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O papa a favor do trabalho

O papa Francisco está encantando a todos. Diante de um boa praça desses ninguém precisa ser católico para se comover. Sendo, talvez se emocione mais, mas o carisma não presta atenção em credo, cor, conta.

Só não aprovo o que ele falou sobre drogas. Segundo os jornais, ele teria dito que “não é deixando livre o uso que se conseguirá reduzir o consumo”. Isto é incontroverso. “Deixando livre”, no sentido de esquecido, nada vigora e muito menos melhora. Mas o sentido que ele quis passar foi contrário ao pensamento legalizador que cresce na América Latina, continente notadamente prejudicado pelo tráfico. Ele é o papa e sabe de muitas coisa que eu sequer imagino. Mas de uma eu tenho certeza: enfrentar o problema como caso de polícia não reduz o consumo e talvez incentive. Deixar livre evidentemente não é o caso. Tratar como caso de saúde me parece mais adequado.

Mas o que eu querida dizer é que achei linda a mensagem contra o consumo. O papa é a favor do trabalho e da vida simples, do amor como razão de se viver. Esta é uma verdade universal que a gente bobeia e por vezes acaba se confundindo, deixando crescer necessidades idiotas, egoístas, principalmente relacionadas a poder e dinheiro.

Ele disse que os jovens precisam trabalhar. Só que tanto quanto ter que trabalhar pelo dinheiro, pelo pão de cada dia, o papa acredita que os jovens precisam trabalhar pelo significado do trabalho, pelo valor de realizar, de produzir, de participar.

Quem duvidar que a primeira coisa que move as pessoas não é o dinheiro vai esborrachar a cara. Outro dia eu ia chegando em casa quando ouvi entregadores de pizza escutando um colega de outro restaurante dar seu ponto de vista sobre a atividade. Segundo o distinto, por entregar pizza os motoqueiros ali presentes não eram tão importantes e capacitados quanto ele que entregava “comida de verdade”. Pode?

Sei que é pequeno e rasteiro o raciocínio, mas se repete em qualquer outra profissão. Dos homens placa que se vangloriam de anunciar um apartamento maior do que o dos outros (obrigado, Cidinha); passando pelas babás que julgam mais importante trocar a fralda do filho de alguém famoso do que de um bebê anônimo; e mesmo esse próprio alguém famoso que muitas das vezes se resume nisto, em ser famoso, e portanto precisa de continuadas capas de revistas; e o banqueiro para quem o importante não é o lucro de dez bilhões, mas chegar com alguns milhões a mais do que o concorrente; ou o artista cuja expressão não basta, precisa da recíproca do público; todo mundo trabalha antes pela satisfação do que pelo dinheiro. Difícil é perceber que ela nunca vem de fora. Está sempre no princípio, nunca no fim da atividade. E sem satisfação não há dinheiro ou reconhecimento que baste.

Quando não há satisfação o amargor explode e se consola no prazer barato das drogas, do consumo desenfreado, da amizade quantitativa. E, se a crise vem e impede chulices tais, por glória só resta a guerra.

 
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O único caminho

A notícia é que a cidade de Detroit está quebrada. O prefeito pediu concordata. E a discussão que se segue é se cabe ou não cabe, pode ou não pode uma prefeitura falir financeiramente. E vem exemplos de outras que já chegaram ao mesmo extremo, com o Rio de Janeiro incluído.

Aqui no Brasil pode-se dizer que a maioria nunca vai falecer – até por que para tanto elas precisariam ter nascido financeiramente e isto jamais aconteceu. O número é o seguinte: 60% dos municípios brasileiros são economicamente dependentes dos repasses do governo federal por serem incapazes de gerar receita própria.

Mas isso é outro assunto. O que eu queria dizer é que a falência simbólica é a da indústria do automóvel. Detroit, a cidade dos motores, precisa se reinventar para desviar do precipício para o qual rodam os carros que fizeram sua fama e fortuna.

