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Sérgio Moro pode ser o principal prejudicado pela prisão dos suspeitos

Sérgio Moro pode ser o principal prejudicado pela prisão dos suspeitos de furto de seus próprios dados. Direi por que.

Mas antes, por falar em nuvem, o caso Vaza Jato ainda está bastante nublado. Perdão pelo trocadilho virtual, mas julgo necessário, porque a metáfora das nuvens, que mudam a todo momento, serve bem à política, mas para a Justiça não convém. A Justiça é cega. E um processo deve ser claro.

Há quem estranhe a prisão do DJ em Araraquara pela Polícia Federal. Estes acreditam que foi muito apresado e que é impróprio um órgão comandado por alguém pessoalmente enrolado estar à frente das investigações. Impossível discordar. Mas o problema é Sérgio Moro não se afastar do ministério da Justiça pelo menos enquanto durar o processo, não o trabalho da PF.

O cerne da questão continua sendo a politização do processo legal, notadamente na Lava Jato, baluarte da Justiça nos últimos anos. É uma pena, mas está dado. Agora o que o país precisa é que haja consequências. Não tem como negar que o juiz-ministro Moro tinha lado e agiu em conluio com os procuradores, especialmente Deltan Dallagnol. E todos têm que responder por isso. Afinal, a Justiça é para todos. Lema da Lava Jato.

Moro pode ser o principal prejudicado pela prisão dos suspeitos por que, em se confirmando que foram eles os autores da invasão, não importando se foi hackeamento ou spoofing, como a operação foi batizada, teremos enfim a confirmação ou não da veracidade dos vazamentos via perícia. Conforme for, o discurso evasivo do ministro vai evaporar.

Se de fato tiverem sido adulteradas ou editadas, sorte do ministro. Porém fontes diversas que participaram das conversas ou nelas foram citadas já confirmaram: o que foi publicado pelo Intercept, Folha, Veja e Band News é quente. Inclusive Moro não nega nem entrega o telefone ou abre o sigilo.

Lembrando que a imprensa é só a mensageira. Está completamente dentro da lei e não só pode como deve preservar o sigilo da fonte. Se a fonte é criminosa, que se investigue, como a PF está fazendo, e puna-se.

Aparentemente o esquema dos suspeitos era rústico. Não há indício de sofisticação. Basicamente o furto usa o mesmo esquema daquele em que caiu a sua tia, que recebeu e-mail de protesto do banco, clicou no link e foi violada.

A conta inicial é de mais de mil pessoas invadidas, entre políticos, membros do Judiciário, do MP, jornalistas. Tamanho volume, somado à displicência dos suspeitos e a rusticidade do esquema, aponta antes para a falta de dimensão da gravidade do ato do que para uma grande organização criminosa.

A PF encontrou quase cem mil reais em espécie em um dos endereços. A defesa de um dos suspeitos diz que o dinheiro é legal, fruto de operação com criptomoedas. E a mesma defesa, estranhamente, revelou para a imprensa o teor do depoimento de outro suspeito, que teria a intenção de vender o dossiê Moro para o PT. OAB deve falar.

O Antagonista diz que o COAF mapeou 630 mil reais pelas contas dos suspeitos. Os detalhes são desejáveis. Problema: a pedido do senador Flávio Bolsonaro, e com apoio do papi, o presidente do STF, ministro Dias Toffoli, suspendeu qualquer investigação que inclua dados gerados pelo COAF sem autorização judicial.

No caso de não haver autorização, poderemos ficar mais distantes do clareamento geral do caso. É uma pena. Sabemos todos que a regra básica da investigação criminal é seguir o dinheiro. Quando dizem que corrupção não tem recibo, o COAF desmente.

Encerro com a pergunta básica de toda investigação: a quem interessa o ato? Já falaram até em Rússia. Pode ser. De repente até lançam a vodca Araraquara. Meu palpite é que passa pela delação de Antonio Palocci.

 
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A incompreensível eleição de Boris Johnson

O número dez da Downing Street ficou sem inquilino quando a primeira-ministra do Reino Unido Theresa May fracassou sucessivamente nas negociações do Brexit e renunciou.

Com ampla maioria na Câmara dos Comuns, o Partido Conservador chamou eleições internas para escolher seu substituto, e venceu Boris Johnson, talvez o rosto mais popular do Brexit.

Os dois maiores partidos do Reino Unido, Conservador e Trabalhista, estão internamente divididos, principalmente sobre o que fazer com o Brexit.

