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Atrás da porta

Atrás da porta sempre foi aquela canção visceral que o Chico Buarque conta ter começado de porre, em Petrópolis, em meio a um convescote noturno na casa da Olivia, mulher do Francis Hime, autor da música, e só terminado anos depois, com arranjo pronto e a primeira parte já gravada pela Elis Regina. Mas agora é também um filme lindo, húngaro-alemão com a Helen Mirren estrelando, que está em cartaz nas melhores salas da cidade.

Quem foi assistir O Amor tem que ver Atrás da porta, porque ambos se completam. Curiosa fase esta do cinema em que obras distintas parecem partes de uma só mensagem. Django e Lincoln também dialogam. Vá lá, dizer fase sobre duas coincidências é um exagero, mas elas estão aí para serem conferidas.

O filme fala de um amor fraterno e não convencional – notadamente no nosso Brasil cordial – onde a franqueza é a maior expressão de carinho e a prova de amor pode ser a coragem de matar e de deixar morrer positivamente, e não no aspecto rodrigueano de reagir a uma desilusão.

A Hungria comunista da metade do século XX é o cenário e a relação entre patroa e empregada doméstica o enredo para reforçar o drama. No Brasil não seria impossível rodar a fita, principalmente nesse período auspicioso onde a mão de obra barata vai escasseando e as empregadas domésticas começam a cobrar salários e direitos menos baixos, senão ainda equivalentes ao valor do seu trabalho, já a caminho dele. Mas aqui, antes que pela desigualdade social, a obra sairia prejudicada pela nossa falta de densidade cultural.

Na Hungria patroa e empregada moram na mesma rua. A casa de uma é melhor do que a da outra, mas só no supérfluo: o básico não falta a ninguém. Podem discutir de igual pra igual literatura, música, teatro, cinema, artes plásticas, política, comida, bebida, qualidade de roupas e até as razões pelas quais um serviço de mesa é mais ou menos adequado para receber determinada pessoa. E mesmo na tristeza e no horror são um só povo, porque passaram juntos pela guerra. Aqui no Brasil há quem diga que falta um pouco de sangue no chão, evidentemente ignorando os 50 mil assassinatos anuais que acontecem nas periferias. O número é este mesmo: 140 homicídios por dia.

Mas o diálogo que talvez ajude a turma em qualquer lugar e notadamente aqui na América do Sul é o da patroa indo à igreja. Folgada das tarefas do lar pelo serviço da empregada ela se emboneca inteira e diz que vai à missa. Então leva a bofetada verbal: – “É muito fácil ser religiosa quando tem alguém para cuidar das roupas do seu marido”. Que maravilha! Vai sentar como um chapéu nas mães brasileiras dependentes de babás para criar os próprios filhos.

 
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Mafioso debutante

Em Os Bons Companheiros há, entre outras tantas, uma cena brilhante que pega todo mundo desprevenido. O Scorcese é um craque para explicar o espírito do criminoso. Quando o Henry ainda menino vai em cana pela primeira vez fica se sentindo um idiota e dá por encerrada sua ainda verde carreira de mafioso. Diante do juiz mal consegue dizer palavra. Perfilado ao advogado, não percebe a trama e, mesmo absolvido, segue para a porta cabisbaixo, assim permanecendo até que o Jimmy chega fazendo festa, da-lhe um abraço, bota dinheiro de presente em seu bolso. A explicação vai ao pé d’ouvido: – “Todo mundo vai preso. O importante é que você não delatou os amigos. Estou orgulhoso de você.” No lobby do tribunal os cardeais da organização aguardam felizes da vida o pupilo debutante.

Estou há uma semana com a sequência na cabeça, infelizmente por conta do noticiário político nacional. As denúncias feitas contra o deputado Gabriel Chalita somadas à convenção nacional do PMDB são o motivo da lembrança.

Como todo mundo sabe a semana começou com o Ministério Público abrindo onze inquéritos para investigar o deputado por suspeita de corrupção, enriquecimento ilícito e superfaturamento de contratos públicos. O autor das denúncias chama-se Roberto Grobman, trabalhou no grupo educacional COC e afirma ter sido destacado para atuar como lobista na Secretaria de Estado da Educação durante o período Chalita.

