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O método petista

Se confirmados os cálculos do Merval Pereira, publicados hoje n’O Globo,  o Zé Dirceu, pela importância determinante que teve no mensalão, poderá ser condenado a até dezoito anos de cana, dos quais terá que puxar pelo menos três em regime fechado. Tudo por conta daqueles cálculos jurídicos malucos, que faz somar as condenações dos chefões em função dos agravantes para depois dividir o tempo com alguns atenuantes. Quem quiser entender melhor vai encontrar a íntegra Blog do Noblat, que ainda fala dos demais comparsas mensaleiros.

Eu sou um rapaz humilde, com espírito de velho acomodado, e me contento com facilidade. Estou na linha de um primo querido, cujo nome manterei guardado, que quando diante de um vendedor de bilhetes de loteria que anuncia um prêmio de vinte milhões, comenta com ar blasé: – “Não é muito mas ajuda”. Lá em Campos do Jordão pegou e todos eles usam a frase debochada, que no meu caso é seríssima: três anos em regime fechado para o Zé Dirceu não é muito mas ajuda.

Ora, por um momento ao menos cada brasileiro duvidou que as denúncias do Roberto Jefferson fossem dar em alguma coisa. O aparato petista é tão despudoradamente eficiente que até agora tem gente duvidando que algum mensaleiro vá sair algemado. Mas a verdade, ou a minha aposta, é que vão. Estou tão confiante que minha aposta é diferente: ele sai de Vinhedo mostrando as pulseirinhas de aço com o mesmo orgulho de quando foi trocado pelo embaixador americano ou vai tentar ocultar igual fez o Jader Barbalho e outros corruptos?

Também fico curioso para saber o papo na carceragem quando o camburão estacionar. O clássico dos filmes de cadeia é o calouro que chega jurando inocência, e todo mundo, solidariamente, finge que acredita, até que um gozador apresenta a turma dizendo exatamente em qual crime cada um é inocente. Nem disso o réu maior poderá se abster, porque apesar de ser praticamente uma celebridade do crime, dificilmente alguém já tenha decorado a vastíssima seleção de delitos

É tão rico o oceano de malfeitos que marcará o governo Lula que o ministro assecla Toffoli, no futuro, poderá alegar ignorância dos autos para justificar seu voto, onde condenou o Delúbio e o Genoíno e absolveu seu chefe, o Dirceu. Nisso até o novo inimigo público número um, Ricardo Lewandowski, ministro revisor, foi mais coerente, absolvendo o Genoíno e o Dirceu e condenando o tesoureiro – muito embora seja necessária uma dose cavalar de boa (ou má) vontade para acreditar que o Delúbio fazia tudo por conta própria.

O voto do Toffoli me pareceu mais a construção de um álibi do que qualquer outra coisa. Como quem diz: não tenho compromisso com o PT, o rolo foi no partido e o meu chefinho estava no governo. A ideia, porém, mais o aproxima do que afasta do petismo. O método é o mesmo. Os petistas se defendem não pela verdade, mas pela repetição continuada da mentira.

O caso do que eles chamam de mensalão mineiro é exemplar. A Justiça ainda vai apurar, mas mesmo se confirmadas as acusações da existência de um valerioduto na campanha do tucano Eduardo Azeredo, ainda assim não seria mensalão, porque não houve compra de apoio no parlamento. O que eles dizem que aconteceu em Minas, aliás, é justamente o que eles assumem que fizeram em Brasília e consideram coisa corriqueira, caixa dois de campanha, e portanto delito perdoável.

O que os petistas e sobretudo o Lula precisariam entender – não tenho esperanças – é que sujar a imagem alheia não limpa a dele. Dizer que o veredicto do Supremo – onde por sinal a ampla maioria dos membros foi nomeada por ele e pela Dilma – não vale, e que eles podem recorrer a tribunais internacionais e manifestações populares é a contribuição para o atraso do Brasil que lhe faltava ao currículo. Depois de ter enxovalhado cada instituição brasileira (Correios, Banco do Brasil, Congresso, Presidência da República, Imprensa, Exército e a própria democracia) ele quer esculhambar a Justiça.

 
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Pastel de feira ou obrigado, Gigi

Desde o começo da campanha que encerrou seu primeiro turno no domingo tive vontade de levar o Andrea Matarazzo para comer pastel ali na esquina da casa dele, na feira da quinta da Barão de Capanema. Para os que imaginam que vou falar mais uma vez de eleições aviso que trata-se apenas de uma referencia de introdução, que não dura mais de dois parágrafos. O que importa aqui é o pastel. Viu, Felipe do Val? Relaxa e fica até o fim.

Todos concordam que feira é um lugar muito bonito. São tantas cores e formas, sons, frutas, flores, pescados, tanta vida naquela bagunça organizada, a cafajestada cordial dos feirantes, mais do que permitida até cultuada como folclore em cada paróquia. Melhor: a feira é livre. Não sei se porque acontece ao ar livre, ou se porque é livre de tributos, mas gosto de acreditar que é livre porque ali as pessoas são livres para conviverem em suas diferenças, e portanto mais iguais, sem separação prévia entre quem quer que seja.

