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O norte dos tucanos

Na segunda-feira o presidente Fernando Henrique esteve em Minas para o início de um ciclo de debates proposto pelo senador Aécio Neves chamado “Século XXI, desafios, ameaças e oportunidades”. E de lá disse o óbvio sobre a posição do PT no governo e a oposição insatisfatória do PSDB: – “O que podemos dizer da pessoa que é ingrata e cospe no prato em que comeu? (…) Porque pegaram o nosso. Foi uma usurpação de projeto e, por ser usurpado, é mal feito”.

A freguesia mais antiga e atenta desta página pode imaginar a alegria do blogueiro. Não é de hoje que eu digo e repito isso aqui: desde que fazer oposição deixou de ser caso de cadeia no Brasil nos acostumamos ao estilo petista. Ocorre que o PT sempre foi “do contra”, nunca de oposição. E quem é contra tudo não pode ser a favor de nada. Daí que eles votaram contra tudo nosso e contra todos nós sempre que puderam: contra a Constituição, contra a Lei de Responsabilidade Fiscal e notadamente contra o Plano Real e as privatizações que agora tentam continuar, mas sem saber como, porque nunca tiveram projeto.

Por outro lado, diante desse drible os tucanos perderam o norte e só agora voltaram ao plano de voo. Ficamos dez anos gaguejando, mas enfim o discurso toma forma e unidade: reconhecer os benefícios que a estabilização econômica trouxe para a maioria das pessoas, sempre lembrando que com ela não se pode brincar como o governo fez para fechar as contas do ano passado; que os programas de transferência de renda precisam de uma contrapartida de educação de base, exatamente como acontecia antes de serem unificados e batizados de Bolsa Família;  e que, chamem como quiser, privatização ou concessão tem que ser feita para melhorar a vida das pessoas, não para fazer política rasteira.

Este último exemplo é emblemático. Se usou a Fernão Dias para ir a Minas, o FHC pôde conferir a diferença entre o modelo tucano de concessão, tão criticado pela tarifa alta do pedágio, com o modelo petista, que entregou as estradas para quem prometeu a tarifa mais barata.

Hoje abri o facebook e vi uma amiga dando os parabéns para a concessionária do sistema Imigrantes, do governo paulista, por ter aberto a rodovia menos de 24 horas depois de um deslizamento de terra brutal que praticamente recheou de pedras e lama túneis inteiros. Logo abaixo, nos comentários, uma amiga dela reclama da Fernão Dias, do governo federal, onde num dia tranquilo e parada entre dois pontos de atendimento teve que esperar 1h18 para ser socorrida por causa de um pneu furado.

 
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Um ICI por aqui

Fui ao shopping JK na semana passada. Tinha dois interesses por lá: conhecer o ICI Brasserie e ver a exposição de esculturas em pano inspiradas na obra do Gustavo Rosa. Foi uma artista chamada Suzy Gheler quem teve a ideia de rechear e, digamos, tridimensionar as gordinhas e gordinhos do Gugu. Como não poderia deixar de ser, o resultado é divertido. As formas redondas que absorvem tão bem a luz que o artista espalha com o pincel pareciam ainda mais animadas fora da tela, como que atendendo a um chamado emocional do público com vontade de abraça-las.

A arquitetura do JK deixa o espaço mais próximo de uma galeria do que de um shopping. Não sei se chamar de Galeria JK seria hoje tão comercial quanto shopping Iguatemi JK, mas foi a sensação que me deu nessa segunda visita. A luz natural, o espaço pontual e sem puxadinhos, os detalhes artísticos como o forro das escadas rolantes e o cobogó lá em cima, apontam um caminho para toda a cidade: lugares pensados para atender seu entorno, sem a expectativa de atrair gente de todo canto, que sempre acaba anulando a personalidade e com efeito qualquer possibilidade de elegância.

Outra coisa instigante é a vista para o rio e tantas árvores de um lado – com a agressividade da Marginal Pinheiros neutralizada pela climatização –,  e do outro a construção desenfreada na Vila Olímpia, mostrando que a turma continua indiferente ao caos. Vão continuar erguendo prédios definitivos e fazendo obras viárias paliativas até quando?

O ICI Brasserie, sociedade do Benny Novak com a turma da Cia Tradicional de Comércio, ficou uma delícia. O bom-gosto descolado das duas turmas está em sintonia e em todos os detalhes, sempre pensados com carinho, igual a tudo que eles fazem. O Brillat-Savarin disse que o anfitrião que não se dedica a pensar no que e em como vai servir seus convidados não os merece – e esses caras merecem cada freguês.

