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O Pedro Paulo sabe de tudo

Para mim arquiteto bom é o Pedro Paulo de Melo Saraiva. Simplesmente tê-lo encontrado no Ilha das Flores na tarde do 24 de dezembro me valeu como presente de final de ano. Me perguntem se vi uma planta, um desenho, uma ideia no papel. Não, nada disso. Arquitetura é antes pensamento, e as coisas que o Papito pensa a respeito, muito embora ninguém diga, são óbvias, profeticamente óbvias, como anotaria o Nelson Rodrigues.

O bocó aqui que vos escreve admira profundamente as instituições hospitalares em São Paulo. Clínicas, Sírio Libanês, Albert Einstein, Oswaldo Cruz, Beneficência Portuguesa, São Luís, Instituto do Coração. Olhando daqui para o resto do Brasil nós paulistanos ficamos exibidos quando o assunto é saúde, e de fato não devemos nada para ninguém nem lá do mundo desenvolvido. Mas quanto a questão é de urbanismo e arquitetura o absurdo é um tapa na cara.

O PPMS me fez ver o que está além da excelência hospitalar. Esses monstros que não param de crescer no próprio entorno são um absurdo para a cidade. Além do tamanho desses hospitais, sobretudo os particulares, provar que o custo da saúde em São Paulo está além do tratamento, incluindo a busca irrefreável pelo reinvestimento e pela ampliação, num desvio evidente de finalidade, urbanisticamente ter tão poucos e tão grandes – apesar de tão bons – não é tão saudável quanto ter vários espalhados pelos bairros, projetados para atender as pessoas de cada paróquia.

Afinal a quem atende esta concentração de hospitais? Se a gente notar que a maioria está na espinha da Paulista então, o absurdo aumenta. Cientificamente pode ter suas vantagens, mas o prejuízo humano é gigante. Pense numa situação de emergência. Ou na situação dos familiares que vão visitar os pacientes. E desses próprios que vêm do Brasil inteiro. Seria melhor tanto quanto mais disperso – aliás, igual a tudo na vida.

Outra coisa que ele me fez ver foi o absurdo de continuarmos erguendo prédios com elevadores de serviço. É um costume tão enraizado que ninguém nota a burrice. Ora, pra que serve um elevador de serviço? Só ao complexo de sinhazinha, que já produziu bizarrices como portas da sala e da cozinha presas em L à mesma coluna. Para casos de obra ou mudança pode-se proteger muito bem o equipamento, e tendo dois ou pelo menos mais um elevador social o prédio todo ganha, em agilidade, conforto, circulação e espaço. Só não vê quem não quer – ou quem não conhece o Pedro Paulo, que sabe de tudo.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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A mea culpa do Marcio Thomaz Bastos

E o Marcio Thomaz Bastos encerra 2012 falando em degeneração do processo penal no Brasil. Não li nem vou ler o artigo publicado no Consultor Jurídico, que inclusive nem ele (há quem prefira Ele) quer comentar. Prefiro tirar minhas conclusões sozinho e entender que evidentemente trata-se de mea-culpa, posto que o próprio deve estar arrependido das causas que lhe deram muito pão e pouca glória neste ano que se encerra. Claro, porque ninguém minimamente inteligente deixaria de perceber sem dolo o conflito ético em advogar a defesa de um criminoso ora condenado por participar do maior esquema de corrupção e compra de votos que o Brasil já viu, esquema este que nasceu, cresceu e prosperou no seio do governo que ele serviu por quatro anos como ministro da… Justiça. Aliás, segundo o Miguel Reale Júnior, desde então o distinto vem confundindo os papéis de advogado e de ministro, numa promiscuidade sem tamanho entre o público e o privado que por sinal é uma das marcas da famigerada era Lula no Palácio do Planalto.

Não se pode dizer que o ex-ministro foi traído pela emoção. Me parece que ele sempre sabe o que está fazendo. Defensores apaixonados dos petistas e de outros mensaleiros não faltam, mas este definitivamente não é o caso dele. Sua defesa é fria e calculada, só não é imparcial: caso contrário teria festejado a decisão do ministro Joaquim Barbosa em recusar o pedido de prisão imediata dos condenados.

Apaixonada foi a opinião do Carlos Heitor Cony publicada na Folha do dia de Natal. O imortal, sensibilizado pelas tenebrosas lembranças da noite infeliz que passou preso pela ditadura em 1968, quando viu subtraída pela tirania militar sua única possibilidade milagreira, qual seja a de fazer as filhas pequenas acreditarem na magia natalina, foi além e perdoou da cadeia os mensaleiros condenados, defendendo que o castigo para o crime deve ser adequado a sua natureza, no caso, dinheiro.