No caso dos conservadores, que abrigam May e Johnson, há membros mais moderados, que procuram uma solução intermediária, que May tentou e fracassou, e os radicais que seguem Johnson na linha do “do or die”, algo como “dá ou desce” em tradução chula deste cronista.

Todos, porém, aceitam o resultado do referendo, em que pesem os fatos sobre como a campanha foi feita, usando e abusando de fatos alternativos e algoritmos nas redes sociais para inflamar e dividir a sociedade. Há um belo docudrama a respeito nos serviços de vídeo por demanda. Brexit, o filme, mais fácil na Netflix.

Lembrando que o problema maior das novas ferramentas de comunicação é sua potência avassaladora, repetida em outras eleições mundo afora, mas que, se guardadas as proporções, não é muito diferente do que sempre foi feito em campanhas eleitorais.

Aceitar o resultado, porém, não significa saber o que fazer dele nos detalhes, para fora ou para dentro. A Europa não tem porque ceder mais do que já cedeu enquanto May negociava – e notem que ela chegou a dizer que “A Inglaterra não estava sendo tratada à altura”. Típico dos ilhéus. E para além do continente ser mais importante para a ilha do que o inverso, seria inconveniente sinalizar para os demais países que o bloco está disposto a rever insatisfações unilaterais. Seria como abrir uma fenda no casco do Titanic, construído a duras penas.

Para dentro, a saída pode animar escoceses separatistas, cria incertezas sobre a fronteira entre a Irlanda e a Irlanda no Norte, a população está dividida (o resultado do referendo foi 51,8% X 48,2%), diversas empresas multinacionais com sede em Londres teriam que se mudar para a UE e, mais importante, no próprio parlamento não houve consenso sobre os termos para obedecer a decisão popular.

Daí minha incompreensão. A vitória de Johnson na eleição interna do Partido foi ampla. Compareceram 87,4% dos filiados e Johnson recebeu 92.153 votos contra 46.656 de Jeremy Hunt, atual chanceler.

Pior: conhecido pelo histórico de notícias falsas desde quando era jornalista, no comício da reta final Johnson voltou a atacar, usando um arenque defumado e um travesseiro de gelo para criticar as normas do bloco europeu, que segundo ele subjugam o Reino Unido. Foi ovacionado. Detalhe: a norma para travesseiro de gelo na exportação de peixe defumado é da ilha, não do continente. Mas e daí? Vale tudo, não é?

Ora, se era para sair no “dá ou desce”, por que não fizeram com May e depois elegeram um Johnson já livre do desgaste com o parlamento? Afinal ele já é a cara do Brexit, não precisa ser o realizador. Falta de diálogo não foi. Faltou força? Johnson terá esse pique todo? Ou corre o risco de frustrar seus apoiadores fiéis?

A única equação que fecha para mim é a da cama de gato. Dado o impasse e a contagem regressiva do prazo, algo perto de cem dias, os políticos revolveram expor o símbolo maior do Brexit para provar a sinuca e comunicar as dificuldades através de sua derrota. Mas de qualquer maneira é de uma imprudência atroz.

Se alguém tiver uma mais convincente, agradeço.

E toma que o filho é teu, Boris.

ATUALIZAÇÃO: Pelo Canal Meio li que o Guardian, jornal progressista inglês, fala em possibilidade de Boris Johnson dissolver o parlamento e convocar novas eleições populares. É prerrogativa do primeiro-ministro e, a rigor, embora sem precedentes, também da rainha Elizabeth II. O movimento seria arriscado, lembrando que Johnson foi eleito pela maioria interna do Partido Conservador, que tem maioria na Camara dos Comuns. Mas no voto popular é difícil prever como seria o resultado, posto que o Partido Conservador está dividido e, segundo levantamento de 2018, publicado em relatório acadêmico  pelas organizações de pesquisa NatCen e The UK in a Changing Europe, 59% dos britânicos escolheriam ficar na Europa, contra 41% que insistiriam em sair.

 
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Prejuízo geral

Fui dormir e acordei com a piada na cabeça. É a história de um tiozão brasileiro cheio de certezas que envia o filho para estudar na Inglaterra. Um dia o rapaz telefona e o pai pergunta como está o tempo. Chovendo, responde o filho. E o pai: aqui também, então eu acho que é geral.

Aparentemente são dois os motivos para os meus “algoríntimos” terem buscado a piada, e ambos têm relação com a eleição de Boris Johnson para primeiro-ministro do Reino Unido.

