Facebook YouTube Contato

Independência ou morte

A convite da Jacy e do Tuca Andrade, minha Neguinha e eu fomos celebrar o Sete de Setembro na Casa da Paineira, em Alambari. Que delícia! A ideia era enforcar já a tarde da quinta-feira para fugir do trânsito, mas como a gente não podia deixamos para a manhã de sexta, com o firme propósito de acordar cedo e partir – plano que evidentemente não deu certo e quando saímos os ponteiros já iam se osculando ao norte do relógio.

Ainda antes do pedágio encontramos a Castelo Branco entupida, situação que permaneceu inalterada depois dele. Paramos até no Sem Parar. Tudo o que conseguimos foi mudar de pista por um acesso improvisado, mas que de nada adiantou, porque em feriado no Brasil estrada é igual nariz: entope dos dois lados. Duas horas depois ainda não havíamos vencido o quilometro 53, famoso pelo bacalhau, e a sede e a fome nos obrigaram a uma pequena e dupla traição: estacionar para fazer uma boquinha numa casa portuguesa em pleno aniversário de 190 anos da Independência do Brasil do domínio de Portugal, e forrar o estomago, antes todo reservado para as codornas do Tuquinha.

Não nos arrependemos porém de nenhuma das duas. Primeiro porque o afamado 53 é de fato excelente, depois porque quando as codornas finalmente pousaram à mesa na Casa da Paineira já havia apetite renovado, e as traçamos todas, sem pena e sem trocadilho, com purê de mandioquinha e pão para não deixar vestígio de caldo no prato.

Sair de São Paulo nos feriados pode ter seus contratempos, mas compensa, notadamente quando há mesa e prosa da melhor qualidade. E as flores? As orquídeas da Jacy parecem alimentadas pela cozinha do Tuca. E se aqueles ares fazem bem a elas, com a gente não pode ser diferente. Sem falar que uma vez em Alambari não pensamos mais em carro, estrada ou telefone. É nessas condições que as baterias se carregam.

Abro parênteses para confessar mais uma traição, agora em relação à freguesia desta página: não é toda a verdade dizer que não pensamos em carro, estrada ou telefone durante o feriado. Por conta da dupla de roteiristas Tuca Andrade e Paulo Saad, que pelo SMS criaram um Road Movie que misturou Jack Kerouac, John Candy e Sacha Baron Cohen. As férias frustradas envolvendo dois imigrantes árabes, o brimo rico e o brimo pobre, atravessa a Rio-Santos numa Kombi desde Bertioga, passando por Laranjeiras e terminando em Ramos, na zona norte do Rio. A dose de Kerouac fica por conta do Zé Gonzaga, que embarca em Boissucanga e vai tomando todas até o piscinão.

O Piscinão de Ramos é daquelas coisas do Brasil que espantam quem resolve fuçar além do seu quintal. Daqui da região dos Jardins, em São Paulo, imaginamos uma poça d’água do tamanho do Lago do Ibirapuera. E qual não é a nossa surpresa quando ficamos sabendo que, na verdade, a área da piscina é quase duas vezes maior, não que a do lago, mas a do parque inteiro!

Outra coisa que choca tantos de nós, bocós, que ficamos escandalizados em passar uma hora a mais no trânsito do feriado ou do final de semana, sendo que sentados em bancos estofados e individuais, com ar-condicionado, musiquinha leve, água fresca e a marcha suave dos carros automáticos, é que duas horas de congestionamento – duas de ida, duas de volta – faz parte do dia-a-dia da maioria da população, sendo que eles viajam sentados em bancos duros ou de pé, espremidos uns nos outros, em ônibus velhos, mecânicos e sujos, pilotados por motoristas que passam oito horas com um motor gigante que produz temperatura e ruídos proporcionais.

Se há cento e noventa anos, a bordo de uma mula e às margens do Ipiranga, um Pedro corajoso se levantou e proclamou a Independência do Brasil, está na hora de a gente fazer o mesmo e declarar independência do automóvel e começar uma cruzada pelo transporte público de qualidade. Ônibus, bonde, metrô nas cidades; trens nas estradas.  Por que do jeito que está não pode haver vida. Do jeito que está já é a morte.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments