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General ladra e Centrão morde

É difícil falar em escalada de tensão quando estamos vivendo há dois anos e meio sob o governo do inominável e a maior pandemia em mais de cem anos. Mas o fato é que nos últimos dias dava para sentir algo ainda mais tenso no ar seco que vem de Brasília.

 

Seriam as manifestações cada vez maiores? O desemprego e a fome que massacram o país? As pesquisas que mostram o inominável definhando? A iminência da marca devastadora de 550 mil mortes pela pandemia? O avanço da CPI que – ao contrário do palpite que anotei aqui – revelou indícios de crimes ainda piores do que o negacionismo e a militância anticiência e contra a vida?

 

A matéria das repórteres Andreza Matais e Vera Rosa, no Estadão de hoje, mostrou que sim: há quatorze dias o ministro da Defesa general Braga Netto teve a audácia de mandar um recado para o presidente da Câmara Federal: sem voto auditável não terá eleição. Isto é: o ministro responsável pelas Forças Armadas, ele próprio general, ameaçou o presidente da Câmara com um golpe militar.

 

Coisas dispensáveis que em pleno 2021 somos obrigados a dizer: as eleições no Brasil são auditáveis e, ainda que houvesse alguma dúvida séria a respeito do sistema, não seria assunto para ministro da Defesa.

 

Importante aqui é a causa do delírio do general: a CPI avança sobre os militares envolvidos nas denúncias de corrupção em negociações de vacina e produção de cloroquina, e para além dos coronéis ou do general Pazuello, chegou no gabinete do capitão e agora vai circular pelo Palácio, inclusive pela Casa Civil, que até outro dia era ocupada por quem? General Braga Netto.

 

Imediatamente após ouvir o recado, Arthur Lira, presidente da Câmara, foi ao Palácio da Alvorada para um tête-à-tête com o inquilino, deixando bem claro que a aliança entre ambos tem um limite: em tentativa de golpe ele não entra.

 

De lá pra cá o presidente do Congresso Rodrigo Pacheco fez uma fala bastante acima do seu tom habitual, o presidente da República passou a soluçar, parou de evacuar (pelos fundos) e passou uns dias hospitalizado em São Paulo, a proposta do semipresidencialismo galopou, o presidente da Câmara foi viajar e passou o bastão para o vice Marcelo Ramos, que presidiu a sessão de aprovação da LDO, incluindo o fundão eleitoral de R$ 5,7 bilhões.

 

(Os parlamentares mais fiéis ao inominável votaram a favor, incluindo seus filhos, inclusive o ZeroUm, Senador Rachadinha, que exatamente igual fez no ano passado, em seguida foi às redes dizer que tinha se confundido.)

 

E a escalada continua: o vice-presidente da Câmara Marcelo Ramos se declara de oposição, desafia o inominável a vetar o fundão – o que desagradaria o Centrão – e diz que quer analisar alguns dos mais de cem pedidos de impeachment que dormem na gaveta de Arthur Lira.

 

Encurralado, o inominável praticamente entregou o governo ao Centrão: humilhou mais um militar, dessa vez o general Luiz Eduardo Ramos, e mais uma vez o ex-superministro Paulo Guedes, tudo para atender ao chefe do Centrão senador Ciro Nogueira – quem 2017 já dizia: Bolsonaro fascista. A quadrilha foi assim: Nogueira fica com a Casa Civil, que era de Ramos, que pega a Secretaria Geral, que era de Onyx Lorenzoni, que fica com a recriação do ministério do Trabalho, até então na mão de Guedes.

 

Tudo isso para que? Para nada. O apetite no Centrão nunca acaba. E, cada vez mais acuado, a tendência do inominável é apelar e dizer sempre uma barbaridade nova. Sossego só teremos quando o governo acabar.

 

Por sinal, neste sábado, 24 de julho, todos na Paulista: ato contra o governo genocida e golpista ainda mais amplo, com adesão oficial de vários partidos. Estarei lá.

 
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Luto e luta contra o genocida

Hoje o inominável esteve no Rio Grande do Norte e conseguiu se superar. Haja esforço para alguém como ele conseguir se superar. Mas conseguiu: a uma menina de dez anos que subiu ao palco, mantendo o distanciamento e usando máscara, ele pediu que tirasse a máscara e então chegou a uma distância não recomendada. Depois, tendo com sua claque, pegou um menino no colo, que também usava máscara, e tirou a máscara do menino. É inacreditável. E é ele em estado puro.

O pior é que vai piorar. Não duvidem: ele consegue, conforme demonstra diariamente. Porém vai piorar à medida em que ele e seu governo perdem força. Popularidade em baixa, desconfiança em alta, CPI descobrindo o que ele tentou esconder, aliados de anteontem apresentando novas denúncias de corrupção, mais pessoas vacinadas tomando coragem para ir às ruas protestar. Centenas de milhares estiveram no último ato, no dia 19 de junho, e assim, com mais vacinas, a próxima, no dia 24 de julho, vai ser muito maior.

É para estarmos juntos que eu gostaria de chamar cada um de vocês que tem a bondade de ler o que escrevo. Como já anotei aqui, sei que entre os ausentes há três grupos principais.

Primeiro, os que prudentemente temem o vírus e evitam aglomerações. Estou entre eles. Mas fui às duas manifestações e, usando máscara PFF2 e mantendo distanciamento, é seguro estar lá. Minimamente é bem menos perigoso do que ser governado por Bolsonaro.

Depois temos os que veem nas manifestações algo além de luto por quinhentas mil mortes e luta contra o genocida. E o algo além é principalmente uma bandeira vermelha – que de fato estiveram e estarão lá, mas que não significam que quem também está tomou algum partido. Aliás, entre a primeira e a segunda manifestação, novas cores foram aparecendo. Roxo, laranja, preto, preto e branco, verde, amarelo, verde e amarelo. Esta última foi uma alegria especial, depois da subtração causada pelo discurso “meu partido é o Brasil”, cujo significado é “quem discorda de mim, é contra o Brasil”. O nome disso é fascismo. Na próxima muitas novas cores virão. Precisamos de todas juntas, como foi nas Diretas contra a ditadura militar, e é sobre isso que vou falar depois de destacar o terceiro grupo.

