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Obama de novo

Entrei no blog do Guga Chacra para responder a vinte perguntas sobre a intensidade da minha simpatia ao governo Obama e saí murcho: além de vinte motivos para não gostar da gestão do Baraca (obrigado, LFV), não encontrei aquele que considero seu pior momento, que foi o assassinato do Bin Laden, com direito a invasão acho que do Paquistão e sem direito a julgamento ou enterro. Quer dizer, para mim são 21 motivos para não aplaudir esses quatro anos da casa Branca.Por outro lado, posso dizer que são só 21, até porque alguns deles vão muito além da parcialidade polêmica, chegando a parecer torcida, donde se crê que não deve haver outro. Se o Guga relacionou vinte falhas do candidato republicano no mesmo tom, comi bola, não vi.

Sobre o furação ou tempestade Sandy que assolou a costa leste dos Estados Unidos na semana passada ouvi dois comentários de meter vergonha em cara de pau. O primeiro tipo – que se multiplicou pelas redes sociais – foi de gente se solidarizando com quem foi a Nova Iorque correr a maratona e perdeu a viagem. O que dizer? É como lamentar levar cano de uma menina porque ela acaba de ser estuprada. O que o prefeito deveria ter feito é transformado a maratona. Invés de corrida, a medalha de ouro iria para quem recolhesse mais lama. 

Outra coisa bocó foi a opinião de um sujeito tido como esclarecido, desprezando fleumaticamente a possibilidade de os americanos se sensibilizarem com a tragédia e votarem pela reeleição do Obama, que por sinal teve o apoio do Michael Bloomberg, prefeito de Nova Iorque.

Ora, se o desempate depender do tratamento que democratas e republicanos dão à questão do meio-ambiente, e ainda que, segundo o Guga, o Baraca tenha sabotado a Rio+20, não encontro nada comparável à preferência dos republicanos pela produção e pelo consumo desenfreado sobre a preservação da Natureza. Em outras palavras, acho mais grave não ter assinado o Protocolo de Kyoto do que ter faltado à Rio+20. E é claro que tudo isso deve influenciar as eleições nacionais, ainda que através de um gesto pontual como o socorro (obrigatório) às vitimas de um furacão.

A mensagem que vai na atuação direta com o incidente é a da preocupação em reverter o efeito estufa e outros males que o século vinte legou à Terra. Acredito que são notadamente dois e que estão diretamente relacionados ao furacão Sandy: endireitamento de rios e similares (o mundo todo fez marginais, cortou morros, construiu aterros, enfim), e  a cultura do carro e da gasolina.

Há quem inclua nisso o volume da produção de carne e o consequente gás metano, mas com reservas, porque nela vai a maravilha que é a proteína animal e todo o bem que ela fez à humanidade.

Para encerrar logo, até porque este assunto, além de distante, aqui mesmo já vai longe, se fosse votar na eleição de hoje tentaria somar a frequência de incidentes tidos como naturais à escala do terrorismo e decidir pelo candidato mais adequado a frear estes números, e assim escolheria o Barack Obama, não por ser o bom, mas por parecer o melhor intencionado.

 
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Passeando em Finados

O casal mais bonito da paróquia tem nome e sobrenome: Angelina e Amadeu Santisi. Não sei qual é a relação entre eles, mas sei que vivem em endereços distintos: ela na Zé Maria Lisboa ao lado da pizzaria Veridiana e ele na rua Saint Hilaire, onde quem faz pizza é a Prestíssimo.

Individualmente o mais bonito lá do meu pedaço é o Ipê, que fica na Capitão Pinto Ferreira, ou Capetão simplesmente, como prefere a Patrícia Pimenta, moradora que migrou há muitos anos. Meu palpite é que o Ipê é parente da Angelina e do Amadeu. Creio que os três sejam filhos do Vilanova Artigas. Mas com certeza só o Amadeu, porque ostenta na fachada um painel lindo do artista e arquiteto que também desenhou o Edifício Louveira, que é o mais feliz da freguesia de Higienópolis, tanto pela arquitetura quanto pelo entorno.

