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Eu pijamão

Bastou eu confessar aqui minha mudança de opinião, dizendo que agora acho o lar melhor do que o bar e não mais o inverso para pegar fama de pijamão, como dizem os irreversíveis.

Digo, bastar, não bastou. A bem da verdade é preciso acrescentar que tendo a minha Neguinha viajado a trabalho, não aproveitei a semana para tirar um carnaval. Muito pelo contrário, me entoquei e nem no sagrado copo de vinho do jantar molhei o bico. Aproveitei para fazer uns exames de rotina, daqueles que incluem jejum de oito e até doze horas e abstinência de 72.

A quem possa interessar, está tudo azul. Vou declinar aqui o Gama-GT só para infernizar os amigos irreversíveis: 15! Mando cópia para quem duvidar.

Quem começou com a campanha de vestir em mim o pijamão foi o nosso desembargador Tasso Duarte de Melo. Depois de tantos anos de vida diligente e ultimamente agravada pelo peso da toga, do pijama ele continua adepto, mas quer se livrar da alcunha, transferindo para mim o pijamão.

Aceito com prazer. Tudo que vem do Tasso é positivo. Do seu pai, o saudoso doutor João Câncio Leite de Melo, absorvi o gosto pelo Dewar’s rótulo branco e as abotoaduras, e o apelido de pijamão do filho também posso sorver. Mas o pijama de fato acho que não pego nem por superstição. Explico.

O Ruy Castro anotou numa Folha desta semana uma relação entre os pijamas e a literatura brasileira. Começa com um documentário do Domingos de Oliveira sobre o Manuel Bandeira, passa por outro com o Nelson Rodrigues, que de pijama tomava sua papinha anti-úlcera no sofá para depois trabalhar em teatro à mesa de jantar e chega ao dândi modernista Mario de Andrade em pijamas sob um rob de chambre luxuoso e de autoria própria.

Este pobre bloguista, porém, mais do que o Ruy não se lembra de ter usado pijamas nem na tenra idade. O verbo declinar lá no alto roubei dele, que pediu licença para declinar a intimidade. E já que estamos aqui, revelo a minha: no máximo um par de meias, como durante a noite fria que passou em São Paulo.

E na intimidade da casa, exercendo meu papel de neo-pijamão, um velho robe de chambre (no máximo, também).

 
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Eu votei no Andrea Matarazzo. E vou votar de novo

Minha primeira reação foi de não responder ao assunto. Como diria o Paulo Vanzolini, “espetáculo tão frouxo nem merece comentário”. Mas por ter feito campanha, pedido voto, votado e estar acompanhando satisfeito a atuação do Andrea Matarazzo na Câmara Municipal, acho que devo um comentário à freguesia desta página.

Do que ele está sendo acusado? De envolvimento no suposto cartel de licitações do Metrô no governo de São Paulo. Como já disse aqui ontem, a própria acusação já é absurda. O atual ministro dos Transportes admitiu que depois de muito conversar com as empresas capazes de levar adiante o delírio do trem-bala petista, preferiu atender a um grupo que pedia o adiamento preterindo uma companhia que topava entrar nesse túnel sem saída. Quer dizer: a mesma coisa, só que para engavetar invés de realizar.

Se as empresas envolvidas, que por sinal são as mesmas no trem-bala, no Metrô e no mundo inteiro, compraram quem decide, é outra história e merece ser apurada. Se deram dinheiro para campanhas eleitorais? É claro que deram. Sempre dão e continuarão dando. É inútil proibir a oferta de dinheiro sujo. O único remédio é acabar com a demanda, e isso só aproximando o eleitor do candidato com o voto distrital. Mas este também é assunto para outro dia.