Nos últimos trinta anos a quantidade de jovens que não têm carteira de habilitação dobrou. Entre os que estão na faixa dos dezoito anos chega a 40%. A escolha por morar em centros urbanos equipados com transporte público de qualidade vai na direção contrária e só faz crescer, assim como o uso individual ou compartilhado de bicicletas e o clamor por mais ciclovias.

Não será tão fácil enterrar uma cultura tão forte quanto a dos carros. A paixão resiste. Quem não acha lindo um Porsche antigo ou graça num fusquinha? E esses Fiat 500, que charme! Mas de modo geral o carro virou uma coisa bocó. No meu dia a dia não uso e não quero usar. Apesar dos exemplos que me emocionam, propriedade e responsabilidades derivadas não gostaria de ter sobre nenhum. Em mim os carros despertam exatamente a mesma emoção de um elevador.

Então, como é prudente repetir, boto mais uma vez aqui minha opinião sobre o que deveríamos fazer a respeito das avenidas principais do centro expandido em São Paulo. Rebouças, Consolação, Rua Augusta, Nove de Julho, Brigadeiro, Santo Amaro, São Gabriel: proíbe-se o trânsito de carros, alarga-se as calçadas, mete ciclovia, árvores e o no canteiro central corredor de ônibus para já e posteriormente bondes. Quem quiser ir sozinho, no modelo egoísta do carro particular, que sofra as consequências.

Vão dizer que a cidade vai parar. Ora, já parou. Não tem mais jeito. O único caminho é o do coletivo.

 
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Dura lex?

A aula de direito mais remota que me ocorre tomei do André Franco Montoro, meu tio-avô. Criança privilegiada, pude aprender descontraidamente com o professor que formou tantos juristas e através dos seus livros continua formando.

Ele dizia que conceito básica do direito é a maleabilidade. Por ser matéria humana, de obra humana, ele deve servir sempre ao ser humano – e se adaptar a ele.  Com as ciências exatas não há escapatória, elas são duras, fatais. A matemática já existia, um mais um sempre foi e sempre será dois, o Homem simplesmente organizou. Com o direito é diferente, sempre cabe interpretação e adequação da regra.

O exemplo do tio André é ótimo: num espaço público há uma placa proibindo a entrada de cães. Então chega um cego com seu cão guia e o guarda na porta o impede de entrar. Logo em seguida, outra pessoa chega com um urso e entra sem encontrar resistência. Dura lex?

Aí está o ponto. A lei não pode ser dura, tem que ser maleável, se adaptar à sociedade. Aqui no Brasil temos a piada antiga, segundo a qual há leis que “não pegam”. Ora, aqui, ali e em qualquer lugar onde houver gente uma lei que for contra os costumes só vai pegar à força – o que não é bom. O ideal da lei é que ela reflita a sociedade, e sociedade deve ser um lugar tranquilo, leve, agradável para se viver.

Se, ao contrário disso, emerge na sociedade o clamor pelo embrutecimento da regra, a ponto de inclusive gente boa e tida como esclarecida defender que o Estado endureça as leis e suas aplicações, como reduzir a maioridade penal, instituir pena de morte e até recriar presídios medievais, isto é, que justamente como fazem os criminosos prenda, arrebente e mate, como se assim resolvesse os problemas, fica claro que antes de qualquer lei o que precisa de atenção é a sociedade.

Não é razoável que a política de segurança ignore justamente o seu princípio, que é a liberdade individual. Reagir na mesma moeda só vai dar impulso ao pendulo eterno, que se hoje está em nível de calamidade, é porque na outra ponta também foi longe demais. Ou alguém pode negar o descaso social histórico no Brasil?

A gente colhe o que planta, recebe o que dá, é o que come. Se a ideia é ter uma sociedade melhor, mais justa e honesta, precisamos de uma rede de proteção social, que eduque, cuide, atenda, conforte, proteja. Mais grades, mais chumbo, mais mortes definitivamente não vão nos ajudar.

