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O instante definitivo

O Evandro Angerami anotou no facebook que nasceu em 1911. Se foi distração, confissão, ou se está errado não tem importância. Todo artista é infinito através de sua obra, e a do Evandro, assim como ele, não tem tempo nem idade.

Mas se engana quem pensa que ele está preocupado com a eternidade. Vive cada momento com intensidade, com tanta força, que parece manso e até ausente, assim como a rocha eterna ante o mar sempre mutante. Ele está ali, convivendo, sofrendo a influência das marés, do vento, da chuva, da vida em seu entorno, certo de que é rocha, mas só aparentemente inabalável.

Na segunda-feira que passou o Black Linhares organizou uma pequena mostra do que o Angerami é capaz. Eram poucas telas e relativamente pequenas, mas que prendiam a atenção de quem chegava como raramente acontece. Imagens que ele foi buscar na Bahia, no litoral e no sertão. Todas lindas e de uma densidade levíssima. Para seguir em termos rochosos, igual à expressão usada para identificar os extremamente hábeis e talentosos, dizendo que eles tiram leite de pedra, este artista consegue tirar luz da tinta, como se cada elemento da natureza emanasse luz própria.

Fique ali, olhando e pensando quanta riqueza há no mundo. Artística, natural, monetária, tanto faz. Aqueles preciosos fragmentos de vida pendurados na parede tornaram definitivas paisagens milenares que mudam a todo instante, porque a luz muda sem parar, assim o vento, a mata, o mercado, a vida.

O Evandro Angerami vai continuar, assim como o Black Linhares, este cronista e o freguês desta página. O que fica é o instante, que é sempre definitivo.

 
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Com Francisco pro que der e vier

“O que se pede a São José, nenhum outro santo resolve”. É este o conselho que o papa Francisco dá a seus amigos. Alguém há de dizer: – “Pudera! Se pediu a José, Antonio é que não irá tomar as providências.” No que outro cético talvez emende: – “É propaganda. Ora se não foi ele quem nasceu, cresceu e trabalhou na paróquia de São José de Flores.”

Digam o que quiserem. Não ligo. Estou alinhadíssimo ao novo papa e não abro. Confesso que vinha cultivando uma preguiça danada do catolicismo. Meu último gesto a favor do Vaticano tinha sido comprar um Superga vermelho, ao gosto do Bento XVI. E só. Mas agora voltei, estou com o Francisco pro que der e vier. Aderi mesmo.

O papa é um romântico. A repórter Adriana Carranca foi a Buenos Aires xeretar a vida dele para o Estadão e descobriu D. Amália Delmonte, que foi namorada do então menino Jorge Mario. Ocorre que, aos doze anos e perdidamente apaixonado, sendo proibido pelo sogro de continuar o namoro, ele foi catedrático: – “Ou você se casa comigo ou vou ser padre”. É ou não é o nosso Romeu? No lugar do veneno, tomou aulas no seminário. Eu faria a mesma coisa sem a minha Neguinha.

Outra coisa que gostei no papa é a aversão à pompa e às regalias. Há quem diga que é demagogia, claro, assim como há quem considere ultrajante lavar meia-dúzia de pratos, fazer a própria mala, usar transporte coletivo. Antes que um gesto vejo neste hábito uma inteligência: se o bom de ser padre é levar uma vida mais tranquila, qual é o sentido de viver criando necessidades?

O papa Francisco disse que seu ministério será cuidar das pessoas, principalmente dos mais pobres, e com seu desprendimento já começa mostrando o lado bom da vida aos que, de tão miseráveis, só têm dinheiro.

Acredito em tudo isso, na libertação através do amor, do trabalho, da vida simples. E vou às 19 horas deste 19 de março, depois de alguns anos, ver a missa de São José na rua Dinamarca, e depois comer uma zeppola com meu pai no Vinarium. Gostoso e simples assim.

 
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E disse o papa: “É a economia, estúpido!”