Ou não. Posso dizer que votei distrital na última eleição para vereador. O Andrea Matarazzo mora no meu distrito. Vira e mexe encontro com ele andando a pé pelo bairro e o saúdo. Também vou ao seu gabinete ou às audiências públicas que ele promove para consultar a população ou prestar contas. Sei onde ele mora, sei onde é a sua empresa, conheço a mulher dele, outros amigos e parentes seus. Todas as críticas que ouvi a seu respeito foram na verdade elogios: ele não quebrou meu galho, não me deu moleza. E a mais comum: é bem vestido demais (!).

Trabalhei na campanha dele. Minha parte era organizar reuniões com grupos do nosso distrito e do entorno. Mas é claro que durante a campanha o trabalho se transforma, e a partir da posição de não emporcalhar as calçadas com cavaletes de propaganda, começamos um movimento para instalar faixas nas casas e escritórios dos amigos. E a adesão foi incrível. Parecia copa do mundo, com as pessoas apaixonadas pela campanha, pedindo mais faixas em rua onde já havia três outras expostas. Quem, não sendo sério e tendo vivido publicamente servindo o país como secretário, ministro de Estado e embaixador  consegue isso da vizinhança?

Daí que essa campanha sórdida que pretende sujar seu nome, infelizmente só pode ter uma raiz: o reconhecimento do bom trabalho de oposição que ele vem fazendo na cidade de São Paulo. A diferença é que este reconhecimento prejudica alguns na mesma medida em que contenta a mim e a quem gosta da nossa cidade.

 
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Cadê o CADE?

O leilão para o trem bala foi adiado pela terceira vez. Na solenidade em que pediu oficialmente a pendura, o ministro dos transportes Cesar Borges declarou o seguinte: – “Depois de muitas conversas e entendimentos com os prováveis participantes, sentimos que o certame caminhava para apenas um participante. E os outros prováveis participantes, concorrentes, solicitavam o adiamento do processo. Solicitaram mais tempo para formar seus consórcios.”

Pergunta: cadê o CADE? Ora, de acordo com o que eles dizem sobre São Paulo, este é um caso evidente de formação de cartel, com  anuência do governo federal, para uma concorrência dirigida a ser adiada.

O CADE, que serve para zelar pela livre concorrência no país e vazou para a imprensa trechos da investigação sobre a confissão da Siemens por formação de cartel com outras empresas na disputa pelas obras do Metrô de São Paulo, acusa o governo paulista da mesma coisa: ter conversado com as empresas interessadas antes da concorrência. E, com efeito, o PSDB de ter se beneficiado por doações das mesmas empresas em suas campanhas.

O mesmo CADE já pensou diferente. Segundo o relator do processo em 2009, Olavo Chinaglia (que vem a ser filho do deputado Arlindo Chinaglia, do PT), esse tipo de formação de consórcio nem deveria ser analisado, porque o Congresso já entendeu que não atrapalha a livre concorrência.

Se fosse para apostar, eu botaria todas as minhas fichas na versão da Siemens: sim, as empresas formaram cartel; sim, as empresas conversaram antes com representantes do governo paulista; sim, o PSDB recebeu doações das mesmas empresas para a campanha eleitoral. Quer dizer, aqui os governantes atuaram da mesma maneira que o ministro dos transportes da Dilma. A diferença é que o Metrô, aos poucos, sai do papel. E o trem bala, não (graças!).

Essas empresas atuam no mundo inteiro e da mesma maneira. Evidentemente o método é deles, que são maiores e mais poderosos do que grande parte dos países e a maioria dos governos. Sobre os partidos, quando não dão dinheiro para campanha eleitoral é porque o sistema político local não permite, nunca por princípio. E o nosso sistema político é abjeto, sabemos nós.

Estou igualando petistas e tucanos? Não. Absolutamente. A ACUSAÇÃO sobre São Paulo vem a partir da seguinte confissão: a Siemens lesou o Estado, o governo sabia e fez vista grossa para benefício do partido na campanha eleitoral. Se confirmada, os responsáveis têm que pagar.