Nitidamente a emoção cega o jornalista, que não percebe que o pecado original do mensalão não é financeiro, mas golpista, assim como foi o regime militar que o perseguiu. O que Zé Dirceu e bando pretendiam diante da impossibilidade de fechar o Parlamento como os militares fizeram em 1964 era comprar a maioria dos congressistas e garantir o totalitarismo lulista. E para este crime só a devolução do dinheiro não serve como castigo. É preciso cassar mandatos e direitos políticos e dar o exemplo mandando a cambada para a cadeia. Mas para tanto aguardemos a conclusão integral do processo.

 
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Eu mereço

Sinto uma dificuldade enorme em lidar com qualquer tipo de obrigação. Definitivamente não é questão de autoridade: chego a sentir prazer obedecendo a algumas pessoas. Não são muitas, mas são ótimas. Taí! Acaba de me ocorrer que as pessoas que mais me dão alegria são as quais eu gosto de obedecer. É uma posição meio marxista, groucho-marxista, como se não me interessasse conviver com alguém que obedece a mim, igual ao humorista que se recusava participar de um clube que o aceitasse como sócio.

Quero dizer que mesmo a autoridade tem que ter uma razão. Não pode ser em função de um adjetivo. Um não pode prevalecer sobre o outro porque é mais velho, mais rico, mais forte. E se for mais sabido, mais inteligente, mais bonito ou mais engraçado de verdade, todo mundo, ou pelo menos quem importa, vai perceber de cara, mais uma vez dispensando o adjetivo, até porque não dá para obrigar alguém a achar graça em alguma coisa.

Até as melhores coisas da vida perdem a bossa quando deixam de ser espontâneas e viram obrigação. Flertar, por exemplo. A simpatia recíproca entre duas faces que nunca se viram e provavelmente jamais voltarão a se ver é um momento delicioso da vida. Mas se for obrigado como acontece nos bares tidos como ponto de paquera é castrador. Ficar no boteco com os amigos é outro deleite. Mas tem que ser espontâneo. Se for algo forçado, para socializar com a turma da firma, por exemplo, perde o espírito. Sabe como estragar o melhor livro? Tendo que estuda-lo porque vai cair numa prova.

Entre dar e receber presentes o fenômeno se repete. Das coisas que eu mais gosto é fazer alguém saber dos detalhes de um momento em que foi lembrada. Este é o significado de um presente: fazer saber que mesmo ausente a pessoa estava lá. Pode ser o jornalzinho de Piracaia para o Luiz Andolpho, pode ser a bananada da Ponte Pênsil de São Vicente para minha mãe, pode ser funcionar como elo entre dois amigos distantes no simples papel de mensageiro de um abraço. O espírito do presente é este, tanto para quem dá quanto para quem recebe. O resto é falsificação.

Digo isso para me desculpar com as pessoas que de alguma maneira podem ter sentido a minha má vontade com o Natal. Sei que muita gente ainda reconhece na data um momento especial de congraçamento, mas eu não. De verdade já não sinto o clima há alguns anos. Passei momentos felizes com os amigos e a família, mas nada diferente do que já acontece no resto do ano. Ou, por outra, sendo a única diferença essa aflição consumista, as mensagens vazias e impessoais pela internet e os votos aborrecidos e repetitivos que pelas boas maneiras temos que aturar ao pé d’ouvido.

Espero sinceramente que cada uma das pessoas queridas para as quais não telefonei nem mandei qualquer tipo de mensagem não estejam magoadas. Se funcionar como desculpa, aviso que perdi meu celular há mais de um mês e ainda não tive disposição para comprar outro. A vida está boa assim fora do ar. E desculpas não pela omissão, que foi uma escolha minha, mas por não ter atendido a alguém que por ventura tenha se lembrado de mim.

Só me penalizo pelo dia 23 de dezembro, antevéspera do Natal. Sem nenhuma disposição para enfrentar as compras que faltavam, com a mais lisa das caras aceitei o oferecimento de socorro da minha Neguinha e entrei no cinema sozinho. Mais pelo ar-condicionado e pela tranquilidade da sala do que pela fita, que foi escolhida pelo critério do afobado: a próxima. E era linda! Chama-se A filha do pai. Não conheço mensagem de Natal mais apropriada. Coloca o amor em seu devido lugar, acima de todas as coisas, inclusive da honra e da própria vida. E por que me penalizo? Porque assisti na ausência da minha Neguinha, amor da minha vida. Sofremos os dois naquele momento. Ela com o calor concreto deste verão, com as hordas consumistas, suas filas e aflições; eu com sua ausência e o remorso do egoísta arrependido. A diferença é que eu mereço a pena. Eu mereço.

