionais, federações trabalhistas e outras entidades da sociedade civil. Todos juntos pelo Pacto Global (UN Global Compact).

Resumindo, a ideia era estender à governança corporativa os princípios universais de direitos humanos que regem – ou deveriam reger – os governos no Estado Democrático de Direito. A lógica era óbvia: sendo maiores e mais poderosas que grande parte das nações, as empresas deveriam se comportar como estados, oferecendo transparência e permitindo a participação da sociedade em suas decisões de conselhos deliberativos. Em contrapartida, participariam dos fóruns de chefes de Estado. Bill Clinton rodou o globo com este discurso. Aparentemente a maioria concordava e um circulo virtuoso parecia prestes encontrar seu modelo de movimento.

Calça jeans e renda básica

Daí, em Onze de Setembro de 2001, dois aviões entraram no WTC e mataram milhares de pessoas. Desde então a agenda mundial se voltou contra o terrorismo, deixando o mercado livre para continuar como bem entendesse.

Em 2008 tudo explodiu. A chamada crise dos subprimes quebrou o gigante Lehman Brothers, grife de investimento financeiro desde 1850, causando efeito dominó na economia. As agências de crédito imobiliário tiveram que ser reestatizadas, no maior socorro já prestado pelo governo estadunidense em toda a história. Coisa de US$ 200 bilhões. Na Europa, vários países somados pingaram US$ 1,5 trilhão para manter a economia respirando.

Em 2009, gestores de várias das empresas socorridas já recebiam bônus milionários por “bom desempenho”. Muitos dos países, no entanto, ainda não tiveram alta e seguem respirando por aparelhos ou, com sorte, em austera dieta imposta pelo “mercado”.

O círculo de Gini

Neste momento é maio de 2018. Seria a entrada do Pacto Global na fase adulta. Mas o que temos é pouco ou nada além de ensaios de laboratório. No contexto geral a coisa piorou. A concentração de poder das empresas aumentou muito. Em 2016, das cem instituições que mais arrecadaram, 69 são empresas e 31 são países. Oito pessoas têm o mesmo dinheiro que a metade mais pobre da população mundial. A participação social permanece no plano das relações públicas. E curiosamente, odiado ou, mais grave, ignorado no mundo todo, é o universo político.

Com o avanço das tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos, diminuindo as contribuições sociais e concentrando ainda mais a renda. Assim, o Estado de bem-estar social tende a colapsar. Sem cidadãos não pode haver consumidores, e o colapso atingirá a economia. Por outro lado, o modelo de produção e consumo da China e dos Estados Unidos, ampliado para sete bilhões de pessoas, colapsaria o meio-ambiente.

Por falta de responsabilidade e visão na virada do século, dez anos depois a bolha imobiliária estourou e deu origem a diversas bolhas sociais, com cada um tentando salvar o seu quintal. A apatia política cresce e no que sobra grassa o populismo, sempre flertando com o despotismo.

Um pacto global para valer, envolvendo governos, empresas e sociedade na solução do problema é urgente. Substituir o dilema sobre privatização ou estatização por um modelo universal de empresas-Estado.

 
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Resgatando Harry

Há quase um ano esta página saudava o príncipe Harry por uma entrevista onde ele, contrariando a tradição da realeza, tratava da vida pessoal publicamente. Consciente da epidemia de depressão que se esparrama mundo afora, cumpriu seu papel de membro da elite iluminando as sombras da humanidade, facilitando o caminho para avançarmos.

Hoje o Duque de Sussex se casou com Meghan Markle, jovem senhora americana, descendente de escravos, desquitada e atriz. O reverendo da igreja Episcopal dos Estados Unidos, Michael Bruce Curry, participou das bodas e, na homilia, citou Martin Luther King, ativista assassinado há exatos cinquenta anos: “Precisamos descobrir o poder do amor, o poder redentor do amor e, quando o fizermos, transformaremos este velho mundo em um novo mundo.”