A CONDENAÇÃO que marcou definitivamente o governo Lula e que prevê cadeia para líderes históricos do PT é bem diferente: dinheiro ilícito era usado para compra de apoio parlamentar, o que a rigor é a mesma coisa que fechar o Congresso, como fazem as ditaduras – que, por sinal, também fazem o que bem entendem do dinheiro público.

Na verdade, tudo o que o Lula queria era que seu caso fosse igual ao de São Paulo. Chegou a dizer isto numa entrevista em Paris, afirmando que o mensalão era caixa dois de campanha e que todo mundo fazia. Processar quem acusava como o governador Geraldo Alckmin determinou que o estado de São Paulo faça com a Siemens o Lula não quis. Do que ele tem medo?

 
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A confissão do rabino

O rabino Henry Sobel está de mudança para Miami. Diz que lá a colônia judaica é bem organizada, a cidade é agradável e será um bom lugar para viver. Sua família já tem inclusive um apartamento lá. Então, por que não? 

Pessoalmente eu não gosto de Miami. Mas é preconceito. Só estive lá duas vezes e em ambas ainda era criança. Hoje só ouço falar e naturalmente as pessoas que vão assiduamente adoram o lugar. Mesmo assim eu implico. Chatice minha.

Do rabino eu gosto e sempre gostei. Claro que não resisti a fazer piada com o episódio da gravata roubada, mas minha admiração por ele nunca foi abalada. Estamos todos vivos e sujeitos à um deslize. Quem quiser que atire mais pedras.

E na semana passada, quando ele falou ao Estadão sobre sua retirada do Brasil, gostei ainda mais. O primeiro motivo foi a coragem de se mudar daqui. A gente se apega ao chão, quer trabalhar e ajudar a terra natal, mas de vez em quando dá um desânimo brabo, vontade de se pirulitar e viver num lugar melhor organizado.

Mas é claro que gostei muito de ele ter se confessado, admitindo que não há doença alguma envolvida no furto da gravata. Foi falha humana e só. Não basta? Quem está livre?

Mas ao contrário de muita gente que enxergou coragem na confissão, minha impressão foi de um homem fatigado, exausto por sustentar por tanto tempo e com tanta gente envolvida uma mentira. Esta é a pior condenação. Viver mentindo é a pena de morte em vida, porque anula o ser verdadeiro.

O que mais gostei? A ode ao perdão. Primeiro ele mesmo se perdoar, entender que é antes de tudo humano, talvez conseguindo separar seu legado da falha. É um gesto de humildade muito difícil para qualquer pessoa, por que o Homem tende a se dar mais importância do que tem, então basta imaginar para quem de fato tem importância como é duro se permitir a falhar.

E ao lado do perdão gostei de ele não ter pedido para ver o papa Francisco. Bem que poderia – como muita gente deve ter feito – dar um telefonema e arranjar credencial ver de perto esse boa praça. Mas não fez. Ficou triste, mas resistiu.

Guardadas às proporções, já o vi fazendo a mesma coisa numa missa de sétimo dia. Era da minha tia Lucy Montoro,  se não me engano na paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Por ela ter sido quem foi, no altar, além do padre e de cardeais da Igreja Católica, havia altos representantes de religiões diversas. E o rabino Sobel chegou atrasado, arranjou um lugar comum nos bancos e se sentou. Então um padre católico lá do altar se levantou, atravessou a nave e foi buscar o rabino, que continuou a missa no altar ao lado das autoridades religiosas. Um gesto lindo de ambas as partes, do qual não vou me esquecer.

 
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O legado do BOPE

Quando assisti ao primeiro Tropa de Elite senti algo como pena, ou um remorso, por fazer parte de uma sociedade tão injusta como a brasileira. Via todos como vítimas, policiais, traficantes e dependentes matando uns aos outros aparentemente sem saber por que. Dos usuários festivos que só tiram o baseado da boca e o canudo do nariz para mandar matar bandido não tenho pena. De nenhum hipócrita dá para sentir pena.