Na porta encontrei o Bruno Grinberg, que de cara recomendou o chope. Pela relação da CTC com a AmBev imaginei que fosse o inexorável Brahma, mas não: lá é Colorado, uma delícia, amargo e gelado na medida certa, servido num copo que, respeitando o princípio da firma, foi pensado para ele. Quanto mais lugares entrarem nessa serpentina, melhor. Ganha a freguesia, ganham os estabelecimentos, perde o monopólio.

Ao balcão almocei duas entradas: tutano assado e tartar de atum. O primeiro é um clássico que numa licença poética e gastronômica poderia se chamar consomé de forno, com o extrato do boi acompanhado de cebola, salsão, cenoura e temperos, para comer com pão, só que assado em vez de cozido. É forte. Para refrescar pedi o tartar, que vem enfeitado com uns brotos e outra delícia de forno: arroz selvagem assado – fica tão saboroso e perfumado que parecem finas castanhas, literalmente. Nota: ambos poderiam ser executados com uma colher adequada.

A pena é que, apesar de tudo muito bom, o ir e vir em São Paulo anda impraticável. Logo, tudo o que nos resta é clamar por um ICI por aqui, no Jardim Paulista.

 
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O sono do Toinho

Quando tomo taxi, apesar de estar pagando, fico constrangido em opinar no que toca no rádio. Só peço para trocar a estação em casos extremos. Não é questão de educação. Com ar-condicionado sou intransigente e já saltei de um que estava sem. Por outro lado, quando estou num bar reclamo ao menor sinal de música eletrônica.

Mas o que eu queria dizer é a falta de paciência pode acarretar em prejuízo. Na quarta-feira, tivesse eu me irritado com uma mesa redonda sobre futebol que tocava no taxi, teria perdido uma delícia de história.

Há anos o Julinho Toledo Piza me contou sobre o Toinho, um goleiro que jogou no São Paulo. E justamente esse Toinho foi personagem de um dos casos lembrados no programa. Falavam sobre como o futebol já foi ainda mais sem noção do que é hoje, e da vez em que um certo Castor, ao ver o goleiro dormitando recostado a uma das traves em pleno início de partida, invadiu o campo, sacou o revolver e deu um tiro no sarrafo, interrompendo o sono do atleta.

A história original, contada pelo Júlio, eu já botei aqui, e repito para poupar a freguesia do serviço de busca. Havia um bar na Bela Cintra frequentado por bêbados diversos, entre eles uma atriz pornô que gostava de Dry Martini. Era pornô, mas não era michê. Pagava cada drinque e prezava muito o profissionalismo. Um dia chegou com a notícia, causando frisson na bancada são-paulina: ia gravar com o Toinho. Aposentado numa época em que os boleiros ganhavam pouco, ele topou o serviço.

O roteiro era simples: ele era um presidiário foragido escondido no mato, todo sujo, vestindo uns trapos e trazendo no pulso pedaços de correntes. E justo aquela libido por tantos anos acumulada foi encontrar uma loira linda e assanhada, passeando pelo bosque metida numa saia curtíssima. Incontrolável, ele a surpreendia, metia-lhe uns tapas e todo o mais.

Com o set de filmagem pronto o diretor berrou “Ação!”, e o Toinho fez tudo o que tinha que fazer. Só que logo após os primeiros movimentos o diretor quis tentar outra perspectiva, outro ângulo, e de novo berrou: “Corta!” E o Toinho: – “Corta o caralho!” Completou o serviço e dormiu. No bar, a atriz lamentava: – “Toinho não é profissional”.

 
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Yoani passou por aqui

A blogueira cubana Yoani Sanchez chegou ao Brasil e foi à Feira de Santana, na Bahia, onde pôde conferir a superioridade das salas e variedade da programação de cinema em relação à sua Havana natal. No lugar da pipoca oferecida pelo cineasta anfitrião, preferiu matar a saudade de anos do pão quentinho, assado na hora, e notou em seu blog a cordialidade da freguesia que fazia fila no balcão. Evitou comer mais de um, não em atenção ao regime, mas para não parecer esnobe. Ainda na padaria, viu que muitos jovens usavam smartphones para acessar as redes sociais , previsão do tempo e até jornais, sendo que só um sofria censura, “parece que por conta de um pessoal do Marañón”. E já ia dizendo supersônica a velocidade da internet, impressionante a cobertura do celular, mas foi corrigida a tempo por um amigo chileno.