 
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A data é a opinião do calendário

O Zé do Pé disse que horário é a opinião do relógio. Se a máxima vale para os ponteiros, também vale para as folhinhas. Por isso a data nada mais é do que o palpite do calendário. E se o Maia fala que o mundo vai acabar hoje é problema dele.

Amigo dileto do Zé do Pé é o Júlio Cesar de Toledo Piza. Digo que é, assim no presente, porque a amizade é igual a arte: longa. Breve é a vida. E pelo calendário do Julinho o mundo acabou em 1978. É o que está marcado num porta-lápis que ele esqueceu na copa de casa, que fica logo ali entre o lavabo e a cozinha do apartamento onde ele mora na São Luiz, a mais ou menos cinco minutos a pé do hall social.

No facebook há quem tema não o fim do mundo, mas que ele continue como está. Sei não, acho que tivemos dias piores. A história mostra que a gente já foi muito mais cruel. Quando estou bebendo alguma coisa acho a vida bela. Em compensação, quando erro a conta, no dia seguinte sinto que tudo vai desabar.

O bom da vida é isso, dúvida, inconstância. A certeza é a morte em vida. Esta semana o Raul Juste Lores, correspondente da Folha em Nova Iorque, escreveu sobre o mito da paz nos subúrbios americanos. Ele viajou a Newton, onde fica a escola Sandy Hook, palco da tragédia mais recente envolvendo sandice e armas de fogo, e notou que há quem culpe as armas e há que culpe a sandice, mas todos juntos destacam a união da sociedade em torno da barbaridade e também se espantam numa só voz que tenha ocorrido numa ilha da fantasia como é aquela pequena cidade, tão singular, pacata e homogênea.

Todos menos um. O Raul observa com propriedade que a maioria dos atentados desse tipo aconteceram em subúrbios tidos como perfeitos, onde as pessoas são como gado: a maioria é branca, vive confinada, só sai para consumir e só se junta quando o pastor chama. E o boi preto, como é que fica? E a vaca amarela?

A pluralidade social das cidades grandes funciona como válvula de escape. Proporcionalmente devem ter muito mais loucos fundamentais, mas os diferentes têm mais facilidade em se integrar, em se sentir parte do todo e não marginais. Para continuar em termos pecuários – sobre os quais o Raul não tem culpa nenhuma –, leite pasteurizado e aprisionado quando estraga explode na caixinha. Se for livre vira queijo.

Um dos melhores advogados criminalistas do Brasil, Arnaldo Malheiros Filho, que por força do ofício conhece os caminhos do desatino, costuma dizer que uma pessoa sensata só é capaz de cometer crime de morte em dois lugares: clube e condomínio. Isto é, lugares de confinamento.

Por isso é que dura a amizade do Zé do Pé e do Julinho, porque não aceita o convencional, recusa qualquer certeza, debocha do estabelecido, mesmo que o estabelecido seja a morte. Ainda que desencarnado, um continua sendo lembrado pelo outro, e assim a amizade vai sendo eternamente polida, igual a um busto de bronze, como na metáfora do Flávio Mulata Lopes Coelho, grande amigo dos dois.

Idade, peso, saldo bancário, fronteira, horário, data, calendário. Tudo opinião fria. O espírito não quer saber de nada disso, e é só por causa dele que se está vivo ou morto. Em todo saco, se as bestas despontarem no céu e a gente perceber que essa merda vai queimar, é melhor beber. Obrigado, Zé.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Pequenos notáveis

Na semana passada a Alexandra Forbes decretou no Comida da Folha que Paris se tornou a capital da cozinha intimista, aquela onde o chef faz tudo: “cozinha, assobia e chupa cana”, ficando mais próximo ou “íntimo” da freguesia. De lá trouxe três exemplos de mini-restaurantes onde come-se quase que diretamente da caçarola: La Table d’Aki, Agapé e Chatomat. E emenda que a epidemia já atravessou o Atlântico e foi dar em Nova Iorque, com o Blanca, no Brooklin, e também cá no Brasil, com o Leão Vermelho em São João da Boa Vista, onde o Gabriel Vidolin, que estagiou no El Bulli, recebe quatro pessoas por noite.