E por isso a feira é um clássico de campanha eleitoral, onde o candidato ia encontrar o eleitor, trocar ideias e almoçar um pastel. O Mario Covas gostava tanto que ia até durante exercício de mandato. O Maluf também gosta e foi até homenageado em Campos do Jordão. A maledicência diz que é por uma questão prática: é das poucas coisas que se pode comer algemado. Maldade. Mas desde o avanço da TV que as visitas à feira foram rareando, e com efeito a troca de ideias, o distanciamento dos representantes e dos representados. Daí a importância de levar o político à feira: estar perto das pessoas e, de quebra, tirar fotos lindas para as redes sociais.

Sendo na Barão telefonei para o Charlô Whately, que tem ali seu bistrô, e propus o encontro. O Charlô é querido na vida real e na virtual também: conta cinco mil amigos só no facebook. E também chamei o Gigi Pinto Thomaz, que como o Charlô é amigo do Andrea da vida toda, tem seu antiquário ali perto, é querido da mesma maneira e especialista em pastel de feira.  E também veio a Pituca, que estava na campanha. As fotos deles tiveram centenas de curtidas.

Mas o que eu vim fazer aqui foi agradecer ao Gigi, que fez questão de comer pastel numa barraca específica, da Ana, se não me engano. Fica em frente a galeria do Renot, na no canto inferior esquerdo de quem sobe a Ministro. Sou pasteleiro desde pequeno. Na rua onde nasci e ainda moro tem feira e desde que minha mãe parou de me assombrar com aquela história de carne de gato não houve sexta-feira que passou sem um pastel especial na minha vida. Mesmo quando estava em dieta, reservava uma refeição da semana para sair da linha e era sempre dedicada ao pastel especial da Maria, instalada debaixo da minha janela. Tamanho sedex, carne moída, queijo prato, um ovo cozido partido na metade e uma azeitona verde. Com o tempo, porém, a Maria vendeu a banca e quem veio começou botar presunto no pastel e fatiar os ovos e a azeitona. Estragou tudo. Sobrevivi graças ao Ilha das Flores, ao Mercearia São Roque e ao Botequim do Hugo, que têm pastéis ótimos porém completamente diferentes entre si e o da feira. Até que chegou o Gigi.

Na barraca da Ana ouvi a pergunta ao nosso candidato: – “Aceita meio especial?”, seguida da receita maravilhosa que não chegava no presunto. Exclamei: – “Sem presunto?! Eu quero! Comi e me deleitei: massa dourada, pipocada e crocante, interior úmido mas sem pingar, e cada mordida, naquela delícia de feira, era um verso do Casimiro de Abreu: “Ah que saudades que tenho / Da aurora da minha vida / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais / Que amor, que sonhos, que flores / Naquelas tardes fagueiras / Debaixo dos laranjais!”

Obrigado, Gigi! E até quinta-feira.

ERREI: A barraca do pastel 1/2 especial fica na esquina da Barão de Capanema com a Peixoto Gomide, bem em frente à lanchonete Cuca Maluca.

 
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Frutas vermelhas no caminho da roça

Nos últimos meses meu caminho da roça ganhou um trecho novo. Quase que diariamente, no final de cada dia, desço a Padre João Manuel para ir ao Paulistano cumprir a ginástica e fazer natação ou sauna. A diferença no tratamento das atividades, de cumprir para fazer, é porque as segundas são realmente prazerosas, notadamente nesses dias quentes, e a primeira nem tanto, ou só quando, ao final, através da corrida me sinto livre de algum excesso.

Se dissesse que é um caminho novo perderia a chance de emendar uma curiosidade histórica: a Padre João Manuel passava no meio de onde hoje é o clube Paulistano, e continuava pela México, já nos domínios do Jardim América, da mesma maneira que a Augusta de transforma em Colômbia. Mas o combinado entre o Antonio Prado Júnior, nosso fundador,  que ouvindo a dica do amigo Washington Luis, então prefeito de São Paulo que levaria o bonde da cidade até a Rua Estados Unidos, e a Cia City que vendeu a área, foi de unir dois lotes somando quarenta mil metros quadrados e interrompendo aquele trecho.

Tendo o privilégio de ser sócio desse oásis eu descia a Pe. João Manuel, cruzava o clube por dentro e continuava pela México, depois Espanha, já no Jardim Europa, para alcançar a Áustria e chegar ao comitê do Andrea Matarazzo. Neste passeio delicioso descobri um circuito das frutas, e como se não bastasse, das frutas vermelhas.

São Paulo está repleta delas. Um pouco antes, num pequeno desvio de rota, encontra-se até grumixama, que é uma cerejinha tupiniquim que plantaram ali na rua Rio Branco, diante de um prédio no meio da quadra, entre o Santo Grão e a loja do Mosteiro São Bento. Esta safra está ainda melhor que a última, com o vermelho das frutas mais fechado, e elas mais doces. Mas as que estão por todo lado são as amoras e as pitangas. E, como não poderia deixar de ser, as melhores estão proibidas por muros imensos, hostis, igual na música do Chico.

Adoro esta canção, na voz dele ou da Nana Caymmi. Chama-se Até Pensei: “Lá na minha rua havia um bosque / Que um muro alto proibia / Lá, todo balão caía / Toda maçã nascia / E o dono do bosque nem via”.

A pitangueira mais frondosa fica no bosque do Abílio Diniz, na esquina da rua México com a Peru.  Aquele castelo cercado de muros e cercas elétricas e guardado por infinitas câmeras e viaturas com seguranças tem uma pitangueira atrevida, que pela idade avançada não quer saber das paranoias do inquilino recém chegado e pula o muro para derramar seus frutos no posto de gasolina ao lado, carimbando debochadamente os carros que saem da ducha no lava a jato.