Cada uma das três partes tem uma versão diferente para a história, mas é incontroverso que Grobman e Chalita foram amigos íntimos a ponto do lobista merecer acesso franco ao faraônico apartamento do deputado, assim como sala, e-mail funcional e cartão de visita na secretaria da Educação.

A revista Veja desta semana trouxe mais detalhes sobre o caso. Entre eles o desabafo que o deputado denunciado teria feito a um grupo de assessores: – “Estou liquidado”. Está nada, Gabriel. Pegue Goodfellas no videoclube e assista no seu cinema particular. Vai te acalantar. Não sei se você esteve na convenção nacional do seu PMDB, mas posso imaginar a cena: você, garotinho, chegando à festa em que debutou, sendo calorosamente recebido pelos cardeais Temer, Sarney, Renan. Então o Jucá te dá um abraço e diz assim: – “Todo mundo aqui sofreu denúncias. Cinquenta milhões? Estamos orgulhosos. Vem, sua primeira valsa é com o presidente Sarney.”

 
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3 bilhões perdidos pelas calçadas

A Vejinha desta semana trouxe na matéria de capa o estado calamitoso das calcadas que o pedestre paulistano enfrenta diariamente em seus deslocamentos. Buracos, degraus, obstáculos, largura, rampas foram usados como critério de avaliação onde do péssimo ao excelente as notas poderiam ir de 1 a 5. A única superior a 4 foi a da Avenida Paulista, reformada pelo Andrea Matarazzo quando foi subprefeito geral.

Os números começam a correr quando vamos ao custo social. Segundo cálculos de especialistas e ativistas, as péssimas condições do passeio público provocam hoje 170 mil tombos por ano, o que vai dar mais ou menos uma vítima a cada três minutos. Em dinheiro eles calculam que o prejuízo acumulado esteja osculando a marca de 3 bilhões de reais entre despesas hospitalares e dias de trabalho perdidos.

Quando era vereadora a hoje deputada federal Mara Gabrilli criou uma lei chamada Plano Emergencial de Calçadas, que transferiu para a alçada da prefeitura 600 quilômetros em rotas estratégicas. Quer dizer, diante da emergência ela mapeou a prioridade diária da população e chamou para o poder público a responsabilidade de cuidar deste equipamento que, apesar de público, tem sua manutenção obrigada ao proprietário do imóvel adjacente.

A coisa ruim é que o Kassab não fez a parte dele e o Haddad está mais confuso e apagado do que semáforo em dia de chuva. Na Avenida Sumaré, por exemplo, dos 300 metros previstos para recuperação só fizeram 75. Dá pra entender? Vá lá que nada tivesse sido feito. Mas 75? Será que, com o perdão do trocadilho, a verba tropeçou no caminho?

E além dos impedimentos causados pelo desleixo há muitos que nascem, digamos, do casamento mal-intencionado entre o proprietário e a fiscalização: bancas de jornal muito maiores do que o razoável, mesas avançando sobre o passeio e até churrasqueiras nos bares, camelôs. Com as lixeiras é um transtorno, cada um bota a sua na calçada, enquanto o justo seria que ficassem dentro do limite privado, muitas vezes reservado para “vagas de visitantes”.

Para concluir antes de fraturar a paciência da freguesia, deixo aqui minha experiência de pedestre cotidiano: em São Paulo até as calçadas bem cuidadas são ruins. Na Rua Cristóvão Diniz, a mais cara da cidade, além da irregularidade dos paralelepípedos há canteiros protegidos por gradis dos dois lados, deixando para o pedestre uma faixa tão estreita que torna impossível a passagem de duas pessoas perfiladas. E mesmo assim há quem ache chiquérrimo.