No périplo gostoso que cumpri para o Paladar do Estadão pude notar o mesmo fenômeno em São Paulo. Cada vez mais os restaurantes surgem pequenos e com a personalidade do chef-proprietário presente em cada detalhe – até porque não há espaço para nada além do essencial. Os gigantes de excelência como o Rubayiat e suas cinco toneladas de carnes mensais ou o Almanara onde o quibe-cru é igual aqui e em Campinas são uma realidade consagrada, mas a dificuldade de se construir algo parecido provoca a realização do ciclo histórico que sabemos fatal na moda, na arte, nos costumes, na vida enfim, se repetir na gastronomia. Quer dizer, o dono da casa deixa de ser o capitalista e volta a ser o artesão, o proprietário do talento e da vocação.

Meu palpite é que isso está acontecendo porque a quantidade de chefs talentosos cresceu em níveis muito superiores aos de investidores ou de mão de obra auxiliar qualificada. Digo, assim como os sapateiros, os alfaiates, os açougueiros europeus chegaram aqui há cem anos sem nenhum industrial para emprega-los e também não encontraram fazendeiro disposto a entrar com o capital inicial, tiveram que começar pequenos, com os umbigos nos balcões respectivos.

Colabora o custo obsceno de começar qualquer coisa por aqui. Há alguns anos, quando falava-se em cinco milhões para reabrir o Pandoro qualquer um já se arrepiava – e olha que na conta entrava um passivo brutal. Na reforma que o transformou em Girarrosto o número mais que dobrou e a turma acha normal. Cinco milhões é o que custou o Domenico na Melo Alves – que se não é um mini-restaurante, está longe de ser grande. Quem aguenta?

Os pequenos são muitos. Para ficar entre os do Paladar eu poderia lembrar Epice, Tappo, Aya, Tonel. Mas os exemplares mais gritantes são o Z-Deli Sanduíches e A Peixaria.

No primeiro o chef praticamente veste o balcão. Nem banheiro tem. Num acordo virtuoso que o mundo deveria aprender com São Paulo, na hora do aperto a freguesia do judeu atravessa a Haddock Lobo e usa o banheiro do Arábia numa boa – tão numa boa que ninguém abusa. Ali dentro só cabe meia dúzia de clientes e o imenso talento do Júlio, que além dos sandubas nos entrega sopas, saladas e sobremesas deliciosas.

A segunda parece literalmente uma casa de praia, e não só pelo clima marinho mas pela mobília improvisada. Você chega e dá de cara com um balcão de gelo ralado onde fica exposto o melhor pescado do dia. Então escolhe o que vai querer e como quer preparado; o peixeiro pesa, limpa e manda para a cozinha. As mesas são poucas e por isso a espera é uma situação frequente – e gostosa, porque permite ostras fresquíssimas. A mesa surge quase que simultânea ao prato, numa sintonia tão fina que quase impede o deliciar do atum marinado na casa que vem no couvert. É verdade que não poderemos gozar a intimidade de olhar nos olhos do casal proprietário enquanto não houver capital para a reforma ideal, quando a grelha deve ser exposta, mas até lá podemos ver paisagens marinhas através dos olhos dela que é fotografa, e experimentar cada peixe, lula, polvo, camarão, cada lagostim que entre a rede e a mesa sofrem quase nenhuma interferência além do talento oceânico dele, que é o cozinheiro.

 
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Crise na oposição e no governo

A presidente Dilma definitivamente não é esculhambada como seu antecessor. Ela não deixou sua mãe fazer um canteiro com a estrela vermelha do PT no jardim do Palácio da Alvorada como fez dona Marisa, não botou carro oficial para traslar a cachorrinha de estimação da família nem permitiu que sua filha recebesse quatorze amigos para férias em Brasília, com direito a avião da FAB, churrasco no Torto e hospedagem no Palácio.

Às práticas da família Lula da Silva lembradas ontem pela Dora Kramer eu acrescentaria duas lembranças e dois palpites: duvido que, ao cabo do mandato, ela aceite da cidade de São Paulo ou qualquer outra um terreno para fazer seu instituto, ou que mande preparar passaporte diplomático para uma secretária igual Lula fez para a Rosemary Noronha. Aliás, duvido que ela mantenha qualquer tipo de assessoria paga para esse tipo de assunto.