Palpite: o velho mundo e o novo mundo do Luther King, na homilia, servem para o planeta inteiro, não para Europa e América. Curiosidades: King, em inglês, significa rei. Curi, em árabe, significa padre. Shakespeare tinha razão quando botou na boca do príncipe da Dinamarca a máxima “há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a sua filosofia”, notadamente neste período onde o racismo influencia vontades políticas pelos quatro cantos.

+ Bansky revelado e Harry, o grande

Colosso a elite ilhoa. Para não ser diferente da plebe, a mulherada também causou. A avó do Harry foi de verde e roxo, combinação atrevida, elogiada exclusivamente por minha comadre Renata Lima, bacharel em moda num curso lado de lá do Canal da Mancha. E a cunhada da Meg, Kate, repetiu o vestido que já usara num batizado e numa festa de aniversário, exatamente como propõe minha Neguinha na Circulando8. Estão de parabéns.

Para encerrar, naquela crônica que elogiei Henrique, falei também do Bansky delatado. Era algo que envolvia grafite e cracolândia. Um ano depois, aqui em São Paulo, confirmando as expectativas, tudo piorou. As passarelas de grafite do João Doria foram abandonadas há meses, e na cracolândia passaram a cobrar multa de doente dependente químico – isso numa cidade onde sequer o IPTU das pessoas mais bem tratadas é cobrado com justiça. Nossa sina é viver à base de de farinata.

 
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Fiasco da privatização em Nova York

Conforme previsto, investidor nenhum confia em botar dinheiro nas privatizações propostas na cidade de São Paulo. A razão principal, antecipada aqui através do infalível método que junta lé com cré, é insegurança política e jurídica.

Como mostra a reportagem do Silas Martí para a Folha de São Paulo, a apresentação do plano de privatizações para a plateia do Council of The Americas, um centro de estudos prestigiado em Manhattan, foi um fiasco retumbante.

Talvez orientado pelo ex-prefeito João Doria, presente no evento, e que nos seus, organizados pelo grupo Lide, costuma tanger plateias de executivos com um apito, Bruno Covas atacou de animador de festa infantil e pediu que levantasse a mão quem pretendia arrematar propriedades ou disputar concessões em São Paulo. Ninguém se mexeu.

+ Doria X Doria

A reportagem destaca que o grande temor dos investidores nasce da breve passagem de João Doria pela prefeitura. Imagine a confiança de quem há um ano viu um prefeito novo desfilar ideias pelos salões nova-iorquinos e, pouco tempo depois, reaparecer com outro em seu lugar. No mínimo o sujeito calcula: dentro de três anos deve ser outro.

Pior: a gestão atual afirma, sem pudor, que abandonou o Plano Diretor, firmado depois de longo processo e que deveria durar quatorze anos. Uma cidade onde um prefeito pode fazer algo assim dificilmente vai arranjar alguém interessado se arriscar numa concessão para durar trinta anos.

É o que retrata o comentário de uma mulher presente na plateia, que se afirmava dona de vasta lista de contatos no Oriente Médio, um dos primeiros destinos atacados por Doria: “ninguém confia num país que muda as regras todos os dias.”

+ Desencontro

No museu de Arte Moderna de Nova York um arquiteto brasileiro é celebrado com a exposição de croquis originais de seus projetos e também com um exemplar da cadeira Paulistano. Chama-se Paulo Mendes da Rocha e foi contratado pela gestão Fernando Haddad para o plano de intervenção no Parque do Ibirapuera. Seria o grande encontro dos nossos dois arquitetos mais premiados: Paulo e Oscar Niemeyer, autor do projeto do parque.

A própria gestão Haddad descontinuou o projeto e a atual afirma que não sabe do que se trata – apesar de ter no próprio site o histórico da intenção.

Resumindo, Paulo Mendes da Rocha propôs fazer o que todas as cidades do mundo – Nova York incluída – buscam: estimular o transporte coletivo e ampliar a área dos parques eliminando estacionamentos.