E logo adiante, na esquina da Groenlândia com a Espanha, a calçada está toda carimbada pelas frutinhas que caem lá de cima, duma amoreira que repete o comportamento da pitangueira e não respeita o muro novo que a sufocou quando o gradil histórico foi substituído na Casa da Manchete. Esta eu sei que o dono infelizmente não conhece, porque elogiei a fartura diretamente ao atual morador, Jorge Yunes, e ele gentilmente disse que iria conferir.

A canção do Chico continua assim: “Do lado de lá tanta aventura / E eu a espreitar na noite escura a dedilhar essa modinha / A felicidade morava tão vizinha / Que de tolo / Até pensei que fosse minha”. Estou igual a ele. Sou um tolo que acredita na felicidade de uma cidade sem muros, com jardins acessíveis, ou pelo menos pitangas e amoras alcançáveis. 

 
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Providência e memórias eleitorais

Minha lembrança de campanha mais antiga é a do tio André para governador, em 1982. Eu tinha quatro ou cinco anos de idade, mas lembro do meu pai, em Juquehy, com a máscara (obrigado, Kobashi) do grafite para pichar nos postes e nos muros a árvore símbolo do MDB, o número cinco – que só veio a ser importante de fato com a urna eletrônica – e o Montoro escrito com as pinceladas do Solidaredade, do Lech Walessa. Hoje pode parecer um absurdo, mas depois de tantos anos sem poder votar para governador, tudo o que as pessoas mais queriam era poder manifestar o voto, e para tanto valia até pichar muro, quase um ato de rebeldia, uma maneira plástica de soltar um grito preso na garganta.

Depois de eleito, com a autoridade que só o governador do estado de São Paulo tem, o tio André resolveu seguir sua intuição e propôs organizar um comício por eleições diretas também para presidente da República. A turma regateou. Os ditadores poderiam ficar muito contrariados e reagir com truculência. Pior, o medo poderia impedir as pessoas de aderir, o que mataria o processo de redemocratização, que vinha sendo construído lenta e consistentemente. Mas a voz rouca das ruas estava muito clara, e ele convocou o comício, que teve adesão ampla e instantânea, levando milhões de pessoas às ruas em todo Brasil. Nascia a campanha Diretas Já!

De lá pra cá participei de muitas outras campanhas, seja em família para o tio André, para o Ricardo e para o Andre Montoro Filho, ou para gente admirada, como FHC, Covas, Serra, Geraldo, Mara Gabrilli e outros, alguns já nem tão admirados assim, reconheço. Iguala  tudo na vida, algumas corridas foram mais entusiasmadas, outras menos.  Três exemplos de campanhas gostosas de fazer foram a eleição e reeleição do Fernando Henrique; a reeleição do Ricardo Montoro, que tinha feito um mandato notável como vereador de oposição à Marta; e a reeleição da Mara Gabrilli vereadora em 2008, quando a população consagrou o trabalho dela, que tinha entrado como suplente, com quase noventa mil votos.

No ano passado me apaixonei por uma ideia: Andrea Matarazzo prefeito. Ele já tinha mostrado competência entre a saída do Serra e a reeleição do Kassab, quando foi secretário geral das subprefeituras, cargo que com ele sentado na cadeira equivalia a ser prefeito. Era a continuação do programa de governo do Serra, que tinha saído para ser governador e confiou a prefeitura ao Andrea, que entregou de bandeja para o Kassab, que foi reeleito por causa da aprovação popular que somava 61% só de ótimo e bom. A Vejinha lhe dedicou duas capas, o ciúme humano falou mais alto e o Kassab quis fazer sozinho. Não deu, mas este é outro assunto.

Sabendo da minha empolgação com a possibilidade do Andrea ser o candidato do PSDB a prefeitura, meu tio Pedro Jens me levou para almoçar na secretaria da Cultura e me apresentou ao secretário, que perguntou o que eu queria, ao que respondi: – “Que você seja prefeito.” E ele: – “Eu também.” Então vieram as prévias, ajudei como pude e fiquei muito aborrecido quando acabou. Porém, uma nova possibilidade surgia: Andrea Matarazzo vereador. Um mandato, para modernizar as leis que emperram a administração e a vida de todos nós. E ele me chamou para a campanha.

Vim com a empolgação de todo começo de campanha, que só quem gosta aguenta fazer. É um estresse: da porta para dentro há uma convivência intensa e exaustiva com pessoas complexas, cheias de ideias, loucas para colaborar. Da porta para fora é amolar os amigos, a família, os conhecidos e qualquer um que passar pela sua frente com um assunto cada vez mais famigerado, como a política infelizmente se tornou nos últimos anos no Brasil. Mas que eu adoro e faço com gosto. Não saberia viver sem.

Foram mais ou menos os dois últimos meses trabalhando nisso quase que exclusivamente. Conheci melhor o próprio Andrea, me aproximei de amigos antigos e conheci gente nova, boa, empenhada. O resultado efetivo só sai no domingo, mas o parcial já é um deleite e vou dizer por que.