Mas se ao contrário do antecessor famigerado a presidente atual não se deixa levar pela confusão entre o público e o privado, vem se deixando inebriar por índices que pouco ou nada servem ao País. O primeiro é o da maioria no Congresso. Fala-se numa base de mais ou menos 80%. Fala-se até que não existe oposição. O segundo índice é o da popularidade do governo Dilma que vai num patamar ainda mais alto: 91%.

Muito bem. Vamos supor que exista esta base tão ampla. É saudável para a democracia calar o Legislativo mantendo suas bocas cheias de açúcar? E é inteligente sustenta-la? Por que de graça é que eles não estão lá, custam ao governo muitos ministérios e milhares de cargos, sempre com os interesses políticos prevalecendo sobre os técnicos e causando a paralisia, nossa velha conhecida. Tanto no primeiro caso, institucional, quanto no segundo, prático, creio que não. Mas o quadro é ainda pior: a base não existe. Se existisse o governo não estaria agora se esforçando para convencer os congressistas a votar de uma só vez mais de três mil vetos da Presidência da República, onde cada cédula tem 463 páginas, para garantir a posição sobre a distribuição dos royalties do Pre-Sal. Feito criança mimada, a base da Dilma mama o dia inteiro e só faz o que quer.

Outro índice que vicia é o da popularidade. Para manter esse nível de 91% a presidente topa qualquer coisa. O populismo com as tarifas de energia da semana passada são emblemáticos. Tem duas coisas que qualquer estúpido no mundo já aprendeu com o James Carville: a aprovação do presidente da República é econômica e com contrato não se brinca. Quer dizer, para proteger o Lula das denúncias sobre o caso Rosemary e delação premiada do Marcos Valério ela foi brincar justamente com assuntos fundamentais: economia, energia, respeito a contratos.

Energia, aliás, é a origem da atuação da Dilma e é uma palhaçada. Quem não se lembra da corrida pelo Etanol? Grupos internacionais se formaram para criar usinas no Brasil e desenvolver ainda mais a tecnologia, que é nossa, renovável, sustentável. Um deles se propôs a bancar um álcoolduto para levar combustível do Centro-Oeste até o litoral para exportação. Indústrias de automóveis nos quatro cantos do mundo investiram em motores flex. E onde estão eles agora? Quebrando ou fugindo do Brasil, porque desde quando apareceu o Pre-Sal foram solenemente abandonados pelo governo.

O Andrea Matarazzo, que foi secretário de Energia em SP e presidiu a CESP deu o alarme: as elétricas vão pelo mesmo caminho. A Operadora Nacional do Sistema – ONS diz que faltam investimentos para modernização e até mesmo para manutenção das linhas de transmissão, e os apagões cada vez mais recentes e abrangentes estão aí para provar o ocaso do sistema no Brasil.

E na Folha de segunda-feira o Aécio Neves nos fez ver que infelizmente 2012 foi o pior ano do século para a gente. Vamos crescer 1%, enquanto outros países emergentes vão de vento em popa: Rússia 2,9%, China 7,4%, Índia 5,3%. Na América Latina só estamos à frente do Paraguai. A Argentina, na tanga em que se encontra, cresceu o triplo do Brasil.

Ao que me parece, a crise da oposição é bem mais fácil de resolver do que a do governo.

 
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O mensalão por legado

Acabou. Na sessão de ontem, com voto de desempate do ministro Celso de Mello, decano do colégio, se encerrou no Supremo Tribunal Federal o julgamento do Mensalão, escândalo de corrupção nunca antes visto na história deste país.

Ficou provado e decidido que sim, o governo Lula foi corrupto do núcleo até a base, passando por instituições centenárias, como os Correios e o Banco do Brasil, e pelo PT, partido que se jactava como proprietário da ética no Brasil.

Entre outros da quadrilha, irão para a gaiola os artilheiros da seleção canarinho escolhida pelo ex-presidente Lula para auxilia-lo em seu mandato: os  então presidente da Câmara Federal João Paulo Cunha, presidente do Partido dos Trabalhadores José Genoíno e o Ministro-Chefe da Casa Civil José Dirceu.

Há quem diga que é pouco. Que o importante seria ter devolvido ao Erário o dinheiro que a quadrilha formada na sala ao lado do Gabinete da Presidência da República desviou para comprar apoio político no Congresso Nacional. De fato, melhor seria, e de antemão eu pediria o bloqueio dos bens correspondentes às multas de cada um deles. Mas não é pouca coisa ver esse bando caminhando para o xilindró.