 
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Coisa do passado

Ontem um amigo me disse que depois de décadas militando em relações públicas acumulou um arquivo fotográfico gigantesco. E o problema de quem junta  coisas é que qualquer coisa com grande volume toma uma importância quase histórica, como se a unidade e a quantidade fizessem a importância. Porque jogar fora homeopaticamente umas anotações não dói nada, mas quero ver dez, quinze anos de memórias registradas, tantas lembranças, uma vida ali na gaveta. É dureza. Só num acesso, num impulso de loucura é que se desfaz de uma poupança dessas. Depois vem o alívio, mas o momento de ruptura é grave, gravíssimo.

O Carlos Drummond de Andrade dizia que papel não se joga fora. Para esses caras que alcançam e realizam em vida uma dimensão atemporal deve ser ainda mais difícil. Qual é o valor de uns garranchos do Drummond? Imponderável. Como nos diz o Woody Allen, nas mãos de um curador eficiente ou de um livreiro atinado até a lista do enxoval tem mercado.

A solução para este meu amigo foi intermediária: se desfazer do arquivo enviando as fotografias como lembrança para os personagens. Entre todos eles, encontrou mais ou menos cem com quem ainda mantém contato e tem endereço atualizado, e teve o cuidado e o carinho de remeter por correio cada foto com um cartão manuscrito. Sabe quantos responderam agradecendo? Um. Só um.

Um por cento, eu diria: talvez seja esta a estatística de gente minimamente educada, atenciosa e elegante que restou no mundo. Caótico? Eu? Creio que não. Mas a atualidade. Espiem a maneira como a turma anda se vestindo e se comportando em ocasiões tidas como formais, ou mesmo no dia a dia, no trabalho, no ir e vir, pedindo um café ao balconista, fazendo uma proposta de trabalho, namorando.

Por mim, sinceramente, tudo bem. Já não me incomodo tanto quando não tenho a recíproca de um bom dia, quando seguro a porta do elevador para alguém e não escuto agradecimento, quando deixo a pia do banheiro do bar seca e encontro molhada, quando boto gravata para ir a missa do pai de um amigo e o encontro de camiseta. Paciência. Vá lá, cada um na sua.

O diabo é que esse tipo de comportamento começa a ser considerado o errado. Você cede a passagem a uma menina e alguém já acha que é cantada. Se levanta para cumprimentar quem chega e é tido como enjoado (se for para se despedir de quem sai é capaz de ofender). E o uso de gravata e paletó não demora será previsto como crime de intenção de estelionato.

 
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O risco da aliança

Quem já experimentou confirma que anunciar no facebook dá muito retorno. Como diria o garimpeiro, “cada pá uma pepita”. Ou mais. O anunciante escolhe o público e manda avisar. Os algoritimos sabem onde está cada lumbricídeo. Estão para os internautas e a internet assim como o Eliezer Batista para o minério e o chão do Brasil.

E misturando minério e rede social outro dia o Mark Zuckeberg me avisou que as alianças contemporâneas não são mais de ouro, porque descobriram um metal revolucionário que, imagine esta freguesia, não risca. Brilho eterno garantido, o que o fabricante supõe perfeito para um objeto que simboliza o infinito.

O Mark atirou no alvo certo só que com o chumbo errado. Acredito que os riscos são das alianças assim como as rugas são dos rostos, as manchas são dos dentes, as cicatrizes dos joelhos e a memória é do espírito.

Claro que não estou propondo que cada salsinha da vida deve fazer parte do sorriso. Escovar todo dia e uma limpeza no dentista eventualmente são importantes como o sono, as férias, um retiro, os sonhos, fantasia, curativos e até a cirurgia plástica num nível moderado. Mas acho ridículo esse sorriso branco tão branco que nem dente de leite pode ser.

Uma aliança precisa do risco em todos os sentidos: risco de ser perdida, risco de ser roubada, risco de ser vendida, derretida, empenhada, trocada, esquecida. Risco de ser vivida. Pode ser de ouro ou de papel, pode ser a corda mi do cavaquinho, pode durar um século e pode durar uma noite. Mas só com risco terá valor.

 
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O norte dos tucanos

Na segunda-feira o presidente Fernando Henrique esteve em Minas para o início de um ciclo de debates proposto pelo senador Aécio Neves chamado “Século XXI, desafios, ameaças e oportunidades”. E de lá disse o óbvio sobre a posição do PT no governo e a oposição insatisfatória do PSDB: – “O que podemos dizer da pessoa que é ingrata e cospe no prato em que comeu? (…) Porque pegaram o nosso. Foi uma usurpação de projeto e, por ser usurpado, é mal feito”.