Desde a campanha das Diretas não sinto na cidade uma adesão tão grande e sobretudo espontânea a uma candidatura. E olha que já pedi muito voto para primos meus – que, modéstia a parte, são Montoro. Para quem nunca fez campanha saber a dificuldade que é fazer uma pessoa escutar suas ideias, pegar um santinho e guardar na carteira, tente fazer só a primeira parte: nem falar sobre política as pessoas querem. Mas com esta campanha do Andrea acontece o inverso: a turma vem perguntar sobre ele, pedir santinho e – os muros das casas não me deixam exagerar – todo mundo quer botar o 45.450 na porta de casa declarando o voto da família. Já aconteceu de uma rua com dez casas ter  quatro faixas e um quinto vizinho telefonar pedindo a própria. É clima de festa, de Copa do Mundo, com cada um querendo balançar a sua bandeira.

O Goethe disse que “No momento em que nos comprometemos, a providência divina também se põe em movimento. Todo um fluir de acontecimentos surge ao nosso favor. Como resultado da atitude, seguem todas as formas imprevistas de coincidências, encontros e ajuda, que nenhum ser humano jamais poderia ter sonhado encontrar.”E o compromisso do Andrea com a cidade é claro: ele quer ser vereador e depois prefeito. Sabe o que fazer e como fazer. Não é fácil, mas a providencia divina que o Goethe falou está funcionando a favor dele. E a sorte é toda nossa. 

 
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Atenção

Vida social, para mim, implica atenção. Simples assim. Para haver uma relação entre duas ou mais pessoas, é fundamental que haja atenção recíproca. Caso contrário é bem melhor estar sozinho do que acompanhado. Sozinho o homem tem a possibilidade de pensar intensamente em alguém, ou em nada – isto que é impossível de se fazer em má companhia.

Não concebo gente que faz vida social na academia de ginástica. Ora, ou bem se faz uma coisa, ou bem se faz outra. Ficar de papo entre um aparelho e outro me parece um total contrassenso, mesmo para os tarados que sentem prazer em levantar peso. Por que não cumprir o dever de uma vez e depois sair para socializar em lugar adequado, onde seja possível prestar atenção recíproca? E vale para o trabalho, que também é pesado, ou para as coisas leves, como passeios, praça, bar. O Tancredo dizia que a gente não deve levar os amigos do trabalho para o bar nem os do bar para o trabalho, porque estraga o bar e estraga o trabalho. O vulgar diria: cada macaco no seu galho. Ficar de prosa atrasa o serviço e assuntos profissionais significam a ressaca antes do pileque.

Com arte também não se mistura conversa. Pode-se ir acompanhado ao cinema, teatro, museu, galeria, biblioteca. Mas a contemplação da obra é um momento único, individual, não cabe comentário de parte a parte. Depois, no café, na pizza, no banco da praça, é outra coisa e é uma delícia onde a troca de ideias só acrescenta.

Quando eu tinha quinze anos passei um mês num SPA em que estava a Leilah Assumpção. A gente não se deu bem, mas até hoje guardo um palpite dela que achei interessantíssimo: música se ouve em silêncio. Claro que o silêncio é de quem ouve, mas o contraste na imagem é lindo. Há uma palavra para definir esse tipo de impossível.  Dona Leilah é radical, mas não deixa de ter razão. Musica ambiente é igual enfeite em estante de livros ou acessório abaixo da cintura: vem para poluir. E no volume que é tocada hoje chega a sufocar.

No Bataclã do Julinho, que foi a versão 2013 da festa mais bacana da cidade, tinha de tudo: champanhe de verdade, damas de todas as classes e todos os sexos, uns dez tipos de bigode, strip-tease, flores, bexigas, comida quente, tudo lindo, elegante e sincero. E principalmente assunto, e tanto que ninguém sentiu falta da música – até porque esta também era de primeira qualidade. Estavam lá, para ficar em dois baluartes, Roberto Luna e Nanana da Mangueira. Segura? Piano de cauda, tantã, violão, pandeiro, metais. Só que era praticamente acústico, desplugado, quem queria dançar dançava, quem queria cantar cantava – e quem queria conversar, conversava – pasmem vocês! Amigos íntimos e/ou instantâneos podiam trocar atenção.

Conversa boa tive com o Peréio diante do mapa mundi que o Julinho mandou colar na parede para o João Pedro. Fiquei ali olhando o mundo político e tive certeza: o mundo deu certo onde a divisão de territórios é espontânea e detalhada. Europa, Japão, tudo pequeno, característico e dividido espontânea e naturalmente, por rios, colinas, costumes. Onde a régua totalitária decidiu onde começa um povo e acaba o outro deu tudo errado. Os Estados Unidos talvez sejam a exceção, porém não completamente, porque cada estado tem lá sua independência.

Mas o que eu queria dizer é isso: estar ao lado não significa estar junto, nem o inverso, onde os distantes estariam separados, é verdadeiro. Esse negócio de se reunir para fazer ginástica, ver o futebol ou ficar se esbarrando no escuro e com uma música ensurdecedora para mim não é vida social. Melhor encontrar os amigos no facebook. Ou, de preferencia, numa mesa por aí, com uísque, gelo e, fundamentalmente, atenção.

 
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Serra acima

O Andrea Matarazzo é o melhor candidato disputando estas eleições. Inclusive se comparado com os que estão concorrendo a prefeito. Aliás, nunca houve uma candidatura desta categoria. Em São Paulo o Montoro foi vereador, o Madeira foi vereador, o Suplicy, a Zulaiê, a Soninha e o Aldo Rebelo também foram. Mas é a primeira vez que um político com tanto serviço prestado, que já foi ministro, embaixador, secretario e prefeito de fato – até 2008, quando esteve à frente das subprefeituras, quem decidia era o Andrea, e a administração tinha 61% de ótimo e bom –, enfim, é a primeira vez que alguém desta envergadura se propõe a encarar a Câmara Municipal e modernizar as leis que emperram a cidade e hoje só atendem aos quem têm interesse pessoal, financeiro e escuso em dificultar a vida das pessoas.