Gosto muito de onde eu moro, mas estou de mudança. Um freguês desta página pode duvidar que eu sinta algum tipo de vergonha, mas a verdade é que uma delas é ainda viver em casa de mamãe. Que luta! Aquela história de padecer no Paraíso depois de um tempo o homem herda. A mordomia é boa, qual o carinho, mas o nego sofre mesmo assim. Tenho que dar um jeito e para logo.

Morei alguns períodos fora, um deles na casa de Juquehy, que também era dela. Hoje já não vou lá. Tenho preguiça. Na quinta-feira de véspera do Dia de Finados fui fazer sauna no clube e o Manduca, que batizado foi Armando Iaropoli Neto, me disse que pela previsão do tempo mais de cinquenta por cento das pessoas deveria desistir de ir a praia. Concordei. O diabo é que a outra metade já é mais que o dobro do que as estradas e as próprias praias comportam.

Outra coisa que fiquei sabendo é que entrou ladrão na casa. O saldo do roubo ainda não temos, porque parece que ele ainda está lá. Isso já tem pelo menos uns seis meses. Um vizinho disse que eles são amigáveis e que não fugiram pelo mesmo motivo: receio de congestionamento. Ora, todos hão de convir que não fica bem fazer uma fuga com a Rio-Santos entupida. Vamos ver se depois do carnaval eles fogem. Eu que morei lá sei que o fim de semana do dia das mães é menos cheio. Fica a dica.

Por essas e outras passei o feriado em São Paulo, no que cada vez mais acho uma delícia. O do Ano Bom é o melhor de todos. Consigo aproveitar as ruas, comer as jabuticabas e as pitangas que estão pelas calçadas, ver arquitetura boa como a do Artigas, passear com a Una, ficar a sós com a minha Nega. E descobrir lugares novos, inclusive na minha paróquia. Vejam que sorte.

Na noite de quinta, depois da sauna, fui enfim ver um restaurante Siciliano que fica na Itú entre a Nove de Julho e a Pamplona, chamado Taormina. Desde que vi a Connie Corleone matando o Don Altobello com uma porção de cannolli persigo esses canudos, e por uma conversa entre o Pedro Rosa Bandeira e o Fabio Mazza ouvi falar do Taormina. Chegamos e entramos, mas descobrimos que estávamos, na verdade, na Tasca da Esquina, filial paulistana de um restaurante moderninho de Lisboa. O Taormina é vizinho e só funciona no almoço.

Ficamos e fomos felizes. Sem reserva, nos restou uma mesa diante da boqueta, que apesar do frisson é agradável, até porque as galeras tanto da cozinha quanto do salão incluem portugueses genuínos, o que deixa tudo pitoresco.

Resolvi me deixar na mão do chefe numa degustação de quatro pratos – pode-se ir até sete, com sobremesa. Começou com um gaspacho de manga e presunto, evoluiu para pastéis de pato com chutney de pimentão e abacaxi (ótimo), seguiu com camarões entre umas torradas que eles chamam de tostas de trigo, o que me pareceu uma redundância de crocantes, mas que estavam bons, apesar do sal excessivo, e finalizamos com um bacalhau a Brás refinadamente rústico e algo cremoso, como se levasse as natas daquela outra receita.

Quem nos atendeu desde o começo foi um garçom simpaticíssimo chamado Wando, que já se aportuguesou. Quando perguntei se seu nome era uma homenagem ao saudoso cantor colecionador de calcinhas, me respondeu: – “Não acredito. Mamãe não faria isso comigo”.

No final o dono veio à mesa e vendeu uma degustação de sobremesas e um cálice de ginjinha “com elas” para acompanhar. Eram os doces: claras em neve com favas toncas (ovos nevados com um tipo de baunilha), creme queimado (creme brule), mousse de chocolate e então a gloriosa, a colossal, a apoteótica Encharcada de Ovos. E ainda tem muito mais. Voltaremos. Mas antes, ao Taormina.

 
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Eu te disse, eu te disse!

Sempre acho que é do Muttley, o cachorro do Dick Vigarista, o bordão que peguei emprestado para o título. Mas o Google, aonde fui conferir a grafia do nome do cão com espírito de porco, me corrige avisando que “Eu te disse, eu te disse!” era a Motoquinha pentelha que repetia e repetia e repetia.

Ontem pela manhã, quando botei as mãos no Estadão, tal qual à Motoquinha obsessiva voltei à cozinha onde a minha Neguinha terminava o café. Sem mais ninguém para alugar, sobrou para ela tolerar a minha imodéstia despudorada em plena manhã de domingo.