A freguesia mais antiga e atenta desta página pode imaginar a alegria do blogueiro. Não é de hoje que eu digo e repito isso aqui: desde que fazer oposição deixou de ser caso de cadeia no Brasil nos acostumamos ao estilo petista. Ocorre que o PT sempre foi “do contra”, nunca de oposição. E quem é contra tudo não pode ser a favor de nada. Daí que eles votaram contra tudo nosso e contra todos nós sempre que puderam: contra a Constituição, contra a Lei de Responsabilidade Fiscal e notadamente contra o Plano Real e as privatizações que agora tentam continuar, mas sem saber como, porque nunca tiveram projeto.

Por outro lado, diante desse drible os tucanos perderam o norte e só agora voltaram ao plano de voo. Ficamos dez anos gaguejando, mas enfim o discurso toma forma e unidade: reconhecer os benefícios que a estabilização econômica trouxe para a maioria das pessoas, sempre lembrando que com ela não se pode brincar como o governo fez para fechar as contas do ano passado; que os programas de transferência de renda precisam de uma contrapartida de educação de base, exatamente como acontecia antes de serem unificados e batizados de Bolsa Família;  e que, chamem como quiser, privatização ou concessão tem que ser feita para melhorar a vida das pessoas, não para fazer política rasteira.

Este último exemplo é emblemático. Se usou a Fernão Dias para ir a Minas, o FHC pôde conferir a diferença entre o modelo tucano de concessão, tão criticado pela tarifa alta do pedágio, com o modelo petista, que entregou as estradas para quem prometeu a tarifa mais barata.

Hoje abri o facebook e vi uma amiga dando os parabéns para a concessionária do sistema Imigrantes, do governo paulista, por ter aberto a rodovia menos de 24 horas depois de um deslizamento de terra brutal que praticamente recheou de pedras e lama túneis inteiros. Logo abaixo, nos comentários, uma amiga dela reclama da Fernão Dias, do governo federal, onde num dia tranquilo e parada entre dois pontos de atendimento teve que esperar 1h18 para ser socorrida por causa de um pneu furado.

 
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Um ICI por aqui

Fui ao shopping JK na semana passada. Tinha dois interesses por lá: conhecer o ICI Brasserie e ver a exposição de esculturas em pano inspiradas na obra do Gustavo Rosa. Foi uma artista chamada Suzy Gheler quem teve a ideia de rechear e, digamos, tridimensionar as gordinhas e gordinhos do Gugu. Como não poderia deixar de ser, o resultado é divertido. As formas redondas que absorvem tão bem a luz que o artista espalha com o pincel pareciam ainda mais animadas fora da tela, como que atendendo a um chamado emocional do público com vontade de abraça-las.

A arquitetura do JK deixa o espaço mais próximo de uma galeria do que de um shopping. Não sei se chamar de Galeria JK seria hoje tão comercial quanto shopping Iguatemi JK, mas foi a sensação que me deu nessa segunda visita. A luz natural, o espaço pontual e sem puxadinhos, os detalhes artísticos como o forro das escadas rolantes e o cobogó lá em cima, apontam um caminho para toda a cidade: lugares pensados para atender seu entorno, sem a expectativa de atrair gente de todo canto, que sempre acaba anulando a personalidade e com efeito qualquer possibilidade de elegância.

Outra coisa instigante é a vista para o rio e tantas árvores de um lado – com a agressividade da Marginal Pinheiros neutralizada pela climatização –,  e do outro a construção desenfreada na Vila Olímpia, mostrando que a turma continua indiferente ao caos. Vão continuar erguendo prédios definitivos e fazendo obras viárias paliativas até quando?

O ICI Brasserie, sociedade do Benny Novak com a turma da Cia Tradicional de Comércio, ficou uma delícia. O bom-gosto descolado das duas turmas está em sintonia e em todos os detalhes, sempre pensados com carinho, igual a tudo que eles fazem. O Brillat-Savarin disse que o anfitrião que não se dedica a pensar no que e em como vai servir seus convidados não os merece – e esses caras merecem cada freguês.