O Andrea conhece a cidade no detalhe. Quem escuta ele falando conhece uma realidade que nem imaginava. Pode ser sobre o esquema de contrabando de DVDs piratas, a distribuição do crack na região da Luz, a retomada e entrega do Parque do Povo, a construção da acessibilidade na Paulista, a logística de coleta do lixo (em dias secos ou de chuva), a calamidade que é o transporte público, onde a maioria da população viaja três, quatro horas diárias em ônibus montados sobre chassis de caminhão, com câmbio mecânico, sem ar-condicionado, sujos, superlotados e rodando sobre asfalto esburacado, sendo que de alguns pontos da Zona Leste há setenta e duas paradas para embarque e desembarque. É desumano e a gente nem se dá conta. As pessoas não tem tempo sequer para cuidar dos filhos ou da própria saúde, e só suportam anestesiadas pelo açúcar das maria-mole de um real o quilo que vendem em cada terminal.

E ele aponta desde as soluções simples, como melhorar o asfalto; passa pelas de média complexidade, como instalar semáforos inteligentes nos corredores e modernizar a frota; e alcança as mais difíceis, mas importantíssimas, que são a legalização e urbanização das áreas irregulares na Zona Sul e na Zona Leste para as empresas poderem se estabelecer e o emprego estar perto de onde as pessoas moram.

Lei de Alvará, poda de árvores, serviço funerário mafioso, caçambas de entulho e outras aberrações paulistanas; facilitação de licenças para realização de eventos, locação de espaço público para produção de cinema e TV; economia criativa, notadamente serviços e entretenimento que hoje são a base da nossa geração de receita; preservação dos bairros – e para botar limite na lista enorme de ações que ele sabe como fazer para melhorar a nossa vida, uma que é até covardia: distribuição de conteúdo para os equipamentos culturais que já temos espalhados e que são subaproveitados.

O meu candidato a prefeito também é ótimo, foi o melhor ministro da Saúde do mundo, em 2004 salvou São Paulo do desgoverno petista e em 2006 deixou a prefeitura para se candidatar a governador e foi eleito no primeiro turno. Concluiu o mandato de governador se candidatando a presidente e em SP ganhou da Dilma e do Lula, tanto no estado quanto na capital. Apesar da experiência e da capacidade indiscutível, nesta eleição ele só não é melhor candidato do que o Andrea porque traz uma rejeição brutal, que segundo o Datafolha alcançou 45%.

Mas sejamos francos: um índice de rejeição desses sobre quem não está exercendo cargo algum é algo absolutamente emocional. Dizer que não vota no Serra porque ele saiu da prefeitura para ser governador é balela – e tanto que em 2006 ele teve na capital mais votos do que em 2004, sendo consagrado, repito, já no primeiro turno. Por isso é claro que agora, no segundo turno que começa na segunda-feira, e portanto uma nova eleição, a razão será contraposta à emoção e todos vamos entender a importância de não fazer birra ou brincar com coisa séria e eleger o José Serra prefeito.

Já o apelidei de Zé Gotinha e insisto: vamos votar no Serra igual a criança em campanha de vacinação: chorando, mas sabendo que é o melhor remédio. Afinal, não dói nada e garante um futuro melhor para todos nós.

A tendência indicada nas pesquisas é a queda vertiginosa do Russomanno, que deve embolar os três primeiros colocados. O risco de uma surpresa é grande e a história ensina que em SP tudo pode mudar na última hora. Por isso não convém voto de protesto, brincadeira com Soninha, Chalita ou nulo. Temos que concentrar no Serra.

Vamos lá: engula o choro e vote Serra 45 para prefeito. A recompensa é poder votar para vereador no Andrea Matarazzo 45.450 e ajudar no alinhamento dos trilhos que farão dele o nosso próximo prefeito. Porque não basta a SP ser locomotiva: temos que andar nos trilhos e depressa.

 
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Olhar científico

Por essa eu não esperava: tenho olhar de cientista. Foi o que descobriram recentemente uns colegas profissionais do ramo lá nos Estados Unidos. Eles estudaram a percepção dos bebês e concluíram que eles pensam cientificamente, isto é, com noções de estatística.

Foi assim: colocaram uma caixa com muitas bolas brancas e poucas bolas vermelhas diante dos filhotes, e ao lado uma segunda caixa, pequena, sugerindo a amostragem do que havia na grande. Quando o extrato acompanhava o todo, com as brancas predominando, os bebês não davam bola – sem trocadilho. Já quando a maioria era de bolas vermelhas, indicando uma desproporção, escasquetados eles ficavam vidrados na caixinha.

Eu sou igual aos bebês que são iguais aos cientistas. Algo que destoe do padrão toma completamente a minha atenção. Pode ser boa, como a flor que brota no cimento – obrigado, Rubem – e pode ser ruim, como gente miserável dormindo nos caixas eletrônicos dos bancos que lucram dezenas de bilhões por ano, e principalmente os maus modos das meninas bonitas, que me trouxeram aqui hoje.

