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Vida boa e sem segredo

Resolvi dar um tempo da minha cara de pau e entrei no novo Mercadinho Dalva e Dito para comprar qualquer coisa. Desde que eles abriram o bar novo, por sinal equipado com cadeiras Paulistano do Paulo Mendes da Rocha, liberando o balcão do acesso original para funcionar uma mercearia de antigamente, eu só passava ali na frente, aproveitava a pipoca grátis e seguia o meu caminho da roça. Culpa ou mérito da Rose, a cicerone que já passou pelo Gardênia e pelo Dona Onça e agora sorri ali na Padre João Manuel.

Diante dos quitutes vibrei a ponto de confundir os sentidos todos. Olhando a rosca de calabresa pude sentir todas suas texturas, do miolo úmido e macio à crosta crocante e pipocada feito massa de pastel. O sabor das cebolinhas que não comi, douradas pela gordura que pinga do frango rebolando nos espetos da televisão, também estava ótimo. Fiquei no pão de queijo, quitute tão vulgar para nós brasileiros, e pasmei diante da constatação: era de queijo mesmo. Denso e macio, suave e ardido, irresistível. Arrematei a cesta toda e levei para a casa da minha sogra, que é mineira, a fim de descobrir se eu poderia estar exagerando ou sendo traído, quiçá pela fome, quiçá pela condescendência produto da vergonha depois de tanta pipoca grátis. Mas não. Tanto Donana, nascida e criada em Uberlândia, quanto a Cidinha e a minha Neguinha que tantas férias de infância passaram lá atestaram: é o legítimo.

Ao lado da venda, o Dom Pepe de Nápoli está em reforma. Na quadra anterior, depois do Piselli, algo novo está sendo inaugurado. Já quase na Oscar Freire há outras casas em obras. Curiosa esta onda. Há um mês eu andava encafifado com a quantidade de lugares fechando as portas, com aquelas tristíssimas faixas passando o ponto na fachada. Agora isso: lugares diversos novos em folha florescendo. Aqui diante do meu escritório, na Franca, mais um que já começou queimar as panelas. Deve ser a primavera.

Mas a novidade que merece ser comemorada tanto quanto ou até mais do que essa safra de novos lugares é o movimento no sentido de preparar as coisas sem segredo, as coisas de sempre feitas com matéria prima e técnica de primeira, ou fazer pão de queijo de com queijo de verdade como o Alex Atala sempre pregou e agora está entregando.

Hoje almocei no Tavares, ali na Consolação: filé acebolado, arroz com feijão, legumes grelhados. Sem frescura e sem segredo, e principalmente sem fondor, sazon ou caldo de cubinho. Este fenômeno delicioso também é possível pelo menos em outros dois lugares: o Dona Onça, que inclusive os caldos faz em casa, e o Mocotó. É o tal do óbvio que só os profetas enxergam, como diria o centenário e eterno Nelson Rodrigues.

A profecia que mais desejo ser confirmada é essa: ver os botecos todos largando mão da química na cozinha, fazendo comida com carinho e cuidado, como se para os filhos fosse e principalmente para seus filhos, todos eles. Tudo o que falta num boteco como o Ministrão, por exemplo, ou o Brejinho, ali acima do Tavares, é parar de martelar o bife e voltar a botar alho de verdade na comida. E cebola, louro, uma cenourinha… Quem sabe até um talo de salsão? A vida boa é simples e não tem segredo, só tem carinho.

 
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Cidade fatiada

Por uma questão pessoal passei uma semana visitando a Vila Mariana diariamente. Aliás, duas questões pessoais: a primeira foi buscar um pratinho com o logotipo do Quintal do Braz, que eu vi numa das comemorações culinárias que o Panda publica no facebook. O negócio dele é esse: corre uma maratona pela manhã e à noite se entrega às redondas, sempre dividindo o roteiro na rede social. Faço coleção de pratinhos de restaurantes e bares e da Companhia Tradicional de Comércio, vulgarmente conhecida pelos bares Original, Pirajá, Astor e outros, também tem a pizzaria Braz, sendo que a da Vila Mariana, por ficar num casarão adaptado e equipado com um vasto e lindíssimo quintal, ganhou apelido especial. E pratinho também.