Era mais ou menos a sensação de ver as imagens da época da ditadura militar, com aqueles soldados pobres-diabos odiando os jovens que protestavam nas ruas e vice-versa, como se não fossem, todos, qualquer coisa além de para-choques de um sistema torpe.

Desde o levante do 17 de junho aqui no Brasil esta sensação tem sido recorrente. Ver o coitado do policial que ganha um salário indigno trabalhando dias virados sem folga para combater manifestantes que estão nas ruas reclamando, entre outras coisas, da indignidade dos próprios policiais, que acabam com um salário ridículo em função de um Estado corrupto e ineficiente, é de amargar. Ora, deveriam estar todos do mesmo lado. É óbvio.

E então abro a revista Piauí deste mês e leio a reportagem da Consuelo Dieguez sobre a invasão da Favela da Maré pelo BOPE. Eu que já achava o batalhão completamente desproporcional, fiquei estarrecido. No papel, como nomes e fatos reais servidos crus, fica bem mais difícil digerir o prato.

Uma mulher acorda no meio da noite com três homens de preto dentro do seu quarto. Eles arrancam o lençol e ela está só de calcinha. Sendo solteira, é tida como mulher de bandido, e passa a ouvir agressões aos gritos para dizer o que sabe e não sabe.

Dois meninos adolescentes são pegos fotografando e gravando com celulares a invasão do grupo na favela. Para aprenderem a nunca mais registrar o que o BOPE faz, são obrigados a fazer sexo oral um no outro.

Uma senhora que perdeu o filho fala à reportagem. Diz que outro dia, para aplacar a saudade, pegou um vídeo do filho morto para assistir. Era ele criança, brincando com amigos da favela. Dos dez que aparecem, um foi trabalhar e o outro estudar. Os oito demais se entregaram ao tráfico. O que foi trabalhar, seu filho, foi morto por engano, pelo BOPE.

Do lado dos policiais é importante mostrar as condições de trabalho. Dentro do caveirão é corriqueiro que além da tropa armada vão cadáveres esfacelados por balas de fuzil. Não estão sendo socorridos: já morreram. Mas acompanham o trabalho da polícia porque foram mortos por engano e não convém deixar gente honesta morta pelo caminho exposta à emoção da comunidade.

Agora me diga a freguesa que fica nauseada com aquele sangue que corre pela embalagem plástica que trouxe carne de boi até sua casa: qual transformação ocorre em alguém que se acostuma a viver com um ser humano em pedaços aos seus pés. Sinta o cheiro.

São estas as condições sociais que o combate ao tráfico de drogas conseguiu. E ainda há quem defenda endurecer mais um pouco (!) a título de proteger a família (!).

 
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Cachimbo da paz

Muito provavelmente em reconhecimento à proposta de enfim tratar as drogas como problema de saúde, superando essa noção bélica que tantos prejuízos sociais e financeiros já causou ao redor do mundo, imaginaram entregar ao meu querido xará Mujica, presidente da República Oriental do Urugai, o prêmio Nobel da Paz 2013.

Ele merece, mas declinou. Disse que o pessoal que está mobilizado em torno da ideia está doidão. Não, brincadeira, disse que “estão loucos”. Me parece que o vencedor leva dez milhões de coroas suecas para casa, e então ele ponderou que seria interessante para fazer umas casas e entregar às mulheres abandonadas pelos maridos. Sem trocadilho, por favor.

Seria notável que o prêmio criado a partir do desgosto do Alfred Nobel em ver a dinamite, sua maior invenção, sendo usada para matar gente, fosse entregue justamente a alguém que com uma medida simples e lógica vai diminuir e muito o consumo de pólvora.

Se, se, se… Se ele vai ser indicado e se vai receber o prêmio, quem pode responder? Se a descriminalização da maconha vai diminuir, manter ou aumentar o número de usuários é outra que ninguém sabe. Mas em uma coisa todos concordam: acabando com o crime acaba também o poder financeiro dos criminosos, e com efeito o gasto sem fim do governo com essa guerra que mata tanta gente.