No terceiro grupo evidentemente estão os apoiadores do inominável. Com estes não quero perder tempo. Votou nele? Paciência. Eu também já errei voto, sei como é. Mas seguir apoiando, depois de tudo, é intolerável. A estes, me limito a perguntar se entregariam seus filhos ou netos no colo dele para ele fazer o que fez hoje com as crianças potiguares. Porque é exatamente o que vocês estão fazendo com o país onde eles vão crescer.

De volta ao segundo grupo e ao que interessa aqui: energia para convergência. Precisamos estar juntos nas ruas no dia 24 de julho. Mostrar nossa indignação com as barbaridades diárias, transformar nossa dor em solidariedade. O que fazemos quando perdemos um ente querido e aparece um desafeto na despedida? Armistício. Nos despedimos juntos. Ora, perdemos mais de 500 mil. Temos que nos unir.

A gente tem que parar de atacar uns aos outros. Debater ideias, sempre. Mas a urgente é como vamos fazer para nos livrar do inominável. Exemplo: se alguém me convidar para falar sobre como somos maltratados pelos grandes bancos, vou adorar. Juros absurdos, taxas inexplicáveis, atendimento tosco. Mas se tem um agiota miliciano ameaçando moer meus joelhos, tirar minha vida ou de quem eu amo, antes vou morrer de saudade do Itaú.

Notem a convergência internacional. Há quem considere a relação entre EUA e China uma nova guerra fria. E o que aconteceu esta semana, depois das manifestações de sábado? Biden mandou entregar três milhões de doses de vacinas, daquela que basta uma dose, portanto suficientes para imunizar três milhões de brasileiros. É o maior lote diretamente doado para qualquer país. E o Butantã receberá da China depois de amanhã mais seis milhões de litros de insumos, para produzir mais dez milhões de doses.

Insisto: Biden até hoje sequer falou ao telefone com Bolsonaro. E a China já demonstrou de inúmeras maneiras sua insatisfação com as malcriações do atual governo brasileiro. Por que estariam sintonizados em nos ajudar com a vacinação? Palpite: querem os brasileiros nas ruas protestando contra o inominável.

Se EUA e China, que não se entendem, concordam que é absurdo e inaceitável um país como o Brasil ser governado por um tipo como Bolsonaro, o mínimo que podemos fazer é buscar entendimento interno. Igual a tomar injeção, não é gostoso, mas é necessário e é urgente.

Só mais um para encerrar: quem não estranha o fato de Bolsonaro ter passado três meses e 101 e-mails ignorando ofertas de vacinas da Pfeizer? Em dezembro ele disse aquela cretinice sobre virar jacaré. Ora, em 2020 seu ídolo Trump ainda era presidente e a farmacêutica americana fazia a America Great. Implicar com a vacina do Butantã, com a China, com o João Doria, era esperado. Mas com os EUA? Não fazia sentido. Agora, com a denúncia de corrupção envolvendo outra vacina, começa a fazer.

 

 

 
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Sobre a CPI e a manifestação

Sem qualquer esperança de ser compreendido por quem ainda defende o governo atual, explícita ou veladamente, farei anotações sobre dois fatos atuais: CPI da Pandemia e manifestações.

Antes, insisto: se o possível freguês ou freguesa desta página não se escandaliza com a tragédia que o governo atual patrocina; se toma os remédios que o inominável oferece até para os bichos, seja o gado que o aplaude nos currais, sejam as emas dos jardins do Alvorada; se queria ver imunização de rebanho com um milhão de mortos; se ignora medidas de proteção como uso de máscara e distanciamento na pandemia, seguindo o comportamento do monstro; se propaga desconfiança contra vacinas e relativiza a recusa em compra-las e distribuí-las; se dorme em paz sobre 463 mil mortos; seu lugar não é aqui, com você não quero conversa: porque é inútil e porque me faz mal saber que gente que eu tinha como minimamente sensata procede assim.

Sobre a CPI: ao contrário do que aconteceu em outras comissões históricas, eu acreditava que esta, do genocídio, seria uma comissão parlamentar de simples documentação, não de inquérito, porque os crimes contra a humanidade todos vimos acontecer durante os últimos meses. Logo, bastaria aos senadores relatar e oficializar o desfile de horrores e encaminhar ao Ministério Público para iniciar os processos de responsabilização e penalização dos culpados.

Porém, já no depoimento do primeiro egresso do governo, que apareceu para mentir e dissimular os crimes cometidos, fatos novos surgiram, agravando uma situação que já era para lá de absurda. Por meses recusamos vacinas. Havia ou ainda há um gabinete paralelo para questões de saúde. Tentou-se alterar bula de remédio sem base científica, na canetada. Uma técnica do ministério da Saúde admitiu que enxerga pênis até na fachada da FIOCRUZ e por aí vai.

Daí que desse manancial de tarados ainda deve sair muita coisa. E a estratégia de deixa-los falar, ainda que sob o risco de reforçar as convicções da parte da população que segue o inominável, me parece acertada, melhor do que prender quem mente.

Ao cabo, teremos um relatório que será enviado ao Ministério Público, e o procurador-geral da República terá que trabalhar. Entendo quem duvide que seu comportamento mude, dado que passou os últimos meses lavando as mãos – e não por prevenção sanitária – e a consciência, sujando o currículo. Mas a instituição tem dado demonstrações que resiste ao aparelhamento e, se for otimismo demais da minha parte, ainda há os tribunais internacionais para processar quem cometeu crimes contra a humanidade.

Sobre as manifestações, as que o próprio governo convoca não merecem comentário. A regra histórica, em qualquer tempo ou lugar, é que governo só convoca manifestação popular quando sente que está no fim. Vide o Collor, não por acaso aliado fiel do governo Bolsonaro. Mas como toda regra tem sua exceção, outros governos que chamaram manifestações em benefício próprio foram os ditatoriais e totalitários, nazismo, fascismo, castrismo etc.

Vou falar do 29 de Maio que eu vi aqui em São Paulo. Do ponto de vista sanitário, sem dúvida é arriscado fazer manifestações. Mas mais arriscado é não protestar contra este governo. E o que eu vi na Paulista foi gente reunida com distanciamento e uso de máscaras de proteção, muitas delas PFF2, que é a mais eficiente. (Compre as suas, são muito mais baratas que as de pano.)