Crônica publicada na revista Amarello - http://www.amarello.com.br

 
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O Lula tem razão

Toda vez que o Lula publica um artigo no New York Times a turma por aqui estrila, discutindo se ele fala inglês, se não fala, se o jornal publicou mesmo ou se foi o site ou a edição internacional. É o mesmo pessoal que criticava sua gestão na Presidência da República por beber demais e ter só nove dedos nas mãos.

Sobre o conteúdo, nenhuma ou pouca repercussão. Os poucos que comentaram criticaram duramente a opinião do ex-presidente, segundo a qual o levante do 17 de junho é derivado do progresso social alcançado nos últimos anos. Da minha parte eu não só concordo com o Lula como inclusive já anotei a mesma coisa aqui.

Sobre ele se considerar o responsável por tudo de bom que há no Brasil desde sempre, fazer o que? Delírio a gente não controla. Nisso a Dilma é melhor e logo que tomou posse reconheceu o legado do FHC. Mas para mim é incontroverso que a estabilização econômica e os programas sociais possíveis a partir dela melhoraram a sociedade e com efeito a expectativa social dos brasileiros.

Ora, minimamente quem come pensa melhor do que quem não come. Num nível melhor, quem faz a primeira viagem num avião moderno ou num navio festivo aumenta as expectativas em relação ao transporte cotidiano. E assim por diante é da vida querer mais.

Não fosse a expectativa, bastaria o costume – que “é a força que fala mais alto do que a natureza”. Acostumado à nova condição social o sujeito estrila quando se sente ameaçado. Isso, que se dane a modéstia, eu também já escrevi aqui há muito tempo. A crise econômica para um europeu, que já teve altos e baixos tantas vezes na vida, com guerras, revoluções sangrentas e outras crises, mais uma é só um inverno cruel. Para quem pela primeira vez está se lambuzando, como é o nosso caso, a dor é maior. E a ameaça de volta da inflação foi só a primeira pontada.

O desconforto aumenta o senso crítico das pessoas. Quem relevava os escândalos e a má gestão dos governos petistas não fazia por benevolência ao “metalúrgico” ou à “primeira mulher eleita”. Isso é joguete dele. Quem vota tem expectativas sérias a respeito de um ocupante do Executivo. Ele não é cacareco nem ela é tiririca. Se as pessoas relevavam a má conduta era porque estavam se divertindo com o primeiro carro, pensando no cruzeiro de navio ou simplesmente comendo um bife. Agora querem mais e o que recebem é a possibilidade de perder uma parte. Vão reclamar mesmo. E muito. Se segura, Luís Inácio.

 
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Limoeiro

Descobri que o bar não é melhor que o lar, como afirma muita gente boa. O cinema e qualquer outro passeio também não. Nem vice-versa. Cada um é bom do seu jeito e no seu tempo. E o tempo agora é do lar. Hoje nada pode ser melhor do que a casa.

Jantar em casa e emendar com o filme alugado que no cinema você deixou passar é um deleite. Na segunda-feira saí do clube, passei na 2001 e peguei Lemon Tree, uma maravilha do diretor israelense Eran Riklis.

Conta a história de uma viúva palestina que herda do pai um pomar de limoeiros, lindo por sinal, porque os limões deles são amarelos, do tipo que a gente chama de siciliano, o que proporciona um contraste com as folhas verdes que o nosso Taiti não tem. Mas enfim com a ajuda de um empregado ela cultiva o pomar, dos limões faz conservas, limonada para as visitas, tira sua renda.

Até que um dia o ministro da defesa de Israel muda para a casa vizinha. E o seu pomar, quase tão antigo quanto o próprio Estado de Israel, é reconhecido como uma ameaça, pela possibilidade de esconder um terrorista disposto a atentar contra a família do político. Então começa o processo.