Outro dia li em algum lugar que a gente tem que se preocupar mais em dificultar a corrupção futura do que ficar fuçando na corrupção passada. Estou plenamente de acordo, até porque uma coisa não impede a outra. Digo, tanto em valores materiais quanto imateriais, como moralidade, civismo, cultura, educação, respeito às instituições, ter o Tesouro ressarcido do assalto praticado é que pouco significa diante do exemplo que fica. Toda a gatunagem que tanto atrasa o nosso país agora vai rever sua crença na impunidade.

A pena do Marcos Valério ficou, sozinha, maior do que a dos três quadrilheiros aqui já citados somadas. Dosimetria eu não discuto nem em bar. Para mim o melhor de um coquetel será aproveitado se observada a receita de sua excelência o barman. Sou um nego obediente. Daí que a decisão tomada pelo tribunal mais alto de República não vou discutir. Assim como não vou opinar se a competência de cassar dos mandatos dos parlamentares condenados é do Judiciário ou do Legislativo. Para mim tanto faz. E aqui me estendo sobre a delação premiada prometida pelo Marcos Valério, que começou este parágrafo, para dizer por que para mim tanto faz.

A fim de não apodrecer na cadeia cumprindo a pena de quarenta anos que recebeu do STF, o Marcos Valério resolveu entregar o Lula. É a tal Delação Premiada, ou o vale-empada do alcaguete, coisa de canalha, como disse o Roberto Jefferson, que entregou sem nada em troca. Se é verdade que o ex-presidente autorizou o esquema do mensalão, só a Justiça, depois de investigar a acusação e as provas oferecidas pelo delator, poderá dizer. Mas já disse aqui e repito que o resultado de um concurso nacional de redação valendo mensalão vitalício para o brasileiro que mais se aproximasse do que o Valério falou à Promotoria provavelmente terminaria empatado. Todo mundo acredita na mesma coisa. E é aí o inferno do sujeito.

Política não é uma prática da qual se recompensa em vida. Qualquer político, inclusive os mal-intencionados e notadamente os que chegaram ao posto mais alto possível, a Presidência da República, podem se alimentar de efemeridades mundanas, como láureas, bajulação e dinheiro, mas antes o que importa para ele é o legado. E nisso o Lula já está definitivamente igualado a José Sarney e Fernando Collor de Mello. Tenho certeza que, podendo voltar atrás, os três fariam tudo diferente. Insistem no vício porque sabem que é impossível apagar o passado. E devem se roer de inveja olhando para o Fernando Henrique.

 
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Tatini

Não sei dizer a quanto tempo não ia ao Tatini, ali na rua Batatais, que por sinal é uma das nossas alamedas mais lindas, rivalizando em beleza com a Atlântica, a mais festejada delas, mas que curiosamente também se chama rua, e não alameda. Sou vizinho, adoro restaurantes clássicos, mas não ia ao Tatini. Taí outra curiosidade.

Ouvir os amigos de turmas distintas cada vez mais falando de lá e das suas delícias despertou minha vontade. Até que, na sexta-feira que passou, sob a chuva que caía torrencial, lembrei do toldo diante do Tatini e me mandei para lá com a minha Neguinha. Jantaríamos bem e sem o transtorno dos torós no Jardim Paulista, que atrapalham mais pela água que corre com violência pelas calçadas do que pela que cai do céu – esta que nunca incomoda, esta que é a Água Benta legítima.

Dizem que a lotação ideal de um restaurante é aquela que quando você chega há apenas uma mesa vazia: a sua. Foi assim com a gente. Chegamos e seguimos direto para a nossa mesa lá no fundo. O couvert chegou logo em seguida, maravilhoso: vôngoles nas conchas, salsão temperado, azeitonas pretas, pães, torradas, manteiga. Impossível dispensar.

Eu estava pendendo para um carbonara, mas como os porcos não animam o meu amor, decidimos dividir dois pratos que combinariam bem com o mesmo vinho: primeiro um fetuccine com alcachofras frescas (seria dispensável dizer-lhes frescas, mas diante da realidade em conserva da cidade mantenho o adjetivo), finalizado em rechaud ao lado da mesa; depois um linguado ao champanhe com batatas cozidas, ambos no ponto perfeito e ela com um sabor incomum à batata cozida, insossa por natureza; para sobremesa não resistimos aos papos de anjo que surgiram no carrinho, “daqueles que se a pessoa fosse honrada mesmo só deveria comer metida num banho morno e em trevas totais, pensando, no máximo, na mulher amada”. O Vinícius há de me perdoar. Os papos de anjo eram desses que ele cantou, mas ainda que eu não estivesse metido num banho morno nem em trevas totais, estava num restaurante clássico e confortável, cadeira estofada, três toalhas, serviço impecável, atendimento atencioso e, sobretudo, diante da mulher amada.