A notícia da visitante ilustre por aqui teria sido mais ou menos assim, não fosse a ajuda grosseira, porém providencial, que recebeu de grupos extremistas orientados pela ditadura castrista, pelo governo petista e pelas organizações que os apoiam e por eles são sustendadas.

Igual ao dedão que tenta impedir a água vertendo da mangueira e acaba provocando um esguicho muito mais forte e abrangente, os manifestantes cancelaram no grito a sessão do filme e conseguiram uma repercussão que abafou o tambor comemorativo dos dez anos do PT no governo. Mais: a morena foi direto para os braços do Aécio Neves, num encontro muito apropriado, porque assim como ela, o presidente Tancredo Neves, avô do senador, também ajudou a derrubar uma ditadura se valendo de ideias, não de armas.

Qualquer manifestação é democrática, desde que permita o contraditório. Isto não podemos dizer que houve em Feira de Santana. Pelo contrário, impedir uma sessão de cinema é a mesma coisa que queimar um livro, igual faziam os nazistas. Mas ainda assim, com boa vontade, digamos que eles simplesmente se manifestaram. Pois é: se manifestaram a favor de uma ditadura.

Os argumentos dos que querem calar a blogueira são os mais variados. Há quem diga que até recebe salário em troca de trabalho. Pasme você, possível leitor, que ela trabalha e alguém paga por isso. Eu que sou um nego sabidamente torto, não me envergonho em dizer que gostaria de ter o mesmo privilégio e ainda confesso que morro de inveja. Capitalistas, eis-me aqui, Léo Coutinho, blogueiro, seu criado.

A imagem que fica da visita é muito clara: hoje a Yoani Sanchez tem como jornalista a mesma importância que o Fidel/Raul Castro enquanto Chefe de Estado.

 
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Parasitas no deserto

Vão dizer que é o verão. Há até quem comemore essa temperatura sórdida. Os mais malcriados recomendam aos incomodados que se retirem. Mas a verdade é que este clima não é natural de São Paulo. Não é paulistano. A não ser se entendido como filho da nossa falta de consciência.

Interferimos no curso, no leito e nas margens de todos os nossos rios, canalizamos córregos, ocupamos mananciais e o entorno das represas, abrimos e erguemos cada vez mais avenidas, pontes e viadutos para carros, esquecemos solenemente da necessidade de praças e fontes, parques e lagos para uma vida urbana que se pretenda tolerável.

No lugar de um parque enorme entre a Paulista e a Estados Unidos, que era a previsão original, nossos empreendedores preferiram fazer o Jardim Paulista. Os arefs, aurélios miguéis e seus patrocinadores empreiteiros não nasceram ontem.

Cem anos depois o que temos é de novo um parque, só que ainda mais exótico, com corredeiras violentas e árvores caindo a cada temporal. E a tendência é piorar.

Cada árvore aqui plantada é uma mártir. Como se não bastasse sobreviver isolada num ambiente hostil, ainda tem que conviver com a falta de consideração do principal interessado em sua presença – o Homem. Sequer podas regulares e extração dos parasitas que as maltratam as coitadas merecem. No lugar disso, ou quiçá por inspiração, o que temos é uma máfia de cafetões do meio-ambiente que chegam a usar seus galhos e tronco para apregoar serviços sujos.

Cada árvore que morre ganha uma lápide, diminuindo o escoamento de água e aumentando a temperatura, que por sua vez chama uma tempestade ainda mais forte, que vai derrubar ainda mais árvores. O que os parasitas não calculam é que no deserto nem eles sobreviverão.

 
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Cambalacho e castigo

Muito provavelmente o cambalacho já era tradição brasileira em 1959, quando do Carlos Drummond de Andrade escreveu a crônica sobre a bolsa que encontrou no ônibus. Aqui não tem importância contar o final, de como enfim ele consegue entrega-la à dona, porque a delícia da crônica está no recheio.

Duas coincidências me chamaram a atenção. Primeiro a dificuldade em identificar a proprietária. Crente que esta a cidadã numa carteirinha de estudante, quando por acaso ele a encontra pela rua e reconhece o perfil que viu no lotação, chama pelo nome: – “Andreia…”, mas é corrigido: – “Meu nome é Rita Peixoto, comerciaria, sua criada”; sem entender, ele lembra da carteirinha, mas logo recebe o esclarecimento: – “É que de vez em quando a gente gosta de ir a um cineminha, o senhor compreende”.