A proposta de Israel é derrubar as árvores e indenizar financeiramente a viúva. Além do valor sentimental, o pomar é sua fonte de renda. Para traduzir a carta em hebraico ela procura um líder palestino amigo de seu finado marido que piora o quadro: para ele o valor sentimental é baixo se comparado à toda tristeza Palestina e o valor financeiro não pode ser realizado, posto que palestinos não aceitam dinheiro israelense em nenhuma hipótese.

Resta apelar para a Justiça. Então ela procura um advogado que vai ao tribunal militar e perde. Insatisfeita, ela manda insistir até o Supremo, e o insólito chega à imprensa internacional.

A fita toda é muito bonita, nos fala do cotidiano daquela região, que é bem diferente do que se imagina através das notícias que chegam, há casos de amor, traição, política evidentemente. Mas mostra principalmente como é difícil chegar a um resultado inteligente partindo de uma ideia burra. Ideias burras deveriam ser mortas assim surgissem. Mas às vezes por distração, conceitos velhos ou, pior ainda, por esporte, necessidade de competir e prevalecer, elas crescem e acabam mal na maioria das vezes, com prejuízo geral. No caso, um muro.

Poucas coisas são tão cretinas quanto os muros. Qualquer pessoa que se perguntar para que serve um muro vai perceber quanto prejuízo eles já causaram. Tanto faz que lado você está, o muro é ruim. É uma ideia burra que continua pelo motivos de sempre: distração, conceitos velhos, necessidade de competir e prevalecer.

 
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O luar da Escócia

A notícia é emocionante em todos os sentidos. Ontem abri O Globo e fiquei sabendo que encontraram na Escócia o calendário mais antigo do mundo. Qual folhinha! O troço consiste em uma sequência de pedras de tal maneira dispostas em relação à fenda de uma montanha que é capaz de medir as fases da lua.

Não me abandone, leitor! Sei que você já ia aqui me deixando para preparar um uisquinho, mas fique só mais um instante. Ou vá, mas volte logo porque há mais, muito mais (obrigado, Pacheco).

Lá se vão dez mil anos desde que essa gente formidável da Escócia, notadamente da região de Aberdeen, de tanto namorar a lua se dispôs a decifrar seus mistérios. Sei que algum tipo vulgar neste momento sente falta de algo além do luar escocês, como se a vida pudesse ir além disso. Mas a generosidade também consiste em atender a esses pobres espíritos práticos, então lá vai: “as investigações abrem caminho para novos estudos sobre o desenvolvimento da Humanidade e a concepção de tempo na História a partir deste dispositivo luni-solar construído por sociedades de caçadores-coletores, até então consideradas mais atrasadas do que a dos agricultores, por exemplo.”

A reportagem observa bem que esses homens quando criaram o calendário tomaram uma dimensão futura da vida, que até então era só presente e passado. E o que é uma dimensão futura se não o sonho, a imaginação, o espírito lúdico aflorando no homem. O encontro com a namorada, a expectativa da flor, do final de semana, da própria lua cheia.

Não sei se o uísque veio antes ou depois e tanto importa. Para mim está claro que são milenarmente indissociáveis. Uísque, lua, sonho. Quem bebe para esquecer não sabe o que está perdendo. O bom é beber e sonhar, de preferencia sob o luar.

 
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Combate às drogas: deu errado

Esta terça-feira amanheceu nublada. Fosse de sol, Ele surgiria quadrado para 548 mil brasileiros. Mas o Brasil é grande e o clima varia qual pluma ao vento. Invariável é o perfil do preso: 94% são homens, 75% são mais novos do que este bloguista nascido em 1978, 60% são pardos ou pretos, 140 mil por tráfico de drogas. Por corrupção são 722.

A bem da verdade é preciso dizer que hoje o número aumentou: dois delegados e cinco investigadores do departamento que combate o tráfico de drogas em SP foram presos a partir de uma investigação da própria polícia em parceria com o Ministério Público. No quadro geral não sei como fica: entrarão os distintos como corruptos, traficantes ou as duas coisas?