O primeiro é a semelhança entre Johnson, Trump e Bolsonaro, o que justificaria o “acho que é geral” para o fenômeno político que torna populistas irresponsáveis em chefes de governo. Sem dúvida é um palpite exagerado, posto que o mundo é maior, há diversos bons governantes em atividade e mesmo nestes três países a opinião pública está dividida. Mas não pode ser desconsiderado.

O segundo é tem a ver com a espantosa quantidade de gente que apoia e difunde fatos alternativos baseados em certezas sem sentido. Johnson, por exemplo, compara a União Europeia com o plano de dominação continental nazista, quando a verdade dos fatos é justamente o inverso: a união da Europa deriva do esforço conjunto para vencer Hitler. Qualquer semelhança com o “nazismo de esquerda” de Bolsonaro ou a refutação das mudanças climáticas de Trump não são mera coincidência.

Pela minha vida pessoal, imagino como está difícil a vida pública no mundo. Não sem prejuízos – emocional, profissional, social – decidi que não converso mais com quem nega os fatos. Saí de diversos grupos de mensagens quando vi que era inglória a tarefa de combater as chamadas fakenews, bloqueei amigos nas redes sociais, deixei de frequentar certos ambientes e círculos. Sigo conversando com amigos divergentes, o que me faz muito bem, mas definitivamente cansei de bater palma para louco dançar. O que me dói é pensar nos que não têm a mesma possibilidade. Políticos, diplomatas, líderes religiosos. Até quando poderão resistir?

A Folha de hoje trouxe uma análise do Gideon Rachman, originalmente publicada no Financial Times, jornal conservador inglês, que narra a conversa do analista com um parlamentar também conservador britânico, aflito com a ascensão de Boris Johnson.

No papo ambos descobrem que haviam lido recentemente um livro de memórias de Sebastian Haffner chamado Desafiando Hitler. Escrito em 1939, portanto na antessala da Segunda Guerra Mundial, e tendo os anos 1930 por cenário, o intelectual alemão “oferece um vislumbre extraordinário sobre como é viver em um período de turbulência política”.

Com pesar, Haffner anota que confiou demais no que chamou de “ceticismo calmo”, acreditando que o “funcionamento normal das instituições e a continuidade do cotidiano normal era uma vitória contra os nazistas”. Conclui que “sua inquietação juvenil era justificada e que a riqueza da experiência de seu pai estava enganada, porque há coisas que não podem ser controladas pelo ceticismo calmo”.

Rachman encerra dizendo que segue sob o “ceticismo calmo” em relação a Johnson e Trump, mas se vê numa fase da vida mais ou menos parecida com a do pai de Haffner em 1933.

Naquele período, outro inglês que também foi primeiro-ministro, dizia aos entusiastas do “ceticismo calmo”: conciliador é aquele que alimenta o monstro na esperança de ser devorado por último. Chamava-se Winston Churchill e acabou derrotando Adolf Hitler. Mas não sem muito prejuízo – geral.

 
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Plano Severo ou por falar em Parahyba

“Daqueles governadores de paraíba, o pior é o do Maranhão. Não tem que ter nada com esse cara.”

A frase acima não é só mais uma das sandices do presidente da República. Ela se destaca do repertório geral, mesmo do da semana passada, assustador até para ele, que não nos concede sequer um dia de sossego.

Mentir sobre Miriam Leitão, atacar a Ancine via Bruna Surfistinha, o Inpe, o MP, tentar piadas com o “ovo do marido”, o “peru do presidente do Chile”, a gravata rosa do presidente do Congresso, negar que exista fome no Brasil, desmatamento etc, são movimentos calculados, acenos para sua torcida reacionária.

Já a fala pejorativa e discriminatória contra os brasileiros do Nordeste foi captada sem querer. Tanto é que, dada a repercussão negativa, foi a única que mereceu reação destemperada. Para todas as outras, Jair Bolsonaro estava preparado.

Perguntado sobre os efeitos negativos, Bolsonaro mentiu negando o que disse, foi especialmente malcriado com repórteres, chamou de melancia (verde por fora e vermelho por dentro) um general seu aliado que considerou a fala antipatriótica.

Os estrategistas do Planalto acusaram o deslize e tomaram providências. Ampliaram o número de convidados para a inauguração do aeroporto de Vitória da Conquista, na Bahia, para fazer uma grande festa nordestina. Ocorre que Bolsonaro nada tem a ver com a obra. 70% do investimento foi do governo federal, mas das gestões anteriores, Dilma/Temer. A quem possa duvidar, o aeroporto chamar-se-á Glauber Rocha. Talvez o Presidente não saiba de quem se trata e, se descobrir, ainda pode desistir de comparecer.