Durante o jantar pedi ao Silvio, que nos atendeu, um pratinho com a marca do Tatini para a nossa coleção (fotos no facebook). Eles já não usam, mas o Fabrizio Tatini foi ao escritório e encontrou um de antigamente, que já está junto com os outros 101. Quando postei a foto foi um colosso de memórias e festejos, muitos lembrando o tempo em que iam levados pelos pais. Pois o Tatini é para ir hoje. Está seguramente entre os melhores e não cobra a mais por isso. Para se ter uma ideia, na carta de vinhos encontra-se representantes europeus a partir de cinquenta reais. E, na saída, as namoradas ganham rosas.

 
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Sobre os pés

Tinha atração por pés, tanto de homem quanto de mulher. Era uma tara, um fetiche: os masculinos julgava que não deveriam aparecer nunca, e os femininos, sempre. Na praia ou na piscina era capaz de relevar, mas na cidade ou no campo um desconhecido que passando pelo outro lado da calçada em sandálias era o suficiente para despertar-lhe a atenção e então o desprezo. Considerava de uma cafajestada imperdoável o homem que sentia o espírito confortável tendo os pés desnudos. Em ocasiões sociais, formais ou descontraídas, mesmo as íntimas, perdia o humor a ponto de não poder dividir o mesmo ambiente com os que tratava literal e pejorativamente por “pés de chinelo”. E até dos próprios pés destestava a imagem. Usava podólogo para não ter que tratar das unhas e tendo uma vez o esquerdo engessado, tratou de providenciar um pé de meia especial para cobrir os dedos que escapavam pela ponta.

Já os femininos gostava de ver sempre e de qualquer maneira – inclusive cobertos. Mesmo as botas lhe fascinavam, instigando a imaginação: seriam eles lá dentro bem feitos ou com as feiurinhas capazes de identificar sua dona. Tinha isso nele: reconhecia as mulheres da sua vida e até algumas celebridades pela unha do dedinho, um calinho de corrida no calcanhar, a bochecha do fura-bolo maior de um lado do que do outro. Das desleixadas se compadecia e queria cuidar, levar ao especialista, mandar fazer, lixar, amaciar a pele, polir e pintar as unhas. Certa vez, num rompante, propôs bancar a cirurgia para extração do joanete de uma sobrinha –  que por sinal era assunto proibido na família. Foi um drama.

Das imperfeições moderadas gostava tanto quanto da beleza irretocável. Dedos encavalados, encolhidos, espalhados, tortos para um ou outro lado, machucados pelo balé, o peito alto ou delgado, os delicados, de pele diáfana revelando o azul das veias, ou os fortes, com elas saltadas. O calcanhar sujo da estagiária da PUC?  Tolerava, mas só até a formatura.

Mas sobretudo admirava o espírito dos pés femininos. O que a relação deles com a dona era capaz de revelar. Uma mulher pintando as unhas dos próprios pés para ele era uma imagem linda. Mas ai dela se decidisse tratar das mesmas unhas com lixa ou alicate em sua presença. Não sabia por qual razão, mas ao mesmo tempo que gostava de vê-las botando tinta, com o queixo apoiado no joelho e aqueles algodões entre os dedos, repudiava qualquer ato que deixasse resíduos tanto quanto tirar meleca do nariz.

Os modos de descansar os pés, estando a dona de pé ou não, também lhe diziam muito. Das bonequinhas que juntam os dois lado a lado, um recostado no outro, passando pelas tímidas, que os recolhem debaixo da cadeira, ou pelas molecas, com eles cruzados na perpendicular, e as aflitas sempre sacudindo sua impaciência. Ficava intrigado em como podiam ser tão sensíveis ao frio em casa e impávidos na rua, quando mesmo no inverno sem meias vão pro trabalho, desde a namorada do Noel.

Um dia arranjou uma assim. Dona de um par perfeito, macios e delicados como se recém nascidos, era elegantíssima, e altiva, passo de gazela, porte de princesa, só dispensava o salto alto quando o resto do mundo estava descalço. Ou na intimidade, e mesmo assim não absolutamente.

Um dia foram viajar para a praia. Ela surgiu numa sandalinha rasteira, descolada, linda e faceira. A viagem seguiu bem até o primeiro congestionamento, que de tão denso parecia definitivo. O tédio foi tomando conta, a sensação de ridículo crescendo, até que, provavelmente traída pela situação bovina, ela comete o desatino: descalça as sandálias e pousa os pés sobre o painel do carro.