Outra autoridade suspeita de envolvimento com o crime organizado é o juiz Vilmar Pinheiro, célebre por mandar prender Marcelo D2 e companhia por apologia à maconha. Foi afastado e aposentado compulsoriamente mas segue recebendo R$28mil do nosso todo mês. Faça chuva ou faça sol.

Para mim o recado é muito claro: a proibição total das drogas pode atender a muitos interesses, mas os da sociedade não estão entre eles. Sei que a muita gente não parece a mesma coisa e compreendo. Mas os números e os fatos estão aí para enriquecer o debate.

O Estado gasta um dinheiro incalculável com equipamento e pessoal que trabalha quase que exclusivamente numa guerra que vem sendo perdida há décadas no mundo todo. Quando, digamos, dá certo, o que sobra são 140 mil moleques presos, amontoados num espaço onde mal caberia a metade disso, parte de um sistema que não recupera ninguém, e que custa mais um monte de dinheiro que seria precioso se aplicado em programas efetivos de prevenção e tratamento, isto é, educação e saúde.

O problema que ninguém pode negar é que nada disso dá certo. Lutar contra o tráfico só aumenta o poder financeiro dos traficantes, que compram policiais, juízes, políticos.

Se o Estado legalizar e regular mais algumas drogas, como já faz com remédios, álcool, tabaco, deixa de gastar com o combate e ainda passa a faturar com impostos, somando um rio de grana para o que resolve: educação e saúde. Não sei se vai dar certo. Mas como está já deu errado.

 
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A preferência do Montoro

Ontem, 14 de julho, dia da Queda da Bastilha, o governador André Franco Montoro completaria 97 anos, não tivesse morrido no 16 de julho de 1999, vítima de um enfarte, aos 83, em pleno aeroporto de Cumbica – que hoje leva seu nome – embarcando para um congresso no México, onde discutiria os caminhos da América Latina. Para ele a solução era clara: integração ou atraso. Depois de tanto tempo, continuamos desintegrados e cada vez mais atrasados.

Mas a pregação pela integração latino-americana não é a única do Montoro que continua urgindo. A maior delas talvez tenha sido a reforma política. Não se cansava de repetir: a primeira reforma é a política. Se a gente não conseguir melhorar o sistema eleitoral nada mais será possível.

A Bárbara Gancia meteu na Folha de sexta-feira um artigo dizendo que as nossas cinco prioridades deveriam ser: educação, educação, educação, educação, educação. Estou de acordo. Educação precede tudo. A saúde, por exemplo, que sempre vem aparece entre as urgências, melhora muito com educação. Segurança também. E a mobilidade. Mas se o sistema eleitoral não sofrer os reparos necessários – e isso se faz através da reforma política –, nem o povo mais educado do mundo poderá esperar qualquer transformação social efetiva.

As provas são claras e estão ao alcance de todos. Pegue o amigo mais bem educado que tiver a mão, que tenha de MBA a intimidade com Aristóteles passando por destreza com pinça de escargot e pergunte a quantas anda o mandato de quem mereceu o voto dele. Sacou?

Educação é fundamental, mas sozinha não resolve. A melhor maneira de cuidar dos políticos que cuidam do país, dos estados, da cidade ou do bairro em que a gente mora é igual a qualquer outra: presença, disponibilidade, olho nele. E isso só acontece pelo voto distrital – a preferência do Montoro, por sinal.

Com o voto distrital o político mora perto do eleitor e vive ao alcance de sua vista. Se desaparecer abre espaço para outro mais disponível. Simples assim. Então, se a escola estiver ruim, ele vai ter que se explicar. Por isso a reforma política é a primeira reforma, igual dizia o Montoro.