Nas redes, li considerações perigosas sobre as cores das bandeiras presentes em todos os estados do país. Os pragmáticos assumiram o risco de reclamar da presença de bandeiras vermelhas. E os dogmáticos se revelaram dizendo que, perto de bandeiras vermelhas, não marcham.

Isso é muito perigoso. Por pragmatismo ou crença, negar a legitimidade de toda e qualquer pessoa se manifestar é inaceitável. Geralmente começa com uma cor de bandeira, depois avança sobre uma cor de pele ou de um grupo social, então pega uma etnia, corta uma religião, e sabemos como acaba.

Nunca me preocupei com quem está numa manifestação, sempre com qual é a mensagem. Concordando com a mensagem, aliás, quanto mais cores vejo no entorno, mais contente eu fico. E sobretudo agora, que estamos diante deste horror, é bem-vinda toda e qualquer bandeira que se aliar contra o negacionismo, a necropolítica, o cotidiano do absurdo, a grosseria esportiva. É bem-vinda toda e qualquer bandeira a favor da democracia.

Se uma bandeira vermelha, uma folha verde, um arco-íris te incomoda mais do que quase meio milhão de mortos, você precisa fazer uma reflexão pela vida, pela sua própria, mas também pela vida em si.

Estarei ao lado de todos que querem o Brasil de volta ao racionalismo e à civilização. Isto é, estarei ao lado de todos que querem o fim deste governo. Nossa separação só tem um interessado: o genocida. Antes precisamos supera-lo, investir nossa energia na conciliação com divergentes racionais e não gastar tentando esclarecer delirantes. Voltar à realidade dos fatos é o que urge, depois voltamos a discordar ou concordar sobre fatos ou ideias.

 

 

 
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Paulo Mendes da Rocha

Paulo Mendes da Rocha nos deixou. É o destino de todo mundo. Mas no caso dele “nos deixou” tem significado maior. Paulo Mendes da Rocha nos deixou uma obra universal, em concreto, e também uma obra abstrata, repleta de conceitos universais. Se o Nietzsche filosofava com um martelo, Mendes da Rocha filosofou em concreto armado.

O mestre da Escola Paulista de Arquitetura expirou na madrugada do 23 de Maio, data em que estudantes paulistas se levantaram contra a ditadura do Estado Novo, em 1932, travando batalha na esquina da rua 24 de Maio com a Praça da República, onde ficava o aparelho das milícias da ditadura. Pois é, todas as ditaduras, de qualquer tempo ou lugar, têm relação com milícias.

Outra coincidência, inspirada por um texto do professor Valter Caldana, para além da data paulista, é que entre os últimos projetos do arquiteto estão o SESC 24 de Maio e a intervenção no Parque do Ibirapuera, que seria o grande encontro do Paulo Mendes da Rocha com o Oscar Niemeyer. A primeira foi executada à perfeição, já a segunda se perdeu dolosamente numa gaveta da secretaria da Cultura da cidade de São Paulo. A ideia era reverter a lógica automobilística, e que o parque se comunicasse melhor com a cidade, especialmente com a enorme praça do Obelisco, mausoléu em homenagem aos que tombaram defendendo a Constituição lá em 1932.

Fosse casa, prédio, museu, monumento, ginásio, a arquitetura do Paulo Mendes da Rocha sempre se comunicava com a cidade. No caso do ginásio do clube Paulistano, obra que estampa a capa do livro de arte sobre sua trajetória, tive o privilégio de ouvi-lo explicar pessoalmente e no local. A entrada, pela rua Colômbia, dá de frente para uma pracinha onde se reuniu a equipe de futebol que chegava da Europa depois de vencer todas as partidas contra os times de vários países de lá, com Arthur Friedenreich no elenco, para então entrar no clube e ser recebida pelos associados e convidados. Então Paulo projetou não apenas um ginásio, mas uma passarela, com arquibancadas em linha reta, e rampas fazendo a comunicação entre as praças pública e privada, uma na calçada e a outra no miolo do clube.

Hannah Arendt uma vez disse que elogio é bom, mas bom mesmo é ser compreendido. Paulo Mendes da Rocha foi muito elogiado, mas igual a tantas outras pessoas iluminadas, talvez não tenha sido compreendido. Caso contrário as intervenções no ginásio não teriam sido tão infelizes, não haveria gradis em torno do MuBE, a marquise da Praça do Patriarca não fosse tão injustamente criticada.

Adoro aquela marquise como a um colar sobre um colo bonito. Posso ficar horas fitando a praça, andando em círculo, descobrindo aos poucos os contrastes da velha igreja de Santo Antônio com os vizinhos coloniais, clássicos e modernos. E ainda tem a crítica higienista, segundo a qual criar espaços acolhedores na cidade provoca aglomeração de pessoas desabrigadas, como se o problema fosse o acolhimento, que é para todos, e não o nosso caos social.

A frase do Paulo que eu mais gosto é “o caminho da escola já é a escola”. Ele disse isso em um documentário e tempos depois pude provoca-lo a discorrer sobre a ideia entre umas e outras na calçada do Bar da Dona Onça, no Copan. E ele, professor, sempre tão claro: ora, atrás desse prédio que não deveria estar aí, fica o Caetano de Campos, uma beleza de colégio, de frente para a Praça da República, que os alunos aproveitavam chegando ou saindo, talvez nos intervalos; hoje é uma repartição pública, fechada, que não ensina nada a ninguém.

Anos depois voltei à escola, fui estudar filosofia no Mackenzie, e me deixava na calçada da Maria Antonia admirando a energia contida nos colegas que ocupavam a rua. Por lá de vez em quando passava o Pedro Mendes da Rocha, filho do Paulo, e eu me lembrava da aula do seu pai. Via as crianças pobres vendendo pano de prato, com a educação formal prejudicada, mas já espertas e sabendo usar a cidade, enquanto crianças ricas, com acesso ao que é tido como a melhor educação formal disponível, só desembarcam dos carros com estes estacionados dentro dos colégios. Se estudassem e brincassem juntas, teriam muito a ensinar umas às outras. Isso é arquitetura social.

Outra boa dele foi quando veio a notícia de que o Pandoro ia acabar pela segunda vez. Igual ao Quincas Berro D’água, era a morte e a morte do bar. Mas a preocupação do Paulo estava além: um bar que fecha indica a decadência do bairro todo, da cidade. Não poderia ser mais profético. De lá pra cá o retrocesso à feudalização de todos os bairros jardins vem acelerado.