Na porta encontrei o Bruno Grinberg, que de cara recomendou o chope. Pela relação da CTC com a AmBev imaginei que fosse o inexorável Brahma, mas não: lá é Colorado, uma delícia, amargo e gelado na medida certa, servido num copo que, respeitando o princípio da firma, foi pensado para ele. Quanto mais lugares entrarem nessa serpentina, melhor. Ganha a freguesia, ganham os estabelecimentos, perde o monopólio.

Ao balcão almocei duas entradas: tutano assado e tartar de atum. O primeiro é um clássico que numa licença poética e gastronômica poderia se chamar consomé de forno, com o extrato do boi acompanhado de cebola, salsão, cenoura e temperos, para comer com pão, só que assado em vez de cozido. É forte. Para refrescar pedi o tartar, que vem enfeitado com uns brotos e outra delícia de forno: arroz selvagem assado – fica tão saboroso e perfumado que parecem finas castanhas, literalmente. Nota: ambos poderiam ser executados com uma colher adequada.

A pena é que, apesar de tudo muito bom, o ir e vir em São Paulo anda impraticável. Logo, tudo o que nos resta é clamar por um ICI por aqui, no Jardim Paulista.

 
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O sono do Toinho

Quando tomo taxi, apesar de estar pagando, fico constrangido em opinar no que toca no rádio. Só peço para trocar a estação em casos extremos. Não é questão de educação. Com ar-condicionado sou intransigente e já saltei de um que estava sem. Por outro lado, quando estou num bar reclamo ao menor sinal de música eletrônica.

Mas o que eu queria dizer é a falta de paciência pode acarretar em prejuízo. Na quarta-feira, tivesse eu me irritado com uma mesa redonda sobre futebol que tocava no taxi, teria perdido uma delícia de história.

Há anos o Julinho Toledo Piza me contou sobre o Toinho, um goleiro que jogou no São Paulo. E justamente esse Toinho foi personagem de um dos casos lembrados no programa. Falavam sobre como o futebol já foi ainda mais sem noção do que é hoje, e da vez em que um certo Castor, ao ver o goleiro dormitando recostado a uma das traves em pleno início de partida, invadiu o campo, sacou o revolver e deu um tiro no sarrafo, interrompendo o sono do atleta.

A história original, contada pelo Júlio, eu já botei aqui, e repito para poupar a freguesia do serviço de busca. Havia um bar na Bela Cintra frequentado por bêbados diversos, entre eles uma atriz pornô que gostava de Dry Martini. Era pornô, mas não era michê. Pagava cada drinque e prezava muito o profissionalismo. Um dia chegou com a notícia, causando frisson na bancada são-paulina: ia gravar com o Toinho. Aposentado numa época em que os boleiros ganhavam pouco, ele topou o serviço.

O roteiro era simples: ele era um presidiário foragido escondido no mato, todo sujo, vestindo uns trapos e trazendo no pulso pedaços de correntes. E justo aquela libido por tantos anos acumulada foi encontrar uma loira linda e assanhada, passeando pelo bosque metida numa saia curtíssima. Incontrolável, ele a surpreendia, metia-lhe uns tapas e todo o mais.

Com o set de filmagem pronto o diretor berrou “Ação!”, e o Toinho fez tudo o que tinha que fazer. Só que logo após os primeiros movimentos o diretor quis tentar outra perspectiva, outro ângulo, e de novo berrou: “Corta!” E o Toinho: – “Corta o caralho!” Completou o serviço e dormiu. No bar, a atriz lamentava: – “Toinho não é profissional”.