Curiosamente estive lá com a minha Neguinha no sábado em que meu pai também esteve. A curiosidade se deve ao fato de, apesar de morarmos a menos de dez quilômetros da Vila Mariana – percurso que o Panda faz como quem vai à cozinha buscar um copo d’água –, nem me lembro da última vez que passei por lá. E tenho sei que meu pai também não. É um fenômeno paulistano: de propósito a gente usa a paróquia, querer ir além é pedir para sofrer.

Abro parênteses para acrescentar que a curiosidade é também um privilégio. A estatística sobre a média de mobilidade diária de um paulistano comum menor de quinze anos não passa de três quilômetros. Foi o que me disse um estudioso, o Ricardo Kobashi. O moço vai à escola, busca pão para a mãe, descobre um campinho para bater bola e fazer besteira na rua de baixo, leva a namorada para os fundos da igreja. De vez em quando sai para um passeio mais longo com o pai, para ir ao médico ou sei lá, ver o futebol. Mas rodar para valer pela cidade só depois que começa a trabalhar. E sofrer: com o trânsito, com o transporte público, com o próprio trabalho.

Mas o que me levou além da minha freguesia foi a pizza, no sábado. E depois passei a semana toda voltando, porque meu pai ficou no HCor para fazer uns reparos, notadamente uma gambiarra médica notável, chamada stent. Os doutores enfiam uns troços desses nas veias e substituem uma cirurgia de ponte de safena ou outras obras. É uma maravilha. O velho já está novo.

A Vila Mariana é um bairro muito bonito, principalmente ali naquela praça onde fica o Pátio Paulista, o hospital Oswaldo Cruz e outros. A arquitetura é muito boa. Está judiada, mas os prédios antigos são lindos e um dos novos também, que é um enorme que se vê da 23 de Maio, com varandas de tamanhos diversos.

Indo e voltando das visitas, sempre de Metrô (minha prima Gabriela Duva até ofereceu carona de carro, mas tenho andado apressado), fiquei me perguntando o porquê do pessoal de Pinheiros ser mais parecido com o do Jardim Paulista do que o da Vila Mariana e do Paraíso ou o das Perdizes e Pompéia. Ora, esses quatro últimos são siameses, ficam todos no morro da Paulista, mas a turma de Pinheiros têm mais afinidade com a do Jardim Paulista e vice-versa. Ou pelo menos é esta a minha impressão.

E da impressão surge a delícia que é o palpite. O meu é que os vizinhos, assim como os familiares, cansam uns dos outros, até porque reconhecem características suas nos próximos, e o espelho social é quase sempre insuportável, tanto na vaia quanto no elogio. E quanto mais adensado o povo, mais difícil é a convivência. Daí que sempre que acontece um respiro a cidade agradece.

As casas e as árvores todas dos jardins Europa e América servem, como diria o Marco Aurélio Mello, de algodão entre os cristais do Jardim Paulista e de Pinheiros. Sem esta suavidade intermediária o intercâmbio entre os bairros do espigão da Paulista fica prejudicado. Tanto é que mesmo dentro do Jardim Paulista a comunidade de divide da Augusta pra lá, da Augusta pra cá e a mesma coisa com a Nove de Julho. Há quem proponha renomear a Alameda Santos: entre a Nove de Julho e a Augusta fica como está. Da Nove de Julho para a Brigadeiro vira São Vicente, e da Augusta até a Rebouças, Guarujá.

 
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O homem e o boneco

Marketing político deveria ser assim: um líder dá sua opinião dizendo para aonde devemos ir, os estrategistas desenham o melhor mapa de acesso e os marqueteiros se reservam ao papel de tornar o caminho mais fácil de entender e bonito, através de sinalização e flores nos canteiros. Flores de verdade, naturais, de preferência.