A outra coincidência é que independentemente do documento falso, ela acreditava na Providência, ou nos poderes de um guia para ser restituída. Nisso eu também acredito. Esta foi uma manhã triste para mim, e qual não foi minha alegria em descobrir esta seleção de crônicas do Drummond, A Bolsa e a Vida, da Companhia das Letras.

De vez em quando fico assim, triste. Tomo muito cuidado para não transparecer, principalmente para quem gosta de mim, mas são justamente estas pessoas que percebem antes. Paciência. Os motivos dessa tristeza são diversos e antigos, mas o que os trazem à tona, tenho certeza, são duas coisas: este calor abjeto e o barulho constante de uma construção vizinha.

Como ia participar do programa do Marcos Calazans na Radio Trianon à uma da tarde, ao meio-dia me refugiei no ar-condicionado na Fnac, e a Providência me trouxe a prosa do poeta, que veio de encontro a coisas que vêm me atormentando e que preciso confessar.

Recentemente recebi uma carta do Detran para renovar a carteira de habilitação. Fui ao Poupatempo e resolvi tudo perfeitamente: hora marcada pela internet, exame médico, foto, taxas, tudo no local e o documento entregue pelo Correio. Como é bom fazer as coisas direito. Meu problema é olhar para ele e ver como ser motorista aflorou o pior em mim.

Nunca foi boa minha relação com o carro. Tive mais de dez acidentes graves. Podia ter matado e podia ter morrido antes mesmo de ser habilitado. Envolvi gente correta no jeito torto que encontrei para resolver os problemas que criei de um lado, me envolvi com gente ainda mais torta para resolver problemas criados de outro. Sim, dei dinheiro para o guarda me liberar da multa, para o despachante resolver a pontuação e cheguei ao ponto de fugir de um acidente deixando para trás o terceiro que não tinha culpa, um cara moço que ia para o trabalho na mesma madrugada em que eu voltava do bar. A única coisa confortante é nunca ter machucado alguém, pelo menos não fisicamente. Mas o espírito sofre arrependido.

E a carteirinha de estudante? Bom, há alguns anos, com vontade de estudar Direito, arranjei um diploma do segundo grau pela internet. Com ele prestei vestibular e fui aprovado. Mas não fiz nem vou fazer o curso, o que também me conforta, porque a minha carteirinha de estudante conseguiria a proeza de ser a mais vergonhosa de todos os tempos.

 
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Troféus

Foi um baque quando o Lucas Mendes me fez ver o óbvio. Era uma sessão do Manhattan Connection e ele debochava da vida mafiosa, da mão de obra que o crime implica. Eu ainda adolescente achando lindo a casa dos Corleone em Lake Tahoe, o Ray Liotta entrar no cabaret pela cozinha e improvisarem no ato uma mesa de pista, o Joe Pesci com uma loira três vezes maior do que ele namorando rapidinho no estacionamento, o Bugsy erguer o Flamingo no meio do deserto. E o Lucas Mendes mais ou menos assim: “Já pensou aturar aquelas mulheres histéricas e cheias de maquiagem, matar os outros e depois esquartejar, carregar os pedaços, abrir as covas? É melhor acordar cedo e trabalhar”.

Lembrei disso na última sexta-feira, quando entrei no cinema para fugir do toró. A fita era A Negociação, onde o Richard Gere vive um capitalista selvagem viciado em vencer. Vive é modo de dizer, porque para ter os problemas daquele nego talvez seja melhor morrer. Ou, sem exagero, acordar cedo e trabalhar para ter uma vida boa e simples como faz a maioria das pessoas.

Igual a dos mafiosos, a vida boa do jogador não vai além do verniz. É tudo falso, até os prazeres. Nem a vitória precisa ser de verdade. A própria mulher, os filhos, a amante, o avião, a casa no campo, são pedras de um palácio atraente por fora, mas impossível de se habitar em paz. Construído como auto-recompensa, de prazer logo passa a estorvo, como é próprio dos troféus, cujo trabalho para manter lustrado muitas vezes supera o de ser alcançado. Mas enfeitiçado pelo brilho, o sujeito gasta a vida polindo, sem sequer saber  por que.