Pasmado e sem saber o que fazer, ele duvidava da realidade: – “Como podem pés tão lindos e distintos se comportando dessa maneira tão baixa e ordinária?” Sem capacidade para perdoar encerrou o namoro e jurou para si mesmo: nunca mais entraria num automóvel. E daquele dia em diante só andou a pé.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Jura, Gilberto?

No advogado do Marcos Valério, doutor Marcelo Leonardo, podem caber vários adjetivos, mas creio que de bobo não lhe cabe a pecha, assim como não serve para nenhum dos criminalistas que atuaram na defesa da quadrilha mensaleira. É simples: com tanto advogado por aí, presume-se os que trabalharam no caso devem estar entre os melhores.

Igual a técnico de futebol, todo mundo se sente um pouco jurista. Se levarmos em consideração que Justiça, a grosso modo, é o bom senso, para imaginar uma sentença, acusação ou defesa, bastaria conhecimento dos fatos, das leis e imparcialidade. Mas se alguém topa pagar milhões pelo bom senso do próximo, é porque acredita que este é capaz de propor um senso ainda melhor – ou mais favorável para o freguês.

De qualquer maneira nenhum dinheiro do mundo chega para fazer um advogado criminalista se incriminar. Isto posto, quando o Marcelo Leonardo vai ao Ministério Público e assina embaixo o depoimento do seu cliente dizendo que quem lhe pagou os quatro milhões em honorários foi o PT, deve saber o que está fazendo e ter provas para tanto. E por que não pagaria, se fizeram o que fizeram juntos e assim permaneceram se dizendo injustiçados? Assim foi até que o Marcos Valério recebeu do Supremo uma pena quatro vezes maior do que a do Zé Dirceu, ficou desapontado e decidiu entregar detalhes e provas até então ignorados para diminuir sua pena através da chamada delação premiada.

Já disse e repito que duvidava do depoimento do Marcos Valério. Gente desesperada fala qualquer coisa. Mas quando ele diz que havia um chantagista pedindo dinheiro para ficar quieto sobre o caso Celso Daniel e o ministro Gilberto Carvalho responde que nunca ouviu falar em chantagem envolvendo o PT de Santo André, sendo que mais de dez pessoas relacionadas ao caso foram assassinadas, não duvido mais.

Aliás, quanto mais o Gilberto carvalho fala, menos dúvidas eu tenho sobre as denúncias do Valério. Primeiro quis desacreditar o delator dizendo que é impossível ele ter subido com o Zé Dirceu para o gabinete presidencial, uma vez que no Palácio do Planalto ambos despachavam no mesmo andar. Muito bem. Só que o que ele disse foi que de uma sala usada para reuniões e refeições é que eles subiram para buscar a autorização do Lula, donde ficamos com duas possibilidades: ou Gilbertinho não prestou atenção ao relato, ou está tentando nos confundir. O que será?

Outro erro primário do coroinha é afirmar que o presidente Lula “nunca avistou esse senhor”. Jura, Gilberto? Ora, esse chega a ser crasso. Como pode, se ele comprovadamente conviveu com a petralha toda? Não demora surge um retrato dos dois juntos. Vide dona Rose, que em uma semana já apareceu em reunião na África, servindo café na rua Augusta e tomando sol na Bahia com o amigo Zé. E é claro que tem mais

Se o Gilberto Carvalho lembrasse do primeiro caso Palocci, justamente durante a CPI do mensalão, não teria dito uma baboseira dessas. Quando no meio do rolo veio a tona a mansão conhecida como República de Ribeirão, templo de lobby usado como residência, escritório e clube pelos amigos conterrâneos do famigerado ex-ministro, ele é chamado a se explicar e diz que nunca esteve lá. Vá ser cretino assim no inferno! Como nunca esteve lá, se são os seus amigos mais diletos, fazendo churrasco, jogando tênis, confraternizando naquele sertão tão hostil onde o bom servidor brasileiro padece com a distância de casa e da família? Tinha que dizer que frequentava. Qual o problema? Uma verdade dessas encobriria cinquenta mentiras. Mas ele negou. Burro! Uma semana depois o Francenildo Santos Costa, caseiro da mansão, foi ao Congresso e falou a verdade, derrubando o ministro da Fazenda.

Alô, Gilbertinho, se prepara que a vassoura da Dona Dilma vai cantar na sua sala. E não demora.

 
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