Saiba mais sobre o Voto Distrital, assine a petição, compartilhe: www.euvotodistrital.org.br

 
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Mudando de profissão

Para quem seria melhor se arquitetos e urbanistas recém formados pela FAU fossem enviados para trabalhar nas periferias brasileiras, nos sertões, planejando bairros, cidades, projetando casas populares nos conjuntos habitacionais, reurbanizando favelas?

E se os advogados que saíssem das Arcadas direto para a Defensoria Pública do mais ermo sítio, ou mesmo para dentro das penitenciárias mais enroladas, dispostos a ouvir os detentos, ajudar  nos casos onde a Justiça não alcança? Vale para vara de família, cível ou qualquer outra. Sabe-se lá quanta gente tem a vida atravancada por uma separação malfeita ou negócio mal-resolvido por falta de um profissional.

Se os recém formados em jornalismo fossem enviados para fazer reportagens sobre a vida que ninguém mais cobre, fuçar o quintal mais acanhado para informação local ou nacional, o que seria?

E até sei lá, propaganda, moda, gastronomia, artes. Tem faculdade para tudo hoje em dia. Não sei se públicas, mas há. Um período do cidadão que teve essa possibilidade servindo no lugar que jamais imaginou algo parecido seria tão bom que nem sei medir quanto ou se mais para um do que para o outro. É bom para todos, para o indivíduo, para o lugar, para o Brasil.

A única coisa ruim foi a maneira petista de fazer, atravessada, sem discutir com a sociedade, como aconteceu com a proposta dos médicos. Melhor trabalhada a ideia teria filas para participantes interessados, quem sabe até um processo de seleção. O que o Drauzio Varela fez no Carandiru transformou a vida de muita gente, mas principalmente a dele.

 
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A favor da residência médica no SUS

Eu já disse aqui que se a reunião dos programas de transferência de renda num só pacote batizado Bolsa Família pelo governo petista tinha princípio eleitoreiro, pode até ter funcionado por um tempo, mas tudo leva a crer que atingimos um estágio mais avançado, onde a criatura engole o criador, como sempre acontece.

Minimamente, a possibilidade de depositar algum na conta de mais de dez milhões de famílias permitiu que essas pessoas se alimentassem melhor. E quem come pensa melhor do que quem não come.

Os demais efeitos econômicos, que fazem o dono da venda mais próspero, e então o agricultor, o industrial, o prestador de serviços, criando empregos e um ciclo virtuoso são sabidos. Da mesma maneira é sabido que isso tudo não basta, que é preciso um governo capaz de estruturar o país para acompanhar o avanço, com infraestrutura, educação, saúde, segurança. Caso contrário, mais uma vez sabemos nós, é o colapso, é o caos.

A combinação desses fatores, isto é, melhora do raciocínio geral e consequente aumento do nível de exigência, com a estagnação da oferta de serviços do Estado foi o que abriu o apetite das criaturas sobre o criador.

Agora vem a presidente Dilma com a ideia de colocar médicos brasileiros recém formados pela rede pública para servir nas periferias das cidades e nos rincões do Brasil. Ter feito de maneira eleitoral sem ouvir as entidades de classe foi um erro político, e a obrigatoriedade pode ser outro erro jurídico. Mas institucionalmente falando é uma coisa boa.

Os críticos muitos falam que a carência não é de médico, mas de hospitais, consultórios e outros equipamentos. Claro que é. Mas nesses lugares onde sequer a vista alcança às vezes nem luz, muitas vezes nem esgoto há. De modo que colocar uma molecada doutorada (de preferencia voluntariamente) para viajar o país levando informações básicas, como lavar as mãos, será bom imediatamente para o Brasil.

… e esse circular de doutores entre os centros urbanos onde estão as universidades e lugares jamais visitados, levando e trazendo informações, conhecimento, trocando experiências, vivendo a diversidade cultural, é de uma maravilha transformadora evidente. Quem imagina que pode orquestrar politicamente qualquer coisa nesta dimensão se engana redondamente.

 
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