 
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Uma nega chamada Thereza

É praticamente impossível não gostar de alguma coisa que envolva o Tom Jobim. É tudo tão franco, tão bonito na vida e na obra dele, que até o feio é belo, ou na verdade nem feio consegue ser. O Roniquito de Chevalier, que provocava todo mundo, não perdoava nem o Maestro Soberano. Dizia assim: – “Porra, Tom Jobim, ‘fotografei você com a minha Rolleflex’, você não tem vergonha?” Ele tinha razão, mas a verdade é que no conjunto fica bonitinho.

Na sexta-feira véspera do carnaval fui com a minha Neguinha ver A Luz do Tom, segunda parte do díptico do Nelson Pereira dos Santos sobre o compositor. O cinema do Frei Caneca estava vazio, anunciando um feriado excelente para quem ficou na cidade. Pura ilusão. Fomos em todas as noites seguintes, cinco filmes em cinco dias, e todas as salas lotadas. É muita gente no mundo. Se um dia foi possível eremitar, hoje não é mais.

Nesta sala quase vazia estava o Zé Pedro Oliveira e Costa, que foi o primeiro secretario de Meio-Ambiente do estado de São Paulo, no governo Montoro. Antes dele simplesmente nenhuma autoridade pensava no assunto, a não ser o Paulo Nogueira Neto, muito bem lembrado pelo seu neto, meu amigo e freguês desta página, Eduardo Nogueira, e que foi secretário especial do meio ambiente do governo federal, entre 1973 e 1985. Cargo que seria hoje equivalente ao de ministro do meio ambiente. Estou dizendo isso porque achei emblemático estar com ele na plateia de um filme sobre o Tom, que também já falava em ecologia antes da invenção do termo.

E neste carnaval em que o Papa renunciou, por acaso em Sua Santidade já na sexta-feira. Vendo a Helena Jobim, que dá o primeiro depoimento fantasiada de Tom, praticamente numa caricatura do irmão, fiquei até meio constrangido. E o depoimento da Ana Lontra, que encerra o filme, também constrange, porque ela trata de falar muito mais dela do que dele. Uma pena. Daí lembrei do Bento XVI. Não vou dizer quem é, mas me diverti muito com um sujeito querido que, casado pela terceira vez, guardava na gaveta a notícia da declaração do Papa recém eleito: “Segundo casamento é praga”. Ele sacava o recorte toda vez que a ex telefonava para pedir alguma coisa.

A delícia do filme é a Thereza Hermanny, sua primeira mulher. Ela fala com carinho do Tom em começo de vida, dos dois vivendo num quarto de empregada da casa dos pais dele, depois num apartamento tão pequeno em que podiam conversar com ela sentada na cama e ele no sofá da sala, dele “correndo atrás do aluguel”, tentando dar aulas de piano, mas que quando o aluno chegava, depois de quinze minutos era convidado para ir logo ali a um bar qualquer. “O Tom nessa época era impossível”, lembra comovida.

Praia, serra e jardim urbano, o Jardim Botânico do Rio, são pela ordem os cenários escolhidos. Todos lindos e que falam tanto dele quanto as mulheres. A cena que ele sempre imaginou, com uma câmera instalada na cabeça de um urubu, para ver o Rio sob a perspectiva do bicho em voo finalmente foi possível.

O erro que deixaram passar ficou na conta da Thereza. Quando fala da música que já tinha letra pronta do Vinicius, mas que num camarim a Dolores Duran furou a fila com um lápis de olho e um guardanapo, com a lindíssima Por Causa de Você, enganada ela lembra de outra canção. Mas não foi nada. No filme fica claro quanto foi importante para a música brasileira uma nega chamada Thereza.

 
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Rubem, Vinicius e o Amor

O Vinicius de Moraes e o Rubem Braga fariam cem anos neste 2013. Mas preferiram deixar pra lá. Simplesmente não quiseram a vida que lhes restava. Até porque vida não era.

O Vinicius, diante do médico que lhe proibia o álcool e o cigarro foi categórico: – “Doutor, esta vida que você propõe não me interessa”. O Rubem, com o laudo que confirmava o câncer maligno na boca resmungou: – “É de amargar”. Então veio a São Paulo, foi ao crematório da Vila Alpina e encomendou uma sessão no forno. Ao balconista que perguntou “para quem?”, respondeu: – “Para mim”. Então acertou com amigos poderosos que os médicos não fariam esforços vãos para estender sua existência, condenando-o a uma sobrevida indigna, e que respeitariam a falência do seu corpo. (Há quem suspeite que ele conseguiu até uma forcinha para falecer.)