Enxergava longe. Recentemente enviou seu acervo à Portugal, onde projetou o novo Museu dos Coches. Obviamente eu preferia que estivesse por aqui, mas fico sossegado sabendo que está lá, especialmente quando a Nação é capaz de eleger um governo que extingue o ministério da Cultura, que nomeia um canastrão para secretário e o envia para a Bienal de Veneza, onde a homenageada é a arquiteta Lina Bo, que projetou o MASP, e chegando lá o distinto admitiu não saber de quem se trata.

Mas nem tudo são trevas. Vamos homenagear Paulo Mendes da Rocha indo à Pinacoteca, ao Museu da Língua Portuguesa, ao MuBE, ao SESC 24 de Maio, ou simplesmente comendo um pão de queijo na Haddock Lobo, olhando o Guaimbé que ele projetou e o amigo engenheiro Dalton Macedo Soares calculou, sentados no banco que o condomínio instalou perto da calçada, e que é de uso franco para quem passa, porque o prédio é um dos únicos da rua que se mantém sem grades negando a cidade.

E nesses momentos sempre pensar que, se me permitem, Paulinho está agora em algum bar de praia, comendo polvo e tomando todas, acompanhado dos amigos Pedro Paulo de Melo Saraiva e Fabio Penteado, como os três fizeram por dias a fio na Costa Azul da Itália, nos anos 1970, depois de longa jornada pelo frio e as belezas da Rússia.

 
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Boiada passando e terra arrasada

O bolsonarismo trabalha com um curral de apoiadores com dupla função tática: de um lado, inflamam a base ensandecida, repetindo e publicando as barbaridades que o próprio Bolsonaro sempre disse e continua dizendo, contra instituições, adversários, nações amigas, líderes estrangeiros, demais poderes, saúde pública.

Como tais apoiadores se destacam repetindo o comportamento do Messias, do outro lado servem para arrefecer os ânimos quando alguma autoridade ou instituição se sente ofendida ou diretamente ameaçada.

Já aconteceu com o ex-ministro da Educação, com uma ativista que acampou na Praça dos Três Poderes, com meia dúzia de blogueiros. O boi de piranha da vez é o ex-PM e deputado federal Daniel Silveira. Sangrará em público para fazer crer que as instituições estão funcionando. Enquanto isso, a boiada seguirá passando.

No curral bolsonarista há muitos outros bois de piranha para caso de necessidade. No Executivo, o ChanCelerado Araújo é vaca premiada. Quando sangrar, provocará um alívio tremendo. No Legislativo preparam outras, como a deputada Bia Kicis, enfeitada com postos estratégicos para valorizar o abate.

O curioso é que o boi gordo pra valer continua intocado. General Heleno ameaçou o Supremo com “consequências imprevisíveis” quando se aventou a possibilidade de apreender para perícia os celulares do presidente da República e de seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro. Outro filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, já falou em fechar o Supremo com um cabo e um soldado. O ministro Paulo Guedes falou em AI-5. Em nenhum dos casos houve consequências.

Vale lembrar que o rolo com o deputado Silveira começou com a admissão, em livro, pelo general Villas Boas, da articulação para ameaça pública ao STF há três anos. O general confessou que o Alto-Comando do Exército elaborou nota, às vésperas de um julgamento que teria consequências diretas nas eleições que acabariam resultando na vitória do governo que vários coautores daquele então agora servem. Nenhum dos generais foi pelo menos chamado a se explicar para o Supremo. Mas um ex-soldado da PM fluminense e deputado tido como idiota por seus pares, foi preso.

Quem quiser crer no funcionamento das instituições, esteja à vontade. Eu só vejo a boiada passando e um grande rastro de terra arrasada.

 
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45 dias imprevisíveis – um olhar sobre a largada eleitoral

Inaugurada oficialmente no domingo 27 de setembro, a corrida pelas prefeituras deve ser turbulenta como todo o mais nos últimos tempos. Aqui trataremos de São Paulo, capital. São 45 dias imprevisíveis.

Celso Russomano colocou o bloco na rua. Antes receoso em função das duas últimas rodadas, quando começou isolado na frente e não chegou sequer ao segundo turno, feito que lhe rendeu a pecha de “cavalo paraguaio”, desta vez foi encorajado pelo apoio do presidente Bolsonaro.

Na leitura do capitão, que coincide com a de muitos analistas, a aliança paulistana entre PSDB, MDB e DEM (entre outros partidos) é o ensaio da candidatura do governador João Doria para a Presidência em 2022. E em se tratando de São Paulo, para além do que o significado da disputa BolsoDoria carrega, isto é, vitória ou derrota de seus candidatos, o tamanho do colégio eleitoral e do orçamento podem ter peso político-eleitoral numa eleição nacional.

Houve insistência por parte de Bolsonaro e Russomano acabou cedendo, com apoio do PTB do ora bolsonarista Roberto Jefferson, que desfez a pré-candidatura do ex-presidente da OAB-SP Marcos da Costa, ficando este com a vice na chapa encabeçada pelo Republicanos.

O apoio tem se confirmado, ao contrário do que até anteontem dizia o presidente sobre se afastar do primeiro turno em função da agenda de trabalho. Bolsonaro citou em live a possibilidade de apoiar candidatos em São Paulo, Santos e Manaus, posou para fotografia com Russomano quando este o visitou na convalescência da intervenção cirúrgica na bexiga, e nos bastidores afiançou que colocará suas tropas virtuais nas trincheiras “russas”.

A estratégia de Russomano, portanto, será deixar que os subterrâneos operem – e pelo histórico deve ser antes atacando adversários do que promovendo o próprio candidato –, enquanto se aproveita do isolamento social para tentar manter o isolamento nas intenções de voto, faltando a debates e evitando exposição desnecessária. É antes não perder do que ganhar.

Três destaques: Sabe-se do que é capaz a máquina virtual bolsonarista; em que pese 46% do eleitorado paulistano considerarem o governo Bolsonaro ruim ou péssimo (Datafolha 21-22/9), sobram apoiadores (29% de ótimo e bom) para fortalecer o passaporte de um indicado seu para o segundo turno; o apoio da Igreja Universal do bispo Macedo, cujo braço político é o Republicanos, e o midiático é a TV Record, respectivamente partido e emissora onde Russomano é filiado e apresenta um programa, não bastou para coloca-lo no segundo turno em outras eleições, mas obviamente tem peso.