 
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Yoani passou por aqui

A blogueira cubana Yoani Sanchez chegou ao Brasil e foi à Feira de Santana, na Bahia, onde pôde conferir a superioridade das salas e variedade da programação de cinema em relação à sua Havana natal. No lugar da pipoca oferecida pelo cineasta anfitrião, preferiu matar a saudade de anos do pão quentinho, assado na hora, e notou em seu blog a cordialidade da freguesia que fazia fila no balcão. Evitou comer mais de um, não em atenção ao regime, mas para não parecer esnobe. Ainda na padaria, viu que muitos jovens usavam smartphones para acessar as redes sociais , previsão do tempo e até jornais, sendo que só um sofria censura, “parece que por conta de um pessoal do Marañón”. E já ia dizendo supersônica a velocidade da internet, impressionante a cobertura do celular, mas foi corrigida a tempo por um amigo chileno.

A notícia da visitante ilustre por aqui teria sido mais ou menos assim, não fosse a ajuda grosseira, porém providencial, que recebeu de grupos extremistas orientados pela ditadura castrista, pelo governo petista e pelas organizações que os apoiam e por eles são sustendadas.

Igual ao dedão que tenta impedir a água vertendo da mangueira e acaba provocando um esguicho muito mais forte e abrangente, os manifestantes cancelaram no grito a sessão do filme e conseguiram uma repercussão que abafou o tambor comemorativo dos dez anos do PT no governo. Mais: a morena foi direto para os braços do Aécio Neves, num encontro muito apropriado, porque assim como ela, o presidente Tancredo Neves, avô do senador, também ajudou a derrubar uma ditadura se valendo de ideias, não de armas.

Qualquer manifestação é democrática, desde que permita o contraditório. Isto não podemos dizer que houve em Feira de Santana. Pelo contrário, impedir uma sessão de cinema é a mesma coisa que queimar um livro, igual faziam os nazistas. Mas ainda assim, com boa vontade, digamos que eles simplesmente se manifestaram. Pois é: se manifestaram a favor de uma ditadura.

Os argumentos dos que querem calar a blogueira são os mais variados. Há quem diga que até recebe salário em troca de trabalho. Pasme você, possível leitor, que ela trabalha e alguém paga por isso. Eu que sou um nego sabidamente torto, não me envergonho em dizer que gostaria de ter o mesmo privilégio e ainda confesso que morro de inveja. Capitalistas, eis-me aqui, Léo Coutinho, blogueiro, seu criado.

A imagem que fica da visita é muito clara: hoje a Yoani Sanchez tem como jornalista a mesma importância que o Fidel/Raul Castro enquanto Chefe de Estado.

 
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Parasitas no deserto

Vão dizer que é o verão. Há até quem comemore essa temperatura sórdida. Os mais malcriados recomendam aos incomodados que se retirem. Mas a verdade é que este clima não é natural de São Paulo. Não é paulistano. A não ser se entendido como filho da nossa falta de consciência.

Interferimos no curso, no leito e nas margens de todos os nossos rios, canalizamos córregos, ocupamos mananciais e o entorno das represas, abrimos e erguemos cada vez mais avenidas, pontes e viadutos para carros, esquecemos solenemente da necessidade de praças e fontes, parques e lagos para uma vida urbana que se pretenda tolerável.

No lugar de um parque enorme entre a Paulista e a Estados Unidos, que era a previsão original, nossos empreendedores preferiram fazer o Jardim Paulista. Os arefs, aurélios miguéis e seus patrocinadores empreiteiros não nasceram ontem.

Cem anos depois o que temos é de novo um parque, só que ainda mais exótico, com corredeiras violentas e árvores caindo a cada temporal. E a tendência é piorar.

Cada árvore aqui plantada é uma mártir. Como se não bastasse sobreviver isolada num ambiente hostil, ainda tem que conviver com a falta de consideração do principal interessado em sua presença – o Homem. Sequer podas regulares e extração dos parasitas que as maltratam as coitadas merecem. No lugar disso, ou quiçá por inspiração, o que temos é uma máfia de cafetões do meio-ambiente que chegam a usar seus galhos e tronco para apregoar serviços sujos.

Cada árvore que morre ganha uma lápide, diminuindo o escoamento de água e aumentando a temperatura, que por sua vez chama uma tempestade ainda mais forte, que vai derrubar ainda mais árvores. O que os parasitas não calculam é que no deserto nem eles sobreviverão.

 
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