O estrago está feito, mas não acabado. Com o Congresso em recesso, os protestos ficaram nas redes sociais e na carta coletiva dos governadores do Nordeste. Dentro de dez dias, deputados e senadores estarão de volta e, antes de retomarem a reforma da Previdência, que ainda requer 2º turno na Câmara e todo trabalho no Senado, tratarão de usar as tribunas para botarem os pingos nos is – e não farão mais do que suas obrigações.

Para além do que o Presidente falou nesses dias, o Congresso terá trabalho para frear coisas que ele fez nas especialmente mal-avaliadas áreas de Meio-Ambiente, Educação e Cultura, como a promessa de liberação de garimpos baseada no texto que uma comissão de três membros do próprio governo escreverá dentro de trinta dias, a concentração de poder e nomeação de pró-reitores no ministério da Educação (menos Brasil, mais Brasília), levar o Conselho Superior de Cinema para Casa Civil (menos Brasil, mais Brasília). Levantamento do Leandro Demori, editor Intercept. Fora a bagunça no COAF, a nomeação de um delegado para a Presidência da Funai, a anunciada liberação da pesca em Fernando de Noronha.

Até lá, para o bem do país, a sugestão que me vem a cabeça é o jingle dos cobertores Parahyba, do senador Severo Gomes. Sabemos que o Presidente dorme mal, sofre várias interrupções, não tem sono reparador. E estou convencido que falta de sono é especialmente nociva para a saúde mental. Vejam o caso do governador de SP, cuja meta divulgada é reduzir a quantidade de sono para três horas – já está em 3h40m.

Jair e João, cantem comigo: tá na hora de dormir, não espere mamãe mandar.

 
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Thiago, Tião

“Acabou a ração do seu bichinho? Relaxa, eu levo até você!”

A promessa entusiasmada está no site do aplicativo de entrega que veio a se somar a outros espalhados pelas ruas. São tantos aderentes pelas calçadas que, não demora, as entregas serão feitas na base do passa-anel.

Nas costas dos coletes roxos que identificam as pessoas que aderiram para escapar das fomes tantas, vai só a segunda parte: Relaxa, eu resolvo! Traduzindo: para não morrer de fome, aceito me esfolar para que o seu bichinho não fique sem comida.

O aplicativo se chama James, sinônimo vulgar para mordomo, motorista ou serviçal que os valha. Sem dúvida, desperta a madame afetada que dorme no interior de cada um de nós, apelando para a oportunidade de ter serviçais à disposição.

Ocorre que, ao contrário de entregadores de aplicativos, serviçais de madame costumam ser bem pagos e reconhecidos, como Mr. Bitterman de Arthur, o milionário; Mr. Colbun, de Miss Daisy; Mr. Carson, de Dowton Abbey. Os vencimentos, aposentos e condições de trabalho de cada um dos três, aposto, são superiores aos da grande maioria dos usuários dos aplicativos James, Rappi, Uber, Cabify, 99, iFood e outros. E usuários, aqui, entenda-se por quem contrata o serviço, não por quem é contratado.

Quer dizer, se o serviço clássico de mordomo deriva da grande riqueza e exige reconhecimento, os serviços de entrega ou chofer contemporâneos nascem da grande pobreza e têm no não reconhecimento seu maior trunfo, donde ficam mais próximos da escravidão do que da mordomia. Assim, mais honesto seria chamar o aplicativo de Tião, não de James.

Também é verdade que parte considerável do poder de compra da mordomia clássica foi desidratado com os avanços sociais, que quando aliados a desenvolvimento econômico libertaram muita gente pela oportunidade de escolha. E que no cenário atual, de retomada da concentração de riqueza, os aplicativos de serviço têm papel importante na aceleração do fenômeno: as empresas ficam bilionárias com pouco ou nenhum risco sobre capital investido em ativos físicos ou humanos.

A favor dos aplicativos há muita gente dizendo que sem eles tudo seria pior. Fala-se em 5,5 milhões de pessoas cadastradas para servir (alguns ganhando um pouco mais do que em empregos tradicionais, desde que descontadas as proteções formais), 45 milhões cadastrados para usufruir, e uma ou duas dúzias de proprietários que ficaram bilionários investindo nos negócios, os festejados unicórnios.

Em português, James é Thiago. E o caso do entregador do Rappi Thiago Dias, de 33 anos, é emblemático. Quase no ato da entrega de vinhos para um grupo de quatro amigos que confraternizava no bairro das Perdizes, sofreu um AVC. Era noite alta do seis de julho e fazia frio em São Paulo. Impactados, os contratantes buscaram cobertores e pediram socorro às empresas e ao Estado. Todos falharam fragorosamente.