Não é de hoje que acontece de eu ficar desagradado com a falta nas meninas do que a minha avó Hosmildinha chamaria de “maneiras”. Nos moços já perdi a esperança, porque há entre os nossos contemporâneos uma cultura da grossura, seja em forma de dinheirice (patologia que consiste em conversar sobre os preços, não sobre os valores das coisas e que também contaminou o mulherio), na preferencia por parecer sujo e cafajeste, usando jeans, tênis e camiseta surrados até em velório, e mesmo o básico do básico, que é dizer por favor, obrigado, pedir licença rareou. Desejar saúde a quem espirra já é praticamente um fetiche vintage, que provoca gargalhadas de quem escuta.

Mas as meninas me parecem apostar numa vida melhor, mais refinada. Não há uma, nem as rastafári ou as bicho-grilo, que prefira aparecer com o cabelo ensebado, unha por fazer, calcanhar rachado ou sovaco peludo. Todas elas, podendo, vão se cuidar. E na maneira de vestir é a mesma coisa. Até rippie é chique e as intelectuais não abrem mão daquele colarzão vermelho característico. Certas moças, por mais tatuagens que colecionem, continuam parecendo bonequinhas de louça. Louça de Monte Sião, mas louça mesmo assim. Pessoalmente elas são gentis com as pessoas, ainda que neste quesito, de tratamento, as exceções já comecem despontar.

O problema é que tudo isso é casca. Digo, lustrar as unhas, iluminar as madeixas, mergulhar numa banheira de creme de leite de cabra e comprar o que há de melhor para vestir são coisas que estão ao alcance do dinheiro. Assim, se não são propriamente fáceis de conseguir, são bem menos difíceis do que, por exemplo, mudar o hábito de comer como se a comida tivesse chance de fugir do prato.

E como elas gostam de valorizar coisas sofisticadas! Vinhos e acessórios absurdos são os prediletos na hora de disfarçar grossura. E tome taça que parece aquário, decantador inclusive para vinho novo, gente cheirando até rolha de borracha.  Como bem diz o Black Linhares, que está com tudo lá na Croácia, “quanto melhor a pessoa faz evoluções com a taça de vinho, pior ela maneja os talheres”.

É onde eu queria chegar. No sábado fui a uma churrascaria badalada com a minha Neguinha e numa mesa próxima tinha uma menina linda e bem vestida comendo como se o bife fosse seu inimigo. A figura destoava tanto dos gestos que quando ela arrematou o respasto bochechando com o suco de tangerina chegamos a pensar que tratava-se de uma pegadinha. Fiquei pensando a tristeza do Jeca que conhece uma cocota dessas numa festa e se apaixona antes de sair para jantar. Logo em seguida, depois da gatinha se retirar com a família, aconteceu o improvável: uma loirinha mais bonita ainda chegou com o namorado, bonito e bem tratado da mesma maneira. E pasmem vocês: ela mastigava de boca aberta. Não que faça um comentário assim pontual, discretamente. Parecia um caminhão de lixo engolindo os sacos, algo brutal, dantesco. E o gatinho ali na frente, cheirando a rolha com maestria.

Não sei o que será de mim, porque minha impressão é que não vou me acostumar.  Confesso que sou um chato e implico até com quem usa a faca com a mão esquerda, muito embora jamais me manifeste, até porque não chega a me agredir. Mas mastigar de boca aberta, bochechar, gesticular com o talher à mão me agridem – e são cada vez mais comuns.

Os bebês e os cientistas provavelmente têm a sorte de, uma vez notando que as bolas vermelhas já são a maioria, deixar de reparar na diminuição das brancas. Mas eu nem isso! Triste de mim.

 
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Complete o ciclo

O Luis Fernando Veríssimo está lendo alguma coisa do Einstein. Deve ser uma biografia, livro de memórias, confissões ou coisa que os valha. Na semana passada ele fez uma anotação interessante: ter ganhado uma bússola quando criança foi o que despertou no gênio a curiosidade sobre a força da Natureza, notadamente o magnetismo que puxa o ponteiro para o norte.

Esta semana ele voltou com uma tese deliciosa sobre o fogo de lenha, que, sabe-se, é uma das coisas que inebria o homem, ao lado da água corrente e de outra que não vou dizer aqui. O fogo crepitante nas lareiras, segundo o gaúcho, provoca nos povos do frio algo que nós aqui nos trópicos desprezamos, ou prezamos menos, por viver sempre com o sol na cabeça: a contemplação continuada do fogo, segundo ele capaz de expandir conceitos lenta, consistente e irreversivelmente, coisa impossível se realizada diretamente sobre o sol, que nos deixaria cegos.

A lenha, na teoria do Veríssimo, queimando controladamente depois de anos e anos absorvendo a luz do sol tem um simbolismo único, que faz pensar na existência de tudo que é vivo: a primeira vocação de qualquer vida é se transformar em energia combustível. O ciclo da vida só se completa com a queima. Animais ou vegetais, depois de mortos e decompostos, vão se transformar em petróleo. Há quem prefira ser cremado como lenha e abreviar a história, mas não ele, que quer ser enterrado e passar pelo processo todo, indispensável para ser iniciado na nobre irmandade dos inflamáveis.

Para mim tem a ver com fenômenos sociais atuais que estão espalhando ansiedade e frustração nas pessoas. A efemeridade se tornou uma constante, e no lugar de um curso lógico e continuado, a vida vai acontecendo aos soluços, de maneira que estamos todos nos exaurindo antes de sequer descobrir uma vocação, uma serventia para a vida. É como se antes de ter um tronco as árvores pretendessem dar frutos, flores ou sombra. Não podem.