Estou torcendo pelo presidente Pepe. Pepe legal. Pela câmara dos deputados a proposta já passou. Agora vai ao Senado e então vira lei. Isto é o que importa. Prêmio Nobel é lucro. O cachimbo da paz ele já acendeu.

 
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Viva a Escola de Princesas!

A notícia é especialmente alvissareira. Sozinha já seria uma maravilha, porque de fato o mundo merece melhores modos. Mas para este bloguista tem gosto especial: foi uma das primeiras coisas que anotei aqui. Numa crônica de 2007, onde eu chorava as saudades da Marilene, uma moça linda e boa que trabalhou na casa da minha mãe, procurei um sócio investidor para uma instituição que imaginei batizar “Amélia – escola de mulher” (http://leo.coutinho.blog.uol.com.br/arch2007-12-23_2007-12-29.html).

A diferença básica entre o meu projeto e o consolidado em Uberlândia é arquitetônica. Imaginei formar meninas aptas a chefiar casas simples e aconchegantes, e a psicopedagoga mineira que deu certo fez um castelo com torre e tudo. Mas a diferença é exterior. O nosso espírito é o mesmo.

Chama-se Natália Mesquita esta abnegada. Tem dois filhos e imagina casa-los bem. Então se propôs a formar pretendentes não só para eles, mas para toda a cidade e alhures – posto que – graças a Deus! – essa turma de Uberlândia viaja muito.

Após oito meses de pesquisas, em janeiro deste 2013 a doutora abriu a Escola de Princesas e desde então vive com a casa, ou antes, com o castelo cheio. Na colônia de férias deu até fila de espera.

Se ainda não deu para entender o espírito da coisa, vamos à tabela de cursos que é autoexplicativa: o mais barato custa R$ 60,00 e dá conta do chá, com duas horas de duração e o básico sobre culinária e etiqueta. Para um intensivo de três meses o investimento é de R$1.200,00, e as aulas abrangem desde a identidade até relacionamento, passando pela estética de uma casa de princesa. Como não poderia faltar, todos os cursos incluem cozinha, lavanderia, primeiros-socorros e – fundamental! – equilíbrio emocional.

Eu que imaginava uma dona de casa mais maneira, no modelo espartano que o papa Francisco vem pregando, tenho que me curvar à sabedoria da doutora Natália. Ora, para toda mulher o lar é um castelo onde a dona de casa reina soberana.

Quem assistiu à fita sobre a vida da Rainha da Inglaterra pode fazer a ótica inversa para concordar. A avó do George Alexander Louis sabe (e pratica) tudo isso e até mecânica de automóveis.

Nós aqui no Brasil é que não sabemos de nada. Eu mesmo sou uma besta incapaz de pintar uma parede ou substituir um chuveiro elétrico. Tenho que contratar mão de obra especializada! E acho graça quando vejo uma madame reclamando do serviço da empregada, sendo que ela mesma é incapaz de executar. Temos todos muito o que aprender, e por isso iniciativas como a que vem de Minas me alegram.

Por enquanto a Escola de Princesas recebe meninas de quatro a quinze anos. Mas se notar a quantidade de donas de casa fracassadas que há por aí (e não param de aumentar), vai tratar de organizar um curso adulto. Poderia de chamar Alteza Madureza.

 
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Trânsito e chifres

A imagem escolhida pode parecer grave demais, mas creio que esteja emparelhada ao assunto: começou a quimioterapia no transito de São Paulo. As faixas exclusivas para ônibus na 23 de Maio causaram transtornos à vida na cidade: o congestionamento aumentou imediatamente e os resultados ainda demoram, exatamente como no tratamento do câncer.

Na sua relação com a cidade a 23 pode ser comparada a do cigarro com as pessoas: já foi uma delícia dar umas tragadas ou umas bandas naquelas pistas lindas, mas hoje a doença chegou e ambas estão morrendo engasgadas.