De novo, ligando os infalíveis amigos lé e cré, só posso supor que a concessão do Ibirapuera é, acima de tudo, a concessão de um estacionamento. Acelera à ré.

Não é só Michel Temer que nos faz voltar vinte anos em dois.

 
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O preço de ser candidato a presidente

Candidato a presidente, Tancredo Neves escondeu na nação a infecção que o mataria. Mesmo disputando a eleição no colégio eleitoral, fez questão de rodar o país e comunicar suas propostas. Não se tratou. Foi eleito e não tomou posse.

Hoje é impossível saber como teria sido o nosso destino se ele tivesse se recolhido e se tratado. Seria curado? Seria eleito? Daria Maluf? Baita “nariz de Cleópatra” da nossa história.

Não consta que na corrida para a eleição de outubro tenhamos algum enfermo. Graças! Mas a lógica de esconder ferida persiste. E todos nós sabemos que ferida escondida, tapada, leva a infecção generalizada e, no extremo, a óbito.

Falo no plano jurídico. A notícia de hoje é que Geraldo Alckmin se beneficia de decisões da Justiça – no que discordo. Ou por outra: se ele se beneficia pessoalmente, só o julgamento dirá. Já politicamente falando, afirmar que há benefício é aceitar a lógica da ferida tapada.

A saber: Alckmin foi apontado por delatores da Odebrecht como destinatário de dez milhões de reais em caixa dois. A orientação da PGR é que crimes dessa natureza devem ser processados na justiça eleitoral. E os processos de políticos que perderam o foro privilegiado ao renunciarem a seus cargos para disputar a eleição – caso de Alckmin – desceram para instâncias inferiores. Até aí, tudo bem.

O problema central, a ferida tapada, é o processo correr em sigilo. Não sabemos em que pé está. E não é bom para ninguém, seja candidato ou eleitor, caminhar para a eleição sem saber a quantas anda um processo que envolve um presidenciável.

Ainda que com números muito ruis nas pesquisas, Alckmin é um pré-candidato forte. O ideal seria que a justiça desse conta de dizer antes de outubro se ele tem ou não culpa. Ou minimamente tornar o processo público.

A ferida tapada já começa infeccionar. Na sexta-feira, quando Gilmar Mendes mandou soltar Paulo Preto, ex-diretor da Dersa acusado de ser o principal operador do caixa dois tucano no estado de São Paulo, a percepção da sociedade foi que a decisão, mais uma vez, beneficia Alckmin – muito embora nos bastidores comente-se que os mais ameaçados por uma delação seriam José Serra e Aloysio Nunes Ferreira, e que inclusive adversários políticos reconheçam que Alckmin não se envolve em corrupção.

É o preço de ser candidato a presidente.

 
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1º de Abril, dia da verdade

Dizem na psicologia que o luto mais difícil é aquele não verificado. A dúvida de quem ama é natural. Quem fica e não vela nem enterra seus mortos tende a nutrir a esperança do reencontro, dificultando a aceitação da morte e perpetuando a dor. Como no caso de um avião que some com um ente querido a bordo.

Mais distante mas ainda relevante é a figura jurídica. Sem um atestado de óbito, o cônjuge que fica nunca oficializa a viuvez. Permanece casado com a angústia.

Piorar um quadro assim pode parecer impossível, mas amargamente não é. Se a causa da morte for intencional e não acidental, vai doer mais.

E ainda dá para piorar. Como? Quando o algoz é aquele que deveria proteger. Um pai que mata suas crianças. Um filho que mata seus velhos. Ou o Estado que mata seus cidadãos.

Misturando os casos podemos, com esforço, imaginar a dor dos que perderam seus entes para o despotismo. Direto ao ponto, as pessoas que não têm notícia de onde foram estão seus parentes e amigos “desaparecidos” durante a ditadura militar.

Além de não velarem nem enterrarem seus mortos, somam à saudade da presença o terror de supor que os assassinos foram as mais altas autoridades do país, jamais identificadas como tais e muito menos processadas.