Logo na primeira página três destaques repetiam o que eu escrevi nesta página há mais ou menos dois e há um ano, respectivamente. A manchete antecipando o que a prefeitura do Haddad (que é petista, mas disse à revista Época SP que seu governo não será, Oxalá!) e a chamada para o artigo do Fernando Henrique diziam a mesma coisa, porém de fontes antagônicas: é preciso dar atenção à nova classe média, estuda-la a fundo, até pelo princípio da recíproca, porque essa turma está estudando como nunca. Ao contrário dos entediados acomodados no topo da pirâmide, para eles tudo é novidade e excitante. Compram computadores, assinam jornais, revistas, TV a cabo, frequentam novos lugares, trocam de carro, querem viajar, experimentar, saber, e isso inclui política. A chave para o PSDB é contar que a transformação do Brasil não é milagre do Lula: começou com o Plano Real e o fortalecimento da democracia, quem nem Lula, nem Collor, souberam respeitar. Está aqui numa crônica chamada O ovo do tucano, de 19 de outubro de 2010.

E o presidente FHC capricha muito mais citando o artigo do Carlos Mello publicado no mesmo jornal, nós tucanos temos que explicar o que significa ser liberal na economia, social-democrata nas políticas públicas e progressista nos costumes, mas pondera que “Essa poderia continuar a ser a mensagem do partido, desde que se acrescente ao liberalismo econômico o contrapeso de um Estado atuante nas agências reguladoras e capaz de preservar instituições-chave para o desenvolvimento, como a Petrobrás e os bancos públicos, sem chafurdar no clientelismo e na confusão entre público e privado. O progressismo nos costumes implica a defesa da igualdade de gênero, o apoio às medidas racionais de compensação social e racial, bem como políticas modernas de controle da violência e das drogas que não joguem as populações pobres contra os governos. Sem esquecer que o crescimento do produto interno bruto (PIB) só é satisfatório quando respeita o meio ambiente e beneficia a maioria da população.”

Mas vamos adiante. Na manchete do caderno Cidades, o óbvio que ululava sem ninguém notar: os traficantes cariocas estão em São Paulo desde a ocupação dos morros no Rio. Confiro agora e noto que escrevi isto no três de abril deste ano, o que segundo o Estadão a PM confirmou prendendo os imigrantes do Rio abrigados em Paraisópolis.

Ora, só não viu quem não quis. Os governos federal e fluminense ocuparam várias comunidades controladas pelo tráfico de drogas e não prenderam quase ninguém. Ato continuo, a criminalidade explode nas cidades ao redor da Guanabara e em seguida São Paulo começa a conviver com a proliferação de bailes funk e arrastões, que nunca tiveram espaço por aqui. Nem precisa ser esperto para fazer a conclusão. Está aqui no arquivo sob o título de “Mais carioca que os biscoitos Globo”. Eu te disse, eu te disse! 

 
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A queda do muro

Acomodado na cadeira que o Sergio Rodrigues desenhou e batizou de Oscar depois de saber que o Niemeyer trabalhava sentado nela, aproveito as delícias do DOM enquanto espio, pelo espelho na parede, o movimento do salão que vai enchendo para o almoço de um dia qualquer de semana. E que delícia, principalmente os pães de queijo do couvert. São os mesmos do Mercadinho Dalva e Dito, só que em versão pequenina, mais apropriada ao ambiente refinado onde o próprio som é temperado a ponto de ser mais agradável que o silêncio.

Enquanto a refeição vai se desenrolando me sinto na paz do olho de um furacão: sei que à esquerda uma equipe trabalha freneticamente para fazer o melhor e à direita, além da porta, está São Paulo, em dia útil, caótica e a toda velocidade. Sei de tudo isso mas não percebo. É como se estivesse desligado. Me sinto protegido e deixo-me entregue aos cuidados de quem sabe o que está fazendo. Na cozinha, o sorriso tranquilo do meu amigo Luciano Nardelli fortalece a sensação. Faço uma pergunta qualquer sobre o bom andamento dos trabalhos e ele nem se abala: – “Léo, você está no DOM.”