O diagnóstico está em todos os veículos: a capa da Veja chama os motoristas de assassinos ao volante e avisa que as mortes no trânsito já superam os crimes de homicídio. No Estadão um estudo do Sindipeças mostra que metade dos brasileiros usa transporte provado para e locomover – e que a indústria quer mais. Na Folha o Andre Montoro Filho quantificou o prejuízo monetário do engarrafamento: R$62,5 Bilhões/ano – e só na Grande SP. Na cidade de São Paulo, de cada quatro metros quadrados construídos, um é para o abrigo de carros.

Diante deste quadro há que se tomar providências a favor da mobilidade, e a faixa exclusiva para ônibus na 23 de Maio é uma delas. Não vai ser fácil para ninguém, mas vai ser menos difícil se os governos fizerem o trabalho completo e melhorarem a qualidade e a quantidade da oferta do serviço público para quem quiser migrar do individual para o coletivo.

Outra novidade que deve causar algum transtorno inicial são as áreas de convivência. Basicamente é transformar a zona azul em zona verde, ou tirar vagas de carros para botar um canteiro com plantas, um banquinho, vagas para bicicletas. No bicicletario do Itaú que fica na José Maria Lisboa com a Joaquim Eugenio de Lima a turma do boteco em frente já tomou conta, e nos finais de semana em que as magrelas estão todas em uso eles invadem com mesas, cadeiras e cerveja gelada, aproveitando o guarda-mancebo como balcão.

As zonas verdes começam pelas ruas Maria Antonia e Amauri, mas devem se espalhar pela cidade inteira. Já não basta ter que tolerar carro em trânsito, temos que tolerar carro parado? Sabe quanto vale o metro quadrado para deixar um monte de lata ali no lugar da gente e das árvores?

Então mão no remo – ou no Santo Antonio. Tente, freguesa, deixar seu coche em casa e pegar o busão. O que o senador Amaral Furlan dizia sobre os chifres vale para o transporte coletivo: eles são como os dentes – no começo atrapalham, mas depois ajudam a viver.

 
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O custo da jabuticaba – comer em restaurante será sempre mais barato do que comer em casa

Hoje me contaram que fazer academia no Iguatemi não sai por menos de R$900,00. Ir ao cinema no Cidade Jardim custa por baixo outros R$200,00. Uma corrida de taxi no final do dia, desde a Paulista até o primeiro shopping, mais de R$30,00. Até o segundo seguramente vai passar de R$50,00.

Está claro que em São Paulo nos acostumamos a pagar caro. No princípio havia até certa volúpia, como se por isso fossemos um povo mais rico e, com efeito, superior. Hoje ninguém mais aguenta. E os culpados da vez são os restaurantes.

Eles são a nossa paixão. A nossa praia. Os principais jornais daqui estão se adaptando aos novos tempos e cortando cadernos que fizeram história. Mas tanto o Paladar do Estadão e o Comida da Folha seguem firmes no cardápio semanal. E ambos dedicaram suas capas ao tema na semana passada.

O Comida, que circula na quarta-feira, trouxe até uma pesquisa do Datafolha traduzindo em números a crise: hábitos de frequência e o que os influencia. Pela ordem: segurança, preços, falta de dinheiro, trânsito, filas. Os quatro primeiros fatores fazem parte do chamado Custo Brasil/SP. Para ficar no primeiro: um restaurante em Lisboa não inclui segurança entre seus custos fixos.

O Paladar roda na quinta e veio com mais números. O risoto de ervilha do Piselli, por exemplo, sai a R$76, dos quais R$20,54 são ingredientes; R$37 aluguel, folha de pagamento, luz, gás, água; R$2,28 taxa de cartões; R$9,12 de lucro. Ah, faltam R$6,84? São impostos – e acredito que só os do prato, porque maior do que a carga só a confusão tributária que o brasileiro está condenado.