Ontem as suposições foram enterradas. Um documento sigiloso datado de 1974 teve as tarjas pretas retiradas pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos. Nele, o chefe da CIA William Colby aponta o general Ernesto Geisel como mandante da política de “execuções sumárias”, ou mais exatamente mandante de assassinatos. Geisel teria orientado o então chefe do SNI, general João Batista Figueiredo, a mandar matar adversários da ditadura. Geisel e Figueiredo foram os últimos ditadores que presidiram o Brasil.

Trecho: “’Em 1º de abril, o presidente Geisel disse ao general Figueiredo que a política deveria continuar, mas que grandes precauções deveriam ser tomadas para assegurar que apenas subversivos perigosos sejam executados. O presidente e o general Figueiredo concordaram que quando o CIE apreende uma pessoa que pode estar nessa categoria, o chefe do CIE vai consultar o general Figueiredo, cuja aprovação deve ser dada antes de a pessoa ser executada’, diz o memorando de Colby.”

A história da ditadura militar no Brasil conviveu com um debate marginal sobre a data de inauguração, 31 de Março ou Primeiro de Abril. A psicopatia ainda vigente entre defensores do despotismo preferia o 31/3 por motivos óbvios. Se cabia dúvida sobre um dia da mentira como marca irrefutável da ditadura militar, não cabe mais. O Primeiro de Abril agora também é o dia da verdade.

O Comando do Exército, porém, é brasileiro e não desiste nunca. No lugar de uma autocrítica e de um esforço para identificar as vítimas, informou em nota, que os documentos sigilosos relativos ao período em questão e que “eventualmente pudessem comprovar a veracidade dos fatos narrados foram destruídos, de acordo com as normas existentes à época –Regulamento para Salvaguarda de Assuntos Sigilosos (RSAS)– em suas diferentes edições”.

 
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“Gente de bem”

Ontem, na aula de filosofia, aprendemos a fronteira que Aristóteles traçou entre o “homem de bem” e o cidadão. O primeiro era definido por duas virtudes: confiabilidade e resiliência. O segundo, além destas, tinha que ser prudente e saber mandar e obedecer – se na democracia o cidadão faz as leis, é natural que as obedeça.

Andando por aí ouço tanta gente falando na tal “gente de bem”. Que bom seria se falassem mais em cidadania.

 
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Foro privilegiado

O Supremo vai e vem com os limites do foro privilegiado. E o que não falta é gente em volta adorando a fogueira da inquisição.

Entendo que o nível de cansaço. Sei que o fogo inebria sobretudo no auge da fadiga. É tão humano. Mas se a gente não quiser piorar tudo, precisamos entender isso como uma prova de prudência.

O foro veio para proteger a atividade política do poder despótico que imperou durante a ditadura militar. Foi criado sem muitos limites por uma turma traumatizada. E o resultado negativo, em quantidade, são 55 mil cargos com privilégio. Em qualidade, a perpetuação do “sabe com quem está falando?” e todos seus achaques. Nossa tarefa é aprender com eles.

Acabar com o foro privilegiado pode criar um monstro. Imagina um vereador de cidade pequena na mão de um juiz ou delegado controlados por um “coronel” local. Ele faz uma denúncia, briga em plenário contra, sei lá, uma indústria que contamina um riacho, e com base no depoimento de uma testemunha, metem uma canetada que manda o político em cana. Convenhamos que este é um horizonte muito provável.

O poder do dinheiro em sociedades frágeis como a brasileira deve sempre ser considerado. Tão nefasto ou ainda pior do que o foro privilegiado que leva processos de autoridades direto para os tribunais, é o foro privilegiado de quem tem dinheiro para bancar recursos a prazo perdido, até a prescrição, enquanto os pretos e pobres lotam as cadeias logo após a primeiríssima instância policial e, não raro, lá permanecem mesmo depois de cumprirem suas penas.

 
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