Segundo matéria da Folha (íntegra aqui), o Rappi (US$ 1 bi em valor de mercado) limitou-se a cancelar as demais entregas de Thiago e substitui-lo. Um Uber (US$ 80 bi em valor de mercado) omitiu socorro. O SAMU, serviço de ambulância da prefeitura de São Paulo, informou que “não havia previsão para chegada da equipe” (Em reportagens recentes o grupo Folha mostrou que 67% dos atendimentos do SAMU contam grandes atrasos e que em abril o número de socorros teve redução de 22%). O Hospital das Clínicas dificultou a entrada do paciente. PM e Bombeiros dizem que não receberam chamados.

Thiago morreu. Sua última entrega foram as córneas, o fígado e os rins, doados por sua família. Thiago deixou mãe, pai, irmãos e uma filha de seis anos. Mas outros virão. Cada vez mais, o que não falta é Tião.

 
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Let it be

No meio do caminho tinha um namoro de portão. O casal estava ali, tranquilo, na calçada, trocando os mais variados beijos, dos novelões aos de esquimó. Tentei ser discreto, mas dentro do incontornável pude reparar que vestiam roupas funcionais com o emblema de uma multinacional.

Para ficar mais claro, não era bem no portão o namorinho de portão. O casal estava amparado pela mureta de um canteiro que fazia as vezes de banco, equipamento quase inexistente em São Paulo. O lado bom é que na mureta não tinha espeto anti-mendigo. E também que a mureta ficava bem em frente à entrada principal da multinacional.

Para ficar ainda mais claro, o casal que namorava como se nada mais no mundo importasse, isto é, do melhor jeito, era um casal de mulheres. Sinto que em 2019 a cena ainda mereça comentário, mas os fatos estão aí: o Brasil é campeão mundial de violência contra LGBTs. Violência social, diga-se, porque em mais de setenta países a homossexualidade, criminalizada, deve se esconder para não sofrer violência do Estado.

Mas o que eu queria dizer sobre a cena é que, em que pesem reveses pontuais, a violência, o despudor de quem se sente no direito de interferir na forma de amar alheia, o que o namoro de portão entre duas mulheres mostra é que curso da cultura civilizatória não será interrompido, como notou a professora Rosana Pinheiro-Machado em artigo recente. Aqui.

As novas gerações são um colosso. No sentido da tolerância, da pluralidade, do entendimento, do respeito à individualidade, parecem até geneticamente modificadas. Igual a tudo na vida, tem os prós e os contras, mas por hoje fiquemos com os prós.

Olhe para as crianças do seu entorno. Outro dia, na fila do supermercado, havia um menino vestido de tartaruga ninja e, como era meu xará, Leonardo, perguntei se a festa tinha sido boa. Quem respondeu foi a mãe: não teve festa, ele gosta de se vestir assim.

O comportamento é cada vez mais comum. Super-heróis, borboletas, fadas, princesas, esportistas estão pelas ruas, indiferentes ao julgamento social. O entendimento entre indústria, comércio, escola, família é claro. Está tudo bem para todos. Let it be.

Apelo para a Língua ilhoa por um motivo além dos Beatles. Se só recentemente a homossexualidade deixou de ser crime por lá, hoje a Igreja Anglicana, ou Igreja da Inglaterra, cuja chefe é a Rainha, e cujas escolas formam a elite mundial, decidiu que a fantasia na infância é sagrada, logo, ninguém deve ou pode interferir se um menino quer ser fada e uma menina quer ser viking. Perfeitamente coerente para uma denominação que, já quando nasceu, entendeu que poderia ser católica e reformada ao mesmo tempo.

Aqui no Brasil, onde a sociedade é ostensivamente ameaçada por um governo que fala em descobrir alguém “terrivelmente evangélico” para chamar de seu – contradição em termos, porque ou se é evangélico, ou se é terrível – a agenda reacionária pode ladrar, mas a caravana vai passar.

Se uma ministra maluca diz que uma princesa de desenho animado vive num castelo de gelo porque é lésbica, o bispo Edir Macedo, muito mais poderoso e perene do que qualquer ministro, defende publicamente a união homoafetiva e o direito da mulher ao próprio corpo desde o século passado, ou antes da TV Globo descobrir o talento da brava Fernanda Lima.

Enfim, é tarefa de todos prestar atenção e resistir para minimizar danos na passagem por este período difícil. Mas tenham fé: vai passar. Let it be.