Entre os tantos palpites que ouvi sobre a decadência da Igreja Católica um me pareceu mais pertinente do que os outros, talvez porque localizado, num retrato mais fácil de enxergar e compreender: a América Latina.

Há um filósofo atual que fala da eterna busca pela sintonia entre segurança e liberdade, no que seria o pêndulo da Justiça. Quando há segurança demais é a ditadura; já quando demais é a liberdade vira anarquia, e o desequilíbrio é ruim tanto para um lado quando para o outro. O progresso e a ordem devem ser antagonistas cordiais.

Eis o palpite: com o fim das tantas ditaduras na América do Sul, o que tivemos foi um período de liberdade superficial, onde a sociedade se vingou negando tudo o que de alguma maneira identificava o totalitarismo: governo, polícia, forças armadas, família e a Igreja Católica. Sobrou até para a Coca-Cola.

Superficial por que negar é a parte mais fácil. Transformador seria o envolvimento com todas essas e outras instituições e o fortalecimento das partes saudáveis para a democracia: um governo que funcione e entregue educação, saúde, segurança e infraestrutura, garantia de liberdade de imprensa, de ter fé e de amar. Mas isto exige esforço, tolerância. Enfim, dá mais trabalho.

Surfando nessa onda a turma do “é proibido proibir” foi batendo o tambor cada vez mais alto, e mais alto, até que surdos com a própria toada “se esqueceram” do que disseram por tantos anos e deixaram de cochichar o que realmente acreditam: só é proibido proibir, perseguir, prender, retalhar, roubar, corromper quem for contra o que eles acreditam. O resto pode.

Seus representantes e aspirantes estão aí, uns mais outros menos vivos: Fidel Castro, Raul Castro, Evo Morales, Hugo Chavez, Lula, Dilma, Zé Dirceu, Cristina e Nestor Kirchner, Rafael Corrêa. Não sei se o José Mujica se enquadra na lista. Mas para eles, quanto mais frágeis as instituições, melhor.

E então surge na Igreja Católica um líder diferente, pastor genuíno porque afinado com seu rebanho, e diz o óbvio no Conclave: – “As pessoas já entenderam que essa turma não serve para governar, mas eles continuarão no poder se baseando no discurso de erradicação da pobreza; só será capaz de reverter esse quadro quem tiver, além das palavras, uma imagem e uma conduta verdadeira, isto é, eu, que nunca liguei para dinheiro, usando o nome do pobre mais sábio e comunicativo da História, São Francisco de Assis. E, por uma coincidência incomum, a mensagem serve para a Europa, os Estados Unidos e até ao Oriente Médio.”

E foi glorificado o papa Francisco. Só faltou repetir a frase do James Carville: – “É a economia, estúpido!”

 
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Filé de melancia

Todos confiamos no que os frigoríficos dizem do boi: “dele só não se aproveita o suspiro”. O couro vira sapato, os chifres serão botões, do sebo fazem sabão. E inclusive com as carnes tidas como de segunda categoria não nos preocupamos. Levamos o filé para casa certos de que alguém vai traçar o peito, comer o rabo, chupar o tutano. Ninguém pensa nos miolos, ninguém fala da língua, ninguém soluça pelos bofes.

É claro que há honrosas exceções. O Andrea Matarazzo disse ao Charlô Whately que seu prato predileto é miolo à milanesa, e na mesma edição da revista do bistrô elogiou a língua do Bar da Dona Onça. Desde a tenra idade a Maria Fernanda Galvão, entre uma rabada e um cachorro-quente, escolhe a rabada. E com agrião. O ICI Brasserie está com tudo vendendo tutano assado e há lugares distintos onde as bochechas do boi são atração especial. Quem quiser homenagear o Paulinho de Tarso Silveira e servir as faces do zebu vai acertar em cheio.