Aqui no Brasil ocorre o inverso: o marqueteiro encomenda a pesquisa de opinião e dela extrai um norte, ao qual os estrategistas adaptarão os caminhos e o candidato, que deveria ser o líder, acaba submetido, na melhor das hipóteses temendo contrariar a vontade popular, mas na maioria delas é só pavor de perder a eleição.

As pessoas cada vez mais vêm confundindo o papel do líder com o de porta-voz da maioria. Líder não é aquele que repete a opinião que prevalece, mas aquele que faz o bom-senso prevalecer na opinião geral. Para tanto ele tem que ser mais preparado, mais culto, inteligente, mais sábio.

Um dos poucos caras assim que restam com disposição para disputar uma eleição no Brasil é o José Serra. Digam o que quiserem: ele é feio, amargo, desagradável, duro de roer. Estou de acordo. Mas o fato é que o nego estudou e se preparou a vida inteira para exercer cargos públicos, e sempre que teve oportunidade de ocupa-los, revelou-se um líder capaz de conduzir o Estado no sentido de melhorar a vida das pessoas.

Foi assim no ministério da Saúde, na prefeitura e no governo do estado de São Paulo. Elencar as realizações seria cansar o freguês, por isso fico em duas que me comovem: urbanização de Paraisópolis e do Cantinho do Céu. Eram favelas e agora podem ser considerados bairros. Ainda há por fazer, mas se inclusive bairros tidos como planejados acabam se desvirtuando, uma comunidade que brota do improviso, irregular e sem qualquer recurso, seja público ou privado, técnico ou material, se tornar em uma paróquia que orgulha seu morador ao declarar o endereço, é um sopro de esperança para todos nós.

Abro parênteses para falar da seca em São Paulo. Impressiona proliferação de insetos de solo e os incêndios nas favelas, mesmo em Paraisópolis, que já tem mais alvenaria do que tábuas nas casas. Não sei se eles estão relacionados com a estiagem, mas quero crer que sim. Moro no Jardim Paulista e em apartamento e tirei duas aranhas grandes de casa esses dias, e um concunhado que ainda não conheci ficou internado por causa de uma picada que levou na Vila Madalena. Carrapatos nos cachorros também estão grudando mais.

Voltando ao Serra, a despencada dele no Ibope me confunde mais do que os motivos do aumento dos incêndios e dos insetos. Há quem explique a rejeição dizendo que ele é antipático. Mas a verdade é que ele teve apoio popular sempre que fez o que lhe deu na telha, seja propor a Lei Cidade Limpa, a Lei Anti-fumo ou ter abandonado a prefeitura para concorrer ao governo do estado e impedir que o PT tomasse conta de São Paulo. Ganhou no primeiro turno aquela eleição, com mais votos na capital do que teve para prefeito.

Em contrapartida, quando decidiu ouvir o marqueteiro e parecer simpático rolou dez pontos abaixo no gráfico. Primeiro teve o gesto de grandeza bíblica embalar o Mateus que pariu, notadamente o Gilberto Kassab. Dizem que este é um gênio político. Não é. Com a prefeitura redondinha, equipe de primeira linha e dez bilhões em caixa, o distinto alcançar rejeição de 50%, tem que ser uma anta. A chance de encontrar alguém insatisfeito é brutal. Numa moto, pelo menos uma pessoa reprova o Kassab. E o Serra segurou o rojão.

Agora, para ficar em só mais um exemplo, lança esse adesivo da família simpática, com ele em bonequinho e mais uma tropa diversa como a população paulistana. É no mínimo ridículo. Para o Kassab isso funcionou em 2008 porque o bonequinho é e sempre será muito maior do que ele. Para o Serra, que tem um passado registrado na história, o bonequinho é uma redução pessoal lamentável e vexatória.

Por isso, quem tiver disposto a ajudar São Paulo a ter de volta um líder realizador a frente da prefeitura, pense no homem com todos os seus defeitos, e esqueça o boneco com todas as suas qualidades.