À mesa atrás de mim reúne-se um grupo de senhoras elegantes e engajadas. Bem vestidas e cheias de modos, elas falam baixo, mas o meu ouvido indiscreto capta o assunto: a féria obtida num bazar beneficente, cujo total, calculo, será mais ou menos equivalente à despesa do almoço. E o que na hora me pareceu triste ironia hoje é música para os meus ouvidos. Explico.

O primeiro benefício da caridade é para quem faz. Não pelo suposto alívio de consciência, porque este não existe. Quem se sente melhor porque transferiu a quem precisa um dinheiro que estava sobrando só pode ser idiota, até porque trata-se de esmola, não de caridade. Há quem acredite que são sinônimos, mas não são. Caridade implica em envolvimento, em tomar conhecimento da realidade dos que estão em situação prejudicada, e é no despertar desta consciência que mora o primeiro benefício da caridade. Portanto o bom é o agravo da consciência, não o alívio.

Tive esta certeza jantando o franguinho do Camelo no aniversário da minha madrinha, Regina Coutinho. Por causa do trabalho social da minha prima e filha dela, Maria Eugênia, a tia Regina tem ido a lugares antes sequer imaginados, e visto de perto a disparidade social abissal que há em São Paulo.

É claro que neste momento um cético e dois cínicos estão me gozando na frieza do óbvio: as visitas da madame à favela não vão resolver nada. A vida do pobre vai continuar difícil e ela vai continuar regando suas orquídeas, saindo para jantar fora e mantendo em dia a mensalidade do plano de saúde. O que o cinismo não deixa ver é que há um bem intangível que nasce quando os ricos se dispõem a olhar através do muro imaginário que os separa dos pobres, ampliando, exatamente como na derrubada de um muro físico, a dimensão que se tem da cidade e da vida. E a mudança começa aí.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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Finados da guerra

Amanhã é dia de finados e em São Paulo os motivos para ir ao cemitério não param de aumentar. As estatísticas da guerra entre a polícia e os traficantes falam que a quantidade de assassinatos quase dobrou em relação ao índice anterior, que já era absurdo.

Os números são referentes ao assassinatos dolosos, que segundo os juristas são aqueles com intenção de matar. Ou seja, quando um fez mira e disparou contra o outro. Os assassinatos culposos, que acontecem por acidente, não entram na estatística, mas são muito mais escandalosos.

Se considerarmos que a polícia está em guerra contra uma organizacão que consegue dinheiro e poder  através do tráfico de drogas ilegais, deveríamos incluir no total os usuários, que no Brasil somam, por ano, mais de vinte mil óbitos.

É evidente que esta guerra, invés de diminuir, só está servindo para aumentar o número de mortes e nada mais. Pior: no mundo inteiro a guerra é vã. Os governos insistem em combater o tráfico de drogas, que por sua vez só faz prosperar, nos deixando com a pergunta que não quer calar: a quem interessa esta guerra?

São bilhões e bilhões de dinheiros que poderiam ir para a educação e para a saúde, notadamente prevenção e tratamento, para evitar que a turma entre e cuidar dos que precisam deixar as drogas. Isto implica na legalização e no direcionamento dos recursos. Mas a grana continua indo para o combate.

Nos Estados Unidos os superpoderosos marines têm navios de guerra para caçar cucarachos e cocaína que navegam em uns botes improvisados. No Rio o BOPE ganhou um sofisticado helicóptero blindado para perseguir pretos pobres e pedras de crack. Em São Paulo centenas de policiais da ROTA ocuparam Paraisópolis e de lá tiraram meia dúzia de marginais e cem quilos de maconha.

Não é evidente que quem está ganhando com essa situação absurda nem aparece no noticiário? De um lado os que vendem o equipamento, do outro os que lavam o dinheiro do tráfico. No meio os túmulos dos soldados, sejam mocinhos, traficantes ou usuários.

Se por trás da falácia de proteger as pessoas estivesse alguém comprometido, proibido seria o mercado de automóveis. O trânsito mata o dobro do que matam as drogas no Brasil. Mas aí tem muitos outros bilhões envolvidos.

O dever do Estado é proteger as pessoas. Ele deve ser forte nesse sentido. Mas o que acontece é um desvirtuamento da força, que no lugar de proteger serve para atacar a população, com impostos excessivos, manutenção de privilégios e falta da  contrapartida básica, que é educação, saúde e segurança, como provam os finados que estão aí para a gente chorar.