Nas coisas que vêm da horta a negligência aumenta. Os talos mais grossos dos brócolis não raramente encontram o lixo. O mesmo destino merecem suas folhas, em que pese os nutricionistas repetirem que nelas há vitaminas concentradas e sabor. Mas o caso mais grave talvez seja o das batatas: sob qualquer quesito a melhor parte está nas casas. Praticamente toda a virtude é delas: sabor, nutrientes, fibras, proteção na hora de cozinhar. Mas só de uns tempos para cá começaram a servi-las, chamando de “batatas rústicas”. Me lembro da Backed Potato, que assava as inglesas, grandes, cujas cascas no forno endureciam sem perder a ternura. Tinha vontade de pedir a minha “na canoa”.

Quando chegamos ao pomar sobram preocupações de todo tipo. Das jabuticabas comemos até as miúdas, azedas e sem polpa para evitar remorso. Esprememos as laranjas até amargar, avançamos com cuidado ante a hostilidade dos abacaxis, realizando o prejuízo dos olhos espinhudos que ficam, encaramos o branco insosso dos morangos para compensar a despesa.

Por tudo isso fiquei espantado em ver na prateleira do Santa Luzia o filé de melancia. Bingo! Aquela parte central, densa, carnuda, suculenta e livre de sementes é extraída e vendida separadamente. Igual a todo filé, custa os olhos da cara. Mas não há desperdício, porque o resto da polpa eles processam e vendem como suco. Na ponta do lápis sai mais barato comprar uma inteira da feira, comer toda a carne e desprezar o osso. Só que o filé é mais chique, não dá trabalho para carregar, fazer suco, nem tampouco dor no coração quando começa a fazer água na geladeira.

 
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O papa é pobre

Francisco, na verdade, é a versão formal do apelido que já era usado pelos cardeais do mundo inteiro para tratar o colega Jorge Mario Bergoglio: Il Poverello, ou O Pobre Homem, mesma alcunha de São Francisco de Assis.

O novo papa é argentino, mas não é argentário. Pertence a um seletíssimo grupo de cardeais que  recusa mordomias, cozinha sua própria comida, usa transporte público, lê e relê Dostoievsky. A cruz antiga e simples que usou na ordenação, que começou com ele pedindo ao povo que rezasse a Deus para que o abençoasse, foi simbólica.

A fumaça branca se espalhou pela Praça de São Pedro e com ela anedotas diversas pelas redes sociais. Eu mesmo fiz uma quando soube a origem do novo pontífice. Olhando a chaminé fumegante, quis saber se era ancho, chorizo ou ojo de bife. E simultaneamente outras tantas surgiram, estando entre as melhores a que condena o articulador, que teria convencido a bancada dos Estados Unidos a votar no Brasileiro; e a turma: “claro, aquele de Buenos Aires!”

Mas antes que a fumaça toda se dissipasse começaram os ataques. Disseram que enquanto padre Jorge Mario foi conivente com a ditatura argentina. Os mais radicais o acusam de ser torturador. É grave, principalmente com os relatos que surgem toda vez que investigam um período de autoritarismo. Não fosse a parcialidade das fontes, seria fácil acreditar, porque num grau mais leve todo padre é torturador. Ajoelhar no milho e dar a mão à palmatória fazem parte da vida de todo católico com mais de cinquenta anos. Isto para ficar no corpo – o nosso espírito eles aterrorizam até hoje.

A outra parte, porém, nos leva a crer que ele atuava numa terceira via, sem se opor diretamente contra os ditadores, nem tampouco compactuando com os guerrilheiros de esquerda, maneira pela qual dizem ter conseguido muitas vitórias a favor da vida e da paz, inclusive a libertação dos padres que o acusam – sem nunca ter feito publicidade do êxito.

O que muita gente gostaria é de ver um papa que já no sermão de ordenação aceitasse camisinha, aborto, eutanásia, casamento gay, num cenário tão bom quanto impossível neste momento. Tenho fé no papa Francisco  e acho por ora é o bastante ter um papa empenhado em olhar com seriedade para o terror da miséria no mundo sem fazer distinção.