Não há sina mais triste que a do carvalho que não encontra seu caminho e morre arbusto, feito batatinha, se espalhando em ramas pelo chão. Da mesma maneira a batata que quiser viver nas alturas jamais alimentará o vencedor, que é a sua vocação. E não há nada mais triste do que o talento desperdiçado. A gente é para o que nasce, como disseram naquele filme.

Por menor que seja o papel de alguém na vida, ele pode e deve ser exercido com grandeza. Aos dez anos de idade eu ganhei uma espingarda de chumbinho. Fiz muita bobagem com ela, algumas doloridas até hoje. Destaco três parecidas que se encerraram de maneira diferente no meu íntimo: atirar em passarinho.

Um eu matei em Juquehy. Ele estava pousado na vara mais alta de um bambuzal que ficava na minha casa e, da sacada de um vizinho mirei e acertei em cheio. À distância, há uma eternidade entre o disparo da arma e a conclusão do tiro. Você sabe que acertou quando o passarinho cai. E ele cai direto, sem sequer mexer as asas. Morto instantaneamente. Fui correndo conferir e ele estava lá. Não me lembro se simplesmente escondi o cadáver ou providenciei um enterro digno como gostaria de contar agora para tentar me redimir pelo menos um pouco 

O segundo acertei em Louveira, de perto, covardemente. Pior: não matei. Quando fui ver o corpo o bichinho estava puto, ferido, e teve a honra de se defender de mim, seu algoz, mesmo baleado e completamente vulnerável, mas com tamanha bravura que a besta aqui o deixou lá, sem a coragem para fazer o tiro de misericórdia.

Mas aqui em São Paulo, junto com o Cícero, que era um negrão simpático, a la Mussum, que trabalhava como porteiro no meu prédio, e o Reginaldo de Melo Lima, uma peça que trabalhava como motorista na minha família, acertei uma rolinha, que do poste veio morrer na grama do jardim. Quando a vi no chão fiquei com aquela sensação de bebê cagado, mas logo a movimentação de aprovação começou e meu espírito mudou: comeríamos a rolinha!

Eles depenaram, abriram e tiraram uma pamonhazinha que tinha na barriga dela. Temperamos com aquelas porcarias prontas de alho e sal e fritamos no azeite. O Cícero ficou com a parte escura de boreste, o Reginaldo com a de bombordo e eu, sendo o mais novo, tive que me contentar com o peito – que estava delicioso. Dourado, tenro e crocante.

O que me conforta é isso: ter digerido a rolinha que matei. A vida, naquele momento, foi boa para nós dois. E sempre será quando os ciclos forem cumpridos. Se forem coloridos, tanto melhor. Mas o importante é cumpri-los.


 
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Minha casa da luz vermelha, minha vida

Uma menina de Santa Catarina está leiloando a virgindade num site australiano. Aparentemente, para ela as questões morais estão superadas. Acertou-se com a família, diz que é maior de idade, vacinada e faz o que quiser com o próprio corpo. Muito bonito. Digo, tanto o gesto quanto o corpo – aos vinte anos, pouca coisa não presta. Mas o importante é criar exemplos diferentes para ajudar a sociedade na reflexão sobre temas fundamentais, como, de pronto, prostituição, virgindade, aborto e até doação de órgãos.

As questões legais também mereceram cuidados especiais: o defloramento será realizado a bordo de um avião em pleno voo, pare evitar a dura das leis daqui ou de acolá, medida inteligente e simbólica, porque universaliza o ato, levando o tema a países onde o debate continua ainda mais atrasado do que por aqui.

Mas voltando às questões morais, que envolvem a família como instituição, achei pra lá de bacana a postura da mãe da moça, que pessoalmente está contrariada, mas deixou claro seus princípios: não pode nem quer proibir a filha maior de idade a fazer o que quiser do próprio corpo.

No caso ela vai pegar a grana – os lanços já passam dos trezentos mil reais – e criar uma ONG, que deverá trabalhar no sentido de dar as pessoas um lar. É fantástica a noção artística dessa menina. Através dos contrastes está provocando um esclarecimento social imensurável: dar um teto às famílias fazendo aquilo que historicamente tem levado tantas meninas a serem expulsas do próprio lar. É um golpe e tanto no preconceito, na cretinice, na intolerância. A ONG deveria se chamar Minha Casa da Luz Vermelha, Minha Vida.

Os pelo menos quatro temas relacionados, repetindo, prostituição, virgindade, aborto e doação de órgãos, têm muito a ganhar. Ela está fazendo o que quer do próprio corpo, exatamente como deveria ser direito universal de qualquer mulher, inclusive em relação ao aborto e à prostituição continuada– se uma pessoa ser empresaria, empregada ou profissional liberal de massagem, por exemplo, que nada mais é do que troca entre dois corpos que geram prazer, por que raios a mesma coisa não vale para o sexo? –, e se uma menina vai trocar o hímen por dinheiro – enquanto tantas dão de graça – por que alguém que precisa mais de dinheiro do que de um dos rins não pode fazer o mesmo, enquanto tantos dão também de graça? Só vale e só é bonito se existir amor? Amor direto? Indireto não vale? E sem amor? Quem disse?

