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Paulo Mendes da Rocha

Paulo Mendes da Rocha nos deixou. É o destino de todo mundo. Mas no caso dele “nos deixou” tem significado maior. Paulo Mendes da Rocha nos deixou uma obra universal, em concreto, e também uma obra abstrata, repleta de conceitos universais. Se o Nietzsche filosofava com um martelo, Mendes da Rocha filosofou em concreto armado.

O mestre da Escola Paulista de Arquitetura expirou na madrugada do 23 de Maio, data em que estudantes paulistas se levantaram contra a ditadura do Estado Novo, em 1932, travando batalha na esquina da rua 24 de Maio com a Praça da República, onde ficava o aparelho das milícias da ditadura. Pois é, todas as ditaduras, de qualquer tempo ou lugar, têm relação com milícias.

Outra coincidência, inspirada por um texto do professor Valter Caldana, para além da data paulista, é que entre os últimos projetos do arquiteto estão o SESC 24 de Maio e a intervenção no Parque do Ibirapuera, que seria o grande encontro do Paulo Mendes da Rocha com o Oscar Niemeyer. A primeira foi executada à perfeição, já a segunda se perdeu dolosamente numa gaveta da secretaria da Cultura da cidade de São Paulo. A ideia era reverter a lógica automobilística, e que o parque se comunicasse melhor com a cidade, especialmente com a enorme praça do Obelisco, mausoléu em homenagem aos que tombaram defendendo a Constituição lá em 1932.

Fosse casa, prédio, museu, monumento, ginásio, a arquitetura do Paulo Mendes da Rocha sempre se comunicava com a cidade. No caso do ginásio do clube Paulistano, obra que estampa a capa do livro de arte sobre sua trajetória, tive o privilégio de ouvi-lo explicar pessoalmente e no local. A entrada, pela rua Colômbia, dá de frente para uma pracinha onde se reuniu a equipe de futebol que chegava da Europa depois de vencer todas as partidas contra os times de vários países de lá, com Arthur Friedenreich no elenco, para então entrar no clube e ser recebida pelos associados e convidados. Então Paulo projetou não apenas um ginásio, mas uma passarela, com arquibancadas em linha reta, e rampas fazendo a comunicação entre as praças pública e privada, uma na calçada e a outra no miolo do clube.

Hannah Arendt uma vez disse que elogio é bom, mas bom mesmo é ser compreendido. Paulo Mendes da Rocha foi muito elogiado, mas igual a tantas outras pessoas iluminadas, talvez não tenha sido compreendido. Caso contrário as intervenções no ginásio não teriam sido tão infelizes, não haveria gradis em torno do MuBE, a marquise da Praça do Patriarca não fosse tão injustamente criticada.

Adoro aquela marquise como a um colar sobre um colo bonito. Posso ficar horas fitando a praça, andando em círculo, descobrindo aos poucos os contrastes da velha igreja de Santo Antônio com os vizinhos coloniais, clássicos e modernos. E ainda tem a crítica higienista, segundo a qual criar espaços acolhedores na cidade provoca aglomeração de pessoas desabrigadas, como se o problema fosse o acolhimento, que é para todos, e não o nosso caos social.

A frase do Paulo que eu mais gosto é “o caminho da escola já é a escola”. Ele disse isso em um documentário e tempos depois pude provoca-lo a discorrer sobre a ideia entre umas e outras na calçada do Bar da Dona Onça, no Copan. E ele, professor, sempre tão claro: ora, atrás desse prédio que não deveria estar aí, fica o Caetano de Campos, uma beleza de colégio, de frente para a Praça da República, que os alunos aproveitavam chegando ou saindo, talvez nos intervalos; hoje é uma repartição pública, fechada, que não ensina nada a ninguém.

Anos depois voltei à escola, fui estudar filosofia no Mackenzie, e me deixava na calçada da Maria Antonia admirando a energia contida nos colegas que ocupavam a rua. Por lá de vez em quando passava o Pedro Mendes da Rocha, filho do Paulo, e eu me lembrava da aula do seu pai. Via as crianças pobres vendendo pano de prato, com a educação formal prejudicada, mas já espertas e sabendo usar a cidade, enquanto crianças ricas, com acesso ao que é tido como a melhor educação formal disponível, só desembarcam dos carros com estes estacionados dentro dos colégios. Se estudassem e brincassem juntas, teriam muito a ensinar umas às outras. Isso é arquitetura social.

Outra boa dele foi quando veio a notícia de que o Pandoro ia acabar pela segunda vez. Igual ao Quincas Berro D’água, era a morte e a morte do bar. Mas a preocupação do Paulo estava além: um bar que fecha indica a decadência do bairro todo, da cidade. Não poderia ser mais profético. De lá pra cá o retrocesso à feudalização de todos os bairros jardins vem acelerado.

Enxergava longe. Recentemente enviou seu acervo à Portugal, onde projetou o novo Museu dos Coches. Obviamente eu preferia que estivesse por aqui, mas fico sossegado sabendo que está lá, especialmente quando a Nação é capaz de eleger um governo que extingue o ministério da Cultura, que nomeia um canastrão para secretário e o envia para a Bienal de Veneza, onde a homenageada é a arquiteta Lina Bo, que projetou o MASP, e chegando lá o distinto admitiu não saber de quem se trata.

Mas nem tudo são trevas. Vamos homenagear Paulo Mendes da Rocha indo à Pinacoteca, ao Museu da Língua Portuguesa, ao MuBE, ao SESC 24 de Maio, ou simplesmente comendo um pão de queijo na Haddock Lobo, olhando o Guaimbé que ele projetou e o amigo engenheiro Dalton Macedo Soares calculou, sentados no banco que o condomínio instalou perto da calçada, e que é de uso franco para quem passa, porque o prédio é um dos únicos da rua que se mantém sem grades negando a cidade.

E nesses momentos sempre pensar que, se me permitem, Paulinho está agora em algum bar de praia, comendo polvo e tomando todas, acompanhado dos amigos Pedro Paulo de Melo Saraiva e Fabio Penteado, como os três fizeram por dias a fio na Costa Azul da Itália, nos anos 1970, depois de longa jornada pelo frio e as belezas da Rússia.

 
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1 Comment  comments 

Uma resposta

  1. Aldo

    Bela homenagem, belo artigo.