 
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Rocketman e as estrelas que esquecemos de contar

Da música dos negros do sul dos Estados Unidos nasceu o jazz, que ganhou o mundo, e que tem pelo menos duas crias internacionais: o Rock and roll e a Bossa Nova.

Estou com isso na cabeça desde que, espectador tardio, assisti Rocketman no cinema. Especialmente por causa da cena em que, chegando aos Estados Unidos para o primeiro show, Sir Elton John sofre um ataque de ansiedade e se tranca no banheiro. Motivo: os Beach Boys estavam na plateia.

Para a gente aqui do subúrbio – minha impressão é que, da perspectiva ilhoa, a partir da Irlanda todo o oeste é uma fazenda –, o complexo de vira-lata abana o rabo quando vê um inglês tendo entre as pernas, por conta de uma banda de praia americana, também o rabo.

Com toda a admiração que tenho pela Inglaterra e suas tradições, não escapo do prazer ao ver como foi possível que os colonizados influenciassem tanto os colonizadores. E justamente pela cultura suburbana, de periferia.

Discos de folk, country e jazz já eram disputados em Manchester, Liverpool , Londres, quando aterrissa Elvis Presley calçando sapatos de camurça azul. Dez anos depois teríamos Beatles e Rolling Sotnes. Mais dez, Elton John e Queen. E The Who, Sex Pistols, Led Zeppelin, Pink Floyd.

É claro que o socorro determinante na Segunda Guerra contou. Os Estados Unidos cobraram caro, caríssimo, mas entregaram o serviço e salvaram o mundo do nazismo. E há quem sustente que, não fosse a imprudência kamikaze do Japão, teriam deixado Hitler rolar. Mas no fim deu tudo certo e o saldo foi positivo, especialmente para os EUA, que entraram nos anos 1950 cheios de ouro inglês e crédito mundial.

Para o vira-lata aqui, porém, mais do que o Rocketman, impressiona as estrelas que esquecemos de contar. Uma semana antes do dia mundial do rock morria João Gilberto, que misturando samba e jazz inventou a Bossa Nova em 1958.

Em 1962 João Gilberto, Tom Jobim, Oscar Castro Neves, Sérgio Mendes, Roberto Menescal, Carlinhos Lyra, Milton Banana, Luiz Bonfá, Agostinho dos Santos e outros tantos craques entravam no Carnegie Hall, em Nova York, e ganhavam o mundo.

Na plateia, atentos, Dizzy Gillespie, Miles Davis, Tonny Bennett, Gerry Mulligan e grande elenco bebiam café brasileiro oferecido pelo Itamaraty, anfitrião da noite ao lado da gravadora Audio Fidelity. Desabaram quando Tom encerrou Corcovado, seguido pelo João, com Desafinado e Samba da Minha Terra.

Algumas das estrelas sequer conseguiram voltar ao Brasil, João e Tom incluídos, claro. Levados a Washington, foram recebidos na Casa Branca, e ouviram de Jackeline Kennedy que sua canção predileta era Maria Nobody. Ninguém precisa de imaginação aguçada para ver a primeira dama no sacolejo suave.

Foi um colosso. A Bossa Nova ganhava o maior mercado do mundo. Além de discos, shows e direitos autorais, o selo vendia de carro a cigarro, passando por roupa, lava-roupa, café, refrigerante, aspirador.

Dá pra ter uma ideia do baque que a batidinha provocou. Fora o arranjo inteiro para exportação, que incluía Oscar Niemeyer, Juscelino Kubistchek, Eder Jofre, Anselmo Duarte, Cândido Portinari, Vinicius de Moraes, Maria Tereza e João Goulart.

Ninguém pode ser acusado de teórico da conspiração se disser que a Casa Branca empalideceu em receio. A história prova que sim e que o governo americano atuou para castrar o Brasil com o golpe de 1964, derivando em 21 anos internacionalmente infecundos, cujas marcas permanecem fortes na nacionalidade.

Ainda assim, a culpa pelo destino medíocre, pelo talento desperdiçado, pela pobreza moral é nossa, toda nossa. Que nos perdoem as estrelas que esquecemos de contar, principalmente porque parece que delas não queremos nos lembrar.

 
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Toffoli e Bolsonaro uniram o Brasil

É improvável que alguém não tenha se assustado com a decisão do presidente do STF de suspender as investigações sobre o senador Flávio Bolsonaro, varão da República Bolsonarista. Se tem uma coisa que hoje une o país é o susto de ontem.

Não que não estejamos acostumados. Nem que se possa imaginar que o varão está confortável no passeio pelas varas criminais da justiça – como prova o pedido de sua defesa, que motivou a decisão.