 
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Súbita intimidade

A intimidade é um poço. Sempre tive esta impressão. Poço vivo, que se aprofunda naturalmente e de forma concentrada, imperfeita, linda. É diferente do poço artesiano, correto, concreto, funcional. E também é diferente das poças da galinhagem, por vezes amplas e até espalhadas pelo terreiro, e sempre rasas, superficiais.

Mas semana passada descobri a possibilidade da intimidade ampla. Digo, na verdade não descobri, foi o Thomas Farkas que me mostrou. O fotógrafo e documentarista húngaro que emigrou ainda menino com sua família para o Brasil ganhou uma exposição no Club Athletico Paulistano. Além de imagens consagradas expostas recentemente pelo Instituto Moreira Salles, há nesta mostra registros acredito até então inéditos do acervo do artista, guardado pelo IMS, sobre as primeiras décadas da cultura de piscina no país – por sinal inaugurada no mesmo clube.

A primeira piscina brasileira o presidente da República Washington Luiz batizou com champanhe em 1926, no Paulistano. Em 1930 os Farkas desembarcaram por aqui. Talento inato, produto do meio (seu pai foi um dos fundadores da Fototica) ou as duas coisas, em 1942 o Thomas, que já contava uma década de carreira amadora, torna-se adulto e profissional, ingressando no Foto Clube Bandeirante e participando do Salão Paulista de Arte Moderna. Nas horas vagas se diverte fotografando o seu clube, notadamente a piscina.

Na galeria há uma parede inteira só de imagens do CAP, cuja piscina aos vinte anos permaneceria uma novidade. O ambiente é descontraído, mas aparentemente ainda não se permitia um móvel libertino como a espreguiçadeira. Apesar do maiô e dos corpos expostos ao sol, criar e dispor mobília para deitar, se espreguiçar e ficar entregue em público podia não ser de bom tom, e as nossas avós se bronzeavam sentadas na pedra da borda. O clima proporcionado pelo ambiente era porém o mesmo de hoje, o mesmo de qualquer piscina, onde a descontração é incontrolável e marmanjos e garotos buscam as mesmas brincadeiras, numa súbita intimidade, profunda e ampla.

 
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Discriminação positiva

Hoje o Tutty Vasquez botou em sua página de humor no Estadão uma observação seríssima: “Nada contra a campanha ‘Homem de verdade não bate em mulher’, mas, cá pra nós, homem de verdade não bate em ninguém”.

Depois de tanto tempo, o sexismo, o racismo e outras formas de preconceito estão na gente, tanto para o lado bom quanto para o ruim. Ontem a Associação Cultural de Mulheres Negras foi à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em Washington, denunciar a discriminação sofrida pelas empregadas domésticas no Brasil – que é mesmo escandalosa. Nossa Constituição sequer reconhece que elas tenham os mesmos direitos garantidos aos demais trabalhadores, como por exemplo seguridade social. Esta é  evidentemente a parte ruim. Mas há finalmente um termo para definir o bom preconceito: “discriminação positiva”, cujo melhor exemplo vive nas mulatas. Você pode imaginar as mais variadas formas de mulher branca, preta, índia, oriental. A mulata será sempre um colosso, como se fosse impossível existir uma fora de forma.

A campanha que combate a violência contra a mulher especificamente também é uma forma de discriminação positiva. Os índices estão aí clamando por atenção, e às vezes convém que ela seja concentrada – em que pese haver violência contra crianças, idosos, homossexuais, animais, a natureza e até um jovem adulto branco que atropela outro, arranca seu braço, deixa um amigo que estava junto em casa e depois vai até um córrego desovar o membro amputado.

Dia desses fui ao cinema assistir O Voo, com o Denzel Washington. É a história de um piloto de avião que consegue uma proeza ao salvar a ampla maioria dos passageiros de uma nave fadada à desgraça por falta de manutenção. A trama começa quando os exames de laboratório apontam que ele era chegado em álcool, maconha e cocaína, e que estava sob o efeito de umas e outras na hora do acidente. É uma fita sensata, que trata com isenção a Justiça, o corporativismo, a imprensa, a religião, a doença, o álcool, as drogas, o alcoólatras anônimos.