 
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A primavera da participação

Há quem viva fora de sintonia com a própria época. Pode ser para frente e pode ser para trás. Digo, os saudosistas, que vivem morrendo de saudades do passado – inclusive os que eles não conheceram, ao que chamam nostalgia – e os progressistas, que enxergam e por vezes até vivenciam uma situação que só vai se confirmar depois de muitos anos. É verdade que também temos há os que misturam as coisas e se acham na vanguarda do que já caducou. Mas aqui vamos falar de gente séria. Notadamente de alguém que poderia servir à sociedade e ao mundo em qualquer época, corrigindo erros do passado e apontando caminhos para o futuro sem descuidar de realizar o presente. O meu tio-avô André Franco Montoro foi um desses caras. É, por assim dizer, um clássico, adequado a qualquer época, mas com períodos de maior ou menor evidência.

Vou tentar usar apenas os exemplos das coisas que ele falou e repetiu, e repetiu, e repetiu e que estão ultimamente todo dia no noticiário, na academia, nos governos, nos fóruns locais, regionais, nacionais, internacionais: hidrovias, hortas comunitárias, meio-ambiente, democracia – além da primavera árabe, não se pode deixar de considerar o mensalão, que foi a compra de votos no parlamento, como um golpe contra a democracia.

Mas o principal talvez seja a participação popular. Isto é, a internet botou a interação entre as pessoas, sejam cidadãos, marcas ou governos na ordem do dia. Está no artigo de ontem do Luiz Alberto Ferla no Estadão. Ele afirma que “interagir é o mais importante, porque na web não é permitido falar como se estivesse num comício tradicional (no que o Montoro também era ótimo, por sinal). Vale lembrar que nesse espaço democrático, antes de falar, é melhor escutar, compartilhar, trocar experiências, dividir e discutir pontos de vista.”

Isso o bom Ferla recomenda a quem queira ganhar simpatia e reverte-la em votos. Mas para o Montoro era antes o jeito de viver e governar. Descentralização e participação eram as chaves. E a razão é mais prática do que filosófica: quem sabe dos problemas dos lugares são as pessoas que moram neles, e as pessoas moram nas cidades, não na União. Daí que quem tem que decidir é o prefeito, ou o subprefeito, não o presidente da República.

Mas o artigo é basicamente sobre como a internet vem sendo desprezada pelas campanhas eleitorais no Brasil – e como se não bastasse deixar de ganhar o eleitor que está na rede, os candidatos estão bancando um custo financeiro absurdo de produção para televisão, sendo as mais ricas produzidas com qualidade técnica de cinema; e custo político para garantir mais tempo para exibir a obra, entregando a vice-candidatura e apodrecendo as coligações nas candidaturas proporcionais.

O caso que mais me aborreceu foi o do meu candidato, José Serra, já alcunhado Zé Gotinha, no qual votarei (votaremos) feito criança em campanha de vacinação: chorando, mas sabendo que é o melhor remédio para evitar a paralisia do PT ou a doença do Russomanno. Pelo tempo de TV do PSD, aquele partido que não é de centro, nem de direita, nem de esquerda, e que tem como líder (provisório) o Kassab, que vem contaminar a campanha com metade da cidade rejeitando a gestão realizada nos últimos quatro anos. Mas o Haddad fez ainda pior: foi com o Lula à casa do Maluf tirar retrato. Quer dizer: fez o que quis o doutor Paulo, embora considere degradante ser associado à sua figura, bem como a dos seus líderes petistas, os josés mensaleiros, Dirceu e Genoíno.

O caso mais triste, porém, jaz no passado recente, mas será eternamente constrangedor: Geraldo e Serra gravaram em 2010 mensagens reconhecendo o legado do famigerado Orestes Quércia em troca de uns minutinhos a mais na televisão. Lamentável. Só não digo mais porque sei que deve doer mais neles do que em mim.

A esperança de dias melhores vem na mensagem do Ferla, que deve acabar dobrando os coordenadores das campanhas. Fala o Ferla:

“O número de pessoas com acesso à internet no Brasil já soma mais de 82 milhões e essas pessoas passam cerca de cinco horas por dia nas mídias sociais.”

“Uma pesquisa mostrou que em 2010 mais da metade dos norte-americanos (mais ou menos 127 milhões de pessoas ou 73% dos adultos navegantes) obtiveram na internet informações sobre eleições.”

“32% dos usuários de internet adultos tiveram nela seu principal meio de informação ou de envolvimento com a campanha eleitoral. E 22% usaram as redes sociais para fins políticos.” No Brasil, 50% das pessoas ainda não assistiram pela televisão sequer um instante político.

“Obama começou a corrida com 17 milhões de seguidores. A grande inteligência da campanha foi usar as redes sociais para direcionar mensagens a grupos específicos, como hispânicos, mulheres e jovens.”

E antes de encerrar dizendo que mais de 40% do eleitorado brasileiro têm menos de 34 anos e que essa turma vive plugada nos telefones espertos, tabletes e computadores, notadamente quando começa o horário eleitoral gratuito, ele lembra que toda ação na internet pode e deve ser medida antes, durante e depois de realizada, com fidelidade e instantaneamente.

A partir disso podemos presumir o porque da televisão continuar tão importante na cabeça dos reacionários: envolve mais dinheiro e menos trabalho e dedicação. Mas eles estão com os dias contados. O jeito Montoro de fazer política está renascendo. É a primavera da participação.

 
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