O susto, e nisso devo concordar com o presidente Bolsonaro, é potencializado pelo protagonismo do filho – e da primeira dama e do melhor amigo – do chefe do Executivo no caso, decidido monocraticamente pelo chefe do Judiciário.

Contudo, é importante lembrar que se o ZeroUm provocou a decisão, não será o único afetado. A abrangência de investigações paralisadas ultrapassam a corrupção e as milícias, chegando a lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, sequestro e terrorismo.

Mais: no mérito, inúmeros juristas concordam com a decisão do ministro Dias Toffoli, ainda que discordem, ou sintam-se desconfortáveis como qualquer cidadão, com um dedaço jurídico que passa a ser regra pelo menos até 21 de novembro, quando o plenário do Supremo começará o debate sobre a questão.

Para entender o que foi decidido: ficam paralisados os Procedimentos de Investigação Criminal (PICs) e ações penais baseados em informações de inteligência financeira produzidas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), a Receita Federal e o Banco Central.

Ainda: o STF ainda vai decidir os limites do detalhamento de dados que esses órgãos podem encaminhar às autoridades investigativas sem autorização da Justiça; é incerto como ficam os PICs e ações penais que contenham tais informações, mas não só elas; e não se sabe se o COAF seguirá com independência para fazer o básico, que é identificar e encaminhar às autoridades de investigação transações financeiras atípicas, notadamente de pessoas politicamente expostas  (PPEs).

Coincidentemente, simultânea à decisão de Dias Toffoli era publicada pelo governo Bolsonaro a alteração da norma de procedimento de envio de informações das juntas comerciais ao COAF. Na era do compliance ou conformidade, o governo decidiu acabar com o padrão nacional, liberando cada junta para trabalhar como preferir. Zorra.

Apesar da certeza de que sigilo bancário no Brasil é no máximo uma charla, como a memória do caso caseiro Francenildo Santos Costa, o “caseiro do Palocci” atesta, dificultando seu uso politiqueiro, impedir que seja usado judicialmente sem observação da Justiça é positivo. Porém não basta. É urgente punir os culpados e indenizar as vítimas.

A dúvida que resta é como as canetadas brasilienses serão recebidas no Tribunal de Justiça e no Ministério Público de cada estado. No Rio de Janeiro, por exemplo, o mesmo relatório que pegou Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e Fabrício Queiroz, pegou e até prendeu mais de vinte deputados estaduais e centenas de assessores. No limite, a decisão de Toffoli pode tirar muita gente da cadeia e provocar a contestação das eleições de 2018, posto que alguns dos presos foram impedidos de disputar ou de fazer campanha.

Sempre lembrando que o relatório do COAF chegou ao MP-RJ em janeiro de 2018 e ficou engavetado até o fim do período eleitoral, somando trinta páginas. Passadas as eleições, com Flávio eleito senador e outros tantos Bolsonaro também eleitos, entre novembro de 2018 e fevereiro de 2019 o inquérito produziu 300 páginas, um DVD e um pen drive.

Passado o susto, improvável é que o país siga unido em torno da Justiça e da legalidade.

 
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Alan Turing e o Zepelim

Um dia surgiu, brilhante

Entre as nuvens, flutuante

Um enorme zepelim

Pairou sobre os edifícios

Abriu dois mil orifícios

Com dois mil canhões assim

A cidade apavorada

Se quedou paralisada

Pronta pra virar geléia

Mas…

Inventado na Alemanha pelo conde Ferdinand Von Zepelim, o dirigível homônimo estreou com voos comerciais e, chegada a Guerra Mundial, escalou para o uso bélico e matou bastante gente. Décadas mais tarde a Alemanha deixou o nazismo entrar e pariu a Segunda Guerra Mundial, matando mais um monte de gente.

Se não matou mais, em muito devemos ao matemático que inventou a inteligência artificial. Por conta da guerra, a Inglaterra abriu os cofres para a pesquisa e desenvolvimento de uma máquina capaz de decifrar códigos nazistas interceptados pela espionagem, e se antecipar aos ataques. O inventor é o londrino Alan Turing, consagrado aos 24 anos como pai da computação.

Dez anos depois de acabada a guerra que ajudou a abreviar, Turing foi condenado pelo Estado britânico por ser homossexual. Sua pena foi a castração química através da aplicação de hormônios femininos, que entre outras coisas apontou seios no peito do cientista.