Para concluir a novidade da largada, a entrada de Russomano no pleito já alterou e vai alterar ainda mais a chamada raia preferencial, que reúne os quatro primeiros colocados nas pesquisas, especialmente desidratando os “centristas” Bruno Covas e Márcio França, este último notadamente prejudicado inclusive nas interlocuções com empresários que, assediados pelo Planalto via FIESP, poderiam ajuda-lo na tentativa de desacelerar Doria – agora boa parte desse apoio migrará para Russomano.

Bruno Covas deve repetir a estratégia de evitar exposição e confronto, apelando primeiro para o exemplo de ter que evitar as aglomerações (já capenga pela reunião com candidatos à vereança num teatro fechado), depois por ter horário de campanha restrito pela agenda de prefeito (somente fora de horário comercial e finais de semana), e ainda porque ser prefeito já lhe garante agenda pública e notícia. De novo, é antes não perder do que ganhar. Seu vice, Ricardo Nunes (MDB), além de participar com o possível acordo entre PSDB e MDB em 2022, tem curral eleitoral na Zona Sul, única região em que Doria foi derrotado em 2016.

A dificuldade da prefeitura no controle social para o combate à pandemia é gritante. Estive num velório no cemitério São Paulo, em Pinheiros. Dos seis guardas municipais responsáveis pelo local, nenhum usava máscara. Não havia cartaz com orientações de protocolo e muito menos álcool em gel à disposição. Bebedouro liberado. No Parque do Ibirapuera o respeito às normas são uma escolha individual, não há qualquer interferência dos raros vigilantes e a GCM sumiu.

Guilherme Boulos enfrenta uma dificuldade. Segundo o DataFolha, é o predileto para 18% dos moradores da rica Zona Oeste, enquanto só 2% dos estratos mais vulneráveis o querem prefeito. Nítida dificuldade de comunicação com tais camadas, para as quais se dedica pessoalmente bem como seu partido, o PSOL. Por tão baixo, o índice deve aumentar com o desenrolar da campanha, mas se a base petista trabalhar por Jilmar Tatto vai lhe atrapalhar, e Covas pode absorver algo do apoio de Marta Suplicy, popular na periferia.

Na raia retardatária, os estridentes conseguem chamar atenção cutucando feridas já bastante inflamadas da cidade, como as cracolândias matriz e filiais, pancadões, assistência social do padre Júlio Lancelotti. É o caso de Arthur Mamãe Falei, do Patriota. Também o de Joice Hasselmann (PSL), que dispara contra tudo e contra todos alternando a comunicação com conteúdos que lembram a de uma blogueira juvenil.

A deputada estadual Janaina Paschoal (PSL), parlamentar mais votada da história do país com mais de dois milhões de sufrágios, participa da campanha, porém com um pé em cada canoa, ambas retardatárias. Acena a Mamãe Falei e a Andrea Matarazzo (PSD).

A candidatura de Filipe Sabará, do Novo, foi suspensa pelo próprio partido. O processo é interno e sigiloso, mas a declaração sobre Paulo Maluf ter sido o melhor prefeito da história, a declaração de bens revista de R$ 15 mil para R$ 5 milhões e a falsificação sobre formação acadêmica pesaram e ganharam as redes. O constrangimento interno é alto, causou cisões e o exaltado processo seletivo de candidatos, encomendado a uma empresa que seleciona executivos para a iniciativa privada, vem sendo questionado por dentro e motivo de deboche por fora.

Se a apatia vinha num crescente entre os eleitorados do mundo todo, derivando em continuados recordes de abstenção alhures e aqui, desta vez temos a pandemia, que tanto pode agravar o não comparecimento como estimular as falanges que ideologizaram a crise sanitária. A ver. O que temos para hoje é 20% de eleitores declaradamente inseguros em comparecer para votar contrastando com recorde de mesários voluntários inscritos. Ainda há o risco de uma segunda onda provocar uma autorização para voto facultativo, o que tende a prejudicar sobretudo os candidatos “centristas”, de eleitorado menos apaixonado.

A nacionalização da campanha vai se confirmando inevitável não só pelo comportamento dos candidatos ou a preocupação dos caciques com 2022, mas também pela pauta da imprensa. A Folha de S. Paulo montou praticamente uma sucursal em Jaboticabal (SP), cidade com 75 mil habitantes. Motivo: um primo de Bolsonaro concorre a prefeito.

Os debates já estão com datas marcadas nas principais emissoras, exceto a líder TV Globo, que pela quantidade de candidatos propôs um acordo para poder convidar só os líderes nas pesquisas – algo difícil de cravar quem serão. Mesmo assim, como aposta que poderia ser bancada por qualquer candidato que acredite de fato poder crescer durante a campanha, é improvável que o acordo vingue. Já os demais debates perdem pela dificuldade de embates e aprofundamento dos temas abordados entre tantos debatedores.

Enquanto isso a população sofre. Não há supermercado sem uma família na porta pedindo por qualquer tipo de ajuda. O setor de serviços que sobreviveu, com ou sem ajuda dos governos, ainda assim sofre. O comércio viveu verdadeira revolução em seis meses. O imobiliário residencial está aquecido, mas ninguém sabe o que será dos escritórios. Serviços de entrega por aplicativo estão em alta, mas a precarização do trabalho é insustentável. Taxistas e ubers, que já vinham penando, não conseguem manter o padrão de vida. Quem vier a ocupar o Edifício Matarazzo em 2021 terá um abacaxi e tanto para descascar.

 
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Olhar sobre as redes sociais dos principais candidatos à prefeitura de SP

Análise feita para uso interno em 01/09/2020

Olhar sobre as redes sociais dos principais candidatos à prefeitura de SP

 

Panorama geral:

. Dentro da pandemia, obviamente o peso das redes será ainda mais decisivo do que nas eleições anteriores;

. Corrida polarizada e nacionalizada, tanto ou mais do que 2016;

. Engajamento se dá mais com provocações entre os candidatos, adversários e, é necessário reconhecer, inimigos, do que com propostas ou debate sobre a cidade;

. Mesmo quando aparecem, as questões locais chamam mais atenção quando em forma de ataque do que de proposta, por exemplo a reforma do Anhangabaú ou ações para combater as crises sanitária e econômica;

. Parece ser o fim ou, no mínimo, a continuação da suspensão da velha máxima “quem bate, perde”;

. Cenário favorece quem melhor se comunica, principalmente pela internet, como Hasselmann e Mamãe Falei, mas também Boulos e mesmo o ainda incerto Russomano;

. Corpo a corpo diminuiu com a pandemia, mas não trancou os candidatos em casa, como era imaginável;

. Todos nas ruas, em reuniões com apoiadores ou para produção de conteúdo nas redes sociais.