 
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O espírito da coisa

Para explicar o óbvio ululante o Nelson Rodrigues criou uma situação envolvendo o Pão de Açúcar e o Otto Lara Resende. Não lembro se são exatamente esses os personagens, mas vamos adiante. O Flor de Obsessão disse que o morro equipado de bondinho ficava no caminho da roça do mineiro, que adaptado à Cidade Maravilhosa nem dava bola. Até que um dia, diante de tamanha beleza, teve um acesso de interromper o trafego.

O óbvio está aí. Podemos alcança-lo parando para pensar ou podemos ser alcançados por ele, como aconteceu comigo recentemente. Qual uma droga psicoléptica, a sensação instantânea é de euforia seguida de um muxoxo. É que o ridículo de não enxergar logo abafa o tesão da descoberta – se é que posso dizer assim.

Minha descoberta é literalmente uma vergonha. Há algum tempo eu vinha encasquetado com a variação de preços do que envolve alimentação em São Paulo. Como pode um almoço satisfatório num restaurante a de comida a quilo custar a mesma coisa que dois cafés e duas águas na porta ao lado? E a resposta é óbvia: o custo não é da comida nem da bebida, mas do aluguel do ponto, do serviço e de algo intangível que poderíamos chamar de espírito da coisa.

De modo geral a obviedade é suficiente para esgotar um assunto. Mas não aqui. Porque espírito da coisa praticamente não tem explicação. É ele que faz gente esclarecida enfrentar pacificamente o desconforto da espera por uma refeição. Não uma pizza ou um sanduba rápido, mas um jantar completo, que implica um momento de restauro físico e espiritual, donde se torna conflitante com o sacrifício da fila, mas acontece mesmo assim. É como imaginar o público de um concerto dormindo em barracas na porta do Teatro Municipal como se fossem os fãs de uma banda pop.

E então voltamos ao ponto original: a maioria não está nem aí para a comida em si, nem para o serviço ou para o lugar, e portanto não é por eles que botam a mão no bolso. É o espírito da coisa, que se não pode ser explicado, nos serve para explicar.

Igual a qualquer espírito, o espírito da coisa pode ser bom ou ruim. Espírito bom é por exemplo o do Botequim do Hugo: a cadeira é ruim, o dono passa pito no freguês mas o clima, a cerveja e o pastel são fantásticos e tornam tudo agradável e folclórico, capaz de restaurar o freguês. O ruim é qualquer um desses lugares onde o princípio restaurador é secundário e não merecem citação. Digamos que no primeiro o freguês consome e no segundo ele é consumido.

Para saber se você está pagando o preço justo pelo espírito da coisa, cruze a lembrança com o custo do momento. Se a sensação for boa, você consumiu. Caso contrário, nunca mais volte.

 
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Venceu o novo

Durante o primeiro turno das eleições o José Serra apareceu numa foto ridícula na qual perdeu um pé de sapato depois de bater um pênalti. Com a língua de fora revelando um esforço extremo, a imagem ganhou primeiro os jornais e depois as redes sociais em fotomontagens que chacoteavam ainda mais a situação. Há um nome para essas intervenções em fotos que já são consideradas a charge política contemporânea.

No segundo turno surgiu nova oportunidade com bola para o mesmo candidato. E o que ele faz? Dá uma colocada, com jeito, de leve? Não. Na tentativa de mostrar que é capaz de fazer um gol de Pelé dispara outro canhão. Resultado: atingiu a câmera de uma fotografa da Folha de São Paulo, quebrando o flash e machucando a moça.

Essas duas passagens são o retrato da personalidade do Serra, que o levou à inacreditáveis 52% de rejeição, onde, numa moto, mais de um dos dois tripulantes não votariam nele de jeito nenhum. Sua obsessão pela superação acaba o tornando cego, incapaz de aprender com os erros e de enxergar que está de bom tamanho o que fez por São Paulo e pelo Brasil, que poderia coroar sua vida pública fortalecendo seu partido ajudando a criar quadros novos. Seus amigos da vida toda concordam. O Zé Gregori disse mais ou menos a mesma coisa. Meu palpite é que lhe dói a auto-comparação com o Fernando Henrique. O que deve doer muito, porque não tem remédio. Nesta vida ele não será charmoso e nem presidente da República. Poderia, quando deixou o governo do estado e concorreu à presidência ter criado um instituto nos moldes do iFHC. Tem experiência e capacidade raras para isso. Mas não fez e agora, depois de perder a prefeitura, ficou mais difícil.