Humilhado e deprimido, Alan Turing suicidou-se comendo uma maçã envenenada com cianeto, em 1954. Só neste século o governo e a Coroa Britânica viriam a se desculpar e perdoar (!) seu herói pela condenação por homossexualidade – crime até hoje em mais de setenta países.

Ontem o Banco da Inglaterra anunciou a nova cédula de cinquenta libras com a efigie de Alan Turing, escolha onde a vontade popular é considerada via indicações previas.

Em tempos de bitcoins ou, no mínimo, tanto capital virtual, é curioso ver o pai da computação impresso em papel moeda. E também vale pensar em como os algoritmos, assim como o zepelim, o avião, a dinamite, criados para fins pacíficos, carregam tamanho potencial destrutivo, inclusive levando três dos quatro criadores ao suicídio.

Turing só ganhou popularidade mais recentemente, e através do teatro e então do cinema. O Jogo da Imitação, fita que conta sua fita, tirou o Oscar em 2014.

E não sei se o Chico Buarque fez a canção Geni e o Zepelim em homenagem a Turing e crítica à hipocrisia da Grã-Bretanha, como pode sugerir o verso com a cidade em geleia, ou respectivamente para as minorias e as classes dominantes em geral. Mas a carapuça pesa como uma coroa.

 
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Tabata Amaral, Eduardo Bolsonaro e o PSDB

Em palpites recentes, falei aqui sobre Tabata Amaral, Eduardo Bolsonaro e o PSDB paulistano. Sobre cada um dos três, gostaria de acrescentar o seguinte:

Tabata pode estar alinhada com o sentimento da sociedade de que partidos valem menos do que convicções particulares. Infelizmente é o que se verifica. Pena que a noção de que a infidelidade programática, uma das causas do descrédito, passe ao largo da percepção geral.

Comentei com um amigo que, fosse ela funcionaria da Ambev, pessoa jurídica de seu padrinho Jorge Paulo Lemann, e aparecesse bebendo Coca-Cola, seria demitida por justa causa, perdendo inclusive possíveis ações da companhia recebidas por bonificação, algo comum entre os executivos de capacidade semelhante.

Ouvi com tristeza a resposta do meu amigo: um contrato de trabalho deve ser respeitado em sua integridade, já a assinatura de uma ficha de filiação partidária não pode ser assim rigorosa. Triste período em que a relação patrão-empregado vale mais do que o entendimento entre representados e representantes.

A própria deputada não ajuda quando escreve na Folha que “muitos partidos já não representam de fato a sociedade, mas somente alguns de seus nichos”.

Ora, supondo que o curso de Ciências Políticas de Harvard ensine o básico de etimologia, e seus alunos devem saber que partido vem de parte, que é um outro nome para nicho, talvez seja o caso da universidade fazer um recall do diploma da graduada.

Um “partido” político que se pretenda representante de toda a sociedade, negando a pluralidade dos nichos e pontos de vista, é chamado de fascista. E vale lembrar que recentemente o Brasil elegeu um presidente que usou “meu partido é o Brasil” como slogan de campanha.

Eduardo Bolsonaro deve mesmo ganhar do papi a indicação para a embaixada brasileira em Washington. Como a confirmação do Senado passa por voto secreto, ainda é impossível prever o resultado.

Antes de escalar para o “se está sendo tão criticado pela mídia é sinal de que é a pessoa adequada”, o presidente da República argumentava usando uma analogia com a hipótese de ter no Brasil um embaixador argentino filho do presidente Mauricio Macri, que por isso teria tratamento diferenciado.

Difícil discordar. Sem dúvida o filho de um chefe de Estado teria tratamento diferenciado. O problema da lógica hermética de Bolsonaro é não perceber que vale para mais e para menos. Como evoluiria uma crise entre dois países tendo o filho de um dos líderes como principal diplomata?

Notadamente os Bolsonaro. Se nos parlamentos e redes sociais já são pólvora em potencial, imaginem atuando em Washington.

O PSDB de São Paulo resolveu encampar briga pública com Aécio Neves. Bruno Covas, prefeito e pré-candidato à reeleição, chegou a falar em “ele ou eu”.

Considerando o atraso, ninguém pode acreditar que o movimento seja por virtude ou, por outra, fica óbvio que a intenção é oportunista e eleitoral.

Impossível não lembrar da fábula do patinho feio que, expulso de sua turma, no exílio acaba se descobrindo um belo cisne.

Como é praticamente zero a chance de Aécio voltar a ser um belo cisne, bem maior e mais destacado que os patos, a alternativa que resta para fechar com a moral da história é enfear reduzir os patos à condição de pardais vulgares, predadores e oportunistas.

 
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