Mas a melhor parte do filme para mim é a que não acontece. Ninguém, em nenhum momento, diz que o avião caiu porque o piloto era negro. O preconceito e a discriminação simplesmente não merecem espaço no rolo. Foi exatamente o que o Morgan Freeman pediu naquela entrevista: “Eu não quero o mês da consciência negra”, e quando o entrevistador pergunta como então vamos nos livrar do racismo, ele diz: “Parando de falar sobre isso”.

Daí minhas palmas para o Tutty: a violência contra qualquer pessoa é abjeta, covarde, intolerável. Mas nunca deixemos de cortejar as moças, acreditar na sabedoria dos mais velhos e na inocência das crianças, e muito menos de sonhar com o veneno e das mulatas.

 
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Sobre pastores e rebanhos

Se é verdade que a voz do povo é a voz de Deus, os intermediários não estão prestando atenção no que Ele diz. Sendo católico falo da minha igreja, na esperança de alcançar os líderes que reunidos para escolher o próximo papa.

No mês de julho deste ano mais de dois milhões de católicos na flor da idade vão se encontrar no Rio de Janeiro para a Jornada Mundial da Juventude. Os organizadores mandaram confeccionar um número equivalente de camisetas azuis, muito bonitas por sinal, com o Cristo Redentor, a Cruz e um coração estampados no peito. Mas  evidentemente nenhuma camisinha, que seguem proibindo.

O tema deste ano é um versículo do Evangelho de Mateus: “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações.” Nada obstando a possibilidade de dupla interpretação em relação a “fazer discípulos”, a chance de acontecer uma concepção entre dois milhões de jovens, ainda por cima no Rio de Janeiro, me parece considerável. Mas a camisinha continua proibida.

O conjunto da festa é tão desconexo que parece antes provação do que celebração. Reunir milhões de jovens na Cidade Maravilhosa e esperar deles a castidade é a mesma coisa que cobrar de uma foca que recuse sardinhas.

A igreja Católica repete a Câmara Federal. Em Brasília botaram dois mensaleiros condenados, João Paulo Cunha e José Genoíno, na Comissão de Constituição e Justiça; o ex-futuro ministro denunciado Gabriel Chalita vai para a de Educação; e um certo Marco Feliciano, notório homofóbico, racista e sexista presidir a de Direitos Humanos. Maior falta de sintonia entre representantes e representados, impossível.

Quanto mais os pastores se afastam do rebanho, menos o rebanho espera dos pastores. Este distanciamento num primeiro momento até contempla os maus pastores, mais interessados, digamos, no pastoreio individual do que nos interesses coletivos. Pobres diabos. Não percebem que quando a distância é demais, o rebanho se dispersa. E não existe pastor sem rebanho.

 
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Palpite

No final de semana que passou fui ao noivado de uma priminha adorada, a Marcelinha. Ela aceitou se casar com o Pedro Sposito, que apesar de ser surfista é chefe de cozinha. Fora inveja, nenhum embargo contra os surfistas. Deve ser um deleite correr ondas de pé numa prancha. Lamento jamais ter conseguido. Só jacaré, ou no máximo ajoelhado. Se um dia eu vier a surfar, penso que será à moda antiga, num pranchão sobre onda gorda, naquela toada que o Tom Jobim botou em Surfboard.

O problema é que a vida boa do surfista quem paga é sua namorada, que vive sozinha na areia, numa monotonia de sauna fria. Por isso está claro que se a Marcelinha topou é porque há uma compensação, e esta minha imaginação de primo limita ao talento culinário – que por sinal também existe nela. Serão felizes esses dois, na praia, na cozinha, em qualquer lugar.

O palpite, porém, não tem a ver com o casal em si, mas com a casa onde eles vão morar. É uma casa de vila no Jardim Paulista, uma delicia de casa, antiga, pequena e bem construída, com quintal nos fundos e jardins caprichados na frente, que de alguma maneira tem memória, e a memória das casas é igual a da gente boa: seletiva. Só guarda o bom da vida. Viver numa rua tranquila, onde as crianças e os cachorros talvez possam brincar soltos, a poucas quadras da Avenida Paulista, é de um contraste que beira o estado de arte.