Mais do que o Haddad ter ganhado, foi o Serra que perdeu a eleição. E não digo isso por despeito, mas pela simples constatação: qualquer outro novo ganharia e qualquer velho perderia. Não fosse o PT, o PSDB, a igreja Católica, a TV Globo, a Folha, o Estadão e a Veja terem acordado e explicado quem era a figura, o Celso Russomanno seria o prefeito eleito hoje. Se a Marta tivesse sido candidata, o Chalita teria vencido.

A pesquisa que definiu o nome do Haddad e que o Lula vende como se fosse o próprio faro político tinha quatro pontos destacados sobre quem seria o próximo prefeito de São Paulo. Tinha que ser um nome novo, ao mesmo tempo forte, evidentemente com serviços para mostrar e, sobretudo, o paulistano tinha saudades do prefeito de 2008. No PT encontraram um nome com duas dessas características: Haddad é um nome novo e tem serviços prestados. No PSDB a gente tinha o Matarazzo, que atendia aos quatro pontos, e sua estreia nas urnas com 118 mil votos para vereador confirmam que a pesquisa estava certa.

Agora Inês é morta e o que importa é a cidade. Temos a obrigação de servir ao Brasil como modelo de oposição, que nada tem a ver com o que o PT fazia antes de ser governo, votando contra tudo sem oferecer contraponto, nem tampouco o que o PSDB vem fazendo no Congresso há dez anos. Oposição responsável significa ajudar sempre, como se faz em relação a um amigo verdadeiro: ajudando realizar as coisas boas e tentando impedir que as ruins aconteçam.

Popularidade de governo Federal é diferente de Municipal. No primeiro o que vale é o bolso. Ou, como diria o marqueteiro do Bill Clinton, “É a economia, estupido!” Na prefeitura é diferente. Tudo o que envolve o cotidiano da pessoa tem a ver com o prefeito. Se São Paulo tivesse a Marginal parada três dias por causa de um pneu furado como aconteceu em Viracopos, ou se os semáforos parassem de funcionar com no apagão que assolou o Nordeste na semana passada, ambos por incompetência do governo Federal, a população arrancava o prefeito do cargo à unha. Por isso o PT nunca se reelege por aqui.

Tudo na vida tem um lado bom. Para o PSDB a derrota do Serra tem pelo menos dois: sela o divórcio com o Kassab e dá mais uma lição da importância da renovação dos quadros partidários. A alternância de poder é um princípio democrático, e não se dá exclusivamente entre correntes políticas, mas também entre as pessoas. A população ter votado no Haddad mesmo com líderes históricos do PT sendo condenados pela Justiça prova isso. 

 
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Mulher da vida

Se a primeira intenção foi pejorativa, creio que qualquer um que parar para pensar vai decidir que o tiro saiu pela culatra. Entre os tantos sinônimos que arranjaram para ofender as operárias do amor, “mulher da vida” é para mim o mais elogioso. Ora, quem não quer ser da vida, da alegria, da brisa, da alvorada e do poente, das frutas frestas e flores cheirosas, vivas na terra molhada? O inverso seria o quê, mulher de morte? Deus me livre dela!

Mulher da vida no dicionário informal da internet também é vadia ou vagabunda, sinônimos que a meu ver só vêm somar elogios. A palavra vagabundo, antes de qualquer coisa, me remete a duas coisas: o cachorro vira-latas e o Hugo Carvana dos filmes, e ambos são personagens absolutamente vivos, ou da vida, como queiram.

Uma personagem que me parece encarnar a mulher de morte é a Perpétua, de Tieta do Agreste do Jorge Amado, que conheci pela novela da TV Globo na pele da Joana Fomm, toda de preto, jazendo em vida, reprimindo com um cacete empalhado qualquer desejo que lhe viesse. Deus me livre e guarde!