 
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Independência ou morte

A convite da Jacy e do Tuca Andrade, minha Neguinha e eu fomos celebrar o Sete de Setembro na Casa da Paineira, em Alambari. Que delícia! A ideia era enforcar já a tarde da quinta-feira para fugir do trânsito, mas como a gente não podia deixamos para a manhã de sexta, com o firme propósito de acordar cedo e partir – plano que evidentemente não deu certo e quando saímos os ponteiros já iam se osculando ao norte do relógio.

Ainda antes do pedágio encontramos a Castelo Branco entupida, situação que permaneceu inalterada depois dele. Paramos até no Sem Parar. Tudo o que conseguimos foi mudar de pista por um acesso improvisado, mas que de nada adiantou, porque em feriado no Brasil estrada é igual nariz: entope dos dois lados. Duas horas depois ainda não havíamos vencido o quilometro 53, famoso pelo bacalhau, e a sede e a fome nos obrigaram a uma pequena e dupla traição: estacionar para fazer uma boquinha numa casa portuguesa em pleno aniversário de 190 anos da Independência do Brasil do domínio de Portugal, e forrar o estomago, antes todo reservado para as codornas do Tuquinha.

Não nos arrependemos porém de nenhuma das duas. Primeiro porque o afamado 53 é de fato excelente, depois porque quando as codornas finalmente pousaram à mesa na Casa da Paineira já havia apetite renovado, e as traçamos todas, sem pena e sem trocadilho, com purê de mandioquinha e pão para não deixar vestígio de caldo no prato.

Sair de São Paulo nos feriados pode ter seus contratempos, mas compensa, notadamente quando há mesa e prosa da melhor qualidade. E as flores? As orquídeas da Jacy parecem alimentadas pela cozinha do Tuca. E se aqueles ares fazem bem a elas, com a gente não pode ser diferente. Sem falar que uma vez em Alambari não pensamos mais em carro, estrada ou telefone. É nessas condições que as baterias se carregam.

Abro parênteses para confessar mais uma traição, agora em relação à freguesia desta página: não é toda a verdade dizer que não pensamos em carro, estrada ou telefone durante o feriado. Por conta da dupla de roteiristas Tuca Andrade e Paulo Saad, que pelo SMS criaram um Road Movie que misturou Jack Kerouac, John Candy e Sacha Baron Cohen. As férias frustradas envolvendo dois imigrantes árabes, o brimo rico e o brimo pobre, atravessa a Rio-Santos numa Kombi desde Bertioga, passando por Laranjeiras e terminando em Ramos, na zona norte do Rio. A dose de Kerouac fica por conta do Zé Gonzaga, que embarca em Boissucanga e vai tomando todas até o piscinão.

O Piscinão de Ramos é daquelas coisas do Brasil que espantam quem resolve fuçar além do seu quintal. Daqui da região dos Jardins, em São Paulo, imaginamos uma poça d’água do tamanho do Lago do Ibirapuera. E qual não é a nossa surpresa quando ficamos sabendo que, na verdade, a área da piscina é quase duas vezes maior, não que a do lago, mas a do parque inteiro!

Outra coisa que choca tantos de nós, bocós, que ficamos escandalizados em passar uma hora a mais no trânsito do feriado ou do final de semana, sendo que sentados em bancos estofados e individuais, com ar-condicionado, musiquinha leve, água fresca e a marcha suave dos carros automáticos, é que duas horas de congestionamento – duas de ida, duas de volta – faz parte do dia-a-dia da maioria da população, sendo que eles viajam sentados em bancos duros ou de pé, espremidos uns nos outros, em ônibus velhos, mecânicos e sujos, pilotados por motoristas que passam oito horas com um motor gigante que produz temperatura e ruídos proporcionais.

Se há cento e noventa anos, a bordo de uma mula e às margens do Ipiranga, um Pedro corajoso se levantou e proclamou a Independência do Brasil, está na hora de a gente fazer o mesmo e declarar independência do automóvel e começar uma cruzada pelo transporte público de qualidade. Ônibus, bonde, metrô nas cidades; trens nas estradas.  Por que do jeito que está não pode haver vida. Do jeito que está já é a morte.

 
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