No sábado a Folha voltou à carga e dedicou a página do Tendências/Debates ao tema. A pergunta era se comer fora estava mais caro. O Jun Sakamoto respondeu que não. A Paola Carosella, chef do Arturito, disse que sim. Mas ambos disseram a mesma coisa: chorando as pitangas, ou melhor, as jabuticabas do Custo Brasil, provaram que são antes uns pobres abnegados do que os vilões gananciosos que o imaginário popular criou. Se tem alguém que rouba o consumidor é o mesmo que rouba o contribuinte. O de sempre.

A pergunta que ninguém se faz é sobre o custo total de um restaurante. O nego leva a namorada ou um freguês ao Piselli para seduzir. A rigor, com técnica e dedicação, ele poderia comer a mesma coisa em casa. Mas quer o endereço, o ambiente, o serviço, o atendimento, a grife e não quer ter o trabalho e muito menos está disposto a bancar esta conta toda sozinho, em casa. Então vai a um restaurante, onde outros tantos se dispõem a rachar esta despesa com ele. Simples assim. Comer em restaurante é sempre mais barato do que em casa. É a mesma relação entre tudo que é individual e o que é coletivo. Avião particular X de carreira. Decolou? E o que está nos matando em SP e no Brasil é o custo da “jabuticaba”, muito além do arroz, do caldo e das ervilhas.

 
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Eike Batista quebrou – de novo: mil milionários valem mais do que um bilionário

E o Eike Batista quebrou. Alguma dessas listas que publicam rankings dos ricos disse que ele agora tem em torno de duzentos milhões. Em números absolutos continua riquíssimo. Mas a turbulência é fantástica, notadamente para quem há um ano tinha 34 bilhões.

Se alguém sentiu falta da especificação da moeda, explico que tanto faz. Aqui o ponto é emocional. Não da parte dele, mas do Brasil. Para mim pelo menos o Eike era antes um modelo de mecenas do que de empresário. O cara apostou na revitalização do bairro da Glória, na despoluição da Lagoa, no turismo do Rio – mais no espírito do que no corpo carioca.

Era tido como bacana por todo mundo. Um ou outro que duvidava de sua capacidade era tratado como invejoso pelos bajuladores que se amontoam em volta do dinheiro. A parte divertida é ver essa turma mudar de opinião sem a menor vergonha na cara. E mais divertido ainda será assistir à reformação do cordão quando ele ficar bilionário outra vez. Sempre acontece. Do Barão de Mauá ao Olacyr de Moraes, passando pelo número um atual, Jorge Paulo Lemann, todos eles quebram e enriquecem de novo.

Enfim, insisto que minha tristeza é ver a derrocada do mecenato. Empresarialmente ele estava coberto por todos os lados: seus executivos vinham da Petrobras, avalizaram poços de petróleo; a CVM, diante de 150 fatos relevantes-exaltação não se manifestou; o governo petista botou pelo BNDES e a Caixa 10 bilhões de reais do nosso no negócio.

Enquanto isso uma menina de 27 anos, em Sorocaba-SP, fundou uma ONG inspirada no bengalês Muhhamad Yunus, que levou um prêmio Nobel de economia pelo seu programa de microcrédito.

O nome dela é Alessandra França e a ONG chama-se Banco Pérola, que basicamente recebe doações (de pequenos mecenas) e distribui estes recursos em microcrédito para pequenos empreendedores (mini-Eikes). Todo mundo tem vez, inclusive aqueles que os bancos tradicionais recusam pelo “nome sujo”. Se a causa da dívida foi o desemprego, ela confia e empresta à pessoa, ajudando na recuperação.

Desde 2010 ela já financiou 350 empreendedores com 1,3 milhão de reais. O teto individual é de quinze mil, mas a média é de três mil reais. Muito bem. Com a mesma conta, os dez bilhões da Caixa Econômica e do BNDES, que nasceram para fazer o que o Banco Pérola faz, teriam ajudado mais de três milhões de brasileiros empreendedores, e não só um Eike Batista.

Não custa repetir: mil milionários valem mais do que um bilionário.

 
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