 

Bruno Covas: nítida solidariedade em função da batalha pela saúde, posts mais voltados para ações do combate à pandemia, mas algumas redes apáticas e há muito tempo sem postagens. 52,5% aprovam o governo versus 42,2% que desaprovam; 3,4% não opinaram (Paraná Pesquisas – 21 de agosto de 2020). Se por um lado tem a máquina, deve apanhar da maioria dos demais candidatos, e inclusive e especialmente de Bolsonaro, que quer derrotar o ex-aliado João Doria e colocará sua rede para funcionar neste sentido. Os tantos problemas dos tucanos certamente pesarão na balança eleitoral.

Número de seguidores:

Facebook: 208.427

Instagram: 184.000

Twitter: 48.388

 

Celso Russomano: tem presença na televisão e nas redes, andou visitando a rede de saúde apostando no sensacionalismo que o fez conhecido, segue com a “defesa do consumidor”, tem o recall de sempre, com a fragilidade de sempre, ora reforçada pela indefinição da candidatura.

Número de seguidores:

Facebook: 936.803

Instagram: 781.000

Twitter: 135.369

 

 

Marta Suplicy (Solidariedade): não deve ser candidata, mas seu apoio conta. Segue ativa nas redes, ora conversando com um campo mais amplo do que o seu tradicional.

Facebook: 151.544

Instagram: 19.200

Twitter: 64.260

 

Márcio França (PSB): mantém recall de 2018, quando venceu João Doria na capital por 60×40%. Discurso conciliador no geral, incluindo Bolsonaro, mas taticamente anti-Doria/Covas, campo que lhe empresta alguma emoção. Comunicação amadora e pouco criativa, resgatando ideias que já cansaram os jovens e não falam bem com os mais velhos, caso dos “óculos de lacração”.

Número de seguidores:

Facebook: 149.128

Instagram: 53.500

Twitter: 30.024

 

Guilherme Boulos (PSOL): forte nas redes, conteúdo criativo, apoio de artistas, intelectuais e influenciadores, adesão de quadros históricos e militância progressista, seja pelo carisma, pela vice Luiza Erundina ou pela rejeição à candidatura oficial do PT. Pauta bem definida para a cidade, como habitação, mas posição ideológica mais acentuada, provocando mais engajamento (se critica o bolsonarismo, bate cem mil curtidas; se visita uma garagem de ônibus, mal passa de dez mil). Já é alvo dos adversários conservadores ou reacionários e tende a se consolidar assim, podendo se beneficiar com a polarização.

Número de seguidores:

Facebook: 920.981

Instagram: 1.000.000

Twitter: 1.008.499

 

Jilmar Tatto (PT): Escolhido pelo partido porém abandonado à própria sorte pelos caciques. Sequer Lula se engajou na pré-campanha. Fernando Haddad fala mais de temas nacionais e, quando fala de Tatto, não emociona. Campanha tradicional petista, falando com os estratos mais vulneráveis e buscando oposição ao PSDB e também Bolsonaro. Terá um dos maiores tempos de televisão e participação no fundo eleitoral.

Número de seguidores:

Facebook: 24.339

Instagram: 7.546

Twitter: 10.867

 

Andrea Matarazzo (PSD): Mostra conhecimento da cidade e tem propostas claras, sólidas no conteúdo, porém porosas na forma de comunicar. Carisma restrito à parte do chamado 1% ou classes dominantes, que por outro lado rejeitam fortemente o dono da sigla, Gilberto Kassab. As redes demonstram exatamente isto, com declarações de figuras destacadas do meio empresarial ou artístico, e só.

Número de seguidores:

Facebook: 58.407

Instagram: 16.300

Twitter: 51.470

 

Arthur do Val Mamãe Falei (Patriota): Youtuber que despontou quando passou a comparecer a atos e provocar manifestantes contrários ao impeachment de Dilma Rousseff, se aproximou do MBL e manteve o estilo para se eleger e exercer o mandato de deputado estadual em 2018. Segue bastante popular, mesmo tendo se afastado do bolsonarismo. Se comunica muito bem, linguagem afinada com a pancadaria das redes, capaz de conquistar reações contrárias ou favoráveis mesmo (ou sobretudo) com assuntos batidos ou obviedades.

Número de seguidores:

Facebook: 1.639.434

Instagram: 630.000

Twitter: 510.152

 

Levy Fidelix (PRTB): Se engana quem olha para o tipo antiquado e pensa que não tem penetração nas redes. Praticamente uma caricatura, o eterno aerotrem corre bem na internet, onde faz o mesmo papel de sempre. Porém, o número de interações, desproporcional ao de seguidores, é um indício de uso de robôs, notadamente onde eles são mais comuns, como Facebook e Twitter – neste site ele consegue centenas de interações a mais do que no Instagram, onde o uso de robôs é menos frequente, mesmo tendo a metade dos seguidores.

Número de seguidores:

Facebook: 238.635

Instagram: 40.400

Twitter: 22.779

 

Joice Hasselmann (PSL): Outro nome construído nas redes sociais e movimentos de rua desde 2013, porém com passagem pela grande imprensa, qual Mamãe Falei soma inúmeros seguidores e manteve boa presença mesmo depois de romper com o bolsonarismo e ser duramente atacada pelo chamado Gabinete do Ódio, que não deve dar-lhe sossego durante a campanha. A personagem é a mesma de sempre e o efeito que causa repete o fenômeno de engajamento quando aborda temas afeitos às torcidas de parte a parte, como a defesa da operação Lava Jato.

Número de seguidores:

Facebook: 2.066.731

Instagram: 961.000

Twitter: 349.672

 

Demais candidaturas pontuaram abaixo de 1% na última rodada da Paraná Pesquisas.