Mulher da vida, vadia e vagabunda é a puta vocacional, que está na zona e nas esquinas. Pode até ter a ver com uma história triste ou, mais longe ainda, com dinheiro. Mas da primeira todo mundo tem pelo menos uma e do segundo todo mundo precisa. E a mulher da vida nunca dá por dinheiro. Ela aceita porque precisa, tanto do dinheiro quanto de uma desculpa para justificar o ato e aliviar a culpa inventada. Se fosse só por grana, por ganância, elas casariam com alguém financeiramente interessante, como fazem as mulheres de morte.

Igual a um cachorrinho vira-latas ela sabe ser fiel sem ser prisioneira. Isto fica muito claro com a Geni de Toda Nudez Será Castigada, do Nelson Rodrigues, que está no SESC Consolação sob direção do Antunes Filho. Dois gênios juntos ao alcance de todos nós.  A atriz é ótima, chama-se Ondina Cais Castilho, e faz a Geni com um sotaque do Bexiga divertidíssimo, num espírito muito leve, de uma pureza quase pueril. Lá pelas tantas o Herculano, viúvo morto em vida que renasce na Geni, sofre nova baixa emocional e ameaça manda-la embora. E ela: – “Nem adianta, porque eu volto. Não sou de abandonar homem que está por baixo”. Existe algo mais vira-latas, mais fiel?

Procure um exemplo dessa fidelidade entre as mulheres de morte. Não há. Então finalmente entenderemos quem merece o desdém da sociedade: a mulher da vida ou a mulher de morte. Para a mulher da vida a verdade mais dura e fria é ainda mais confortável do que a mentira protegida pela hipocrisia.

 
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Amor e ódio

26/10/2012

Diz o clichê que amor e ódio são como as pontas da ferradura: parecem distantes mas está muito próximos. Para continuar em termos siderúrgicos sem sair do lugar comum, pode-se dizer que são as duas faces da mesma moeda.

Os cientistas já provaram com estatísticas que a chance do ódio se transformar em amor e vice-versa é muito pequena. Me disse o Bahia na semana passada que, em se tratando de cerveja, é mais fácil alguém apaixonado pela Brahma mudar para a Antarctica do que convencer o nego que odeia a Antarctica a molhar o bico. Este só encara o pinguim se estiver morrendo de sede.

Nas relações sociais é a mesma coisa. Saiba o distinto freguês desta página que comer a mais apaixonada das mulheres alheias é menos difícil do que convencer aquela que te acha um tremendo escroto a dar para você.

Mas isso é tudo matemática, que como ciência exata só sobrevive ignorando as incertezas da alma humana. Bem sei eu que para comer mulher o homem é capaz de beber cosmopolitan e elogiar com sinceridade, ainda que momentânea. E o inverso é verdadeiro: mulher quando quer dar enfrenta com prazer até o hálito e o humor da quarta-feira de cinzas.

Mas botando  a volúpia de parte e tentando mergulhar nas profundezas do espírito humano, não é raro ver ódio se transformar em amor. Conheço bem o caso de um rapaz que na opinião das amigas de sua namorada era um pulha asqueroso. Muito bem. O namoro passou, o mundo rodou e uma dessas amigas, um dia, esbarrou com ele – que naturalmente tinha amadurecido, vale registrar a bem da verdade. E conversa vai, resistência cai, afinidades surgem e dá-se o enlace. Foi bom enquanto durou e com escala numa paixão gostosa hoje vivem uma amizade à distância.

Falo de tudo isso por causa da incrível rejeição alcançada pelo José Serra. 52% não é para qualquer um. Como ele conseguiu, não sei. Não há receita para tamanha façanha. Até amigos próximos perderam a paciência. Mas a esperança é a última que morre.

Tenho um palpite sobre como o Serra conseguiu ser rejeitado por mais de um dos dois possíveis tripulantes de uma lambreta: esforço continuado. Se ouvir o próprio nome repetidas vezes esgota qualquer espírito – lembra daquele amigo chato que conversa repetindo seu nome ao começo de cada frase? –, a avalanche que é o nome de alguém durante uma campanha eleitoral mata qualquer um. Por outra: arroz feijão e bife é uma delícia, mas se for todo dia na sexta-feira mais tardar você estará louco por um peixinho. E isso é prato trivial. Tente a intensidade de uma feijoada de segunda a sexta por três meses seguidos – como é o princípio das campanhas eleitorais – e nunca mais você vai querer ouvir falar no prato.