Nunca havia me ocorrido, mas ali no quintal da casa, celebrando com eles, surgiu o palpite: essas vilas que estão pelo bairro todo devem ter sido na origem vilas operárias, programadas pelos urbanistas para servirem às famílias que trabalhavam para os donos dos sobrados, casarões, palacetes, ou no comércio.

A ideia parece inteligentíssima: voltada para a rua a fachada imponente, com grandes portões, mantém a unidade arquitetônica da paróquia, e deles para dentro surgem casas pequenas, modestas, mas que proporcionam uma vida boa e digna onde todo mundo só tem a ganhar: patrões, empregados, comerciantes e o Estado. Aumenta a harmonia social, o comércio se nivela por cima, o governo não desperdiça dinheiro com infraestrutura desconexa e pode investir nas melhorias locais,: escola, hospital, praça, museu, tudo do bom e do melhor para todos.

Acontece é que fizemos o contrário. Quando vieram os prédios expulsamos os pobres para a periferia, criamos fronteiras sociais, abismos culturais, e o preço que pagamos é esse desespero geral, como se um povo inteiro estivesse se afogando sem esperança de botar de novo os pés no chão.

Ou, por outra, a esperança ainda existe, principalmente quando um casal lindo como a Marcella e o Pedro se unem para continuar o Brasil.

 
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Ai que loucura!

Uma edição recente da Playboy trouxe uma entrevista com a Narcisa Tamborindeguy, sempre divertida. Lá pelas tantas o repórter Nathan Fernandes pergunta o que é preciso para ser um socialite, e ela: – “Tem que acordar tarde!”

Não é uma maravilha? Eu sou fã da Narcisa. Me lembro de outra entrevista dela, desta vez ao Jô Soares, que sobre a pronuncia correta da campainha feminina perguntou se era clítoris ou clitóris, e ouviu a verdade: – “Tanto faz. O importante é saber esfoliar.”

Fui próximo da Narcisa quando trabalhei na propaganda. Tinha conseguido um estágio na dm9 e passaria por todas as áreas da agência, começando pela mídia. Diante da primeira planilha achei melhor organizar as tabelas de preço empoeiradas no arquivo. Depois disso, sem mais o que fazer, era mandado ao Rio para entregar pessoalmente na TV Globo as fitas de comerciais que saíam em cima da hora. Todo dia saía uma e eu embarcava. Às vezes duas. Era uma maravilha, porque a cada vinte ponte-aéreas eu ganhava uma na TAM, para usar nos feriados.

Quando a viagem coincidia com o horário do almoço eu aproveitava para tirar minha hora lá na Guanabara. Do Jardim Botânico saía para o Bar Lagoa, Jobi ou o Copa. E lá da Pérgula acenava para a Narcisa sempre que ela aparecia na janela.

Numa dessas vezes ela desceu e me convidou para ir à  sua primeira aula de italiano. O saudoso Affonso, o Nizan e o Guga que me perdoem a folga, mas não podia perder. A professora então quis saber da classe os nomes que conhecíamos na língua do Dante. Silêncio total. Então o aluno ouvinte aqui furou a regra e disse: – “Salame, mortadela, espaguete, risoto.” E a Narcisa, toda exibida: – “Não é máximo meu amigo paulista?”

Agora a propaganda me traz de novo a madame Tamborindeguy, pela campanha do picolé de frutas da Kibon que vai dar um milhão de reais a quem encontrar o palito premiado. A função dela é ajudar o novo-rico no melhor aproveitamento da fortuna. São dicas tão boas que não demoram a despontar nos editoriais de estilo das revistas especializadas em luxo. Aguardem: casacos bordados com diamantes suecos e jogos de polo com cavalos brancos da Sibéria, em breve, nas bancas.

 
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