 

Televisão deve contar pontos mas os números exatos ainda dependem das coligações. A previsão é de uma divisão mais equilibrada, com PT e PSL garantidos pelas bancadas.

 

Com o fim das coligações proporcionais (chapa de vereadores), os partidos devem usar o tempo de televisão a favor de seus próprios candidatos, porém sempre assinando com a candidatura majoritária, o que favorece o PSDB, provavelmente aliado a DEM e MDB, o que garantiria o aior quinhão.

 

 

 

 

 

 

 

 
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O dilema social ou o Renascimento 5.0

Filme mais comentado do momento, O dilema das redes, documentário em cartaz no Netflix, reúne depoimentos de diversos ex-executivos das grandes empresas que trabalham as chamadas redes sociais.

No original, em inglês, o título é melhor: The Social Dilemma, ou O Dilema Social, porque é antes da sociedade do que da tecnologia das redes que a obra trata.

Do ponto de vista da tecnologia não tem qualquer novidade para quem presta atenção nos problemas do mundo, a não ser a reunião autocrítica de diversas vozes responsáveis pela programação dos algoritmos que teceram as redes.

Tampouco há novidade do ponto de vista do modelo de negócios. Outras indústrias fizeram coisas semelhantes com a humanidade. Automóveis, energia, cigarros, finanças, cinema, música, moda, sexo, cosmética, alimentos, religião, autoajuda, turismo etc. A lista é infindável. Insisto: noves fora a velocidade e a potência das redes, nada de novo. Programadores dizendo que não deixam suas crianças acessarem as redes repetem as falas dos lobistas do tabaco.

A grande novidade, que é a grande oportunidade, é a deflagração do debate ético sobre o que foi feito. É nele que devemos nos concentrar. E não importa quão ricas e poderosas essas empresas são. Se orgânica e psicologicamente nos tornamos dependentes delas, empresarialmente elas é que dependem da gente. E sim, enquanto sociedade devemos e podemos interferir, diretamente e cobrando os governos, posto que somos parte do problema e trabalhamos todos para elas.

Trabalhamos não só gerando conteúdo. Na última década, a cada vez que respondemos a um Captcha para provar que não somos robôs, ensinamos um robô a ler e escrever, inclusive em garranchos, e este, já alfabetizado, hoje vale bilhões de dinheiros. Agora estamos ensinando a andar, reconhecendo para semáforos, pontes, escadas, faixas de pedestres. Os veículos autônomos dependem do nosso trabalho.

Também estamos ensinando a conversa. Cada vez que usamos a Siri ou a Alexa, o robô aprende palavras e sentenças novas.

Quer dizer, as empresas tratam da tecnologia, mas são os usuários que entram com o capital humano. Somos sócios, portanto. E tal condição não significa só poder. Significa responsabilidade, dever.

Sem preocupação em dar spoiler, a conclusão do filme é pela urgência do reestabelecimento do conceito de verdade. Falo por mim: só rompi relações pessoais com quem nega a verdade. Gosto da divergência e da crítica. Não saberia viver sem elas. E aguentei bem as lendas sobre manga com leite, verruga no dedo de quem aponta para a lua, e até a desconfiança sobre o homem por lá ter pisado.

Mas não suporto quem nega dados de satélites sobre queimadas, diz que vacina é feita para espalhar doença, afirma que fulano não disse o que disse. Nem dos terraplanistas consigo mais rir.

Palpites para concluir: posto que nos tornamos orgânica e psicologicamente dependentes das redes sociais, psicólogos e psiquiatras precisam se coçar para ver os tratamentos possíveis.

Se o modelo de negócio depende do caos, este precisa ser revisto. E não só ele, mas todos. Destaque para um ponto levantado por um dos depoentes: como podem baleias e árvores valerem mais mortas do que vivas? Financistas, se cocem.

E, como o debate urgente é sobre ética, potência e velocidade, e o problema maior é reestabelecer a verdade, o desenrolar da fita é tarefa para a turma da filosofia. A proposta é um Renascimento 5.0, 6G, ou como queiram chamar. Mas é urgente.

 

 

 

 

 

 

 
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Se segura, freguesia

Numa coluna recente o Antônio Prata meteu: não sou burro, sou inteligente, mas sou trouxa. Já o elogiei e peço licença para me filiar ao partido dos trouxas inteligentes, até porque é urgente fazer oposição aos burros espertos.

Uma vez filiado, e sendo democrático o partido, meto eu meu palpite: como ninguém é esperto o tempo todo, cabe a nós, trouxas, a inteligência de esperar o momento adequado para ação.

Não quero nominar, até porque no momento é inútil, mas tem um burro esperto aí com popularidade alta. E como burro não sou, já entendi que é inútil ficar atazanando seus seguidores com ideias arrazoadas.

É triste e sufocante ter que esperar enquanto as pessoas morrem, as matas, os bichos e o filme queimam. É desesperador. Mas sinto que o inverso é igual tentar apagar fogo alto soprando. Isso poderíamos ter feito quando era uma vela. Agora resta tentar ajudar quem está em perigo, espancar a situação com humor – obrigado, Adnet, obrigado, Molière – e esperar que a esperteza consuma o burro mor.

Se eu estiver errado, que pague por tanto. Mas junto com a vacina contra o coronavírus, não há nada que eu queira mais e, não podendo ajudar com uma, penso muito na outra. E acredito que há uma semelhança fundamental entre ambas: assim como a vacina que mata o vírus é feita de vírus atenuados, o que pode matar o projeto do burro esperto mor são os burros espertos mores atenuados.

Muitos deles já passaram para a fase de testes: Gustavo Bebianno (descanse em paz), Paulo Marinho, Alexandre Frota, João Doria, Gal. Santos Cruz, Gal. Santa Rosa, Major Olímpio, Sérgio Moro, Joice Hasselmann, MBL, Henrique Mandetta, Nelson Teich, Wilson Witzel, alguns blogueiros, outras celebridades, umas tias do zap, de quando em vez Olavo de Carvalho, de vez em quando Paulo Guedes.

Com a ditadura militar foi assim. O frisson inicial e mentiroso contra o Jango logo custou caro. Boni contou ontem no Roda Viva como era duro trabalhar sob censura. O Estadão foi duramente perseguido. Carlos Lacerda, exilado. Senhoras católicas viram seus filhos presos, arrebentados e dados como desaparecidos. Mas no final das contas quem acabou com a ditadura foi a própria ditadura, por fim falida e humilhada.