Isto somado às concessões eleitoreiras que ele fez, se distanciando do seu trajeto histórico de líder estudantil, intelectual exilado, o mais progressista dos ministros do FHC, enfim, se deixando levar pelo charla kassabista, o apoio barato dos reacionários evangélicos e usando o aborto ou o kit-gay nas eleições que participou fez transbordar o copo. Mais do que não entender, a gente não reconhece mais o Serra.

Do outro lado hoje tem o Fernando Haddad, que pessoalmente não parece ser ruim – e até pelo contrário. Acredito que se fosse candidato pelo PSB já estaria eleito. Muita gente usa o argumento que vai votar no homem, não no partido. Não se iludam. Com o PT não é assim. Seus fundadores estão condenados por formação de quadrilha, e certos da vitória nas urnas depois de amanhã, já estão se organizando para aparelhar a prefeitura. Foi assim com a Erundina, que é uma pessoa correta, mas não conseguiu controlar a petralha e levou a cidade para o buraco, revertendo numa guinada à direita que nos deu condenou a oito anos de Maluf e Pitta. E depois veio a Marta, que acabou de estragar tudo e praticamente quebrou São Paulo.

Se não é isso que você quer para São Paulo, trate de transformar seu ódio pelo Serra em amor. Lembre-se que não se casa só com a mulher ou com o marido. A família sempre vem junto.


 
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Notícias frescas que vêm do sul

Consta que a aristocracia inglesa contratava seus mordomos pelo formato do pé. Pela lógica, se o homem conseguiu passar pelo rigor da escola de formação de mordomos, no máximo poderia ser mais que perfeito, e sendo assim o único diferencial competitivo era poder amaciar os sapatos do patrão – salvo encontrar alguém que sinta prazer em descascar nêsperas, mas isto é impossível.

Na Inglaterra, para quem sabe das coisas e pode pagar por elas, ainda funciona assim. Quer dizer: o nego manda fazer o par de sapatos e atribui ao mordomo de pé idêntico os seis primeiros meses de uso. Já ouvi dizer de craques de futebol que fazem o mesmo com as chuteiras através dos colegas da segunda divisão.

O preambulo foi demorado para dizer o óbvio: tudo fica melhor com o uso, a prática, o costume. Não há exceção. Claro que existe o alumbramento inicial de algumas coisas – até a primeira espinha pode ser encantadora –  mas depois que passa só poderá melhorar através do exercício continuado, da atenção, da convivência.

Com o sexo é a mesma coisa. Só os imbecis podem crer que haja alguma virtude na virgindade. Não há. O cabaço é no máximo um troféu, tolo como todo troféu, e ainda por cima abjeto. Quem não sabe admirar o alce vivo o deseja exibido na sala de visitas. E por falar em chifre, nada é mais próprio dos cornos do que querer ser o primeiro. O homem que ama a sua mulher só deseja ser o último, “se possível um só defunto”.

E se por um lado ainda valorizam tanto a castidade, do outro condenam a prostituição, como se a mulher não tivesse o direito de fazer o que bem entender do próprio corpo. Nessa toada elas ainda morrem por falta do tal Papanicolau, o aborto continua sendo um tabu inclusive em caso de estupro ou risco de vida da mãe e o orgasmo permanece rara iguaria.

A confusão com a notícia dessa menina que leiloou a virgindade prova o nosso atraso social. Piadas à parte, como aminha própria de que ela investirá o milhão e meio do lanço final numa ong voltada à moradia popular chamada Minha Casa da Luz Vermelha Minha Vida, tanto faz se é ou não prostituição o que ela está fazendo. Seu ato serve, antes de tudo, como um manifesto pela libertação feminina. Nem um milhão e meio de sutiãs queimados fariam tanto por elas. Nem se a Sândi do período casto aderisse ao Femen. A mensagem que esta (ora) moça passa é a seguinte: o corpo é meu e ninguém têm nada com isso.

Claro que terá um ônus espiritual, mas a grandeza do gesto é maior. Que esta notícia, somada à legalização do aborto no Uruguai se espalhe pelo Brasil e pela América do Sul na corrente de ar polar mais forte que passar – até porque o calor também está insuportável.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br

 
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