Eu tinha prometido deixar para falar do Sabiá da Crônica só depois da Danuza Leão. Mas ela está em férias. Então inventei outro prazo: a chegada do Retratos Parisienses às livrarias, mas a José Olympio está atrasada. Cultura, Da Vila, Saraiva, Martins Fontes, Fnac, Haddock Lobo: ninguém recebeu. Poderia controlar minha ansiedade? Claro que sim. Com a ajuda do medo que me dá uma possível comparação entre o que ele fez e o que boto aqui seria até fácil me esconder. Mas depois de assistir ao Amor no cinema é impossível ficar quieto.

O clichê “obrigatório” abrange todos os aspetos da fita. Do artístico ao social, passando pelo jurídico e pelo religioso. Todos devem assistir e pensar na maneira que estamos deixando as pessoas queridas terminarem a vida, como estamos confusos convivendo com a indignidade como se fosse um ato de amor, enquanto os médicos vão se exibindo e enriquecendo, prorrogando a morte sem oferecer em troca a vida ou sequer esperança.

Precisamos de mais machos como o Vinicius e o Rubem, dois homens de sensibilidade extrema, para ter coragem de falar e fazer da própria vida o que bem entenderem – inclusive desistir dela.

 
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A renúncia do Papa

Quando assisti Habemus Papam escrevi aqui que tinha achado o final exagerado. Onde já se viu o Papa renunciar? Até palpitei que o roteiro teria o mesmo efeito com o técnico da seleção italiana, porém com mais credibilidade. Não que esta seja imprescindível à ficção – muito pelo contrário, não é, Júlio Verne?, mas que ajuda, ajuda.

Todos os elementos que o autor encontrou para a construção da trama no Vaticano estão disponíveis numa seleção de futebol – assim na Itália como no Brasil. Homens confinados, política, dinheiro, paixão, rebanho, pressão, história e uma lúdica maravilhosa, da indumentária ao cenário, passando pelos cantos e ritos.

No Poderoso Chefão ninguém duvida do assassinato por envenenamento do Papa. Mas renúncia? Consta que o último pediu para sair há mais de seiscentos anos. Qual instituição no mundo tem uma tradição tão longa? No Brasil, conta-se nos dedos as coisas que têm mais de cem. Aliás, o próprio Brasil ainda não tem seiscentos.

Fato é que o Papa Bento XVI renunciou. Há quem diga que foi por saúde, pela idade avançada. E evidentemente há quem duvide.  Escândalos, vazamento de documentos secretos e sobretudo o distanciamento da igreja Romana da sociedade teriam contado muito.

Está claro que os líderes católicos estão prestes a perder de vista seu rebanho, e só a reforma dos dogmas poderá aproxima-los. A eutanásia, neste caso, é exemplar: se o Papa renunciou por idade avançada e problemas dela derivados, assume que as pessoas já não vivem seus últimos dias como antes, porque os avanços da medicina não atendem da mesma maneira a corpo, mente e espírito, e que por isso em muitos casos o homem contemporâneo chega ao fim da vida com os três totalmente fora de sintonia, e que diante desta realidade devem ter o direito a ela renunciar.  Se foi por pressão reformista vale o mesmo.

Virgindade, camisinha, métodos contraceptivos, aborto, homossexualidade, eutanásia… É um faz questão de estar distante que as pessoas chegam a duvidar, ou desacreditar, ou perder a fé. E afasta de mim a ideia de que o pastor deve dizer o que o rebanho quer ouvir. Desta maneira, no lugar de sermões, discursos, artigos, ensaios, arte, teríamos um mugir sem fim nos altares, teatros, parlamentos (ops).

Líderes servem para apontar o melhor caminho, e este é o da elevação espiritual através do amor, da paz, da justiça, mas este caminho só é possível com o mínimo de saúde. As religiões todas foram construídas assim. No tempo em que a saúde pública era periclitante, cada qual inventou a sua doutrina para proteger seus rebanhos. A comida Kasher, que o rabino supervisiona para os judeus, é a origem da vigilância sanitária. Da mesma maneira os muçulmanos usam só a mão direita para comer, ficando a esquerda reservada para a higiene íntima. E a quaresma dos católicos, que começa hoje, não é outra coisa se não uma dieta de desintoxicação, que tem como recompensa a Páscoa, maior festa católica – e convenhamos que depois desse tempo todo sem beber nada, o primeiro gole de vinho ao lado de gente querida serve para provar que Deus existe.

 
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