Gostaria de vir publicar mais o que tenho visto, mas estou cansado, preciso mesmo de um respiro. Gostaria de falar da curiosidade que é ver pelas ruas as pessoas que andam isoladas usarem máscaras, e as que saem acompanhadas ou se aglomeram, não.

Falaria da solidariedade em reconhecer em estranhos amigos de esforço de isolamento social, bufando sob a máscara, com a ponta do tênis ou as roupas manchadas por gotas impertinentes de cândida, ou de poder agradecer o esforço de quem está na linha de frente e continua, bem e saudável, sobrevivendo à pandemia. Olha, vale por um abraço.

Mas preciso mesmo desse respiro. Vou passar este restinho de ano estudando com a ajuda de gente muito querida e trabalhando conforme minhas possibilidades, mais focado no que paga boleto diretamente.

Fica bem, freguesia.

 
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Vaidade e silêncio

Em 2012 fui ao iFHC ver uma mesa sobre as novas classes médias na Índia e na África do Sul. Ouvindo o Pratap Bhanu Metha, intelectual indiano e então presidente do Centro de Estudos Políticos de Nova Deli, tive um estalo: mil milionários valem mais do que um bilionário.

Mas foi só em 2013, quando enfim o BNDES avisou que encerraria a política de criação de campeões nacionais, que anotei a sentença como está acima. Nem precisava ter dado em tanta corrupção e prejuízo. Fazer mil milionários será melhor do que um bilionário em qualquer circunstância. Achei os textos, mas não trago os links porque incluem passagens erradas ou já fora de contexto, e hoje só quero me exibir.

O motivo do domingo empavonado é duplo, está no Estadão e na Folha, respectivamente na boca e na pena de dois intelectuais destacados.

Primeiro o que abre esta crônica: Scott Galloway, professor colocado entre os cinquenta melhores das escolas de negócios do mundo pela Poets & Quant e eleito pelo Fórum Econômico Mundial como um dos Líderes Globais do Amanhã, é o entrevistado de hoje do Luciano Huck, no Estadão. E já no subtítulo da entrevista estão as aspas que o editor entendeu merecedoras de destaque: “mais milionários e menos bilionários.”

Na Folha, o antropólogo Hermano Viana escreveu contando como foi testar o GPT-3, programa de inteligência artificial (IA) capaz de criar textos. Não sei se GPT tem a ver com Gepeto, mas suspeito que sim. E o robô, mentiroso bom como todo romancista, mesmo alfabetizado em inglês foi capaz de brincar com uma frase de Guimarães Rosa. Pois é. Aceita que dói menos.

Logo em seguida, Hermano anota o óbvio: com IA os empregos vão sumir e a renda universal será necessária. Isto eu falo desde 2017, quando me toquei que com as novas tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos; que o modelo chinês ou americano de produção e consumo, escalado de 1,5 bi de pessoas para 7 bi, explodiria o mundo antes do Natal; que a concentração de renda tende a colapsar o capitalismo.

Então me desculpe esta freguesia, mas acredito que tenho motivos para estar exibido. E é o que farei. Satisfação tem sido artigo raro e, se apareceu, vou dedicar o domingo ao onanismo intelectual.

Porém não sem antes explicar o por que da minha ausência nesta página. Um dos motivos vem disso, de me sentir repetitivo, e como não sou o Nelson, Flor de Obsessão, nem Franco Montoro, que “repetia, repetia e ainda deixava uma anotação”, cansei.

Some-se a distância das calçadas e dos bares que são meu combustível; a marmota no noticiário político, dando exatamente conforme o previsto, e cuja exaltação só faz entristecer os inteligentes e irar os cretinos; a miséria que é ver nossos problemas crônicos tornados agudos pela crise sanitária e econômica.

Tudo isso eu junto e multiplico pela preguiça de debater o que está no ar. Tas versus Adnet no Roda Viva, por exemplo. O primeiro fez uma pergunta impensada e o segundo devolveu resposta imprecisa: nem direita versus esquerda é um conceito, nem o comunismo chegou a ser praticado depois de formulado (quem chegou mais perto foi a Europa mediterrânea em suas comunas).

Direita versus esquerda é só um dado histórico. Estivesse eu naquele salão em 1789, provavelmente estaria do lado direito, ao lado dos girondinos, porque sempre desconfio das consequências das guilhotinas, preferidas dos jacobinos. Mas vale notar que meu lugar de fala é de homem branco, classe-média-pão-de-ló do século 20, que sabe como a história se desenrolou e que havia tempo para uma transição pacífica. Estivesse com fome, frio e sem horizonte naquele então, sei lá.

Hoje, diante do eminente colapso climático, da abjeta precarização do trabalho, da insustentável desigualdade financeira, da intolerável estrutura social racista, machista, homofóbica, demofóbica, me sinto do lado esquerdo do salão, porque é urgente fazer a transição.

Por fim, sinto que quem tem que falar agora não sou eu. É ridículo que todos os citados até aqui sejam meus pares, homens, brancos da classe-média do século 20. Agora é a vez das mulheres, dos pretos, dos indígenas, dos homossexuais e todos os excluídos do processo político histórico.

Quem tem que falar é Djamila Ribeiro, Rosana Pinheiro-Machado, Alexandra Ocasio-Cortez, Svetlana Tikhanovskaya, Sônia Guajajara, Jacinda Ardern, Monica de Bolle, Laura Carvalho, Tati Roque, Mariana Mazzucato, Emicida, Aldino Vilão, Greta Thunberg, George Floyd in memorian. E o Silvio Almeida. O filósofo Silvio Almeida tem que falar todo dia em todo lugar.

Imagine esta freguesia que a inteligência artificial que construímos reconhece pessoas pretas como gorilas, por ter sido acostumada com pessoas brancas. Está no artigo do Hermano Viana. É absurdo. É a consagração do racismo estrutural tão bem explicado pelo Silvio Almeida. Não podemos dar mais nenhum passo assim.

Concluo que cabe a mim ficar quieto, calado, só observando e sempre às ordens. De onde? De uma calçada de bar. Quem paga a despesa? A renda universal. Quem paga o espírito? A vaidade de ver dar certo. Tenho certeza que no fim das contas será melhor para todos.

 

 

 
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